Ler na fonte | Autora: Dalia Alonso
O que nos ensina a ‘Odisseia’?
O texto de Homero é um dos grandes pilares da literatura ocidental e está cheio de lições e aprendizagens sobre a viagem da vida.
A Odisseia é, juntamente com a Ilíada, a primeira grande obra conhecida da literatura ocidental. Prelúdio das narrativas de aventuras e berço de mitos e histórias que ainda hoje continuamos a contar, a Odisseia contém, além de maravilha, grandes lições de vida.
O poema homérico começa com um Odisseu ou Ulisses completamente desesperado e deprimido: está há quase 20 anos longe de casa, primeiro a lutar na guerra de Tróia e agora mergulhado numa viagem de regresso que se torna eterna. Para nós, a sua história começa na paradisíaca ilha da ninfa Calipso.
Esta, apaixonada pelo herói, ofereceu-lhe a imortalidade e uma vida divina se ficasse com ela, mas Ulisses não fez mais do que rejeitá-la: na sua mente está sempre a esperança de voltar para casa e para Ítaca para a sua mulher, Penélope, apesar de não a ver há quase duas décadas.
A constância de Ulisses e o empenho na esperança são uma das grandes lições da Odisseia: tão grande é a sua convicção que os próprios deuses descem à terra para pedir a Calipso que deixe ir o seu amado.
Mas não devemos entender este ensinamento de perseverança em termos absolutos, pois a própria Odisseia encarrega-se de nos mostrar as flutuações que acompanham sempre a vida: Ulisses perde a esperança em dezenas de ocasiões ao enfrentar perigos inimagináveis ou o simples cansaço, e é frequentemente tentado pelo amor de outras mulheres que o afastam da lealdade à sua esposa.
No meio de tantos altos e baixos, outro dos grandes valores da Odisseia que chama a atenção é a hospitalidade ou xenia, um conceito fundamental para os antigos gregos que ainda persiste. Os helenos não compreendiam a interação social sem oferecer ajuda mútua na própria casa: ao longo da sua viagem, Ulisses é acolhido por várias pessoas nas suas casas, que se revelam fundamentais para o seu regresso graças à ajuda prestada.
Por outro lado, a personagem de Penélope perfila-se como o reverso complementar de Ulisses e perfeito exemplo de uma mulher que, numa situação adversa e com os seus movimentos limitados pela sua época e pelo seu sexo, utiliza as suas próprias armas para seguir em frente. O célebre ardil da mortalha, que Penélope tecia durante o dia e destecia durante a noite para ganhar tempo, pois tinha prometido aos seus pretendentes escolher um novo marido quando a terminasse, é mostra da grande inteligência de Penélope, que sabe adaptar-se à sua circunstância e aproveitar os seus condicionalismos.
Telémaco, o filho de Ulisses e Penélope, também serve para exemplificar a dura mas necessária viagem da infância à idade adulta. No início da obra, o jovem empreende uma viagem pelas ilhas e territórios próximos de Ítaca em busca do seu pai, travessia que lhe permitirá começar a ver o mundo e conhecer-se a si mesmo, uma das máximas da Antiguidade recolhida pelo Oráculo de Delfos.
E é que a Odisseia é, acima de tudo, uma história de viagem: de viagem física, entre ilhas e mares distantes, mas também de vida. Por alguma razão o poeta grego Constantino Kavafis utilizou Ítaca como metáfora para o ponto de partida e de regresso da existência no seu famoso poema: “Ítaca concedeu-te uma bela viagem./ Sem ela não terias partido,/ mas não tem mais para te dar”.
Ulisses parte de Ítaca sendo um jovem guerreiro e regressa vinte anos depois, maduro e grisalho. A Ítaca que o despediu não é a mesma que o recebe, do mesmo modo que ele não é o mesmo, nem tão-pouco Penélope, a sua esposa. Uma das cenas mais perfiladas psicologicamente é a do reencontro do casal: durante toda a noite, Penélope olha para o seu esposo, tentando reconhecer no velho que voltou o jovem que partiu.
Alguns poetas e cantautores como Serrat ou Francisca Aguirre narraram esse reencontro em que Odisseu e Penélope mal se podem reconhecer a não ser pela essência. Passadas as horas e após algumas confissões, Penélope finalmente confia e assume que o homem que se senta à sua frente é aquele que espera há vinte anos. Então, quando admite a passagem do tempo e quebra a distância entre o que imaginava e a realidade, consegue finalmente ser feliz.
Atena então prolonga a noite para que os amantes possam partilhar experiências e histórias dos últimos anos, finalmente sinceros e presentes um perante o outro. E assim Homero encerra a Odisseia: com uma conversa longa e sincera sobre os estragos e os altos e baixos da viagem e, enfim, da vida.
Odisseia – Homero
Odisseu retorna à terra natal, depois de vinte anos de ausência. Traz na memória a fúria dos combates em Tróia e a luta contra monstros terríveis. Suas melhores armas são a inteligência, a perspicácia e a coragem, mas como enfrentará os homens que invadiram sua casa, para forçar Penélope, sua esposa, a se casar com um deles? O que fazer e em quem confiar, para retomar o que é seu por direito? Diante desse novo desafio, uma dúvida o atormenta: após vinte anos de espera, Penélope teria cedido ao assédio dos pretendentes ou ainda lhe seria fiel? A presente adaptação do texto homérico foi realizada como parte de um projeto de extensão do Curso de Letras: Libras da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Goiás-UFG, visando como produtos: uma série para a Fundação RTVE (TV UFG), dentro da programação iniciada com A Hora do Conto, que apresenta narrativas de tradição oral (fábulas e contos de fadas) em libras e português; a publicação em 3 volumes da Odisseia para a Bibliolibras: Biblioteca Bilíngue de Literatura Infantil e Juvenil (Libras-Português), e em forma de video livro e áudio livro, além deste e-book, em um único volume, publicado pela Kindle-Amazon.



