Soeiro Pereira Gomes | Esteiros


A história de cinco meninos que trabalhavam em vez de ir à escola, é a obra prima de Soeiro Pereira Gomes. A miséria retratada em “Esteiros” é mais do que ficção: é a realidade de um país pobre, sem esperança, onde mais de metade da população é analfabeta.

Esteiros: a obra de Soeiro Pereira Gomes e a realidade dos homens que nunca foram meninos

1. Introdução: o cenário dos canais do Tejo e o impacto de 1941

Os “esteiros” são minúsculos canais, descritos como dedos de mãos espalmadas que se abrem nas margens do Tejo, em Alhandra. É neste cenário de lodo e águas que a ação se desenrola. Em 1941, a publicação do romance Esteiros trouxe a público uma história que soprava como o vento, dando voz aos oprimidos e retratando a luta desesperada pela sobrevivência naquelas margens. O lançamento da obra coincidiu com a grande tempestade e cheia de 1941, que devastou a região de Lisboa, conferindo ao realismo do livro uma atmosfera de tragédia vivida e imediata.

A narrativa mergulha na vida de um grupo de meninos que, forçados pela miséria, trocam a brincadeira pelo trabalho árduo nos telhais. A obra estabelece um tom realista profundo, capturando o sofrimento de crianças quase escravizadas, num olhar focado naqueles que são os oprimidos entre os oprimidos, os mais esquecidos sob o peso da estrutura social.

2. A dura realidade dos telhais e a infância roubada

Nos telhais de Alhandra, a infância é um conceito inexistente. As crianças que ali trabalham são descritas como “homens que nunca foram meninos”, pois a responsabilidade do sustento e a dureza da exploração consomem a sua juventude precocemente. A obra expõe um contraste gritante entre diferentes perceções da realidade:

  • A gente da cidade: Via nas cheias do Tejo um “formidável espetáculo” e comparava a paisagem a lagos americanos, procurando o ângulo ideal para fotografias de lazer.
  • Os trabalhadores locais: Sentiam a angústia de ver os campos devastados e a ameaça da fome que a subida das águas trazia, num confronto direto com a destruição.

Esta disparidade é acentuada pela condição económica: as moedas recebidas após meses de esforço não chegavam para tapar o fundo das algibeiras, embora os projetos e sonhos de um futuro diferente transbordassem dos cérebros infantis.

3. O ciclo das quatro estações e a estrutura narrativa

Soeiro Pereira Gomes estruturou o livro em quatro partes, correspondentes às estações do ano. Contudo, rompe com a tradição ao iniciar a narrativa pelo outono, estabelecendo uma liturgia do ciclo depressivo daquelas vidas.

CicloImpacto na vida dos meninos
Outono/InvernoMarca o fim do trabalho nos telhais e o início do “frenesim negro”. Traz o desemprego, a fome e o frio, com o vento agreste a abrir buracos nos trapos dos garotos.
VerãoRepresenta o regresso ao trabalho árduo sob o sol e a reabertura da exploração, alimentando um ciclo repetitivo do qual é impossível escapar.

4. Personagens principais: o rosto da resistência e do futuro

O bando de rapazes é composto por individualidades distintas, cada uma simbolizando uma faceta da luta social e da dignidade humana:

  • Guedelhas: É o arauto do futuro operário. Sonha com o dia em que entrará para a Fábrica Grande e vestirá o seu fato de macaco de ganga, vendo na classe operária a alavanca necessária para a vitória final.
  • Zé Vicente: O líder da quadrilha. Ao contrário dos outros, procura acumular dinheiro não apenas para a subsistência da casa, mas para comprar a sua própria liberdade e, finalmente, “fazer-se um homem”.
  • Gaitinhas: Um bom aluno que se viu forçado a abandonar a escola porque a mãe adoecera. Numa conversa com Ginete, revela a sua mágoa cristalizada por não poder ser “doutor”, como o pai desejava para que ele não fosse um escravo. Gaitinhas simboliza a esperança e a continuidade da luta através da dor.

5. Soeiro Pereira Gomes: o homem por trás da obra

Joaquim Soeiro Pereira Gomes chegou a Alhandra em 1931, empregando-se na fábrica Cimento Tejo. Longe de ser apenas um observador, envolveu-se profundamente na comunidade: criou bibliotecas, ensinou ginástica aos filhos dos operários e liderou a construção de uma piscina pública com as suas próprias mãos.

A sua escrita era indissociável da sua ação política como quadro do Partido Comunista Português. Após liderar a histórica greve de maio de 1944, Soeiro foi forçado à clandestinidade, o que ele chamava de “dar o salto”. A vida tornou-se extremamente dura; num episódio em Lisboa, chegou a cruzar-se num táxi com a sua mulher, Manuela, mas para garantir a segurança de ambos, não pôde parar. A dureza do exílio precário na própria pátria debilitou a sua saúde. Soeiro morreu prematuramente em 1949, aos 40 anos, internado sob uma identidade falsa para escapar à polícia política, a PIDE.

6. O Neo-realismo como compromisso ético e estético

O Neo-realismo português surge como um movimento de jovens intelectuais que utilizavam a arte como arma contra o regime de Salazar, precisamente no momento da sua “máxima glória” (1940-41). A obra de Soeiro Pereira Gomes destaca-se por não se reduzir a um “relatório social” — livros politicamente intencionados, mas literariamente pobres.

Como esteta, Soeiro realizou um trabalho cuidado com a linguagem, evitando o monologismo e as “leituras únicas”. Ele provou que a literatura de intervenção podia ser, simultaneamente, alta arte. A sua mensagem revolucionária reside na dignidade dos seus personagens: mesmo vivendo na lama da exploração e da miséria, eles mantêm o olhar fixo nas estrelas. O livro é um programa ético-estético que faz o elogio da solidariedade dos fracos perante a desumanidade dos poderosos.

7. Conclusão: um legado necessário para o presente

Esteiros não é apenas uma crónica de um passado de exploração infantil; a presença de figuras como Guilherme Ferreira, que viveu essa realidade nos telhais, recorda-nos que esta história ainda caminha entre nós. A obra serve como um aviso constante de que a liberdade e a democracia não são garantidas, mas conquistas frágeis que exigem renovação diária.

O destino de Gaitinhas, que no final parte à aventura para procurar o seu pai e conquistar a liberdade para os seus camaradas, encerra o livro com uma nota de esperança na conquista do futuro. Soeiro Pereira Gomes não escreveu apenas para os “homens que nunca foram meninos”, mas para as gerações que se seguiriam. Afinal, nós, que hoje usufruímos das liberdades conquistadas, somos “os filhos dos homens que nunca foram meninos”.

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