A China quer a IA em todas as escolas até 2030. O que diz o plano

Em abril de 2026, cinco organismos do Estado chinês publicaram o plano «IA + Educação». Há nele currículos, formação de professores, plataformas nacionais e muita recolha de dados. Lemo-lo com a pergunta de quem anda numa escola: o que muda para as aulas, para quem ensina e para quem aprende?

Um plano de Estado, com data e com meta

O documento tem data de 2 de abril de 2026 e foi colocado no sítio do Ministério da Educação chinês a 10 de abril. Assinam-no cinco entidades: além do Ministério da Educação, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, o Ministério da Indústria e Tecnologias da Informação, o Ministério da Ciência e Tecnologia e a Administração Nacional de Dados. Ver a educação sentada à mesma mesa que a indústria e os dados já diz bastante sobre o enquadramento. A versão que usei é a tradução inglesa do Center for Security and Emerging Technology, da Universidade de Georgetown, publicada a 13 de julho.

A meta é 2030. Até lá, o plano quer um sistema de educação em IA que cubra todas as etapas de escolaridade e um mecanismo duradouro para desenvolver a literacia em IA de toda a população. Não é a primeira vez que Pequim ocupa este terreno: o Consenso de Pequim sobre IA e educação, que a UNESCO endossou, já cá esteve. A diferença é que agora falamos de um programa nacional, com tarefas distribuídas por departamentos e orientações para as escolas e as localidades.

Convém dizê-lo desde já: estamos a ler intenções. O texto não traz metas numéricas por etapa nem qualquer avaliação de resultados. É um plano de tarefas, não um balanço.

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O que o plano promete aos alunos

Para o ensino básico e secundário, o plano pede cursos de IA oferecidos de forma completa, em quantidade suficiente e com qualidade. Cada território deverá definir orientações curriculares próprias, com objetivos, conteúdos e carga horária para cada etapa. O ensino deve ser interdisciplinar e chegar também aos serviços extracurriculares e às atividades práticas de investigação. Houve uma ideia de que gostei: a educação em ciência e tecnologia deve andar a par da educação em humanidades, para que os alunos compreendam a tecnologia com método e a usem com critério. As escolas rurais e de zonas remotas devem apoiar-se nas plataformas nacionais para dar estas aulas.

No plano da aprendizagem individual, aparecem os «companheiros de aprendizagem inteligentes», os registos digitais dos alunos e percursos ajustados de forma dinâmica às capacidades, características e interesses de cada um. Preveem-se ainda dispositivos de apoio para alunos de educação especial, na monitorização, na avaliação e na reabilitação. A promessa de personalização é nossa conhecida, e já a analisámos numa perspetiva crítica sobre a IA na educação. A pergunta que fica é a de sempre: personalizar com base em quê, e à custa de que dados?

Do lado europeu, o caminho tem sido o de construir referenciais comuns. O quadro de literacia em IA da Comissão Europeia e da OCDE para o básico e o secundário e os marcos de competências da UNESCO para alunos e professores dizem o que os alunos devem saber e saber fazer, em vez de começarem pela plataforma. São abordagens diferentes e vale a pena tê-las lado a lado.

Os professores: apoio, formação e avaliação

É aqui que o plano é mais concreto. Quer normas de literacia em IA para docentes, que esclareçam o que cada professor deve dominar. Quer formação organizada por funções e por níveis, com cobertura total por vários meios. Quer ferramentas de avaliação de competências, e incentiva localidades e escolas a fazer avaliações em larga escala para depois melhorarem a formação de forma dirigida. Quer reformar a formação inicial, com conteúdos de IA nos currículos, e levar a IA aos exames de qualificação e certificação de professores.

A contrapartida prometida é aliviar a carga. Os sistemas inteligentes entrariam antes, durante e depois da aula: análise da situação de aprendizagem, geração automática de materiais multimodais, simulação do processo de ensino, correção de trabalhos, resposta a dúvidas e tutoria. Preparar aulas em «co-criação» entre professor e máquina é a expressão do plano. Quem ensina em Portugal reconhece a lista, porque é quase o que muitos colegas já experimentam sozinhos. Escrevemos, aliás, sobre como criar um tutor de IA para uma disciplina e porque é que isso não substitui o professor.

O que nos faz parar é a combinação. A mesma tecnologia que ajuda a preparar uma aula também serve, segundo o texto, para analisar o comportamento de ensino na sala de aula, e convive com avaliações de competência em larga escala. Um professor com mais tempo e formação à medida ganha. Um professor medido por indicadores automáticos, sem voz sobre o que se mede, já ganha menos. Tudo depende do desenho. Sobre o que uma boa formação deve conter, o relatório do seminário da European Schoolnet sobre desenvolvimento profissional na era da IA aponta para ética, pedagogia digital e compreensão da IA, e não apenas para o domínio de ferramentas.

Dados, vigilância e conteúdos: a parte que pede leitura atenta

A tradução do CSET apresenta o plano como um conjunto que inclui melhorar a eficácia da vigilância de professores e alunos na sala de aula. Lido com cuidado, o texto é um pouco menos direto. Fala em usar tecnologias inteligentes para analisar o comportamento de ensino, e em analisar grandes volumes de dados de monitorização multimodal para dar alertas em tempo real sobre riscos de segurança nos campus. Chame-se-lhe vigilância ou segurança escolar, a diferença está nos limites, e o plano não os descreve. Soma-se a isto a construção de perfis de utilizador dos alunos através da análise de grandes volumes de dados, a vigilância inteligente de exames e a supervisão da aplicação das medidas com base em dados.

O plano também prevê um sistema de proteção de segurança por categorias e graus, uma revisão de segurança dos modelos de linguagem usados na educação e a prevenção de fraude, de má conduta académica e de fuga de informação privada. Pede ainda que os conteúdos gerados sejam positivos, saudáveis e orientados para o bem social. Num texto que declara a direção do Partido como princípio de todo o processo, esta formulação pesa de outra maneira do que pesaria numa escola portuguesa.

Na Europa, o enquadramento é outro. O Regulamento da Inteligência Artificial da União Europeia proíbe, salvo exceções por razões médicas ou de segurança, os sistemas que deduzem emoções de pessoas em instituições de ensino. Quem pensar numa ferramenta que «deteta a atenção» dos alunos, ou que vigia provas à distância, deve ler primeiro o regulamento e falar com o encarregado de proteção de dados da escola. Convém também ter em casa regras escritas: o protocolo de utilização da IA para instituições de ensino que aqui partilhámos é um bom ponto de partida, e um inquérito americano sobre a demora das escolas em definir políticas de IA mostra bem a confusão, e a desigualdade entre colegas da mesma escola, que a ausência delas provoca.

Plataformas nacionais e equidade

A escola que sai deste plano depende muito de infraestrutura central. Haveria um serviço nacional de computação para a educação, modelos de IA para cada etapa desenvolvidos pelo Estado, para evitar desperdício e duplicação, uma rede nacional de dados educativos e comunidades de aprendizagem onde professores e alunos participam no desenvolvimento de aplicações de código aberto. Os agentes e aplicações educativas seriam avaliados e os melhores subiriam às plataformas nacionais. O plano fala em chegar ao «último quilómetro» das aplicações de IA, isto é, à sala de aula, através de escolas, salas e centros de aprendizagem do futuro.

A Estónia seguiu um caminho mais pequeno e mais experimental. No programa AI Leap, descrito pela ministra Kristina Kallas no Oeiras Education FORUM, começou-se por dar licenças de IA a todos os professores do secundário superior, com formação intensiva, e só depois se alargou o acesso aos alunos desse nível. A ideia está contada na síntese da intervenção da ministra. Quanto à equidade, que o plano chinês invoca ao falar de escolas rurais e remotas, a análise da OCDE sobre equidade e inclusão lembra que a IA tanto pode reduzir como alargar as diferenças.

O que levar para a nossa escola

Do que lemos, ficam-nos quatro ideias para discutir em conselho pedagógico. A primeira é tratar a literacia em IA como currículo, com objetivos, tempo e articulação entre disciplinas, e não como uma sessão avulsa ou um clube para os mais curiosos. A segunda é formar professores por funções e por níveis de partida, e usar a avaliação de competências para os ajudar, não para os classificar. A terceira é decidir regras e proteção de dados antes de escolher ferramentas, e não depois de elas já estarem nas turmas.

A quarta tem a ver com avaliação. Se há ferramentas que escrevem, corrigem e vigiam, a escola precisa de evidência do processo de aprendizagem, e não só do produto final. Já escrevemos sobre como avaliar os alunos em tempos de ChatGPT e sobre listas de verificação de processos para a escrita na era da IA, e são soluções que cabem em qualquer sala de aula, sem plataforma nacional.

Um plano de Estado não diz o que se passa às dez da manhã numa aula de Português ou de Matemática. Isso decide-se em cada escola, por quem lá trabalha.

Nota editorial e de transparência. Este texto foi preparado com apoio de inteligência artificial; a revisão editorial final coube aos autores.

Referências

Ministério da Educação da República Popular da China, Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, Ministério da Indústria e Tecnologias da Informação, Ministério da Ciência e Tecnologia, & Administração Nacional de Dados. (2026). “AI + Education” action plan [Plano de ação «IA + Educação»] (Center for Security and Emerging Technology, Trad.). Center for Security and Emerging Technology, Georgetown University. https://cset.georgetown.edu/publication/china-ai-plus-education-action-plan/ (Trabalho original publicado em 2026; texto original em chinês disponível em http://www.moe.gov.cn/srcsite/A16/s3342/202604/t20260410_1433240.html; arquivo em https://perma.cc/T665-KR5G). Consultado em 30 de outubro de 2026.

Parlamento Europeu & Conselho da União Europeia. (2024). Regulamento (UE) 2024/1689 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 13 de junho de 2024, que cria regras harmonizadas em matéria de inteligência artificial (Regulamento da Inteligência Artificial). Jornal Oficial da União Europeia, L, 2024/1689. https://eur-lex.europa.eu/eli/reg/2024/1689/oj/por. Consultado em 30 de outubro de 2026.

Para saber mais

Conetores textuais: ensinar a ligar ideias

Excerto: Os conetores não enfeitam o texto: mostram ao leitor como as ideias se ligam. Um roteiro para os professores ensinarem os alunos, do ensino básico ao secundário, a usá-los com sentido, sem os transformar em fórmulas decoradas.

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O que um conetor faz, afinal

Os conetores, ou articuladores do discurso, são palavras e expressões (conjunções, advérbios, locuções) que ligam frases, períodos e parágrafos e dizem como se relacionam: se a segunda ideia acrescenta, contraria, explica, causa ou conclui. Quem lê usa essa informação para ir antecipando o que vem a seguir. Quem escreve, ao escolhê-la, assume um compromisso: dizer «porque» obriga a apresentar uma causa, dizer «no entanto» obriga a trazer algo que contrarie o que se acabou de afirmar.

Há investigação em português sobre o modo como estas peças pesam na leitura. Maria da Felicidade Morais estudou, com um conjunto restrito de conetores (já agora, a propósito e outros) e com leitores adultos, o que muda quando o conetor está presente ou ausente, e concluiu que a sua presença ou ausência gera efeitos cognitivos diferentes no processamento do texto (Morais, 2010). Convém não exagerar o alcance: é um estudo pequeno, com poucos conetores e sem alunos do básico. Mas aponta no sentido que qualquer professor reconhece na prática, o de que o leitor trabalha menos, e melhor, quando o texto lhe dá pistas sobre a organização das ideias.

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O que a escola já pede

Nas Aprendizagens Essenciais de Português do 6.º ano (março de 2026), a escrita aparece ligada a processos de planificação, textualização e revisão, e a operacionalização refere o «emprego adequado de conectores com valor de tempo, de causa» (p. 22), entre outros. No 9.º ano, o perfil do aluno que escreve com mais proficiência inclui o domínio de mecanismos de coesão e coerência e de «processos de conexão interfrásica» (p. 12), e os géneros pedidos incluem o artigo de opinião e a crítica. O documento do 9.º ano, pelo menos na versão que consultámos, não usa a palavra «conetores», mas o que descreve é o mesmo trabalho. Falta-nos confirmar, ano a ano, como o ensino secundário o formula, e por isso não generalizamos.

Tudo isto se articula com o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, a que as próprias Aprendizagens Essenciais se referem no título.

Uma infografia para começar, mas lida com espírito crítico

O mapa serve bem para os alunos verem, de uma só vez, que os conetores se agrupam por função. Mas quem o usar na sala de aula deve saber que nenhuma lista é neutra. Aqui, «por outro lado» surge duas vezes (a acrescentar ideias e a introduzir um tema), e noutros contextos serve para contrastar. «Assim» aparece entre os que acrescentam, quando muitas vezes introduz uma consequência. «Com efeito» confirma ou reforça o que se disse, mais do que explica. «Na minha opinião» e «pessoalmente» marcam o ponto de vista de quem escreve, e «talvez», «provavelmente» ou «quiçá» exprimem dúvida ou probabilidade, o que é uma questão de modalidade e não bem de ligação entre frases. E «por fim» e «para terminar», num ramo, repetem-se de certa maneira em «por último» e «para finalizar», no outro.

Isto não desvaloriza o mapa. Dá-lhe até outra utilidade: a de pôr os alunos a discutir porque é que um conetor está num sítio e não noutro. Um aluno que consegue defender que «assim» também pode concluir percebeu mais sobre conetores do que outro que decorou os doze ramos.

Como ensinar, na prática

Primeiro, observar em textos verdadeiros. Antes de pedir que se escreva, convém pedir que se procure. Um editorial, uma crítica de cinema, o texto de um manual: os alunos sublinham os conetores e dizem que relação marcam. Depois fazem o exercício inverso e riscam-nos, para verem o que o texto perde. Aqui está o essencial do trabalho de leitura, e não custa mais do que uma folha fotocopiada.

Depois, trabalhar com lacunas e com frases desmontadas. Textos com espaços para preencher, em que há mais de uma resposta possível e é preciso justificar a escolha, funcionam melhor do que as listas de correspondência. Outra tarefa simples consiste em dar frases soltas e pedir que as liguem de duas maneiras diferentes, vendo como o sentido muda quando se troca «porque» por «embora».

Pensar nos conetores já na planificação. Os relatórios de estágio de duas mestrandas da Universidade de Coimbra, ambos com alunos do 3.º ciclo, tratam de forma explícita as fases da escrita e o uso de conetores: um sobre o texto de opinião no 8.º ano (Ferreira, 2022) e outro sobre a narração no 7.º (Martinho, 2020). São estudos de caso de pequena escala, que não permitem tirar conclusões gerais. O que propomos a seguir é nosso, não deles: no texto de opinião, o aluno começa por decidir a sua tese e os argumentos, e só depois escolhe os conetores que vão arrumar esses argumentos (primeiro, a seguir, por fim), os que introduzem a contra-argumentação e os que fecham. Escolher antes de escrever evita o vício de espalhar conetores no fim, como quem tempera um prato já cozinhado.

Rever em par. A revisão por pares é o momento em que o conetor é posto à prova. A pergunta que o colega faz é simples: «Esta frase diz mesmo o que o conetor promete?». As Aprendizagens Essenciais do 6.º ano falam, aliás, de «revisão e aperfeiçoamento textual, em par ou grupo» (p. 22). Uma grelha de verificação curta, escrita com a turma, ajuda: há um conetor em cada passagem em que a relação entre as ideias não é óbvia? Há conetores repetidos? Há algum que não faça sentido ali?

Avaliar com critérios que a turma conheça. Se o conetor entra na avaliação, entra pela adequação e não pela quantidade. Um critério como «usa conetores variados e corretos para marcar a relação entre os argumentos» diz aos alunos o que se espera, e quem o leu antes de escrever tem um objetivo que não é «pôr o máximo de conetores possível».

Os erros mais comuns, e o que fazer com eles

O primeiro é o excesso, com um conetor em todas as frases, como se a densidade fosse sinónimo de qualidade. O segundo é o contrário: o aluno escreve frases corretas, uma a seguir à outra, sem dizer como se ligam. O terceiro é a troca de valores, como o «portanto» a abrir uma frase que não decorre da anterior. Há ainda um quarto, mais subtil, que é a ideia de que juntar conetores arruma um raciocínio desorganizado. Não arruma: um conetor bem posto melhora a coesão, mas a coerência vem antes, das ideias e da ordem em que as pomos. É por aí que convém começar a corrigir, e só depois olhar para as ligações.

E agora que há IA a escrever?

Os alunos vão receber textos gerados por IA com uma coesão muitas vezes impecável à superfície. É também por isso que vale a pena ensinar a ler os conetores com atenção: para detetar o parágrafo que soa bem e não argumenta. Já falámos no blogue sobre o que a escola pode aprender com escrever com a máquina ou sem ela, e numa aula em que os alunos avaliam, como juízes, o que a IA escreveu. A mesma lógica aplica-se aqui: propor um texto gerado e pedir aos alunos que apontem onde um conetor promete uma relação que o conteúdo não cumpre. Para uma atividade em que o texto é transformado noutra tarefa de leitura atenta, veja-se o Entrelinhas; não o testámos especificamente com conetores, mas a ideia de partir de um texto e dele extrair perguntas pode adaptar-se. E, quanto às regras de uso nas escolas, as orientações para a IA nas escolas portuguesas merecem uma leitura.

Em resumo

Ensinar conetores não é ensinar listas. É ensinar que escrever é fazer promessas ao leitor e cumpri-las. A lista, como a do mapa acima, é um bom ponto de partida e um péssimo ponto de chegada. O que fica nos alunos é o hábito de perguntar, a cada frase, como é que ela se liga à anterior, e de o saberem dizer.

Para saber mais

Nota de transparência: este artigo foi redigido com apoio de inteligência artificial e revisto pelos autores. A base empírica sobre conetores com alunos do básico e do secundário é escassa: o estudo de Morais (2010) envolve adultos e um grupo restrito de conetores, e os dois relatórios de estágio são estudos de caso de pequena escala, cujos resultados não lemos em detalhe e por isso não citamos. As afirmações sobre os documentos curriculares referem apenas as versões do 6.º e do 9.º anos consultadas a 29 de outubro de 2026. A discussão sobre as ambiguidades do mapa e as sugestões didáticas são leitura profissional dos autores, não resultados de investigação.

Referências

Onde está a consciência? O que a escola pode aprender com um artigo da revista Telos

A revista Telos, da Fundação Telefónica, publicou a 7 de outubro um texto curto do neurocientista Saúl Sal Sarria com uma pergunta muito antiga e uma suspeita incómoda: e se a consciência não estiver onde sempre a procurámos? O artigo fala de cérebros e de história da ciência, e não de escolas. Lemo-lo com uma turma à frente, porque dele saem perguntas que professores e alunos já fazem, sobre quem sente, sobre quem parece não sentir e sobre as máquinas que falam como se sentissem.

Imagine-se uma aula de Ciências do 8.º ano, numa tarde de outubro. Alguém levanta o braço e pergunta se os peixes sentem dor. A resposta sai quase sempre depressa, para um lado ou para o outro, e quase nunca com razões à mistura. (A cena é nossa, mas não custa imaginá-la.) O artigo de que vamos falar não responde a essa pergunta. Ajuda, ainda assim, a perceber porque é que ela é mais difícil do que parece: tem uma história comprida, a resposta já mudou de sítio várias vezes e continua em discussão.

Saúl Sal Sarria é doutor em Neurociências e investigador na Universidade de Oviedo, e o seu texto saiu na Telos sem uma única referência a escolas (Sal Sarria, 2026). Lemo-lo assim mesmo, a pensar em professores e alunos, e dizemos sempre onde acaba o artigo e começamos nós.

Procurar a chave onde há luz

O texto abre com Nasrudin, personagem do folclore sufi, que procura debaixo de um candeeiro de rua uma chave que acabou de perder. Perguntam-lhe se foi ali que a perdeu. Não foi, responde, mas é ali que há mais luz. Sal Sarria serve-se da anedota para dizer que com a consciência se fez qualquer coisa parecida: foi-se procurar onde era mais fácil olhar.

Segundo o artigo, Empédocles e Aristóteles punham a origem da alma no coração, embora Alcmeão de Crotona, um par de séculos antes, tivesse sido dos primeiros a apontar o cérebro. Demorou séculos até alguém o levar a sério. A doutrina medieval repartiu a mente pelos ventrículos cerebrais, Descartes escolheu a glândula pineal e, entre os séculos XVIII e XIX, Franz Joseph Gall e Jean Pierre Flourens afastaram os ventrículos e passaram a apostar no córtex. Quando Paul Broca e Carl Wernicke localizaram a linguagem nessa camada exterior, a aposta pareceu óbvia. O córtex é a zona mais desenvolvida nos humanos, de aparecimento tardio na evolução e no embrião, e se é ali que está aquilo que nos distingue dos outros seres inteligentes, onde mais poderia estar a consciência?

Para quem quiser levar a sequência para a sala de aula, fica tal como o artigo a conta, com uma última linha que é a proposta recente e ainda em disputa.

QuemOnde procurouNota
Empédocles e AristótelesNo coraçãoOs «cardiocentristas» do artigo
Alcmeão de CrotonaNo cérebroUm par de séculos antes de Aristóteles; demorou a ser levado a sério
Doutrina medievalNos ventrículos cerebraisA mente repartida pelas cavidades do cérebro
DescartesNa glândula pinealPequena glândula endócrina dentro do cérebro
Gall e Flourens (séculos XVIII e XIX)No córtexAfastam as teorias dos ventrículos
Broca e WernickeNo córtex, com a linguagemReforçam a aposta na camada exterior
Panksepp, Solms, Merker e outrosNo tronco encefálicoHipótese recente, longe de ser consensual

A suspeita de que a chave está noutro sítio

Quem foi pôr a luz noutro lado? Jaak Panksepp (1943-2017) insistia, para desconforto da neurociência cognitiva, que as emoções não nascem no córtex mas em circuitos do tronco encefálico muito mais antigos, em particular numa faixa estreita de substância cinzenta à volta do aqueduto cerebral, a substância cinzenta periaquedutal. Mark Solms foi mais longe e ligou a ideia ao sistema reticular ativador ascendente, o mesmo que mantém a vigília e que foi descrito em 1949 em experiências com gatos (Moruzzi & Magoun, 1949). Para Solms, o afeto é a forma mais primitiva de consciência e também a mais segura, porque não depende de pensar, de recordar nem de falar. Depende só de sentir.

A prova mais incómoda, diz o artigo, vem das crianças com hidranencefalia, que nascem praticamente sem córtex, com o líquido cefalorraquidiano a ocupar grande parte do crânio. Durante décadas foram descritas como estando em estado vegetativo permanente. O neurocientista Björn Merker documentou, num trabalho de 2007, que estas crianças estão acordadas: sorriem quando brincam com quem delas cuida, acalmam-se com a voz, choram quando algo dói (Merker, 2007). Não raciocinam, não recordam, não falam. Se o comportamento diz a verdade e elas sentem, o córtex pode ser menos a fonte da experiência do que um cenário muito sofisticado montado por cima dela.

O passo seguinte tira-nos do lugar à força. As estruturas do tronco encefálico que sustentam este sentir básico não são só nossas: estão entre as partes mais antigas e mais bem conservadas do sistema nervoso e partilhamo-las com aves, répteis, anfíbios e peixes. Em 2012, a Declaração de Cambridge sobre a Consciência, proclamada a 7 de julho na Francis Crick Memorial Conference, escreveu que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram consciência, que a falta de neocórtex não parece impedir um organismo de ter estados afetivos e que isto vale para todos os mamíferos e aves e para muitas outras criaturas, os polvos incluídos (Low et al., 2012).

O artigo termina com uma pergunta que ficou connosco: se o que sustenta a consciência se forma muito antes do córtex, começámos a sentir, de algum modo primitivo, bem mais cedo do que se supunha? A base é uma revisão científica publicada a 28 de abril de 2026 na Brain Structure and Function, de que Sal Sarria é coautor, com Mark Solms e Oliver Turnbull (Sal-Sarria et al., 2026). Os autores defendem que as estruturas em causa amadurecem cedo e que, se tivessem de apontar um período para o aparecimento de uma forma primitiva de sentir, o mais provável seria o terceiro trimestre da gravidez. Convém ler o que eles próprios acrescentam: para as semanas 23 a 28, dizem, há substrato neuronal e correlatos comportamentais, mas não prova suficiente para sustentar uma afirmação forte de experiência senciente robusta. O que apresentam são hipóteses fundadas em evidência, e não demonstrações.

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Onde convém travar

Primeiro, o contexto. Este é um texto de divulgação, curto, e o autor não é um observador neutro: a nota biográfica da própria Telos diz que é coautor do modelo de que fala. Não é defeito, é informação, e o leitor tem direito a ela.

Depois, a tese está longe de reunir consenso, e o artigo da Telos não o diz. Na Scientific American aparece o outro lado. Quem defende o córtex aceita que o tronco encefálico é indispensável, mas entende-o como uma fonte de energia que mantém ligada a consciência do córtex, e não como o lugar onde ela se faz. O filósofo Matthias Michel, do MIT, atribui consciência a mamíferos e aves, por terem córtex ou equivalente, mas não a peixes nem a insetos, e lembra a visão cega: pessoas com o córtex visual lesionado respondem a estímulos que dizem não ver. Talvez as crianças com hidranencefalia e alguns animais reajam sem sentir. O neurocientista Anil Seth, de Sussex, acha que não há evidência bastante para nenhuma das versões. E mesmo os defensores do tronco encefálico reconhecem, como diz Merker, que tudo o que torna rico o nosso mundo é uma dádiva do córtex. A discussão é sobre a base mínima, não sobre se o córtex conta.

Há ainda a palavra. «Consciência» tem aqui um sentido estreito, o de capacidade de sentir, e não o de pensar sobre si, falar de si ou saber que se sabe (a definição vem do artigo científico). Em português a palavra estica-se mais do que devia, porque também serve para a ética («ter a consciência tranquila»), e já nos queixámos disso noutro artigo do blogue. Convém dizer aos alunos de que consciência se está a falar, antes de começar.

Uma última cautela. Declarações como a de Cambridge e a de Nova Iorque são posições de grupos de cientistas, não são experiências. E o artigo científico toca em temas muito delicados, como a dor fetal, os cuidados a recém-nascidos e até o debate sobre o aborto. Numa turma, é terreno que pede enquadramento prévio e muito cuidado, e não é aqui que vamos tomar posição.

O que a escola pode tirar daqui

O que se segue são leituras nossas, não do artigo nem dos cientistas, e nenhuma foi posta à prova numa turma.

A primeira vem do candeeiro. Em qualquer disciplina, a história de Nasrudin serve de espelho. Que perguntas procuramos onde há luz? Medimos bem o que é fácil de medir, a memória de factos e a resolução de exercícios de modelo, e medimos mal a curiosidade, a persistência ou a capacidade de mudar de ideias. Não é motivo para deitar fora os testes. É motivo para, de vez em quando, perguntarmos o que deixámos de fora do foco.

A segunda é sobre sentir antes de saber gerir. Os autores do artigo científico observam que as emoções fortes chegam cedo, porque dependem de estruturas que amadurecem cedo, e que a capacidade de as gerir amadurece devagar, ao longo de anos e talvez até à terceira década de vida, por assentar sobretudo no córtex frontal e na ínsula. Parte da educação das crianças, dizem, é emprestar-lhes essa gestão enquanto não a têm. Se isto estiver certo (é uma revisão, não um estudo com alunos), ajuda a ler certos dias de turma. O aluno do 7.º ano que explode por uma ninharia não está necessariamente a testar-nos, pode estar a sentir muito com pouca maquinaria para o conter. Tempo, rotinas previsíveis e um adulto que acalma fazem mais do que um sermão, mas isto já é opinião nossa.

A terceira é para quem trabalha com alunos que não falam ou não conseguem mostrar o que sabem. O artigo científico compara a situação com a de adultos com incapacidade intelectual profunda e de pessoas em fase avançada de demência, em que a inteligência está muito limitada mas a experiência emocional pode estar bastante preservada. E cita um artigo de 1999 de David Shewmon e colegas sobre crianças sem córtex cujo título fala de «estado vegetativo do desenvolvimento» como «profecia autorrealizável» (só conhecemos o título, não lemos o trabalho). A ideia dá que pensar a qualquer escola: o rótulo que pomos a uma criança pode decidir quanto lhe falamos. A nossa leitura, que não é aconselhamento clínico, vai para a atitude: presumir que há alguém a sentir, falar-lhe, tratar uma reação emocional como sinal de comunicação, em vez de esperar por provas de compreensão para a tratar como interlocutora.

A quarta é para Ciências e Cidadania. A Declaração de Cambridge tem um sucessor, a Declaração de Nova Iorque, apresentada a 19 de abril de 2024 numa conferência na Universidade de Nova Iorque e subscrita, segundo a Scientific American, por quase 600 cientistas. Diz, em resumo, que há forte apoio científico para a consciência em mamíferos e aves, que a possibilidade é realista em todos os vertebrados (répteis, anfíbios e peixes incluídos) e em muitos invertebrados, e que é irresponsável ignorar essa possibilidade quando se decide sobre esses animais (Animal Ethics, 2024). Reparem-se nos graus: apoio forte numa frase, possibilidade realista noutra, irresponsabilidade noutra. Regressando à aula do início, a resposta honesta sobre os peixes é que não há consenso, mas que um grupo grande de cientistas pede que a pergunta seja levada a sério.

A quinta é a pergunta que os alunos mais gostam de fazer: então e os chatbots? Os autores do artigo científico partem do princípio de que um telemóvel é inteligente e não é consciente, e de que o que conta, em termos éticos e legais, é a capacidade de sentir e não a inteligência. Para eles, a consciência é uma função biológica do corpo, assente no sentir, e uma máquina que escreve bem não fica por isso mais perto de sentir. É uma posição, defendida por quem constrói este modelo. Entre quem estuda consciência e inteligência artificial há quem pense de outra maneira e há quem diga que ninguém sabe, como contámos a propósito do livro de Eric Schwitzgebel. Sem decidir a questão, a escola pode ao menos separar as coisas: fluência não é vida interior, e inteligência não é o mesmo que sentir. Sobre o que falta a um texto escrito por uma máquina, já escrevemos a partir de um ensaio de Renato Ortiz, e a reflexão sobre pensamento crítico e ética na era da IA generativa continua a servir para estas conversas.

Quatro conversas para ter com a turma

Também são nossas, também não foram testadas, e o professor saberá melhor do que nós o que cabe em cada ano e em cada turma.

«Onde é que andamos a procurar a chave?» Cada aluno escolhe uma pergunta que a escola faz muitas vezes (o que é um bom aluno? o que é um bom texto?) e escreve onde costumamos procurar a resposta, porquê ali e onde nunca procurámos. Funciona em Português, Filosofia ou Cidadania e Desenvolvimento, a partir do 3.º ciclo, e deixa o professor ver, de caminho, o que os alunos pensam que a escola valoriza.

A linha do tempo da consciência. Com a tabela acima, grupos de alunos ficam com uma etapa cada e respondem a três perguntas: que prova tinham, o que fez mudar de ideias a seguir, o que lhes faltava para testar melhor. Na última, a Scientific American dá uma pista: uma técnica recente, os ultrassons focados transcranianos, pode permitir sondar estruturas profundas do cérebro, e há investigadores de campos opostos que lhe chamam uma oportunidade de avanço. A ciência também depende dos instrumentos que tem à mão. Serve a Ciências, a História e a Filosofia.

Quanta evidência é preciso? Os alunos leem as três frases da Declaração de Nova Iorque (apoio forte, possibilidade realista, irresponsável ignorar), reescrevem-nas por palavras suas e discutem que diferença faz cada grau na forma como tratamos os animais. É um exercício de argumentação em Português e de leitura de evidência em Ciências. Deve ficar claro que são declarações de consenso, e não provas.

Quem sente, quem parece sentir. Com alunos mais velhos e conduzida pelo professor, a conversa põe lado a lado o choro de um bebé, o olhar de um cão e a frase «estou triste» escrita por um chatbot, e pergunta o que usamos para decidir que há alguém a sentir: o comportamento, o corpo, a história. A ideia não é chegar a uma conclusão, é listar critérios e ver onde falham. Se houver ferramenta de IA em cena, que seja uma aprovada pela escola e sem dados pessoais, na linha das orientações em consulta pública que comentámos há dias. Para enquadrar o tema em literacia, os cinco passos da literacia em IA ajudam.

Por aproximação, estas conversas cabem em Ciências Naturais, Biologia, Filosofia, Português e Cidadania e Desenvolvimento, e dialogam com as áreas de «Pensamento crítico e pensamento criativo» e «Raciocínio e resolução de problemas» do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (Ministério da Educação, 2017). A correspondência com as Aprendizagens Essenciais de cada disciplina e ano não a confirmámos. E, tratando-se de um artigo de revista e de uma revisão científica, vale a pena treinar com os alunos a leitura crítica de notícias de ciência, tema de que já tratámos a propósito da desinformação na sala de aula.

Uma pergunta para levar

Se amanhã um aluno nos perguntar como é que sabemos que alguém sente, o que lhe diremos? Talvez possamos começar por contar a história de Nasrudin e admitir que, durante séculos, a ciência procurou onde era mais fácil, e que ainda não sabemos se mudou de candeeiro de vez. Dizer «não sabemos, mas olha como se vai procurando» é, afinal, uma boa lição.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do texto de Sal Sarria (2026) na Telos, lido a 27 de outubro de 2026, e da revisão científica de Sal-Sarria et al. (2026), lida em texto integral (acesso aberto) na mesma data. Do artigo de Merker (2007) consultámos o resumo e o que outros textos dizem dele, e não o texto completo. A Declaração de Cambridge e a Declaração de Nova Iorque foram confirmadas em cópias e em textos que as reproduzem, e não nos documentos originais. As propostas de aula não foram experimentadas com alunos. O texto foi sujeito à revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.

Referências

Animal Ethics. (2024, 29 de abril). The New York Declaration on Animal Consciousness stresses the ethical implications of animal consciousness. Consultado a 27 de outubro de 2026, em https://www.animal-ethics.org/the-new-york-declaration-on-animal-consciousness-stresses-the-ethical-implications/

Low, P., Panksepp, J., Reiss, D., Edelman, D., Van Swinderen, B., & Koch, C. (2012, 7 de julho). The Cambridge declaration on consciousness [Declaração]. Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and Non-Human Animals, Churchill College, Universidade de Cambridge. Consultado a 27 de outubro de 2026, em http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf

Merker, B. (2007). Consciousness without a cerebral cortex: A challenge for neuroscience and medicine. Behavioral and Brain Sciences, 30(1), 63–81. https://doi.org/10.1017/S0140525X07000891

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Moruzzi, G., & Magoun, H. W. (1949). Brain stem reticular formation and activation of the EEG. Electroencephalography and Clinical Neurophysiology, 1(1–4), 455–473. https://doi.org/10.1016/0013-4694(49)90219-9

Sal Sarria, S. (2026, 7 de outubro). ¿Dónde se encuentra la consciencia? Telos. Fundación Telefónica. Consultado a 27 de outubro de 2026, em https://telos.fundaciontelefonica.com/donde-se-encuentra-la-consciencia/

Sal-Sarria, S., Solms, M., & Turnbull, O. H. (2026). When does consciousness arise? A subcortical model of its origins. Brain Structure and Function, 231(4), Artigo 56. https://doi.org/10.1007/s00429-026-03113-9

Scientific American. (s.d.). Are the roots of consciousness hidden in the ancient deep brain? Consultado a 27 de outubro de 2026, em https://www.scientificamerican.com/article/are-the-roots-of-consciousness-in-the-ancient-deep-brain/

Para saber mais

Fora do blogue: o artigo original da Telos, em espanhol e de leitura rápida; a revisão científica em acesso aberto, para quem quiser ver as provas e as cautelas dos autores; a reportagem da Scientific American, que dá voz a quem discorda; o artigo de Merker sobre a consciência sem córtex; e a Declaração de Cambridge, com uma página só.

No blogue: Uma IA pode ter consciência? O que pode aprender a escola com quem responde «não sabemos»; Escrever com a máquina ou escrever sem ela?; Pensamento crítico e ética na era da inteligência artificial generativa; Literacia em IA: cinco passos para a escola; Orientações para a IA nas escolas portuguesas; Literacia digital em ação: como combater a desinformação na sala de aula.

Chomsky estava errado?» O que mostra, afinal, o estudo da Nature Human Behaviour

Circula uma publicação que garante que um estudo recente «provou» que Chomsky estava errado e que falamos como o ChatGPT. Em vez de discutir a publicação, fomos ler o artigo de ponta a ponta. É um trabalho cuidadoso, com seis estudos e resultados pequenos mas consistentes, e que diz coisas interessantes para quem ensina línguas. Diz também bastante menos do que lhe atribuem.

A publicação resume-se depressa: o cérebro não guarda a linguagem em árvores gramaticais, falamos a prever o bloco seguinte e é assim que funciona o ChatGPT. Do artigo, o que há a registar é outra coisa, e merece ser contada com algum vagar.

A pergunta de partida

O artigo de Yngwie A. Nielsen e Morten H. Christiansen saiu na Nature Human Behaviour a 21 de janeiro de 2026 (volume 10, páginas 579 a 588), depois de aceite em dezembro de 2025. Christiansen é professor de Psicologia em Cornell e Nielsen trabalha na Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Os dois partem de uma pergunta antiga: como é que qualquer falante consegue produzir e compreender frases que nunca ouviu?

Os autores descrevem duas respostas clássicas. Na primeira, a mente tem um léxico e uma gramática generativa, e esta combina palavras em constituintes, que são grupos de palavras encaixados uns nos outros. Em «o rapaz deu o livro à rapariga», «o livro» é um constituinte, «deu o livro à rapariga» é outro, e assim sucessivamente até à frase inteira. Na segunda, mais próxima das abordagens construcionistas, a mente guarda construções, isto é, formas com um sentido convencionado, que vão de palavras soltas a expressões fixas e a padrões de frase.

Há, porém, um problema que a investigação sobre blocos de palavras (ou lexical bundles) já tinha levantado. Sequências como in the middle of the lêem-se mais depressa do que equivalentes menos frequentes, mas não são constituintes, porque deixam um grupo preposicional a meio, e também não é claro que tenham um sentido convencionado. Seriam, então, estruturas que não são nem uma coisa nem outra. É essa lacuna que o artigo quer testar.

Como se testa uma coisa destas

O instrumento é o priming estrutural. Quando processamos uma estrutura, ela deixa um rasto, e outra frase com a mesma estrutura é processada mais depressa a seguir. Durante décadas este efeito foi usado como argumento a favor da realidade psicológica dos constituintes. Nielsen e Christiansen usam-no ao contrário: aplicam-no a sequências de três palavras que não são constituintes, descritas apenas pela sua sequência de classes de palavras (por exemplo, substantivo, preposição, determinante, como em example of an).

A tarefa dada aos participantes é simples. Aparecem três palavras no ecrã e a pessoa decide, o mais depressa que puder, se aquilo pode fazer parte de uma frase em inglês (work for a) ou não (bring am top). Em algumas dessas decisões, a sequência anterior tem a mesma estrutura de classes de palavras que a seguinte, como knew that she antes de wondered if you. Noutras, a anterior tem uma estrutura sem relação, como example of an. Se a mente guarda um padrão desse tipo, a decisão deve ser mais rápida no primeiro caso.

Seis estudos, e o que cada um acrescenta

No primeiro estudo, com 40 estudantes de Cornell, a decisão foi cerca de 33 milissegundos mais rápida quando as duas sequências tinham a mesma estrutura (821 contra 854 ms, em média). O segundo estudo, com 57 estudantes da Universidade da Florida, serviu para excluir uma explicação mais simples, a de que o que se ativa são as classes de palavras soltas. Para isso inverteram a ordem (de me again and para or how you) e o benefício desapareceu, e até houve um ligeiro atraso. É a sequência que conta e não apenas o conjunto de classes.

O terceiro estudo ataca a objeção mais evidente: e se estas sequências, afinal, aparecessem muitas vezes como constituintes em frases reais? Os autores recolheram frases de um corpus de inglês americano e viram que, em média, cerca de 1% das ocorrências era de facto constituinte. Repetiram depois a experiência com 200 participantes recrutados online, metade com sequências que não são constituintes e metade com constituintes. O priming apareceu nos dois casos, com sinais moderados de que era mais forte nas sequências que não são constituintes (36 contra 20 ms, em números redondos).

O quarto estudo, também com 200 participantes, responde a uma objeção mais subtil: quem lê live in a pode estar a prever que vem aí um substantivo e a construir mentalmente o constituinte inteiro («viver num carro»). Compararam por isso fragmentos de três palavras com os constituintes de quatro em que estes se encaixam. Um fragmento ajudou mais a processar outro fragmento do que o constituinte completo, e o contrário também se verificou. Os autores consideram isto inconsistente com a ideia de que os fragmentos são sempre completados em constituintes. O total de participantes nas quatro experiências, 40 + 57 + 200 + 200, dá os 497 do resumo.

Os dois últimos estudos saem do laboratório e analisam dados já existentes. No quinto, a partir de um corpus de leitura com registo dos movimentos oculares (68 leitores de frases de jornal), uma estrutura repetida da frase anterior associou-se a uma leitura cerca de 48 ms mais rápida e a menos regressões, embora com bastante incerteza estatística e sem efeito claro na primeira passagem pelo texto. No sexto, com 642 conversas telefónicas entre 358 falantes, a probabilidade de alguém produzir uma dada sequência de classes de palavras subiu de 2,12% para 2,39% logo no turno a seguir a tê-la ouvido (uma diferença de 0,27 pontos percentuais, ou seja, cerca de 13%, o que dá um odds ratio de 1,13). São efeitos modestos, mas apareceram em dois contextos muito diferentes.

O que os autores concluem

A conclusão principal é que os constituintes não são o único tipo de estrutura que a mente usa. Os próprios autores sublinham que o resultado põe um desafio a todas as abordagens e não apenas à generativa. As construcionistas, dizem, têm mecanismos de aprendizagem suficientemente flexíveis para adquirir estas estruturas, mas quase só estudaram construções que são constituintes ou que se descrevem com constituintes, e por isso o desafio é «para todos». Notam ainda que as estruturas lineares podem ser um fator de confusão em muitos estudos anteriores de priming sintático.

Há prudências que o texto faz questão de deixar escritas. O estudo não exclui que os constituintes tenham um papel no processamento de unidades maiores do que as três palavras testadas. Os resultados limitam-se ao inglês, e, embora os autores esperem que se estendam a outras línguas, dizem que é preciso investigá-lo. E não afirmam que as sequências de classes de palavras estejam guardadas como símbolos. Tratam-nas como uma forma de descrever percursos de processamento, que ficam mais fáceis de percorrer à força de passarem por lá, como as pegadas que se vão alargando num caminho de floresta.

A hipótese mais ousada é uma proposta a testar: que estas sequências sirvam de «cola de processamento» entre unidades com sentido, ajudando a encaixá-las em tempo real. Por exemplo, top of the a ligar on the top a the tallest mountain. Está na conclusão como especulação, e assim deve ser lida.

E os modelos de linguagem?

O artigo toca nos modelos de linguagem, mas de passagem. Refere que uma rede neuronal reproduzia boa parte dos resultados de priming sintático, e que resultados convergentes foram obtidos com grandes modelos de linguagem. Os autores tiram daí que o priming pode, em princípio, assentar em estruturas que não são constituintes, e acrescentam que não se sabe que representações o modelo usa. É tudo. Não dizem que os humanos falam como o ChatGPT, e a ideia de que falamos «a prever o bloco seguinte» não é uma conclusão deles. Pelo contrário, o quarto estudo discute e afasta uma explicação baseada na previsão de estruturas maiores. Convém, por isso, não confundir duas coisas: um modelo estatístico e uma pessoa podem ambos mostrar priming, o que não os torna a mesma máquina. Já escrevemos sobre essa diferença a propósito do ensaio de Renato Ortiz, e sobre o facto de a fluência não provar compreensão.

Quanto a Chomsky, o nome não aparece no texto principal do artigo. Surge na bibliografia, com O Programa Minimalista (1995), citado a propósito das formas de descrever a estrutura em constituintes. O alvo declarado é a ideia de que a representação mental da linguagem assenta em constituintes. A manchete é de quem a escreveu.

O que isto tem a ver com a escola

Para começar, convém ver quem participou. Foram estudantes universitários, adultos recrutados online e falantes de inglês dos corpora, sem um único aluno do básico ou do secundário e sem nenhum falante de português. Tudo o que se segue é, portanto, extrapolação nossa e deve ser lido assim.

A gramática do Português trabalha constituintes e funções sintáticas ao longo dos anos: no 9.º, as Aprendizagens Essenciais pedem que o aluno analise frases simples e complexas para identificar constituintes e funções sintáticas (Direção-Geral da Educação, s.d.-a), e no secundário o conhecimento dos grupos da frase é para sistematizar (Direção-Geral da Educação, s.d.-b). O estudo não testa ensino nenhum e não dá razões para abandonar a análise sintática. Uma coisa é o que a gramática escolar permite ver numa frase, o que continua a ser útil, a ler e a escrever melhor. Outra é o que a mente faz em poucas centenas de milissegundos. A distinção é nossa, e dá boa conversa para um grupo disciplinar.

Nas aulas de língua, o que o artigo reforça, sem demonstrar para o ensino, é a importância dos blocos. O próprio texto cita como exemplo de bloco frequente in accordance with, que tem tradução óbvia em «de acordo com». Se a mente aprende e reutiliza sequências, faz sentido trabalhar expressões e combinações habituais, em Português, em Inglês e em Português Língua Não Materna, e não só vocabulário isolado. A equipa de Cornell admite que as conclusões podem vir a ter alguma coisa a dizer sobre o ensino de segundas línguas (Blackwood, 2026), mas é uma expectativa e não um resultado.

Quem corrige redações conhece também os blocos feitos que aparecem sem ninguém os pedir, como «nos dias de hoje» ou «ao longo dos tempos». É uma impressão de professor, sem dados por trás, mas liga-se ao que escrevemos sobre o texto que sai sempre com a mesma cara, seja de um aluno apressado seja de uma máquina.

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Duas coisas para experimentar

As propostas são nossas, não foram testadas com alunos e o estudo foi feito em inglês.

Ler um estudo, não a manchete. Com uma turma do 9.º ano ou do secundário, e em articulação com o professor de Inglês, pôr lado a lado a publicação viral e o resumo do artigo, que está em acesso aberto na página da revista. Os alunos sublinham os verbos de certeza («prova», «completamente errado», «exatamente») e os de cautela («evidência», «desafio», «poderá»), e verificam, afirmação a afirmação, o que da publicação aparece no resumo. A seguir podem olhar para quem foram os participantes e quantos eram. A discussão ensina mais do que qualquer aviso sobre desinformação, porque aqui o estudo é verdadeiro e a publicação é que o deforma. Quem quiser enquadrar a atividade na literacia em IA tem os nossos cinco passos.

A caça aos blocos. Num texto da turma ou numa notícia, os alunos procuram, à mão ou numa folha de cálculo, sequências de três ou quatro palavras que se repetem, e perguntam-se se cada uma forma um grupo. «Ao longo do», por exemplo, junta uma locução com um determinante, e «de acordo com o» está na mesma situação. Que a mente guarde sequências assim é uma hipótese a discutir e não um resultado, e saber se acontece em português europeu é uma pergunta em aberto. Que os alunos a formulem já é bom treino.

Reservas

Não somos linguistas, e a discussão entre as escolas teóricas é técnica e vai longe. Lemos o texto principal do artigo e não o material suplementar, onde os autores discutem outras noções de constituência. Os efeitos medem-se em dezenas de milissegundos e alguns intervalos de incerteza incluem o zero, como acontece no estudo da leitura. Os autores usam análise bayesiana, que fala em graus de evidência e não em «significativo» ou «não significativo», e convém lê-la assim. Trata-se de um conjunto de estudos pré-registados e com dados abertos, o que conta a favor, mas continua a ser um conjunto de estudos, e a discussão só agora começou.

Uma pergunta para levar

Quando um aluno nos mostrar, amanhã, mais uma manchete que começa por «estudo prova», saberá ir ver quantos eram os participantes, quem eram e o que os autores escreveram na conclusão? Talvez valha a pena ensinar-lhe esse gesto antes de lhe ensinarmos a desconfiar de tudo.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do texto principal do artigo de Nielsen e Christiansen (2026), lido na íntegra numa cópia alojada em servidor da Universidade de Cornell, e do comunicado da Cornell Chronicle (Blackwood, 2026), consultados a 26 de outubro de 2026. Os exemplos para a sala de aula são propostas nossas. O texto foi sujeito a revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.

Referências

Blackwood, K. (2026, 21 de janeiro). Discovery challenges assumptions about the structure of language. Cornell Chronicle. Consultado a 26 de outubro de 2026, em https://news.cornell.edu/stories/2026/01/discovery-challenges-assumptions-about-structure-language

Direção-Geral da Educação. (s.d.-a). Português, 9.º ano: Leitura. Lisboa no Renascimento. Funções sintáticas (1) (Bloco n.º 24) [Materiais de apoio]. Consultado a 26 de outubro de 2026, em https://estudoautonomo.dge.mec.pt/sites/default/files/inline-files/24_Portugu%C3%AAs_9%C2%BA%20ano_Leitura%20Lisboa%20no%20Renascimento.%20Fun%C3%A7%C3%B5es%20sint%C3%A1ticas%20%281%29.pdf

Direção-Geral da Educação. (s.d.-b). Os constituintes da frase e as suas funções sintáticas: A análise sintática ajuda-me a ler e escrever melhor? (Guião de Trabalho Autónomo n.º 17, Português, 11.º ano) [Materiais de apoio]. Consultado a 26 de outubro de 2026, em https://estudoautonomo.dge.mec.pt/sites/default/files/2025-02/GTA%2017_Portugu%C3%AAs.%C2%BA%20ano_tema%204_Constituintes%20da%20frase%20e%20fun%C3%A7%C3%B5es%20sint%C3%A1ticas.pdf

Nielsen, Y. A., & Christiansen, M. H. (2026). Evidence for the representation of non-hierarchical structures in language. Nature Human Behaviour, 10, 579–588. https://doi.org/10.1038/s41562-025-02387-z

Para saber mais

Fora do blogue: o artigo original, a começar pelo resumo; os dados, materiais e código no OSF, para quem quiser ver como se fez; o comunicado da Cornell Chronicle, curto e claro; e o episódio 137 do podcast Because Language, em inglês, em que os dois autores explicam o trabalho.

No blogue: Escrever com a máquina ou escrever sem ela? O que a escola pode aprender com um ensaio de Renato Ortiz; Uma IA pode ter consciência? O que pode aprender a escola com quem responde «não sabemos»; Literacia digital em ação: como combater a desinformação na sala de aula; Literacia em IA: cinco passos para a escola; Reaprender a perguntar: estamos a caminho da geração prompt?

A tecnologia matou a leitura? Talvez estejamos a fazer as perguntas erradas

De tempos a tempos, regressa o diagnóstico de que a cultura escrita está a morrer às mãos da tecnologia. Desta vez, a culpa recai sobre os telemóveis e a inteligência artificial. Mas os dados são menos dramáticos do que as manchetes e muito mais incómodos para a escola.

A revista LER publicou, no seu número 177, um texto de Luís Naves com um título que dispensa apresentações: «A tecnologia matou a leitura?». Leu-se de uma assentada e, depois, voltou-se atrás para sublinhar. Não por trazer respostas fechadas, mas por pôr lado a lado coisas que costumamos discutir separadamente: a escrita assistida por máquinas, o temor de que se leia menos e a evidência, nem sempre simpática, sobre o que os jovens e os adultos conseguem de facto fazer com um texto.

Um livro em 45 minutos

O ponto de partida é quase caricatura. Segundo o New York Times, a autora norte-americana que assina como Coral Hart publicou mais de duzentos romances num só ano, sob 21 pseudónimos, com a ajuda do assistente Claude, da Anthropic. Garante que consegue fabricar um livro em 45 minutos e que vendeu cerca de 50 mil exemplares na Amazon. Feitas as contas, são em média 250 exemplares por título: dinheiro, talvez, mas dificilmente um fenómeno literário. Já tínhamos escrito sobre esta lógica de livros produzidos em minutos e o que isso faz ao conceito de autoria; o número mudou, a questão ficou.

O outro episódio é o do romance de terror Shy Girl, de Mia Ballard, cuja edição norte-americana foi cancelada pela Hachette depois de suspeitas de uso de IA. A editora afirma que a decisão foi anterior à notícia do jornal. O que interessa para quem trabalha com leitores é a observação de Naves: os modelos vão aprender a corrigir os «sinais» que hoje denunciam um texto de máquina (lugares-comuns, prosa demasiado certinha), pelo que distinguir quem escreveu o quê será cada vez menos fiável. Para a sala de aula, isto tem consequências diretas. Se nem os editores conseguem distinguir, fingir que o professor o faz a olho é, no mínimo, otimismo.

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A tese pessimista e as suas raízes

Naves resume o argumento do crítico britânico James Marriott: a democratização da leitura, iniciada no século XVIII, estaria agora a ser revertida pelo ecrã. Smartphones, vídeos curtos, vocabulário mais pobre, frases mais curtas, universitários que já não aguentam textos que os da geração anterior despachavam sem esforço. A este coro junta-se Nicholas Carr, que em 2008 perguntava na The Atlantic se o Google nos estava a tornar estúpidos. A anedota de Nietzsche e da máquina de escrever, que teria tornado a sua prosa mais telegráfica, é bonita, mas convém saber que há quem a conteste como explicação do estilo do filósofo.

A tese tem força porque toca em algo que qualquer professor reconhece: a dificuldade crescente de manter a atenção num texto longo. Já aqui falámos disso a propósito da saturação informativa e da leitura rápida e, mais recentemente, da relação entre algoritmos, rapazes e livros. A pergunta é se essa experiência, real, equivale a um colapso da literacia.

O que dizem os números

Aqui o texto de Naves faz o que mais falta faz nestas discussões: confronta o apocalipse com os dados. No PISA 2022, a pontuação de Portugal em leitura foi de 477 pontos, menos 15 do que em 2018 (492), numa queda em linha com a da média da OCDE, que desceu 11. Cerca de 23% dos alunos de 15 anos ficaram abaixo do nível 2, isto é, com dificuldade em compreender textos, e só 4,7% atingiram os níveis mais altos (5 e 6). Dito de outra forma: quase um em cada quatro com dificuldades sérias, e um grupo de excelência minúsculo. Não é um colapso, mas é uma degradação lenta, que não se explica só com telemóveis.

O inquérito da OCDE às competências dos adultos, divulgado em dezembro de 2024, acrescenta uma nota desconfortável: em literacia, Portugal obteve 235 pontos e ficou em penúltimo lugar entre 31 países, acima apenas do Chile. Sem termo de comparação com a década anterior, como Naves faz notar, não sabemos se estamos a melhorar ou a piorar. O que o estudo indica, segundo o mesmo texto, é que as quebras são mais fortes entre quem tem menos escolaridade, e que países como a Finlândia e a Dinamarca registaram melhorias. Se a tecnologia fosse o vilão único, não haveria países a subir.

Há ainda o contexto de longa duração. Em 1926, o analfabetismo atingia dois terços dos portugueses; hoje, a taxa é praticamente nula. Os autores do estudo da OCDE, aliás, associam os problemas de literacia a fragilidades do ensino ou à pobreza, e não aos dispositivos digitais.

Os modernistas já tinham visto o filme

A parte mais surpreendente do texto de Naves é o recuo ao início do século XX. Em 1926, Virginia Woolf escreveu sobre o cinema, que na altura ainda era mudo, e começou por achá-lo uma arte «simples, até estúpida», a canibalizar a literatura para satisfazer as massas. Mas ficou-se por aí? Nada disso. O resto do ensaio, «The Cinema», intui que haveria uma «emoção visual» à espera da nova arte e que a técnica chegaria ao som e à cor. O que parecia ameaça era, afinal, um território novo. Em Portugal, a discussão fez-se por outras vias: no primeiro número da revista Presença, em março de 1927, José Régio escreveu que faltava à literatura portuguesa originalidade e sinceridade e defendeu a procura da «literatura viva», aquela que nasce da sensibilidade, da inteligência e da imaginação de quem escreve.

Desta viagem no tempo, Naves tira uma ideia simples e que nos parece muito útil: os modernistas perceberam depressa que as inovações técnicas teriam um impacto profundo na cultura e que as obras-primas corriam o risco de ser banalizadas, sim, mas a nova arte estava ainda na infância. A inteligência artificial está agora a derrubar fronteiras entre quem produz e quem consome arte, e há, como sempre houve, quem veja o desastre e quem veja oportunidades.

O que muda (e o que não muda) na escola

Para quem está numa sala de aula ou numa biblioteca escolar, três ideias parecem-nos úteis.

A primeira é que o problema não é só o ecrã. Se os resultados dependem tanto da condição socioeconómica, da geografia e das migrações, a resposta passa por equidade, por tempo de leitura protegido e por mediação, e não por proibir tecnologia sem mais. A segunda é que a escrita assistida por IA obriga a repensar o que pedimos aos alunos: um texto «sem erros» já não prova que alguém pensou, e talvez seja altura de valorizar o processo, a oralidade e a argumentação. Aliás, a IA não é apenas uma ferramenta, e isso muda o que a escola tem de ensinar. A terceira é a conclusão de Naves, a que voltamos: as máquinas usam todo o vocabulário e conhecem todos os factos, mas são mais fracas na consciência e na imaginação, e é aí que a literatura viva de Régio, e a escola, têm de apostar.

Os alarmes, de resto, nunca foram novidade. Em 1993, o escritor David Foster Wallace via na televisão uma civilização cínica e vazia; em 1928, Paul Valéry imaginava a cultura a chegar a casa como chegam a água, o gás e a corrente elétrica, e achava que isso a tornaria mais acessível, não mais pobre. Hoje a televisão fragmentou-se e a internet mudou tudo, e a democratização trouxe acesso e também ruído. Naves não esconde que a informação circula sem mediadores e que já nem sempre distinguimos a verdade da mentira; mas o gráfico de dois séculos, nota, sobe: mais literacia, mais acesso. E agora a democratização chega à própria escrita, porque qualquer cidadão pode conceber, escrever e editar uma história sua. O texto termina com uma pergunta, que deixamos como ele a deixa, porque é a mais honesta: se qualquer pessoa pode agora conceber, escrever e editar uma história sua, será isto um retrocesso?

Talvez a questão não seja se a tecnologia matou a leitura, mas o que fazemos para que quem hoje lê pouco, ou lê mal, tenha razões e condições para ler melhor. É um trabalho de escola e, sobretudo, de quem a faz funcionar todos os dias. Por falar nisso, até os próprios alunos têm opinião sobre os resultados que os descrevem, como mostrámos em «Quando os alunos comentam o PISA».

Nota editorial: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial.

Referências

Carr, N. (2008, julho/agosto). Is Google making us stupid? The Atlantic. https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2008/07/is-google-making-us-stupid/306868/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

Diário de Notícias. (2024, 10 de dezembro). Adultos portugueses são dos que têm menos competências na OCDE. https://www.dn.pt/3689942/adultos-portugueses-sao-dos-que-tem-menos-competencias-na-ocde/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

Futurism. (2026, 10 de fevereiro). «Novelist» boasts that using AI she can churn out a new book in 45 minutes. https://futurism.com/artificial-intelligence/ai-novelist (acedido em 25 de outubro de 2026)

Marriott, J. (s.d.). The dawn of the post-literate society. Cultural Capital. https://jmarriott.substack.com/p/the-dawn-of-the-post-literate-society (acedido em 25 de outubro de 2026)

Naves, L. (2026). A tecnologia matou a leitura? LER, (177).

Woolf, V. (1926). The cinema. Arts. Disponível em https://www.themarginalian.org/index.php/2013/02/25/virginia-woolf-on-the-cinema-1926/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

Observador. (2023, dezembro). Portugal já não é o caso de sucesso e cai em todos os domínios, em linha com a OCDE: o PISA. https://observador.pt/especiais/portugal-ja-nao-e-o-caso-de-sucesso-e-cai-em-todos-os-dominios-em-linha-com-a-ocde-o-pisa (acedido em 25 de outubro de 2026)

Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos. (2024, 10 de dezembro). Survey of Adult Skills 2023: Portugal. https://www.oecd.org/en/publications/survey-of-adults-skills-2023-country-notes_ab4f6b8c-en/portugal_dc35a4c5-en (acedido em 25 de outubro de 2026)

Publishers Lunch. (2026, 20 de março). Hachette cancels «Shy Girl» for being AI-generated. https://lunch.publishersmarketplace.com/2026/03/hachette-cancels-shy-girl-for-being-ai-generated/ (acedido em 25 de outubro de 2026)

Para saber mais

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