Saber escutar: a competência que a escola ainda não ensinou

E se o maior problema da democracia digital não fosse o excesso de discurso, mas a falta de silêncio?

Há uma cena que se repete todos os dias nas salas de aula, nas mesas de jantar e nas redes sociais: duas pessoas a falar ao mesmo tempo, cada uma à espera que a outra pare para poder continuar. Não é conversa. É dois monólogos encostados.

A tecnologia não inventou este problema, mas agravou-o de forma considerável. Vivemos mais conectados do que qualquer geração anterior e, paradoxalmente, cada vez menos dispostos — ou treinados — para ouvir o que o outro realmente diz.

Ouvir não é o mesmo que escutar

Existe uma diferença que vale a pena distinguir com cuidado. Ouvir é biológico: os sons chegam, o cérebro regista. Escutar é uma escolha: exige intenção, presença e, acima de tudo, disposição para deixar que o pensamento do outro nos afete.

O filósofo Roland Barthes colocou-o de forma precisa: quando pedimos para ser escutados, estamos a pedir que alguém reconheça que existimos. É uma necessidade tão básica quanto o alimento — e é sistematicamente ignorada no modelo de comunicação que as plataformas digitais incentivam.

Erich Fromm, décadas antes da internet, já alertava para este padrão: a maioria das pessoas ouve enquanto formula a resposta. Raramente chegamos a levar a sério o que o outro disse antes de decidir o que vamos dizer a seguir.

O que a arquitetura das redes faz ao nosso cérebro

As redes sociais não foram construídas para a compreensão. Foram desenhadas para a reação — rápida, emocional, partilhável. O algoritmo não premia quem ouve bem; premia quem responde depressa e com força.

O resultado é uma espécie de ginásio permanente do reflexo, onde o músculo da atenção vai atrofiando por falta de uso. A indignação rende mais do que a ponderação. O ataque a uma versão distorcida do argumento adversário — o chamado espantalho — é mais eficaz do que a tentativa honesta de compreender o que a pessoa realmente quis dizer.

Séneca, com dois mil anos de avanço, deixou um aviso que ressoa de forma estranha hoje: a “conversação de muitos” pode ser tóxica. Quando nos misturamos com multidões sem critério, saímos diferentes — e nem sempre melhores.

A isto soma-se um elemento novo: o volume crescente de conteúdos gerados por inteligência artificial, desenhados para capturar atenção, torna ainda mais difícil distinguir o autêntico do fabricado. A escuta genuína pressupõe uma voz genuína do outro lado — e essa garantia está cada vez menos assegurada.

Uma competência treinável, não um talento raro

Há uma boa notícia neste cenário: escutar não é um dom. É uma competência que se aprende e que se pratica.

E a sala de aula é, porventura, o melhor laboratório disponível para o fazer.

Alguns exercícios concretos que os professores podem introduzir:

Reformulação antes da réplica. Antes de criticar a posição de um colega, o aluno tem de ser capaz de a reformular com precisão — até que o próprio colega confirme que se sentiu compreendido. Só depois pode vir o desacordo. Este exercício simples desacelera a conversa e obriga à atenção real.

Análise sem juízo prévio. Pedir aos alunos que ouçam um podcast ou assistam a um vídeo com o único objetivo de explicar o argumento de forma imparcial — sem comentar se concordam ou discordam — treina o que os filósofos chamam de atenção ativa: a capacidade de receber antes de julgar.

O debate do ponto de vista contrário. Defender uma posição com a qual não se concorda é um dos exercícios mais desconfortáveis e mais úteis. Obriga a levar o argumento a sério, em vez de o caricaturar.

Estas práticas têm algo em comum: transformam o desacordo numa oportunidade de investigação coletiva, em vez de uma competição por quem tem razão.

A democracia que começa no ouvido

Os atenienses tinham dois conceitos que fundavam a sua democracia: a isegoria — o direito igual a tomar a palavra — e a parrésia — a coragem de dizer a verdade, mesmo quando ela é inconveniente. São pilares que continuamos a invocar.

Mas há um terceiro elemento que raramente mencionamos: a audiência disposta a receber o que é dito.

A liberdade de expressão é apenas metade do contrato democrático. A outra metade é a responsabilidade de escutar. Sem ela, o debate público transforma-se em teatro — todos falam para o vazio, ninguém muda de ideias, e o ruído aumenta sem que a compreensão avance.

A investigadora Sherry Turkle, que passou décadas a estudar a relação entre tecnologia e vida social, observa que é na presença plena — no encontro real, com o outro diante de nós — que experimentamos algo que as redes prometem mas raramente entregam: o prazer de sermos verdadeiramente compreendidos.

O que isto tem a ver com a escola, concretamente

Tudo.

A escola é um dos poucos espaços sociais onde ainda é possível praticar a conversa lenta. Onde o silêncio não precisa de ser preenchido de imediato. Onde o desacordo pode ser cultivado com método, em vez de explodir sem consequências.

Se os professores ensinarem escuta da mesma forma que ensinam gramática ou cálculo — com regularidade, com rigor, com feedback — estão a fazer algo que vai muito além da disciplina. Estão a formar cidadãos capazes de sustentar uma democracia.

E isso, hoje, é urgente.


A saúde da esfera pública depende menos da potência dos nossos microfones e mais da qualidade dos nossos ouvidos.


Referências

Han, B.-C. (2012). A sociedade do cansaço. Relógio d’Água.

Fromm, E. (1956). A arte de amar. Livros do Brasil.

Turkle, S. (2015). Reclaiming conversation: The power of talk in a digital age. Penguin Press.

Barthes, R. (1982). Le bruissement de la langue. Seuil.

A Aprendizagem cooperativa e os ODS: como transformar a sala de aula num laboratório de cidadania global

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Já pensou em como a forma como os alunos trabalham juntos pode ser tão importante quanto aquilo que aprendem? É precisamente esta ideia que está no coração do livro Cooperative Learning and the SDGs, uma obra de acesso livre publicada em 2023 pela PeacheyPublications, escrita por Lim, Reidak, Chau, Zhu, Guo, Brooks, Roe e Jacobs. O livro propõe uma aliança poderosa entre a aprendizagem cooperativa (AC) e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas, mostrando que a sala de aula pode — e deve — ser um espaço de construção de um mundo melhor.


O que é a aprendizagem cooperativa?

A aprendizagem cooperativa não é apenas trabalho de grupo. É um método de ensino estruturado, assente em princípios claros, que transforma a forma como os alunos interagem, pensam e aprendem. Ao contrário do trabalho de grupo tradicional — onde frequentemente um ou dois alunos fazem tudo —, a AC distribui responsabilidades, promove a participação de todos e desenvolve competências sociais essenciais.

O livro apresenta oito princípios fundamentais da aprendizagem cooperativa:

  • Interdependência positiva — cada membro sente que o que ajuda um ajuda todos
  • Responsabilidade individual — cada um deve fazer a sua parte justa
  • Igualdade de oportunidades de participação — todos têm voz e vez
  • Máximas interações entre pares — os alunos pensam, não apenas repetem
  • Autonomia do grupo — os alunos tentam resolver primeiro entre si (política TTT: Team Then Teacher)
  • Grupos heterogéneos — diversidade de competências, géneros e origens
  • Ensino de competências cooperativas — como elogiar com razões, discordar com respeito, parafrasear
  • Cooperação como valor — a interdependência que transcende o grupo e chega ao mundo


A ligação entre AC e os ODS

Os 17 ODS da ONU são uma espécie de mapa para melhorar a Terra, como os autores descrevem. A aprendizagem cooperativa é o veículo pedagógico que nos ajuda a percorrer esse mapa. As duas abordagens partilham o mesmo espírito: a convicção de que nenhum de nós consegue, sozinho, o que todos conseguimos juntos.

Esta ligação é ilustrada com uma citação de Martin Luther King Jr., de 1968, que os autores consideram profundamente atual:

“Somos todos apanhados numa rede inescapável de mutualidade. O que afeta um diretamente afeta todos indiretamente.”

É precisamente este sentido de responsabilidade partilhada que a AC cultiva nas salas de aula — e que os ODS exigem de toda a humanidade.

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Técnicas práticas para usar amanhã

Um dos grandes trunfos do livro é ser extremamente prático. Apresenta dezenas de técnicas com passos detalhados, exemplos e variações. Aqui ficam algumas das mais versáteis:

🔁 Think-Pair-Share

Uma das técnicas mais conhecidas e simples: os alunos pensam individualmente, discutem em par e depois partilham com a turma — mas partilham o que o colega disse, não o que pensaram. Isto incentiva a escuta ativa e a comunicação cuidadosa.

🧩 Jigsaw (Quebra-cabeças)

Cada aluno torna-se especialista numa parte de um tema e ensina os colegas. Por exemplo, numa aula sobre o ODS 10 (Redução das Desigualdades), diferentes alunos investigam áreas de emprego distintas e depois reúnem-se para partilhar o conhecimento. O resultado: todos ensinam e todos aprendem.

🗣️ Debate Cooperativo

Diferente do debate tradicional, aqui os grupos mudam de posição a meio — passando a defender o lado oposto. No final, cada aluno partilha a sua opinião real. Esta técnica desenvolve empatia, pensamento crítico e a competência de discordar com respeito.

🏃 7S

Uma técnica que combina movimento com aprendizagem: Ficar de pé (Stand), Afastar a cadeira (Slide), Esticar (Stretch), Beber água (Sip), Circular (Stir), Parar (Stop) e Falar (Speak). Os alunos formam pares aleatórios e discutem um tema. Ideal para quebrar a rotina sedentária da aula.

📖 SUMMER

Uma técnica de leitura cooperativa em pares: Set the Mood (criar ambiente), Understand (leitura silenciosa), Mention (resumir), Monitor (verificar o resumo), Elaborate (expandir com exemplos, ligações e reações) e Review (rever o texto todo). Investigação sugere que os alunos leem mais eficazmente após usarem o SUMMER.

⬛ K-W-L-S

Tabela cooperativa com quatro colunas: o que Sei (Know), o que Quero saber (Want to know), o que Aprendi (Learned) e o que Ainda quero saber (Still want to know). Uma variação possível é adicionar a coluna U (Use): como posso usar este conhecimento para contribuir para os ODS?


Atividades concretas ligadas aos ODS

O livro propõe atividades específicas para cada um dos 17 ODS. Alguns exemplos que podem inspirar o trabalho em bibliotecas escolares:

ODSTema da AtividadeTécnica AC
ODS 3 – Saúde e Bem-EstarImagem corporal e a música Beautiful de Christina AguileraCírculo de Oradores + Everyone Can Explain
ODS 10 – Redução das DesigualdadesDesafios de alunos com deficiência auditiva em MoçambiqueDebate Cooperativo
ODS 11 – Cidades SustentáveisProjetos comunitários sobre problemas locais (lixo, bullying, falta de habitação)Projetos de Grupo
ODS 12 – Consumo ResponsávelMapeamento do plástico no quotidianoForward Snowball
ODS 12 – Consumo ResponsávelDesperdício de água em casa7S
ODS 12 – Consumo ResponsávelVerificação de factos sobre veganismoInvestigação em Grupo


Como transformar qualquer aula numa aula cooperativa

Os autores deixam uma mensagem tranquilizadora: não é preciso reinventar tudo. A fórmula é simples — pega numa aula que já gostas e acrescenta uma técnica de AC.

Uma aula cooperativa não significa que os alunos estejam sempre em grupo. Tipicamente inclui, em qualquer ordem:

  • Momentos de exposição do professor (com ou sem suporte audiovisual)
  • Tempo de reflexão individual
  • Interações entre pares

O que muda é a intencionalidade: estruturar as interações para que todos participem, todos aprendam, todos sejam responsáveis.


Um livro para todos — e gratuito

Outro aspeto notável desta obra é o seu compromisso com a inclusão: está disponível gratuitamente online, escrito numa linguagem acessível, sem jargão excessivo, com exemplos aplicáveis a diferentes idades, contextos e países. Os próprios autores reconhecem que não conseguem criar exemplos para todos — e pedem ao leitor que desenvolva os seus.

Este é, aliás, o espírito do livro inteiro: a cooperação não acaba quando o livro termina. Começa aí.


Para reflexão final

Se há uma ideia que atravessa todas as páginas deste livro, é a de que aprender juntos é, em si mesmo, um ato político e ético. Quando ensinamos os alunos a cooperar — a ouvir, a partilhar, a discordar com respeito, a valorizar quem é diferente —, estamos a construir exatamente o tipo de cidadãos que os ODS precisam.

Como dizem os autores, citando Gandhi: “O mundo tem o suficiente para as necessidades de todos, mas não para a ganância de todos.” A aprendizagem cooperativa começa por reconhecer isso — e age em conformidade.


📚 O livro Cooperative Learning and the SDGs está disponível gratuitamente em linha. Foi publicado em 2023 pela PeacheyPublications Ltd (UK) e escrito por Lim, S., Reidak, J., Chau, M.H., Zhu, C., Guo, Q., Brooks, T.A., Roe, J. e Jacobs, G.M. Licença Creative Commons CC BY-NC-SA 4.0.

O currículo local: ponto de partida para novas aprendizagens? por Camões Gouveia | conferência

Um manifesto pedagógico sobre memória, cidade e aprendizagem significativa

Imagem gerada com Claude Sonnet 4.6 Thinking

Temos um problema com a forma como ensinamos o património. Tratamo-lo como se fosse uma coleção de pedras mortas — belas, intocáveis e perfeitamente irrelevantes para a vida dos nossos alunos. Este artigo é um convite a pensar de outra maneira.


O património não são os objetos

Assumimos frequentemente que o património é algo que existe por si só: um castelo, um documento, uma paisagem. Mas esta é uma ideia profundamente errada. O património é, acima de tudo, uma construção social e geográfica. Um edifício não tem valor patrimonial intrínseco — até que uma comunidade decida projetar nele a sua identidade e afetividade.​

Como sintetizou de forma lapidar Camões Gouveia: “O património não são os objetos. O património são as pessoas.”

Esta distinção não é apenas filosófica. Tem implicações práticas enormes para o modo como gerimos o território, como educamos os nossos alunos e como pensamos a cidade.


Dois paradigmas em confronto

A gestão do património tem oscilado entre duas visões radicalmente diferentes:​

A Visão TradicionalA Visão Dinâmica
Foco no edifício físico (conservação estática)Foco na utilidade social e cívica (ação)
Público-alvo: o turista e o consumidorPúblico-alvo: o cidadão e o aluno
Natureza fria, intocável, museológicaNatureza quente, afetiva, vivida
Objetivo: manter o objeto inalteradoObjetivo: dar boa vida aos cidadãos

O paradigma dinâmico não significa destruir o que existe. Significa reconhecer que a primeira regra da gestão patrimonial é garantir o bem-estar e a utilidade presentes. Uma fábrica suíça de 2.500 toneladas foi movida de sítio para dar lugar a uma linha férrea — e o património não foi destruído; adaptou-se para continuar a sustentar a vitalidade da cidade. Um edifício histórico da Universidade de Brown foi relocalizado em vez de ser congelado ou abandonado.​

O património move-se. Porque a vida se move.


O cidadão no centro, o turista na consequência

Existe uma tentação crescente de construir cidades para turistas. O resultado, como já vimos em tantos centros comerciais convertidos em hospitais por falta de suporte económico local, são monstros vazios.​

As cidades verdadeiramente magnéticas — Porto, Rio de Janeiro, Hanói — atraem o mundo precisamente porque têm um substrato real de vivência cidadã. O turismo só é sustentável quando consome a energia de uma cidade saudável, e não quando tenta substituí-la.​

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História e memória: uma distinção crítica

Há uma diferença fundamental que raramente ensinamos na escola: a diferença entre História e Memória.​

História é o estudo rigoroso dos factos. Exemplo: a queda de um homem pela janela no Terreiro do Paço em 1640. Uma análise fria, factual, distante.

Memória é a apropriação afetiva desse facto. O sangue nas pedras, a revolta popular, o silêncio guardado. É esta memória quente que transforma um evento histórico em património vivido.​

Sem a variável do afeto humano, restam apenas ruínas ou arquivos poeirentos.

Evento con.raízes. 2.ª edição. Dias 10 e 11 de maio de 2019, no Crato, Agrupamento de Escolas.


A equação da patrimonialização

O que transforma um objeto em património? Podemos descrever o processo através de três elementos:​

  1. O Objeto Físico — documentos, edifícios, paisagens, ou receitas (a base inerte)
  2. A Espessura Afetiva — a carga emocional e identitária projetada pelas pessoas (o motor da vida)
  3. O Tempo e a Ação — a validação contínua através do uso e da memória coletiva

= Património Vivo


Estudo de caso: a doçaria conventual de Arouca

Um exemplo notável de património imaterial é a doçaria conventual de Arouca. A sua verdadeira riqueza não reside na receita exata de ovos e açúcar. Reside na vivência imaterial que a criou.​

Sem relógios precisos, o tempo de bater os ovos era medido pelo número de orações — bater a massa durante seis Pai-Nossos. O nível de acidez dos ingredientes e a memória confinada ao convento criaram um ecossistema único, irrepetível fora daquele contexto.​

O património não é o doce final. É a interseção entre a técnica, a restrição e o espírito humano da época.


O Património que não se toca

O patrimónió não tem de ser tangível. Dois exemplos fascinantes ilustram a dimensão imaterial do património:​

  • O Colar de São Jorge — uma dança nascida em Cabo Verde e Guiné, outrora executada em cima de camiões, que sobrevive hoje na Cova da Moura, em Lisboa. Uma especialização identitária que se tornou património imaterial vivo.
  • A Falcoaria — uma prática partilhada por apenas 50 pessoas em Portugal, mas que representa uma arte e uma história transnacional profundamente enraizada na relação humana com a natureza.

Do local ao universal

O património ganha força quando a sua especificidade local se traduz numa linguagem universal. Dois exemplos portugueses são paradigmáticos:​

  • Fado nasceu nos bairros contraditórios e nas lides de Lisboa — e atingiu um impacto global como Património da UNESCO.
  • Vinho do Porto é inseparável da vinha do Douro — mas é consumido e celebrado da Califórnia ao Japão.

A raiz local não limita. Amplifica.


A cidade como currículo

Aqui chegamos ao coração pedagógico desta reflexão. A escola não pode continuar a funcionar como uma ilha isolada da cidade. O patrimónió local é uma ferramenta poderosa de simulação e emoção — e essas duas palavras deveriam estar no centro de qualquer projeto educativo.​

Estudar o património não é memorizar datas. É:

  • Desenvolver empatia histórica e conexão emocional com o passado
  • Simular cenários passados e futuros a partir de fontes reais
  • Exercitar o pensamento crítico e a análise de narrativas
  • Formar cidadãos ativos, não meros consumidores de cultura

Desconstruir o castelo inventado

A aprendizagem crítica exige que os alunos questionem o que lhes é apresentado como histórico. Um exemplo revelador: em Guimarães, elementos cruciais de certos monumentos — como janelas manuelinas em castelos famosos — foram adicionados em pleno século XX (1955) para criar uma estética romântica e artificial.​

Estudar o património é ensinar o aluno a ler nas entrelinhas da arquitetura e da propaganda política.


O som e o silêncio como artefactos

O património também se ouve. A fábrica tem o seu som orgânico de máquinas e trabalho humano — um som histórico irrepetível. A biblioteca tem o seu silêncio ensurdecedor e os passos nos corredores. A paisagem tem o vento, a chuva e a dimensão física de uma tempestade sobre o território.​

Ignorar estas dimensões sensoriais é empobrecer irremediavelmente a experiência patrimonial.


O fim do objeto, o princípio do sujeito

O modelo que resulta de tudo isto é simples de enunciar, mas exigente de praticar:​

Matéria sem Emoção é Ruína. Preservar edifícios sem considerar a vivência atual gera shopping malls vazios.
Emoção sem Espaço é Esquecimento. A memória precisa de âncoras locais para ganhar escala global.
Espaço e Emoção sem Prática é Estagnação. O sistema educativo deve unir o patrimónió à emoção do aluno, criando cidadãos críticos.

O ensino da história local e do currículo focado no patrimónió só faz sentido se for desenhado com um único foco: a transformação de quem o estuda.​

Não ensinamos os objetos. Ensinamos as pessoas através dos objetos.


Artigo elaborado a partir da apresentação “Living Heritage — A Desconstrução do Património”, no âmbito de TIC, Educação e WEB, com apoio do NotebookLM.

Porquê ler os clássicos? uma viagem ao encontro das vozes imortais

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Ler nas Fontes: ¿Por qué leer los clásicos? | Leer a los clásicos

A palavra “clássico” pode impor um certo receio reverencial. Vem-nos à mente livros de natureza colossal, obras que resistiram ao tempo e continuam a falar-nos através dos séculos. Mas o que torna verdadeiramente um livro clássico e porque devemos dedicar-lhes o nosso tempo?

O Que Define Um Clássico

Italo Calvino afirmou que “os clássicos são esses livros de los cuales se suele oír decir ‘Estoy releyendo…’ y nunca ‘Estoy leyendo…'”. Um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, que se presta a incansáveis revisões e interpretações . São obras que, como escreveu Borges, “las generaciones de los hombres, urgidas por diversas razones, leen con previo fervor y con una misteriosa lealtad”.

Os clássicos são os superviventes do naufrágio do olvido, representam aquilo que Schopenhauer chamava de “literatura permanente”. São obras que uma nação, um grupo de nações ou o longo tempo decidiram ler como se nas suas páginas tudo fosse deliberado, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem termo.

O Tempo Como Crítico Literário

O tempo é o crítico literário por excelência, que nos faz o grande favor de separar o trigo do joio, ditando sentença imparcial quanto à verdadeira qualidade ou importância de uma obra. O que permanece, o que sempre fica, são os clássicos: fonte inesgotável de qualidade, conhecimento e, acima de tudo, humanidade.

Mark Twain escreveu, com a sua característica acidez, que um clássico é um livro que toda a gente elogia mas ninguém lê. Contudo, esta perceção apenas revela um dos grandes equívocos sobre os clássicos: associá-los a livros mortos, empoeirados e aborrecidos, cujo habitat natural parece ser o intelectualismo mais rançoso.

A Universalidade e a Renovação Constante

O principal atributo dos clássicos é a sua marcada universalidade, uma universalidade que logrou perviver ao longo dos anos. Um verdadeiro clássico não é aquele que resiste ao devir do tempo pela sua descafeinada influência, mas sim aquele livro que continua a transmitir a sua mensagem com tanta ou mais força como o fez no dia da sua publicação.

Um clássico nunca se mantém quieto, nunca repousa na sua velha glória, mas renova-se continuamente conforme as exigências de cada época. Como afirmou Azorín, nos clássicos vemos a nós mesmos, e esse “nós” nunca muda . Ao reler o passado, sucede que, em muitas ocasiões, estamos na realidade a ler acerca do presente.

O Encontro Pessoal com os Clássicos

Ler os clássicos pode ser comparado a uma viagem ao Hades homérico, onde oferecemos sangue — ou melhor, o nosso tempo — aos espíritos para que ganhem voz e nos falem. Como escreveu Sainte-Beuve, o importante de um clássico é que “nos devuelve nuestros propios pensamientos con toda riqueza y madurez” e nos dá “esa amistad que no engaña”.

Existem clássicos universais (Homero, Platão, Virgílio, Dante, Shakespeare, Cervantes), clássicos nacionais (Goethe, Quevedo, Racine) e, fundamentalmente, os nossos clássicos pessoais. Cada leitor tem os seus clássicos, aqueles com os quais se encontra mais à vontade e com os quais dialoga mais profundamente .

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Ler por Amor, Não por Obrigação

Como advertiu Calvino: “se não salta a faísca, não há nada a fazer: não se leem os clássicos por dever ou por respeito, mas apenas por amor”. A escola deve fazer-nos conhecer certo número de clássicos, mas as escolhas que contam são as que ocorrem fora ou depois de qualquer escola.

Reconhecer que nem todos os clássicos têm de o ser para nós — admitir que há “clássicos” aborrecidos e medíocres — é o primeiro passo para alcançar a liberdade como leitores. Os clássicos devem libertar-nos, e não amordaçar-nos contra a nossa vontade.

A Relevância dos Clássicos no Século XXI

Não devemos temer os clássicos nem esperar que transcorram séculos para que uma obra se torne clássica. A literatura moderna está repleta de potenciais clássicos, desde O Grande Gatsby até Cem Anos de Solidão, desde a poesia de T. S. Eliot até aos contos de Raymond Carver.

Os clássicos não são úteis no sentido prático — não nos curarão dores nem resolverão problemas económicos. Mas ajudam-nos a proporcionar uns alicerces necessários para aprendermos a discernir o bom do meramente oportuno . São obras que nos tornam mais humanos e, por isso, mais livres como pessoas.

O Diálogo Entre Tradição e Modernidade

Escrever literatura é entrar numa tradição ressonante que vem de longe. Escrevemos a partir das nossas leituras, numa tradição vertebrada em torno dos clássicos. Mesmo a vanguarda conta com a tradição, seja para se opor a ela ou para a continuar.

A melhor poesia e prosa do nosso tempo caracteriza-se por essa polifonia, esse jogo intertextual que é constitutivo da modernidade literária. Para percebermos a profundidade e a ironia dos textos modernos, precisamos de ter leituras dos antigos.

Conclusão: A Nossa Biblioteca Ideal

A última e mais reveladora definição de Calvino situa a essência dos clássicos no plano subjetivo do próprio leitor: “tu clásico es aquel que no puede serte indiferente y que te sirve para definirte a ti mismo”. Um verdadeiro clássico é aquele que nos muda irremediavelmente, que se converte em parte integral do nosso ser desde a sua leitura em diante.

Não há nada mais desprezível que uma leitura forçada. Aos clássicos devemos chegar por nossa conta, sem pressa mas sem pausa. Devemos inventar a nossa biblioteca ideal dos nossos clássicos. Porque, no final, se um livro não nos diz nada, simplesmente não é um bom livro para nós.

Como escreveu Cervantes: “Em algum lugar de um livro há uma frase à nossa espera para dar um sentido à existência”. Os clássicos são as raízes de uma árvore de extensos ramos e infinitas folhas, que nos ensinam a observar em profundidade a beleza e a estranheza do mundo . Por isso, estejamos tranquilos: clássicos haverá sempre.

Dicionário de Valores: quando a educação se transforma em prática de vida | José Pacheco

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O “Dicionário de Valores”, de José Pacheco, não é apenas mais um livro sobre educação moral. Trata-se de um manifesto pedagógico que desafia educadores a transformarem valores escritos em projetos político-pedagógicos em atitudes concretas e vividas no quotidiano escolar. Publicado em 2012 pelas Edições SM, este dicionário alfabético reúne reflexões sobre 24 valores fundamentais, todos enraizados na experiência de quatro décadas à frente da Escola da Ponte, instituição que revolucionou a educação em Portugal.​

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Da Teoria à Praxis: O Propósito da Obra

Como explica Celso dos S. Vasconcellos no prefácio, o objetivo desta publicação não é ser um tratado académico sobre valores. A sua riqueza reside precisamente no facto de apresentar um conjunto limitado de valores, todos nascidos de uma vivência concreta no âmbito da Escola da Ponte. Pacheco deixa claro que valores não podem ser mero ornamento de documentos escolares: devem ser assumidos “integral e praxiologicamente pela equipa”.​

A obra surge de uma convicção fundamental: “um professor não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é”. Esta máxima perpassa todo o dicionário, reforçando que a transmissão de valores acontece pela convivência, pelo exemplo e pelo contágio emocional.​

A Matriz Axiológica da Escola da Ponte

Nos primórdios do projeto, há quase quarenta anos, a equipa da Escola da Ponte realizou um exercício revelador: cada professor escreveu num papel os dez valores que orientavam as suas vidas. Três valores surgiram em todos os papéis: liberdade, solidariedade e responsabilidade. Estes tornaram-se os pilares da matriz axiológica que guiou todas as transformações pedagógicas subsequentes.

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Os 24 Valores: De A a Z

O dicionário organiza-se alfabeticamente, abordando valores como:

  • Autonomia: definida não como isolamento, mas como capacidade de ser autónomo sendo simultaneamente dependente, na relação EU-TU proposta por Martin Buber​
  • Beleza: valor raramente contemplado nos projetos político-pedagógicos, embora seja essencial, pois “ou a Educação é um ato estético ou não é Educação”​
  • Coerência: a fidelidade entre teoria e prática, ilustrada pela metáfora do barco com dois remos – “acreditar” e “agir” – que só avança quando ambos remam juntos​
  • Indignação: apresentada como motor de transformação, pois “o maior obstáculo fui eu, enquanto não me indignei, enquanto não agi para assegurar o saber e a felicidade aos meus alunos”​
  • Solidariedade: exemplificada através de histórias comoventes, como a do aluno André que acumulou faltas disciplinares por sair da sala sempre que um colega era injustamente expulso​.

Narrativas que Educam

Uma das características mais marcantes do dicionário é o uso de narrativas reais. Pacheco recorre constantemente a episódios vividos na Escola da Ponte ou em escolas brasileiras, transformando conceitos abstratos em situações concretas. A história do Nelson, que chegou tarde à escola porque cuidara dos irmãos após ratos roerem a orelha do mais pequeno, mas que mesmo assim foi porque “pelo caminho, sinto uma coisa aqui dentro… parece mesmo… alegria”, ilustra como uma escola pode ser um espaço de bem-estar mesmo em contextos de vulnerabilidade social.​

Crítica Social e Educacional

O autor não poupa críticas à sociedade brasileira e às práticas escolares tradicionais. Denuncia a “profunda crise moral” do país, a inversão de valores que confunde honestidade com desonestidade, e o facto de muitos projetos político-pedagógicos serem “ricos em diagnósticos e planos de ação, mas omissos ou muito frágeis na componente utópica, axiológica ou valorativa”.​

Pacheco questiona: se queremos formar alunos autónomos, como pode o professor educar em autonomia quando não é ele próprio autónomo, estando sozinho na sala de aula, submetido à obediência hierárquica? Se a autonomia se exerce em relação ao outro, a solidão do professor tradicional impossibilita essa aprendizagem.​

Esperança e Transformação

Apesar das críticas contundentes, o dicionário respira esperança. Rubem Alves, no prefácio, distingue o educador otimista do educador esperançoso: “o otimismo é da natureza do tempo e a esperança é da natureza da eternidade”. É esta esperança que move Pacheco a acreditar que “a velha escola está prestes a parir uma nova escola”.​

A obra apresenta dois contrapontos finais: a “Escola X” (fraudulenta, onde valores escritos contradizem práticas autoritárias) e a “Escola Z” (que acolhe alunos de contextos vulneráveis e opera “o resgate daquilo que torna os seres humanos mais humanos”). Esta oposição sintetiza o x da questão: valores ou se vivem ou permanecem letra morta.​

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Relevância para Educadores

Como sublinha Maria do Pilar Lacerda no posfácio, esta publicação é “um mapa de navegação, um roteiro de reflexão” para ser utilizado em todas as disciplinas e momentos da atividade escolar. O desafio lançado é claro: que todos os educadores tenham tempo para repensar as suas práticas, transformando a escola num “grande laboratório de vivências mais bonitas, belas e justas”.​

O “Dicionário de Valores” de José Pacheco é, em última análise, um convite à coerência. Convida-nos a atravessar a ponte entre o discurso e a ação, lembrando-nos que, como escreveu Julio Cortázar, “uma ponte só é verdadeiramente uma ponte quando alguém a atravessa”.