O que um mito de 2000 anos ensina sobre a era da selfie

Numa vitrine do Prunksaal da Biblioteca Nacional da Áustria, em Viena, um mito com dois mil anos volta a perguntar o que qualquer sala de aula devia perguntar hoje: o que vemos quando olhamos para nós próprios?
Entre 20 de março e 1 de novembro de 2026, a Biblioteca Nacional da Áustria apresenta, no Prunksaal, a exposição Weltmacht Liebe — Eine Reise durch die Jahrhunderte — numa tradução livre, “O poder global do amor — Uma viagem através dos séculos”. A mostra percorre cerca de dois mil anos de representações do amor, através de manuscritos, gravuras, partituras e impressos conservados nas coleções da instituição.
Uma das secções chama-se Selbstliebe: Der Mythos von Narziss — “Autoamor: o mito de Narciso”. Quatro núcleos documentais, que ligam o início do século XVI ao século XX, acompanham as sucessivas apropriações de uma mesma figura.
O ponto de partida é conhecido: Narciso, um jovem de extraordinária beleza, rejeita aqueles que o amam e acaba por se apaixonar pela própria imagem refletida na água. Incapaz de alcançar ou de ver correspondido esse amor, definha e morre.
O mais interessante da vitrine, porém, não é apenas o mito. É a forma como épocas diferentes o reinterpretaram, transformando-o sucessivamente em matéria poética, advertência moral, referência botânica e conceito psicanalítico. Vale a pena seguir esse percurso, porque ele é também um percurso de leitura: mostra como cada sociedade olha para as imagens que produz de si própria.

Ovídio, o poeta que inventou o espelho de água
A versão mais influente do mito está nas Metamorfoses de Ovídio, poema composto no início do século I d.C. O exemplar em vitrine não é, claro, o original — é uma edição impressa em Veneza em 1509, com extensas anotações marginais de um leitor da época, prova de que o episódio de Narciso já era, cinco séculos depois de impresso pela primeira vez, um dos mais comentados do poema.
É em Ovídio que a história ganha os contornos que ainda hoje reconhecemos: a recusa de todos os pretendentes, incluindo a ninfa Eco; o castigo dos deuses; o apaixonar-se por uma imagem que não pode ser tocada nem retribuir o olhar; e, por fim, a transformação do corpo numa flor — a narcisa — que passa a levar o seu nome.

Sebastian Brandt: quando amar-se a si próprio é ser tolo
Dois séculos antes de qualquer teoria psicológica, o jurista e satirista alsaciano Sebastian Brandt (1457–1521) já usava Narciso como advertência moral. A sua Nau dos Loucos, publicada originalmente em 1494 e aqui exposta na tradução latina Navis Stultifera (Basileia, 1506), catalogava mais de cem tipos de “loucos” e os respetivos vícios. Um deles é o narcisista completo: a xilogravura mostra-o a mexer as papas ao lume enquanto se admira, distraído, ao espelho.
A imagem é quase cómica, mas o alvo é sério — para Brandt, o amor-próprio excessivo não é uma fraqueza discreta, é uma forma pública de tolice, ao lado da avareza, da vaidade ou da preguiça.

Matthias de l’Obel: do mito à espécie
Um terceiro destino aguardava Narciso: tornar-se, literalmente, uma planta de catálogo. O botânico flamengo Matthias de l’Obel dedica, na sua obra de referência Icones Stirpium (Antuérpia, 1591), páginas inteiras a documentar cientificamente a flor em que o jovem se transformou — hoje o género Narcissus, que inclui os nossos narcisos e junquilhos comuns.
É um lembrete simples, mas útil em contexto escolar: os mitos não ficam presos à literatura. Migram para a botânica, para a linguagem corrente, e — como se verá a seguir — para a psicologia clínica.

Freud: do mito ao conceito clínico
A vitrine final documenta o momento em que o nome de Narciso se torna vocabulário científico. Numa carta de 17 de junho de 1913 ao psicanalista húngaro Sándor Ferenczi, Sigmund Freud anuncia a intenção de escrever sobre o tema do narcisismo. O ensaio sairia no ano seguinte: Zur Einführung des Narzißmus (“Sobre o Narcisismo: uma Introdução”, 1914).
Freud descreve o narcisismo como uma fase do desenvolvimento infantil em que a libido se volta para o próprio sujeito; quando essa retirada da libido dos objetos externos persiste na idade adulta, argumenta, abre-se caminho a perturbações psicológicas. Mais do que patologizar Narciso, porém, Freud complica o mito: o gesto de olhar para a água passa a simbolizar a própria procura de identidade — com o risco de nela nos perdermos. As suas ideias viriam a alimentar, décadas depois, correntes como a psicologia do ego e a psicologia do self.

Narciso na escola de hoje
O que muda, de Ovídio a Freud, não é a pergunta — é o espelho. Hoje, esse espelho tem uma câmara, um filtro e um contador de gostos, e está na mão de praticamente todos os alunos, independentemente da disciplina que estejam a ter. Por isso, a discussão sobre autoimagem, identidade digital e uso das redes sociais não é matéria de uma disciplina isolada: é, como reconhece o próprio referencial nacional, uma competência transversal a desenvolver em toda a escola.

Em Portugal, essa transversalidade tem já enquadramento formal: o Manual de Educação para a Cidadania Digital da Direção-Geral da Educação organiza-se em torno de dez domínios centrais e destina-se explicitamente a professores de todas as áreas, não apenas aos de informática; e o domínio da Cidadania Digital integra a componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento, presente ao longo de todo o percurso escolar. A vitrine de Viena não fala de ecrãs, mas oferece um ponto de entrada raro para essa conversa: um mito que qualquer aluno reconhece, mostrado através de quatro leituras diferentes ao longo de cinco séculos.

Nenhuma destas propostas exige mais do que uma imagem projetada e vinte minutos: o valor está em deixar que o mito faça o trabalho de distanciamento que uma conversa direta sobre “o telemóvel” raramente consegue.
Fontes
- Brandt, S. (1506). Navis stultifera. Basileia. [Peça exposta na Österreichische Nationalbibliothek, Viena]
- Direção-Geral da Educação. (2025). Manual de Educação para a Cidadania Digital. Ministério da Educação, Ciência e Inovação. https://www.dge.mec.pt/noticias/manual-de-educacao-para-cidadania-digital
- Freud, S. (1924). Zur Einführung des Narzißmus. Internationaler Psychoanalytischer Verlag. (Obra original publicada em 1914)
- L’Obel, M. de (1591). Icones stirpium. Antuérpia.
- Ovídio. (1509). P. Ovidii Metamorphosis [edição com anotações]. Veneza.
- Wagner, R. (2026, 25 de março). Wien / Österreichische Nationalbibliothek: Weltmacht Liebe. Online Merker. https://onlinemerker.com/wien-oesterreichische-nationalbibliothek-weltmacht-liebe/

