Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor: Manuel António Pina e o Teatro dos Descobrimentos

O medo do desconhecido, o peso da memória e a fronteira ténue entre o que se vê e o que se acredita. É em torno destas tensões que Manuel António Pina constrói uma das mais instigantes peças de teatro para jovens da literatura portuguesa contemporânea: Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor.​

Clicar na imagem para ver a apresentação…


A Obra em contexto

Manuel António Pina (1943–2012), poeta, jornalista e escritor portuense, é um nome incontornável da literatura portuguesa. Reconhecido sobretudo pela sua poesia de linguagem despojada e filosófica, Pina dedicou também uma parte considerável da sua obra à literatura para crianças e jovens — e esta peça teatral é um exemplo brilhante dessa vertente.​

O drama revisita o universo dos Descobrimentos com um olhar que não é o da glorificação épica, mas sim o da humanidade frágil daqueles que nele participaram — os marinheiros anónimos, as mães que ficavam em terra, os físicos que tentavam curar com triaga e razão o que nem a ciência nem a fé conseguiam explicar.​


A estrutura: três tempos, uma memória

A peça organiza-se numa estrutura narrativa de três camadas temporais, como bonecas russas encaixadas umas nas outras:​

  • O Tempo Presente (cerca de 1520): Mestre João, físico e astrólogo, regressa velho e doente das Índias. Ao passar a Angra de S. Brás, perto do Cabo da Boa Esperança, recorda os acontecimentos que viveu naquele mesmo lugar.
  • O Tempo do Perfeito (cerca de 1501): Mestre João encontra um náufrago — o jovem Manuel — que recolhe a bordo e de quem ouve uma história perturbadora.
  • O Tempo do Mais-que-Perfeito (1488 e 1500): a história de Manuel, desde a infância em Massarelos, no Porto, até ao naufrágio na caravela de Bartolomeu Dias.

Esta arquitetura temporal sofisticada não é meramente técnica — é filosófica. O passado não está morto; está presente em Mestre João enquanto ele escreve, tal como o Adamastor está presente em Manuel enquanto navega. A memória é, ela própria, uma forma de não escapar ao destino.​


Manuel e o Adamastor: O sonho que se torna real

No coração da peça está uma ideia perturbadora e bela: um sonho pode ser uma verdade que ainda não aconteceu — ou uma verdade que já aconteceu, noutro lugar, ao mesmo tempo.​

Manuel, adolescente de 14 anos, sonha que o pai naufraga e que luta com um monstro gigantesco — a Avantesma — conseguindo salvá-lo. Quando o pai regressa da viagem de Bartolomeu Dias ao Cabo Tormentoso, conta que esteve prestes a morrer afogado, e que foi salvo por uma sombra misteriosa — homem ou anjo, não saberia dizer — que afugentou o monstro com grandes pancadas.​

“O meu sonho! A Avantesma! Meu Deus, foi tudo verdade!” — Manuel​

A coincidência aterra Manuel. Não conta o sonho a ninguém, mas sabe que, “lá longe, nos fundos do Mar Tenebroso, tem agora um inimigo terrível à sua espera, sedento de vingança.” Quando é chamado para a frota de Pedro Álvares Cabral e descobre que o barco passa pelo mesmo Cabo, a inevitabilidade do encontro torna-se opressiva.​


Mestre João: a razão perante o inexplicável

A figura de Mestre João é central na peça e representa uma das suas tensões mais ricas: a do homem de ciência que se vê forçado a reconhecer os limites do seu saber.​

Mestre João existiu historicamente — foi bacharel em Artes e Medicina, físico e cirurgião de D. Manuel I, e acompanhou a frota de Cabral. Na peça, Manuel António Pina constrói-o como um humanista que acredita na razão, na experiência e no testemunho dos sentidos — mas que, perante o Adamastor, hesita:​

“Mas quem poderá acreditar no testemunho dos seus sentidos perante coisas tão desconformes a todas as leis da natureza como as que me foi dado nesta mesma Angra de S. Brás ver e ouvir?”

No fim, Mestre João não resolve a tensão. Não afirma que o Adamastor é real nem que é ilusão. Diz apenas: “Na alma dos homens é que existem monstros e demónios, e não no mar.” — mas logo acrescenta, quando Manuel lhe pergunta se assim é mesmo que nos matam: “Eu creio que sim, filho… Mas que sei eu?”

Esta dúvida honesta é, talvez, a maior lição filosófica da peça.


O Adamastor: Entre Camões e o Medo Humano

O Adamastor, figura importada por Camões da mitologia grega e imortalizada em Os Lusíadas como o gigante guardião do Cabo das Tormentas, surge aqui não como alegoria épica mas como medo encarnado, como força que persegue os homens porque eles a invocaram — no sonho, na aventura, no desafio aos “Mares do Fim do Mundo”.​

A peça nota, em nota de rodapé, que o nome “Adamastor” é posterior aos acontecimentos narrados — é Camões que o populariza. Manuel chama-lhe simplesmente a Avantesma. Esta distinção é significativa: o monstro existe antes do nome. O nome só lhe dá forma literária; o medo já existia antes.​


As personagens secundárias e a dimensão humana

A peça ganha profundidade humana nas cenas em terra, no Porto de finais do século XV, onde vivem a mãe e a irmã Ana de Manuel. A mãe representa a resistência silenciosa das mulheres que ficavam — as que perdiam maridos, filhos e irmãos para o mar sem que ninguém escrevesse epopeias sobre elas:​

“Antes prouvera que nunca partisse a desafiar a vontade de Deus Nosso Senhor.”

Ana, a irmã mais nova, é a voz do equilíbrio e da esperança: “Trás a névoa vem o Sol, minha mãe, e trás um tempo vem outro.” Juntas, mãe e filha constroem um contraponto comovente à grandiosidade épica das viagens.​


Um final em aberto

A peça termina de forma deliberadamente ambígua, num Pretérito Indeterminado — uma designação temporal invulgar que o autor usa para o ato final. O Adamastor ergue-se sobre Manuel, arrasta-o para o mar… e depois, na praia, jaz o corpo de Manuel, “abandonado e só.”​

Morreu? Sobreviveu mais uma vez? A estrutura circular da peça — Manuel encontrado na praia no início e no fim — deixa a questão em aberto. O que os olhos veem pode ser a morte ou pode ser a salvação. A certeza não existe. Só o mar, e o silêncio.


Porquê ler esta obra?

Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor é uma obra que funciona em múltiplos registos:​

  • Para a História: oferece um retrato vívido e rigorosamente documentado da vida a bordo das naus dos Descobrimentos — alimentação, instrumentos náuticos, medição do tempo, vida quotidiana.
  • Para a Literatura: explora a intertextualidade com Camões e Gil Vicente (cujo Auto das Fadas é encenado a bordo na Cena 11).
  • Para a Filosofia: coloca, com seriedade e beleza, a questão dos limites do conhecimento humano e da relação entre razão e fé.
  • Para o Teatro: a sua estrutura em três tempos sobrepostos é um exercício notável de dramaturgia.

É uma peça que resiste à leitura fácil e convida a pensar — o melhor que qualquer obra de literatura pode fazer.


“Sempre haverá muitas sabedorias por saber. No fundo de todas as sabedorias sabidas reside um mistério onde não alcançam os nossos instrumentos e as nossas medidas nem as nossas palavras…”
— Mestre João, Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor, de Manuel António Pina​

Leave a Reply