Não somos analfabetos, somos «pós-literatos»: o alerta da The Atlantic para as escolas

Uma reportagem de capa da revista The Atlantic alerta para uma nova fase do declínio da leitura nos Estados Unidos: não o analfabetismo, mas a «pós-literacia» — a perda da capacidade de compreender e sintetizar textos longos, agravada pelo uso indiscriminado de inteligência artificial. Este artigo cruza esse diagnóstico com os dados do PISA 2022 e reflete sobre o que está em jogo para as escolas, os professores e os alunos portugueses.

Há palavras que nascem para descrever aquilo que já sentíamos mas ainda não tínhamos conseguido nomear. «Pós-literato» é uma delas. A expressão dá título a uma extensa reportagem de capa da revista norte-americana The Atlantic, da autoria da jornalista Rose Horowitch, publicada em julho de 2026, e que tem circulado amplamente entre professores, bibliotecários e investigadores da educação nas últimas semanas. A tese central é simples de enunciar e incómoda de aceitar: os Estados Unidos — e, por extensão, boa parte das sociedades ocidentais — não estão a tornar-se iletrados. Estão a tornar-se algo diferente, e talvez mais difícil de corrigir: sabem decifrar palavras, mas estão a perder a capacidade de pensar com e através delas.

Vale a pena explicar, antes de mais, como este artigo foi preparado: o acesso direto à página da The Atlantic está bloqueado a partir desta ferramenta, pelo que a reconstrução do conteúdo se apoiou em múltiplas fontes secundárias independentes que citam e resumem a reportagem original, bem como na verificação autónoma dos principais dados estatísticos junto das suas fontes primárias (National Assessment of Educational Progress, PIAAC/OCDE). Essa metodologia está detalhada na nota de transparência no final do texto.

Uma palavra para nomear um problema antigo

O termo «pós-literacia» não é propriamente novo — ecoa discussões que já vêm de Neil Postman e Marshall McLuhan sobre os efeitos cognitivos das tecnologias de comunicação — mas Horowitch dá-lhe um relevo particular ao aplicá-lo à cognitivista Maryanne Wolf, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Segundo a investigadora, aquilo que está em causa não é a descodificação de palavras individuais, competência que a generalidade da população continua a dominar, mas sim as capacidades de ordem superior: compreensão, síntese, inferência, análise crítica de um argumento longo. Uma pessoa pode ler perfeitamente bem uma frase e, ainda assim, ser incapaz de acompanhar o raciocínio de um texto de várias páginas. É essa distinção — entre saber ler e conseguir pensar através da leitura — que separa o iletrismo clássico da pós-literacia.

Os números que sustentam o alerta

A reportagem apoia-se num conjunto de indicadores que, isoladamente, já preocupam a comunidade educativa norte-americana, mas que, lidos em conjunto, desenham uma tendência consistente. Do lado dos mais jovens, os resultados da avaliação nacional norte-americana (NAEP) de 2024 ao 12.º ano mostram que apenas 35% dos alunos finalistas do ensino secundário atingiram o nível «proficiente» em leitura — capaz de relacionar detalhes entre textos e inferir intenção do autor —, ao passo que 32% ficaram abaixo do nível «básico», a maior proporção alguma vez registada nesta prova desde 1992. Confirmámos estes valores diretamente junto do National Center for Education Statistics, que os classifica como os piores resultados de sempre para este ano de escolaridade.

Do lado dos adultos, os dados do inquérito internacional PIAAC, coordenado pela OCDE, mostram uma evolução preocupante: em 2017, menos de 20% dos adultos norte-americanos tinham dificuldade em parafrasear ou retirar inferências simples de um texto com várias páginas; no ciclo mais recente, essa proporção subiu para perto de 30%. Também este dado foi confirmado de forma independente.

A reportagem acrescenta ainda outros indicadores — recolhidos, segundo múltiplas fontes que citam o artigo original, de inquéritos do National Endowment for the Arts e do American Time Use Survey — sobre a queda da leitura por prazer nas últimas duas décadas, incluindo entre grupos tradicionalmente mais leitores, como reformados, mulheres e licenciados. Um dado particularmente incisivo, também amplamente reproduzido a partir do artigo, é o de que apostar em jogos de fortuna e azar se tornou, para os norte-americanos, um passatempo mais comum do que ler um livro. Estes números específicos não foram, por limitações de acesso, verificados diretamente pela nossa parte junto das fontes primárias, pelo que devem ser lidos com um grau de confiança médio, e não alto, e idealmente confrontados com o artigo original quando o leitor a ele tiver acesso.

O atalho da inteligência artificial

Um dos eixos mais relevantes da reportagem para quem trabalha em contexto escolar é a forma como associa esta tendência à generalização de ferramentas de inteligência artificial generativa. A possibilidade de pedir a um sistema que resuma um texto complexo ou redija um ensaio inteiro retira, segundo os especialistas citados no artigo, o esforço cognitivo que é indissociável da própria aprendizagem: não se trata apenas de poupar tempo, mas de contornar o processo mental através do qual o conhecimento é interiorizado e transformado em pensamento próprio. O filósofo Kwame Anthony Appiah, da Universidade de Nova Iorque, citado na reportagem, resume a preocupação de forma direta: ao delegarmos sistematicamente em máquinas o trabalho de ler e escrever, arriscamo-nos a perder a capacidade de interrogar ideias complexas e de construir uma visão do mundo que seja verdadeiramente nossa.

Este ponto interessa particularmente às escolas portuguesas, onde o uso de assistentes de inteligência artificial por parte dos alunos — para resumir matéria, preparar trabalhos ou até substituir a leitura integral de obras do currículo — é já uma realidade quotidiana em muitas salas de aula, ainda sem resposta pedagógica consolidada.

Quando a leitura recua, a política muda

Uma das dimensões mais originais do artigo é a ligação que estabelece entre pós-literacia e vida democrática. Horowitch descreve Donald Trump como o primeiro presidente norte-americano genuinamente «pós-literato», no sentido em que o seu estilo de comunicação — fragmentado, emocional, construído para o consumo em plataformas digitais — corresponde ao formato que um eleitorado cada vez menos treinado para o texto longo consegue efetivamente processar. A reportagem cita ainda o estratega político David Plouffe, que aconselhou candidatos a reduzir cada ideia política a um formato compatível com uma publicação no Instagram ou um vídeo de dez segundos no TikTok. Segundo a análise do artigo, esta pode ser uma estratégia eficaz para vencer eleições, mas é simultaneamente um sintoma preocupante para a qualidade do autogoverno informado — e o fenómeno não se limita aos Estados Unidos: campanhas políticas em vários países de África e da Europa têm vindo a privilegiar de forma crescente o vídeo curto e o meme viral em detrimento do escrutínio mais moroso que o texto exige.

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E em Portugal, como estamos?

Os dados internacionais mais recentes não permitem grande conforto ao contexto português. Os resultados do PISA 2022, divulgados pela OCDE em dezembro de 2023, mostraram uma quebra acentuada da literacia de leitura dos alunos portugueses de 15 anos — uma descida de 15 pontos face ao ciclo anterior, a par de quebras ainda mais pronunciadas na literacia matemática. O Instituto de Avaliação Educativa atribui parte desta descida ao impacto da pandemia e à falta de recuperação de aprendizagens nos anos seguintes, mas o retrato de fundo — alunos que leem cada vez menos textos longos e complexos dentro e fora da escola — acompanha de perto o diagnóstico norte-americano.

Os sinais relativos aos hábitos de leitura por prazer entre os mais jovens são, em Portugal, mais ambíguos do que nos Estados Unidos: alguns estudos do setor editorial apontam para um crescimento pontual da compra de livros entre os 15 e os 24 anos, ao passo que investigação académica mais recente sublinha um afastamento estrutural desta faixa etária relativamente à leitura de livros por prazer. Esta aparente contradição — comprar mais e ler menos — é, em si mesma, um sintoma que merece atenção da parte de quem trabalha diretamente com adolescentes: o livro pode continuar a ser um objeto de consumo ou de estatuto social sem que a leitura enquanto prática cognitiva sustentada esteja, de facto, a consolidar-se.

O que isto significa para professores, escolas e alunos

Para quem ensina, o valor da reportagem da The Atlantic não está tanto na novidade do diagnóstico — professores portugueses já convivem diariamente com dificuldades de concentração e de compreensão leitora nos seus alunos — mas na forma como articula, de modo coerente, fenómenos que costumam ser discutidos em separado: o declínio dos resultados escolares, o impacto da inteligência artificial generativa, a fragmentação da atenção associada às plataformas digitais e as suas consequências para a participação cívica e democrática.

Do ponto de vista curricular, este diagnóstico reforça a pertinência de linhas de trabalho já presentes no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória e nas Aprendizagens Essenciais, nomeadamente as competências de literacia crítica, de análise de fontes e de leitura sustentada de textos longos e complexos — competências que não se desenvolvem por acumulação espontânea de exposição a ecrãs, mas que exigem prática deliberada, orientada e continuada ao longo de toda a escolaridade. Também o trabalho das bibliotecas escolares, enquanto espaços de mediação leitora e de promoção da leitura por prazer, ganha, à luz destes dados, uma urgência redobrada: não como reduto nostálgico do livro em papel, mas como um dos poucos contextos formais em que a escola pode ainda proteger deliberadamente o tempo, a atenção e o esforço cognitivo que a leitura profunda exige.

A pergunta que a reportagem deixa em aberto, e que cabe a cada escola e a cada professor responder no seu contexto concreto, não é se a inteligência artificial deve ou não entrar na sala de aula — essa discussão está, em larga medida, ultrapassada pelos factos —, mas como garantir que o seu uso não substitui, mas antes complementa, o treino cognitivo insubstituível que só a leitura sustentada de textos exigentes proporciona.


Este artigo foi redigido com o apoio de um assistente de inteligência artificial (Claude, da Anthropic). Os dados relativos a Portugal (PISA 2022 e hábitos de leitura) foram verificados junto de fontes institucionais e académicas nacionais .

Referências

Horowitch, R. (2026, 8 de julho). The end of reading is here. The Atlantic. https://www.theatlantic.com/magazine/2026/08/reading-crisis-postliterate-age/687618/

Instituto de Avaliação Educativa. (2023). PISA 2022 – Portugal: Relatório nacional. IAVE. https://iave.pt/wp-content/uploads/2023/12/Relatorio-Final-1.pdf

National Center for Education Statistics. (2024). NAEP reading assessment: Grade 12 results for the nation. Institute of Education Sciences. https://www.nationsreportcard.gov/reports/reading/2024/g12/

National Coalition for Literacy. (2026). Literacy in the U.S. https://nationalcoalitionforliteracy.org/literacy-in-united-states/

Neves, J. S. (2024). Leitores de livros em Portugal: Uma prática cultural em transformação. Plano Nacional de Leitura 2027. https://pnl2027.gov.pt/np4/entreler/artigo5.html

USAFacts. (2025). Which US states have the highest and lowest adult literacy rates? https://usafacts.org/articles/which-states-have-the-highest-and-lowest-adult-literacy-rates/

A leitura fragmentada: o alerta dos especialistas

Um encontro internacional dedicado às políticas de leitura na Ibero-América deixou reflexões que interessam diretamente a quem trabalha todos os dias com livros e alunos: da ameaça da leitura fragmentada nos ecrãs à urgência de bibliotecas mais inclusivas.

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Leitura em debate na Ibero-América

O documento que serve de base a este artigo reúne as conclusões de um encontro internacional promovido pela Cerlalc e pela OEI, dedicado às políticas de livro, leitura, escrita e oralidade em toda a região ibero-americana. Ao longo de vários painéis, especialistas de países como o Brasil, a Espanha, a Argentina e Portugal discutiram o estado da leitura hoje, com dados, experiências de terreno e propostas concretas. Para quem trabalha em contexto escolar, há aqui pistas valiosas sobre para onde caminham as políticas educativas ligadas à leitura.

O paradoxo dos nossos dias

Uma das ideias mais marcantes do encontro foi enunciada por Dolores Prades: apesar de as literaturas produzidas nas margens sociais terem conseguido finalmente questionar o cânone oficial e dar voz a autores indígenas e afrodescendentes, os índices de leitura continuam a cair de forma preocupante. No Brasil, por exemplo, o estudo “Retratos da Leitura” mostrou a perda de cerca de seis milhões de leitores em apenas quatro anos. Este recuo, associado a uma onda global de conservadorismo e desinformação, obriga a repensar como se promove a leitura enquanto ferramenta de resistência cívica.

A leitura ameaçada pelo digital

A intervenção mais densa sobre este tema coube ao historiador Roger Chartier, que alertou para o facto de a própria natureza da leitura estar a mudar com os ecrãs. Segundo Chartier, a leitura digital tende a ser apressada e impaciente, favorecendo a falta de questionamento sobre a veracidade dos conteúdos consumidos. Um dos pontos mais úteis para professores é a sua explicação sobre a perda da “totalidade textual”: no ecrã, os textos surgem fragmentados, sem limites nítidos, o que dificulta perceber onde começa e acaba uma ideia completa. Chartier recorda ainda que, no mundo digital, a garantia da verdade deixou de assentar no exame crítico dos enunciados para passar a depender da confiança cega no meio que os transmite, o que abre caminho à desinformação.

Esta reflexão liga-se diretamente à sala de aula: se os alunos leem cada vez mais em fragmentos descontextualizados, a escola tem um papel decisivo em ensinar a reconstruir essa totalidade e a distinguir factos de manipulação.

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Porque continuamos a precisar dos clássicos

Retomando Italo Calvino, Chartier defendeu que os clássicos permanecem relevantes precisamente porque cada geração de leitores os torna contemporâneos, encontrando neles respostas para os seus próprios medos e sonhos. Essa permanência resulta de séculos de leituras acumuladas, mas também de escolhas e exclusões feitas por instituições como a escola, a crítica literária e a edição — escolhas que hoje estão a ser questionadas e ampliadas.

Bibliotecas como motores de mudança

Vários intervenientes insistiram que a biblioteca deixou de ser apenas um depósito de livros. Jorge Moisés Kroll do Prado citou o bibliotecónomo David Lankes para resumir esta transformação: “as más bibliotecas fazem coleções, as boas bibliotecas prestam serviços e as excelentes criam comunidades“. Glória Pérez-Salmerón reforçou esta ideia, descrevendo a biblioteca como um “espaço do comum”, aberto a toda a cidadania e capaz de gerar confiança e pertença.

Vera Saboya partilhou a experiência das Bibliotecas Parque no Rio de Janeiro, instaladas em zonas de grande vulnerabilidade social, e defendeu que estas comunidades têm o direito de aceder também às obras do chamado “alta cultura”, muitas vezes vistas como distantes das suas realidades. Saboya propôs ainda pensar na figura do “não leitor” na sociedade acelerada de hoje, sugerindo que as políticas públicas ofereçam materiais diversos que conectem com os interesses reais das pessoas, em vez de impor um modelo único de leitura.Memorias-Redplanes-vr3.pdf

Leitura como direito e como resistência

Um dos momentos mais tocantes do encontro foi o testemunho de Waldemar Cubilla, que descobriu a leitura como estratégia de sobrevivência durante uma década de reclusão e, depois de recuperar a liberdade, fundou a Biblioteca Popular La Cárcova, num bairro periférico de Buenos Aires. Para Cubilla, a leitura funciona como um exercício de liberdade e reparação histórica, sobretudo para crianças e jovens em contextos marcados pela pobreza. Já Fabrício Brito, através do coletivo A Pombagem, defendeu uma conceção de leitura que ultrapassa o ato individual e elitista, tornando-se experiência coletiva, oral e situada nas comunidades periféricas.

Equidade racial e de género na agenda da leitura

O encontro dedicou também espaço à forma como o racismo e o sexismo condicionam o acesso à cultura escrita. Francile Carneiro, bibliotecária negra, introduziu o conceito de “epistemicídio” para descrever a exclusão sistemática dos saberes produzidos por comunidades marginalizadas, defendendo bibliotecas antirracistas capazes de validar outros conhecimentos. Margarita Cuéllar, diretora da Cerlalc, apresentou dados que mostram que as mulheres ocupam um papel central no setor editorial, mas continuam afastadas dos cargos de decisão, o que explica a sua maior presença em editoras pequenas e independentes.

O que ficou por resolver

Apesar dos avanços conceptuais — como a passagem de políticas centradas apenas na leitura para incluir também a escrita e a oralidade —, o estudo regional apresentado no encontro revelou lacunas persistentes que interessam diretamente às escolas:

  • Escolarização excessiva das políticas, com pouca atenção a adultos e pessoas idosas, que atuam como mediadores familiares e são vulneráveis à desinformação
  • Formação do pessoal bibliotecário ainda demasiado técnica, com necessidade de uma preparação mais sociopolítica
  • Fraca articulação entre discurso e prática nos temas de inclusão, direitos humanos e equidade
  • Barreiras estruturais no acesso ao ecossistema digital, como infraestrutura insuficiente e baixa literacia digital

Estes pontos deixam um recado claro para quem trabalha na educação: garantir livros nas escolas é apenas o primeiro passo, mas sem formação de mediadores, sem diversidade de acervos e sem atenção crítica ao mundo digital, o hábito de leitura continuará a perder terreno.

A Manifesto Library na Livraria Lello: o que uma estrela pop tem para ensinar às escolas sobre livros e liberdade

Há notícias que, à primeira vista, parecem pertencer ao mundo do entretenimento e não ao da escola. A abertura de uma biblioteca por uma estrela pop é, tipicamente, uma dessas notícias. E, no entanto, quando se olha com atenção para o que aconteceu a 27 de junho, no Porto, dentro da Livraria Lello, encontramos um conjunto de temas que qualquer professor de Português, de Cidadania e Desenvolvimento ou responsável por uma biblioteca escolar reconhecerá de imediato: censura, liberdade de expressão, o valor do livro como objeto de resistência e a pergunta, sempre incómoda, de quem decide o que os jovens podem ou não ler.

O que abriu, onde e porquê

A cantora britânica Dua Lipa, através do seu clube de leitura Service95 Book Club, associou-se à histórica Livraria Lello para inaugurar a Manifesto Library, uma coleção permanente de cem livros instalada no novo auditório cultural da livraria portuense. A abertura ocorreu na noite de 27 de junho de 2026, como um dos momentos centrais do BABELL – Cidade-Livro, o primeiro festival literário internacional promovido pela Fundação Livraria Lello, que decorreu entre 24 e 29 de junho e reuniu autores como Salman Rushdie, Margaret Atwood, Olga Tokarczuk, Byung-Chul Han e Javier Cercas, entre muitos outros, em sessões dispersas por praças, ruas e espaços culturais de todo o Porto.

O momento não foi escolhido ao acaso. Em 2026, a Livraria Lello celebra 120 anos de existência — está aberta desde 1906 — e o ano marca também outra transformação relevante: a inauguração de uma ampliação do edifício assinada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, distinguido com o Pritzker, que acrescenta à livraria cerca de mil metros quadrados adicionais, incluindo o auditório onde agora vive a Manifesto Library. É, aliás, esse mesmo espaço que acolheu, no mesmo festival, a instalação A4, uma obra encomendada ao artista e ativista chinês Ai Weiwei, e a chamada Livraria 1984, um espaço de apenas um metro quadrado dedicado inteiramente ao romance de George Orwell — descrita pelos seus criadores como a mais pequena livraria do mundo dedicada a um único título.

Cem livros, quatro perguntas

A Manifesto Library não pretende ser um arquivo estático de obras censuradas, mas antes um espaço vivo de leitura e debate. Os cem títulos que a compõem organizam-se em torno de quatro eixos temáticos — poder, controlo, voz e memória — que funcionam como quatro perguntas diferentes sobre a relação entre livros e liberdade.

No eixo do poder encontramos obras que interrogam quem manda, quem contesta e quem tem autoridade para definir as narrativas que herdamos, como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, 1984, de George Orwell, ou Felon, de Reginald Dwayne Betts. O eixo do controlo reúne livros sobre vigilância, propaganda e os instrumentos, muitas vezes silenciosos, da pressão institucional, com títulos como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, ou O Processo, de Franz Kafka. Já o eixo da voz dá espaço a perspetivas historicamente silenciadas ou marginalizadas, incluindo A Cor Púrpura, de Alice Walker, e Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie. Por fim, o eixo da memória reúne testemunhos pessoais e coletivos construídos contra o esquecimento deliberado, em contextos de guerra, ditadura e exílio, como A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, e Os Livros de Jacob, de Olga Tokarczuk.

Segundo a nota editorial divulgada pela própria Service95, muitos destes títulos foram, em diferentes países e momentos históricos, proibidos, retirados de currículos escolares ou removidos de sistemas de bibliotecas — frequentemente por abordarem temas como raça, sexualidade ou identidade de género. Outros nunca foram formalmente censurados, mas continuam a suscitar debate público intenso em torno destas mesmas questões. É precisamente essa tensão — entre o que foi silenciado e o que continua a incomodar — que a coleção procura tornar visível.

As palavras de quem a criou

Dua Lipa descreveu o projeto como «uma parceria de sonho», nascida da vontade, antiga, de transformar o clube de leitura que fundou num verdadeiro lugar de encontro entre escritores e leitores. Nas suas palavras, divulgadas pela Fundação Livraria Lello, esta é uma biblioteca concebida como «um santuário para livros que desapareceram e para autores cuja coragem desmascara estruturas de poder», dirigida a leitores que se recusam a que outros decidam por eles o que podem ler.

Do lado da livraria, Francisca Pedro Pinto, responsável de marca da Livraria Lello, sublinhou a continuidade entre a história centenária da instituição e este novo capítulo: «há 120 anos que a Livraria Lello se ergue sobre uma convicção simples — a de que o livro é uma tecnologia de liberdade». Uma frase que, note-se, dialoga diretamente com a metáfora que Jorge Luís Borges — sem parentesco conhecido com o autor destas linhas — usou décadas antes e que o Presidente da República Portuguesa recuperou no discurso de abertura do festival, ao descrever o livro como «uma extensão da memória e da imaginação».

Um festival que troca livros por cultura

Vale a pena deter-nos um pouco no BABELL, porque o seu modelo é, em si mesmo, um exercício interessante de promoção da leitura. O acesso às sessões do festival não se faz por bilhete convencional, mas através da compra de um livro numa rede de mais de cinquenta livrarias participantes na cidade do Porto — uma forma original de transformar a leitura em condição de acesso à cultura, e não apenas em consequência dela.

Do programa do festival destacam-se dois momentos com relevância direta para quem trabalha em contexto escolar. Por um lado, um conjunto de colóquios dedicados especificamente a educação e leitura, agendados para o último dia do festival na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Por outro, uma programação infantil, com curadoria de Adélia Carvalho, realizada nas manhãs de 27 e 28 de junho nos Jardins do Palácio de Cristal — prova de que a organização do festival não pensou este projeto apenas para um público adulto e literário, mas quis desde o início incluir crianças e famílias na experiência.

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Porque é que isto interessa às nossas escolas

É fácil olhar para este acontecimento como uma simples curiosidade cultural, mais um projeto de uma celebridade internacional com visibilidade em Portugal. Achamos, no entanto, que há aqui pelo menos três fios que merecem ser trazidos para dentro da sala de aula.

O primeiro é o da liberdade de expressão e da censura, um tema que se cruza diretamente com os referenciais de Cidadania e Desenvolvimento e com as Aprendizagens Essenciais de Português, sobretudo nos ciclos em que se trabalha a leitura crítica e a argumentação. A Manifesto Library oferece um ponto de partida concreto e internacional para uma discussão que, entre nós, tende a ficar abstrata: porque é que um livro é retirado de uma biblioteca ou de um currículo escolar? Quem decide? E que diferença existe entre uma decisão editorial legítima — adequar uma obra a uma faixa etária, por exemplo — e um ato de silenciamento? Comparar casos concretos de obras contestadas em diferentes países, com os alunos, é um exercício de pensamento crítico mais produtivo do que qualquer exposição teórica sobre o conceito de censura.

O segundo fio é o da própria leitura como prática social e não apenas escolar. O modelo do BABELL — trocar um livro por acesso a um festival — e a proposta da Manifesto Library — transformar uma livraria centenária num espaço de debate público — são, ambos, tentativas de devolver a leitura ao centro da vida coletiva, numa altura em que o tempo de atenção dos mais jovens está cada vez mais fragmentado entre ecrãs. Para um blogue como este, dedicado à relação entre tecnologia e educação, este contraponto entre o livro físico e o mundo digital não é irrelevante: mostra que a promoção da leitura e a literacia digital não são terrenos opostos, mas complementares, e que vale a pena continuar a criar, também nas nossas escolas, momentos e espaços que devolvam ao livro em papel o seu lugar de destaque.

O terceiro fio, mais subtil, é o da própria literacia mediática aplicada a este caso. Uma estrela pop a promover a leitura é, simultaneamente, uma boa notícia para a causa dos livros e um excelente pretexto para discutir com os alunos como funciona a construção de uma imagem pública através da cultura — que interesses comerciais e de reputação convivem, sem se anularem, com um propósito cultural genuíno. Nada disto desvaloriza o projeto; pelo contrário, ensinar os alunos a olhar para uma iniciativa como esta com esse duplo olhar — reconhecendo o seu valor cultural sem deixar de identificar a sua dimensão de marketing — é, também, literacia mediática em ação.

Para levar para a aula

Sem transformar isto num receituário, deixamos três pistas de trabalho que nos parecem particularmente diretas. Pode propor-se aos alunos que escolham um dos quatro eixos da Manifesto Library — poder, controlo, voz ou memória — e investiguem, em pequenos grupos, a história de contestação de uma das obras associadas a esse eixo, apresentando depois à turma os argumentos usados por quem pediu a sua retirada e por quem defendeu a sua permanência nas bibliotecas. Pode também usar-se o próprio conceito do festival — trocar um livro por um bilhete de acesso à cultura — como mote para um pequeno projeto de promoção da leitura na escola, associado à biblioteca escolar. E pode, por fim, explorar-se com os alunos mais velhos a tensão entre celebridade e causa cultural, pedindo-lhes que analisem criticamente comunicados de imprensa e publicações nas redes sociais sobre este projeto, distinguindo factos verificáveis de linguagem promocional.

A Manifesto Library não vai resolver, por si só, nenhum dos desafios de leitura que as nossas escolas enfrentam. Mas é um bom recordatório de que a discussão sobre livros, liberdade e censura continua bem viva — e de que, por vezes, os pontos de partida mais úteis para essa discussão em sala de aula chegam de lugares tão inesperados como uma livraria centenária no Porto.


Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial para pesquisa e redação, a partir de fontes primárias — o comunicado oficial da Service95, os conteúdos publicados pela Fundação Livraria Lello no âmbito do festival BABELL, a intervenção do Presidente da República na sessão de abertura do festival e cobertura da imprensa especializada em cultura e arquitetura .

Referências

Espaço de Arquitetura. (2026). Livraria Lello inaugura expansão de Álvaro Siza e lança BABELL. https://espacodearquitetura.com/noticias/livraria-lello-inaugura-expansao-de-alvaro-siza-e-lanca-babell/

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026a). About BABELL. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/about-babell

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026b). BABELL unveils full programme. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/conteudos/noticias/babell-unveils-full-programme

Music-News.com. (2026, junho). Dua Lipa and Livraria Lello open the Manifesto Library in Porto. https://www.music-news.com/news/UK/189761/Dua-Lipa-and-Livraria-Lello-open-the-Manifesto-Library-in-Porto

Presidência da República Portuguesa. (2026, junho 24). Intervenção na sessão inaugural do festival literário e cultural “BABELL – Cidade-Livro” e visita à Livraria Lello. https://www.presidencia.pt/en-en/news-agenda/all-news/2026/06/intervencao-na-sessao-inaugural-do-festival-literario-e-cultural-babell-cidade-livro-e-visita-a-livraria-lello/

Service95. (2026, julho 2). Inside the Manifesto Library: Service95 Book Club’s permanent collection at Livraria Lello, Porto. https://www.service95.com/manifesto-library-launch

O conhecimento como chave para a leitura: o que a ciência diz aos professores portugueses

Porque é que dois alunos com o mesmo nível de leitura compreendem o mesmo texto de forma tão diferente? A ciência cognitiva tem uma resposta que desafia décadas de prática nas escolas: não é a técnica que separa bons e maus leitores, é o conhecimento que já trazem sobre o assunto. Este artigo explora o que a investigação mostra — e o que isso significa para o currículo, os professores e os alunos portugueses.

Há uma pergunta que qualquer professor de Português já se fez, mesmo sem lhe dar este nome: por que razão dois alunos com o mesmo «nível de leitura» compreendem de forma tão desigual o mesmo texto? A resposta, sustentada por décadas de investigação em psicologia cognitiva, tem pouco que ver com técnicas de leitura e muito que ver com aquilo que cada aluno já sabe sobre o assunto do texto. É esta a tese central de um artigo recente de Daniel T. Willingham e E. D. Hirsch, publicado na revista norte-americana Education Next e traduzido para português pela Iniciativa Educação, que vale a pena trazer para a discussão que atravessa também as nossas escolas.

Willingham, psicólogo cognitivo na Universidade da Virgínia, e Hirsch, fundador da Core Knowledge Foundation e criador do conceito de literacia cultural, não são vozes novas neste debate — um defende esta ideia há vinte anos, o outro há quarenta. O que os leva agora a escrever em conjunto é uma constatação curiosa: depois de décadas em que o ensino da leitura nos Estados Unidos apostou quase tudo em «competências transversais» — encontrar a ideia principal, inferir significados, resumir —, os manuais mais recentes apresentam-se subitamente como «centrados no conhecimento». A pergunta que os dois autores colocam é simples e incómoda: porque demorámos tanto a perceber algo que a investigação já mostrava há décadas?

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O que sustenta esta ideia

O argumento de fundo não é complicado, ainda que as suas implicações o sejam. Compreender um texto não depende apenas de saber descodificar palavras ou de dominar regras gramaticais. Depende, em larga medida, daquilo que o leitor já traz consigo. Quem escreve um texto parte sempre do princípio de que o leitor partilha um determinado conhecimento de base — e omite, deliberadamente, tudo aquilo que considera óbvio. Uma frase simples como «Deve ser efeito do sol e da chuva» só se torna inteligível se o leitor conseguir, sem esforço consciente, associar o pronome «uma» à corda mencionada antes, recorrendo a um conhecimento tão elementar sobre o mundo que nem sequer dá por si a usá-lo.

Esta ideia foi testada por quatro linhas de investigação distintas, e é a convergência entre elas que lhe confere força. A primeira comparou leitores com maior ou menor conhecimento sobre um determinado tema — desde basebol a cardiologia — e mostrou, de forma consistente, que quem sabe mais sobre o assunto compreende melhor o texto, independentemente do seu nível de leitura aferido por testes padronizados. A segunda linha de investigação foi ainda mais longe: procurou perceber o que os próprios testes de leitura efetivamente medem, e concluiu que uma parte substancial das diferenças de desempenho nos testes de compreensão, em alunos do secundário, se explica pelo conhecimento prévio, mesmo depois de controlado estatisticamente o quociente de inteligência.

A terceira linha acompanhou crianças ao longo de dois anos, ensinando-lhes conteúdos de ciências de forma sequencial e verificando, mais tarde, se essa base as ajudava a ler melhor textos sobre esses mesmos temas — o que se confirmou, sobretudo quando o vocabulário e os conceitos dos textos coincidiam com o que tinha sido ensinado. A quarta, porventura a mais robusta pela sua duração, acompanhou ao longo de sete anos alunos que, por sorteio, entraram ou não em escolas do programa Core Knowledge, no Colorado, e mediu o seu desempenho em exames estaduais de leitura. Os alunos das escolas com currículo centrado no conhecimento obtiveram resultados claramente superiores — uma vantagem equivalente a cerca de dezasseis pontos percentuais entre o 3.º e o 6.º ano —, com ganhos também em ciências e, de forma mais modesta, em matemática.

Uma herança romântica que ainda pesa nas salas de aula

A parte mais desafiante do artigo não é a que apresenta dados, mas a que procura explicar o atraso. Willingham e Hirsch remontam a meados do século XIX, quando as ideias românticas europeias — associadas a Rousseau, Pestalozzi e, mais tarde, a pensadores como John Dewey — substituíram uma visão iluminista da educação, ancorada na razão e na instrução, por outra que via a aprendizagem como um desabrochar natural, algo que a criança realiza por si mesma se os adultos não interferirem. Desta sensibilidade nasceu, segundo os autores, a prática de organizar a leitura por «níveis» de dificuldade — atribuindo a cada aluno textos ajustados ao seu desempenho atual, em vez de o expor a textos mais exigentes acompanhados de um ensino explícito de conhecimento.

Não é difícil reconhecer ecos desta sensibilidade em expressões que continuam a circular nas escolas, de qualquer país, sobre «aprendizagem personalizada» ou sobre o professor enquanto simples «facilitador». Os autores não negam o valor da experiência individual, mas sublinham que a leitura por níveis nunca foi sustentada por provas sólidas de eficácia e que, ao contrário, tende a manter os alunos confinados a textos que já dominam, sem o desafio necessário ao progresso.

Transposta para a realidade portuguesa, esta discussão ganha um enquadramento próprio. O Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho, que estabelece o currículo dos ensinos básico e secundário, define as Aprendizagens Essenciais como o conjunto de conhecimentos, capacidades e atitudes que os alunos têm obrigatoriamente de adquirir em cada ano de escolaridade — uma lógica de progressão que, no espírito, não está longe daquilo que Willingham e Hirsch defendem: um currículo sequencial, cumulativo, em que cada novo conteúdo se apoia no que foi ensinado antes. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, por seu lado, insiste tanto em competências transversais como no domínio de saberes disciplinares, o que sugere que o equilíbrio entre conhecimento e competência já está, pelo menos no plano normativo, presente entre nós. A questão que o artigo levanta é se esse equilíbrio se traduz depois, de facto, na prática letiva e na escolha dos textos e das sequências de leitura em cada escola.

O que esperar — e o que não esperar — de um currículo rico em conhecimento

Um dos contributos mais úteis do artigo, para quem trabalha diretamente com alunos, é a moderação das expectativas. Os autores são claros: um currículo centrado no conhecimento não produz melhorias visíveis em testes de leitura estandardizados ao fim de um ano. A razão é lógica — se um teste nacional não está alinhado com o que foi efetivamente ensinado, não há como um professor saber que conhecimentos específicos os seus alunos precisam de dominar para ter bom desempenho nessa prova em concreto. Os ganhos reais, dizem os autores, exigem vários anos de consolidação, porque o que está em causa é a construção de um vasto reportório de saberes partilhados pela cultura, e não a memorização de conteúdos avulsos para uma avaliação pontual.

Também não se trata de substituir o ensino da descodificação e da fluência por um regresso à memorização de factos soltos. Willingham e Hirsch são explícitos: os alunos continuam a precisar de aprender a descodificar com agilidade, sobretudo perante palavras polissilábicas e sintaxe mais complexa, e precisam de compreender que cada disciplina tem convenções de leitura e escrita próprias — um texto científico não se lê como um texto histórico. O conhecimento de conteúdos é uma condição necessária para formar leitores competentes, mas não a única.

Um dos pontos mais relevantes para quem trabalha em contextos de maior vulnerabilidade social é a previsão de que um currículo rico em conhecimento beneficia sobretudo os alunos de meios mais desfavorecidos. A lógica é simples: crianças de famílias com mais recursos têm, à partida, mais oportunidades de contacto com o mundo — livros, viagens, conversas ricas em vocabulário — e chegam à escola com um conhecimento de base mais alargado. Para os alunos que não têm esse acesso fora da escola, a sala de aula pode ser a única fonte sistemática desse conhecimento. Quando essa fonte é robusta e sequencial, o seu efeito compensatório tende a ser maior.

Os autores acrescentam ainda uma reflexão pertinente para escolas ou agrupamentos que lidam com elevada mobilidade estudantil: quando os alunos mudam de escola e encontram um currículo diferente daquele que seguiam, perdem parte da continuidade do conhecimento que os professores presumem já adquirido. Um currículo coerente entre escolas do mesmo agrupamento — ou, no limite, à escala nacional — reduz esse impacto negativo, um argumento que interessa especialmente a quem coordena a articulação curricular entre ciclos e entre estabelecimentos de ensino.

Implicações para a prática letiva

Para os professores de Português, mas também das restantes disciplinas, a ideia central do artigo tem uma tradução prática relativamente direta: escolher e sequenciar textos tendo em conta não apenas o seu grau de dificuldade linguística, mas também o conhecimento que os alunos já possuem sobre o tema — e planear, com antecedência, o ensino explícito desse conhecimento antes de pedir aos alunos que leiam sobre ele. Um texto sobre a extinção dos dinossauros, para retomar um dos exemplos dos autores, só se torna acessível se os alunos souberem, de antemão, como é que os cientistas reconstroem acontecimentos que ninguém presenciou.

Esta lógica reforça também a importância da articulação entre disciplinas. Quando um professor de Estudo do Meio ou de Ciências Naturais constrói conhecimento sobre um tema, está, sem o saber, a preparar terreno para que esse mesmo tema seja lido com mais facilidade nas aulas de Português — e vice-versa. É um argumento a favor de um trabalho verdadeiramente interdisciplinar, não como justaposição de atividades, mas como construção deliberada de um reportório comum de saberes ao longo dos anos.

Para as famílias e para a comunidade escolar em geral, fica ainda uma ideia simples de comunicar: ler regularmente para uma criança, conversar sobre temas variados, visitar museus ou simplesmente descrever o mundo em voz alta não são atividades acessórias face à «verdadeira» aprendizagem da leitura — são, segundo esta investigação, parte essencial dela.

Uma decisão que não pode ser adiada

Willingham e Hirsch terminam o artigo com uma afirmação que resume bem o essencial: não escolher um currículo sistemático e sequencial é, também ela, uma escolha — a de aceitar uma cobertura aleatória de conteúdos e a persistência de desigualdades entre os alunos que chegam à escola com mais e com menos conhecimento do mundo. É um alerta que atravessa fronteiras e que interessa a qualquer sistema educativo, incluindo o português, onde o debate entre competências transversais e conhecimento disciplinar continua, também aqui, longe de estar encerrado.


Nota de transparência: este artigo foi redigido com o apoio de inteligência artificial, com base na tradução portuguesa do artigo «Rediscovering Knowledge as the Key to Reading», de Daniel T. Willingham e E. D. Hirsch, publicada pela Iniciativa Educação. Todos os dados, estudos e citações apresentados foram verificados diretamente na fonte; a contextualização para o quadro legal e curricular português (Decreto-Lei n.º 55/2018, Aprendizagens Essenciais, Perfil dos Alunos) foi acrescentada pela autora com base em fontes oficiais da Direção-Geral da Educação. Nível de confiança: alto para os dados de investigação citados no artigo original; médio para as inferências sobre a sua aplicabilidade direta ao contexto português, uma vez que não foram identificados estudos equivalentes realizados em Portugal.

Referências

Willingham, D. T., & Hirsch, E. D. (2026, 22 de junho). O conhecimento como chave para a leitura. Iniciativa Educação. https://www.iniciativaeducacao.org/pt/ed-on/artigos/ciencia/o-conhecimento-como-chave-para-a-leitura

Willingham, D. T., & Hirsch, E. D. (2026). Rediscovering knowledge as the key to reading. Education Next. https://www.educationnext.org/rediscovering-knowledge-as-the-key-to-reading/

Direção-Geral da Educação. (2018). Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho: Currículo dos ensinos básico e secundário. https://dge.mec.pt/curriculo-nacional-enquadramento

Filas em vez de faltas: o que o Babell ensina sobre ler por vontade

Num só domingo, o festival Babell encheu a Praça dos Leões para ouvir o Nobel húngaro László Krasznahorkai e esgotou o Coliseu do Porto para Salman Rushdie. Entre o aviso sobre o presente e a ironia sobre a morte, ficam pelo menos três lições diretas para quem promove a leitura nas escolas.

Há notícias que interessam à escola sem falarem de escola. A sessão de Salman Rushdie no Coliseu do Porto, no passado domingo, é uma delas. Não por causa da fama do escritor — embora essa tenha sido, sem dúvida, o motor que levou três mil pessoas a enfrentar filas de horas —, mas por causa de duas coisas que ali aconteceram e que valem a pena trazer para a sala de aula: a forma como um festival literário conseguiu tornar a compra de um livro, mesmo o mais modesto, num acontecimento desejado; e o modo como um escritor que vive sob ameaça há mais de três décadas falou, com humor e sem drama, sobre escrita, medo e sobrevivência.

Um livro, um bilhete, uma fila de três horas

O Babell — Cidade-Livro é a primeira edição de um festival literário organizado pela Fundação Livraria Lello, em parceria com a Câmara Municipal do Porto, decorrido entre 24 e 30 de junho na cidade. O conceito que o distingue de qualquer outro evento literário é simples de explicar e difícil de esquecer: a entrada para as sessões não se compra em dinheiro, compra-se com um livro. Pode ser um exemplar novo ou usado, comprado num alfarrabista por um euro — o que interessa é o gesto. Cada uma das quase setenta livrarias aderentes da cidade entrega, no ato da compra, um código que dá acesso a uma sessão à escolha, através do site do festival.

É um modelo com potencial de replicação direta em contexto escolar, e vale a pena que bibliotecas escolares e clubes de leitura o conheçam: transformar a aquisição — e não apenas o empréstimo — de um livro num bilhete para algo desejável (uma sessão de leitura, um encontro com um autor, uma atividade de turma) desloca o foco da obrigação para o desejo. Não é por acaso que o comissário do festival, Rui Couceiro, tem defendido publicamente que quer ver “o livro e a leitura” chegarem às mãos das pessoas através deste mecanismo — e que a fórmula poderia, na sua visão, ser replicada internacionalmente.

Essa aposta pareceu compensar: a organização do festival tem falado em audiências recorde nesta primeira edição, com destaque para a sessão de encerramento e para a noite de Salman Rushdie, que se tornou, por larga margem, o momento de maior procura de todo o Babell.

Três mil pessoas, um escritor sob ameaça há 37 anos

A sessão estava marcada para as 21h30 de domingo, mas às 22h08, quando finalmente soou o sinal de início, ainda havia gente na rua, na fila que se estendia da Praça dos Poveiros pela Rua de Santo Ildefonso. O Coliseu do Porto, com lugar para cerca de três mil pessoas, esgotara. À entrada, detetores de metais, revista e reforço da Polícia de Segurança Pública somavam-se à equipa de segurança privada que acompanha Rushdie desde 1989, ano em que o aiatolá Khomeini decretou uma fatwa contra o escritor na sequência da publicação de Os Versículos Satânicos, oferecendo recompensa pela sua morte. Essas medidas tornaram-se ainda mais visíveis depois de, em 2022, Rushdie ter sido gravemente ferido numa tentativa de assassinato durante uma conferência numa universidade do estado de Nova Iorque.

Nada disto impediu, contudo, uma sessão marcada pelo humor. Conduzida pelo escritor e bibliófilo argentino Alberto Manguel — hoje radicado em Lisboa, onde aguarda a abertura de um centro de estudos dedicado à história da leitura —, a conversa arrancou com a leitura de um excerto por António Durães e percorreu, ao longo de cerca de quarenta e nove minutos, temas tão distintos como o fascínio de Rushdie por O Feiticeiro de Oz — o filme que, aos dez anos, o levou a escrever a sua primeira história, sobre um rapaz “numa cidade como a minha” —, o respeito quase reverencial pela velocidade de escrita de Shakespeare, a infância em Bombaim e a relação entre a esfera pública e a privada na construção das personagens de um romance.

O momento mais citado pela imprensa portuguesa nos dias seguintes foi, no entanto, o fecho da conversa, quando Manguel perguntou a Rushdie se tinha medo da morte. A resposta recorreu à literatura para desarmar o peso da pergunta: uma referência ao empregado de escritório Bartleby, de Herman Melville, que responde a qualquer pedido com um simples «preferia que não» — «essa é a minha visão da morte», resumiu o escritor.

Horas antes, na Praça dos Leões: o aviso de um Nobel

Horas antes de Rushdie subir ao palco do Coliseu, a Praça Gomes Teixeira — conhecida dos portuenses como Praça dos Leões — já tinha recebido a sua própria enchente: cerca de 1200 pessoas, segundo a organização, para ouvir o escritor húngaro László Krasznahorkai, distinguido em 2025 com o Prémio Nobel da Literatura e conhecido, muito antes do prémio, como o «mestre húngaro do Apocalipse». A conversa, conduzida pelo músico Pedro Abrunhosa, ficou resumida numa frase que a organização escolheu destacar em letras grandes: «Não precisamos de esperar pelo apocalipse. Ele já está aqui.»

Provocado pelas distopias de George Orwell e Aldous Huxley, citadas por Abrunhosa, Krasznahorkai foi taxativo: o futuro que esses livros descrevem é sombrio, mas continua a ser apenas uma possibilidade entre outras. O que hoje enfrentamos, defendeu, é pior — alterações climáticas, falta de água e de comida, guerras e outros conflitos, um planeta que terá de sustentar oito mil milhões de pessoas com recursos que, na sua conta, chegariam para metade disso. Falou do medo como o sentimento mais importante em qualquer ser vivo, por estar na base da luta pela sobrevivência, e da incapacidade de sentir medo como o estado mais perigoso de todos.

Perante um retrato tão sombrio, a reação do escritor não foi o desalento, mas o humor — que, garantiu, nunca é intencional nos seus livros, mas nasce das próprias situações e personagens. Evocou o cavaleiro do filme dos Monty Python que, mesmo depois de perder braços e pernas, continua a desafiar o adversário a lutar: o trágico e o cómico, disse, andam sempre de mãos dadas. A conversa passou também pela atualidade política, a propósito da recente derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria: Krasznahorkai deixou um aviso — um país que já teve um ditador pode voltar a ter outro — e uma farpa dirigida às «figuras narcisistas que têm saído dos esgotos da História», entre as quais deixou clara a referência ao atual presidente norte-americano.

Há ainda um pormenor que interessa particularmente a um blogue sobre tecnologia e educação: tanto na sessão de Krasznahorkai como na de Olga Tokarczuk, os autores falaram nas suas línguas maternas, e o sistema de legendagem em tempo real anunciado pela organização — apresentado como fruto da combinação entre tradução humana e apoio de inteligência artificial — nem sempre funcionou nas melhores condições, com legendas pequenas, lentas e em constante reformulação. É um lembrete oportuno, e gratuito, de que a tradução automática em contexto ao vivo continua a ser um dos desafios mais difíceis da IA aplicada — e um bom exemplo prático para discutir, em sala de aula, a diferença entre aquilo que a inteligência artificial promete e aquilo que, hoje, ainda consegue cumprir com fiabilidade.

O que fica para a escola

Há aqui, na verdade, duas lições distintas, e ambas úteis. A primeira é prática: o modelo «um livro, um bilhete» do Babell é uma ideia perfeitamente transponível para uma escola — seja como mecânica de um clube de leitura, seja como forma de dar visibilidade a uma biblioteca escolar sem nunca pronunciar o nome dessa instituição, seja como desafio de cidadania a propor aos alunos («o que aconteceria se, na nossa escola, o acesso a um evento dependesse de trazer um livro para doar ou trocar?»). É um exemplo concreto de como a promoção da leitura pode ser desenhada com criatividade, em vez de depender apenas da obrigatoriedade curricular.

A segunda lição é de outra natureza, e talvez mais importante: a figura de Salman Rushdie continua a ser, hoje, o exemplo mais visível e mais vivo de um escritor que paga um preço físico real pela liberdade de expressão. Numa disciplina como Cidadania e Desenvolvimento, ou numa aula de Português sobre censura e liberdade criativa, a história de Rushdie oferece algo que os manuais raramente conseguem: um caso concreto, contemporâneo, sem ambiguidade histórica, sobre o que significa continuar a escrever depois de uma condenação à morte por causa de um livro — sem transformar essa história em melodrama, como o próprio demonstrou ao responder com ironia a uma pergunta sobre a sua mortalidade.

Não é preciso ensinar Os Versículos Satânicos — obra de leitura exigente e pouco adequada, em regra, ao ensino não superior — para usar a trajetória do seu autor como ponto de partida para uma discussão séria sobre os limites entre liberdade de expressão e ofensa religiosa, sobre o custo pessoal de escrever e sobre a razão pela qual mais de três mil pessoas, num domingo à noite, preferiram esperar horas numa fila a ficar em casa. Essa pergunta — porque é que ainda vale a pena esperar por um livro, por um escritor, por uma história — é, no fundo, a pergunta que qualquer professor de português faz silenciosamente todos os dias.

A isto soma-se a lição, mais direta, de Krasznahorkai: mesmo o escritor mais associado ao fim do mundo na literatura europeia contemporânea escolhe, quando confrontado com um público, recomendar simplesmente que se leia — porque ler continua a ser, nas suas palavras, sempre «um caminho». E a experiência menos conseguida da legendagem em tempo real nas suas sessões, apoiada por inteligência artificial, oferece um contraponto honesto e produtivo a qualquer entusiasmo excessivo com estas ferramentas: mesmo em 2026, traduzir ao vivo continua a ser um problema em aberto, e é saudável que os alunos o saibam.

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Referências

Observador. (2026, 29 de junho). Salman Rushdie no Coliseu do Porto: horas de espera para uma lição sobre a vida, a escrita e o “preferia que não” da morte. https://observador.pt/especiais/salman-rushdie-no-coliseu-do-porto-horas-de-espera-para-uma-licao-sobre-a-vida-a-escrita-e-o-preferia-que-nao-da-morte/

Notícias ao Minuto. (2026, 30 de junho). Salman Rushdie lembrou “Oz” e Shakespeare no Porto. https://www.noticiasaominuto.com/pais/3012701/salman-rushdie-lembrou-oz-e-shakespeare-no-porto

Notícias ao Minuto. (2026, 28 de junho). Nobel László Krasznahorkai faz apelo à leitura que “é sempre um caminho”. https://www.noticiasaominuto.com/cultura/3012670/nobel-laszlo-krasznahorkai-faz-apelo-a-leitura-que-e-sempre-um-caminho

Jornal Universitário do Porto. (2026, 29 de junho). László Krasznahorkai e Lídia Jorge nos últimos dias do Babell. https://www.jup.pt/cultura/artigo/laszlo-krasznahorkai-e-lidia-jorge-nos-ultimos-dias-do-babell.aspx

RTP. (2025, 17 de dezembro). Festival literário Babell traz ao Porto Salman Rushdie, Olga Tokarczuk e Margaret Atwood. https://www.rtp.pt/noticias/cultura/festival-literario-babell-traz-ao-porto-salman-rushdie-olga-tokarczuk-e-margaret-atwood_n1704966