A democracia também se aprende: ensinar a discordar antes que reste apenas o ruído

O consenso democrático não nasce do silêncio nem da unanimidade. Nasce do confronto entre ideias diferentes, conduzido com argumentos, respeito e vontade de preservar um espaço comum. Uma conversa entre Felipe González e Sergio del Molino deixa à escola uma pergunta urgente: estamos a ensinar os alunos a discordar?

Há frases que parecem contraditórias até começarmos a olhar para elas com atenção. «Só pode haver consenso se houver confronto» é uma dessas frases.

Foi pronunciada por Felipe González numa conversa com o escritor Sergio del Molino, durante a celebração dos 15 anos da revista Ethic, e dá título ao artigo que recupera os principais momentos do encontro. À primeira vista, confronto e consenso parecem pertencer a campos opostos. Um separa; o outro aproxima. Um acentua diferenças; o outro procura um terreno comum. Mas é precisamente aí que reside o essencial: só existe um consenso verdadeiro quando havia diferenças reais para ultrapassar.

Se todos pensam o mesmo, não houve consenso. Houve unanimidade, conformismo ou silêncio. E, por vezes, houve apenas alguém que não se sentiu suficientemente seguro para falar.

O consenso não é o princípio da conversa

Sergio del Molino começa por desmontar uma imagem confortável da Transição espanhola: a ideia de que a democracia chegou através de uma sucessão quase natural de concessões cordiais, protagonizadas por dirigentes que rapidamente descobriram estar de acordo. A realidade, recorda, foi muito mais difícil. Havia medo, violência política, memórias ainda vivas da Guerra Civil e posições ideológicas profundamente afastadas.

O entendimento não nasceu da ausência de conflito. Nasceu da capacidade de lhe dar uma forma política.

Essa distinção é decisiva. Uma democracia não elimina o conflito entre interesses, valores e projetos de sociedade. Cria regras para que esse conflito possa ser expresso sem destruir a possibilidade de continuarmos a viver juntos. O adversário não deixa de ser adversário; deixa, isso sim, de ser tratado como inimigo a abater.

É essa a lição mais fértil da conversa. Não se trata de transformar a Transição espanhola num tempo perfeito, nem de transportar mecanicamente as soluções de uma época para outra. Trata-se de perceber um método: defender convicções com clareza, aceitar a legitimidade de quem pensa de outro modo e reconhecer que nenhum projeto coletivo se constrói sem cedências recíprocas.

O consenso, portanto, não é o ponto de partida. É uma chegada possível — e nunca garantida.

Quando cresce a acrimónia e diminui o conteúdo

Num dos momentos mais certeiros do diálogo, Felipe González estabelece um contraste entre a dureza dos debates políticos de outros tempos e a agressividade que hoje invade grande parte da discussão pública. Antes, argumenta, podia haver confronto intenso sem que a palavra perdesse inteiramente o seu valor. Agora, multiplicam-se o grito e o insulto, ao mesmo tempo que escasseiam as ideias que valha a pena discutir.

Não é difícil reconhecer este ambiente. Encontramo-lo nos debates políticos, nas caixas de comentários, nos grupos de mensagens e em muitas conversas que começam por um desacordo e acabam numa avaliação moral da pessoa que ousou discordar. Já não se responde ao argumento: classifica-se o interlocutor. Já não se pergunta se uma afirmação é verdadeira: procura-se saber de que lado veio.

As plataformas digitais não inventaram esta tendência, mas deram-lhe velocidade, alcance e permanência. A comunicação breve favorece muitas vezes a reação antes da reflexão; a procura de visibilidade recompensa o que provoca; e uma frase retirada do contexto circula mais depressa do que a explicação paciente que lhe poderia devolver sentido. É por isso que a literacia mediática e informacional não pode limitar-se a ensinar a identificar notícias falsas. Precisa também de ensinar a reconhecer estratégias retóricas, verificar fontes, compreender contextos e interromper o impulso de partilhar antes de pensar.

Com a inteligência artificial generativa, o problema ganha uma nova camada. Nunca foi tão fácil produzir, em segundos, um texto aparentemente seguro, coerente e convincente. Mas um argumento bem escrito pode continuar a ser frágil, falso ou intelectualmente desonesto. A fluência não substitui a prova. A escola terá de ensinar os alunos a perguntar não apenas «isto está bem escrito?», mas também «em que se baseia?», «o que ficou de fora?», «que outra interpretação é possível?» e «consigo defender esta posição por palavras minhas?».

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A sala de aula é um dos primeiros espaços públicos

A pergunta que a conversa deixa à escola é simples e desconfortável: ensinamos verdadeiramente os alunos a discordar?

Pedimos-lhes muitas vezes que participem, mas nem sempre lhes ensinamos como se participa. Organizamos debates, mas podemos acabar por valorizar sobretudo quem fala com maior rapidez ou confiança. Propomos trabalhos de grupo, mas confundimos cooperação com concordância. Incentivamos a expressão de opiniões, embora nem sempre exijamos razões, provas ou disponibilidade para rever o que se pensa.

Discordar democraticamente é uma competência exigente. Implica saber ouvir até ao fim; distinguir uma pessoa das ideias que apresenta; reformular com honestidade o argumento do outro; procurar evidências; reconhecer limites no próprio raciocínio; mudar de posição sem sentir que se perdeu; e aceitar que, por vezes, não haverá acordo.

Nada disto nasce espontaneamente. Aprende-se pela prática.

O Referencial de Competências para a Cultura Democrática do Conselho da Europa ajuda a perceber essa complexidade ao articular valores, atitudes, capacidades, conhecimento e compreensão crítica. Entre as competências necessárias estão o respeito, a abertura a diferentes perspetivas, a tolerância da ambiguidade, a escuta, a cooperação e a resolução de conflitos. Não são adornos do currículo. São condições para que o conhecimento possa ser usado numa sociedade plural.

Também o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória coloca o pensamento crítico, o relacionamento interpessoal, a autonomia e a participação entre os princípios e competências que devem orientar a educação em Portugal. O desafio está em transformar essas palavras em experiências concretas.

Uma turma pode ser um pequeno laboratório democrático quando os alunos:

  • defendem posições diferentes a partir das mesmas fontes;
  • aprendem a formular uma objeção sem atacar quem falou;
  • identificam o ponto mais forte do argumento contrário;
  • distinguem factos, interpretações e opiniões;
  • negoceiam critérios para tomar uma decisão coletiva;
  • verificam uma resposta produzida por inteligência artificial;
  • explicam por que razão mudaram — ou mantiveram — a sua posição;
  • refletem sobre quem falou, quem foi ouvido e quem ficou de fora.

Nestas atividades, o professor não é um espectador neutro. É o garante das regras, da qualidade da evidência e da dignidade de todos os participantes. Não lhe cabe fabricar consensos, mas criar as condições para que o desacordo seja intelectualmente sério e humanamente seguro.

Conhecer as regras do espaço comum

Durante a conversa, Felipe González retira do bolso um exemplar da Constituição espanhola, que diz levar habitualmente consigo. O gesto vale mais do que a curiosidade cénica. Recorda que o conflito democrático só é possível dentro de um quadro partilhado: direitos, deveres, limites ao poder e procedimentos reconhecidos por todos.

Também aqui a escola tem trabalho a fazer. Muitos jovens atravessam a escolaridade conhecendo fórmulas sobre democracia, mas com pouca experiência de deliberação, representação ou responsabilidade coletiva. Sabem que podem votar, mas talvez nunca tenham discutido seriamente como se constrói uma decisão justa. Ouvem falar de liberdade de expressão, mas podem não ter pensado nos deveres que acompanham o uso público da palavra.

A educação para a cidadania perde força quando aparece apenas em dias comemorativos, campanhas pontuais ou definições para memorizar. Ganha sentido quando atravessa a vida escolar: na assembleia de turma, no conselho de alunos, na escolha de um projeto, na análise de uma controvérsia, na gestão de um conflito ou na decisão sobre regras que afetam o grupo.

Uma escola democrática não é aquela onde todos decidem tudo. É aquela onde as decisões são compreensíveis, a autoridade presta contas, a participação tem consequências e cada pessoa aprende que pertencer a uma comunidade implica direitos, limites e responsabilidades.

Uma obra que nunca fica concluída

Perto do final do encontro, surge outra ideia que merece ser trazida para a educação: «A política é sempre uma obra inacabada.» Também a democracia o é. Não fica definitivamente conquistada por ter eleições, uma Constituição ou várias décadas de história. Precisa de ser praticada, transmitida e renovada por cada geração.

Talvez um dos riscos do presente seja termos passado a considerar certas conquistas como parte natural da paisagem. A liberdade de discordar, a possibilidade de substituir quem governa, o direito de participar e a proteção das minorias parecem sólidas enquanto existem. Só percebemos plenamente o seu valor quando começam a enfraquecer.

Por isso, a educação democrática não pode consistir em ensinar os alunos a pensar da mesma maneira. Tem de os preparar para viver entre pessoas que não pensam como eles — sem medo da diferença, sem submissão e sem transformar qualquer divergência numa guerra de identidades.

A frase de Felipe González não é, então, um elogio da hostilidade. É quase o contrário. Lembra-nos que o consenso só merece esse nome quando preserva a liberdade de confrontar ideias. E que a paz democrática não é silêncio: é desacordo com regras, palavra com responsabilidade e compromisso com um mundo comum.

Num tempo em que tantas vozes disputam a atenção e tão poucas parecem dispostas a escutar, esta pode ser uma das tarefas mais urgentes da escola: ensinar a falar com clareza, a ouvir sem medo e a discordar sem destruir.

Porque a democracia começa muito antes do voto. Começa na forma como respondemos a alguém que nos diz: «Não concordo.»


Fontes de partida:

Depois de proibir o telemóvel, vem a parte mais difícil: ensinar a viver com e sem tecnologia

Portugal acaba de alargar ao 3.º ciclo as restrições à utilização de smartphones nas escolas. A medida pode proteger a atenção, favorecer a socialização e devolver algum silêncio ao espaço escolar. Mas nenhum regulamento ensina uma criança a reconhecer manipulação algorítmica, a proteger a sua privacidade, a perceber quando deve desligar ou a usar inteligência artificial sem deixar que ela pense por si. A educação digital começa, precisamente, onde a proibição acaba.

Apresentação |

Durante alguns anos, parecíamos convencidos de que colocar mais tecnologia nas mãos dos alunos era, quase por definição, modernizar a educação.

Vieram os computadores, os tablets, as plataformas educativas, os quadros interativos, os smartphones. Mais recentemente chegaram os chatbots de inteligência artificial. A tecnologia instalou-se na escola quase com a mesma naturalidade com que se instalou no resto das nossas vidas.

Agora, o movimento parece fazer-se no sentido contrário.

Multiplicam-se as restrições aos telemóveis, cresce a preocupação com a atenção das crianças, discutem-se os efeitos das redes sociais, dos algoritmos e da utilização excessiva dos ecrãs. Em março de 2026, a UNESCO contabilizava já 114 sistemas educativos, correspondentes a 58% dos países monitorizados, com proibições nacionais de telemóveis nas escolas.

Talvez este movimento fosse inevitável.

Mas há um risco: passarmos diretamente do entusiasmo tecnológico para a rejeição tecnológica sem termos aprendido verdadeiramente a educar para nenhuma das duas situações.

É precisamente contra esse movimento pendular que María Zabala, jornalista especializada em cidadania digital e autora de Ser padres en la era digital, argumenta numa recente entrevista publicada pela Ethic.

A ideia que atravessa a conversa parece simples:

precisamos de ensinar crianças e jovens a viver com tecnologia e sem tecnologia.

Parece simples. Não é.

Portugal acaba de dar um passo importante

O tema tornou-se particularmente atual entre nós.

No dia 3 de setembro de 2026, Portugal publicou o Decreto-Lei n.º 176/2026, alargando aos alunos do 3.º ciclo do ensino básico o regime de restrição da utilização de smartphones e de outros equipamentos móveis com acesso à Internet que já abrangia os 1.º e 2.º ciclos.

A utilização continua a poder ser autorizada em situações específicas, nomeadamente por razões pedagógicas, de saúde ou de tradução. Mas a regra mudou: para os alunos do ensino básico, o smartphone deixa de ser uma presença digital permanentemente disponível no espaço escolar.

Há razões compreensíveis para esta decisão.

O estudo de acompanhamento realizado pelo PLANAPP no ano letivo de 2025/2026 encontrou, nas escolas que aplicavam a proibição no 3.º ciclo, melhorias percecionadas mais acentuadas na socialização e reduções mais fortes da indisciplina. Antes mesmo da alteração legislativa, 52% das unidades orgânicas com 3.º ciclo já proibiam smartphones e 82% aplicavam algum tipo de restrição.

Por isso, a discussão já não deveria ficar presa à pergunta:

devemos ou não retirar os telemóveis da escola?

Em grande parte do ensino básico português, essa decisão está tomada.

A pergunta interessante começa agora:

o que fazemos pedagogicamente com o espaço que a proibição criou?

Retirar o smartphone não significa retirar a tecnologia

Há uma distinção que importa fazer desde já.

Smartphone não é sinónimo de tecnologia.

Um aluno que passa o intervalo a percorrer vídeos recomendados por um algoritmo não está a fazer a mesma coisa que outro que utiliza um computador para programar, consultar um arquivo histórico, editar um vídeo, comparar fontes ou construir um modelo científico.

Da mesma maneira, quinze minutos a conversar com os avós através de uma videochamada não são equivalentes a quinze minutos de scroll automático numa plataforma social.

É por isso que falar simplesmente em «tempo de ecrã» começa a ser insuficiente.

Importa perguntar que ecrã, para fazer o quê, durante quanto tempo, em que idade, com quem e com que grau de autonomia.

É também esta distinção que está presente na posição da UNESCO. O seu relatório global sobre tecnologia e educação não propõe uma escola sem tecnologia. Defende antes que a tecnologia só deve ser utilizada quando melhora efetivamente a aprendizagem e que deve apoiar — não substituir — a relação humana que está no centro da educação.

A diferença é enorme.

Uma escola pode proibir smartphones pessoais e, simultaneamente, ser uma escola tecnologicamente muito competente.

Talvez até tenha melhores condições para o ser.

Porque retirar da sala um dispositivo desenhado também para captar atenção, emitir notificações e proporcionar entretenimento permanente pode permitir recuperar a tecnologia como ferramenta escolhida pelo professor para uma finalidade concreta, em vez de a aceitar como ruído permanente.

Como já analisámos no TIC, Educação e Web, a evidência sobre tecnologia educativa e aprendizagem aponta precisamente nessa direção: não é o dispositivo que melhora a aprendizagem. É a qualidade da atividade pedagógica em que ele é integrado.

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IA e educação: agência humana, desenvolvimento, pedagogia, conhecimento, bem comum e futuros possíveis

O corpus de partida é a publicação da UNESCO de 2026 The algorithm in the room: Seeing and confronting the implications of AI for the future of education. [UNESCO]

A leitura transversal produz uma conclusão mais exigente do que a habitual oposição entre «adotar» e «proibir» IA. O problema fundamental é constitucional, no sentido institucional da palavra: quem pode decidir, sobre o quê, com que informação, sob que regras, em benefício de quem e com que possibilidade de contestação. A IA altera a distribuição de autoridade entre alunos, docentes, instituições, Estados e empresas; desloca parte do trabalho cognitivo e avaliativo para infraestruturas privadas; e pode redefinir silenciosamente aquilo que uma escola considera aprendizagem, desempenho, inteligência ou eficiência. Esta é a linha comum que liga a crítica de Daniela Hau ao modelo human-in-the-loop, os cenários de autonomia de Lim, Hilmy e Kuok, a crítica da personalização de Bianca Farthing, a preocupação de Camille Fabo com o poder curricular dos modelos e os cenários futuros da parte final da coletânea. [UNESCO]

A evidência recente sugere que não existe um «efeito da IA» único sobre a aprendizagem. Os efeitos dependem fortemente do desenho da tarefa, do grau de orientação docente, da competência prévia do aluno e do que se mede. Num ensaio aleatorizado conduzido no Estado de Edo, na Nigéria, um programa extracurricular de seis semanas combinando IA generativa com orientação docente produziu ganhos de cerca de 0,3 desvios-padrão em resultados agregados de aprendizagem; os próprios investigadores salientam, porém, que os professores estruturavam o uso e ajudavam a detetar erros, e que as escolas participantes tinham condições tecnológicas que limitam a generalização dos resultados. [1]
Num estudo laboratorial aleatorizado com 117 estudantes universitários, a utilização do ChatGPT melhorou a qualidade do ensaio produzido, mas não gerou uma vantagem estatisticamente significativa em ganho de conhecimento ou transferência da aprendizagem, ilustrando a diferença entre produzir melhor e aprender melhor. [2]
Revisões recentes sobre dependência excessiva de sistemas de diálogo com IA apontam riscos para o pensamento crítico e as capacidades analíticas, embora a base de estudos seja ainda reduzida e heterogénea e não sustente conclusões causais universais. [3]

A principal recomendação, portanto, é substituir a lógica «IA disponível → procurar uma utilização» por «objetivo educativo → identificar a atividade humana indispensável → decidir se e como a IA acrescenta valor». Isto coincide com a orientação emergente em Portugal. O diagnóstico nacional divulgado pela Direção-Geral do Ensino Superior em abril de 2026 propõe três pilares particularmente úteis: «Saber sobre IA», «Fazer com IA» e, crucialmente, «Ser sem IA», isto é, preservar a autonomia, o juízo crítico e a capacidade de reconhecer situações em que a tecnologia deve ser limitada ou recusada. O levantamento indicava utilização de IA no ensino em 52,9% das instituições respondentes, na investigação em 42,6% e na gestão em 26,5%, sinal de que o problema já é institucional e não apenas experimental. [4]

Para os jovens, a prudência deve ser ainda maior. Os artigos de Clayton Ramsey, Andrej Novik, Alexandra Samur e Mariela Sanchez Salas convergem numa ideia: desenvolvimento não é um processo que possa ser «acelerado» sem custos simplesmente porque a produção de respostas se tornou instantânea. As evidências sobre vínculos emocionais com IA já mostram que adultos podem estabelecer relações de apego mensuráveis com agentes conversacionais, mas a evidência longitudinal específica sobre crianças e adolescentes é ainda insuficiente. [5]
É precisamente por essa incerteza, e não apesar dela, que UNICEF e a American Psychological Association defendem limites claros, transparência sobre a natureza não humana dos sistemas, proteção de dados, conceção adequada à idade e preservação das relações humanas. [6]

Na pedagogia e avaliação, o diagnóstico dos 26 textos é simultaneamente crítico e fértil. A IA torna mais frágil a inferência tradicional «bom produto final = aprendizagem do
aluno»
, mas isso expõe uma fragilidade pré-existente nos exames, trabalhos formulaicos e tarefas de reprodução. Desai propõe deslocar a avaliação para processo, diálogo, defesa oral, problemas contextualizados e capacidade de criticar resultados de IA; Haarsbjerg mostra que também deve existir aprendizagem deliberadamente independente de IA para preservar domínio incorporado e juízo profissional; Muellauer demonstra que feedback tecnicamente melhor pode ser pedagogicamente pior quando o aluno o interpreta como ausência do professor.[UNESCO] A resposta não deve ser uma corrida aos detetores: um estudo amplamente citado mostrou taxas muito elevadas de falsos positivos em textos de falantes não nativos de inglês, levantando sérios riscos de discriminação se estes sistemas forem usados como prova disciplinar. [7]

Na esfera epistemológica, os riscos vão além da desinformação. Naffi fala de uma crise de «saber como sabemos»; Maisiri e Musonza de custos culturais quando sistemas treinados predominantemente noutros contextos normalizam visões do mundo importadas; Sultan da impossibilidade de reduzir literatura e memória histórica a imitação estilística; Paschalidis de «achatamento linguístico»; Livingstone e Stricker da perda da pergunta inicialmente confusa que, em investigação, frequentemente precede a descoberta. [UNESCO] A preocupação com homogeneização tem algum apoio experimental: num estudo publicado em Science Advances, ideias de IA elevaram avaliações individuais de contos, sobretudo entre participantes menos criativos à partida, mas tornaram as histórias assistidas por IA mais semelhantes entre si. O ganho individual pode, portanto, coexistir com perda de diversidade
coletiva. [8]

Na governação, 2026 é um ponto de viragem. O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial tornou-se em grande parte aplicável em 2 de agosto de 2026; as obrigações de literacia em IA e certas proibições já vigoravam desde fevereiro de 2025, e as regras de transparência incluem informação aos utilizadores quando interagem com determinados sistemas de IA e requisitos relativos à identificação de conteúdos sintéticos.
Certos usos de IA na educação são tratados como de alto risco, com o calendário específico dessas obrigações a estender-se para 2027 após alterações legislativas recentes. [9]
Em setembro de 2026, o Conselho da Europa adotou também princípios de literacia em IA centrados em direitos humanos, dignidade, democracia, agência social e pensamento crítico; e ministros reunidos pela UNESCO reafirmaram a educação como direito humano e bem comum, pedindo governação pública e deliberativa da IA. [10]

A síntese estratégica pode condensar-se em seis orientações:

DomínioOrientação central
AgênciaA pessoa responsável deve continuar a poder compreender,
interromper, corrigir e contestar decisões; a supervisão humana não pode
ser meramente cerimonial.
DesenvolvimentoAplicar um princípio de precaução reforçada a menores, sobretudo a
sistemas antropomórficos, persuasivos ou desenhados para maximizar
envolvimento emocional.
Pedagogia e avaliaçãoAvaliar processos de pensamento, explicação, transferência, revisão
e autoria, e não apenas produtos finais facilmente automatizáveis.
Conhecimento e expressãoPreservar fricção cognitiva, pluralismo linguístico, incerteza,
formulação de perguntas e contacto com fontes primárias e comunidades de
conhecimento.
Bem comumSubordinar contratação, dados, modelos, infraestruturas e
conectividade a objetivos públicos verificáveis, transparência,
acessibilidade, sustentabilidade e possibilidade de saída.
FuturosTratar «educação intensiva em IA» como uma escolha entre várias, não
como destino; conservar capacidade institucional e humana para funcionar
com pouca ou nenhuma IA.

O horizonte recomendado é coerente com a própria conclusão da UNESCO: primeiro ver o algoritmo e os interesses que transporta; depois orientá-lo, através de regras, capacidades e avaliação; por fim reescrevê-lo, dando a alunos, docentes, comunidades e instituições públicas capacidade não apenas de consumir sistemas, mas de participar na definição dos seus objetivos, dados e limites. [UNESCO]

Quem terá agência, autonomia e supervisão?

Os quatro artigos desta parte — David Ross, Daniela Hau, Kenneth Y. T. Lim/Ahmed Hazyl Hilmy/Bryan Zi Wei Kuok e Nadia Naffi — apresentam diferentes versões do mesmo problema: a IA não automatiza apenas tarefas; pode automatizar o exercício do juízo que a educação deveria desenvolver. [UNESCO]

Ross constrói o cenário do classroom AI doom loop: o professor usa IA para criar a tarefa; o aluno usa outra IA para produzir a resposta; um «humanizador» altera o texto; outra IA corrige e classifica; o sistema de gestão regista a nota. O problema não é apenas fraude académica. É a possibilidade de um circuito de produção, entrega e avaliação de «conhecimento» continuar operacional depois de o envolvimento intelectual de aluno e professor ter sido quase eliminado.
Ross coloca, por isso, uma pergunta desconfortável: se determinada prática escolar pode ser automatizada quase integralmente sem que se note a ausência do humano, será que essa prática já era pedagogicamente pobre? [UNESCO]

Hau radicaliza o argumento ao rejeitar a tranquilizadora expressão human-in-the-loop. A metáfora vem da engenharia: o sistema automatizado ocupa o centro e o humano intervém quando algo corre mal.
Em educação, isso inverte a ordem normativa. O professor não deveria ser um mecanismo de segurança acrescentado a um processo algorítmico; a pedagogia deveria definir o processo e a tecnologia, se necessária, entrar apenas depois. Os exemplos de Hau são úteis precisamente por serem limitados: IA para propor alternativas a um texto já escrito pelo aluno; tradução para ampliar participação numa turma multilingue; análise de interações como «espelho» que o professor interpreta, e não como métrica automática de desempenho.[UNESCO]

Lim, Hilmy e Kuok contrastam dois futuros de 2035. Num, os alunos tornam-se operadores dependentes de subscrições comerciais, com acesso diferenciado conforme a capacidade de pagamento e sucesso definido por métricas de utilização de IA. No outro, modificam modelos abertos, preservam arquivos em Hokkien, constroem classificadores de cantos de aves e examinam vieses de dados. O conceito de «orçamento de autonomia» sintetiza a diferença: quanto mais decisões forem delegadas à máquina, menos oportunidades restam para o humano exercer e desenvolver autonomia, salvo se o sistema for deliberadamente desenhado para a expandir. [UNESCO]

Naffi desloca a discussão para a agência epistémica. Com deepfakes, clonagem vocal e media sintéticos suficientemente convincentes, «ver para crer» deixa de ser uma regra funcional. A autora considera insuficiente ensinar apenas deteção técnica porque criação e deteção evoluem numa corrida contínua; defende capacidades metacognitivas para avaliar proveniência, contexto, incentivos e graus de confiança, complementadas por «bens comuns epistémicos» onde escolas, media, autoridades, investigadores e especialistas de segurança
partilham práticas. [UNESCO] Este ponto tornou-se ainda mais relevante com as atuais regras europeias de transparência para interações com IA e conteúdos sintéticos. [11]

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Literacia em IA: o Conselho da Europa põe as pessoas no centro — e a escola tem muito a fazer

O Conselho da Europa adotou uma recomendação sobre literacia em inteligência artificial que articula três dimensões: humana, tecnológica e prática. Para as escolas, o desafio passa por formar alunos capazes de compreender, questionar e decidir — incluindo quando não usar IA.

Um aluno entrega um texto impecável. O vocabulário é cuidado, os parágrafos estão bem construídos e a conclusão parece convincente. Quando lhe pedimos que explique uma das ideias, hesita. Não percebe inteiramente o que entregou.

Imaginemos agora outra situação: uma aluna analisa uma resposta produzida por inteligência artificial, identifica uma afirmação sem fundamento, procura a fonte e explica por que motivo decidiu rejeitá-la. O trabalho final pode até ser menos elegante. Mas há pensamento, conhecimento e uma decisão que lhe pertence.

É nesta diferença que se joga uma parte importante da literacia em inteligência artificial.

Em 2 de setembro de 2026, o Comité de Ministros do Conselho da Europa adotou a Recomendação CM/Rec(2026)12 sobre literacia em inteligência artificial. O documento propõe uma abordagem que reúne as dimensões humana, tecnológica e prática da IA, dando particular atenção à primeira. Para quem trabalha em educação, merece uma leitura demorada: fala de aprendizagem, de autonomia profissional, de direitos e da capacidade de participar numa sociedade em que os algoritmos interferem cada vez mais nas nossas escolhas.

Uma orientação comum para 46 países

O Conselho da Europa reúne 46 Estados-membros, entre os quais Portugal. É uma organização distinta da União Europeia, com uma missão centrada nos direitos humanos, na democracia e no Estado de direito.

Esta distinção ajuda a perceber o alcance do documento. Trata-se de uma recomendação dirigida aos governos, um instrumento de soft law: não tem caráter juridicamente vinculativo, mas estabelece uma orientação intergovernamental comum que pode influenciar estratégias nacionais, currículos, formação e decisões públicas.

Não cria, por si só, uma nova disciplina nem altera automaticamente as regras das escolas portuguesas. Recomenda, porém, que os Estados revejam as suas políticas e os seus referenciais de aprendizagem à luz deste modelo. Prevê ainda que a implementação seja examinada no Comité de Ministros até cinco anos após a adoção, ou antes, quando adequado.

A proximidade com o Dia Internacional da Alfabetização, celebrado a 8 de setembro, dá-lhe um enquadramento oportuno. Ler, escrever e compreender continuam a ser fundamentais. Precisamos também de perceber como é produzida, selecionada e transformada a informação com que pensamos.

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Três dimensões que precisam umas das outras

A recomendação define a literacia em IA como a capacidade de lidar com estes sistemas de forma crítica, ética, responsável, segura e eficaz. O documento de síntese que a acompanha explicita que as três dimensões se complementam e não devem ser trabalhadas isoladamente.

DimensãoO que implica compreenderUma pergunta para a escola
HumanaAs implicações éticas, sociais, políticas, cognitivas, psicológicas, culturais, ambientais e pessoais da IA.Que efeitos pode ter este uso na autonomia, nos direitos e nas relações dos alunos?
TecnológicaO funcionamento dos sistemas, a dependência dos dados, as capacidades, as limitações e a natureza probabilística.Porque pode uma resposta muito convincente conter erros?
PráticaA utilização em situações reais, com atenção à segurança, à responsabilidade, aos benefícios e aos riscos.Faz sentido usar esta ferramenta nesta tarefa e nestas condições?

As perguntas da última coluna são propostas nossas para traduzir o modelo em reflexão pedagógica.

Aprender a escrever uma boa instrução para um chatbot pode ser útil. Mas deixa muita coisa por resolver. O aluno precisa de saber verificar a resposta, perceber que dados está a fornecer e reconhecer o que pode perder se entregar à ferramenta o trabalho intelectual que deveria realizar.

A dimensão humana começa antes de abrir a aplicação

Uma das ideias estruturantes da recomendação é que a IA constitui um fenómeno sociotécnico. Em linguagem corrente, os sistemas resultam de escolhas de pessoas e organizações: que dados recolher, que objetivos favorecer, que comportamentos incentivar e que critérios utilizar.

Por isso, compreender IA exige olhar para quem a desenvolve, para as instituições que a adotam e para as pessoas afetadas pelo seu funcionamento.

O documento chama a atenção para a privacidade, a discriminação, a diversidade cultural e linguística, a sustentabilidade ambiental e a qualidade das relações humanas. Adverte também que uma interação aparentemente humana pode favorecer confiança excessiva e dependência psicológica. Os sistemas não possuem a experiência nem a compreensão humanas que a linguagem das interfaces pode sugerir.

Na escola, estas questões tornam-se concretas. Que acontece quando um aluno passa a procurar sempre num chatbot a validação de uma ideia? Como reage a uma resposta que desvaloriza a sua variedade linguística? Que confiança devemos depositar numa aplicação que promete avaliar capacidades ou antecipar dificuldades?

O texto reconhece que os efeitos no desenvolvimento de competências variam com a idade e o contexto. Não sustenta, portanto, que qualquer utilização produz inevitavelmente o mesmo dano. Exige discernimento e lembra que as alegações sobre eficácia e segurança devem apoiar-se em evidência científica independente, aberta à discussão.

Convém também contextualizar a novidade: a preocupação com as pessoas não surgiu agora. O referencial de competências em IA para alunos da UNESCO, publicado em 2024, já inclui uma perspetiva centrada no ser humano e a ética da IA. O contributo distintivo do Conselho da Europa está na ênfase dada a estas questões dentro de uma orientação intergovernamental que liga educação, direitos humanos, democracia e ação pública.

Saber decidir inclui saber não usar

As discussões escolares sobre IA depressa chegam à pergunta: permitimos ou proibimos?

A recomendação oferece critérios para ir mais longe. O ponto 28 do anexo afirma que as pessoas devem poder tomar decisões informadas sobre a utilização ou a não utilização de sistemas de IA. O ponto 27 defende que não se deve delegar nestes sistemas a capacidade de agir, o julgamento ou a responsabilidade.

Isto não corresponde a uma rejeição geral das proibições, nem a uma autorização para utilizar qualquer ferramenta. Permite fundamentar decisões diferentes em situações diferentes.

Numa atividade destinada a desenvolver a escrita autónoma, o professor pode reservar uma etapa sem assistência de IA. Noutra, pode apresentar uma resposta gerada e pedir aos alunos que a confrontem com um texto estudado. São propostas pedagógicas coerentes com o princípio de decisão informada; não são prescrições específicas da recomendação.

Também é possível aprender sobre IA sem criar uma conta ou conversar diretamente com um chatbot. Uma resposta previamente selecionada pelo professor, uma imagem sintética ou a análise de um sistema de recomendações podem servir de material de estudo. A escolha deve atender à idade, ao desenvolvimento dos alunos e à finalidade da aprendizagem.

O que muda para professores e alunos

O documento propõe a integração da literacia em IA nos currículos e referenciais de aprendizagem, com abordagens interdisciplinares. O assunto atravessa a educação para a cidadania, a literacia digital, a literacia mediática e da informação, as áreas científicas e outras disciplinas relevantes.

Em Português, por exemplo, podemos trabalhar a qualidade da argumentação, a credibilidade das fontes ou as diferenças entre um resumo fiel e uma reformulação que altera o sentido. Em História, podemos discutir o apagamento de perspetivas. Em Ciências, examinar a evidência apresentada. A biblioteca escolar pode articular este trabalho com a pesquisa, a leitura e a educação para os media.

Há duas orientações especialmente relevantes no ponto 34 do anexo. A primeira é a defesa da autonomia profissional e da liberdade pedagógica dos professores, prevenindo a sua padronização ou controlo automatizado. A segunda é a recomendação de que as instituições informem alunos, famílias e docentes, de forma acessível, quando utilizam sistemas de IA, explicando as finalidades, o funcionamento, as limitações e os direitos das pessoas afetadas.

A responsabilidade institucional acompanha, assim, aquilo que se pede aos alunos. Uma escola que exige transparência sobre a utilização de IA nos trabalhos deve também explicar como a utiliza nos seus próprios processos.

Avaliar o raciocínio e as decisões

A recomendação propõe abordagens de avaliação, incluindo formativa e entre pares, que considerem a compreensão técnica, o raciocínio ético, o pensamento crítico e a capacidade de decidir de forma informada.

Podemos traduzir esta orientação numa atividade simples de leitura e escrita:

  1. O aluno lê um texto e constrói uma interpretação inicial.
  2. Analisa uma resposta de IA selecionada pelo professor.
  3. Assinala afirmações corretas, erros, omissões e ideias que precisam de confirmação.
  4. Fundamenta a análise com passagens do texto e outras fontes adequadas.
  5. Reformula a sua interpretação e explica as decisões tomadas.

Esta sequência é uma proposta nossa. Permite observar o percurso intelectual do aluno, além da qualidade do produto final. A pergunta «onde foste buscar esta conclusão?» pode revelar mais aprendizagem do que a fluência de uma página inteira.

Aos governos pede-se continuidade, recursos e participação

O texto não entrega toda a tarefa ao professor que decide experimentar uma ferramenta. Recomenda estratégias nacionais coerentes, responsabilidades institucionais definidas, recursos adequados, materiais educativos abertos e adaptáveis e projetos-piloto que ajudem a fundamentar a implementação.

Na formação, propõe percursos contínuos, modulares e regularmente atualizados. Inclui a formação inicial dos professores e valoriza oportunidades de experimentação responsável em ambientes seguros. Uma sessão de apresentação de aplicações pode ser um começo; dificilmente dará resposta, sozinha, a este conjunto de exigências.

Alunos, docentes, famílias e comunidades devem participar no desenho e na avaliação das políticas. Bibliotecas, museus e centros culturais aparecem como espaços relevantes para alargar a literacia em IA a todas as gerações. A preocupação com os grupos vulneráveis e com as barreiras de acesso atravessa o documento.

Para um agrupamento, uma primeira tradução possível seria rever as regras de utilização de IA, identificar necessidades de formação, planear atividades adequadas a cada ciclo e esclarecer a comunidade sobre os sistemas em uso. Depois, avaliar o que os alunos aprenderam e o que precisa de mudar. Estas são propostas de aplicação local, não um calendário imposto pelo Conselho da Europa.

Uma escola capaz de explicar as suas escolhas

A relevância desta recomendação mede-se pelas decisões que pode ajudar a melhorar. Que ferramenta adotamos? Com que finalidade? O que sabemos sobre os seus efeitos? Como protegemos o espaço de aprendizagem e de relação de que os alunos precisam?

O próprio documento reconhece a educação como uma componente essencial da infraestrutura democrática. A expressão ganha sentido quando pensamos num cidadão capaz de identificar uma manipulação, questionar uma decisão automatizada ou exigir explicações a uma instituição.

Esse trabalho começa em gestos escolares muito concretos: ler com atenção, verificar uma fonte, sustentar uma discordância, reconhecer um erro e assumir uma decisão.

Quando um aluno consegue dizer «a ferramenta sugeriu isto, mas eu decidi de outra maneira, por estas razões», há ali uma aprendizagem que merece ser reconhecida. E uma boa razão para a escola continuar a exigir pensamento próprio.


Fontes e nota editorial: Artigo elaborado a partir da Recomendação CM/Rec(2026)12, adotada em 2 de setembro de 2026, e do documento de síntese Artificial Intelligence Literacy for Democratic Societies, fornecidos em anexo. As ligações no texto remetem para esses documentos e para fontes oficiais do Conselho da Europa e da UNESCO. Os exemplos de sala de aula e as propostas de aplicação local são dos autores.

PISA 2025: o que a Inglaterra nos ensina sobre uma escola que não desiste de ensinar

A Inglaterra recupera em Ciências enquanto a média da OCDE recua. Mas os resultados do PISA 2025 pedem mais do que a celebração de um «milagre»: obrigam-nos a discutir conhecimento, leitura, desigualdades e o lugar da inteligência artificial na aprendizagem.

Há uma pergunta que merece entrar nas salas de professores antes da próxima discussão sobre plataformas, equipamentos ou inteligência artificial: estamos a dar aos alunos mais condições para aprender ou apenas mais maneiras de apresentar um trabalho concluído?

Uma resposta bem escrita pode esconder uma ideia mal compreendida. Uma apresentação impecável pode não resistir a duas perguntas. E uma escola muito equipada pode continuar a ter alunos que leem com dificuldade, se perdem num enunciado e não conseguem justificar uma conclusão.

Os resultados do PISA 2025 tornam esta discussão particularmente urgente. O desempenho inglês chama a atenção num panorama de recuo da média da OCDE. Ao mesmo tempo, a perda de resultados entre alunos socialmente favorecidos abala uma certeza confortável: a de que algumas famílias conseguiriam sempre proteger os filhos das fragilidades do sistema.

Vale a pena olhar para a Inglaterra. Com curiosidade, com rigor e sem transformar um país num cartaz.

A Inglaterra melhora em Ciências. Nas outras áreas, resiste

O relatório nacional de Inglaterra sobre o PISA 2025 permite distinguir três situações que não devem ser confundidas. Em Ciências, há recuperação. Em Leitura e Matemática, os valores ficam praticamente no mesmo ponto da edição anterior.

DomínioInglaterra — 2022Inglaterra — 2025Média OCDE — 2025
Ciências503516482
Leitura496497461
Matemática492492463
Fontes: relatórios nacionais ingleses e comparação publicada pelo serviço de investigação do Parlamento galês. Valores médios em pontos PISA, arredondados.

Os 13 pontos de subida em Ciências merecem atenção. Mas um ponto em Leitura não autoriza a anunciar uma transformação, e a estabilidade em Matemática também precisa de ser chamada pelo seu nome. Além disso, os resultados ingleses nestas duas áreas continuam abaixo dos de 2018: 505 pontos em Leitura e 504 em Matemática.

Subir numa classificação internacional e melhorar a aprendizagem não são exatamente a mesma coisa. Quando outros sistemas recuam, é possível ganhar posições sem aumentar a pontuação.

Há ainda um cuidado metodológico: o próprio Department for Education alertou para um possível enviesamento dos resultados ingleses de 2022, devido à composição da amostra. As comparações exigem, por isso, mais prudência do que as manchetes costumam permitir.

Nada disto apaga o interesse do caso inglês. Ajuda a perceber o que devemos procurar nele.

Quando a distância diminui porque os melhores recuam

A síntese da OCDE para o PISA 2025 assinala um resultado inquietante: entre 2022 e 2025, a redução das diferenças socioeconómicas de desempenho refletiu sobretudo perdas entre alunos favorecidos, em vez de progressos entre os desfavorecidos.

É uma aproximação que não podemos celebrar. A equidade que interessa à escola exige que mais alunos aprendam melhor.

Convém, porém, acertar nas palavras. «Favorecido» no PISA não significa simplesmente «rico». A classificação considera um índice de estatuto económico, social e cultural, e as comparações nacionais recorrem aos grupos com posições mais altas e mais baixas nesse índice. Também não se deve confundir vantagem social com desempenho elevado: são características relacionadas, mas distintas.

O alerta permanece. Os recursos familiares não dispensam uma escola capaz de ensinar, acompanhar dificuldades e desafiar quem já sabe mais.

Em Portugal, a situação tem contornos próprios. A nota da OCDE sobre o país indica uma diferença de 92 pontos em Ciências entre os quartos mais e menos favorecidos da população escolar. Entre 2015 e 2025, essa distância manteve-se estável, com perdas de dimensão semelhante nos dois grupos.

Não podemos, portanto, aplicar automaticamente a Portugal todas as conclusões da média internacional, nem misturar períodos de comparação diferentes.

Ensinar a ler continua a ser uma decisão estrutural

Uma das marcas da política educativa inglesa é a aposta no ensino sistemático das correspondências entre letras e sons, através de systematic synthetic phonics. A criança aprende a reconhecer essas correspondências e a combinar os sons para ler palavras.

Mas o referencial inglês para o ensino da leitura é mais amplo do que esta dimensão. Inclui oralidade, histórias, fluência, compreensão, apoio a alunos mais velhos com dificuldades e desenvolvimento do gosto pela leitura.

Este pormenor interessa-nos muito. A discussão sobre métodos perde utilidade quando reduz a leitura a uma técnica ou presume que a técnica se desenvolve por si mesma.

Para uma escola portuguesa, a pergunta concreta pode começar no 7.º ano: sabemos quais os alunos que compreendem autonomamente um texto e quais os que ainda gastam tanto esforço a decifrá-lo que pouco lhes sobra para pensar sobre ele?

Um aluno pode precisar de trabalhar a fluência. Outro precisa de vocabulário. Outro lê com aparente facilidade, mas não distingue o que o texto afirma daquilo que ele próprio imagina. Dar a todos a mesma ficha dificilmente responde a estas necessidades.

A biblioteca escolar tem aqui um lugar central: aproximar cada leitor de livros que o desafiem, criar continuidade e conversar sobre o que se leu. Isso exige tempo de leitura efetiva, para além das atividades que a celebram.

O conhecimento dá matéria ao pensamento

O currículo nacional inglês explicita o acesso a conhecimentos essenciais como parte da formação dos alunos.

Há nesta opção uma ideia que merece discussão: o pensamento crítico precisa de matéria sobre a qual trabalhar. Para avaliar uma afirmação sobre alterações climáticas, interpretar um gráfico ou reconhecer uma manipulação histórica, o aluno tem de mobilizar conhecimentos e critérios.

Na aula de Português, pedir uma opinião fundamentada implica ensinar a construir essa fundamentação. É preciso ler, reconhecer argumentos, procurar provas, experimentar formulações e rever o que se escreveu.

A partir daqui, a nossa leitura pedagógica é clara: uma boa explicação do professor e uma atividade de investigação podem integrar a mesma sequência. O professor pode mostrar como se interpreta um excerto, acompanhar uma segunda tentativa e, depois, pedir ao aluno que trabalhe com maior autonomia.

A autonomia constrói-se. E a qualidade do apoio importa tanto como o momento em que ele começa a ser retirado.

Consolidar antes de avançar

Na Matemática, a experiência inglesa inclui o desenvolvimento do teaching for mastery, com intercâmbios de professores entre Inglaterra e Xangai. O interesse está na construção progressiva e segura das aprendizagens, apoiada pelo trabalho profissional dos docentes.

A Education Endowment Foundation identifica resultados positivos nas abordagens de aprendizagem para o domínio, mas classifica a robustez da evidência como baixa e sublinha a necessidade de apoio adicional aos alunos com dificuldades. Assinala também que vários estudos com efeitos elevados incluem aprendizagem colaborativa.

Esta cautela é valiosa. A investigação não nos entrega uma receita infalível, nem uma guerra obrigatória entre métodos.

Para as nossas escolas, fica uma questão incómoda: quantas vezes o calendário avança mais depressa do que a compreensão dos alunos? Verificar o que foi aprendido, voltar a explicar e criar oportunidades de prática pode exigir escolhas difíceis na planificação. Essas escolhas merecem discussão conjunta e condições de trabalho.

O PISA, por si só, não permite calcular quanto do resultado inglês se deve a cada reforma. Uma comparação entre países não isola os efeitos do currículo, dos métodos, da formação docente ou das condições sociais.

A atenção também precisa de proteção

Segundo a nota portuguesa do PISA 2025, 31% dos alunos referem que os colegas se distraem com dispositivos digitais na maioria ou em todas as aulas de Ciências; a média da OCDE é de 28%.

O indicador merece precisão: diz respeito à distração observada nos colegas. E a associação entre distração e resultados mais baixos não prova, por si só, uma relação de causa e efeito.

Ainda assim, a escola tem motivos para proteger períodos de trabalho concentrado. Isso passa por regras compreensíveis, rotinas consistentes e decisões pedagógicas sobre quando usar um dispositivo.

Uma simulação pode ajudar a compreender um fenómeno. Um texto pode beneficiar de anotação digital. Uma leitura exigente pode pedir vinte minutos sem notificações nem alternância de tarefas. A orientação da EEF sobre tecnologia educativa coloca precisamente o foco na melhoria do ensino, da avaliação e da prática dos alunos.

Importa perguntar o que o recurso acrescenta à aprendizagem naquela situação concreta.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

A IA torna a distinção entre fazer e aprender mais urgente

Um estudo experimental publicado na PNAS, por Hamsa Bastani e colegas, acompanhou perto de mil alunos do ensino secundário em Matemática. O acesso a IA melhorou o desempenho durante a prática. Contudo, quando a ferramenta foi retirada, o grupo que usara uma versão sem salvaguardas pedagógicas obteve resultados inferiores aos do grupo sem acesso. Uma versão concebida para orientar a aprendizagem, com pistas em vez de respostas prontas, atenuou esse efeito negativo.

É um estudo num contexto específico, não um veredicto sobre todos os usos educativos da IA. Mas oferece uma distinção decisiva: conseguir resolver com ajuda não garante conseguir resolver sozinho mais tarde.

Numa aula de Português, podemos dar consequências práticas a essa distinção. Primeiro, o aluno lê e regista uma interpretação. Depois, pode confrontá-la com uma resposta de IA, verificar as afirmações no texto e reformular o argumento. No final, explica oralmente o que mudou e porquê.

A avaliação deve conseguir ver esse percurso. Uma versão final, isolada, diz-nos demasiado pouco.

O que fazer com estas lições em Portugal

A experiência inglesa justifica estudo atento. Para as escolas portuguesas, propomos cinco prioridades de trabalho:

  • Conhecer melhor os leitores de cada turma, distinguindo dificuldades de decifração, fluência, vocabulário e compreensão.
  • Planear a progressão das aprendizagens, tornando explícito o que o aluno precisa de saber para enfrentar a tarefa seguinte.
  • Proteger tempo de atenção, com regras coerentes e utilização intencional dos dispositivos.
  • Avaliar a autonomia, incluindo explicações orais, etapas de trabalho e tarefas realizadas sem assistência.
  • Dar condições aos professores, reservando tempo para analisar dificuldades, preparar respostas e acompanhar os seus efeitos.

Estas são propostas de ação, não conclusões causais retiradas de uma tabela internacional.

A escola precisa de conseguir acompanhar quem ficou para trás e continuar a desafiar quem pode ir mais longe. Precisa de livros, de conhecimento, de conversa exigente e de professores com tempo para ensinar. A tecnologia pode participar nesse trabalho; a sua presença só se justifica pelo que permite aprender.

Quando o computador se fecha, o que consegue o aluno compreender, explicar e fazer? É aí que devemos procurar a medida do nosso sucesso.