Um texto de um professor de finanças sobre capital humano, juro composto e pensões serve de ponto de partida para olhar a literacia financeira como o currículo já a exige — com dados do PISA e propostas concretas para a sala de aula.

Há uns dias chegou-nos um texto pouco habitual: um professor catedrático de finanças, com quarenta anos de carreira entre Fontainebleau, Los Angeles e Lisboa, sentou-se a escrever aquilo que costuma dizer aos filhos, aos alunos no último dia de aulas e aos amigos que lhe perguntam, ao jantar, onde devem pôr o dinheiro. Pedro Santa Clara, professor na Nova School of Business and Economics, não escreveu para professores. Escreveu para quem tem, ou vai ter, um ordenado e uma vida inteira pela frente. Mas é precisamente por isso que o texto interessa à escola: fala de decisões que os nossos alunos vão tomar sozinhos, sem manual de instruções, muito antes de perceberem que as estão a tomar.
E há uma razão para isto não ser um assunto lateral. Os últimos dados da avaliação internacional PISA mostram que os alunos portugueses pioraram, e de forma estatisticamente significativa, na literacia financeira: 494 pontos em 2022, contra os 498 da média dos vinte países da OCDE que participaram no teste, e menos onze pontos do que Portugal tinha obtido em 2018 (Direção-Geral da Educação, n.d.-a). Não é uma diferença cosmética. É o retrato de uma geração que vai gerir orçamentos, créditos, poupanças e, mais cedo do que gostaríamos, uma reforma, com menos ferramentas do que a anterior.
Uma competência que a escola já é obrigada a ensinar
Talvez surpreenda quem está fora das escolas, mas a literacia financeira não é uma opção pedagógica facultativa em Portugal: é uma exigência curricular. Desde a revisão de 2025 da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, a dimensão «Literacia Financeira e Empreendedorismo» passou a ser obrigatória em todos os anos de escolaridade do ensino básico e secundário, dentro da componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento criada pelo Decreto-Lei n.º 55/2018 (Direção-Geral da Educação, n.d.-b). Existe mesmo um documento de referência próprio para isto, o Referencial de Educação Financeira, construído em protocolo entre o então Ministério da Educação e o Banco de Portugal, e apoiado por um conjunto de Cadernos de Educação Financeira, pensados ciclo a ciclo, dos primeiros anos ao ensino secundário (Direção-Geral da Educação, n.d.-c, n.d.-d). Há até um concurso nacional, o «Todos Contam», já na sua décima terceira edição, com prémios para escolas e para professores que trabalham o tema em sala de aula.
O enquadramento existe. O que falta, muitas vezes, é o material concreto que transforme «educação financeira» de rubrica curricular em conversa que os alunos levam para casa. É aqui que um texto como o de Santa Clara pode ser mais útil na escola do que em qualquer secção de economia de jornal.
Dois capitais, uma vida inteira
A ideia central do texto é simples de explicar e difícil de esquecer, o que a torna um excelente ponto de partida para uma aula de Cidadania e Desenvolvimento ou de Economia A. Aos vinte e cinco anos, escreve Santa Clara, quase ninguém tem dinheiro, mas quase toda a gente tem um ativo enorme que não aparece em extrato nenhum: o capital humano, ou seja, o valor de todos os salários que vai ganhar ao longo da vida profissional. A existência adulta é, nesta leitura, uma travessia entre dois capitais — o capital humano, que se vai gastando, e o capital financeiro, que se vai construindo com aquilo que não se consome do salário. A ideia tem raízes na obra de Franco Modigliani, Prémio Nobel da Economia, mas não precisa de nenhuma equação para ser compreendida por um adolescente: basta perguntar-lhe com que se vai encontrar no dia em que deixar de trabalhar.
É um exercício de pensamento que se presta bem à sala de aula, sobretudo porque obriga os alunos a olhar para decisões que lhes parecem distantes — a reforma, o crédito à habitação, a Segurança Social — como consequências diretas de escolhas feitas muito antes, muitas vezes sem se perceber que se estava a escolher.
A matemática do juro composto, em números que se podem verificar
Se há um conceito que a escola ensina em Matemática mas raramente liga à vida real, é o do juro composto. O texto de Santa Clara oferece um exemplo concreto, e verificámos os números: um euro investido aos vinte e cinco anos, a render 5% reais ao ano, vale cerca de sete euros aos sessenta e cinco; o mesmo euro investido dez anos mais tarde vale apenas quatro. Em termos de poupança mensal, 200 euros por mês ao longo de quarenta anos, à mesma taxa, resultam em cerca de 296 500 euros, dos quais só 96 000 saíram efetivamente do bolso do investidor — o resto é o próprio juro composto a trabalhar. Quem começa dez anos mais tarde chega aos sessenta e cinco com pouco mais de 163 000 euros, tendo poupado apenas 72 000. A década de atraso não custou um quarto do resultado final: custou quase metade.
Este é, literalmente, um exercício de progressões geométricas com aplicação imediata à vida dos alunos, e um ponto de contacto natural entre a disciplina de Matemática e os temas da Cidadania e Desenvolvimento — algo que o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória pede explicitamente quando fala em raciocínio, resolução de problemas e literacia. Também mostra, sem grande esforço de retórica, o custo real de adiar: o problema não é poupar pouco, é começar tarde.
Ensinar a distinguir dados de promessas
Uma parte do texto que os professores de Cidadania podem explorar com particular proveito é a que trata da gestão ativa versus a gestão passiva de investimentos — não pelo tema em si, mas pelo exercício de pensamento crítico que exige. Os relatórios SPIVA, publicados semestralmente pela S&P Dow Jones Indices, mostram que, no ano de 2024, 91% dos fundos ativos de ações globais denominados em euros ficaram atrás do índice de mercado, a taxa mais alta alguma vez registada nesta categoria, e que, numa média entre categorias de ações, 93% dos fundos ativos perderam para o respetivo índice ao longo de dez anos (S&P Dow Jones Indices, 2025). São números que desafiam a intuição de que «pagar mais por gestão especializada» produz melhores resultados, e que convidam a uma pergunta com aplicação muito para lá das finanças: como se distingue uma afirmação apoiada em evidência de uma promessa de marketing? É exatamente o tipo de raciocínio que a escola devia estar a treinar, num tempo em que a desinformação circula com a mesma fluência que a informação verificada.
A pensão que aí vem, e porque é um tema de cidadania
Há ainda um ponto do texto que ultrapassa as finanças pessoais e entra em pleno terreno da educação para a cidadania: o funcionamento do sistema público de pensões. Santa Clara explica, sem alarmismo, que o sistema português é de repartição — os descontos de quem trabalha hoje pagam as pensões de quem está reformado hoje, não uma conta pessoal futura — e que a promessa da pensão pública depende, por isso, de um fator puramente demográfico: a relação entre quantos trabalham e quantos recebem pensão no momento da reforma de cada um. É uma frase do texto que resume bem a ideia: «a pensão pública será o chão, não o edifício». Discutir este mecanismo com alunos do secundário é discutir literacia financeira, mas é também discutir contrato social, envelhecimento demográfico e justiça intergeracional — três fios que se cruzam nas dimensões de Democracia e Instituições Políticas e de Desenvolvimento Sustentável da própria componente de Cidadania e Desenvolvimento.
O que fica para a sala de aula
Nenhum destes temas exige transformar uma aula de Cidadania, de Economia ou de Matemática numa aula de finanças pessoais. Mas há aqui matéria-prima concreta para atividades curtas e memoráveis: pedir aos alunos que calculem, com uma folha de cálculo, quanto vale um euro poupado aos quinze anos comparado com um euro poupado aos vinte e cinco; discutir, a partir dos dados do PISA, porque é que Portugal está abaixo da média da OCDE neste domínio específico; ou usar os números do SPIVA como exercício de leitura crítica de dados, perguntando aos alunos que outras explicações poderiam existir para os mesmos resultados. Para quem procura um ponto de partida mais estruturado, os Cadernos de Educação Financeira da Direção-Geral da Educação continuam a ser o recurso mais direto, organizado por ciclo e gratuito.
Santa Clara termina o seu texto com uma frase que podia perfeitamente ser dita por um professor no primeiro dia de aulas, não no último: «comece já — o tempo é o único fator que não se compra depois». Para um aluno de quinze anos, essa frase vale tanto para o dinheiro como para tudo o resto que a escola tenta ensinar a tempo.

Este artigo foi escrito com apoio de inteligência artificial a partir de um texto original de Pedro Santa Clara partilhado para este efeito, de fontes institucionais portuguesas sobre currículo e de relatórios financeiros internacionais.
Referências
Direção-Geral da Educação. (n.d.-a). Investir na educação para a literacia financeira em Portugal. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/noticias/investir-na-educacao-para-literacia-financeira-em-portugal
Direção-Geral da Educação. (n.d.-b). Aprendizagens essenciais: Cidadania e desenvolvimento. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/eb_es_cidadania-desenvolvimento.pdf
Direção-Geral da Educação. (n.d.-c). Referencial de Educação Financeira. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/referencial-de-educacao-financeira
Direção-Geral da Educação. (n.d.-d). Cadernos de Educação Financeira. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/cadernos-de-educacao-financeira
S&P Dow Jones Indices. (2025). SPIVA Europe year-end 2024 scorecard. S&P Global. https://www.spglobal.com/spdji/en/documents/spiva/spiva-europe-year-end-2024.pdf
Dimson, E., Marsh, P., & Staunton, M. (2025). Global Investment Returns Yearbook 2025 (edição pública resumida). UBS. https://www.ubs.com/global/en/wealthmanagement/insights/2025/global-investment-returns-yearbook.html
Santa Clara, P. (comunicação pessoal, 10 de julho de 2026). Conselhos de um professor de finanças.












