Afonso de Albuquerque e o Estreito de Ormuz

O Portugal de Quinhentos: Um País Pequeno com Ambições Imensas

Para entender o que Afonso de Albuquerque fez em Ormuz, é preciso primeiro perceber o que era Portugal no início do século XVI. Era um país pequeno. Muito pequeno. Estima-se que no começo de Quinhentos Portugal não ultrapassava um milhão de almas — numa Europa que já então tinha países com densidades muito superiores, como a França, a Alemanha ou a Itália, onde a densidade populacional chegava a ser o dobro da portuguesa. Lisboa, a capital, contava entre cinquenta e sessenta e cinco mil habitantes no levantamento de 1527-1532, e cresceria para mais de 120 mil até ao final do século, tornando-se uma das maiores cidades da Europa ocidental.

Retrato histórico de Afonso de Albuquerque com trajes tradicionais portugueses

Era um país marcadamente rural, dependente da terra, com a esmagadora maioria da população ligada à agricultura. O aumento demográfico foi lento — feito de avanços e retrocessos — e as guerras, as viagens e as epidemias iam sempre comendo uma fatia daqueles homens que faziam falta em casa. A falta de gente seria sempre, aliás, a maior fraqueza de Portugal quando chegasse o momento de guardar um vasto império espalhado pelos quatro cantos do mundo.

E no entanto, foi precisamente deste país pequeno e relativamente pouco populoso que saíram as caravelas, os galeões, os fidalgos e os soldados que iriam mudar para sempre a ordem comercial do planeta. A razão é simples, mas poderosa: o mar. Portugal tinha o mar no sangue. Tinha a posição geográfica certa. Tinha o engenho náutico que nenhum outro reino europeu possuía na mesma medida. E tinha, acima de tudo, reis com visão — especialmente D. Manuel I, que governou de 1495 a 1521 e que ficou para a história com o epíteto de “o Venturoso”, precisamente por ter reinado no período mais glorioso da expansão portuguesa.

Durante o reinado de D. Manuel I, as receitas do trato ultramarino cresceram de forma extraordinária. As especiarias eram a face mais visível desse fenómeno: no primeiro decénio do século XVI, o monopólio das especiarias rendia um milhão de cruzados; em dez anos, esse montante triplicou, representando um lucro de cerca de noventa por cento para a Coroa portuguesa. Era um negócio que transformou Lisboa numa das cidades mais ricas e cosmopolitas do mundo, e que fez de Portugal, por algumas décadas, a potência comercial dominante entre a Europa e o Oriente.

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O Mundo Antes de Portugal: A Velha Rota das Especiarias

Para compreender a importância de Ormuz, é preciso recuar ainda mais no tempo e perceber o que eram as especiarias para a Europa medieval e renascentista.

A pimenta, o cravo, a canela, a noz-moscada, o gengibre, o cardamomo — estas especiarias não eram apenas condimentos. Eram medicamentos, conservantes de alimentos, perfumes, símbolos de status e moeda de troca. Um saco de pimenta valia uma fortuna. Os nobres europeus avaliavam riqueza em especiarias. E toda essa riqueza tinha que vir de muito longe — da Índia, das Molucas, da China — percorrendo um caminho longo e perigoso.

Durante séculos, esse caminho foi controlado por intermediários muçulmanos. As especiarias chegavam por mar ao Mar Vermelho ou ao Golfo Pérsico, e a partir daí por terra e mar até Alexandria ou Beirute, onde os mercadores venezianos as compravam e revendiam à Europa a preços altíssimos. Veneza construiu o seu esplendor sobre este comércio. Cada vez que uma especiaria mudava de mãos ao longo desta cadeia, o seu preço subia — e era o consumidor europeu, no fim da cadeia, quem pagava tudo.

Quando os turcos otomanos tomaram Constantinopla em 1453, as rotas terrestres ficaram ainda mais difíceis e caras. O incentivo para encontrar uma rota alternativa tornou-se urgente. E foi exatamente isso que Portugal procurou — uma rota direta para a Índia, pelo mar, contornando a África. Quando Vasco da Gama chegou à Índia em 1498, toda a estrutura do comércio mundial estava prestes a mudar.

Mas chegar à Índia era apenas metade da batalha. Para dominar o comércio, era preciso controlar as rotas. E as rotas tinham pontos de estrangulamento — estreitos e portos onde toda a navegação era forçada a passar. Quem controlasse esses pontos, controlava o comércio. E ninguém percebeu isso com maior clareza do que Afonso de Albuquerque.


O Homem: Quem Era Afonso de Albuquerque?

Afonso de Albuquerque nasceu em Alhandra, em 1453. Filho de Gonçalo de Albuquerque, terceiro senhor de Vila Verde dos Francos, e de D. Leonor de Meneses, filha do Conde de Atouguia, era um fidalgo com sangue nobre nas veias — pelo lado do pai, descendia por via natural da família real portuguesa. Cresceu na corte de D. Afonso V, onde estudou matemática e latim, e travou amizade com o príncipe D. João, futuro D. João II.

Era um homem de estatura média, rosto comprido e corado, nariz um pouco proeminente. Usava sempre a barba muito comprida, o que lhe conferia uma presença imponente que impressionava tanto amigos como inimigos. Moralmente, descrevem-no como dotado de um inquebrantável sentido de justiça, bondoso para com os mais fracos, mas implacável com a desonestidade e a traição.

A sua carreira militar começou em África. Acompanhou D. Afonso V na conquista de Tânger, Anafé e Arzila em 1471, onde passou vários anos como oficial de guarnição. Em 1476 combateu ao lado de D. João II na batalha de Toro, contra os castelhanos. Serviu dez anos no norte de África, onde ganhou experiência militar duramente conquistada — a experiência do campo de batalha real, com os seus imprevistos, as suas privações, as suas mortes.

Quando D. João II ascendeu ao trono, Albuquerque regressou a Portugal e foi nomeado estribeiro-mor do rei. Era um homem de confiança do monarca. Mas quando D. João II morreu e D. Manuel I subiu ao trono, a relação ficou mais fria — o novo rei olhava com alguma reticência para aquele fidalgo mais velho, demasiado próximo do seu antecessor e dezassete anos mais velho do que ele.

Ainda assim, foi D. Manuel I quem o enviou para a Índia pela primeira vez, em 1503, com o primo Francisco de Albuquerque. Nessa viagem, Afonso de Albuquerque ganhou a experiência do Índico, combateu o Samorim de Calecute e garantiu a segurança do rajá de Cochim. Ao regressar a Portugal em 1504, já levava na cabeça um plano — um plano imperial para o Oriente que expôs ao rei com toda a convicção de quem sabe exactamente o que quer fazer.


O Grande Plano: Três Chaves para um Oceano

O plano de Afonso de Albuquerque era ao mesmo tempo simples de explicar e extraordinariamente ambicioso de executar. Para dominar o comércio do Índico — e consequentemente o de toda a Ásia — era necessário controlar os pontos de passagem obrigatórios que ligavam aquele oceano aos mares fechados onde o comércio circulava.

Havia três desses pontos:

  • Áden — a cidade que guardava a entrada do Mar Vermelho, e por onde passava o comércio que subia para Alexandria e depois para a Europa pela rota muçulmana tradicional
  • Ormuz — a ilha que dominava a entrada do Golfo Pérsico, porta do comércio com a Pérsia e a Mesopotâmia
  • Malaca — o estreito que controlava a passagem entre o Oceano Índico e o Mar da China, e por onde passava todo o comércio com as Molucas, a China e o Japão

Albuquerque chamava a estes três pontos as “chaves” do sistema imperial. Se Portugal os controlasse, poderia cobrar portagem a toda a navegação, desviar o comércio para a Rota do Cabo e sufocar economicamente os seus rivais muçulmanos — os mamelucos egípcios, os otomanos, os sultões indianos. Goa, conquistada em 1510, seria a capital — o quartel-general a partir do qual tudo seria administrado.

O plano era brilhante. E Albuquerque perseguiu-o com uma tenacidade que beira o obsessivo. Conquistou Goa em 1510. Conquistou Malaca em 1511. Tentou conquistar Áden repetidamente e nunca conseguiu — essa seria a sua maior derrota estratégica. E quanto a Ormuz, a história é mais complexa, mais dramática e mais reveladora do carácter deste homem do que qualquer outra das suas campanhas.


Ormuz: A Pedra Preciosa do Mundo

Mapa do século XVI da fortaleza e costa de Ormuz no Estreito de Ormuz.


Antes de narrar a conquista, é preciso perceber o que era Ormuz — porque a cidade era, em si mesma, uma das maravilhas do mundo conhecido.

Ormuz não estava na costa. Estava numa ilha — a ilha de Gerum (ou Djarum) — uma pequena massa de terra árida e seca na entrada do Golfo Pérsico, a cerca de cinco milhas da costa iraniana. A ilha era um deserto. Não tinha vegetação digna de menção, nem água doce própria, nem alimentos. O que a ilha tinha era a posição certa.

O cronista português João de Barros escreveu sobre ela com um espanto que ainda hoje se sente através das palavras: “dizem os moradores della, que o mundo he hum annel, e Ormuz huma pedra preciosa engastada nelle”. Esta frase — “o mundo é um anel e Ormuz a sua pedra preciosa” — seria usada pelo próprio Albuquerque, mostrando como a metáfora captava a essência daquela cidade extraordinária.

O que tornava Ormuz tão valiosa não era a terra, mas o que passava por ela. Comerciantes da Insulíndia, da China, da Índia, da Pérsia, da Arábia e da Europa encontravam-se ali e faziam circular os seus produtos. As mercadorias que passavam por Ormuz incluíam especiarias de toda a Ásia, sedas e veludos da Pérsia e da China, marfim africano, porcelanas chinesas, pedras preciosas e pérolas do Golfo Pérsico. Mas havia dois produtos que definiram o carácter económico de Ormuz: os cavalos árabes, exportados para os sultanatos indianos que os compravam a peso de ouro para as suas cavalarias, e as pérolas pescadas nas águas do Golfo.

As moedas cunhadas em Ormuz circulavam em todos os portos desde a Índia até à China. A cidade era, apesar da sua aridez, “a mais abastada [de mantimentos] que outra alguma que se saiba em o mundo”, nas palavras do Cavaleiro de Cristo António Tenreiro — o que era um paradoxo perfeito: nada crescia ali, mas tudo estava disponível, porque toda a riqueza do Oriente afluía àquela ilha minúscula.

Controlar Ormuz era controlar a torneira do comércio entre a Índia e a Pérsia. Quem mandasse em Ormuz cobrava impostos sobre cada navio que entrava ou saía do Golfo Pérsico. Era uma fonte de riqueza quase inesgotável — e Albuquerque sabia-o.


A Primeira Expedição: 1507 — A Audácia de um Homem com Seis Navios

Vista de satélite do Estreito de Ormuz entre o Irão e a Península Arábica.

Em Abril de 1506, Afonso de Albuquerque partiu de Lisboa como Capitão-mor do Mar da Arábia, incorporado numa armada de dezasseis navios comandada por Tristão da Cunha. As ordens eram claras: tomar a ilha de Socotorá, na entrada do Mar Vermelho, e usar essa posição para controlar a navegação muçulmana. Ormuz não constava explicitamente das ordens — mas Albuquerque tinha os seus próprios planos.

Após meses de navegação e combates ao longo da costa africana oriental, os dois capitães tomaram Socotorá em Agosto de 1507. Mas a ilha revelou-se uma decepção: árida, doentia, sem recursos suficientes para sustentar uma guarnição. Foi então que os dois homens se separaram: Tristão da Cunha seguiu para a Índia, e Afonso de Albuquerque rumou, com seis navios e quinhentos homens, em direcção a Ormuz.

Era uma força ridiculamente pequena para atacar um dos maiores portos comerciais do Oriente. Mas Albuquerque não era um homem que esperasse ter tudo o que precisava antes de agir. Ao longo da costa árabe, foi deixando o seu cartão de visita: as cidades de Curiate e Corfacão foram conquistadas e saqueadas; Kalhat e Sohar (Soar) submeteram-se pacificamente. Mascate foi atacada e rendeu-se. A reputação de Albuquerque precedia-o como um trovão antes da tempestade.

A chegada a Ormuz: 25 de Setembro de 1507

A 25 de Setembro de 1507, Afonso de Albuquerque ancorou a sua pequena frota em frente à cidade de Ormuz. Do outro lado, aguardava-o uma força de quinze a vinte mil homens — o exército do rei local, pronto para defender a cidade mais rica do Oriente. A desproporção era brutal: seis navios e quinhentos homens contra um exército de dezenas de milhares.

Albuquerque não se intimidou. Enviou mensageiros a exigir ao soberano de Ormuz que se tornasse vassalo do rei de Portugal, e que pagasse tributo anual. A resposta foi evasiva — o rei tentava ganhar tempo. Era uma táctica conhecida: enquanto se negociava, preparavam-se as defesas.

Albuquerque esperou três dias. Depois, mandou disparar a artilharia portuguesa.

O efeito foi devastador. As frotas de guerra otomanas e árabes eram formidáveis em muitas dimensões, mas a artilharia naval portuguesa da época era superior à de praticamente qualquer potência do Índico. Em poucos dias de combate, a frota de Ormuz foi destroçada. O soberano, vendo as suas forças destroçadas, pediu trégua e ofereceu a cidade.

Estava feito. Albuquerque tinha conquistado Ormuz com uma força que não deveria ter bastado para isso. Fez o rei local aceitar a condição de vassalo do rei de Portugal, com o pagamento de um tributo anual de quinze mil xerafins. E imediatamente mandou começar a construção de um forte — o Forte de Nossa Senhora da Vitória — cuja primeira pedra foi lançada com pompa a 24 de Outubro de 1507.


O Motim dos Capitães: A Primeira Grande Crise

Mas a glória durou pouco. Enquanto as obras do forte avançavam, o descontentamento crescia entre os capitães e fidalgos da frota. Os trabalhos de construção eram duros. O clima era infernal — Ormuz era uma ilha torrada pelo sol, sem sombra, sem água fresca, sem o conforto que aqueles homens esperavam da vida militar. E havia uma questão de princípio: a missão original era outra. Tinham vindo para controlar o Mar Vermelho, não para construir fortalezas no Golfo Pérsico.

A contestação aumentou. Um capitão depois do outro começou a questionar as ordens de Albuquerque. E quando as palavras não chegaram, os navios começaram a partir — desertores que seguiram para a Índia, levando homens e recursos que faziam falta. Foi o chamado “Motim dos Capitães” — um dos momentos mais dramáticos da história da expansão portuguesa.

Os capitães desertores, uma vez na Índia, aliaram-se ao vice-rei D. Francisco de Almeida — que tinha as suas próprias razões para não gostar de Albuquerque — e com o apoio do próprio rei de Ormuz, que via ali uma oportunidade, desencadearam combates contra as forças que Albuquerque tinha deixado. Em Janeiro de 1508, a situação tornara-se insustentável. Albuquerque, reduzido a dois navios, sem mantimentos, sem homens suficientes, foi forçado a abandonar Ormuz e o forte que mal tinha começado.

Foi uma retirada amarga. Não por cobardia — Albuquerque nunca foi covarde — mas por impossibilidade material. E ao saber da sua deserção, o rei de Ormuz retomou o controlo da fortaleza inacabada e mandou prosseguir as obras.


O Intervalo: Anos de Conflito e Glória

Os anos que se seguiram foram tumultuosos. Albuquerque chegou à Índia em Dezembro de 1508 com uma carta régia que o nomeava Governador. D. Francisco de Almeida recusou entregar o cargo imediatamente, alegando que queria primeiro vingar a morte do filho em Chaúl. Albuquerque, num acto de disciplina e contenção que diz muito do seu carácter, aceitou esperar — mas foi praticamente aprisionado durante meses, ostracizado pelos partidários de Almeida.

Só em Novembro de 1509 assumiu finalmente o governo do Estado da Índia. E então agiu com uma energia formidável. Em 1510, conquistou Goa — a cidade que seria a capital do império português no Oriente durante 451 anos. Em 1511, conquistou Malaca — o maior e mais rico porto do extremo Oriente, a porta para a China e as Molucas. Em 1513, foi o primeiro capitão europeu a navegar no Mar Vermelho. Tentou Áden e falhou — mas a sua presença nesses mares criou um terror tal que os mercadores muçulmanos começaram a sentir o peso da nova ordem.​

E durante todo este tempo, Ormuz ficou por fazer. Não porque Albuquerque se tivesse esquecido — os seus textos e cartas mostram que a cidade estava sempre na sua cabeça — mas porque as circunstâncias não se apresentaram favoráveis ao regresso.


O Regresso: 1515 — A Conquista Definitiva

Em Fevereiro de 1515, Afonso de Albuquerque partiu de Goa com uma força muito superior à de 1507: 27 navios, 1500 portugueses e 700 guerreiros malabares. Tinha agora os meios que naquela primeira expedição lhe tinham faltado. E tinha, também, oito anos a mais de experiência e uma autoridade que ninguém ousava contestar abertamente.

A viagem ao longo da costa árabe repetiu o padrão de 1507: as cidades costeiras submeteram-se uma a uma. Em 1 de Abril de 1515, as forças portuguesas entraram em Ormuz.

Desta vez não houve batalha de três dias. O rei Turan Sha, observando a força da armada portuguesa e sem ilusões sobre o que aconteceria se resistisse, aceitou a vassalagem ao rei de Portugal. Os portugueses exigiram o pagamento de todas as páreas em atraso desde 1508 e retomaram o controlo do forte inacabado, que agora seria completado e rebaptizado Forte de Nossa Senhora da Conceição.

A tomada da posição foi celebrada com o levantamento de um pelourinho na praça central da cidade — símbolo da soberania portuguesa. Em 1516, já existia um hospital funcionando. A Igreja e o Hospital da Misericórdia foram estabelecidos. Os mercadores de todas as nações continuaram a comerciar, mas agora pagavam impostos à Coroa portuguesa.

Albuquerque escreveu ao rei D. Manuel com a habitual mistura de orgulho profissional e frustração humana: a conquista estava feita, mas o rei já tinha nomeado o seu substituto — Lopo Soares de Albergaria — sem sequer reconduzir o homem que dera a Portugal o domínio do Golfo Pérsico. As cartas que escreveu nos últimos meses da sua vida revelam um homem que sabia que tinha feito algo grandioso, e que sentia a ingratidão como uma ferida aberta.


A Morte: 16 de Dezembro de 1515

A saúde de Albuquerque deteriorou-se rapidamente durante o Verão de 1515. Em Setembro, adoeceu gravemente em Ormuz. Mandou partir de regresso para Goa, mas o barco que o transportava era também portador de uma notícia que o destroçou mais do que qualquer doença: soube que o seu substituto, Lopo Soares, já estava a caminho. D. Manuel I, influenciado pelas cartas dos seus inimigos — das queixas de capitães que o acusavam de tirania e desobediência — decidira afastá-lo.

Afonso de Albuquerque morreu a 16 de Dezembro de 1515, a bordo do seu navio, à vista de Goa. Morreu amargurado, sentindo-se traído pelo rei a quem dera décadas de serviço e as conquistas mais importantes que Portugal alguma vez fez no Oriente.

Quando a notícia chegou à cidade, as testemunhas descrevem o que aconteceu com uma força que atravessa os séculos: “um grande lamento se ergueu na cidade”, e muitos saíram às ruas para ver o seu corpo ser transportado pelos seus principais capitães numa procissão de tochas em meio à multidão.

O homem que Camões chamou de “o Terrível” — e que outros conheceram como “o Grande”, “o César do Oriente”, “o Leão dos Mares” — tinha sessenta e dois anos. Tinha governado o Estado da Índia por apenas seis anos. E em seis anos, mudou o mundo.


A Herança de Ormuz: O que Portugal Ganhou

Ruínas da fortaleza portuguesa na ilha de Ormuz com vista para o mar.


A conquista de Ormuz não foi apenas um feito militar. Foi a peça final de uma arquitectura imperial que transformou Portugal na potência dominante do comércio entre a Europa e a Ásia.

Com Goa, Malaca e Ormuz nas suas mãos, Portugal controlava as três grandes entradas do Oceano Índico:

  • Pelo Golfo Pérsico, toda a navegação era agora tributária da Coroa portuguesa
  • Pelo Estreito de Malaca, o comércio com a China e as Molucas passava pelas mãos lusas
  • De Goa, o Estado da Índia podia projectar poder naval em qualquer direcção

O efeito sobre os rivais foi imediato. Veneza, que durante séculos tinha sido o intermediário indispensável entre o comércio do Oriente e a Europa, entrou em crise profunda. Os mercadores venezianos viam as especiarias chegar a Lisboa a preços com que não podiam competir — a rota do Cabo era mais longa, mas mais segura e, sobretudo, isenta dos múltiplos intermediários que encareciam a rota do Mediterrâneo.

Para o reino de Portugal, Ormuz era uma fonte de receitas impressionante. O fort cobrava impostos sobre toda a navegação que entrava e saía do Golfo Pérsico. Os cavalos árabes — cujo comércio era um dos mais lucrativos da região — passavam por Ormuz em direcção à Índia e pagavam ao rei de Portugal. As pérolas, as sedas, as especiarias persas — tudo tributava. A cidade, nas décadas seguintes, tornou-se cada vez mais integrada na cultura portuguesa: o rei de Ormuz Salgur-Shâh II escreveu a D. João III a dizer que o cargo de intérprete era dispensável porque “aqui já toda a gente sabe falar português”.

A presença portuguesa em Ormuz durou mais de um século. Nesse tempo, foram construídos uma fortaleza, igrejas, conventos, um hospital, uma alfândega, um pelourinho. A cidade cresceu e prosperou sob administração portuguesa, mantendo o seu papel de entreposto comercial do Oriente.


As Disputas com D. Manuel I: O Génio e a Ingratidão

A relação entre Afonso de Albuquerque e o seu rei merece uma reflexão especial, porque é uma das histórias mais humanas — e mais trágicas — de toda a expansão portuguesa.

D. Manuel I era um rei inteligente, mas também desconfiado e susceptível à intriga de corte. Albuquerque estava a seis mil quilómetros de Lisboa, tomando decisões que o rei muitas vezes não entendia ou não aprovava. As distâncias eram imensas — uma viagem de ida e volta ao Índico demorava cerca de dezoito meses. As decisões tinham que ser tomadas no terreno, sem esperar por ordens de Lisboa. Isso criava conflitos inevitáveis.

Os inimigos de Albuquerque na corte — e havia muitos, porque os homens bem-sucedidos acumulam inveja na proporção das suas conquistas — alimentavam constantemente as desconfianças do rei com cartas acusatórias. Albuquerque era “demasiado independente”. Era “cruel”. Era “tirano”. Tomava decisões sem autorização real. Construía fortalezas onde o rei não mandara construir.

Ironicamente, era exactamente isso que tornava Albuquerque genial. A rigidez de uma cadeia de comando de dezoito meses de latência teria sido fatal para o império. Albuquerque percebeu que, no Índico, quem hesitasse perdia. E nunca hesitou.

Mas o rei não chegou a perceber isso completamente em vida. Só depois da morte de Albuquerque — quando a eficácia das suas conquistas ficou evidente e as dificuldades de as manter sem ele surgiram — é que D. Manuel I terá compreendido o que perdera. A estátua de Albuquerque que hoje se ergue em Belém, em Lisboa, é um reconhecimento tardio — mas sincero — de uma dívida que nunca foi paga em vida.


A Queda de Ormuz: 1622

O domínio português sobre Ormuz durou mais de cem anos — precisamente o período de domínio que Albuquerque tornara possível. Mas nada dura para sempre.

Em 22 de Abril de 1622, as tropas portuguesas da praça de Ormuz rebelaram-se e forçaram os seus oficiais a entregar a fortaleza às forças aliadas dos Persas e da Companhia das Índias Orientais da Inglaterra. O paradoxo irónico desta queda não passou despercebido à época: os ingleses eram aliados tradicionais de Portugal — mas o comércio, como sempre, prevaleceu sobre a amizade.

O rei persa Shah Abbas I tinha aproveitado habilmente a concorrência entre as potências europeias para se livrar dos portugueses. Ofereceu aos ingleses condições comerciais vantajosas em troca da sua participação militar. Os ingleses aceitaram. E assim caiu Ormuz.

Dentro de trinta anos, de toda aquela praça que fora tão importante para o império ultramarino de Portugal, “só restavam algumas ruínas”. Hoje, os visitantes que chegam à ilha de Hormuz podem ainda ver os restos do Forte de Nossa Senhora da Conceição — paredes vermelhas de pedra calcária erguidas a mando de Albuquerque há mais de quinhentos anos, a olhar para o mesmo estreito que ele um dia dominou.


O Legado: Por que Ormuz Ainda Importa

A visão estratégica de Afonso de Albuquerque sobre Ormuz provou-se de tal modo certeira que o estreito nunca deixou de ser um dos pontos mais cobiçados do planeta. No século XXI, pelo Estreito de Ormuz passa cerca de vinte por cento do petróleo mundial — cerca de vinte milhões de barris por dia. O que mudou foram as mercadorias — das especiarias e cavalos árabes para o petróleo — mas a lógica geopolítica é exactamente a mesma que Albuquerque percebeu em 1507.

Quando o Irão ameaça fechar o Estreito de Ormuz, os mercados mundiais tremem. As superpotências mantêm frotas de guerra naquelas águas. Negociações diplomáticas de alto nível giram em torno desse corredor de água azul entre a costa iraniana e a costa árabe. Albuquerque era mesmo vidente — não porque possuísse poderes sobrenaturais, mas porque percebeu, com uma clareza extraordinária para o seu tempo, que a geografia define o poder.


Ormuz na Literatura: Camões e a Imortalidade do Feito

Luís de Camões, que conheceu pessoalmente o Índico português e que escreveu Os Lusíadas com o saber de quem esteve lá, celebrou Albuquerque com o epíteto de “o Terrível”. No canto X do poema épico, a conquista de Malaca é referida em versos que ficaram para a história — mas todo o Canto X é uma enumeração das glórias portuguesas no Oriente, de Albuquerque às figuras que lhe sucederam.

A frase sobre Ormuz — “o mundo é um anel e Ormuz a sua pedra preciosa” — entrou para o imaginário português como uma das descrições mais felizes da importância daquele lugar. Foi citada pelos cronistas, repetida pelos historiadores e sobreviveu intacta através dos séculos porque capta, numa metáfora perfeita, aquilo que Ormuz era: o centro de tudo, a jóia da coroa do comércio oriental.


Conclusão: O Que Um Homem Com Seis Navios Conseguiu Mudar

Afonso de Albuquerque chegou a Ormuz pela primeira vez com seis navios e quinhentos homens — uma força que qualquer general prudente teria considerado insuficiente para atacar uma das cidades mais ricas e mais protegidas do Oriente. Chegou com uma reputação que cultivara ao longo de anos de combate na costa africana. Chegou com uma visão clara do que queria e do que aquela conquista significaria para Portugal.

Em poucos dias, forçou o soberano de uma cidade de dezenas de milhares de habitantes a aceitar a vassalagem ao rei de um país de um milhão de almas localizado a seis mil quilómetros de distância. É uma das histórias mais improváveis da história militar mundial.

Portugal, com aquela conquista — repetida e consolidada em 1515 — tornou-se o árbitro do comércio entre o Oriente e o Ocidente. O monopólio das especiarias foi o motor económico que financiou o esplendor manuelino, as igrejas e os mosteiros que ainda hoje adornam o país, e o prestígio de uma pequena nação que, por algumas décadas gloriosas, foi verdadeiramente a maior potência marítima e comercial do mundo.

Afonso de Albuquerque morreu sentindo-se traído e esquecido. Mas o que construiu — com poucos recursos, contra imensas probabilidades, numa época em que as comunicações demoravam meses e cada batalha poderia ser a última — durou cem anos depois de ele próprio se ter ido embora. E a sua visão do mundo durou muito, muito mais.

A pedra preciosa do anel mundial continua lá, no Golfo Pérsico. As ruínas do seu forte ainda olham para o mar. E o nome de Ormuz ainda faz o mundo parar e prestar atenção — exactamente como Albuquerque sabia que aconteceria.


Fontes consultadas incluem a Enciclopédia Virtual da Expansão Portuguesa (Universidade Nova de Lisboa), a Revista Militar, o HPIP — Heritage of Portuguese Influence, a RTP Ensina, artigos académicos sobre a história da expansão portuguesa e crónicas da época compiladas em estudos contemporâneos.

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