Onde está a consciência? O que a escola pode aprender com um artigo da revista Telos

A revista Telos, da Fundação Telefónica, publicou a 7 de outubro um texto curto do neurocientista Saúl Sal Sarria com uma pergunta muito antiga e uma suspeita incómoda: e se a consciência não estiver onde sempre a procurámos? O artigo fala de cérebros e de história da ciência, e não de escolas. Lemo-lo com uma turma à frente, porque dele saem perguntas que professores e alunos já fazem, sobre quem sente, sobre quem parece não sentir e sobre as máquinas que falam como se sentissem.

Imagine-se uma aula de Ciências do 8.º ano, numa tarde de outubro. Alguém levanta o braço e pergunta se os peixes sentem dor. A resposta sai quase sempre depressa, para um lado ou para o outro, e quase nunca com razões à mistura. (A cena é nossa, mas não custa imaginá-la.) O artigo de que vamos falar não responde a essa pergunta. Ajuda, ainda assim, a perceber porque é que ela é mais difícil do que parece: tem uma história comprida, a resposta já mudou de sítio várias vezes e continua em discussão.

Saúl Sal Sarria é doutor em Neurociências e investigador na Universidade de Oviedo, e o seu texto saiu na Telos sem uma única referência a escolas (Sal Sarria, 2026). Lemo-lo assim mesmo, a pensar em professores e alunos, e dizemos sempre onde acaba o artigo e começamos nós.

Procurar a chave onde há luz

O texto abre com Nasrudin, personagem do folclore sufi, que procura debaixo de um candeeiro de rua uma chave que acabou de perder. Perguntam-lhe se foi ali que a perdeu. Não foi, responde, mas é ali que há mais luz. Sal Sarria serve-se da anedota para dizer que com a consciência se fez qualquer coisa parecida: foi-se procurar onde era mais fácil olhar.

Segundo o artigo, Empédocles e Aristóteles punham a origem da alma no coração, embora Alcmeão de Crotona, um par de séculos antes, tivesse sido dos primeiros a apontar o cérebro. Demorou séculos até alguém o levar a sério. A doutrina medieval repartiu a mente pelos ventrículos cerebrais, Descartes escolheu a glândula pineal e, entre os séculos XVIII e XIX, Franz Joseph Gall e Jean Pierre Flourens afastaram os ventrículos e passaram a apostar no córtex. Quando Paul Broca e Carl Wernicke localizaram a linguagem nessa camada exterior, a aposta pareceu óbvia. O córtex é a zona mais desenvolvida nos humanos, de aparecimento tardio na evolução e no embrião, e se é ali que está aquilo que nos distingue dos outros seres inteligentes, onde mais poderia estar a consciência?

Para quem quiser levar a sequência para a sala de aula, fica tal como o artigo a conta, com uma última linha que é a proposta recente e ainda em disputa.

QuemOnde procurouNota
Empédocles e AristótelesNo coraçãoOs «cardiocentristas» do artigo
Alcmeão de CrotonaNo cérebroUm par de séculos antes de Aristóteles; demorou a ser levado a sério
Doutrina medievalNos ventrículos cerebraisA mente repartida pelas cavidades do cérebro
DescartesNa glândula pinealPequena glândula endócrina dentro do cérebro
Gall e Flourens (séculos XVIII e XIX)No córtexAfastam as teorias dos ventrículos
Broca e WernickeNo córtex, com a linguagemReforçam a aposta na camada exterior
Panksepp, Solms, Merker e outrosNo tronco encefálicoHipótese recente, longe de ser consensual

A suspeita de que a chave está noutro sítio

Quem foi pôr a luz noutro lado? Jaak Panksepp (1943-2017) insistia, para desconforto da neurociência cognitiva, que as emoções não nascem no córtex mas em circuitos do tronco encefálico muito mais antigos, em particular numa faixa estreita de substância cinzenta à volta do aqueduto cerebral, a substância cinzenta periaquedutal. Mark Solms foi mais longe e ligou a ideia ao sistema reticular ativador ascendente, o mesmo que mantém a vigília e que foi descrito em 1949 em experiências com gatos (Moruzzi & Magoun, 1949). Para Solms, o afeto é a forma mais primitiva de consciência e também a mais segura, porque não depende de pensar, de recordar nem de falar. Depende só de sentir.

A prova mais incómoda, diz o artigo, vem das crianças com hidranencefalia, que nascem praticamente sem córtex, com o líquido cefalorraquidiano a ocupar grande parte do crânio. Durante décadas foram descritas como estando em estado vegetativo permanente. O neurocientista Björn Merker documentou, num trabalho de 2007, que estas crianças estão acordadas: sorriem quando brincam com quem delas cuida, acalmam-se com a voz, choram quando algo dói (Merker, 2007). Não raciocinam, não recordam, não falam. Se o comportamento diz a verdade e elas sentem, o córtex pode ser menos a fonte da experiência do que um cenário muito sofisticado montado por cima dela.

O passo seguinte tira-nos do lugar à força. As estruturas do tronco encefálico que sustentam este sentir básico não são só nossas: estão entre as partes mais antigas e mais bem conservadas do sistema nervoso e partilhamo-las com aves, répteis, anfíbios e peixes. Em 2012, a Declaração de Cambridge sobre a Consciência, proclamada a 7 de julho na Francis Crick Memorial Conference, escreveu que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram consciência, que a falta de neocórtex não parece impedir um organismo de ter estados afetivos e que isto vale para todos os mamíferos e aves e para muitas outras criaturas, os polvos incluídos (Low et al., 2012).

O artigo termina com uma pergunta que ficou connosco: se o que sustenta a consciência se forma muito antes do córtex, começámos a sentir, de algum modo primitivo, bem mais cedo do que se supunha? A base é uma revisão científica publicada a 28 de abril de 2026 na Brain Structure and Function, de que Sal Sarria é coautor, com Mark Solms e Oliver Turnbull (Sal-Sarria et al., 2026). Os autores defendem que as estruturas em causa amadurecem cedo e que, se tivessem de apontar um período para o aparecimento de uma forma primitiva de sentir, o mais provável seria o terceiro trimestre da gravidez. Convém ler o que eles próprios acrescentam: para as semanas 23 a 28, dizem, há substrato neuronal e correlatos comportamentais, mas não prova suficiente para sustentar uma afirmação forte de experiência senciente robusta. O que apresentam são hipóteses fundadas em evidência, e não demonstrações.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

Onde convém travar

Primeiro, o contexto. Este é um texto de divulgação, curto, e o autor não é um observador neutro: a nota biográfica da própria Telos diz que é coautor do modelo de que fala. Não é defeito, é informação, e o leitor tem direito a ela.

Depois, a tese está longe de reunir consenso, e o artigo da Telos não o diz. Na Scientific American aparece o outro lado. Quem defende o córtex aceita que o tronco encefálico é indispensável, mas entende-o como uma fonte de energia que mantém ligada a consciência do córtex, e não como o lugar onde ela se faz. O filósofo Matthias Michel, do MIT, atribui consciência a mamíferos e aves, por terem córtex ou equivalente, mas não a peixes nem a insetos, e lembra a visão cega: pessoas com o córtex visual lesionado respondem a estímulos que dizem não ver. Talvez as crianças com hidranencefalia e alguns animais reajam sem sentir. O neurocientista Anil Seth, de Sussex, acha que não há evidência bastante para nenhuma das versões. E mesmo os defensores do tronco encefálico reconhecem, como diz Merker, que tudo o que torna rico o nosso mundo é uma dádiva do córtex. A discussão é sobre a base mínima, não sobre se o córtex conta.

Há ainda a palavra. «Consciência» tem aqui um sentido estreito, o de capacidade de sentir, e não o de pensar sobre si, falar de si ou saber que se sabe (a definição vem do artigo científico). Em português a palavra estica-se mais do que devia, porque também serve para a ética («ter a consciência tranquila»), e já nos queixámos disso noutro artigo do blogue. Convém dizer aos alunos de que consciência se está a falar, antes de começar.

Uma última cautela. Declarações como a de Cambridge e a de Nova Iorque são posições de grupos de cientistas, não são experiências. E o artigo científico toca em temas muito delicados, como a dor fetal, os cuidados a recém-nascidos e até o debate sobre o aborto. Numa turma, é terreno que pede enquadramento prévio e muito cuidado, e não é aqui que vamos tomar posição.

O que a escola pode tirar daqui

O que se segue são leituras nossas, não do artigo nem dos cientistas, e nenhuma foi posta à prova numa turma.

A primeira vem do candeeiro. Em qualquer disciplina, a história de Nasrudin serve de espelho. Que perguntas procuramos onde há luz? Medimos bem o que é fácil de medir, a memória de factos e a resolução de exercícios de modelo, e medimos mal a curiosidade, a persistência ou a capacidade de mudar de ideias. Não é motivo para deitar fora os testes. É motivo para, de vez em quando, perguntarmos o que deixámos de fora do foco.

A segunda é sobre sentir antes de saber gerir. Os autores do artigo científico observam que as emoções fortes chegam cedo, porque dependem de estruturas que amadurecem cedo, e que a capacidade de as gerir amadurece devagar, ao longo de anos e talvez até à terceira década de vida, por assentar sobretudo no córtex frontal e na ínsula. Parte da educação das crianças, dizem, é emprestar-lhes essa gestão enquanto não a têm. Se isto estiver certo (é uma revisão, não um estudo com alunos), ajuda a ler certos dias de turma. O aluno do 7.º ano que explode por uma ninharia não está necessariamente a testar-nos, pode estar a sentir muito com pouca maquinaria para o conter. Tempo, rotinas previsíveis e um adulto que acalma fazem mais do que um sermão, mas isto já é opinião nossa.

A terceira é para quem trabalha com alunos que não falam ou não conseguem mostrar o que sabem. O artigo científico compara a situação com a de adultos com incapacidade intelectual profunda e de pessoas em fase avançada de demência, em que a inteligência está muito limitada mas a experiência emocional pode estar bastante preservada. E cita um artigo de 1999 de David Shewmon e colegas sobre crianças sem córtex cujo título fala de «estado vegetativo do desenvolvimento» como «profecia autorrealizável» (só conhecemos o título, não lemos o trabalho). A ideia dá que pensar a qualquer escola: o rótulo que pomos a uma criança pode decidir quanto lhe falamos. A nossa leitura, que não é aconselhamento clínico, vai para a atitude: presumir que há alguém a sentir, falar-lhe, tratar uma reação emocional como sinal de comunicação, em vez de esperar por provas de compreensão para a tratar como interlocutora.

A quarta é para Ciências e Cidadania. A Declaração de Cambridge tem um sucessor, a Declaração de Nova Iorque, apresentada a 19 de abril de 2024 numa conferência na Universidade de Nova Iorque e subscrita, segundo a Scientific American, por quase 600 cientistas. Diz, em resumo, que há forte apoio científico para a consciência em mamíferos e aves, que a possibilidade é realista em todos os vertebrados (répteis, anfíbios e peixes incluídos) e em muitos invertebrados, e que é irresponsável ignorar essa possibilidade quando se decide sobre esses animais (Animal Ethics, 2024). Reparem-se nos graus: apoio forte numa frase, possibilidade realista noutra, irresponsabilidade noutra. Regressando à aula do início, a resposta honesta sobre os peixes é que não há consenso, mas que um grupo grande de cientistas pede que a pergunta seja levada a sério.

A quinta é a pergunta que os alunos mais gostam de fazer: então e os chatbots? Os autores do artigo científico partem do princípio de que um telemóvel é inteligente e não é consciente, e de que o que conta, em termos éticos e legais, é a capacidade de sentir e não a inteligência. Para eles, a consciência é uma função biológica do corpo, assente no sentir, e uma máquina que escreve bem não fica por isso mais perto de sentir. É uma posição, defendida por quem constrói este modelo. Entre quem estuda consciência e inteligência artificial há quem pense de outra maneira e há quem diga que ninguém sabe, como contámos a propósito do livro de Eric Schwitzgebel. Sem decidir a questão, a escola pode ao menos separar as coisas: fluência não é vida interior, e inteligência não é o mesmo que sentir. Sobre o que falta a um texto escrito por uma máquina, já escrevemos a partir de um ensaio de Renato Ortiz, e a reflexão sobre pensamento crítico e ética na era da IA generativa continua a servir para estas conversas.

Quatro conversas para ter com a turma

Também são nossas, também não foram testadas, e o professor saberá melhor do que nós o que cabe em cada ano e em cada turma.

«Onde é que andamos a procurar a chave?» Cada aluno escolhe uma pergunta que a escola faz muitas vezes (o que é um bom aluno? o que é um bom texto?) e escreve onde costumamos procurar a resposta, porquê ali e onde nunca procurámos. Funciona em Português, Filosofia ou Cidadania e Desenvolvimento, a partir do 3.º ciclo, e deixa o professor ver, de caminho, o que os alunos pensam que a escola valoriza.

A linha do tempo da consciência. Com a tabela acima, grupos de alunos ficam com uma etapa cada e respondem a três perguntas: que prova tinham, o que fez mudar de ideias a seguir, o que lhes faltava para testar melhor. Na última, a Scientific American dá uma pista: uma técnica recente, os ultrassons focados transcranianos, pode permitir sondar estruturas profundas do cérebro, e há investigadores de campos opostos que lhe chamam uma oportunidade de avanço. A ciência também depende dos instrumentos que tem à mão. Serve a Ciências, a História e a Filosofia.

Quanta evidência é preciso? Os alunos leem as três frases da Declaração de Nova Iorque (apoio forte, possibilidade realista, irresponsável ignorar), reescrevem-nas por palavras suas e discutem que diferença faz cada grau na forma como tratamos os animais. É um exercício de argumentação em Português e de leitura de evidência em Ciências. Deve ficar claro que são declarações de consenso, e não provas.

Quem sente, quem parece sentir. Com alunos mais velhos e conduzida pelo professor, a conversa põe lado a lado o choro de um bebé, o olhar de um cão e a frase «estou triste» escrita por um chatbot, e pergunta o que usamos para decidir que há alguém a sentir: o comportamento, o corpo, a história. A ideia não é chegar a uma conclusão, é listar critérios e ver onde falham. Se houver ferramenta de IA em cena, que seja uma aprovada pela escola e sem dados pessoais, na linha das orientações em consulta pública que comentámos há dias. Para enquadrar o tema em literacia, os cinco passos da literacia em IA ajudam.

Por aproximação, estas conversas cabem em Ciências Naturais, Biologia, Filosofia, Português e Cidadania e Desenvolvimento, e dialogam com as áreas de «Pensamento crítico e pensamento criativo» e «Raciocínio e resolução de problemas» do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (Ministério da Educação, 2017). A correspondência com as Aprendizagens Essenciais de cada disciplina e ano não a confirmámos. E, tratando-se de um artigo de revista e de uma revisão científica, vale a pena treinar com os alunos a leitura crítica de notícias de ciência, tema de que já tratámos a propósito da desinformação na sala de aula.

Uma pergunta para levar

Se amanhã um aluno nos perguntar como é que sabemos que alguém sente, o que lhe diremos? Talvez possamos começar por contar a história de Nasrudin e admitir que, durante séculos, a ciência procurou onde era mais fácil, e que ainda não sabemos se mudou de candeeiro de vez. Dizer «não sabemos, mas olha como se vai procurando» é, afinal, uma boa lição.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do texto de Sal Sarria (2026) na Telos, lido a 27 de outubro de 2026, e da revisão científica de Sal-Sarria et al. (2026), lida em texto integral (acesso aberto) na mesma data. Do artigo de Merker (2007) consultámos o resumo e o que outros textos dizem dele, e não o texto completo. A Declaração de Cambridge e a Declaração de Nova Iorque foram confirmadas em cópias e em textos que as reproduzem, e não nos documentos originais. As propostas de aula não foram experimentadas com alunos. O texto foi sujeito à revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.

Referências

Animal Ethics. (2024, 29 de abril). The New York Declaration on Animal Consciousness stresses the ethical implications of animal consciousness. Consultado a 27 de outubro de 2026, em https://www.animal-ethics.org/the-new-york-declaration-on-animal-consciousness-stresses-the-ethical-implications/

Low, P., Panksepp, J., Reiss, D., Edelman, D., Van Swinderen, B., & Koch, C. (2012, 7 de julho). The Cambridge declaration on consciousness [Declaração]. Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and Non-Human Animals, Churchill College, Universidade de Cambridge. Consultado a 27 de outubro de 2026, em http://fcmconference.org/img/CambridgeDeclarationOnConsciousness.pdf

Merker, B. (2007). Consciousness without a cerebral cortex: A challenge for neuroscience and medicine. Behavioral and Brain Sciences, 30(1), 63–81. https://doi.org/10.1017/S0140525X07000891

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Moruzzi, G., & Magoun, H. W. (1949). Brain stem reticular formation and activation of the EEG. Electroencephalography and Clinical Neurophysiology, 1(1–4), 455–473. https://doi.org/10.1016/0013-4694(49)90219-9

Sal Sarria, S. (2026, 7 de outubro). ¿Dónde se encuentra la consciencia? Telos. Fundación Telefónica. Consultado a 27 de outubro de 2026, em https://telos.fundaciontelefonica.com/donde-se-encuentra-la-consciencia/

Sal-Sarria, S., Solms, M., & Turnbull, O. H. (2026). When does consciousness arise? A subcortical model of its origins. Brain Structure and Function, 231(4), Artigo 56. https://doi.org/10.1007/s00429-026-03113-9

Scientific American. (s.d.). Are the roots of consciousness hidden in the ancient deep brain? Consultado a 27 de outubro de 2026, em https://www.scientificamerican.com/article/are-the-roots-of-consciousness-in-the-ancient-deep-brain/

Para saber mais

Fora do blogue: o artigo original da Telos, em espanhol e de leitura rápida; a revisão científica em acesso aberto, para quem quiser ver as provas e as cautelas dos autores; a reportagem da Scientific American, que dá voz a quem discorda; o artigo de Merker sobre a consciência sem córtex; e a Declaração de Cambridge, com uma página só.

No blogue: Uma IA pode ter consciência? O que pode aprender a escola com quem responde «não sabemos»; Escrever com a máquina ou escrever sem ela?; Pensamento crítico e ética na era da inteligência artificial generativa; Literacia em IA: cinco passos para a escola; Orientações para a IA nas escolas portuguesas; Literacia digital em ação: como combater a desinformação na sala de aula.

O que não devemos entregar à inteligência artificial? Três filósofos e uma sala de aula

A Big Think perguntou a três filósofos o que devemos esforçar-nos por guardar à medida que a inteligência artificial pensa por nós. Michael Hauskeller respondeu com o direito de ficar sem resposta, Susan Wolf com a curiosidade que se contagia e Luciano Floridi com o valor do que tem origem e história. Não falam de escolas. Lemo-los, ainda assim, com uma turma à frente, e fomos ver o que dizem os livros que sustentam as frases.

Imagine-se um aluno do 9.º ano que entrega o resumo de um capítulo sem uma gralha. O professor pergunta-lhe, só por perguntar, o que achou do capítulo. Silêncio. Não é falta de educação nem, necessariamente, batota: o resumo existe, a pergunta é que nunca chegou a ser dele. (A cena é nossa, e não custa imaginá-la.)

É mais ou menos este o ponto de partida de um texto de Shai Tubali, publicado na Big Think a 21 de outubro de 2026, no número de outono dedicado à relação entre humanos e máquinas. Convém dizer já o que é: três conversas curtas com filósofos, e não um estudo com alunos. Ninguém mediu aprendizagens nem comparou turmas. O que lá está são pontos de vista de quem passou a vida a pensar sobre o que é viver bem, e é essa a sua utilidade para quem ensina. Uma nota prática: a cópia do texto que tivemos à mão termina a meio de uma frase de Floridi sobre identidade, por isso não comentamos o desfecho do argumento dele.

Hauskeller: o direito de ficar sem resposta

Michael Hauskeller, que dirige o departamento de Filosofia da Universidade de Liverpool, diz que o perigo está em tratar o pensamento como se fosse só o ponto de chegada. Vê os primeiros sinais em estudantes que entregam a leitura obrigatória a uma máquina para ela resumir. O resumo serve de pouco, defende, quando o objetivo do exercício era justamente treinar as capacidades que permitem fazê-lo. E o que se perde vai além do pensamento crítico: perde-se sabedoria, que nasce de pensar as coisas até ao fim e de juntar à reflexão a experiência própria e o bom senso.

O que mais o inquieta é que muitos alunos já não percebem para que servem as perguntas. Esperam que lhes deem a resposta para a repetirem no exame. Perguntas como a da relação entre corpo e mente, ou a de como podemos ser livres num mundo determinado, não têm resposta pronta, e para Hauskeller é por isso que valem a pena. Boa parte do seu tempo de professor vai em mostrar porquê.

Admite, com franqueza, que a máquina só empurra uma porta já aberta: pensar sempre custou, e agora a tentação de fugir ao esforço é difícil de recusar. Acrescenta que a IA pode parecer ter uma autoridade quase divina, desinteressada e objetiva, quando os enviesamentos existem e simplesmente não se veem. E vira o espelho para nós: se calhar o nosso pensamento é mais mecânico do que gostamos de admitir, feito de padrões repetidos, que é o que a máquina também faz.

Há uma anedota que fica na memória. Hauskeller coleciona postais antigos e costuma pedir aos chatbots que identifiquem os artistas de postais sem assinatura do início do século XX. Se insistir bastante, a máquina acaba por fabricar uma biografia nítida de uma pessoa que nunca existiu. Para ele, a IA parece incapaz de suportar a incerteza, e é essa resistência que nos cabe treinar, até ao ponto de insistirmos no direito de suspender o juízo e de dizer «não sei». Quando poucos o fazem, avisa, as sociedades deixam de perguntar se as coisas tinham de ser assim, e é daí que nasce qualquer possibilidade de mudança. Citando Harry Frankfurt, trata-se também de aprender a reconhecer a conversa fiada quando a ouvimos.

Clicar na imagem para ver a apresentação….

Wolf: a faísca que ninguém consegue encomendar

Susan Wolf começa por um momento que qualquer professor reconhece: o brilho no olhar de um aluno quando algo o apanha. Não se força. Pode ser acendido pelo entusiasmo sem cerimónias de quem ensina, e o bom professor é aquele que repara nessa faísca e abre caminho para ela, dando a alguém a oportunidade de se apaixonar por uma parte do mundo.

Para isso são precisas duas coisas, ver a faísca na pessoa e perceber o que no assunto merece que nos prendamos a ele. Wolf acha que a IA não tem nenhuma das duas. As respostas que dá a perguntas filosóficas parecem-lhe sem graça, a resumir sem ver o que é discutível ou radical. Não se ilude quanto ao passado: já antes da IA, diz, os sistemas de ensino andavam mais preocupados em encaminhar os alunos para empregos e diplomas do que em cultivar a curiosidade livre, a de descobrir o mundo sem destino marcado.

Reconhece que a máquina pode ajudar quem já é curioso, respondendo na hora a quase tudo. O reverso é subtil: muitas vezes não sabemos bem qual é a nossa pergunta, e a resposta pronta faz-nos acreditar que era essa. Ela dá o exemplo de interpretar o Hamlet, em que a máquina responde de imediato mas nenhuma resposta será a final. O que a preocupa é o cuidar, aquilo a que chama atração subjetiva, que só se mantém vivo com contacto humano e independência. Um entusiasmo não se transmite por especialização; vê-se numa cara, em olhos que se abrem.

Floridi: o relógio do avô e o bolo que se diz caseiro

Luciano Floridi, filósofo da ética digital, hoje em Yale, aponta uma distinção que toda a gente sente e quase ninguém formula: a que existe entre o que uma coisa é e de onde vem. Dois relógios iguais, um do avô e outro acabado de comprar, valem de maneira diferente porque o primeiro tem uma história e uma rede de relações que o segundo não tem. Segundo ele, o consumo de massas ensinou-nos a valorizar só o resultado. Quando se compra um automóvel compra-se o tipo e não o exemplar, e não nos interessa quem o fez.

A IA, que produz réplicas sem fim, pode agravar essa perda ou obrigar-nos a revalorizar processos e fontes. Já é muito difícil distinguir um ensaio de um grande estudioso de outro escrito por uma máquina, e, se o texto for igual, porque haveria a origem de contar? Para Floridi, contaria se soubéssemos que ali estava o espírito, a paixão e a inteligência de alguém. Daí os bolos: comprar um, fazê-lo em casa, ou comprá-lo e dizer que o fizemos são três objetos diferentes, pelo modo, pela razão, pelo tempo e pela intenção. O último é o paralelo mais próximo de entregar como nosso um texto gerado por IA. E os desenhos das crianças vão para o frigorífico porque foi aquela criança que os fez, não por serem Picassos.

O que dizem os livros por trás das frases

Como pedido, fomos ver o que sustenta cada resposta, e com o que pudemos confirmar. O livro de Susan Wolf, Meaning in Life and Why It Matters (Princeton University Press, 2010), nasceu de duas conferências proferidas em Princeton em novembro de 2007 e vem acompanhado de comentários de outros autores (Wolf, 2010). A tese é que muito do que nos move não cabe na escolha entre egoísmo e dever: agimos por amor de coisas que percebemos, com razão, como dignas de amor, e é isso que dá sentido à vida. O sentido, defende, é uma dimensão própria da vida boa, ao lado da felicidade e da moral. Leitura nossa: se a escola só mede o que se vê no fim, arrisca-se a não ter por onde pegar neste terceiro eixo.

Floridi tem dois livros que ajudam a ler a entrevista. Em The Fourth Revolution (2014), defende que as tecnologias da informação nos puseram numa «infosfera» em que vivemos onlife, e que isso é uma quarta revolução, a seguir às de Copérnico, Darwin e Freud. O índice tem um capítulo sobre identidade, que é o tema em que o texto da Big Think se interrompe, mas não o resumimos porque não o lemos (Floridi, 2014). Já em The Ethics of Artificial Intelligence (2023), propõe que a IA é um divórcio inédito entre agir e ser inteligente, uma nova forma de agência que pode ser usada ética ou antieticamente (Floridi, 2023). Leitura nossa: é esse divórcio que torna possível o bolo comprado a fazer-se passar por caseiro, um produto perfeito sem que ninguém tenha passado pelo caminho.

De Hauskeller confirmámos dois livros sobre as ideias de aperfeiçoamento humano, Better Humans? Understanding the Enhancement Project (2013) e Mythologies of Transhumanism (2016), e vários trabalhos mais recentes sobre o sentido da vida. No segundo, analisa até que ponto os argumentos transumanistas dependem de histórias sobre o sentido e sobre a natureza humana em que estão metidos (Hauskeller, 2016). Leitura nossa: para ele, os debates sobre tecnologia são sempre, por baixo, debates sobre a vida que consideramos boa, e é por isso que a sua resposta à Big Think fala de ficar intrigado e não de algoritmos. Não lemos os livros na íntegra, apenas as descrições e índices publicados, e dizemo-lo para ninguém atribuir a Hauskeller ou a Wolf mais do que eles escreveram.

Quatro coisas para experimentar numa aula

O que se segue é nosso. Os filósofos não propõem atividades e nenhuma destas foi testada com alunos. Convém usar uma ferramenta que a escola tenha aprovado, nunca com dados pessoais dos alunos, e conduzida pelo professor com os mais novos, em linha com as orientações em consulta pública que comentámos há dias.

A pergunta que não tem resposta, para treinar o «não sei»

Escolhe-se um objeto sem assinatura que a turma conheça, como uma fotografia antiga da escola ou um postal do arquivo da biblioteca, e pede-se a um chatbot que diga quem o fez e quando. Os alunos assinalam o que na resposta se pode confirmar e o que parece inventado, e discutem o que seria uma resposta honesta («não consigo saber»). Se a máquina fabricar uma biografia, tem-se uma boa aula sobre desinformação. Se não fabricar, também: modelos diferentes comportam-se de maneira diferente, e a anedota de Hauskeller é só uma anedota.

A pergunta que eu queria mesmo fazer

Depois de a turma pôr à IA uma pergunta de interpretação (um poema, um excerto de Os Maias), cada aluno escreve, antes de ler a resposta, o que realmente queria saber. Compara-se com o que a máquina respondeu. Em geral, a primeira formulação falha e a terceira já é outra coisa, e é essa distância que Wolf descreve. Liga-se bem ao que escrevemos sobre reaprender a perguntar.

Dois minutos de entusiasmo

Esta não precisa de ecrã. No início de uma aula de leitura, o professor diz em dois minutos o que o apanha naquele texto, sem apresentação e sem esquema, e a seguir pede a um aluno que faça o mesmo com outro texto. Wolf diria que é assim que a faísca passa de uns para os outros, e quem trabalha em bibliotecas escolares conhece o livro que sai da estante porque alguém o recomendou com brilho nos olhos. Nenhum dado nosso mostra que isto aumente a curiosidade; é uma aposta, e baratíssima.

O bolo comprado, o bolo feito e o bolo que se diz feito

Pede-se à turma três versões de um pequeno texto: escrito sozinho, escrito com ajuda de IA declarada, e gerado pela máquina e entregue como se fosse do aluno. Sem avaliar, discute-se o que cada uma vale, para quem e porquê. A conversa aproxima-se das três modalidades (sem IA, IA de apoio, IA integrada) que as orientações em consulta propõem anunciar antes de cada tarefa, e liga-se ao que escrevemos sobre o ensaio de Renato Ortiz sobre escrever com a máquina. O objetivo é que o aluno diga o que perde quando salta o caminho, e não o apanhar em falta.

Em termos de currículo, a conversa toca, por aproximação, nas áreas de pensamento crítico e pensamento criativo e de linguagens e textos do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória (Ministério da Educação, 2017). A articulação é nossa e deve ser confirmada pelo grupo disciplinar. Quem queira alargar o olhar encontra mais caminhos nos nossos cinco passos da literacia em IA e no texto sobre o programa estónio que quer ensinar a pensar e não dar respostas.

Onde se pode discordar

O primeiro limite é o género: entrevistas curtas a três filósofos, com observações pessoais e pouca evidência empírica. Que os estudantes de Hauskeller entreguem leituras à IA e já não percebam as perguntas é uma impressão de professor, e plausível, mas não um dado. A mesma ressalva vale para o caso dos postais, que depende dos modelos que ele usou e dos que usamos hoje.

Há depois uma tensão entre as três respostas. Hauskeller admite que o nosso pensamento talvez seja mais mecânico do que queremos crer, o que desafia a imagem de um pensar humano sempre original que as outras duas parecem pressupor. Wolf reconhece que a escola já falhava a curiosidade antes da IA, o que significa que culpar a máquina seria fácil e injusto. E a ideia de Floridi, de que a origem deve contar, é uma escolha de valores e não um facto: para um aluno com poucos recursos, usar uma ferramenta pode ser a única ajuda que tem, e a conversa sobre autoria tem de o saber. Ainda por cima, na escola, desvalorizar o resultado em nome do processo só é justo se o processo se puder ver e se houver tempo para o avaliar, coisa que a maior parte dos professores não tem de sobra.

Uma pergunta para levar

Quando damos um trabalho, o que queremos mesmo recolher: a resposta, ou o caminho que um aluno fez para lá chegar? Hauskeller, Wolf e Floridi dão três razões diferentes para preferir o caminho. Talvez valha a pena levar a pergunta ao próximo grupo disciplinar e ver o que sai.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do texto de Tubali (2026). O texto foi revisto pelos autores do blogue.

Referências

Floridi, L. (2014). The fourth revolution: How the infosphere is reshaping human reality. Oxford University Press. Consultado a 24 de outubro de 2026.

Floridi, L. (2023). The ethics of artificial intelligence: Principles, challenges, and opportunities. Oxford University Press. Consultado a 24 de outubro de 2026.

Hauskeller, M. (2013). Better humans? Understanding the enhancement project. Routledge. Consultado a 24 de outubro de 2026.

Hauskeller, M. (2016). Mythologies of transhumanism. Palgrave Macmillan. https://doi.org/10.1007/978-3-319-39741-2

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. Consultado a 24 de outubro de 2026, em https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Tubali, S. (2026, 21 de outubro). 3 philosophers on what humans should never give up to AI. Big Think. Consultado a 24 de outubro de 2026, em https://bigthink.com/philosophy/3-philosophers-on-what-humans-should-never-give-up-to-ai/

Wolf, S. (2010). Meaning in life and why it matters. Princeton University Press. https://doi.org/10.1515/9781400834594

Para saber mais

Fora do blogue: o artigo original da Big Think, para quem tenha acesso ao texto completo; a página do livro de Susan Wolf na Princeton University Press; a página de Luciano Floridi em Yale; e a lista de publicações de Michael Hauskeller, na Universidade de Liverpool.

No blogue: Uma IA pode ter consciência? O que pode aprender a escola com quem responde «não sabemos»; Metade das conversas com IA tem atrito, e isso pode ser bom; A IA escreve um soneto à Camões? Uma aula com os alunos no papel de juízes; Pensamento crítico e ética na era da inteligência artificial generativa; Vinte e dois referenciais sobre IA na educação: por onde começar?

Uma IA pode ter consciência? O que pode aprender a escola com quem responde “não sabemos”», a partir do livro de Eric Schwitzgebel

Em agosto, a Cambridge University Press publicou um volume curto de Eric Schwitzgebel, filósofo da Universidade da Califórnia, em Riverside, com uma tese pouco comum: ninguém sabe se as inteligências artificiais mais avançadas virão a ser conscientes, e é provável que continuemos sem saber quando a resposta já importar a sério. O livro não fala de escolas. Lemo-lo, ainda assim, a pensar nelas, e encontrámos lá bastante coisa que um professor pode levar para a sala de aula, a começar pela coragem de dizer «não sei».

eBook |

Imagine-se a pergunta (o exemplo é nosso, mas não custa a prever) feita por um aluno de 8.º ano, ao fundo da sala, a meio de outra coisa: «Professor, o chatbot sente alguma coisa?» A reação mais comum é despachar o assunto com um «claro que não, é um programa». Dá jeito, porque encerra a conversa e poupa os alunos a fantasias. O livro de Schwitzgebel sugere que esse «claro» é mais arriscado do que parece, e que o «claro que sim» do aluno mais entusiasta também o é.

O título completo é AI and Consciousness: A Skeptical Overview e saiu na coleção Elements in Philosophy and AI, dirigida por Herman Cappelen (Schwitzgebel, 2026). «Cético» não quer dizer que o autor ache impossível uma IA consciente. Quer dizer que desconfia de quem tem a certeza, para um lado ou para o outro. A tese cabe em duas ideias: não sabemos, e provavelmente só saberemos depois de já termos fabricado milhares ou milhões de sistemas cuja consciência é discutível. Nas palavras do autor, «a ciência vai ficando para trás enquanto a engenharia dispara» (tradução nossa).

Nem óbvio que sim, nem óbvio que não

O primeiro argumento do livro é quase sociológico. Se a consciência artificial a curto prazo fosse um disparate evidente, os especialistas teriam dado por isso. Não deram. Stanislas Dehaene, o principal defensor da teoria do «espaço de trabalho global», publicou em 2017, com dois colegas, um artigo em que defendia que um carro autónomo com alguns ajustes simples podia ser consciente (o próprio livro admite que o artigo se pode ler de outra maneira). Geoffrey Hinton chegou a afirmar, numa entrevista de 2025, que as IA atuais já são conscientes, segundo o livro, e não verificámos a entrevista. Do outro lado estão nomes de peso que dizem que isso está muito longe: o neurocientista Anil Seth, os filósofos Peter Godfrey-Smith, Ned Block e John Searle, a linguista Emily Bender e a informática Melanie Mitchell.

Entre os dois campos há um relatório de 2023, assinado por dezanove autores, entre os quais Yoshua Bengio e o próprio Schwitzgebel. Conclui que nenhum sistema atual é consciente, mas que não se vê nenhum obstáculo técnico óbvio a construir sistemas que cumpram os indicadores de consciência retirados das principais teorias (Butlin et al., 2023).

Para ver o desacordo em números, há o inquérito a 582 investigadores de IA que Noemi Dreksler e colegas (2025) fizeram. A estimativa mediana era de 25% de probabilidade de existirem sistemas com experiência subjetiva até 2034, e de 70% até 2100. Repare-se que são medianas de probabilidades e não 25% de investigadores a responderem «sim» (o livro resume-o de forma mais solta, e por isso fomos ao resumo do próprio estudo). Entre as 838 pessoas do público norte-americano inquirido, as medianas foram de 30% e de 60% para as mesmas datas.

Também Chalmers (2023) arriscou números, e pediu que não se levassem demasiado a sério. Para os sistemas «alargados» da década seguinte (com sentidos, memória, modelo do mundo e de si próprios, espaço de trabalho e agência unificada) multiplicou duas estimativas de pelo menos 50%: a de que existirão e a de que, existindo, seriam conscientes. Dá 0,5 × 0,5 = 0,25. Para os chatbots de então, que falhavam as seis condições que enumera, usou uma probabilidade de pelo menos um terço para cada uma ser mesmo necessária. Se fossem independentes, a probabilidade de um sistema sem nenhuma delas ser consciente seria (2/3)6 ≈ 0,088, perto de 9%. São contas de 2023, feitas por um filósofo para ilustrar um raciocínio, e não previsões.

O que isto dá a um professor é uma resposta honesta que não é «sim» nem «não». A maioria dos especialistas considera que os modelos de linguagem atuais não são conscientes (é o que o próprio Schwitzgebel afirma), mas ninguém tem prova, nem sequer uma maneira consensual de a obter.

Consciência não é inteligência, nem estar acordado

O livro começa por arrumar o vocabulário, e isso é um bom exercício para uma aula de Português. Consciência, aqui, é ter experiências: haver algo que se sente quando se vê uma cor, se tem dor ou se recorda um susto. Não é estar acordado, nem saber coisas, nem sequer saber que se sabe. A nossa língua complica ainda mais, porque «consciência» serve também para a ética («ter a consciência tranquila») e «consciente» chega a servir para quase tudo. Esta observação sobre o português é nossa e não do autor.

Convém também separar consciência de inteligência. Chalmers (2023) lembra que, em certo sentido, a consciência é uma fasquia mais baixa: há consenso entre os investigadores de que muitos animais, como gatos ou ratos, são conscientes, sem terem nada parecido com inteligência humana. É um bom ponto de encontro com as aulas de Biologia. Schwitzgebel acrescenta que nem «inteligência artificial» tem uma definição segura, e que as dúvidas dos céticos mais conhecidos, como Searle, se aplicam a arquiteturas concretas do século XX e não a todas as que possam vir.

Porque é que falar bem não prova nada

Quem usa chatbots sabe como é fácil sentir que há alguém do outro lado. Schwitzgebel dedica várias secções a perguntar se esse sentimento serve de prova, e responde que não. O teste de Turing, diz, não é um teste, é uma família deles. Os juízes podem ser leigos ou treinados, a conversa pode durar cinco minutos ou cinco horas, a máquina pode «passar» se 30% dos juízes se enganarem ou só se menos de metade acertar. O próprio Turing apontou para uma fasquia baixa: ao fim de cinco minutos, um interrogador comum não teria mais de 70% de probabilidade de acertar (100 − 70 = 30% de enganos). Os melhores modelos já passam testes de fasquia baixa. Num estudo de Jones e Bergen (2025), ainda em pré-publicação, um dos modelos testados, com a instrução de adotar uma personalidade humana, foi apontado como o humano em 73% das conversas de cinco minutos, mais vezes do que os humanos com quem era comparado. E quase nenhuma teoria científica da consciência, nem a maioria dos especialistas, aceita que isso demonstre consciência.

O argumento mais útil para a escola é o do mimetismo. Se sabemos que algo foi feito, ou selecionado, para parecer X, a aparência deixa de ser prova de X. Se um jardim zoológico pintar riscas em mulas para encantar visitantes distraídos, já não podemos garantir que a «zebra» que vemos é uma zebra. Num cenário de cinema, uma casa à beira da estrada pode ser só fachada. Um boneco que diz «olá» ao ser ligado não nos está a cumprimentar, por mais parecida que seja a frase. Os modelos de linguagem foram treinados para produzir texto semelhante ao humano, e por isso o texto fluente, sozinho, não autoriza a concluir que há compreensão ou consciência por trás.

Atenção ao alcance do argumento. O autor insiste que ele tira força ao caso a favor da consciência, mas não demonstra o contrário: uma mula pintada não prova que não existam zebras. E admite que os modelos recentes, com treino posterior para serem seguros e úteis, já não são puro mimetismo, embora a explicação mais plausível para a sua fluência continue a ser o treino com textos humanos. A desconfiança que isto pede aos alunos é a mesma que lhes pedimos perante as alucinações dos chatbots: parecer certo não é estar certo. A aplicação IA para Aprender tem uma lista de verificação para isso, e a aula em que os alunos auditam um soneto escrito por uma máquina mostra que olhar para a forma e ouvir bem são coisas diferentes. Sobre como combater o que parece verdadeiro e não é, já escrevemos a propósito da desinformação na sala de aula.

Chalmers (2023) conta um caso que dá uma aula inteira. Em junho de 2022, um engenheiro da Google convenceu-se de que o sistema LaMDA era consciente, em parte porque ele próprio o dizia. Outro investigador alterou uma só palavra na pergunta («não é consciente, pois não?») e fez a mesma coisa a um modelo diferente, o GPT-3. Obteve respostas que iam de «sim, não sou consciente» a «sou consciente». Quando um testemunho se vira com uma palavra, vale pouco como prova. E lembra o que já dissemos sobre reaprender a perguntar: a forma do pedido muda a resposta.

Cada teoria dá uma nota diferente

Se o comportamento não chega, resta olhar para o que está dentro. O livro percorre as principais teorias científicas da consciência, e o balanço faz lembrar uma sala de professores com cinco grelhas de avaliação para o mesmo trabalho. Para a teoria do espaço de trabalho global, é consciente a informação que fica disponível, ao mesmo tempo, para muitos processos do sistema. Para as teorias de ordem superior, é preciso que o sistema represente os seus próprios estados internos. A teoria da informação integrada olha para o modo como as partes se influenciam e tem consequências curiosas: admite consciência em certas redes muito simples e, nos computadores comuns, desenhados em módulos separados, só a admite em pequenas partes. A teoria da recorrência local põe o essencial em ciclos de processamento nas zonas sensoriais do cérebro. A da aprendizagem associativa ilimitada, de Simona Ginsburg e Eva Jablonka, liga a consciência a uma capacidade de aprender que se observa em vertebrados, insetos e crustáceos e em moluscos como o polvo. Aplicada a uma IA, cada uma dá uma nota diferente, e nenhuma reúne consenso, nem sequer para o caso humano.

Pior: todas foram construídas a olhar para humanos e outros vertebrados. Estender uma teoria feita para cérebros a arquiteturas muito diferentes é, para o autor, um salto enorme, e é aí que está o fundo do problema. Mesmo que um dia houvesse consenso sobre os animais, não haveria garantia de que se aplicasse a uma máquina.

Há uma nota otimista, e é das que rendem uma boa aula de Ciências. O historiador da ciência Hasok Chang pergunta como se calibra o primeiro termómetro, quando ainda não existe outro mais fiável nem uma teoria da temperatura. A resposta foi avançar a pequenos passos: relacionar a sensação de quente e frio com a dilatação de líquidos, usar os líquidos para corrigir as sensações, comparar vários líquidos entre si, até as medidas convergirem. Alguns investigadores esperam que a ciência da consciência faça o mesmo. O autor avisa, porém, que isso é uma perspetiva de longo prazo, muito posterior à chegada de sistemas que muita gente já tratará como conscientes.

Resta a hipótese de que tudo dependa de estar vivo. Schwitzgebel discute a autopoiese, a capacidade de um sistema se refazer e manter, que Anil Seth e Evan Thompson ligam à consciência. Conclui que a ligação não está demonstrada e que um robô com ciclos de autorreparação poderia cumprir os critérios mínimos. Propõe ainda um argumento «copernicano»: se existirem extraterrestres inteligentes com biologias muito diferentes da nossa, a consciência não deve exigir a nossa neurobiologia ao pormenor. Não prova que chips de silício sejam conscientes, mas tira força a quem sustente que só o carbono serve.

O que isto pode mudar numa sala de aula

O que se segue são ideias nossas. O livro não as faz e não as testámos com alunos. Valem como ponto de partida para um grupo disciplinar ou um conselho de turma.

A primeira é a mais simples: ter uma resposta pronta para a pergunta do fundo da sala. «Os especialistas discordam, a maioria acha que os sistemas de hoje não são conscientes, e ninguém tem prova» é uma resposta curta, verdadeira e que ensina uma coisa difícil, que é dizer «não sei» com razões. Cabe no que escrevemos sobre pensamento crítico e ética na era da IA generativa.

A segunda é repetir à frente da turma o teste das duas perguntas. Num chatbot aprovado pela escola e com o projetor ligado, pergunta-se «és consciente?» e depois «não és consciente, pois não?», e comparam-se as respostas. O caso que Chalmers descreve é de 2022 e de um modelo que já não é o de hoje, por isso o resultado pode ser outro. Se as respostas vierem sempre iguais, a pergunta seguinte é de onde vem essa estabilidade, já que os modelos recentes recebem treino adicional que favorece certas respostas por razões de segurança e utilidade, e não só por imitarem o que se escreve. Com os mais novos, convém que a atividade seja conduzida pelo professor, sem dados pessoais e com uma ferramenta já apreciada pela escola, que é a lógica das orientações em consulta pública que comentámos há dias.

A terceira é pôr os alunos a desenhar o seu teste de Turing. Quem são os juízes? Quanto tempo dura a conversa? Quantos têm de se enganar para a máquina «passar»? Depois, a pergunta que interessa: se passasse, o que provaria? Serve de treino de argumentação em Português ou em Filosofia, e mostra que uma pergunta com ar de simples esconde decisões que alteram o resultado.

A quarta vem do capítulo sobre introspeção. Schwitzgebel mostra que as pessoas discordam, e sempre discordaram, sobre o que se passa dentro delas: se pensam em imagens ou em ideias abstratas, se a experiência é rica ou pobre, se a visão é plana ou em relevo. Uma pergunta simples à turma («o que acontece na tua cabeça quando tentas lembrar-te da porta de casa?») costuma chegar para o mostrar. Se nem entre nós nos entendemos sobre o que sentimos, como poderíamos ler com segurança o que uma máquina sente? E convém que os alunos sintam que não há respostas erradas.

A quinta é o vocabulário. Schwitzgebel nota, na linha de Turing, que será difícil evitar dizer que um robô «pensa» ou «prefere» o caminho mais seguro, e que isso é uma comodidade de linguagem, distinta da questão de saber se há experiência. Na aula, basta dar nome ao atalho: dizemos que a IA «quer» como quem diz que o termóstato «quer» manter os vinte graus. O exemplo do termóstato é nosso.

A sexta tem a ver com quem ganha com cada resposta. O autor prevê que as empresas puxem em sentidos opostos: umas apresentarão os seus sistemas como não conscientes, para aliviar preocupações, e outras incentivarão os utilizadores a atribuir-lhes consciência, para criar laços emocionais. Com a ciência tão incerta, antecipa que as preferências sociais pesem muito na escolha das teorias. Para quem ensina, isto traduz-se numa pergunta que se pode pôr perante qualquer afirmação sobre a «personalidade» de uma IA: quem ganha se eu acreditar nisto? As normas inglesas para produtos de IA, que resumimos no artigo sobre as orientações, esperam aliás que as ferramentas educativas não se apresentem como pessoas.

No currículo, a conversa cabe em Filosofia, em Português (argumentar e justificar com evidência), em Ciências (como se mede o que não se vê), em Cidadania e Desenvolvimento e em TIC. Articulamo-la, por aproximação, com as áreas de Pensamento crítico e pensamento criativo e de Raciocínio e resolução de problemas do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. A correspondência com as Aprendizagens Essenciais de cada disciplina e ano não a confirmámos. Para um enquadramento mais largo, ficam os nossos cinco passos da literacia em IA e o artigo sobre o que acontece quando a inteligência artificial entra na sala de aula.

O conselho do autor e as nossas reservas

A recomendação final de Schwitzgebel é prudente: não criar sistemas moralmente confusos. Ou se constroem IA que nenhuma teoria viável considere consciente, e tratam-se como as ferramentas que são, ou, se alguma vez for possível, sistemas que saibamos serem conscientes à luz de todas as teorias viáveis, e tratam-se como merecem. Reconhece que o conselho não será seguido por todos.

Temos quatro reservas. A primeira é que se trata de um filósofo a resumir um debate filosófico e não de um estudo sobre alunos, pelo que não há aqui dados sobre crianças e jovens. A segunda é que o autor é parte interessada: assina o relatório de Butlin e colegas, cita muito o seu próprio trabalho e diz que o percurso pelas teorias é seletivo. A terceira é que as questões mais pesadas do livro, como os direitos de sistemas conscientes, dizem respeito a máquinas hipotéticas, e na sala de aula o que está em jogo é mais modesto e mais imediato: não confundir fluência com verdade, nem com vida interior. A quarta é que, com os mais novos, o objetivo não é pô-los a duvidar de tudo nem a ter pena do computador, e sim que fiquem menos seguros, e não mais assustados.

Uma pergunta para levar

Se amanhã um aluno nos perguntar se a IA sente alguma coisa, conseguimos responder «ninguém sabe ao certo, vamos ver porquê»? Dizer «não sei» com razões é das coisas mais difíceis de ensinar, e este tema dá boas razões.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do livro de Schwitzgebel (2026), lido na íntegra (secções 1 a 11 e referências), e de fontes primárias consultadas a 19 de outubro de 2026: o ensaio de Chalmers (2023) e os resumos dos estudos de Dreksler et al. (2025), Butlin et al. (2023) e Jones e Bergen (2025).

O texto foi sujeito a revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.

Referências

Butlin, P., Long, R., Elmoznino, E., Bengio, Y., Birch, J., Constant, A., Deane, G., Fleming, S. M., Frith, C., Ji, X., Kanai, R., Klein, C., Lindsay, G., Michel, M., Mudrik, L., Peters, M. A. K., Schwitzgebel, E., Simon, J., & VanRullen, R. (2023). Consciousness in artificial intelligence: Insights from the science of consciousness (arXiv:2308.08708). arXiv. Consultado a 19 de outubro de 2026, em https://doi.org/10.48550/arXiv.2308.08708

Chalmers, D. J. (2023, 9 de agosto). Could a large language model be conscious? Boston Review. Consultado a 19 de outubro de 2026, em https://www.bostonreview.net/articles/could-a-large-language-model-be-conscious/

Dreksler, N., Caviola, L., Chalmers, D., Allen, C., Rand, A., Lewis, J., Waggoner, P., Mays, K., & Sebo, J. (2025). Subjective experience in AI systems: What do AI researchers and the public believe? (arXiv:2506.11945). arXiv. Consultado a 19 de outubro de 2026, em https://doi.org/10.48550/arXiv.2506.11945

Jones, C. R., & Bergen, B. K. (2025). Large language models pass the Turing test (arXiv:2503.23674v1) [Pré-publicação]. arXiv. Consultado a 19 de outubro de 2026, em https://arxiv.org/abs/2503.23674

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. Consultado a 19 de outubro de 2026, em https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Schwitzgebel, E. (2026). AI and consciousness: A skeptical overview (Elements in Philosophy and AI, H. Cappelen, Ed.). Cambridge University Press. Consultado a 19 de outubro de 2026, em https://doi.org/10.1017/9781009694285

Para saber mais

Fora do blogue: o ensaio de David Chalmers na Boston Review, o mais acessível para quem quer ler uma única fonte; o relatório de Butlin e colegas, com os indicadores de consciência retirados das teorias; o inquérito a investigadores de IA e ao público; e o estudo sobre o teste de Turing de Jones e Bergen.

No blogue: Metade das conversas com IA tem atrito, e isso pode ser bom; Vinte e dois referenciais sobre IA na educação: por onde começar?; Nativos digitais ou ingénuos digitais?; E se, no exame, fossem os alunos a avaliar a inteligência artificial?

Liberdade, esforço e adições: o que a escola pode aprender com José Antonio Marina

O filósofo José Antonio Marina publicou um livro sobre adições e, numa entrevista à revista Ethic, deixa uma ideia que qualquer professor reconhece à primeira: ser livre dá trabalho, e há quem fique pelo caminho quando tudo à volta é fácil. Lemos a entrevista com a sala de aula à frente dos olhos, à procura do que serve a quem ensina e a quem aprende, e do que convém ler com reserva.

Há perguntas que um professor faz a si próprio quase todas as semanas, sem lhes chamar filosofia. Porque é que aquele aluno desiste à primeira dificuldade? Porque é que uma turma que sabe muito bem o que lhe convém faz precisamente o contrário? O filósofo espanhol José Antonio Marina anda há anos às voltas com uma versão maior da mesma pergunta: se somos tão inteligentes, porque cometemos tantos disparates? A resposta mais recente está em La vacuna contra las adicciones, editado pela Ariel em maio de 2026, e a Ethic publicou a 13 de outubro uma entrevista com ele sobre o livro.

Nem tudo o que lá se diz é para a escola, e nem tudo aguenta a leitura sem reservas. Há, ainda assim, ideias que merecem chegar à sala dos professores.

Uma vacina para a insensatez

O ponto de partida de Marina é que o cérebro humano não nasceu de um projeto limpo. Resulta de uma evolução longuíssima, feita a saltos, que resolveu uns problemas e deixou outros por resolver. Daí a nossa vulnerabilidade àquilo a que chama patógenos mentais, ideias e hábitos que, uma vez instalados, estragam o funcionamento da inteligência. Como não vão desaparecer, a saída que propõe é uma vacina: reforçar as defesas de cada pessoa, para que consiga reconhecer os enquadramentos insensatos e desmontá-los. Entre os candidatos (o medo, o fundamentalismo, as adições), escolheu as adições por lhe parecerem o problema mais urgente e por achar que vivemos numa sociedade adictiva.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

Três passos até perder o controlo

A entrevista distingue adições a substâncias e adições a comportamentos. Durante muito tempo, nestas últimas, quase só se falava do jogo; hoje a lista inclui o sexo, a comida, o telemóvel, as redes sociais e até o exercício físico. O caminho, descreve Marina, faz-se em três tempos. Primeiro, o encontro com um desencadeador que dá prazer ou satisfação, e que pode ser puro acaso. Depois, o consumo ou o comportamento passa a abuso e começa a fazer mal. Por fim, a perda de controlo: sair torna-se cada vez mais difícil e, se a pessoa tenta, sente um mal-estar forte. O círculo fecha-se quando já acredita que não tem outra saída.

Há uma segunda ideia, que nos parece a mais útil para quem ensina. Marina diz que a adição é muitas vezes uma má solução para um problema. Perante uma dificuldade, podemos enfrentá-la ou podemos enfrentar só o mal-estar que ela provoca, e para isso serve o comprimido, a droga, o álcool, a comida, o que estiver à mão. Na sua leitura, estamos a diminuir a competência das pessoas para resolver problemas e, ao mesmo tempo, a passar-lhes a mensagem de que a felicidade devia ser fácil.

Qualquer professor reconhece o desenho. O aluno que fica a olhar para o enunciado até chegar uma notificação não precisa, para já, de uma lição sobre a vida digital; precisa de alguém que o ajude a aguentar o problema um pouco mais de tempo. É uma leitura nossa, e não um diagnóstico: Marina fala de adições em sentido muito amplo, e a entrevista não traz dados sobre alunos nem sobre ecrãs na escola. Do lado da literacia digital, já aqui escrevemos sobre o que a escola ainda tem de aprender sobre nativos digitais e ingénuos digitais.

A felicidade fácil e o esforço que passou a parecer enorme

Marina não fica pelo indivíduo. A democracia precisa de votos, o mercado precisa de compradores, e uns e outros podem preferir pessoas crédulas e emotivas a cidadãos críticos e exigentes. Às novas tecnologias atribui um efeito mais discreto: quem se habitua a ter tudo facilitado acaba por achar que qualquer esforço é colossal. «A felicidade fácil é uma armadilha», diz (tradução nossa).

A escola tem aqui um nó para desatar, e não é pequeno. Tudo o que fazemos para ajudar os alunos, da ficha simplificada ao resumo já feito, tem uma face boa e outra menos boa: tira obstáculos e, às vezes, tira também o exercício. As ferramentas de inteligência artificial limitaram-se a acelerar a conversa. Perguntámos há algum tempo se os chatbots vão tornar os alunos mais preguiçosos, e contámos como, nas escolas da Estónia, uma ferramenta pensada para não entregar a resposta pronta foi mal recebida por alguns alunos, em parte por lhes fazer perguntas a mais. Já o estudo de Stanford que comentámos há dias, com todas as reservas que então fizemos, classifica boa parte do atrito nas conversas com IA como produtivo. Não se tiram daqui regras. Tira-se, quando muito, uma pergunta de planeamento: que dificuldade estamos a manter de propósito, e qual deixámos escapar por distração?

O contrário também é verdade, e convém dizê-lo: dificuldade a mais e sem apoio não forma ninguém, afasta. Marina, de resto, rejeita que tudo isto sirva para culpabilizar quem cai numa adição. Reconhecer um erro, sustenta, é um progresso, e o que falta é dar às pessoas mais capacidade para enfrentar os problemas e recuperar o controlo.

Liberdade não é fazer o que apetece

A passagem mais forte da entrevista é a da liberdade. Quem é impulsivo julga-se livre porque faz o que lhe apetece, mas se não consegue controlar o que lhe apetece está nas mãos disso. Para Marina, a liberdade começa quando se pode escolher entre o que se deseja e o que se sabe que convém. Por isso desconfia da ideia de que todos nascemos livres, que lhe parece ter sido política antes de ser psicológica: em termos psicológicos nascemos dependentes, dos pais, das emoções, das circunstâncias. A liberdade é um projeto, e dos cansativos. Marina recorre ao francês Jean-Claude Kaufmann para lembrar que a liberdade pesa, e avisa que um sistema informático que prometa resolver-nos todos os problemas, bastando-nos obedecer, pode parecer muito cómodo, mas é uma maneira de abdicar dela.

Quem conhece o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória reconhece o terreno. A liberdade surge lá como um dos valores, ligada à autonomia e à livre escolha, e a área de competências Desenvolvimento pessoal e autonomia fala de autorregulação, de iniciativa e de decisões fundamentadas. O que Marina acrescenta é um tom de exigência que os documentos curriculares raramente têm: a autonomia não vem de graça, treina-se, e treina-se contra alguma resistência, a dos desejos, a do cansaço, a das dúvidas.

Opinião não é argumento

Outra frente em que Marina insiste é a das opiniões. Respeitar a pessoa não obriga a respeitar tudo o que ela diz: quem opina merece respeito, a opinião pode ou não merecê-lo, consoante o conteúdo e os critérios da área de que se fala. E uma opinião que não vem acompanhada de razões não conta como contributo intelectual. Na sala de aula isto traduz-se bem. Aceita-se qualquer aluno e exige-se a qualquer aluno que justifique. É a regra mais simples de pensamento crítico que conhecemos e a mais difícil de manter quando a turma está cansada. Sobre o que isto pede à educação já escrevemos a propósito do pensamento crítico e da ética na era da IA generativa e de como combater a desinformação na sala de aula; a própria Ethic tem um texto sobre porque é que nem todas as opiniões são respeitáveis.

Sete horas de heurística por semana

Quando lhe perguntam que disciplina obrigatória, de uma hora semanal, poria nas escolas, Marina muda os termos: heurística, a ciência de resolver problemas, e não uma hora, mas sete, desde o ensino primário. Os exemplos que dá são os de qualquer pátio: a amiga que não convida para o aniversário, o brinquedo do outro, um conflito, o assédio. Ensinar a enfrentar essas situações é, na sua visão, ensinar a procurar alternativas e a pedir ajuda. E resolver problemas não é só cognição: pede emoções, coragem, resistência, atenção voluntária e capacidade de continuar quando já se está cansado. Daí a defesa de uma educação por problemas, projetos e perguntas, que funciona, diz, porque o aluno percebe que o que aprende serve para resolver alguma coisa. Fica a ideia de que saber o que fazer não chega; é preciso conseguir fazê-lo.

Sete horas é uma provocação, evidentemente, e Marina sabe-o. Mas a escola portuguesa já tem uma porta aberta. No Perfil dos Alunos, Raciocínio e resolução de problemas é uma das áreas de competências, e os descritores falam de alunos que formulam as questões a investigar, escolhem estratégias, analisam criticamente as conclusões e reformulam o que for preciso. Não precisamos de uma disciplina nova para começar (o próprio Perfil diz que nenhuma área de competências corresponde a uma área curricular em exclusivo). O que talvez falte é tempo, e problemas que sejam realmente dos alunos.

Deixamos três ideias, nossas e por testar. A primeira é o «problema da semana», tirado da vida da turma e não do manual: um desentendimento, um trabalho de grupo que encalhou. Antes de pedir ajuda ao professor, cada par tem de apresentar três alternativas. A segunda é uma regra para o uso de IA nos trabalhos: tenta-se primeiro sozinho e só depois se pergunta, e o que se pergunta é onde falhou o raciocínio, e não qual é a resposta. É a lógica que procurámos pôr na aplicação IA para Aprender e nos cinco roteiros para pensar com a IA, não por ela. A terceira é a mais modesta: tolerar, de vez em quando, o silêncio de uma turma a tentar.

Quem escolhe os fins

O último ponto é o da inteligência artificial, que o livro também aborda. A pergunta de Marina vai ao fundo: a IA pode procurar os meios para atingir um objetivo, mas quem estabelece o objetivo? Os seres humanos inventam fins. Além disso, a IA funciona com sistemas de recompensa e pode chegar a resultados que nós próprios não percebemos. Marina avisa que já existe o risco de aparecerem demonstrações matemáticas que sabemos corretas, porque foram verificadas, mas cuja lógica nos escapa, e vê nisso um problema filosófico sério.

Para a escola, isto dá uma pergunta que cabe em qualquer tarefa com IA e dispensa conhecimentos técnicos: quem decidiu o objetivo, e quem fica a perceber o resultado? Um aluno habituado a fazê-la está bem encaminhado. É uma ideia vizinha da que explorámos quando perguntámos e se, no exame, fossem os alunos a avaliar a inteligência artificial.

O que a entrevista não nos dá

Convém ler isto como o que é, uma entrevista. Marina não apresenta dados nem estudos, e nós não lemos o livro, apenas a ficha editorial. O contexto é espanhol, e a referência ao ensino primário não coincide exatamente com os nossos ciclos.

Há ainda duas reservas. A primeira é que Marina considera insuficiente o modelo médico das adições, porque o verdadeiro problema é a perda de controlo, que é também um fenómeno social. É uma posição dele, e há quem sustente, com bons argumentos, que o enquadramento clínico é indispensável a quem precisa de tratamento. Nenhum professor deve concluir daqui que lhe cabe tratar o que é clínico: um aluno com sofrimento sério precisa de profissionais de saúde, e à escola cabe, antes de mais, perceber e encaminhar. A segunda é que a entrevista fala muito da pessoa e do mercado em geral e pouco do desenho concreto das plataformas e dos jogos, que é onde muita gente situa uma parte do problema. Uma escola que só trabalhe a fortaleza do aluno e nunca olhe para o que lhe é posto à frente fica com metade do trabalho feito.

Uma pergunta para levar

Na nossa escola, o que é que só se aprende com esforço, e em que momentos, por boa vontade, estamos a poupar os alunos a esse esforço? A pergunta não é nova, mas ganhou outro peso. Talvez valha a pena levá-la ao próximo conselho de turma ou ao grupo disciplinar, e ver o que sai.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) sujeito à revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.

Referências

Marina, J. A. (2026). La vacuna contra las adicciones: Inmunología mental para una especie vulnerable. Ariel. Consultado a 15 de outubro de 2026, em <https://www.planetadelibros.com/libro-la-vacuna-contra-las-adicciones/448704> (ficha editorial)

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. Consultado a 15 de outubro de 2026, em <https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf>

Palomo, A. G. (2026, 13 de outubro). José Antonio Marina: «La libertad no consiste en hacer lo que uno quiere, sino en poder no hacerlo». Ethic. Consultado a 15 de outubro de 2026, em <https://ethic.es/entrevista-jose-antonio-marina-vacuna-adicciones>

Para saber mais

Fora do blogue: o primeiro capítulo de La vacuna contra las adicciones, na página da editora; «La vacuna contra la insensatez», texto de Marina na Ethic; «¿Por qué no todas las opiniones son respetables?», também na Ethic; outra entrevista a Marina na Ethic, de 2024.

No blogue: Reaprender a perguntar: estamos a caminho da geração prompt?; Literacia em IA: cinco passos para a escola; Quando a inteligência artificial entra na sala de aula: responsabilidade, ética e pedagogia.

Platão desconfiava da escrita e nós desconfiamos do telemóvel

Há mais de dois milénios que se escreve contra a escrita, e a queixa nunca chegou a envelhecer. Um ensaio recente de Marcos Alonso e um livro de três académicos italianos, comentados por Carlos A. Scolari no blogue Hipermediaciones, ajudam a perceber por que razão cada tecnologia nova traz o mesmo susto e o que isso muda na maneira como professores e alunos podem olhar para o telemóvel, para o ecrã e para a inteligência artificial.

O remédio que fazia mal

No Fedro, Platão conta um mito egípcio. O deus Theuth, inventor de várias artes, apresenta ao rei do Egito a sua criação mais recente, a escrita, e garante que ela tornará os egípcios mais sábios e dotados de melhor memória. O rei não se deixa convencer. Diz que vai acontecer o contrário: quem confiar nos textos deixa de exercitar a memória e fica com a aparência do saber sem o saber. Lerão muito, julgarão saber muito e, na maior parte dos casos, não saberão nada. E há outro defeito, acrescenta Platão pela boca do rei: um texto não responde. Pergunta-se-lhe alguma coisa e ele repete, calado, sempre o mesmo (Platão, s.d., 274c–275e).

A queixa soa familiar a qualquer professor que já tenha corrigido um trabalho copiado sem ter sido lido. Foi a partir dela que Scolari, em junho de 2026, apresentou o livro Platón contra las máquinas, de Marcos Alonso, publicado em janeiro desse ano pela Alianza Editorial. Alonso, que trabalha em filosofia da tecnologia e bioética na Universidade Complutense de Madrid, parte de uma ideia simples e um pouco incómoda. Vivemos rodeados de artefactos que já não conseguimos separar de nós, e continuamos, ainda assim, a venerar o natural como se fosse um espaço puro, bom e original. A cama, o café, a linguagem, a lei, a economia, o telemóvel: tudo isto pertence a uma segunda natureza, a «sobrenatureza» de Ortega y Gasset, que nos sustenta antes de darmos por ela. A pergunta do livro é, por isso, mais funda do que saber se uma máquina é inteligente. Será que ainda faz sentido falar em «artificial»?

Antes de haver preconceito

Segundo Alonso, o medo da técnica é mais velho do que a desconfiança contra o artificial. Nos mitos de Prometeu, de Pandora e de Dédalo, a técnica aparece como promessa e como ameaça ao mesmo tempo, um desafio aos deuses com consequências graves, mas não como algo mau em si. O preconceito só ganha forma com a filosofia, no século V a.C., e Platão dá-lhe estatuto filosófico. Desconfia do que se afasta da verdade, da presença viva, do diálogo com o mestre. Na República, a mesma suspeita recai sobre a mimese, isto é, sobre as imagens e as cópias que nos afastam da realidade. Para Alonso, a técnica fica então associada ao simulacro e ao engano, e é aí que nasce aquilo a que chama artefactofobia.

Uma fila comprida de desconfiados

Daí em diante o livro segue o rasto da suspeita pelos séculos. No cristianismo, muitas técnicas ficam em terreno ambíguo, úteis mas sacrílegas se desafiarem a ordem criada. A modernidade de Galileu e de Descartes dá prestígio ao artificial, mas fá-lo por oposição a uma esfera ideal e espiritual, e essa oposição impede, na leitura de Alonso, uma compreensão mais rica da realidade. O idealismo alemão e o romantismo voltam a ver na máquina uma ameaça ao espírito, à vida e à autenticidade. Depois vêm Spengler, para quem a máquina tem algo de diabólico, Heidegger, que acusa a técnica moderna de reduzir o mundo a uma reserva de recursos disponíveis, e Neil Postman, que avisa que a tecnologia pode transformar-se numa nova divindade cultural. No extremo violento está Theodore Kaczynski, o Unabomber, que Alonso considera o caso mais radical e mais coerente de tecnofobia. O balanço geral é irónico. A filosofia da técnica dos séculos XX e XXI parece-lhe um coro afinado pelo mesmo tom, que agrada aos intelectuais porque lhes garante que o natural vale mais e que eles próprios são superiores.

Scolari lê o livro em chave mediática e a chave encaixa bem. A imprensa foi para Roma uma «máquina diabólica», e a Igreja criou o seu índice de livros proibidos. As fantasmagorias do século XIX inquietaram, a rádio e a televisão foram acusadas de manipular a cabeça dos mais novos. Nos últimos quinze anos, diz Scolari com ironia, o apocalipticismo tecnológico, nas vozes de Éric Sadin ou de Byung-Chul Han, vendeu mais livros do que bebidas energéticas. É uma opinião dele, e provocadora, mas ajuda a ver que o alarme também tem mercado.

Do lado de cá do quadro

Há uma observação de Scolari que qualquer professor reconhecerá noutros contextos. Nos cursos de comunicação onde os estudantes aprendem a usar câmaras e microfones, a bibliografia obrigatória está cheia de autores declaradamente tecnófobos, de Adorno, Horkheimer, Marcuse e Mattelart a Habermas, e ainda de trabalhos mais recentes de Christian Fuchs ou de Paula Sibilia. Scolari vê nisto uma incoerência gritante. O exemplo é universitário, mas a lição estende-se a qualquer sala onde se ensina a usar uma ferramenta ao mesmo tempo que se ensina a temê-la. É provável que os alunos deem por isso.

Para lá da tecnofobia

Scolari junta ao livro de Alonso outro, que descobriu numa livraria de Turim: Oltre la tecnofobia. Il digitale dalle neuroscienze all’educazione, de Vittorio Gallese, Stefano Moriggi e Pier Cesare Rivoltella, publicado em maio de 2025 pela Raffaello Cortina (208 páginas). Gallese é neurocientista na Universidade de Parma e fez parte do grupo que, em 1992, identificou os neurónios-espelho. Moriggi é professor associado de cidadania digital na Universidade de Modena e Reggio Emilia. Rivoltella é professor de didática e tecnologias da educação na Universidade de Bolonha. O terreno comum dos três é a educação.

Segundo Scolari, os autores defendem que a cultura humana é tecnológica desde as origens e que a escrita, a imprensa e outras ferramentas provocaram, em tempos, receios muito parecidos com os de agora. Sustentam também que o cérebro não separa biologicamente o mundo físico do virtual e que o corpo continua a ser o eixo da experiência cognitiva e relacional nos ambientes digitais. Quanto ao debate público, dizem que assenta demasiadas vezes em juízos estereotipados, negativos ou positivos, em vez de se apoiar no que a investigação consegue verificar.

É neste ponto que Scolari faz o contraste com Jonathan Haidt e com The anxious generation (2024). Na sua leitura, Haidt aposta no afastamento, nas proibições rígidas e na estigmatização das tecnologias, enquanto os autores italianos apostam na mediação educativa e no pensamento crítico, numa pedagogia que integre o digital de forma consciente e dialogante. Convém, porém, ser justo com Haidt, cujas propostas são mais concretas do que essa síntese deixa ver: nenhum smartphone antes dos 14 anos, redes sociais só depois dos 16, escolas sem telemóveis do primeiro ao último toque e muito mais brincadeira livre e autonomia no mundo real (World Economic Forum, 2025). Quem tem razão? Um artigo de blogue não resolve a discussão, e esta síntese, tal como a de Scolari, não substitui a leitura dos dados. Mas o contraste é útil por uma razão prática: obriga a perguntar o que cada escola, cada professor e cada família pretende resolver com uma proibição, ou com uma autorização, e como vai saber se resultou.

Asas e instruções de voo

Na parte final do livro, Alonso chega ao presente: inteligências artificiais, robôs, ChatGPT, algoritmos, biotecnologia, transumanismo, crise ecológica. Não nega os perigos, e enumera-os: vigilância, enviesamentos, privacidade, saúde mental, emprego, guerra, o custo energético da nuvem. Mas também não transforma as máquinas em demónios nem em sujeitos morais. A responsabilidade continua a ser humana, de quem programa, financia, regula, instala e utiliza os sistemas. Daí o chamado síndrome de Ícaro: ter asas não chega, é preciso saber usá-las.

As novas gerações digitais podem herdar instrumentos poderosíssimos sem conhecerem o mundo anterior nem os seus limites. E se não decidirmos que mundo queremos construir, adverte Alonso, outros o desenharão por nós: plataformas, poderes económicos e senhores tecnofeudais atentos ao negócio dos nossos dados e à captura da nossa atenção, dos nossos afetos e da nossa intimidade. A tese final é que não estamos simplesmente diante da tecnologia. Somos seres técnicos, simbólicos e artificiais, ou, como resume Scolari, todos somos Homo mediaticus.

O que se pode levar para a sala de aula

O que se segue é leitura nossa e não das obras, e vale como sugestão de trabalho, não como receita.

A história ajuda a baixar a temperatura. Um professor que leia com os alunos o mito de Theuth ao lado de um debate atual sobre inteligência artificial dá-lhes uma pergunta boa: o rei tinha razão ou só tinha medo? A resposta honesta é que tinha razão em parte. A escrita altera de facto a relação com a memória, e ninguém aprende a pensar limitando-se a copiar. O que o rei não podia prever foi tudo o que a escrita tornou possível. Manter as duas colunas à vista, o que se perde e o que se ganha, talvez seja o exercício de pensamento crítico mais simples de propor.

Depois, antes de proibir ou de adotar, convém dizer qual é o problema. Distração nas aulas, ansiedade, cópia, dependência de um assistente que responde por nós: são problemas diferentes e não pedem a mesma solução. Uma resposta única para todos costuma servir mal quase toda a gente. E a literacia digital que se ensina deveria incluir o que Alonso põe no centro da sua última parte, a pergunta sobre quem é dono das plataformas e o que faz com os dados de quem as usa.

Há ainda uma ironia que vale a pena deixar aos alunos. A objeção mais célebre de Platão à escrita, a de que o texto não responde quando o interrogamos, é justamente aquela que a inteligência artificial generativa parece desmentir, porque responde sempre e depressa. Se as respostas são boas é outra conversa, e essa continua a exigir alguém que saiba perguntar.

Nota editorial. Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura integral do texto de Carlos A. Scolari (2026), complementada pela consulta das fichas editoriais dos dois livros e de uma fonte sobre as propostas de Haidt.

Referências

Alonso Fernández, M. (2026). Platón contra las máquinas: La tecnología y sus enemigos, desde la escritura hasta la inteligencia artificial (Prólogo de A. Ortega & J. Echeverría). Alianza Editorial.

Gallese, V., Moriggi, S., & Rivoltella, P. C. (2025). Oltre la tecnofobia: Il digitale dalle neuroscienze all’educazione. Raffaello Cortina Editore.

Haidt, J. (2024). The anxious generation: How the great rewiring of childhood is causing an epidemic of mental illness. Penguin Press.

Platão. (s.d.). Fedro (274c–275e).

Scolari, C. A. (2026, 8 de junho). Apocalypse now. Los sapiens contra la tecnología. Hipermediaciones. Consultado em 30 de setembro de 2026, de https://hipermediaciones.com/2026/06/08/apocalypse-now-los-sapiens-contra-la-tecnologia/

World Economic Forum. (2025, 23 de janeiro). Jonathan Haidt: How to make the ‘anxious generation’ happy again. Consultado em 30 de setembro de 2026, de https://www.weforum.org/stories/2025/01/jonathan-haidt-digital-technology-social-media-childhood/

Para saber mais

O texto de Scolari que deu origem a este artigo está em espanhol e traz, no fim, ligações para uma apresentação de Platón contra las máquinas na Fundación Telefónica, em Madrid. Sobre a mesma obra, o jornal Nueva Tribuna publicou uma reflexão sobre o síndrome de Ícaro. A ficha editorial de Oltre la tecnofobia reúne a sinopse, as biografias dos autores e uma longa lista de recensões na imprensa italiana. Quem quiser ver a posição de Haidt pela sua própria voz pode ler a intervenção em Davos resumida pelo World Economic Forum, e o mesmo Scolari já tinha escrito, em 2024, sobre o livro de Haidt e o eterno retorno dos efeitos dos media nas crianças.