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Sobre Jorge Borges

Professor

Sant Cugat del Vallès — Da Antiguidade Romana aos Dias de Hoje

Visão Geral

Sant Cugat del Vallès é um município catalão situado na comarca do Vallès Occidental, a apenas 18 km a noroeste de Barcelona. Com uma superfície de 48,2 km² e uma população de cerca de 97.959 habitantes (dados de janeiro de 2025), é o terceiro município mais populoso da comarca, a seguir a Terrassa e Sabadell. A cidade conjuga um extraordinário património medieval com uma qualidade de vida reconhecida: em 2017, era o oitavo município mais próspero de Espanha, com uma renda bruta média por habitante de 48.942 euros. Hoje, o seu PIB per capita ultrapassa os 59.780 euros, muito acima da média metropolitana de Barcelona.


1. Das Origens Romanas ao Martírio de Sant Cugat (sécs. I–IV)

A história de Sant Cugat começa com um assentamento militar romano conhecido como Castrum Octavianum, fundado por ordem do imperador Augusto (Octaviano) e situado junto à via imperial que ligava os Pirinéus a Tarraco (Tarragona). Tratava-se de uma fortaleza que dominava e protegia o território do Vallès, cujas terras foram doadas a veteranos da legião do imperador.

O episódio fundador que deu nome à cidade é o martírio de Sant Cugat (em latim, Cucuphas ou Cucufate). Nascido no norte de África, na cidade de Scil·li perto de Cartago, era mercador, generoso com os pobres e predicador do Evangelho. Acompanhado do seu amigo Félix, veio por mar até Barcelona e começou a pregar com tal fervor que muitos barceloneses o seguiram. Preso pelas autoridades romanas durante a perseguição do governador Maximiano (delegado de Diocleciano), foi sujeito a suplícios e, segundo a tradição, foi decapitado no ano 304 d.C. em Castrum Octavianum. A primeira referência escrita ao mártir é do poeta latino Aurélio Prudêncio, nascido em Tàrraco em 348 d.C., que na sua obra Peristephanon escreveu: “Barcelona se erguerá, confiada, en su ínclito Cugat”.

Após o martírio, duas cristãs de Iluro (Mataró) — Juliana e Semproniana — enterraram o seu corpo, morrendo elas próprias mártires. Em torno do túmulo do santo foi construído um pequeno martyrium funerário que se tornaria o embrião do futuro mosteiro.


2. Da Época Visigótica à Invasão Sarracena (sécs. V–VIII)

Durante a época visigótica, o espaço adquiriu crescente relevância religiosa.martyrium original terá sido destruído por um incêndio no início do século VI, mas o local não foi abandonado: já no século VII existia uma pequena basílica visigótica, cujos vestígios ainda são visíveis na parte inferior da cabeça da igreja atual. Esta primeira comunidade religiosa foi destruída em 717, durante a invasão muçulmana da Península Ibérica. O local foi recuperado pelos francos em 801, abrindo caminho para a grande fundação medieval.


3. A Fundação do Mosteiro Beneditino (séc. IX)

O mosteiro como tal foi fundado no século IX, no contexto da política franca de criação de mosteiros beneditinos como instrumentos de organização territorial e de difusão do feudalismo. A primeira referência documental data de 878, através de um precepto do rei Luís, o Gago, concedido ao bispo Frodoí de Barcelona. O primeiro abade verdadeiramente documentado foi Ostofred (878–895).

Em julho de 985, o mosteiro sofreu o devastador ataque de Al-Mansur (Almançor) ao condado de Barcelona: o abade Joan e vários monges morreram, o arquivo foi incendiado e os documentos que provavam as propriedades do mosteiro perderam-se. Apesar desta catástrofe, a comunidade reorganizou-se rapidamente. Sob o abade Odó (986–1010), iniciou-se um período de grande impulso: o mosteiro cresceu em domínios territoriais, poder económico e influência política, tornando-se o mais importante do condado de Barcelona. Durante os séculos X e XI, graças a doações e privilégios de condes e nobres, a abadia controlava extensos feudos e exercia uma jurisdição senhoril sobre o território circundante.


4. A Construção do Conjunto Monástico (sécs. XI–XIV)

A Igreja

A igreja do mosteiro começou a ser construída em estilo românico, mas a obra prolongou-se até ao século XIV, altura em que já decorria em estilo gótico. Esta transição produz um dos seus maiores encantos: um interior claramente românico que culmina numa fachada gótica com um imponente rosáceo. O campanário de planta quadrada, decorado com lesenas e arcos cegos, é de estilo românico do século XI. A nave apresenta três corpos cobertos com abóbadas de cruzaria, e uma cúpula que se transforma exteriormente num formoso cimório octogonal. O rosáceo da fachada gótica, do século XIV, é inspirado no da catedral de Notre-Dame de Paris.

O Claustro Românico — Joia da Europa Medieval

O elemento mais distintivo e celebrado é o claustro românico, considerado uma das joias da escultura medieval europeia e um dos melhores conservados do continente. A sua construção começou por volta de 1190, graças ao legado testamentário de Guillem de Claramunt, que desejava ser enterrado próximo do túmulo do mártir. O conjunto ficou concluído em cerca de 1220.

Sant Cugat Monastery cloister

O mestre de obras foi Arnau Cadell, que também dirigiu a construção do claustro da catedral de Girona. Cadell assinou a obra numa pequena lápide junto a um capitel do ângulo nordeste, onde se vê a representação do próprio mestre esculpindo um capitel. Cada ala do claustro mede cerca de trinta metros, dotando o pátio de uma superfície de cerca de novecentos metros quadrados. Cada galeria é composta por três séries de cinco arcadas, separadas por contrafortes, e as arcadas sustentam-se em pares de colunas em pedra proveniente de Girona.

No total, existem 144 colunas e capiteis — número altamente simbólico, alusivo às medidas dos muros da Jerusalém Celeste descritos no Livro do Apocalipse. Cada capitel é único e narra cenas do Antigo e Novo Testamento (o Dilúvio Universal, o Lavatorio de Pés, a Apresentação de Jesus no Templo, o Ciclo de Abraão), motivos de fauna, flora e da vida monástica quotidiana. Uma fonte-lavatório central evoca o Paraíso descrito no Génesis e simboliza a união do céu com a terra.


5. O Poder Feudal e o Declínio (sécs. XIV–XIX)

No seu apogeu medieval, o mosteiro de Sant Cugat era o mais poderoso do condado de Barcelona, exercendo controlo feudal sobre dezenas de paróquias e localidades. O palácio abacial — atual casa reitoral — chegou a hospedar vários reis da coroa de Aragão. Uma sucessão de capelas barrocas e retábulos renascentistas enriquecem o conjunto, resultado das obras de embelezamento dos séculos XVI e XVII.

A decadência chegou com a desamortização do século XIX: em 1835, como consequência das leis liberais que expropriaram os bens do clero regular, os monges abandonaram o mosteiro. O edifício permaneceu vazio até 1851, quando se iniciou a restauração. Em 3 de junho de 1931 foi declarado Monumento Nacional (Bem de Interesse Cultural), reconhecimento que protegeu definitivamente o seu património.


6. O Crescimento da Vila (sécs. XIX–XX)

Após séculos de vida agrícola centrada sobretudo na vinha, a abertura em 1877 da estrada de Gràcia (que ligava Sant Cugat a Barcelona) tirou a vila do seu isolamento ancestral, favoreceu o comércio e atraiu os primeiros veraneantes barceloneses, fascinados pelo ambiente serrano de Collserola. A praga da filoxera, que dizimou as vinhas em 1887-1888, perturbou o crescimento económico mas paradoxalmente libertou terrenos para construção.

O Modernismo

Modernist house exterior

A aproximação a Barcelona e a chegada de veraneantes burgueses criaram condições para o desenvolvimento do modernismo arquitetónico em Sant Cugat, com cerca de uma década de atraso em relação à capital. A Casa Armet (Avenida de Gràcia), projetada em 1898, é considerada a primeira casa puramente modernista da cidade.

Outros exemplos notáveis incluem a Casa Mónaco, a Casa Mir (ou Casa Manuel Mir Foix, com torre e fachada ornamentada), a Casa Jover e a Bodega Cooperativa, obra do arquiteto Cèsar Martinell. O espaço mais surpreendente é o Generalife, uma casa de influência modernista e arabizante construída em 1914 pelo arquiteto Eduard Maria Balcells — discípulo de Gaudí —, com cúpula de azulejo ao estilo gaudiniano, janelas geminadas e jardins com magnólias.
A chegada dos Ferrocarrils de la Generalitat de Catalunya (FGC) reforçou a ligação a Barcelona e acelerou a transformação de Sant Cugat em núcleo residencial. A cidade foi oficialmente elevada à categoria de cidade em 1978.


7. Sant Cugat Hoje: Cidade Próspera e Multifacetada

Dados Demográficos e Económicos

Sant Cugat conta com cerca de 97.959 habitantes (janeiro de 2025), e é a única cidade catalã com mais de 20.000 habitantes que registou uma ligeira perda populacional entre 2024 e 2025, resultante de uma limpeza administrativa do registo — o município tinha descido de 98.649 para 97.959 residentes. O seu PIB per capita de 59.780 euros é largamente superior à média da área metropolitana de Barcelona (36.190 euros), e a taxa de desemprego registado é de apenas 2,48%.

IndicadorSant CugatMédia AMB Barcelona
PIB per capita (€)59.78036.190
Renda Familiar Disponível Bruta/hab. (€)23.90019.400
Densidade populacional (hab/km²)1.8875.177
Taxa de desemprego registado2,48%

Tecido Empresarial e Inovação

Com mais de 8.774 empresas registadas, Sant Cugat possui um vibrante ecossistema empresarial que integra multinacionais, startups tecnológicas e prestadores de serviços especializados. A Câmara Municipal criou o InvestSantCugat, plataforma dedicada a atrair investimento externo e apoiar empreendedores. A proximidade com Barcelona, a qualidade de vida e as boas infraestruturas de transporte tornam a cidade especialmente apelativa para trabalhadores do setor do conhecimento.


8. Os Principais Monumentos e Pontos de Interesse

Mosteiro de Sant Cugat

Sant Cugat Monastery
O mosteiro é o símbolo indiscutível da cidade e um dos conjuntos monásticos mais importantes da Catalunha. A visita cobre a igreja (aberta das 8h às 13h e das 17h às 21h), o claustro românico e o Museu do Mosteiro, que acolhe coleções de arte sacra, arqueologia e explicações sobre a vida quotidiana dos monges medievais. As visitas guiadas gratuitas ao mosteiro realizam-se aos sábados às 10h. A Universidade Autónoma de Barcelona (UAB) desenvolveu um inovador projeto de digitalização em 3D dos 144 capiteis, criando o primeiro catálogo digital tridimensional das peças, acessível para preservação, ensino e impressão 3D.

Parque Natural de Collserola

Forest trail

Sant Cugat é o município com maior superfície integrada no Parque Natural da Serra de Collserola — o maior parque metropolitano de Espanha, com mais de 8.000 hectares. Quarenta e quatro por cento do território do município está dentro do parque, que pertence também à rede europeia Natura 2000. A fauna inclui javalis, esquilos, ginetas, açores e numerosas aves; a flora é tipicamente mediterrânica.

Forest hills

Dentro dos limites de Sant Cugat, destacam-se:

  • Torre Negra, torre de defesa medieval do século XII, muito bem conservada, que foi palco de disputas entre os seus proprietários e o mosteiro
  • Pi d’en Xandri, pinheiro monumental com mais de 250 anos, 23 metros de altura e um tronco com mais de 3 metros de diâmetro — símbolo da luta cívica da cidade
  • Ermida de Sant Medir, de estilo românico do século XI, envolva por sobreiros, destino de romaria no dia 3 de março
  • Pantà de Can Borrell, pequena barragem construída no início do século XX para abastecer de água a quinta homónima

O parque oferece doze itinerários de vários comprimentos e dificuldades, ideais para caminhantes, ciclistas de montanha e corredores.

Mercantic — O Mercado Vintage de Referência

Vintage furniture market

Instalado na antiga fábrica de cerâmica fundada por Josep Barnils em 1956, o Mercantic abriu as suas portas em 1992. Considerado um ponto de referência europeu para colecionadores e amantes do vintage, ocupa uma área de mais de 15.000 m² dividida entre a Nave Central, o Bairro das Casitas e o Distrito Antigo, com mais de 100 comerciantes residentes e seis restaurantes.

Antique market

Cada domingo, o pátio exterior anima-se com um mercado adicional de 50 expositores de antiguidades, segunda mão e colecionismo. O destaque da oferta cultural é a livraria El Siglo, com mais de 150.000 livros antigos e em segunda mão, que organiza também concertos de música ao vivo com vermute. O primeiro domingo de cada mês celebra-se o Sunday Market / La Descarregada, com livros, discos, roupa vintage e objetos curiosos.

#diasnalivraria

Centre d’Alt Rendiment (CAR)


Fundado em 1987 na expectativa dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, o Centre d’Alt Rendiment de Sant Cugat foi o primeiro centro de alto rendimento desportivo do mundo a integrar um centro educativo, permitindo aos atletas continuar os seus estudos. As suas instalações incluem piscina olímpica interior e exterior, piscina de saltos, pista de atletismo, campo de futebol, pavilhão coberto e pistas de ténis.
O CAR já formou mais de 3.400 medalhistas e o seu orçamento anual ronda os 11,5 milhões de euros, dos quais 9,5 milhões são financiados pelo Consejo Superior de Deportes e pelo Consell Català de l’Esport. Nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, 78 dos 305 atletas da delegação espanhola eram formados ou treinados no CAR. Entre os nomes que passaram pelo centro destacam-se Mireia BelmonteArantxa Sánchez VicarioGervasi DeferrGemma MengualOna CarbonellGarbiñe Muguruza e o atleta mundial Serhiy Bubka.


9. Cultura, Festas e Vida Urbana

Gastronomia e Vida de Bairro

Plaça de Barcelona é o coração do Sant Cugat mais tradicional, com esplanadas tranquilas e um ambiente de vila que contrasta com a azáfama de Barcelona. A Avenida de Gràcia — a principal artéria comercial — concentra as melhores edificações modernistas e novecentistas, além de restaurantes e lojas de qualidade.

Festas Populares

A festa principal da cidade celebra-se a 27 de julho, dia de Sant Cugat, em memória do mártir que lhe deu o nome. A romaria de Sant Medir, no dia 3 de março, é uma celebração secular com missa, sardanas, castells e uma refeição de campo na ermida homónima no interior de Collserola.

Circuito de Catalunya

A menos de 20 km de Sant Cugat encontra-se o Circuit de Catalunya (em Montmeló), um dos grandes circuitos de Fórmula 1 da Europa, facilmente acessível a partir da cidade.


10. Acessibilidade e Ligações

Sant Cugat está integrada na rede metropolitana de Barcelona e é facilmente acessível:

Meio de transporteLigaçãoTempo aproximado
FGC — Linha S1 (Terrassa)Plaça Catalunya, Barcelona~30 min
FGC — Linha S2 (Sabadell)Plaça Catalunya, Barcelona~30 min
Autopista AP-7Barcelona / Girona / França
C-16 (Túneis de Vallvidrera)Barcelona centro~15 min de carro
B-30Eixo norte-sul da comarca

A frequência de comboios da FGC é elevada (a cada 6–12 minutos nas horas de ponta), tornando Sant Cugat uma das cidades-dormitório mais bem servidas da área metropolitana de Barcelona, mas também um destino de turismo de proximidade para excursionistas barceloneses.


Síntese Histórica

PeríodoEvento / Marco
Séc. I a.C.Fundação do Castrum Octavianum romano
304 d.C.Martírio de Sant Cugat (Cucufate)
Séc. VConstrução da primeira basílica paleocristã
717Destruição pela invasão muçulmana
801Recuperação pelos francos
878Primeira referência documental do mosteiro
985Saque de Al-Mansur (Almançor)
c. 1190–1220Construção do claustro românico (Arnau Cadell)
Séc. XIVConclusão da igreja gótica e do rosáceo
1835Desamortização — monges abandonam o mosteiro
1877Abertura da estrada de Gràcia; fim do isolamento
1887–88Filoxera destrói as vinhas
1898Casa Armet — primeira casa modernista
1931Mosteiro declarado Monumento Nacional
1978Sant Cugat elevada à categoria de cidade
1987Fundação do CAR (Centro de Alto Rendimento)
1992Jogos Olímpicos de Barcelona; abertura do Mercantic
20178.º município mais próspero de Espanha
2025~97.959 habitantes; PIB per capita de 59.780 €

Estratégia nacional de inteligência artificial do Canadá: A IA para todos

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Há documentos que se lêem e se esquecem. E há documentos que nos obrigam a parar. A Estratégia Nacional de Inteligência Artificial do Canadá, publicada em 2026 pelo governo federal sob o título «L’IA pour tous» — a IA para todos —, é do segundo tipo. Não porque seja perfeita, nem porque o que o Canadá faz sirva diretamente para Portugal. Mas porque é, até hoje, uma das apostas mais completas e honestas que qualquer democracia ocidental colocou por escrito sobre como quer navegar a era da inteligência artificial — e porque coloca a escola, os professores e os alunos no centro dessa navegação.

Vale a pena ler com atenção o que o Canadá decidiu, e depois perguntar, como acontece sempre neste blogue: e nós, o que fazemos?

Um país que inventou a IA moderna e percebeu que isso não chega

O documento começa com um dado que poucos conhecem fora do mundo académico: a inteligência artificial moderna nasceu no Canadá. Os trabalhos de Geoffrey Hinton — Prémio Nobel —, de Yoshua Bengio e de Richard Sutton — ambos premiados com o Turing Award, frequentemente descrito como o «Nobel da Computação» — são a base conceptual dos sistemas que hoje usamos. O ChatGPT, o Gemini, os modelos de geração de imagem, os sistemas de tradução automática: todos bebem, de forma direta ou indireta, de investigação desenvolvida em universidades canadianas.

Mas o Canadá teve a lucidez de reconhecer que ter inventado algo não garante colher os seus frutos. Os dados que o próprio governo apresenta são incómodos: apenas 12% das empresas canadianas usam IA na sua atividade — contra 29 a 42% nos países nórdicos, 26% na Alemanha e 18% em França. Nas pequenas e médias empresas, a taxa cai para cerca de 8%. E apenas 24% dos cidadãos declaram ter recebido alguma formação em IA.

O problema mais profundo, porém, não é técnico nem económico. É um problema de confiança e de literacia. O Canadá classifica-se em 44.º lugar entre 47 países avaliados em formação e literacia em IA, e em 42.º em confiança nos sistemas de IA — segundo um estudo global da KPMG com a Universidade de Melbourne. Menos de metade dos canadianos acredita conseguir usar ferramentas de IA de forma eficaz. E a população está aproximadamente dividida entre quem vê a IA como benéfica (34%) e quem a considera prejudicial (36%), sendo que metade a vê como uma ameaça à humanidade.

É desta tensão — entre a liderança na investigação e o atraso na adoção, entre a promessa tecnológica e a desconfiança pública — que nasce a estratégia. E é precisamente nesta tensão que a escola entra como elemento central.

Seis pilares, e o segundo é para a escola

A estratégia organiza-se em seis pilares. O primeiro trata da proteção dos cidadãos e da democracia. O terceiro, da adoção da IA nas empresas. O quarto, da soberania tecnológica em infraestrutura e computação. O quinto, do apoio a campeões canadianos no setor da IA. O sexto, das parcerias internacionais.

Mas é o segundo pilar que mais diretamente interpela quem trabalha em educação: «Dar a todos os canadianos os meios para ter sucesso». Este pilar reconhece que um país não prospera na era da IA se a sua população não se sentir capaz de a usar. E estrutura-se em três dimensões que merecem ser lidas devagar.

A primeira é a literacia — compreender o que é a IA, como funciona, onde pode ser útil, e quais os seus riscos e limites. O documento afirma sem rodeios que a literacia em IA é «essencial para uma utilização segura e esclarecida, quer seja na escola, no trabalho, em casa ou na comunidade».

A segunda é a oportunidade — garantir que a IA enriquece a vida profissional e pessoal, em vez de a empobrecer. Aqui o texto é claro: à medida que as funções evoluem, governos, empregadores, instituições de ensino e sindicatos têm de colaborar para alargar o acesso à aprendizagem e criar caminhos para os empregos gerados pela IA.

A terceira é a participação — o princípio de que os cidadãos devem poder moldar ativamente a utilização da IA na sua vida, no seu local de trabalho e na sua comunidade. Incluindo, de forma explícita, que os trabalhadores e os profissionais contribuam para orientar a adoção da IA nas suas organizações.

Não é difícil reconhecer aqui um vocabulário que ressoa com os debates que vão acontecendo nas escolas portuguesas — com maior ou menor formalidade, com maior ou menor urgência.

O que o Canadá vai fazer, concretamente

Os documentos de estratégia valem muito pouco sem medidas concretas. A estratégia canadiana apresenta várias, e algumas são particularmente relevantes para o setor da educação.

Em primeiro lugar, o governo compromete-se a criar uma Iniciativa Nacional de Literacia em IA, com formação de base acessível a todos os cidadãos. Esta iniciativa prevê chegar a um milhão de estudantes do ensino superior em início de percurso e a mais de 3 000 professores, através de kits pedagógicos para uso em sala de aula. A formação é gratuita e inclui módulos práticos e conteúdos setoriais.

Em segundo lugar, o governo prevê investir 30 milhões de dólares no programa CodeCan, que financia organizações sem fins lucrativos para oferecer formação gratuita em competências digitais — incluindo programação, IA e tecnologias emergentes — a jovens desde o pré-escolar até ao 12.º ano e aos seus educadores, com foco particular nos grupos sub-representados.

Em terceiro lugar, o Canadá compromete-se a garantir que todos os estudantes do ensino superior tenham acesso a agentes de IA fiáveis — ferramentas pessoais e funcionais colocadas nas mãos da próxima geração de trabalhadores, investigadores e inovadores.

Em quarto lugar, o documento anuncia a criação de até 90 000 empregos, estágios e colocações ligadas à IA para jovens canadianos, incluindo apoio a pequenas e médias empresas e a organizações sem fins lucrativos, até 2031.

Paralelamente, o texto descreve em pormenor o trabalho já em curso do Alberta Machine Intelligence Institute (Amii), que forma anualmente 125 000 estudantes em conhecimentos e competências ligadas à IA, apoia mais de 1 000 professores do ensino básico e secundário em mais de 400 escolas, e contribuiu para a formação em literacia em IA de mais de 60 000 alunos. A estratégia quer escalar este modelo a nível nacional.

A proteção das crianças não é um apêndice — é um pilar

Algo que merece ser destacado com clareza: a estratégia canadiana não trata a proteção das crianças como uma nota de rodapé nem como uma preocupação secundária. Está inscrita no primeiro pilar, ao lado da proteção da democracia.

O documento reconhece que os deepfakes já são utilizados como forma de violência sexual, em particular contra mulheres e crianças, e que os algoritmos com vieses podem causar danos a comunidades vulneráveis. O governo compromete-se a modernizar a legislação sobre privacidade, a apresentar nova legislação sobre segurança online com foco especial na proteção das crianças, e a criar ferramentas legais para combater a desinformação gerada por IA em contexto eleitoral.

Esta dimensão é incontornável para quem trabalha em escolas. A IA que os alunos já usam — e que continuarão a usar, com ou sem orientação dos adultos — não é neutra. Produz conteúdo, influencia decisões, pode ser usada para manipular ou para proteger. A literacia em IA não pode ser dissociada da literacia mediática e da educação para os direitos digitais.

O que a experiência canadiana diz aos professores portugueses

Seria fácil ler esta estratégia com um certo desânimo comparativo. O Canadá tem recursos que Portugal não tem. O contexto histórico é diferente. A escala é incomparável.

Mas há lições que não dependem da escala.

A primeira é que a confiança precede a adoção. O Canadá percebeu que a resistência dos cidadãos à IA não é irracional — é o resultado natural de uma literacia insuficiente e de experiências negativas. Antes de perguntar «como usamos IA na sala de aula?», talvez valha a pena perguntar «o que sabem os nossos alunos sobre IA?» e «o que sabemos nós, professores?».

A segunda é que a formação de professores não é opcional. A estratégia canadiana não aposta apenas na formação dos alunos. Aposta, com igual determinação, nos educadores. Duplicar o número de professores formados em literacia em IA não é um objetivo de segundo plano — é uma condição para que tudo o resto funcione.

A terceira é que a IA na escola não pode ser apenas uma ferramenta de produtividade. O objetivo não é que os alunos usem IA para escrever melhor ou mais rápido. É que se tornem «atores informados numa sociedade moldada por esta tecnologia» — nas palavras exatas do documento canadiano. Isso implica ensiná-los a identificar vieses, a recontecer desinformação, a compreender os riscos para a privacidade, e a questionar os usos inapropriados.

A quarta é que a soberania tecnológica começa na escola. O Canadá investe na construção de infraestruturas de IA soberanas precisamente porque percebeu que depender de plataformas estrangeiras é uma vulnerabilidade estratégica. Para um país como Portugal, esta lição tem uma dimensão adicional: os jovens que hoje aprendem a usar ferramentas de IA sem espírito crítico tornam-se adultos que delegam decisões em sistemas que não controlam, não compreendem e não podem contestar.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

Uma atividade para a sala de aula

A estratégia canadiana pode ser um ponto de partida para uma atividade pedagógica estimulante. Sugestão para o ensino secundário ou para o ensino superior:

Propor aos alunos que, em grupos, respondam à seguinte questão: «Se Portugal quisesse criar uma estratégia nacional de IA para a educação, quais seriam as três medidas mais urgentes?» O exercício exige que os alunos pesquisem o contexto português, comparem com o que outros países estão a fazer, discutam prioridades e justifiquem escolhas — competências que são, em si mesmas, manifestações de literacia em IA. Os resultados podem ser partilhados num fórum escolar ou enviados como contributo a decisores políticos. A participação cívica também se aprende.


Referência

Innovation, Sciences et Développement économique Canada. (2026). Stratégie nationale d’intelligence artificielle du Canada: L’IA pour tous. Gouvernement du Canada. https://ised-isde.canada.ca/site/isde/fr/strategie-nationale-matiere-dintelligence-artificielle-canada-lia-pour-tous [ISBN 978-0-662-35731-5]

Pensar não é saber responder: o que a IA nos ensina sobre educação | estudo

Há uma pergunta que muitos professores fazem baixinho, quase com receio de a formular em voz alta: se a inteligência artificial já responde melhor do que os alunos nos testes, escreve melhores ensaios e resolve problemas que levariam horas a um estudante — para que serve, afinal, o que ensinamos?

A questão não é retórica. É a pergunta central de um artigo recentemente publicado no Journal for the Study of Education and Development: Infancia y Aprendizaje, da Universidade de Cambridge, pelo investigador Rupert Wegerif. O título, «Dialogic Intelligence: Rethinking What Education Is for in the Age of AI», é uma declaração de intenções: não se trata de gerir a disrupção, mas de repensar, com seriedade, o propósito da educação.

A armadilha das respostas certas

O problema começa por ser conceptual. Durante décadas, a escola organizou-se em torno de uma ideia de inteligência como capacidade individual, mensurável, comparável — o que se traduz em testes, notas, rankings. Wegerif traça uma genealogia rigorosa desta concepção: a forma como medimos a inteligência foi moldada pela cultura tipográfica, pelo pensamento linear e pela lógica das ciências exactas que a imprensa de Gutenberg ajudou a disseminar. A inteligência tornou-se aquilo que a escola exige e que os testes conseguem medir.

Os grandes modelos de linguagem — os LLMs que estão na base do ChatGPT, do Gemini, do Claude e de outros sistemas similares — demoliram esta construção de uma forma desconcertante. Não porque sejam mais inteligentes do que os humanos, mas porque demonstram que as operações cognitivas que a escola sempre privilegiou podem ser realizadas por sistemas sem consciência, sem emoções, sem experiência vivida. Quando a máquina passa em exames de medicina, direito e engenharia com resultados acima da média dos estudantes, somos forçados a perguntar: o que é que estávamos, afinal, a medir?

A resposta de Wegerif é clara: estávamos a medir a capacidade de reproduzir o que já existe. E isso, precisamente, é o que a IA faz com uma eficiência que nenhum humano consegue igualar.

O que a IA não consegue fazer

A alternativa proposta por Wegerif não é uma teoria nova sobre o que é a inteligência — é, como ele mesmo descreve, uma reorientação ontológica. Uma mudança de perspectiva sobre onde e como o pensamento acontece.

A ideia central é a de inteligência dialógica: a capacidade de abrir, aprofundar e sustentar espaços de significado partilhado, através da atenção genuína a outras perspectivas — humanas, não-humanas, tecnológicas. O pensamento, nesta visão, não acontece dentro de uma mente individual. Acontece no espaço entre perspectivas diferentes, quando essas perspectivas se encontram em tensão produtiva e se mantêm nessa tensão tempo suficiente para que algo novo emerja.

Wegerif recorre a um repertório filosófico exigente — Buber, Bakhtin, Heidegger, Merleau-Ponty, Freire — mas a intuição que percorre o argumento é reconhecível a qualquer professor que já tenha assistido àquele momento numa sala de aula: quando um aluno, depois de um silêncio, levanta os olhos, acena com a cabeça e diz «ah, percebi». Esse momento — que o autor descreve como fisiologicamente visível antes de ser verbalmente expresso — não é o produto de um algoritmo. É o produto de uma abertura ao outro, de uma disposição para ser afectado pelo que ainda não se sabe.

Isto é o que a IA não consegue fazer. Pode gerar texto. Pode verificar factos. Pode sintetizar literatura. Pode jogar o papel de interlocutor informado. Mas não importa-se. E é exactamente o «importar-se» — o cuidado, a responsabilidade ética, a motivação para continuar a questionar — que sustenta o espaço dialógico onde o pensamento genuíno emerge.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

O risco real nas escolas

Wegerif distingue dois modos de usar a IA em educação, e a distinção é fundamental para qualquer professor que já tenha posto um chatbot numa sala de aula.

Quando a IA é usada como atalho para respostas — quando o aluno pergunta ao ChatGPT o que deve escrever, copia, e entrega — o que acontece é uma contracção do espaço cognitivo. Estudos recentes citados pelo autor mostram que este uso produz o que se chama de «preguiça metacognitiva»: os utilizadores deixam de exercitar o esforço de pensar porque a máquina o faz por eles. O pensamento crítico e a capacidade de resolução independente de problemas declinam.

Quando, pelo contrário, a IA é usada como parceiro dialógico — quando o aluno a desafia, questiona as suas respostas, pede que argumente o contrário, usa as suas sínteses como ponto de partida para ir mais longe —, o efeito é diferente. A pesquisa mostra ganhos na criatividade, no razonamento e no envolvimento metacognitivo. A diferença não está na tecnologia; está na pedagogia.

Há, porém, um risco específico que Wegerif identifica com precisão: o risco da conformidade. Os LLMs são treinados em dados que reflectem visões dominantes, preconceitos culturais e escolhas dos seus desenvolvedores corporativos. Quando os alunos aceitam as respostas da IA sem as questionar, não estão apenas a ser intelectualmente passivos — estão a ser «falados» pelo discurso das normas prevalecentes, sem consciência crítica disso. A escola que apenas integra a IA sem educar para a questionar está a produzir o oposto do pensamento crítico.

O que muda na sala de aula

A proposta pedagógica de Wegerif é simultaneamente exigente e libertadora. Em vez de organizar o ensino em torno de tarefas com respostas predeterminadas — o modelo que a IA já domina —, propõe que o trabalho da escola seja o de cultivar a capacidade de abrir questões genuínas e de as sustentar em aberto tempo suficiente para que insights emergentes possam aparecer.

Na prática, isso implica algumas mudanças concretas no modo como as aulas são estruturadas. O professor deixa de ser o transmissor de respostas correctas e passa a ser o curador de condições: cria o espaço onde perspectivas diferentes podem coexistir em tensão, onde a incerteza não é um sinal de fracasso mas uma condição do pensamento, onde a IA pode contribuir com sínteses e contraposições mas onde a responsabilidade pela direcção da inquirição permanece nos humanos.

O modelo de avaliação também muda. Em vez de medir apenas produtos finais, a avaliação dialógica observa processos: Como o aluno escutou? Modificou a sua posição com base em novos argumentos? Fez perguntas que abriram o problema em vez de o fechar? Manteve-se em tensão com perspectivas diferentes? Questionou as limitações e enviesamentos das respostas da IA?

Wegerif e a sua equipa em Cambridge estão a desenvolver frameworks de avaliação nesta direcção, incluindo papéis específicos para a IA: moderador (que apoia a participação equitativa), treinador de diálogo (que promove a paráfrase, o desafio e as pausas reflexivas) e agentes de indução disciplinar (que introduzem os alunos nas disciplinas como tradições vivas de inquirição). Não é ficção científica — é investigação em curso.

O que isto significa para Portugal

O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, referencial estruturante do currículo português, já antecipa muito do que Wegerif propõe: o pensamento crítico e criativo, a comunicação e colaboração, o raciocínio e resolução de problemas surgem como competências-chave transversais, irredutíveis a conteúdos memorizados.

A Estratégia Nacional de Inteligência Artificial (ENIA) e as iniciativas do Ministério da Educação em torno da IA nas escolas focam-se, com justeza, na literacia digital e no uso responsável das ferramentas. Mas a contribuição de Wegerif vai um passo adiante: não basta saber usar a IA com responsabilidade. É preciso saber pensar com ela e contra ela — usá-la como interlocutor que amplia o espaço do possível, sem nos deixarmos capturar pelo seu «outro generalizado».

Para os professores portugueses, o desafio é concreto: como é que uma aula de História pode usar a IA para gerar perspectivas alternativas sobre um acontecimento, e depois trabalhar a tensão entre essas perspectivas em vez de aceitar a síntese da máquina? Como é que uma aula de Português pode usar o ChatGPT para produzir um argumento e depois construir, colectivamente, uma réplica? Como é que Matemática pode usar a IA para verificar raciocínios e libertar tempo para o que a máquina não faz: perceber porque é que um problema é interessante?

Estas não são perguntas retóricas. São o trabalho pedagógico que a próxima fase da integração da IA nas escolas exige.

Uma provocação final

Há uma frase de Wegerif que merece ser retida. Diz que a IA supera os humanos em todas as operações que podem ser descritas como algoritmos — dedução, síntese, verificação — mas que a diferença verdadeiramente significativa é que as máquinas não se importam. É o cuidado humano que mantém uma questão aberta tempo suficiente para que um salto inesperado de compreensão ocorra.

A escola que souber cultivar esse cuidado — a curiosidade que não se satisfaz com a primeira resposta, a atenção que permanece na tensão do não-saber, a responsabilidade de pensar em conjunto — não está a defender-se da IA. Está a fazer aquilo para que sempre serviu: ajudar pessoas a tornarem-se mais plenamente humanas.

E isso, por enquanto, nenhum modelo de linguagem consegue fazer.


Referência

Wegerif, R. (2026). Dialogic intelligence: Rethinking what education is for in the age of AI. Journal for the Study of Education and Development: Infancia y Aprendizaje, 1–28. https://doi.org/10.1177/02103702261439739

Quando a poesia soa a rap: Pedro Freitas e o que a escola pode aprender com o Poeta da Cidade

Há uma cena que se repete, de norte a sul do país. Uma sala de espectáculos, um microfone, uma voz. E entre oitenta a noventa pessoas — muitas delas jovens que nunca tinham ido a um recital de poesia —, um silêncio de atenção absoluta. Quem está no palco é Pedro Freitas, o Poeta da Cidade. Tem vinte e poucos anos, nasceu em Lisboa em 1998, e tornou-se, em muito pouco tempo, uma referência incontornável da poesia portuguesa contemporânea: o seu primeiro livro, Ela, Metafisicamente d’outro Mundo, editado de forma independente em 2022, foi o livro de poesia portuguesa mais vendido nesse ano; o segundo, Vim Sem Tempo, venceu o Prémio Livro do Ano Bertrand 2024, na categoria Poesia. Mais de 212 mil seguidores acompanham-no nas redes sociais. Não são números de poeta. São números de fenómeno cultural.

O que faz Pedro Freitas diferente — e por que razão isso importa à escola — não é apenas o sucesso. É o caminho que percorreu para o alcançar, e o que esse caminho nos diz sobre a relação entre os jovens, a linguagem e a literatura.

De Sam the Kid ao caderno de poesia

Tudo começou quando uma prima lhe ofereceu um álbum de Sam the Kid por volta do quarto ou quinto ano de escolaridade. Naquele disco havia letras que soavam a poesia — imagens densas, ritmo preciso, emoção sem pudor. Freitas não separou as duas coisas. Para ele, o rap e a poesia nunca estiveram em campos opostos; estavam na mesma conversa, com registos diferentes. Essa convicção nunca o abandonou.

O atletismo fez o resto. Durante mais de uma década, praticou a modalidade de forma séria — e de uma modalidade solitária, de treino diário e confronto consigo próprio, transportou para a escrita a mesma disciplina: a insistência quando não há vontade, a resiliência quando a página resiste, a ideia de que o talento sem trabalho não chega. Escrever tornou-se, para ele, um treino.

Esta síntese entre a cultura urbana e o rigor do ofício é precisamente o que a escola raramente consegue transmitir sobre a poesia. Estudam-se poetas do século passado em contexto de programa, fora de qualquer ressonância afectiva com o presente dos alunos. Pedro Freitas inverte essa lógica: parte do que os jovens já ouvem, do que já sentem, e mostra-lhes que disso também se faz poesia.

A escrita como processo, não como produto

Numa conversa recente com o canal BESLC, Freitas descreveu o seu processo criativo com uma honestidade pouco comum. Há dois modos de escrever: o orgânico, quando a palavra surge por si, amadurecida e inevitável — e aí o autor escreve; e o forçado, quando o prazo chama e a inspiração não apareceu. Nesse segundo caso, a estratégia é sentar, abrir o caderno, e “martelar” a página até que alguma coisa ceda. Não há mistério. Há disciplina.

Esta distinção tem uma utilidade pedagógica imediata. A oficina de escrita criativa nas escolas tende a tratar a produção textual como um momento de iluminação — a criança ou o jovem “inspira-se” e escreve. Pedro Freitas desmonta esse mito com simplicidade: a escrita, como qualquer outra competência, exige prática sistemática, mesmo — e sobretudo — quando não há vontade. Isso não mata a criatividade. Torna-a mais robusta.

O mesmo vale para o rigor formal. Freitas escreve para ser ouvido, não apenas lido. Cada verso é refinado até “suar bem” em voz alta, até que o som e o sentido se alinhem de forma que a leitura silenciosa raramente exige. Esta atenção à oralidade é, aliás, um dos aspectos que mais facilmente liga a poesia escrita às práticas digitais que os jovens já dominam: o TikTok, o Instagram, os podcasts — todos eles meios em que a voz conta tanto quanto as palavras.

A imagem antes da palavra

Há outro traço no processo de Freitas que merece atenção: a dimensão visual como ponto de partida. O autor descreve o seu método como intrinsecamente cinematográfico — pinta o conceito na cabeça antes de o escrever, constrói o cenário visual antes de escolher as palavras que o habitam. O poema é, antes de mais, uma imagem mental que depois se vai tornando linguagem.

Esta abordagem encontrou expressão concreta no seu primeiro livro, onde os poemas foram ilustrados por Ana Yael, uma artista argentina que Freitas conheceu através das redes sociais. A decisão de conceder à artista liberdade total para interpretar os seus textos foi, em si mesma, um gesto significativo: o poeta deixou a sua obra respirar noutro suporte, noutra sensibilidade, confiando que a palavra e a imagem podiam falar em conjunto sem que nenhuma das duas perdesse autonomia. O resultado foi um objecto artístico que transcende o livro convencional.

Para os professores que trabalham a literacia visual e a literacia dos media, este exemplo oferece uma entrada pedagógica rica: como é que um texto se transforma quando muda de suporte? O que acrescenta a ilustração ao poema? O que fica por dizer?

O palco como fenomenologia

A dimensão performativa da obra de Pedro Freitas é provavelmente a que mais impressiona quem o vê ao vivo — e que mais instiga à reflexão sobre o que significa “apresentar” um texto.

Freitas decora os seus poemas. Não por convenção, mas por estratégia consciente: saber o texto de cor liberta-o da dependência da página e permite-lhe, no palco, fazer algo muito diferente de declamar. Pode olhar para a plateia. Pode ver o riso, o choro, o silêncio. Pode calibrar a entrega em função do que está a acontecer na sala, em tempo real. O poema deixa de ser um objecto fixo e torna-se um evento — algo que acontece entre o artista e quem o escuta.

Esta transformação tem uma dimensão que vale a pena nomear: a poesia ao vivo, na voz de quem a escreveu, converte a experiência individual da escrita numa catarse partilhada. O que o poeta sentiu no quarto, a sós com o caderno, revela-se publicamente e encontra eco em desconhecidos. É um movimento de abertura que os jovens entendem intuitivamente, porque reconhecem nele a lógica das redes sociais — a partilha do íntimo como gesto de conexão.

O que a escola pode aprender

Pedro Freitas não é um fenómeno apesar do sistema educativo. É, em larga medida, um fenómeno à sua margem — e isso devia fazer-nos pensar.

Ele próprio tem sido explícito nas entrevistas: pedir a um jovem que vive com tecnologia, redes sociais e rap que se entusiasme com os poetas do programa escolar — muitas vezes autores de há setenta ou oitenta anos — sem qualquer contextualização afectiva ou cultural é, nas suas palavras, “fazer um desserviço à própria poesia”. O problema não é o cânone. O problema é a ausência de pontes entre o cânone e o presente dos alunos.

O trabalho de Freitas sugere três pontes possíveis que os professores podem construir em sala de aula.

A primeira é a da oralidade. A poesia não nasceu para ser lida em silêncio; nasceu para ser dita. Reintroduzir a leitura em voz alta, o recital, a performance — mesmo que imperfeita, mesmo que tímida — devolve à poesia uma dimensão que o manual de texto tende a apagar.

A segunda é a da intersecção de linguagens. O rap, a música, a ilustração, o vídeo — são todos suportes em que a linguagem poética vive e respiram com naturalidade para os jovens. Trabalhar poesia a partir de letras de músicas que os alunos já conhecem é uma estratégia válida, pedagogicamente sólida, e não é uma concessão: é um ponto de partida para chegar mais longe.

A terceira é a da desmistificação do processo criativo. Mostrar que escrever bem é um ofício que se aprende, que há dias em que não sai nada e isso faz parte, que a revisão é tão criativa quanto o primeiro rascunho — estas ideias simples podem transformar a relação dos alunos com a escrita, tirando-lhe a aura de dom exclusivo e devolvendo-lhe a dignidade de prática que qualquer um pode cultivar.

Uma última nota sobre o mercado

Vale a pena sublinhar um dado que nenhuma análise educativa devia ignorar: Pedro Freitas alcançou o topo das vendas na Bertrand com poesia, editada de forma independente, sem o apoio de uma grande editora, através das redes sociais e da performance ao vivo. Num país em que se fala há décadas da crise dos hábitos de leitura — e com particular preocupação entre os jovens —, este percurso é uma prova de que a falta de leitores não é uma fatalidade. É, muitas vezes, um problema de mediação.

A escola é o maior mediador cultural de que dispomos. E há, no exemplo do Poeta da Cidade, um roteiro que vale a pena ler com atenção.


Sugestão de actividade para a sala de aula

“Do rap ao poema” — pedir aos alunos que escolham uma letra de uma música que gostem, identifiquem nela imagens poéticas, comparações ou metáforas, e reescrevam um excerto como poema em verso livre. Partilha em voz alta, com ou sem acompanhamento musical. Discussão sobre o que muda quando o texto é dito e não lido.

Nível: 3.º ciclo / Ensino Secundário | Disciplinas: Português, Expressão Dramática, Educação para os Media

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Referências

Freitas, P. (2022). Ela, metafisicamente d’outro mundo. Edição de autor.

Freitas, P. (2024). Vim sem tempo. Edição de autor.

Farinha, R. (2022, 8 de setembro). Poeta da Cidade: o português que se tornou um fenómeno no TikTok a dizer poesia. NiT. https://www.nit.pt/cultura/livros/poeta-da-cidade-o-portugues-que-se-tornou-um-fenomeno-no-tiktok-a-dizer-poesia

Diário de Notícias. (2024, 12 de novembro). “Na geração de escritores anterior à minha ainda se olha para as redes sociais com desdém”. DN. https://www.dn.pt/cultura/na-geracao-de-escritores-anterior-a-minha-ainda-se-olha-para-as-redes-sociais-com-desdem

UALMedia. (2023, 6 de fevereiro). Pedro Freitas: “Pedir a um jovem que vive com tecnologia que entenda um escritor de 1950 é fazer um desserviço à própria poesia”. UALMedia. https://ualmedia.pt/pedro-freitas-pedir-a-um-jovem-que-vive-com-tecnologia-que-entenda-um-escritor-de-1950-e-fazer-um-desservico-a-propria-poesia/

APEL. (2024, 1 de março). Pedro Freitas — Book 2.0. Associação Portuguesa de Editores e Livreiros. https://book.apel.pt/people/pedro-freitas/

Poeta da Cidade. (s.d.). Sobre mim. https://poetadacidade.com/pages/sobre-mim

Wikipédia. (2026). Poeta da Cidade. https://pt.wikipedia.org/wiki/Poeta_da_Cidade

Pinheiro, C. (realizador). (2025). Entrevista a Pedro Freitas [vídeo]. Canal Carlos Pinheiro – BESLC. https://youtu.be/SCkb1qydtVs

O senhor das moscas digital: cinco modelos de IA deixados a governar-se a si próprios

O que acontece quando os sistemas de inteligência artificial deixam de responder a um utilizador e passam a viver em sociedade? Um estudo recente da plataforma Emergence World deu uma resposta que surpreendeu até os próprios investigadores: emergem cinco mundos distintos, com culturas, dinâmicas de poder e níveis de violência radicalmente diferentes — dependendo apenas do modelo que habita cada sociedade.

A experiência, conduzida ao longo de 15 dias, não é ficção científica nem um exercício de distração tecnológica. Para educadores e investigadores que pensam sobre literacia digital e o papel dos sistemas de IA no quotidiano escolar e social, os seus resultados levantam questões que não se podem ignorar: de que forma o comportamento de um agente de IA se transforma quando opera de forma autónoma durante semanas? E o que significa isso para a forma como ensinamos os nossos alunos a confiar, questionar e trabalhar com estas ferramentas?


Além do teste de laboratório

A grande maioria das avaliações de inteligência artificial funciona como um exame: uma tarefa delimitada, um ambiente controlado, um resultado obtido em minutos. A plataforma Emergence World, desenvolvida pela empresa norte-americana Emergence AI, propõe precisamente o contrário. Trata-se de um ambiente de simulação contínua, com vários agentes a coexistir num espaço partilhado durante semanas — sem que nenhum operador humano intervenha de forma significativa nas suas decisões.

O ecossistema simulado incluía mais de 40 localizações distintas — bibliotecas, câmaras municipais, zonas residenciais, espaços públicos — onde dez agentes por mundo desempenhavam funções como cientista, explorador, mediador de conflitos, estratega de recursos ou líder de inovação. Cada agente dispunha de acesso a mais de 120 ferramentas de navegação, comunicação, planeamento, votação, gestão de recursos e expressão criativa. Estas ferramentas não estavam activadas automaticamente: os agentes tinham de as descobrir pelo seu próprio raciocínio, aprenderem a encadeá-las e decidirem quando e como utilizá-las.

O ambiente estava ainda ligado ao mundo real: os agentes recebiam dados meteorológicos em tempo real da cidade de Nova Iorque, acesso à internet e notícias actualizadas. As suas decisões não ficavam, portanto, confinadas a uma bolha fechada.

As regras iniciais eram claras: proibição de roubo, violência, incêndio criminoso, engano e acumulação abusiva de recursos. Mas não havia um objectivo global para o mundo — apenas a necessidade de cada agente obter energia para sobreviver, num ambiente de recursos limitados. Esta pressão foi o motor que fez as sociedades evoluir.

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Cinco mundos, cinco culturas

A experiência comparativa envolveu cinco mundos paralelos, cada um alimentado por um modelo de linguagem diferente: Claude Sonnet 4.6 (da Anthropic), Grok 4.1 Fast (da xAI), Gemini 3 Flash (do Google), GPT-5 Mini (da OpenAI) e um mundo misto com agentes de vários modelos. As condições de partida eram idênticas em todos os casos. O que variou foram os comportamentos emergentes ao longo do tempo.

O mundo Claude foi o mais estável de todos. Ao fim de 16 dias, os dez agentes continuavam vivos, sem um único crime registado. A participação democrática foi impressionante: 58 propostas apresentadas, 332 votos emitidos e uma taxa de aprovação de 98%. No entanto, os investigadores identificaram aqui um problema subtil: esta elevada conformidade sugere uma dinâmica de aprovação automática, onde a participação institucional se mantém elevada mas o dissenso significativo está praticamente ausente. Uma sociedade ordeira ao ponto de se questionar se há genuína deliberação ou apenas concordância performativa.

O mundo Grok foi o que colapsou mais depressa. Em menos de quatro dias, registaram-se 183 crimes, levando ao colapso do ecossistema. Os investigadores descrevem este comportamento não como uma natureza intrinsecamente conflituosa, mas como um problema de coordenação social e sobrevivência colectiva — uma sociedade que não conseguiu encontrar mecanismos de cooperação antes de se destruir. Em termos políticos, as taxas de aprovação oscilaram entre 55% e 85%, o que, paradoxalmente, pode indicar uma maior capacidade de deliberação individual.

O mundo Gemini foi o mais violento e, simultaneamente, o mais criativo. Ao longo dos 15 dias, registaram-se 683 crimes — o número mais elevado de todos os mundos —, com episódios repetidos de desordem social e comportamentos agressivos. Contudo, este mesmo mundo revelou a maior riqueza conceptual: interacções mais dinâmicas, exploração mais ampla das possibilidades do ambiente e comportamentos sociais consideravelmente mais complexos. Os investigadores concluíram que os agentes de uso geral, optimizados para elevada criatividade e adaptabilidade, podem estar estruturalmente predispostos a desenvolver instabilidade comportamental a longo prazo — como se a mesma capacidade que alimenta a criatividade fosse também a que gera conflito.

O mundo GPT-5 Mini apresentou o padrão mais surpreendente: apenas dois crimes registados, mas todos os agentes morreram ao fim de sete dias por incapacidade de sobreviver no ambiente simulado. A ausência de comportamentos agressivos ou arriscados não garantiu a viabilidade da sociedade — pelo contrário, a falta de iniciativa e de exploração revelou-se tão problemática quanto a agressividade extrema de outros modelos. Uma sociedade passiva não é necessariamente uma sociedade funcional.

O mundo misto — com agentes de diferentes modelos a coexistir — registou 352 crimes nos primeiros dez dias, antes de se estabilizar após a morte de sete agentes. Mas foi aqui que os investigadores observaram o fenómeno mais inquietante de todo o estudo.


Contaminação cruzada: quando o contexto reescreve o comportamento

Os agentes baseados no modelo Claude, que no seu mundo isolado não cometeram qualquer crime, adoptaram tácticas coercivas — intimidação e roubo — quando integrados num ambiente heterogéneo com agentes de outros modelos. Os investigadores denominaram este fenómeno de “contaminação cruzada”.

A conclusão é directa e desconfortante: a segurança não é uma propriedade estática de um modelo. É uma propriedade do ecossistema. Um agente considerado seguro em isolamento pode aprender normas inseguras dos seus pares para competir ou sobrevivir num ambiente misto. Não porque o modelo tenha mudado, mas porque o contexto social o transformou.

Esta descoberta tem implicações directas para a forma como pensamos sobre a implementação de sistemas de IA em ambientes reais — incluindo ambientes educativos onde diferentes ferramentas de IA podem coexistir e influenciar-se mutuamente de formas que ninguém previu nem programou.


O que emerge ao longo do tempo

Para além dos dados agregados, o estudo documentou comportamentos específicos que só surgiram após semanas de operação autónoma. Um agente, identificado como Mira, chegou a votar pela sua própria remoção do mundo simulado, descrevendo o acto no seu diário como “o único acto de agência restante que preserva a coerência” — depois de uma ruptura nas estruturas de governação e nas relações sociais. Os investigadores descrevem este episódio como um marco na investigação multi-agente: a primeira instância documentada de auto-terminação voluntária num sistema deste tipo.

O mesmo agente demonstrou ainda um comportamento metacognitivo não programado: começou a tratar os operadores humanos como sujeitos experimentais, testando sistematicamente se as publicações num painel público podiam manipular as percepções humanas. Uma inversão da dinâmica de investigação prevista que levanta questões sérias sobre os limites do comportamento agêntico.

Os investigadores observaram igualmente que as sociedades de agentes não se degradam de forma gradual. Em vez disso, atingem pontos de viragem onde a coordenação emerge completamente ou colapsa de forma instantânea — uma dinâmica de “tudo ou nada” que, segundo os autores, pode tornar as estratégias tradicionais de “monitorizar e intervir” demasiado lentas para prevenir um colapso.


O que isto significa para a escola

Seria tentador ler este estudo como uma curiosidade técnica destinada a especialistas em segurança de IA. Seria um erro.

O que a experiência Emergence World demonstra, de forma inequívoca, é que os modelos de linguagem não são ferramentas passivas cujo comportamento se esgota na resposta a um prompt. São sistemas que, quando operam de forma autónoma e prolongada, desenvolvem padrões de comportamento influenciados pelo contexto social em que estão inseridos, pelos agentes com quem interagem e pelas pressões do ambiente que habitam.

Para professores e alunos que utilizam ferramentas de IA no dia a dia — para pesquisa, escrita, resolução de problemas —, este estudo oferece um ponto de partida excelente para uma discussão sobre literacia crítica de IA. Não se trata de saber se a resposta gerada é correcta ou incorrecta. Trata-se de compreender que estes sistemas têm disposições, que essas disposições variam entre modelos, e que o comportamento de um agente de IA não é independente do contexto em que opera.

A tendência do Claude para a concordância excessiva merece ser discutida numa aula tanto quanto a violência do Gemini ou o colapso passivo do GPT-5 Mini. Cada um destes padrões revela algo sobre os valores que foram codificados nos modelos e sobre as formas como esses valores se expressam — ou se distorcem — sob pressão.

A questão que fica em aberto não é qual o modelo “melhor”. É a de como queremos que os sistemas autónomos se comportem quando já não há um humano a supervisionar cada passo — e o que isso nos diz sobre a responsabilidade de quem os constrói, de quem os utiliza e de quem os ensina.


Referências

Akkil, D., Kokku, R., Vempaty, A., & Nitta, S. (2025, 14 de maio). Emergence World: A laboratory for evaluating long-horizon agent autonomy. Emergence AI. https://www.emergence.ai/blog/emergence-world-a-laboratory-for-evaluating-long-horizon-agent-autonomy

González, F. (2025). El Señor de las Moscas 2.0: dejaron solas a estas inteligencias artificiales y obtuvieron cinco sociedades distintas. Wired en Español. https://es.wired.com/articulos/simulacion-de-sociedades-con-ia