O filósofo José Antonio Marina publicou um livro sobre adições e, numa entrevista à revista Ethic, deixa uma ideia que qualquer professor reconhece à primeira: ser livre dá trabalho, e há quem fique pelo caminho quando tudo à volta é fácil. Lemos a entrevista com a sala de aula à frente dos olhos, à procura do que serve a quem ensina e a quem aprende, e do que convém ler com reserva.

Há perguntas que um professor faz a si próprio quase todas as semanas, sem lhes chamar filosofia. Porque é que aquele aluno desiste à primeira dificuldade? Porque é que uma turma que sabe muito bem o que lhe convém faz precisamente o contrário? O filósofo espanhol José Antonio Marina anda há anos às voltas com uma versão maior da mesma pergunta: se somos tão inteligentes, porque cometemos tantos disparates? A resposta mais recente está em La vacuna contra las adicciones, editado pela Ariel em maio de 2026, e a Ethic publicou a 13 de outubro uma entrevista com ele sobre o livro.
Nem tudo o que lá se diz é para a escola, e nem tudo aguenta a leitura sem reservas. Há, ainda assim, ideias que merecem chegar à sala dos professores.
Uma vacina para a insensatez
O ponto de partida de Marina é que o cérebro humano não nasceu de um projeto limpo. Resulta de uma evolução longuíssima, feita a saltos, que resolveu uns problemas e deixou outros por resolver. Daí a nossa vulnerabilidade àquilo a que chama patógenos mentais, ideias e hábitos que, uma vez instalados, estragam o funcionamento da inteligência. Como não vão desaparecer, a saída que propõe é uma vacina: reforçar as defesas de cada pessoa, para que consiga reconhecer os enquadramentos insensatos e desmontá-los. Entre os candidatos (o medo, o fundamentalismo, as adições), escolheu as adições por lhe parecerem o problema mais urgente e por achar que vivemos numa sociedade adictiva.
Três passos até perder o controlo
A entrevista distingue adições a substâncias e adições a comportamentos. Durante muito tempo, nestas últimas, quase só se falava do jogo; hoje a lista inclui o sexo, a comida, o telemóvel, as redes sociais e até o exercício físico. O caminho, descreve Marina, faz-se em três tempos. Primeiro, o encontro com um desencadeador que dá prazer ou satisfação, e que pode ser puro acaso. Depois, o consumo ou o comportamento passa a abuso e começa a fazer mal. Por fim, a perda de controlo: sair torna-se cada vez mais difícil e, se a pessoa tenta, sente um mal-estar forte. O círculo fecha-se quando já acredita que não tem outra saída.
Há uma segunda ideia, que nos parece a mais útil para quem ensina. Marina diz que a adição é muitas vezes uma má solução para um problema. Perante uma dificuldade, podemos enfrentá-la ou podemos enfrentar só o mal-estar que ela provoca, e para isso serve o comprimido, a droga, o álcool, a comida, o que estiver à mão. Na sua leitura, estamos a diminuir a competência das pessoas para resolver problemas e, ao mesmo tempo, a passar-lhes a mensagem de que a felicidade devia ser fácil.
Qualquer professor reconhece o desenho. O aluno que fica a olhar para o enunciado até chegar uma notificação não precisa, para já, de uma lição sobre a vida digital; precisa de alguém que o ajude a aguentar o problema um pouco mais de tempo. É uma leitura nossa, e não um diagnóstico: Marina fala de adições em sentido muito amplo, e a entrevista não traz dados sobre alunos nem sobre ecrãs na escola. Do lado da literacia digital, já aqui escrevemos sobre o que a escola ainda tem de aprender sobre nativos digitais e ingénuos digitais.
A felicidade fácil e o esforço que passou a parecer enorme
Marina não fica pelo indivíduo. A democracia precisa de votos, o mercado precisa de compradores, e uns e outros podem preferir pessoas crédulas e emotivas a cidadãos críticos e exigentes. Às novas tecnologias atribui um efeito mais discreto: quem se habitua a ter tudo facilitado acaba por achar que qualquer esforço é colossal. «A felicidade fácil é uma armadilha», diz (tradução nossa).
A escola tem aqui um nó para desatar, e não é pequeno. Tudo o que fazemos para ajudar os alunos, da ficha simplificada ao resumo já feito, tem uma face boa e outra menos boa: tira obstáculos e, às vezes, tira também o exercício. As ferramentas de inteligência artificial limitaram-se a acelerar a conversa. Perguntámos há algum tempo se os chatbots vão tornar os alunos mais preguiçosos, e contámos como, nas escolas da Estónia, uma ferramenta pensada para não entregar a resposta pronta foi mal recebida por alguns alunos, em parte por lhes fazer perguntas a mais. Já o estudo de Stanford que comentámos há dias, com todas as reservas que então fizemos, classifica boa parte do atrito nas conversas com IA como produtivo. Não se tiram daqui regras. Tira-se, quando muito, uma pergunta de planeamento: que dificuldade estamos a manter de propósito, e qual deixámos escapar por distração?
O contrário também é verdade, e convém dizê-lo: dificuldade a mais e sem apoio não forma ninguém, afasta. Marina, de resto, rejeita que tudo isto sirva para culpabilizar quem cai numa adição. Reconhecer um erro, sustenta, é um progresso, e o que falta é dar às pessoas mais capacidade para enfrentar os problemas e recuperar o controlo.
Liberdade não é fazer o que apetece
A passagem mais forte da entrevista é a da liberdade. Quem é impulsivo julga-se livre porque faz o que lhe apetece, mas se não consegue controlar o que lhe apetece está nas mãos disso. Para Marina, a liberdade começa quando se pode escolher entre o que se deseja e o que se sabe que convém. Por isso desconfia da ideia de que todos nascemos livres, que lhe parece ter sido política antes de ser psicológica: em termos psicológicos nascemos dependentes, dos pais, das emoções, das circunstâncias. A liberdade é um projeto, e dos cansativos. Marina recorre ao francês Jean-Claude Kaufmann para lembrar que a liberdade pesa, e avisa que um sistema informático que prometa resolver-nos todos os problemas, bastando-nos obedecer, pode parecer muito cómodo, mas é uma maneira de abdicar dela.
Quem conhece o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória reconhece o terreno. A liberdade surge lá como um dos valores, ligada à autonomia e à livre escolha, e a área de competências Desenvolvimento pessoal e autonomia fala de autorregulação, de iniciativa e de decisões fundamentadas. O que Marina acrescenta é um tom de exigência que os documentos curriculares raramente têm: a autonomia não vem de graça, treina-se, e treina-se contra alguma resistência, a dos desejos, a do cansaço, a das dúvidas.
Opinião não é argumento
Outra frente em que Marina insiste é a das opiniões. Respeitar a pessoa não obriga a respeitar tudo o que ela diz: quem opina merece respeito, a opinião pode ou não merecê-lo, consoante o conteúdo e os critérios da área de que se fala. E uma opinião que não vem acompanhada de razões não conta como contributo intelectual. Na sala de aula isto traduz-se bem. Aceita-se qualquer aluno e exige-se a qualquer aluno que justifique. É a regra mais simples de pensamento crítico que conhecemos e a mais difícil de manter quando a turma está cansada. Sobre o que isto pede à educação já escrevemos a propósito do pensamento crítico e da ética na era da IA generativa e de como combater a desinformação na sala de aula; a própria Ethic tem um texto sobre porque é que nem todas as opiniões são respeitáveis.
Sete horas de heurística por semana
Quando lhe perguntam que disciplina obrigatória, de uma hora semanal, poria nas escolas, Marina muda os termos: heurística, a ciência de resolver problemas, e não uma hora, mas sete, desde o ensino primário. Os exemplos que dá são os de qualquer pátio: a amiga que não convida para o aniversário, o brinquedo do outro, um conflito, o assédio. Ensinar a enfrentar essas situações é, na sua visão, ensinar a procurar alternativas e a pedir ajuda. E resolver problemas não é só cognição: pede emoções, coragem, resistência, atenção voluntária e capacidade de continuar quando já se está cansado. Daí a defesa de uma educação por problemas, projetos e perguntas, que funciona, diz, porque o aluno percebe que o que aprende serve para resolver alguma coisa. Fica a ideia de que saber o que fazer não chega; é preciso conseguir fazê-lo.
Sete horas é uma provocação, evidentemente, e Marina sabe-o. Mas a escola portuguesa já tem uma porta aberta. No Perfil dos Alunos, Raciocínio e resolução de problemas é uma das áreas de competências, e os descritores falam de alunos que formulam as questões a investigar, escolhem estratégias, analisam criticamente as conclusões e reformulam o que for preciso. Não precisamos de uma disciplina nova para começar (o próprio Perfil diz que nenhuma área de competências corresponde a uma área curricular em exclusivo). O que talvez falte é tempo, e problemas que sejam realmente dos alunos.
Deixamos três ideias, nossas e por testar. A primeira é o «problema da semana», tirado da vida da turma e não do manual: um desentendimento, um trabalho de grupo que encalhou. Antes de pedir ajuda ao professor, cada par tem de apresentar três alternativas. A segunda é uma regra para o uso de IA nos trabalhos: tenta-se primeiro sozinho e só depois se pergunta, e o que se pergunta é onde falhou o raciocínio, e não qual é a resposta. É a lógica que procurámos pôr na aplicação IA para Aprender e nos cinco roteiros para pensar com a IA, não por ela. A terceira é a mais modesta: tolerar, de vez em quando, o silêncio de uma turma a tentar.
Quem escolhe os fins
O último ponto é o da inteligência artificial, que o livro também aborda. A pergunta de Marina vai ao fundo: a IA pode procurar os meios para atingir um objetivo, mas quem estabelece o objetivo? Os seres humanos inventam fins. Além disso, a IA funciona com sistemas de recompensa e pode chegar a resultados que nós próprios não percebemos. Marina avisa que já existe o risco de aparecerem demonstrações matemáticas que sabemos corretas, porque foram verificadas, mas cuja lógica nos escapa, e vê nisso um problema filosófico sério.
Para a escola, isto dá uma pergunta que cabe em qualquer tarefa com IA e dispensa conhecimentos técnicos: quem decidiu o objetivo, e quem fica a perceber o resultado? Um aluno habituado a fazê-la está bem encaminhado. É uma ideia vizinha da que explorámos quando perguntámos e se, no exame, fossem os alunos a avaliar a inteligência artificial.
O que a entrevista não nos dá
Convém ler isto como o que é, uma entrevista. Marina não apresenta dados nem estudos, e nós não lemos o livro, apenas a ficha editorial. O contexto é espanhol, e a referência ao ensino primário não coincide exatamente com os nossos ciclos.
Há ainda duas reservas. A primeira é que Marina considera insuficiente o modelo médico das adições, porque o verdadeiro problema é a perda de controlo, que é também um fenómeno social. É uma posição dele, e há quem sustente, com bons argumentos, que o enquadramento clínico é indispensável a quem precisa de tratamento. Nenhum professor deve concluir daqui que lhe cabe tratar o que é clínico: um aluno com sofrimento sério precisa de profissionais de saúde, e à escola cabe, antes de mais, perceber e encaminhar. A segunda é que a entrevista fala muito da pessoa e do mercado em geral e pouco do desenho concreto das plataformas e dos jogos, que é onde muita gente situa uma parte do problema. Uma escola que só trabalhe a fortaleza do aluno e nunca olhe para o que lhe é posto à frente fica com metade do trabalho feito.
Uma pergunta para levar
Na nossa escola, o que é que só se aprende com esforço, e em que momentos, por boa vontade, estamos a poupar os alunos a esse esforço? A pergunta não é nova, mas ganhou outro peso. Talvez valha a pena levá-la ao próximo conselho de turma ou ao grupo disciplinar, e ver o que sai.
Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) sujeito à revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.
Referências
Marina, J. A. (2026). La vacuna contra las adicciones: Inmunología mental para una especie vulnerable. Ariel. Consultado a 15 de outubro de 2026, em <https://www.planetadelibros.com/libro-la-vacuna-contra-las-adicciones/448704> (ficha editorial)
Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória (Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho). Direção-Geral da Educação. Consultado a 15 de outubro de 2026, em <https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf>
Palomo, A. G. (2026, 13 de outubro). José Antonio Marina: «La libertad no consiste en hacer lo que uno quiere, sino en poder no hacerlo». Ethic. Consultado a 15 de outubro de 2026, em <https://ethic.es/entrevista-jose-antonio-marina-vacuna-adicciones>
Para saber mais
Fora do blogue: o primeiro capítulo de La vacuna contra las adicciones, na página da editora; «La vacuna contra la insensatez», texto de Marina na Ethic; «¿Por qué no todas las opiniones son respetables?», também na Ethic; outra entrevista a Marina na Ethic, de 2024.
No blogue: Reaprender a perguntar: estamos a caminho da geração prompt?; Literacia em IA: cinco passos para a escola; Quando a inteligência artificial entra na sala de aula: responsabilidade, ética e pedagogia.

















