Entre 2021 e 2025, a China revogou 12 200 licenciaturas e criou 10 200 novas, redesenhando mais de 30% da sua oferta formativa em torno da IA. Um estudo de caso sobre currículo, empregabilidade e o risco de trocar um problema por outro.

Entre 2021 e 2025, as universidades chinesas revogaram ou suspenderam 12 200 licenciaturas e lançaram 10 200 novas. O saldo é impressionante por si só, mas o número que mais diz sobre a escala da operação é outro: mais de 30% de toda a oferta formativa do ensino superior chinês foi ajustada neste período, segundo dados do Ministério da Educação citados pela agência oficial Xinhua e avançados pelo South China Morning Post. Não se trata de um ajuste de rotina. É a reformulação mais vasta da arquitetura curricular universitária chinesa em décadas, e vale a pena perceber porquê — e o que pode, ou não, ensinar-nos.
A dimensão do corte
Os números foram confirmados de forma independente através da publicação, a 28 de abril de 2026, do novo Catálogo de Licenciaturas do Ensino Superior pelo Ministério da Educação chinês, que acrescentou 38 novas áreas de formação ao leque nacional e elevou pela primeira vez a taxa anual de ajustamento de cursos para mais de 10%. O movimento não nasceu do nada: já em 2024, o vice-ministro da Educação, Wu Yan, tinha assinalado que, ao longo de doze anos, o país tinha criado 21 mil novos pontos de licenciatura e eliminado cerca de 12 mil considerados desajustados às necessidades económicas e sociais. O que muda agora é o ritmo — e a clareza do alvo: alinhar a formação superior com a estratégia nacional para a inteligência artificial e as chamadas «indústrias do futuro».
Que cursos desaparecem e, porquê
Os cortes concentraram-se sobretudo em artes, humanidades, línguas estrangeiras e gestão — áreas que as autoridades chinesas consideram, cada vez mais, saturadas ou desalinhadas com as necessidades do mercado de trabalho. Os exemplos concretos ajudam a perceber a lógica. A Communication University of China, uma das instituições de referência na formação em media e artes do país, extinguiu licenciaturas em fotografia, banda desenhada, design de comunicação visual, arte de novos media e design de moda. Na University of Shanghai for Science and Technology, a admissão ao curso de design de produto foi suspensa este ano; segundo um recém-licenciado citado pelo South China Morning Post, o avanço da inteligência artificial generativa afetou diretamente tarefas centrais do curso, como a modelação e a renderização, hoje em larga medida automatizáveis.
É uma leitura que se repete um pouco por toda a China: cursos que preparavam para tarefas técnicas bem definidas — desenhar, traduzir, redigir, gerir processos administrativos — estão a perder terreno precisamente nas competências em que a IA generativa já iguala ou supera um recém-formado.
O que surge no lugar
Do lado oposto, o crescimento é rápido em áreas alinhadas com a estratégia industrial de Pequim. O exemplo mais visível é o da «inteligência incorporada» (embodied intelligence), um campo que junta robótica, controlo, ciência da computação e engenharia mecânica para criar sistemas de IA capazes de agir fisicamente no mundo real — desde braços robóticos a robôs humanoides. Nove universidades de topo, entre as quais o Instituto de Tecnologia de Harbin, a Universidade de Beihang, a Universidade Jiao Tong de Xangai e a Universidade de Zhejiang, foram autorizadas a abrir, já em 2026, as primeiras licenciaturas do país nesta área, num mecanismo que o Ministério da Educação classifica como «criação extraordinária de cursos estrategicamente urgentes». A oferta de vagas é, para já, propositadamente reduzida — a maioria das instituições admite apenas algumas dezenas de alunos por ano —, o que sinaliza um modelo de formação de elite, e não de massificação.
Esta aposta articula-se com um problema estrutural que as próprias universidades identificam nos dossiês de candidatura submetidos ao Ministério: o défice de profissionais qualificados nesta área ronda o milhão de pessoas, num mercado em que os salários médios de entrada já superam os da inteligência artificial “convencional”.
A pressão do desemprego jovem
Nada disto acontece no vazio. A taxa oficial de desemprego jovem (16-24 anos, excluindo estudantes) subiu para 16,9% em março de 2026, invertendo seis meses consecutivos de descida, com mais 12,7 milhões de recém-licenciados prestes a entrar no mercado de trabalho ainda este ano — o maior contingente de sempre. É neste contexto de pressão social e política que se compreende a urgência do Governo chinês em reorientar a formação superior para setores com procura de mão de obra comprovada, e a decisão, ainda que controversa, de rotular publicamente como «obsoletos» cursos que, há uma década, atraíam os melhores alunos do país.
Nem todos concordam com a lógica do corte
Vale a pena não simplificar a narrativa. Chu Zhaohui, investigador sénior do National Institute of Education Sciences, avisou que a substituição sucessiva de um curso por outro é, na melhor das hipóteses, uma resposta de curto prazo. Segundo Chu, uma parte significativa dos cursos agora extintos tinha sido criada há apenas alguns anos, numa fase anterior da mesma vaga de reformas — e não teve tempo de amadurecer nem de construir uma identidade própria. Em vez de repetir o ciclo, defende, as universidades deveriam avançar para sistemas curriculares mais flexíveis, que permitam aos estudantes escolher unidades curriculares consoante os seus interesses, pontos fortes e objetivos profissionais, construindo assim um perfil intelectual distintivo em vez de uma etiqueta de curso rígida.
A perspetiva das famílias aponta na mesma direção. Vincent Zhao, empresário do setor da produção audiovisual em Pequim, incentivou a filha a estudar estatística e governação de dados quando esta entrou na universidade — não por ser a área mais badalada do momento, mas precisamente pela sua transversalidade, que deixa em aberto tanto o prosseguimento de estudos como a entrada direta no mercado de trabalho. Na sua leitura, o modelo tradicional — escolher um curso muito específico, encontrar um emprego perfeitamente alinhado com ele e manter-se nessa trajetória a vida inteira — deixou simplesmente de existir.
O que isto diz às escolas europeias
Para quem trabalha em educação em Portugal, ou na Europa em geral, este episódio interessa menos pela escala do que pela lógica que o sustenta — e pelos seus limites. A China optou por um modelo centralizado e de decisão rápida: uma autoridade nacional decide, top-down, que cursos se extinguem e quais se abrem, e fá-lo ano após ano, com metas percentuais. É um modelo eficaz a mobilizar recursos, mas que carrega um risco evidente, e que o próprio Chu Zhaohui sublinha: o de tratar sintomas (um curso com fraca empregabilidade) sem resolver a causa (currículos desatualizados, desligados da prática, sem mecanismos de revisão contínua). Trocar rotulagens não é o mesmo que repensar competências.
Na maioria dos sistemas educativos europeus, incluindo o português, o caminho seguido tem sido diferente: em vez de extinguir cursos de humanidades ou de artes em bloco, a tendência tem sido integrar literacia de IA, pensamento computacional e competências de análise de dados de forma transversal, preservando o valor formativo dessas áreas mas atualizando o modo como se ensinam e avaliam. É uma abordagem mais lenta, mas também mais resistente a modas passageiras — e evita a armadilha de assumir, sem mais, que humanidades equivale a obsoleto e tecnologia equivale a futuro, uma equação que o próprio caso chinês complica quando mostra que cursos técnicos recém-criados também acabam extintos por falta de maturidade.
Há, ainda assim, três lições que qualquer escola ou agrupamento pode retirar deste caso. A primeira é a urgência de repensar a orientação vocacional: se, como diz Vincent Zhao, o modelo de «um curso, uma profissão, uma vida» está a esgotar-se também fora da China, então preparar um aluno do 12.º ano implica menos apontar para uma etiqueta profissional fixa e mais desenvolver a capacidade de se reorientar ao longo da vida. A segunda é a necessidade de rever, com regularidade e sem dramatismo, o que se ensina dentro de cada disciplina — não para a abolir, mas para a manter relevante, exatamente o argumento que Chu Zhaohui defende para as próprias universidades chinesas. A terceira é reconhecer que a inteligência artificial não está a substituir apenas profissões «técnicas»: o exemplo do design de produto em Xangai, onde a modelação e a renderização passaram a ser tarefas em grande parte automatizáveis, mostra que também áreas criativas e aplicadas estão expostas, e que a resposta não pode ser apenas «mudar de curso», mas ensinar a trabalhar com estas ferramentas de forma crítica.
O caso chinês é extremo na sua velocidade e na sua centralização, mas o problema que tenta resolver — currículos superiores desalinhados de um mercado de trabalho em rápida transformação pela IA — é, com outra intensidade, também europeu. Vale a pena observar o desfecho desta experiência nos próximos anos, sobretudo para perceber se a flexibilidade curricular que Chu Zhaohui reclama acaba por se impor à lógica de substituição sucessiva de rótulos.

Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir de fontes jornalísticas e institucionais verificadas de forma independente.
Referências
Bangkok Post. (2026, junho). China’s universities cut 12,000 ‘obsolete’ degrees amid race to embrace AI era [sindicação do South China Morning Post]. https://www.bangkokpost.com/world/3270670/chinas-universities-cut-12000-obsolete-degrees-amid-race-to-embrace-ai-era
South China Morning Post. (2025, novembro 21). China braces for record 12.7 million graduates entering tight job market in 2026. https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3333652/china-braces-record-127-million-graduates-entering-tight-job-market-2026
South China Morning Post. (2026, abril 21). China’s youth unemployment crunch deepens as record graduation season looms. https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3350813/chinas-youth-unemployment-crunch-deepens-record-graduation-season-looms
VnExpress International. (2026, junho). China’s universities cut 12,000 ‘obsolete’ majors in AI overhaul. https://e.vnexpress.net/news/tech/tech-news/china-s-universities-cut-12-000-obsolete-majors-in-ai-overhaul-5086857.html
Yang, C. (2026, junho 14). China’s universities cut 12,000 ‘obsolete’ degrees amid race to embrace AI era. South China Morning Post. https://www.scmp.com/economy/china-economy/article/3356913/chinas-universities-cut-12000-obsolete-degrees-amid-race-embrace-ai-era
香港中通社 [China News Service, Hong Kong]. (2026, abril 28). “十四五”期间中国高校撤销本科专业1.22万个 [Durante o 14.º Plano Quinquenal, as universidades chinesas revogaram 12 200 licenciaturas]. https://hkcna.hk/h5/docDetail.jsp?id=101306814&channel=2813
36氪 [36Kr]. (2026, junho). 重磅!”最缺工”专业来袭,9所高校抢先布局,全国仅招几百人 [A profissão mais procurada chega: 9 universidades avançam primeiro, com poucas centenas de vagas a nível nacional]. https://eu.36kr.com/zh/p/3864187082505094

