A OCDE acaba de publicar um relatório sobre uma coisa pouco habitual nas políticas educativas: pôr professores, diretores, formadores, sindicatos e decisores a imaginar, em conjunto, a profissão docente que gostariam de ter. Lemos o resumo oficial e os três estudos nacionais que lhe serviram de base, porque o texto integral não nos foi acessível. Ao longo do artigo dizemos sempre de onde vem cada coisa.
Uma conversa que o calendário escolar raramente permite
Imagine-se a última reunião de grupo disciplinar em que alguém perguntou como queremos que seja esta profissão daqui a uns anos, e a conversa foi até ao fim, sem ninguém olhar para o relógio. (A cena é nossa, e confessamos que nos custa a imaginar.) O costume é falar do que está por entregar: as grelhas, as metas, o lançamento de notas, a plataforma que mudou outra vez.
É a esse vazio que responde o relatório Co-constructing Visions for the Future of Teaching (OECD, 2026a). O ponto de partida é uma pergunta quase ingénua: e se criássemos espaço para pensar coletivamente o futuro do ensino? O projeto da OCDE sobre o novo profissionalismo e o futuro do ensino fê-lo em quatro sistemas educativos, entre 2024 e 2026, com profissionais de funções diferentes, dentro e fora do sistema educativo, a trabalhar juntos para construir as visões que preferem, isto é, aquelas que gostariam de ver acontecer.
Uma conversa que quase nunca cabe no horário
Há reuniões em que se fala de planificações, avaliações, prazos e problemas urgentes. São assuntos necessários, mas deixam pouco espaço para uma pergunta mais ampla: como queremos que seja a profissão docente daqui a alguns anos?
Foi essa conversa que a OCDE procurou criar com o projeto New Professionalism and the Future of Teaching. O relatório Co-constructing Visions for the Future of Teaching reúne investigação e trabalho desenvolvido entre 2024 e 2026 na Áustria, na Flandres, no País de Gales e em Malta. Professores, diretores, investigadores, decisores políticos e outros parceiros foram convidados a imaginar futuros possíveis para o ensino e a pensar em passos concretos para lá chegar. OECD
A proposta tem interesse por uma razão: em vez de começar por mais uma lista de problemas, começa por escutar quem conhece a profissão por dentro. O que torna possível ensinar bem? O que ajuda um professor a manter-se motivado? Que mudanças poderiam melhorar a vida nas escolas e a aprendizagem dos alunos?
Três aspirações para a profissão
Da análise de vinte cenários construídos nos estudos nacionais, a OCDE identifica três aspirações comuns. Não são receitas prontas a aplicar em qualquer escola. São linhas de orientação que cada sistema poderá adaptar à sua realidade. OECD
1. Uma carreira com espaço para crescer
Os participantes defendem percursos profissionais mais diversos e flexíveis, que reconheçam as diferentes experiências, interesses e etapas da vida dos professores. A carreira não deveria ser entendida como um caminho igual para todos, com poucas possibilidades de evolução.
Isso pode significar criar oportunidades para aprofundar conhecimentos, orientar colegas, colaborar com universidades ou desenvolver projetos com organizações da comunidade. O relatório dá como exemplo austríaco o Seitenwechsel, um programa que permite a professores passar um ano numa empresa e regressar à escola para integrar e partilhar essa experiência.
A ideia não é multiplicar funções por si só. É permitir que os professores desenvolvam interesses e competências sem perderem a ligação ao ensino e aos alunos.
2. Bem-estar como condição para ensinar
O bem-estar docente não aparece como um benefício adicional, a considerar quando tudo o resto estiver resolvido. Surge como uma condição para que os professores possam trabalhar de forma sustentável e continuar envolvidos na profissão.
A remuneração e a carga de trabalho contam, mas o relatório aponta também para fatores que nem sempre se traduzem em números: autonomia, confiança, apoio das lideranças, participação nas decisões e tempo para equilibrar a vida profissional e pessoal.
Esta perspetiva tem consequências para a organização das escolas. Se se espera que os professores colaborem, inovem e acompanhem melhor os alunos, é preciso criar condições para isso. Pedir mais iniciativa sem dar tempo, apoio ou margem de decisão dificilmente produz uma mudança duradoura.
3. Inovação que nasce da prática
A terceira aspiração é uma profissão capaz de inovar continuamente, com os professores a participar na criação e avaliação das mudanças. A inovação, nesta perspetiva, não se resume a lançar uma ferramenta ou a aplicar uma nova orientação. Implica espaço para experimentar, aprender com a experiência e ajustar o que não está a resultar.
O relatório destaca a colaboração entre professores e investigadores, o trabalho interdisciplinar e a partilha entre escolas. Sublinha também a importância de alargar as oportunidades: se os projetos e os recursos chegam sempre às escolas que já têm mais experiência em inovação, as diferenças entre escolas podem aumentar. OECD
Inovar exige curiosidade, mas também condições para testar ideias e perceber os seus efeitos. Sem tempo para refletir e partilhar resultados, muitas iniciativas ficam isoladas ou dependem apenas do esforço de algumas pessoas.
A mudança não depende só dos professores
Uma ideia atravessa o relatório: não basta pedir aos professores que mudem. A transformação depende de relações e condições que ligam as escolas às lideranças, às políticas educativas e às comunidades.
A OCDE identifica quatro grupos com um papel importante: decisores políticos, parceiros de outros setores, comunidades escolares e lideranças. As escolas podem trabalhar com universidades, serviços de saúde e apoio social, instituições culturais e organizações locais. Estas parcerias podem enriquecer as aprendizagens e ajudar a responder a necessidades complexas, desde que sejam relevantes para a escola e não se transformem em mais uma tarefa administrativa.
Às lideranças cabe criar espaço para a colaboração e envolver os professores nas decisões que afetam o seu trabalho. Aos decisores, garantir tempo, recursos e estruturas que permitam dar continuidade às iniciativas. À comunidade, reconhecer que a educação também se constrói através das relações entre a escola, as famílias e os parceiros locais.
Das visões a passos possíveis
Para organizar as conversas, o projeto utilizou ferramentas como os Ambition Loops — declarações de ambição que ajudam diferentes intervenientes a identificar ações e responsabilidades — e as Teacher Personas, perfis fictícios, mas baseados em evidência, que ajudam a considerar necessidades profissionais diferentes.
O valor destas ferramentas está menos em produzir um plano perfeito do que em tornar a conversa mais concreta. Uma escola pode começar por perguntar: que condição ajudaria os professores a colaborar melhor? Que ideia já está a ser experimentada e merece ser avaliada? Quem precisa de estar envolvido para que possa avançar?
O relatório apresenta um quadro flexível que liga três dimensões: aspirações, ideias para agir e condições que tornam a mudança possível. Não propõe um modelo para copiar. Convida cada sistema educativo a relacionar as suas ambições com as necessidades e possibilidades locais.
Imaginar também é trabalho
Falar do futuro pode parecer um luxo quando o presente está cheio de urgências. Mas, sem tempo para pensar no que se pretende construir, as decisões acabam muitas vezes por responder apenas ao problema mais próximo.
O contributo mais interessante deste trabalho da OCDE talvez esteja no próprio método: criar tempo para que professores e outros parceiros escutem perspetivas diferentes e construam uma visão comum. Essa conversa não resolve, por si só, a carga de trabalho, a falta de recursos ou as dificuldades de recrutamento. Pode, porém, ajudar a definir prioridades e a transformar aspirações vagas em decisões concretas.
Uma profissão docente com futuro precisa de professores que possam crescer, trabalhar em condições sustentáveis e participar nas mudanças que afetam o seu trabalho. Para isso, é preciso que escolas, lideranças, políticas públicas e comunidades assumam responsabilidades em conjunto.
Talvez a pergunta a levar para a próxima reunião seja esta: que pequena mudança, decidida em conjunto, tornaria a nossa escola um lugar melhor para ensinar e aprender?

Referências
McGrath, J. (s.d.). What systematic connections should we have around schools to support the work of teachers? Global lessons and the potential of ambition loops (OECD Education Working Papers, n.º 296). OECD Publishing. Consultado a 21 de outubro de 2026, em https://ideas.repec.org/p/oec/eduaab/296-en.html
OECD. (s.d.). New professionalism and the future of teaching [Página de projeto]. Consultado a 21 de outubro de 2026, em https://www.oecd.org/en/about/projects/new-professionalism-and-the-future-of-teaching.html
OECD. (2024a). Constructing scenarios for the future of teaching in Flanders. OECD Publishing. Consultado a 21 de outubro de 2026, em https://www.oecd.org/en/publications/2024/10/constructing-scenarios-for-the-future-of-teaching-in-flanders_ff59fcd4.html
OECD. (2024b). Education policy outlook 2024: Reshaping teaching into a thriving profession from ABCs to AI. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/dd5140e4-en
OECD. (2025a). Constructing scenarios for the future of teaching in Austria. OECD Publishing. Consultado a 21 de outubro de 2026, em https://www.oecd.org/en/publications/2025/05/constructing-scenarios-for-the-future-of-teaching-in-austria_44d90b5f.html
OECD. (2025b). Results from TALIS 2024: Country notes – Portugal. OECD Publishing. Consultado a 21 de outubro de 2026, em https://www.oecd.org/en/publications/results-from-talis-2024-country-notes_e127f9e2-en/portugal_f19ffc18-en.html
OECD. (2026a). Co-constructing visions for the future of teaching (Educational Research and Innovation). OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/6211411f-en
OECD. (2026b). Constructing scenarios for the future of teaching in Wales. OECD Publishing. Consultado a 21 de outubro de 2026, em https://www.oecd.org/en/publications/constructing-scenarios-for-the-future-of-teaching-in-wales_2e0ac4e6-en.html
OECD. (2026c). Education at a glance 2026: OECD indicators. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/b4968bbc-en
Para saber mais
Fora do blogue: a página do relatório na OCDE, com o resumo e o PDF; a página do projeto, que explica as duas ferramentas; o estudo sobre a Áustria, o mais fácil de ler para perceber o método; e a nota do TALIS 2024 sobre Portugal.
No blogue: Orientações para a IA nas escolas portuguesas: o que acertam, o que deixam em aberto e o que se faz lá fora; Vinte e dois referenciais sobre IA na educação: por onde começar?; Quando a inteligência artificial entra na sala de aula: responsabilidade, ética e pedagogia; Literacia em IA: cinco passos para a escola.
Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (ChatGPT, da OpenAI).













