A prática de ensinar sob análise: quando a reflexão transforma o professor | Jorge Steiman

Há uma pergunta incómoda que poucos professores se permitem fazer em voz alta: ensinamos como queremos, ou ensinamos como podemos? Jorge Steiman, professor e investigador argentino da área da Didáctica, vai directo ao centro desta questão num livro que mistura, de forma deliberada e pouco convencional, rigor académico e poesia. Las prácticas de enseñanza — en análisis desde una Didáctica reflexiva (Miño y Dávila, 2018) não é um manual de técnicas pedagógicas. É antes um convite a olhar para o que fazemos na sala de aula com os olhos de quem quer compreender, e não apenas executar.

O ponto de partida pode surpreender quem espera receitas: a prática de ensinar é, antes de tudo, uma prática social. E isso muda tudo.


O habitus que não vemos, mas que age por nós

Steiman apoia-se no sociólogo Pierre Bourdieu para construir o seu argumento central. Para Bourdieu, as práticas sociais não nascem de decisões conscientes e racionais — emergem de disposições interiorizadas ao longo do tempo, a que chamou habitus. São estruturas que estruturam: moldam o modo como agimos, percepcionamos e nos relacionamos, sem que nos demos conta disso.

O professor que entra numa sala de aula não chega em branco. Traz consigo anos de escolaridade como aluno, modelos de professores que o marcaram, crenças sobre o que é “uma boa aula”, imagens de autoridade, ritmos de trabalho. Traz, sobretudo, um conjunto de disposições interiorizadas que funcionam como automatismos. E é exactamente aí que reside o paradoxo: quanto mais o professor domina o “jogo” da sala de aula, menos questiona as suas regras. A competência torna-se, paradoxalmente, um obstáculo à mudança.

Isto não é uma acusação aos professores. É uma constatação sobre a natureza das práticas humanas. O problema começa quando esses automatismos passam a ser a única forma de ensinar — quando a rotina se converte em invisibilidade e deixamos de ver o que fazemos.


Prática docente e práticas de ensino: uma distinção que importa

Uma das contribuições mais clarificadoras do livro é a distinção entre prática docente e práticas de ensino — dois conceitos que tendemos a usar como sinónimos, mas que não o são.

A prática docente é o trabalho amplo do professor: inclui as aulas, mas também as reuniões, a avaliação, a gestão de turma, a burocracia, a relação com a comunidade escolar. É um trabalho situado histórica, social e institucionalmente. Steiman, recuperando Elena Achilli, lembra que “não há professor sem escola” — a instituição não é apenas o cenário da prática; é também o que a constitui.

As práticas de ensino, por sua vez, são o núcleo desse trabalho amplo: aquilo que acontece no encontro intencional entre quem ensina, quem aprende e o conhecimento. São intervenções que não acontecem no vazio — são contextualizadas, reguladas, carregadas de escolhas epistemológicas, éticas e políticas, muitas vezes implícitas. Quando um professor decide por que ordem apresenta os conteúdos, que exemplos usa, que perguntas faz ou deixa de fazer, que vozes inclui ou silencia, está a tomar posições que raramente examina.

Esta distinção é útil para os professores porque obriga a reconhecer que ensinar bem não se resume a dar boas aulas no sentido técnico. Exige atenção ao que está por trás das aulas — às representações, aos pressupostos, às tradições que nos habitam.


O mito do professor que “já sabe”

Steiman identifica alguns mitos que condicionam as práticas de ensino, particularmente no contexto do ensino superior, mas que se reconhecem facilmente em qualquer escola. Um deles é o que poderíamos chamar o mito da autossuficiência: a ideia de que dominar bem uma área de conhecimento é condição suficiente para a ensinar bem. Quem sabe, sabe ensinar — vai o pressuposto.

A investigação em Didáctica desmente sistematicamente esta crença. Conhecer uma matéria e saber transformá-la em experiência de aprendizagem significativa para os alunos são competências distintas, que requerem saberes diferentes. A transposição didáctica — o processo pelo qual o saber científico se transforma em saber ensinável — é, em si mesma, um trabalho exigente, que implica escolhas e que pode deformar o conhecimento se não houver vigilância epistémica. Mas, mais do que isso, ensinar é uma intervenção sobre pessoas, não apenas sobre conteúdos.

Outro mito que Steiman analisa é o da “boa predisposição” como substituto da preparação. A sala de aula não é um espaço neutro onde o entusiasmo basta: é um campo atravessado por relações de poder, expectativas, contratos implícitos e condicionamentos institucionais. Ignorá-los é reproduzi-los sem os questionar.


Dewey, Schön e o valor de parar para pensar

O coração do livro está no terceiro e quarto capítulos, dedicados à prática reflexiva e à análise didáctica. Steiman convoca dois autores fundamentais neste campo: John Dewey e Donald Schön.

Dewey distinguiu, no início do século XX, entre a acção de rotina — aquela que segue hábitos estabelecidos sem os interrogar — e a acção reflexiva, que implica uma consideração activa, persistente e cuidada das crenças e dos conhecimentos que sustentam o que fazemos. Para Dewey, a reflexão não é um acto espontâneo: requer abertura, responsabilidade e honestidade intelectual.

Schön, décadas mais tarde, afinou este conceito e introduziu uma distinção que qualquer professor reconhece intuitivamente: a diferença entre reflexão na acção e reflexão sobre a acção. A primeira acontece durante o acto de ensinar — quando algo corre de forma inesperada e o professor ajusta, experimenta, improvisa. A segunda acontece depois — quando, à distância da situação, o professor a revisita, a interroga, procura compreender o que aconteceu e porquê.

O que Steiman acrescenta a esta tradição é uma terceira dimensão, frequentemente negligenciada: a análise didáctica das próprias práticas. Não se trata apenas de reflectir sobre o que correu bem ou mal numa aula. Trata-se de interrogar os fundamentos das decisões — perguntar não apenas o que fiz, mas porque é que fiz assim, que representações sustentam esta escolha, que racionalidade está aqui implícita.


Como se analisa didacticamente uma aula

A parte mais propositiva do livro detalha um percurso possível de análise das próprias práticas. Steiman sugere que analisar didacticamente uma aula implica percorrer, pelo menos, cinco movimentos.

O primeiro é captar a unidade de sentido da aula: identificar aquilo que, no conjunto de tudo o que aconteceu, constitui o fio condutor — o que é que realmente se estava a ensinar e o que é que os alunos estavam a aprender (que pode não coincidir).

O segundo é encontrar indícios e identificar recorrências: os padrões que se repetem na acção docente, as formas habituais de abrir ou fechar um momento de trabalho, as estratégias preferidas, os silêncios sistemáticos. As recorrências revelam o habitus em acção.

O terceiro movimento é interrogar as decisões: não as decisões óbvias e deliberadas, mas as que foram tomadas como evidentes, sem alternativa, como se não houvesse outra forma de fazer. São estas as mais reveladoras.

O quarto é desvelar as representações e os pressupostos subjacentes: o que o professor acredita sobre os alunos, sobre o conhecimento, sobre a aprendizagem, sobre o seu próprio papel — tudo isso está presente nas escolhas didácticas, mesmo quando não é explicitado.

O quinto, finalmente, é interpelar a racionalidade subjacente: que visão de mundo, de educação e de pessoa está a sustentar o modo como se ensina? Esta é a pergunta mais difícil e, por isso, a mais importante.


O que isto significa para os professores portugueses

A escola portuguesa vive um momento de transformação acelerada. As discussões em torno do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, da Autonomia e Flexibilidade Curricular, da educação para a cidadania digital ou das aprendizagens essenciais têm colocado o professor num lugar de renovada responsabilidade. Mas há uma tensão que estas reformas nem sempre resolvem: a diferença entre mudar o que se faz e mudar o modo como se pensa sobre o que se faz.

O risco de qualquer reforma curricular é que os professores adoptem novas formas sem alterar as representações que as animam. Que se use uma nova terminologia com os velhos pressupostos. Que a “aula de projeto” reproduza a lógica da aula expositiva com outro nome. Que a “avaliação formativa” continue a funcionar, na prática, como classificação disfarçada.

É aqui que a prática reflexiva entra — não como mais um requisito burocrático (mais um relatório, mais uma grelha de auto-avaliação), mas como uma postura de trabalho. Uma forma de habitar o ofício de professor que reconhece que ensinar é sempre incerto, sempre situado, sempre susceptível de ser feito de outro modo.


Ensinar a ser reflexivo: um desafio que começa na formação

Uma das ideias mais provocadoras de Steiman é esta: se os futuros professores aprenderem a ser reflexivos sobre a sua prática, isso ficará — tornar-se-á parte dos seus habitus docentes. Mais do que dominar técnicas ou ferramentas, mais do que planificar com perfeição formal, o que marca a diferença a longo prazo é a capacidade de questionar o próprio trabalho com honestidade e sistematicidade.

Isto tem implicações directas para a formação inicial e contínua de professores. Significa que os estágios e as práticas supervisionadas não devem ser avaliados apenas pela competência técnica demonstrada, mas pela qualidade da reflexão que os futuros professores são capazes de produzir sobre si próprios. Significa que a supervisão pedagógica deve criar condições genuínas de análise — e não apenas momentos de validação ou correcção.

E significa, também, que as escolas que quiserem crescer precisam de criar espaços onde os professores possam pensar juntos sobre o que fazem — não em anedotários de casos curiosos, mas em exercícios de análise sustentada pelas categorias que a Didáctica tem vindo a construir.


Uma nota final: a poesia como método

Há um aspecto de Las prácticas de enseñanza que não pode deixar de ser referido: ao longo de todo o livro, Steiman intercala poemas — seus e de outros autores como Oliverio Girondo, Juan Gelman ou Hamlet Lima Quintana. Não como ornamento, mas como método. A convicção de que a literatura abre portas que a argumentação académica, por si só, não consegue abrir.

Não deixa de ser, também, uma posição pedagógica. Os melhores professores sabem que aprender não é só um processo cognitivo — é também emocional, relacional, estético. E que a pergunta “porque é que faço assim?” ganha outra dimensão quando é feita não apenas com a cabeça, mas com tudo o que somos.


Referência

Steiman, J. (2018). Las prácticas de enseñanza — en análisis desde una Didáctica reflexiva. Miño y Dávila.

A Argentina e a inteligência artificial nas escolas: aposta corajosa ou salto no escuro?

Há algo de revelador no modo como a Argentina está a lidar com a inteligência artificial nas escolas. Não com hesitação, não com o habitual compasso de espera que tantos países adoptaram enquanto debatiam regulações e orientações. A Argentina decidiu avançar — e fê-lo a uma velocidade que surpreende mesmo quem acompanha de perto as políticas educativas da região.

A questão que se impõe, porém, não é apenas a da velocidade. É a da qualidade do que está a ser construído — e de quem fica, inevitavelmente, de fora.

Da secundária para a primária: um passo que não é pequeno

Em 2025, a Cidade de Buenos Aires tornou-se a primeira jurisdição da Argentina — e a primeira de toda a América Latina — a incorporar inteligência artificial no currículo das escolas públicas de ensino secundário. Um ano depois, no arranque do ano lectivo de 2026, o passo seguinte foi dado: a IA chegou ao ensino básico. Mais de 300 mil alunos de jardim de infância e de primária, distribuídos por 1700 escolas públicas, passaram a ter acesso a ferramentas de IA generativa como parte integrante da sua experiência escolar.

A ferramenta escolhida para os alunos do ensino básico foi o Gemini, da Google. As contas foram criadas pela administração pública, dentro de um ambiente institucional definido como seguro e pedagogicamente orientado. O objectivo declarado é que os alunos aprendam a explorar, criar e investigar com estas ferramentas — e não apenas a utilizá-las de forma irreflectida.

Ao mesmo tempo, foi lançado em 2025, a nível nacional, o PaideIA — Programa Argentino de Innovación Educativa com Inteligencia Artificial —, ao qual se seguiu uma decisão do Conselho Federal de Educação que tornou obrigatório o ensino de conteúdos de IA nos três níveis escolares obrigatórios: inicial, básico e secundário. Algumas províncias foram ainda mais longe: a Misiones aprovou legislação própria que estabelece o uso transversal da IA em todos os níveis de ensino.

26 000 professores formados — e a pergunta que isso levanta

Talvez o dado mais significativo desta política não seja o número de alunos abrangidos, mas o investimento na formação docente. A Cidade de Buenos Aires anunciou que mais de 26 000 professores foram já formados em inteligência artificial, com percursos adaptados a cada nível e modalidade de ensino — incluindo educação especial e formação de adultos. A oferta inclui módulos com certificação internacional, como “Criação de actividades interactivas”, “Investigação estratégica com Deep Research” ou “Laboratório de criação MultimedIA”.

Foram ainda desenvolvidas mais de 500 gems — assistentes de IA personalizados, desenhados para apoiar a aprendizagem autónoma e reforçar o trabalho docente — dentro de um ambiente controlado e alinhado com os critérios pedagógicos do sistema educativo.

Estes números são expressivos. Mas levantam uma pergunta que não se resolve apenas com formação técnica: estão os professores a ser preparados para usar a IA, ou para pensar sobre ela? A diferença não é pequena. Um docente que sabe criar actividades com uma ferramenta de IA está melhor equipado do que um que não sabe. Mas um docente que consegue interrogar criticamente o que essa ferramenta produz, identificar os seus enviesamentos e orientar os alunos para além do resultado imediato — esse é insubstituível.

A OCDE, no seu relatório Digital Education Outlook 2026, coloca precisamente o professor no centro de qualquer uso educativo significativo da inteligência artificial. Não como utilizador passivo de ferramentas, mas como mediador pedagógico capaz de orientar, limitar e dar sentido à interacção entre o aluno e a tecnologia. Sem esse papel activo, os benefícios potenciais da IA tendem a diluir-se — e os riscos a ampliar-se.

O que dizem os dados sobre os alunos argentinos

Um estudo de 2025 da organização Argentinos por la Educación — “Inteligencia Artificial en la Educación: desafíos y perspectivas” — apresenta dados que merecem atenção. O uso de ferramentas de IA generativa cresce com a idade e atinge os 74% entre adolescentes de 15 a 17 anos, sobretudo nos últimos anos do ensino secundário. A maioria utiliza estas ferramentas com fins educativos: 66% dos estudantes recorre à IA para resolver trabalhos escolares.

O que isto significa, em termos práticos, é que a IA já está dentro da escola — com ou sem política oficial que a enquadre. A questão não é, portanto, se os alunos vão usá-la. É se o farão com algum acompanhamento crítico, ou entregues a si próprios.

O mesmo estudo alerta para a existência de brechas segundo o nível socioeconómico. Não é um dado novo, mas é um dado que incomoda, sobretudo num contexto em que a adopção de ferramentas de IA corre o risco de ampliar desigualdades já existentes. A chamada “nova divisão digital” não opõe apenas quem tem acesso à tecnologia e quem não tem — opõe quem tem acesso com orientação e quem tem acesso sem ela.

Os riscos que é preciso nomear

A análise da Brookings Institution, divulgada em janeiro de 2026 e baseada numa investigação global com mais de 500 alunos, famílias e docentes de quatro continentes, é incómoda: os riscos da IA aplicada ao contexto escolar superam, na situação actual, os seus benefícios potenciais.

Os riscos identificados não são abstractos. Fala-se de aprendizagem superficial e de perda de pensamento crítico quando os alunos delegam nas máquinas aquilo que deveriam construir por si mesmos. Fala-se de privacidade — e de como a recolha massiva de dados de menores por plataformas comerciais é uma realidade que raramente está no centro do debate público. Fala-se de desonestidade académica, mas também de algo mais subtil: a erosão da autonomia dos alunos, que podem habituarse a esperar a resposta em vez de construir o raciocínio.

Há ainda a questão das empresas tecnológicas. O mercado dos chatbots educativos está a crescer rapidamente, com plataformas comerciais a oferecer soluções personalizadas para escolas — algumas com lógicas de negócio que nem sempre coincidem com os interesses pedagógicos. Saber distinguir entre uma ferramenta com propósito educativo genuíno e um produto que usa a escola como canal de captação de dados e de fidelização é uma competência que as administrações públicas precisam de desenvolver — antes de assinar contratos.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

O que a Argentina está a fazer bem — e o que ainda está em aberto

Reconheça-se o que merece reconhecimento: a Argentina está a tomar decisões de política pública em vez de deixar que o mercado as tome por ela. A obrigatoriedade curricular, a formação docente em larga escala, a criação de ambientes institucionais controlados para o acesso às ferramentas — tudo isto aponta para uma abordagem que tenta colocar a pedagogia antes da tecnologia.

Mas a dimensão territorial da Argentina torna a equidade difícil. O que está a acontecer na Cidade de Buenos Aires — com os seus recursos, a sua infraestrutura e a sua capacidade de mobilização — não é o que está a acontecer numa escola de uma localidade remota de Salta ou do Chaco. A política nacional existe, mas a implementação é necessariamente desigual. E uma política educativa que beneficia quem já tinha mais é uma política que precisa de ser questionada.

A pergunta que um expert em educação levantou, com uma clareza que vale a pena recuperar, resume bem o dilema: “O agente diz-nos quantos alunos podem abandonar a escola — quando seguramente o professor já o sabia. Então, estamos a adquirir mais informação ou a construir uma grande infraestrutura para resolver algo que os professores já conheciam, quando o que falta é dar-lhes os instrumentos para o resolver?”

É uma boa pergunta. E o facto de ser feita em voz alta, dentro do próprio debate argentino, é um sinal de maturidade.

Para quem ensina: o que vale a pena reter

A experiência argentina não é uma receita — é um espelho. Um espelho que mostra o que acontece quando uma administração pública decide que a inteligência artificial é demasiado importante para ser deixada fora da escola, mas que também revela as tensões e as contradições que inevitavelmente emergem.

Para professores que observam este processo de longe — ou que estão eles próprios a navegar a mesma questão nas suas salas de aula —, há algumas ideias que parecem sólidas independentemente do contexto:

A IA que chega à escola sem orientação pedagógica não é neutra. Produz efeitos — no modo como os alunos constroem conhecimento, no modo como encaram o esforço, no modo como se relacionam com o erro. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos, mas não serão nulos.

O papel do professor não se tornou menos importante com a IA. Tornou-se mais exigente. Porque agora não basta saber — é preciso saber ajudar os outros a pensar com e sobre as ferramentas que têm disponíveis.

E a brecha digital que mais importa não é a do acesso. É a da compreensão. Garantir que todos os alunos chegam à ferramenta é necessário — mas não suficiente. O que diferencia uma experiência educativa de uma experiência de consumo passivo de conteúdos gerados automaticamente é, sempre, o que acontece entre a ferramenta e o aluno: a mediação humana, crítica e intencional.

A Argentina está a aprender isto, de forma acelerada e em público. Vale a pena acompanhar o que vai saindo desta experiência.


Fontes:

Resnik, D. (10 de abril de 2026). Qué hay detrás del boom de la inteligencia artificial en la educación: ¿Riesgo o beneficio? Página 12. https://www.pagina12.com.ar/2026/04/10/que-hay-detras-del-boom-de-la-inteligencia-artificial-en-la-educacion-riesgo-o-beneficio/

Gobierno de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. (25 de fevereiro de 2026). Más de 300 mil alumnos de Inicial y Primaria comenzaron las clases: desde este año van a aprender sobre Inteligencia Artificial. https://buenosaires.gob.ar/gcaba_historico/noticias/mas-de-300-mil-alumnos-de-inicial-y-primaria-comenzaron-las-clases-desde

Gobierno de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. (2026). La Ciudad ya formó a más de 26.000 docentes en inteligencia artificial. https://buenosaires.gob.ar/gcaba_historico/noticias/la-ciudad-ya-formo-mas-de-26000-docentes-en-inteligencia-artificial

Argentinos por la Educación. (2025). Inteligencia Artificial en la Educación: desafíos y perspectivas. Buenos Aires.

Auroria. (4 de agosto de 2025). La inteligencia artificial ya es obligatoria en las escuelas argentinas: qué significa y cómo prepararse. https://www.auroria.com.ar/la-inteligencia-artificial-ya-es-obligatoria-en-las-escuelas-argentinas-que-significa-y-como-prepararse/

Infobae. (18 de janeiro de 2026). La inteligencia artificial preocupa a expertos por su efecto en estudiantes. https://www.infobae.com/educacion/2026/01/18/la-inteligencia-artificial-preocupa-a-expertos-por-su-efecto-en-estudiantes/

ProFuturo. (18 de fevereiro de 2026). IA educativa: riesgos reales para los sistemas más vulnerables. https://profuturo.education/observatorio/tendencias/ia-educativa-riegos-reales-para-los-sistemas-mas-vulnerables/

OCDE. (2026). Digital Education Outlook 2026. OECD Publishing. https://www.oecd.org

Aos cinco anos, o jogo já está a começar — e nem todos partem do mesmo lugar | OCDE

O que revela o maior estudo internacional sobre aprendizagem na primeira infância (e o que isso muda para quem ensina)

Download |

Há uma ideia que se repete com frequência nos discursos sobre educação: «tudo começa cedo». É uma dessas frases que toda a gente aceita, mas que raramente se traduz em mudanças concretas dentro das escolas ou nas políticas que as sustentam. Pois bem, a OCDE acaba de publicar um estudo que transforma essa intuição em evidência — e os resultados merecem atenção séria de quem trabalha em educação.

O relatório Building Strong Foundations for Life: Results from the 2025 Early Learning and Child Well-being Study (OCDE, 2026) apresenta os resultados do segundo ciclo do IELS (International Early Learning and Child Well-being Study), o maior inquérito internacional dedicado a avaliar o desenvolvimento de crianças com cinco anos. Mais de 23 000 crianças de oito jurisdições participaram nesta edição, desde a Inglaterra ao Brasil, da Coreia do Sul aos Emirados Árabes Unidos. Os dados são claros e, em vários pontos, desconfortáveis.

Este artigo explora os principais resultados e, sobretudo, o que significam para quem está no terreno — nas escolas, nas salas de aula e na gestão de políticas educativas.


O que foi medido (e como)

Antes de entrar nos resultados, vale a pena compreender a ambição do estudo. O IELS não se limita a medir se uma criança de cinco anos reconhece letras ou conta até dez. Avalia três grandes dimensões do desenvolvimento, organizadas em dez domínios específicos: a aprendizagem fundacional (literacia e numeracia emergentes), as funções executivas (inibição, memória de trabalho e flexibilidade mental) e o desenvolvimento socioemocional (identificação de emoções, atribuição emocional, confiança, comportamento pró-social e comportamento não disruptivo).

A avaliação das crianças é feita através de jogos interactivos em tablets — desenhados para serem adequados à idade e ao nível de desenvolvimento — e complementada por questionários respondidos por pais e educadores. Não se trata de um exame: trata-se de captar, de forma lúdica e rigorosa, o ponto em que cada criança se encontra antes de iniciar o percurso escolar formal.

Para quem trabalha no 1.º ciclo do ensino básico, esta informação é preciosa: ajuda a compreender o que as crianças trazem consigo quando chegam à escola — e como esse ponto de partida varia enormemente.


As desigualdades já estão instaladas aos cinco anos

Se há uma mensagem central no relatório, é esta: aos cinco anos, as diferenças entre crianças são já profundas e estão fortemente ligadas à condição socioeconómica das famílias.

Em média, as crianças de meios socioeconómicos favorecidos apresentam resultados entre 60 e 70 pontos acima dos seus pares desfavorecidos nos domínios da literacia e da numeracia emergentes. Para colocar este número em perspectiva, o desvio-padrão das escalas do IELS é de aproximadamente 100 pontos. Estamos, portanto, a falar de uma diferença substancial — o equivalente a mais de meio desvio-padrão — antes sequer de a escolaridade obrigatória ter início.

Estas desigualdades são mais pronunciadas nas aprendizagens fundacionais (literacia e numeracia), mas estão igualmente presentes, embora de forma mais moderada, nas funções executivas e no desenvolvimento socioemocional. A identificação de emoções, por exemplo, apresenta uma diferença média de 43 pontos entre crianças favorecidas e desfavorecidas.

O que isto significa para um professor do 1.º ciclo? Que a turma que recebe em setembro não parte de um patamar comum. As diferenças que irá observar ao longo do ano não nasceram na escola — muitas delas já estavam consolidadas muito antes. Ignorar este facto conduz a expectativas desajustadas e a intervenções tardias.

Clicar na imagem para ver a apresentação…


Os rapazes ficam para trás — sobretudo nas competências socioemocionais

O IELS 2025 confirma uma tendência que outros estudos já vinham a documentar: aos cinco anos, as raparigas superam os rapazes nas três dimensões avaliadas. A diferença é mais marcada no desenvolvimento socioemocional — entre 20 e 31 pontos de vantagem em domínios como a identificação emocional, o comportamento pró-social e o comportamento não disruptivo.

Nas aprendizagens fundacionais, a diferença de género é menor e, na numeracia emergente, quase inexistente. Já nas funções executivas, as raparigas apresentam vantagem na inibição e na flexibilidade mental, embora as diferenças nem sempre atinjam significância estatística em todas as jurisdições.

Há um dado particularmente relevante para educadores: estas diferenças de género são maiores entre as crianças com desempenhos mais fracos. Ou seja, os rapazes com maiores dificuldades estão proporcionalmente mais distantes das raparigas do que os rapazes com bom desempenho. Isto sugere que o apoio diferenciado nos primeiros anos de escolaridade — sobretudo no domínio socioemocional — pode beneficiar particularmente os rapazes em situação de maior vulnerabilidade.


Os livros vencem os ecrãs (e não é sequer uma competição renhida)

Uma das conclusões mais claras do relatório diz respeito ao papel dos ambientes de aprendizagem em casa. O que os pais fazem com os filhos conta — e conta muito, independentemente do rendimento familiar.

Crianças cujos pais leem para elas com frequência elevada (cinco ou mais dias por semana) obtêm resultados significativamente superiores em literacia e numeracia emergentes, mesmo depois de se descontar o efeito do estatuto socioeconómico. A leitura partilhada mostra, entre todas as actividades parentais analisadas, a associação mais forte e consistente com os resultados das crianças.

Inversamente, o uso de dispositivos digitais — que afecta já quase metade das crianças de cinco anos numa base diária — apresenta associações fracas e, por vezes, negativas com os resultados de aprendizagem. As actividades digitais «educativas» realizadas em conjunto pelos pais e filhos também não mostram benefícios consistentes. De facto, nos Países Baixos e na Comunidade Flamenga da Bélgica, a utilização frequente de dispositivos aparece correlacionada negativamente com vários domínios de desempenho.

Para as escolas, esta constatação tem implicações directas. Por um lado, reforça a importância de programas que incentivem a leitura em família — não apenas como actividade escolar, mas como prática quotidiana. Por outro, convida a uma reflexão cautelosa sobre a introdução de tecnologia nos primeiros anos: mais ecrã não significa melhor aprendizagem. E, para crianças de cinco anos, os dados sugerem que os livros continuam a ser o instrumento mais poderoso.


O envolvimento dos pais na escola faz diferença (e não é só uma questão de recursos)

O relatório mostra que 43% das crianças no IELS 2025 têm pais fortemente envolvidos nas actividades dos centros de educação e cuidados na primeira infância. E o envolvimento parental está associado a melhores resultados — sobretudo no desenvolvimento socioemocional — mesmo depois de se controlar o nível socioeconómico.

Este é um ponto importante: a relação entre envolvimento parental e resultados das crianças não se explica apenas pelo facto de as famílias mais favorecidas tenderem a ser mais participativas. Mesmo entre famílias com perfis socioeconómicos semelhantes, o envolvimento activo na escola está ligado a melhores competências de confiança, comportamento pró-social e comportamento não disruptivo.

O que isto sugere é que a ligação escola-família na primeira infância não é um luxo — é uma alavanca. Criar canais de comunicação eficazes, promover momentos de participação acessíveis e valorizar o papel dos pais como parceiros educativos pode ter um impacto mensurável nos resultados das crianças.


A educação pré-escolar ajuda — mas não está a reduzir desigualdades

Participar em programas de educação e cuidados na primeira infância está, de forma geral, positivamente associado a melhores resultados aos cinco anos, sobretudo nos domínios da literacia e da numeracia. As crianças que iniciam a frequência mais cedo tendem a apresentar melhores desempenhos.

No entanto, há uma conclusão que o relatório não evita: o IELS 2025 não encontra evidência de que a frequência da educação pré-escolar beneficie mais as crianças desfavorecidas do que as restantes. Dado que, na maioria das jurisdições, são as crianças de meios favorecidos que frequentam a educação pré-escolar durante mais tempo e com maior intensidade, o sistema actual pode não estar a desempenhar o papel equalizador que muitos lhe atribuem.

Este resultado é um alerta sério para os decisores políticos. Investir na expansão da educação pré-escolar é necessário — mas não suficiente. Se as crianças desfavorecidas continuarem a aceder mais tarde, durante menos tempo e a serviços de qualidade desigual, a pré-escola pode acabar por amplificar, em vez de reduzir, as disparidades de partida. A resposta passa por garantir acesso universal precoce e, sobretudo, por assegurar uma qualidade consistente em toda a rede de oferta.


Crianças resilientes existem — e mostram que o contexto não é destino

Num cenário de desigualdades tão marcadas, é fácil cair no determinismo. O relatório oferece, porém, um contraponto importante: existem crianças de meios desfavorecidos que, apesar das circunstâncias, alcançam resultados fortes. O IELS designa-as como «crianças desenvolvimentalmente resilientes» — aquelas que, estando no quartil mais baixo do índice socioeconómico, atingem o quartil mais elevado de desempenho.

Em média, cerca de 15% das crianças desfavorecidas alcançam desempenhos fortes em literacia e numeracia emergentes. Nas funções executivas e no desenvolvimento socioemocional, esta percentagem sobe para 15% a 22%, consoante o domínio.

Estas crianças não são uma anomalia estatística — são a prova de que a intervenção precoce, os ambientes familiares estimulantes e a qualidade dos serviços educativos fazem diferença. Compreender o que distingue os percursos destas crianças pode informar estratégias de apoio mais eficazes para todas as outras.


O que tudo isto muda para quem está nas escolas

O IELS 2025 não é apenas mais um relatório com números internacionais. Para os profissionais de educação, os seus resultados traduzem-se em implicações concretas.

Em primeiro lugar, a avaliação diagnóstica no início do percurso escolar ganha uma importância renovada. Se as crianças chegam à escola com níveis de desenvolvimento tão díspares, conhecer o perfil de cada aluno — não apenas nas aprendizagens cognitivas, mas também nas competências socioemocionais e executivas — é condição essencial para uma intervenção pedagógica adequada.

Em segundo lugar, o investimento em competências socioemocionais na primeira infância não é uma moda pedagógica — é uma necessidade documentada pela evidência. As funções executivas e o desenvolvimento socioemocional estão fortemente correlacionados com a aprendizagem fundacional: crianças com bons resultados num domínio tendem a ter bons resultados nos outros. Políticas e práticas que tratem estas dimensões de forma integrada serão, por isso, mais eficazes do que abordagens compartimentadas.

Em terceiro lugar, a promoção da leitura em família continua a ser uma das intervenções com maior retorno educativo. Os dados do IELS reforçam o que já se sabia, mas acrescentam um elemento de escala internacional: em todas as jurisdições participantes, a leitura partilhada está positivamente associada a melhores resultados. Para as escolas, isto significa que cada iniciativa que encoraje os pais a ler com os filhos — de forma regular, significativa e acessível — é uma aposta segura.

Por último, a digitalização precoce requer prudência. Os dados não sustentam uma visão optimista sobre o impacto da tecnologia na aprendizagem de crianças de cinco anos. Isto não significa que os dispositivos digitais sejam inúteis — mas os benefícios não estão demonstrados e, em certos contextos, os efeitos são negativos. A decisão de introduzir ecrãs nos primeiros anos deve basear-se em evidência, não em entusiasmo.


Uma nota final sobre o que ainda não sabemos

O IELS é um estudo transversal, não longitudinal. Isto significa que documenta associações, não relações causais. Quando se diz que a leitura partilhada está associada a melhores resultados, isso não prova que ler para uma criança cause directamente esses resultados — pode haver outros factores em jogo. O relatório é metodologicamente rigoroso e explicita estas limitações, o que reforça a sua credibilidade.

Além disso, Portugal não participou neste ciclo do estudo. Os dados referem-se a jurisdições com sistemas educativos, culturas e estruturas demográficas muito diversas. A transferência directa de conclusões para o contexto português exige cautela — mas os padrões observados são suficientemente consistentes para justificar uma reflexão séria sobre as nossas políticas de primeira infância.


Referência bibliográfica

OECD. (2026). Building strong foundations for life: Results from the 2025 Early Learning and Child Well-being Study. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/02bf8efe-en



O milagre do Mississípi e o recuo silencioso de Portugal

Ler na fonte | João Marôco

Há uma história que corre mundo e que, à primeira vista, parece demasiado bonita para ser verdade: um dos estados mais pobres dos Estados Unidos, historicamente colado ao fundo das tabelas educativas, dá um salto espetacular nos resultados de leitura em meia dúzia de anos. A explicação? Ensinar a ler “como deve ser” — com fonética, instrução explícita, menos modas pedagógicas. Ponto final.

O problema é que esta versão da história está incompleta. E, como tantas vezes acontece em educação, é precisamente o que fica de fora que mais importa.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

O que realmente aconteceu no Mississípi

Em 2013, o Mississípi ocupava o 49.º lugar entre os 50 estados norte-americanos na leitura do 4.º ano, segundo o NAEP (National Assessment of Educational Progress). Em 2024, tinha subido para o 8.º lugar. Ajustando os resultados ao perfil socioeconómico dos alunos, investigadores do Urban Institute colocaram-no mesmo no primeiro lugar do país. É, de facto, uma transformação notável — sobretudo para um estado com um rendimento per capita abaixo dos 50 mil dólares e um investimento em educação entre os mais baixos do país.

Mas a narrativa dominante — a de que bastou adotar a chamada “ciência da leitura” — obscurece o que de mais profundo mudou. Como argumenta João Marôco, professor catedrático e ex-vogal do IAVE, numa crónica publicada na Iniciativa Educação (maio de 2025), o Mississípi não se limitou a mudar o modo como se ensina a ler. Mudou a forma como o sistema se responsabiliza pelos resultados.

E isto faz toda a diferença.

As peças que ninguém quer copiar

A Lei de Promoção Baseada na Literacia (Literacy-Based Promotion Act), aprovada em 2013, incluía um pacote de medidas que iam muito além da instrução fonémica. Destacam-se três pilares frequentemente omitidos nas narrativas simplificadas:

Primeiro, a retenção com consequências. Os alunos que no final do 3.º ano não demonstrassem competência leitora adequada eram retidos — com poucas exceções. A mensagem era clara: sem saber ler, não há progressão. Os pais eram informados regularmente do progresso dos filhos, e o sistema todo se organizava em torno de uma ideia incómoda mas eficaz — a de que o domínio de competências fundamentais não é negociável.

Segundo, a responsabilização institucional. As escolas passaram a ser classificadas publicamente. As que apresentavam resultados persistentemente fracos podiam ser objeto de intervenção direta pelo estado, incluindo a substituição de diretores nomeados pelos municípios. Não se tratava de punição: tratava-se de garantir que a autonomia das escolas não se transformava em indiferença perante o fracasso.

Terceiro, a mudança de expectativas. Durante décadas, o Mississípi — tal como, aliás, Portugal — viveu preso a uma espécie de fatalismo socioeconómico: sendo pobre, não podia esperar muito dos seus alunos. Antes de qualquer reforma curricular, houve uma rutura cultural — a decisão de que o contexto social não podia continuar a servir de desculpa para a baixa exigência.

A fonética funcionou. Mas não sozinha

É verdade que a instrução fonémica explícita desempenhou um papel importante. A investigação acumulada — desde o relatório do National Reading Panel (2000) até aos estudos mais recentes — confirma que o ensino sistemático da correspondência entre sons e letras é mais eficaz do que abordagens globais ou intuitivas, especialmente nos primeiros anos de escolaridade.

Contudo, como nota a própria organização Mississippi First, os maiores ganhos nos resultados do NAEP ocorreram entre 2013 e 2015, num período em que a retenção no 3.º ano ainda não estava em vigor. Ou seja, a mudança começou antes da medida mais controversa — mas dentro de um sistema que já exigia resultados e monitorizava a sua concretização.

O que isto nos diz é que a instrução baseada em evidência não funciona no vazio. Precisa de um ecossistema — metas claras, avaliação consequente, apoio real aos professores, expectativas elevadas para todos os alunos. Sem esse enquadramento, corre o risco de ser apenas mais uma “moda pedagógica” que vem e vai ao sabor das agendas políticas.

E Portugal? O recuo que poucos querem discutir

O paralelo com a realidade portuguesa é inevitável — e desconfortável.

Entre 2000 e 2015, Portugal protagonizou uma das trajetórias mais impressionantes no seio da OCDE. Partindo de posições na cauda do PISA, o país subiu de forma consistente, ultrapassando a média internacional em 2015 na literacia matemática — caso único entre os membros da organização. Este progresso apoiou-se em currículos estruturados, metas curriculares claras e avaliação externa com peso efetivo na progressão dos alunos.

A partir de 2016, o rumo mudou. As prioridades deslocaram-se para a flexibilidade curricular, as aprendizagens essenciais e uma política declarada de combate à retenção. Em 2016, os exames nacionais do 4.º e 6.º anos — que até então tinham peso na transição entre ciclos — foram substituídos por provas de aferição sem consequências diretas na progressão escolar. Mais recentemente, estas provas foram reposicionadas no final dos ciclos, mas mantêm o mesmo estatuto: avaliação sem valor formal.

Os resultados do PISA 2022 espelham esta viragem. Portugal registou uma queda de 20 pontos em matemática e 15 em leitura face a 2018 — descidas superiores à média da OCDE. Segundo o próprio Marôco, seria necessário recuar cerca de 15 anos para encontrar desempenhos equivalentes na história do PISA português. E embora a pandemia tenha contribuído para o declínio generalizado em toda a OCDE, em Portugal o recuo começou antes dela: já em 2018 se registavam descidas de 9 pontos em ciências e 6 em leitura.

O que isto significa para quem está na escola

Para professores e diretores escolares, esta discussão não é abstrata. Traduz-se em perguntas concretas que se colocam todos os dias nas nossas escolas:

Podemos dar autonomia às escolas sem lhes pedir contas pelos resultados? A experiência do Mississípi sugere que não. Autonomia sem responsabilização gera desigualdade — porque as escolas com menos recursos são também as que menos condições têm para se autorregularem.

Faz sentido eliminar a avaliação com consequências? A retenção massiva é, sem dúvida, um problema. Mas a ausência total de consequências — para alunos, famílias e escolas — também o é. Quando o sistema tolera que um aluno transite sem dominar as competências fundamentais, não está a protegê-lo: está a adiar o problema e a torná-lo mais grave.

A “ciência da leitura” resolve tudo? Não. A evidência científica sobre o ensino da leitura é robusta e deve informar a prática pedagógica. Mas, como demonstra o caso do Mississípi, a melhor técnica aplicada dentro de um sistema que não exige resultados produz, na melhor das hipóteses, ganhos efémeros.

Maratona, não milagre

No próprio Mississípi, já se evita a palavra “milagre”. Prefere-se falar de uma maratona — uma metáfora mais honesta, que reconhece que cada quilómetro exigiu esforço sustentado de decisores, famílias, diretores, professores e alunos. São 42 quilómetros e 195 metros. São 12 anos de escolaridade.

É menos inspirador do que um milagre, sem dúvida. Mas é, provavelmente, mais verdadeiro. E em educação, verdades desconfortáveis valem infinitamente mais do que narrativas reconfortantes.

A questão que se coloca a Portugal não é se queremos uma escola mais flexível ou mais rígida. Essa é uma falsa dicotomia. A questão é se estamos dispostos a construir um sistema que conjugue autonomia com responsabilização, flexibilidade com exigência, diversidade pedagógica com metas claras e mensuráveis. O Mississípi mostra que é possível. Mostra também que é difícil, politicamente incómodo e que não admite atalhos.


Fontes

Marôco, J. (2026, 8 de maio). O milagre do Mississípi e o recuo silencioso de Portugal. Iniciativa Educação — ED_ON. https://www.iniciativaeducacao.org/pt/ed-on/artigos/cronicas/o-milagre-do-mississipi-e-o-recuo-silencioso-de-portugal

Marôco, J. (2023, 8 de dezembro). PISA 2022: O retrocesso anunciado. Iniciativa Educação — ED_ON. https://www.iniciativaeducacao.org/pt/ed-on/artigos/estatisticas/pisa-2022-o-retrocesso-anunciado

Mississippi First. (2025, 7 de agosto). Contextualizing Mississippi’s 2024 NAEP scores. https://www.mississippifirst.org/contextualizing-mississippis-2024-naep-scores/

OCDE. (2023). PISA 2022 results (Volume I): The state of learning and equity in education. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/53f23881-en

Sparks, S. D. (2023, 18 de julho). Was there a “Mississippi miracle” behind its soaring reading scores? Chalkbeat. https://www.chalkbeat.org/2023/7/18/23799124/mississippi-miracle-test-scores-naep-early-literacy-grade-retention-reading-phonics/

Marôco, J. (2021). Portugal: The PISA effects on education. In N. Crato (Ed.), Improving a country’s education (pp. 159–174). Springer. https://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-030-59031-4_8

O futuro da educação não se faz só com tecnologia

Quando se fala do futuro da educação, quase toda a conversa gira em torno da inteligência artificial. Mas será que estamos a olhar para onde realmente importa?

Ler na fonte | Por Paulette Delgado

Há uma espécie de consenso tácito nos congressos, nos relatórios internacionais e nos artigos de opinião sobre educação: o futuro passa pela tecnologia. Pela IA generativa, pelas plataformas adaptativas, pela automatização de tarefas pedagógicas. É difícil encontrar um evento sobre inovação educativa que não coloque estes temas no centro do palco. E, no entanto, há algo de profundamente incompleto nesta narrativa.

Paulette Delgado, especialista em tendências educativas no Observatório do Instituto para o Futuro da Educação (Tecnológico de Monterrey), publicou recentemente um artigo de opinião que coloca o dedo na ferida: estamos tão obcecados com as ferramentas que nos esquecemos de quem as vai usar. E esse esquecimento tem consequências sérias para quem ensina e para quem aprende.

As crianças que chegam hoje à escola já não são as mesmas

Comecemos por aquilo que poucos querem discutir abertamente. As crianças e os jovens que entram hoje numa sala de aula trazem consigo um perfil cognitivo e emocional diferente do de qualquer geração anterior. Não se trata de serem menos inteligentes — trata-se de terem crescido num ambiente radicalmente distinto, saturado de ecrãs, de estímulos instantâneos e de informação fragmentada.

Estudos publicados em revistas como a Nature indicam que a exposição prolongada a ecrãs durante a infância está associada a dificuldades na atenção sustentada, na compreensão de textos complexos e em tarefas que exigem esforço cognitivo prolongado (Masi et al., 2024). A capacidade média de concentração da chamada Geração Z ronda os oito segundos, contra os doze dos Millennials e os vinte e quatro da Geração X. Mesmo que os números exactos variem de estudo para estudo, a tendência é consistente: a atenção prolongada está em declínio.

E há um dado que deveria preocupar qualquer professor: muitas crianças estão a perder a capacidade de imaginar. Não no sentido poético — no sentido literal. A criação de imagens mentais, uma competência fundamental para a leitura, a criatividade e a resolução de problemas, está a ser substituída pelo consumo passivo de imagens em ecrãs. Delgado, com base na sua própria investigação de mestrado, sublinha que o uso excessivo de ecrãs na primeira infância compromete o desenvolvimento cognitivo, linguístico e socioemocional, sobretudo quando substitui experiências de jogo livre e de interação relacional.

A primeira infância: o ângulo morto do debate educativo

Um dos pontos mais pertinentes do artigo de Delgado prende-se com a invisibilidade da primeira infância no debate sobre inovação educativa. Fala-se muito de ensino secundário e superior, como se os alunos chegassem ao sistema num estado cognitivo neutro, prontos para serem moldados por plataformas e algoritmos.

Mas não é isso que acontece. Organismos como a UNICEF e a Associação Espanhola de Pediatria têm vindo a alertar para os efeitos da exposição precoce e prolongada a ecrãs nos processos de maturação cerebral. Redução da memória de trabalho, dificuldades na regulação emocional, défices de atenção — tudo isto antes mesmo de a criança entrar na escola primária.

Para quem trabalha em contexto escolar, esta realidade traduz-se em alunos que chegam às aulas com dificuldades em seguir instruções longas, em ler com profundidade e em tolerar a frustração — competências que a escola continua a pressupor, mas que cada vez menos crianças trazem de casa.

E os professores? Onde ficam nesta conversa?

Há uma promessa recorrente nos discursos sobre IA e educação: a tecnologia vai libertar os docentes das tarefas repetitivas para que se possam dedicar ao que é verdadeiramente humano. Soa bem. Mas a realidade quotidiana de quem ensina conta uma história diferente.

O papel do professor mudou de forma significativa nas últimas décadas. Já não se espera apenas que transmita conhecimento. Espera-se que seja mentor, mediador, guia emocional — muitas vezes tudo ao mesmo tempo e sem formação adequada para nenhuma dessas funções. A tecnologia, na maioria dos casos, não simplificou o trabalho docente: tornou-o mais complexo.

Ensinar as gerações Z e Alpha exige competências que vão muito além do domínio técnico: inteligência emocional, capacidade de desenhar experiências significativas, acompanhamento socioemocional constante. Como sublinha o Teacher Task Force, os benefícios da IA na educação dependem directamente do investimento nas instituições educativas e nos profissionais que nelas trabalham. Os docentes não são substituíveis porque o aprendizado é, na sua essência, um processo relacional.

E, no entanto, o bem-estar docente continua a ser tratado como uma preocupação marginal. Nas escolas, nos ministérios, nos congressos — discutem-se plataformas e ferramentas, mas raramente se pergunta: como estão os professores? Estão preparados? Estão apoiados? Estão bem?

O perigo do tecnosolucionismo

Delgado alerta para um risco que não é novo, mas que ganha urgência num momento em que a IA domina o debate educativo: o tecnosolucionismo. Ou seja, a crença de que os problemas da educação podem ser resolvidos, em grande medida, com ferramentas tecnológicas.

Esta perspectiva tem vários problemas. Em primeiro lugar, tende a reduzir o aprendizado a métricas — dados, desempenho, eficiência — esquecendo que aprender envolve emoções, erros, vínculos e contextos. Em segundo lugar, pode gerar culturas de vigilância e controlo que diminuem a autonomia dos alunos e afectam o seu bem-estar emocional. E em terceiro lugar, ignora um facto incómodo: muitas das tecnologias que estamos a integrar na educação são ainda muito recentes. O ChatGPT, por exemplo, foi lançado em novembro de 2022. As suas implicações a longo prazo, especialmente quando usado desde a infância, ainda não são conhecidas.

Apostar o futuro educativo exclusivamente em tecnologias cujo impacto profundo desconhecemos é, no mínimo, imprudente.

O que é que isto significa para a escola portuguesa?

A reflexão de Delgado nasce no contexto latino-americano, mas aplica-se inteiramente à realidade das escolas portuguesas. Também em Portugal assistimos ao declínio da atenção dos alunos, à dificuldade crescente em lidar com textos longos, à erosão da capacidade de concentração. Também os nossos professores enfrentam uma complexidade emocional e pedagógica para a qual nem sempre foram preparados.

E também em Portugal existe a tentação de olhar para a tecnologia como solução para tudo — desde a diferenciação pedagógica até à avaliação formativa, passando pela gestão administrativa. Nada disto é errado em si mesmo. O problema surge quando a tecnologia ocupa o centro do palco e empurra o ser humano para uma nota de rodapé.

Talvez valha a pena recuar um passo e fazer as perguntas que Delgado propõe: quem é o aluno que se senta hoje à nossa frente? Como está a sua atenção? A sua capacidade de imaginar? O seu pensamento crítico? E nós, enquanto professores — estamos bem? Estamos preparados? Estamos acompanhados?

Porque o futuro da educação não se joga em algoritmos nem em plataformas. Joga-se nas relações entre pessoas que pensam, sentem e aprendem em contextos concretos. E se não colocarmos o desenvolvimento humano — cognitivo, emocional, relacional — no centro desta conversa, estaremos a construir um futuro educativo sofisticado por fora, mas oco por dentro.


Referências

Delgado, P. (2026, 12 de fevereiro). Opinión: El futuro de la educación involucra más que tecnología. Observatorio del Instituto para el Futuro de la Educación. https://observatorio.tec.mx/opinion-el-futuro-de-la-educacion-involucra-mas-que-tecnologia/

Masi, A., et al. (2024). Screen time and developmental outcomes in children: A systematic review. Scientific Reports, 14, 63566. https://www.nature.com/articles/s41598-024-63566-y

Teacher Task Force. (2025). Promoting and protecting teacher agency. https://teachertaskforce.org/sites/default/files/2025-09/1149_25_Promoting%20and%20Protecting%20Teacher%20Agency_FINAL_3Sep.pdf

UNICEF Uruguay. (s.d.). Uso de la tecnología en la primera infancia: qué saber. https://www.unicef.org/uruguay/crianza/digital/uso-de-la-tecnologia-en-la-primera-infancia-que-saber

World Economic Forum. (2024, abril). Future of learning: How AI is revolutionizing Education 4.0. https://www.weforum.org/stories/2024/04/future-learning-ai-revolutionizing-education-4-0/