Há notícias que, à primeira vista, parecem pertencer ao mundo do entretenimento e não ao da escola. A abertura de uma biblioteca por uma estrela pop é, tipicamente, uma dessas notícias. E, no entanto, quando se olha com atenção para o que aconteceu a 27 de junho, no Porto, dentro da Livraria Lello, encontramos um conjunto de temas que qualquer professor de Português, de Cidadania e Desenvolvimento ou responsável por uma biblioteca escolar reconhecerá de imediato: censura, liberdade de expressão, o valor do livro como objeto de resistência e a pergunta, sempre incómoda, de quem decide o que os jovens podem ou não ler.

O que abriu, onde e porquê
A cantora britânica Dua Lipa, através do seu clube de leitura Service95 Book Club, associou-se à histórica Livraria Lello para inaugurar a Manifesto Library, uma coleção permanente de cem livros instalada no novo auditório cultural da livraria portuense. A abertura ocorreu na noite de 27 de junho de 2026, como um dos momentos centrais do BABELL – Cidade-Livro, o primeiro festival literário internacional promovido pela Fundação Livraria Lello, que decorreu entre 24 e 29 de junho e reuniu autores como Salman Rushdie, Margaret Atwood, Olga Tokarczuk, Byung-Chul Han e Javier Cercas, entre muitos outros, em sessões dispersas por praças, ruas e espaços culturais de todo o Porto.
O momento não foi escolhido ao acaso. Em 2026, a Livraria Lello celebra 120 anos de existência — está aberta desde 1906 — e o ano marca também outra transformação relevante: a inauguração de uma ampliação do edifício assinada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, distinguido com o Pritzker, que acrescenta à livraria cerca de mil metros quadrados adicionais, incluindo o auditório onde agora vive a Manifesto Library. É, aliás, esse mesmo espaço que acolheu, no mesmo festival, a instalação A4, uma obra encomendada ao artista e ativista chinês Ai Weiwei, e a chamada Livraria 1984, um espaço de apenas um metro quadrado dedicado inteiramente ao romance de George Orwell — descrita pelos seus criadores como a mais pequena livraria do mundo dedicada a um único título.
Cem livros, quatro perguntas
A Manifesto Library não pretende ser um arquivo estático de obras censuradas, mas antes um espaço vivo de leitura e debate. Os cem títulos que a compõem organizam-se em torno de quatro eixos temáticos — poder, controlo, voz e memória — que funcionam como quatro perguntas diferentes sobre a relação entre livros e liberdade.
No eixo do poder encontramos obras que interrogam quem manda, quem contesta e quem tem autoridade para definir as narrativas que herdamos, como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, 1984, de George Orwell, ou Felon, de Reginald Dwayne Betts. O eixo do controlo reúne livros sobre vigilância, propaganda e os instrumentos, muitas vezes silenciosos, da pressão institucional, com títulos como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, ou O Processo, de Franz Kafka. Já o eixo da voz dá espaço a perspetivas historicamente silenciadas ou marginalizadas, incluindo A Cor Púrpura, de Alice Walker, e Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie. Por fim, o eixo da memória reúne testemunhos pessoais e coletivos construídos contra o esquecimento deliberado, em contextos de guerra, ditadura e exílio, como A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, e Os Livros de Jacob, de Olga Tokarczuk.
Segundo a nota editorial divulgada pela própria Service95, muitos destes títulos foram, em diferentes países e momentos históricos, proibidos, retirados de currículos escolares ou removidos de sistemas de bibliotecas — frequentemente por abordarem temas como raça, sexualidade ou identidade de género. Outros nunca foram formalmente censurados, mas continuam a suscitar debate público intenso em torno destas mesmas questões. É precisamente essa tensão — entre o que foi silenciado e o que continua a incomodar — que a coleção procura tornar visível.
As palavras de quem a criou
Dua Lipa descreveu o projeto como «uma parceria de sonho», nascida da vontade, antiga, de transformar o clube de leitura que fundou num verdadeiro lugar de encontro entre escritores e leitores. Nas suas palavras, divulgadas pela Fundação Livraria Lello, esta é uma biblioteca concebida como «um santuário para livros que desapareceram e para autores cuja coragem desmascara estruturas de poder», dirigida a leitores que se recusam a que outros decidam por eles o que podem ler.
Do lado da livraria, Francisca Pedro Pinto, responsável de marca da Livraria Lello, sublinhou a continuidade entre a história centenária da instituição e este novo capítulo: «há 120 anos que a Livraria Lello se ergue sobre uma convicção simples — a de que o livro é uma tecnologia de liberdade». Uma frase que, note-se, dialoga diretamente com a metáfora que Jorge Luís Borges — sem parentesco conhecido com o autor destas linhas — usou décadas antes e que o Presidente da República Portuguesa recuperou no discurso de abertura do festival, ao descrever o livro como «uma extensão da memória e da imaginação».
Um festival que troca livros por cultura
Vale a pena deter-nos um pouco no BABELL, porque o seu modelo é, em si mesmo, um exercício interessante de promoção da leitura. O acesso às sessões do festival não se faz por bilhete convencional, mas através da compra de um livro numa rede de mais de cinquenta livrarias participantes na cidade do Porto — uma forma original de transformar a leitura em condição de acesso à cultura, e não apenas em consequência dela.
Do programa do festival destacam-se dois momentos com relevância direta para quem trabalha em contexto escolar. Por um lado, um conjunto de colóquios dedicados especificamente a educação e leitura, agendados para o último dia do festival na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Por outro, uma programação infantil, com curadoria de Adélia Carvalho, realizada nas manhãs de 27 e 28 de junho nos Jardins do Palácio de Cristal — prova de que a organização do festival não pensou este projeto apenas para um público adulto e literário, mas quis desde o início incluir crianças e famílias na experiência.
Porque é que isto interessa às nossas escolas
É fácil olhar para este acontecimento como uma simples curiosidade cultural, mais um projeto de uma celebridade internacional com visibilidade em Portugal. Achamos, no entanto, que há aqui pelo menos três fios que merecem ser trazidos para dentro da sala de aula.
O primeiro é o da liberdade de expressão e da censura, um tema que se cruza diretamente com os referenciais de Cidadania e Desenvolvimento e com as Aprendizagens Essenciais de Português, sobretudo nos ciclos em que se trabalha a leitura crítica e a argumentação. A Manifesto Library oferece um ponto de partida concreto e internacional para uma discussão que, entre nós, tende a ficar abstrata: porque é que um livro é retirado de uma biblioteca ou de um currículo escolar? Quem decide? E que diferença existe entre uma decisão editorial legítima — adequar uma obra a uma faixa etária, por exemplo — e um ato de silenciamento? Comparar casos concretos de obras contestadas em diferentes países, com os alunos, é um exercício de pensamento crítico mais produtivo do que qualquer exposição teórica sobre o conceito de censura.
O segundo fio é o da própria leitura como prática social e não apenas escolar. O modelo do BABELL — trocar um livro por acesso a um festival — e a proposta da Manifesto Library — transformar uma livraria centenária num espaço de debate público — são, ambos, tentativas de devolver a leitura ao centro da vida coletiva, numa altura em que o tempo de atenção dos mais jovens está cada vez mais fragmentado entre ecrãs. Para um blogue como este, dedicado à relação entre tecnologia e educação, este contraponto entre o livro físico e o mundo digital não é irrelevante: mostra que a promoção da leitura e a literacia digital não são terrenos opostos, mas complementares, e que vale a pena continuar a criar, também nas nossas escolas, momentos e espaços que devolvam ao livro em papel o seu lugar de destaque.
O terceiro fio, mais subtil, é o da própria literacia mediática aplicada a este caso. Uma estrela pop a promover a leitura é, simultaneamente, uma boa notícia para a causa dos livros e um excelente pretexto para discutir com os alunos como funciona a construção de uma imagem pública através da cultura — que interesses comerciais e de reputação convivem, sem se anularem, com um propósito cultural genuíno. Nada disto desvaloriza o projeto; pelo contrário, ensinar os alunos a olhar para uma iniciativa como esta com esse duplo olhar — reconhecendo o seu valor cultural sem deixar de identificar a sua dimensão de marketing — é, também, literacia mediática em ação.
Para levar para a aula
Sem transformar isto num receituário, deixamos três pistas de trabalho que nos parecem particularmente diretas. Pode propor-se aos alunos que escolham um dos quatro eixos da Manifesto Library — poder, controlo, voz ou memória — e investiguem, em pequenos grupos, a história de contestação de uma das obras associadas a esse eixo, apresentando depois à turma os argumentos usados por quem pediu a sua retirada e por quem defendeu a sua permanência nas bibliotecas. Pode também usar-se o próprio conceito do festival — trocar um livro por um bilhete de acesso à cultura — como mote para um pequeno projeto de promoção da leitura na escola, associado à biblioteca escolar. E pode, por fim, explorar-se com os alunos mais velhos a tensão entre celebridade e causa cultural, pedindo-lhes que analisem criticamente comunicados de imprensa e publicações nas redes sociais sobre este projeto, distinguindo factos verificáveis de linguagem promocional.
A Manifesto Library não vai resolver, por si só, nenhum dos desafios de leitura que as nossas escolas enfrentam. Mas é um bom recordatório de que a discussão sobre livros, liberdade e censura continua bem viva — e de que, por vezes, os pontos de partida mais úteis para essa discussão em sala de aula chegam de lugares tão inesperados como uma livraria centenária no Porto.

Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial para pesquisa e redação, a partir de fontes primárias — o comunicado oficial da Service95, os conteúdos publicados pela Fundação Livraria Lello no âmbito do festival BABELL, a intervenção do Presidente da República na sessão de abertura do festival e cobertura da imprensa especializada em cultura e arquitetura .
Referências
Espaço de Arquitetura. (2026). Livraria Lello inaugura expansão de Álvaro Siza e lança BABELL. https://espacodearquitetura.com/noticias/livraria-lello-inaugura-expansao-de-alvaro-siza-e-lanca-babell/
Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026a). About BABELL. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/about-babell
Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026b). BABELL unveils full programme. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/conteudos/noticias/babell-unveils-full-programme
Music-News.com. (2026, junho). Dua Lipa and Livraria Lello open the Manifesto Library in Porto. https://www.music-news.com/news/UK/189761/Dua-Lipa-and-Livraria-Lello-open-the-Manifesto-Library-in-Porto
Presidência da República Portuguesa. (2026, junho 24). Intervenção na sessão inaugural do festival literário e cultural “BABELL – Cidade-Livro” e visita à Livraria Lello. https://www.presidencia.pt/en-en/news-agenda/all-news/2026/06/intervencao-na-sessao-inaugural-do-festival-literario-e-cultural-babell-cidade-livro-e-visita-a-livraria-lello/
Service95. (2026, julho 2). Inside the Manifesto Library: Service95 Book Club’s permanent collection at Livraria Lello, Porto. https://www.service95.com/manifesto-library-launch




























