A Manifesto Library na Livraria Lello: o que uma estrela pop tem para ensinar às escolas sobre livros e liberdade

Há notícias que, à primeira vista, parecem pertencer ao mundo do entretenimento e não ao da escola. A abertura de uma biblioteca por uma estrela pop é, tipicamente, uma dessas notícias. E, no entanto, quando se olha com atenção para o que aconteceu a 27 de junho, no Porto, dentro da Livraria Lello, encontramos um conjunto de temas que qualquer professor de Português, de Cidadania e Desenvolvimento ou responsável por uma biblioteca escolar reconhecerá de imediato: censura, liberdade de expressão, o valor do livro como objeto de resistência e a pergunta, sempre incómoda, de quem decide o que os jovens podem ou não ler.

O que abriu, onde e porquê

A cantora britânica Dua Lipa, através do seu clube de leitura Service95 Book Club, associou-se à histórica Livraria Lello para inaugurar a Manifesto Library, uma coleção permanente de cem livros instalada no novo auditório cultural da livraria portuense. A abertura ocorreu na noite de 27 de junho de 2026, como um dos momentos centrais do BABELL – Cidade-Livro, o primeiro festival literário internacional promovido pela Fundação Livraria Lello, que decorreu entre 24 e 29 de junho e reuniu autores como Salman Rushdie, Margaret Atwood, Olga Tokarczuk, Byung-Chul Han e Javier Cercas, entre muitos outros, em sessões dispersas por praças, ruas e espaços culturais de todo o Porto.

O momento não foi escolhido ao acaso. Em 2026, a Livraria Lello celebra 120 anos de existência — está aberta desde 1906 — e o ano marca também outra transformação relevante: a inauguração de uma ampliação do edifício assinada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, distinguido com o Pritzker, que acrescenta à livraria cerca de mil metros quadrados adicionais, incluindo o auditório onde agora vive a Manifesto Library. É, aliás, esse mesmo espaço que acolheu, no mesmo festival, a instalação A4, uma obra encomendada ao artista e ativista chinês Ai Weiwei, e a chamada Livraria 1984, um espaço de apenas um metro quadrado dedicado inteiramente ao romance de George Orwell — descrita pelos seus criadores como a mais pequena livraria do mundo dedicada a um único título.

Cem livros, quatro perguntas

A Manifesto Library não pretende ser um arquivo estático de obras censuradas, mas antes um espaço vivo de leitura e debate. Os cem títulos que a compõem organizam-se em torno de quatro eixos temáticos — poder, controlo, voz e memória — que funcionam como quatro perguntas diferentes sobre a relação entre livros e liberdade.

No eixo do poder encontramos obras que interrogam quem manda, quem contesta e quem tem autoridade para definir as narrativas que herdamos, como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, 1984, de George Orwell, ou Felon, de Reginald Dwayne Betts. O eixo do controlo reúne livros sobre vigilância, propaganda e os instrumentos, muitas vezes silenciosos, da pressão institucional, com títulos como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, ou O Processo, de Franz Kafka. Já o eixo da voz dá espaço a perspetivas historicamente silenciadas ou marginalizadas, incluindo A Cor Púrpura, de Alice Walker, e Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie. Por fim, o eixo da memória reúne testemunhos pessoais e coletivos construídos contra o esquecimento deliberado, em contextos de guerra, ditadura e exílio, como A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, e Os Livros de Jacob, de Olga Tokarczuk.

Segundo a nota editorial divulgada pela própria Service95, muitos destes títulos foram, em diferentes países e momentos históricos, proibidos, retirados de currículos escolares ou removidos de sistemas de bibliotecas — frequentemente por abordarem temas como raça, sexualidade ou identidade de género. Outros nunca foram formalmente censurados, mas continuam a suscitar debate público intenso em torno destas mesmas questões. É precisamente essa tensão — entre o que foi silenciado e o que continua a incomodar — que a coleção procura tornar visível.

As palavras de quem a criou

Dua Lipa descreveu o projeto como «uma parceria de sonho», nascida da vontade, antiga, de transformar o clube de leitura que fundou num verdadeiro lugar de encontro entre escritores e leitores. Nas suas palavras, divulgadas pela Fundação Livraria Lello, esta é uma biblioteca concebida como «um santuário para livros que desapareceram e para autores cuja coragem desmascara estruturas de poder», dirigida a leitores que se recusam a que outros decidam por eles o que podem ler.

Do lado da livraria, Francisca Pedro Pinto, responsável de marca da Livraria Lello, sublinhou a continuidade entre a história centenária da instituição e este novo capítulo: «há 120 anos que a Livraria Lello se ergue sobre uma convicção simples — a de que o livro é uma tecnologia de liberdade». Uma frase que, note-se, dialoga diretamente com a metáfora que Jorge Luís Borges — sem parentesco conhecido com o autor destas linhas — usou décadas antes e que o Presidente da República Portuguesa recuperou no discurso de abertura do festival, ao descrever o livro como «uma extensão da memória e da imaginação».

Um festival que troca livros por cultura

Vale a pena deter-nos um pouco no BABELL, porque o seu modelo é, em si mesmo, um exercício interessante de promoção da leitura. O acesso às sessões do festival não se faz por bilhete convencional, mas através da compra de um livro numa rede de mais de cinquenta livrarias participantes na cidade do Porto — uma forma original de transformar a leitura em condição de acesso à cultura, e não apenas em consequência dela.

Do programa do festival destacam-se dois momentos com relevância direta para quem trabalha em contexto escolar. Por um lado, um conjunto de colóquios dedicados especificamente a educação e leitura, agendados para o último dia do festival na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Por outro, uma programação infantil, com curadoria de Adélia Carvalho, realizada nas manhãs de 27 e 28 de junho nos Jardins do Palácio de Cristal — prova de que a organização do festival não pensou este projeto apenas para um público adulto e literário, mas quis desde o início incluir crianças e famílias na experiência.

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Porque é que isto interessa às nossas escolas

É fácil olhar para este acontecimento como uma simples curiosidade cultural, mais um projeto de uma celebridade internacional com visibilidade em Portugal. Achamos, no entanto, que há aqui pelo menos três fios que merecem ser trazidos para dentro da sala de aula.

O primeiro é o da liberdade de expressão e da censura, um tema que se cruza diretamente com os referenciais de Cidadania e Desenvolvimento e com as Aprendizagens Essenciais de Português, sobretudo nos ciclos em que se trabalha a leitura crítica e a argumentação. A Manifesto Library oferece um ponto de partida concreto e internacional para uma discussão que, entre nós, tende a ficar abstrata: porque é que um livro é retirado de uma biblioteca ou de um currículo escolar? Quem decide? E que diferença existe entre uma decisão editorial legítima — adequar uma obra a uma faixa etária, por exemplo — e um ato de silenciamento? Comparar casos concretos de obras contestadas em diferentes países, com os alunos, é um exercício de pensamento crítico mais produtivo do que qualquer exposição teórica sobre o conceito de censura.

O segundo fio é o da própria leitura como prática social e não apenas escolar. O modelo do BABELL — trocar um livro por acesso a um festival — e a proposta da Manifesto Library — transformar uma livraria centenária num espaço de debate público — são, ambos, tentativas de devolver a leitura ao centro da vida coletiva, numa altura em que o tempo de atenção dos mais jovens está cada vez mais fragmentado entre ecrãs. Para um blogue como este, dedicado à relação entre tecnologia e educação, este contraponto entre o livro físico e o mundo digital não é irrelevante: mostra que a promoção da leitura e a literacia digital não são terrenos opostos, mas complementares, e que vale a pena continuar a criar, também nas nossas escolas, momentos e espaços que devolvam ao livro em papel o seu lugar de destaque.

O terceiro fio, mais subtil, é o da própria literacia mediática aplicada a este caso. Uma estrela pop a promover a leitura é, simultaneamente, uma boa notícia para a causa dos livros e um excelente pretexto para discutir com os alunos como funciona a construção de uma imagem pública através da cultura — que interesses comerciais e de reputação convivem, sem se anularem, com um propósito cultural genuíno. Nada disto desvaloriza o projeto; pelo contrário, ensinar os alunos a olhar para uma iniciativa como esta com esse duplo olhar — reconhecendo o seu valor cultural sem deixar de identificar a sua dimensão de marketing — é, também, literacia mediática em ação.

Para levar para a aula

Sem transformar isto num receituário, deixamos três pistas de trabalho que nos parecem particularmente diretas. Pode propor-se aos alunos que escolham um dos quatro eixos da Manifesto Library — poder, controlo, voz ou memória — e investiguem, em pequenos grupos, a história de contestação de uma das obras associadas a esse eixo, apresentando depois à turma os argumentos usados por quem pediu a sua retirada e por quem defendeu a sua permanência nas bibliotecas. Pode também usar-se o próprio conceito do festival — trocar um livro por um bilhete de acesso à cultura — como mote para um pequeno projeto de promoção da leitura na escola, associado à biblioteca escolar. E pode, por fim, explorar-se com os alunos mais velhos a tensão entre celebridade e causa cultural, pedindo-lhes que analisem criticamente comunicados de imprensa e publicações nas redes sociais sobre este projeto, distinguindo factos verificáveis de linguagem promocional.

A Manifesto Library não vai resolver, por si só, nenhum dos desafios de leitura que as nossas escolas enfrentam. Mas é um bom recordatório de que a discussão sobre livros, liberdade e censura continua bem viva — e de que, por vezes, os pontos de partida mais úteis para essa discussão em sala de aula chegam de lugares tão inesperados como uma livraria centenária no Porto.


Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial para pesquisa e redação, a partir de fontes primárias — o comunicado oficial da Service95, os conteúdos publicados pela Fundação Livraria Lello no âmbito do festival BABELL, a intervenção do Presidente da República na sessão de abertura do festival e cobertura da imprensa especializada em cultura e arquitetura .

Referências

Espaço de Arquitetura. (2026). Livraria Lello inaugura expansão de Álvaro Siza e lança BABELL. https://espacodearquitetura.com/noticias/livraria-lello-inaugura-expansao-de-alvaro-siza-e-lanca-babell/

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026a). About BABELL. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/about-babell

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026b). BABELL unveils full programme. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/conteudos/noticias/babell-unveils-full-programme

Music-News.com. (2026, junho). Dua Lipa and Livraria Lello open the Manifesto Library in Porto. https://www.music-news.com/news/UK/189761/Dua-Lipa-and-Livraria-Lello-open-the-Manifesto-Library-in-Porto

Presidência da República Portuguesa. (2026, junho 24). Intervenção na sessão inaugural do festival literário e cultural “BABELL – Cidade-Livro” e visita à Livraria Lello. https://www.presidencia.pt/en-en/news-agenda/all-news/2026/06/intervencao-na-sessao-inaugural-do-festival-literario-e-cultural-babell-cidade-livro-e-visita-a-livraria-lello/

Service95. (2026, julho 2). Inside the Manifesto Library: Service95 Book Club’s permanent collection at Livraria Lello, Porto. https://www.service95.com/manifesto-library-launch

Filas em vez de faltas: o que o Babell ensina sobre ler por vontade

Num só domingo, o festival Babell encheu a Praça dos Leões para ouvir o Nobel húngaro László Krasznahorkai e esgotou o Coliseu do Porto para Salman Rushdie. Entre o aviso sobre o presente e a ironia sobre a morte, ficam pelo menos três lições diretas para quem promove a leitura nas escolas.

Há notícias que interessam à escola sem falarem de escola. A sessão de Salman Rushdie no Coliseu do Porto, no passado domingo, é uma delas. Não por causa da fama do escritor — embora essa tenha sido, sem dúvida, o motor que levou três mil pessoas a enfrentar filas de horas —, mas por causa de duas coisas que ali aconteceram e que valem a pena trazer para a sala de aula: a forma como um festival literário conseguiu tornar a compra de um livro, mesmo o mais modesto, num acontecimento desejado; e o modo como um escritor que vive sob ameaça há mais de três décadas falou, com humor e sem drama, sobre escrita, medo e sobrevivência.

Um livro, um bilhete, uma fila de três horas

O Babell — Cidade-Livro é a primeira edição de um festival literário organizado pela Fundação Livraria Lello, em parceria com a Câmara Municipal do Porto, decorrido entre 24 e 30 de junho na cidade. O conceito que o distingue de qualquer outro evento literário é simples de explicar e difícil de esquecer: a entrada para as sessões não se compra em dinheiro, compra-se com um livro. Pode ser um exemplar novo ou usado, comprado num alfarrabista por um euro — o que interessa é o gesto. Cada uma das quase setenta livrarias aderentes da cidade entrega, no ato da compra, um código que dá acesso a uma sessão à escolha, através do site do festival.

É um modelo com potencial de replicação direta em contexto escolar, e vale a pena que bibliotecas escolares e clubes de leitura o conheçam: transformar a aquisição — e não apenas o empréstimo — de um livro num bilhete para algo desejável (uma sessão de leitura, um encontro com um autor, uma atividade de turma) desloca o foco da obrigação para o desejo. Não é por acaso que o comissário do festival, Rui Couceiro, tem defendido publicamente que quer ver “o livro e a leitura” chegarem às mãos das pessoas através deste mecanismo — e que a fórmula poderia, na sua visão, ser replicada internacionalmente.

Essa aposta pareceu compensar: a organização do festival tem falado em audiências recorde nesta primeira edição, com destaque para a sessão de encerramento e para a noite de Salman Rushdie, que se tornou, por larga margem, o momento de maior procura de todo o Babell.

Três mil pessoas, um escritor sob ameaça há 37 anos

A sessão estava marcada para as 21h30 de domingo, mas às 22h08, quando finalmente soou o sinal de início, ainda havia gente na rua, na fila que se estendia da Praça dos Poveiros pela Rua de Santo Ildefonso. O Coliseu do Porto, com lugar para cerca de três mil pessoas, esgotara. À entrada, detetores de metais, revista e reforço da Polícia de Segurança Pública somavam-se à equipa de segurança privada que acompanha Rushdie desde 1989, ano em que o aiatolá Khomeini decretou uma fatwa contra o escritor na sequência da publicação de Os Versículos Satânicos, oferecendo recompensa pela sua morte. Essas medidas tornaram-se ainda mais visíveis depois de, em 2022, Rushdie ter sido gravemente ferido numa tentativa de assassinato durante uma conferência numa universidade do estado de Nova Iorque.

Nada disto impediu, contudo, uma sessão marcada pelo humor. Conduzida pelo escritor e bibliófilo argentino Alberto Manguel — hoje radicado em Lisboa, onde aguarda a abertura de um centro de estudos dedicado à história da leitura —, a conversa arrancou com a leitura de um excerto por António Durães e percorreu, ao longo de cerca de quarenta e nove minutos, temas tão distintos como o fascínio de Rushdie por O Feiticeiro de Oz — o filme que, aos dez anos, o levou a escrever a sua primeira história, sobre um rapaz “numa cidade como a minha” —, o respeito quase reverencial pela velocidade de escrita de Shakespeare, a infância em Bombaim e a relação entre a esfera pública e a privada na construção das personagens de um romance.

O momento mais citado pela imprensa portuguesa nos dias seguintes foi, no entanto, o fecho da conversa, quando Manguel perguntou a Rushdie se tinha medo da morte. A resposta recorreu à literatura para desarmar o peso da pergunta: uma referência ao empregado de escritório Bartleby, de Herman Melville, que responde a qualquer pedido com um simples «preferia que não» — «essa é a minha visão da morte», resumiu o escritor.

Horas antes, na Praça dos Leões: o aviso de um Nobel

Horas antes de Rushdie subir ao palco do Coliseu, a Praça Gomes Teixeira — conhecida dos portuenses como Praça dos Leões — já tinha recebido a sua própria enchente: cerca de 1200 pessoas, segundo a organização, para ouvir o escritor húngaro László Krasznahorkai, distinguido em 2025 com o Prémio Nobel da Literatura e conhecido, muito antes do prémio, como o «mestre húngaro do Apocalipse». A conversa, conduzida pelo músico Pedro Abrunhosa, ficou resumida numa frase que a organização escolheu destacar em letras grandes: «Não precisamos de esperar pelo apocalipse. Ele já está aqui.»

Provocado pelas distopias de George Orwell e Aldous Huxley, citadas por Abrunhosa, Krasznahorkai foi taxativo: o futuro que esses livros descrevem é sombrio, mas continua a ser apenas uma possibilidade entre outras. O que hoje enfrentamos, defendeu, é pior — alterações climáticas, falta de água e de comida, guerras e outros conflitos, um planeta que terá de sustentar oito mil milhões de pessoas com recursos que, na sua conta, chegariam para metade disso. Falou do medo como o sentimento mais importante em qualquer ser vivo, por estar na base da luta pela sobrevivência, e da incapacidade de sentir medo como o estado mais perigoso de todos.

Perante um retrato tão sombrio, a reação do escritor não foi o desalento, mas o humor — que, garantiu, nunca é intencional nos seus livros, mas nasce das próprias situações e personagens. Evocou o cavaleiro do filme dos Monty Python que, mesmo depois de perder braços e pernas, continua a desafiar o adversário a lutar: o trágico e o cómico, disse, andam sempre de mãos dadas. A conversa passou também pela atualidade política, a propósito da recente derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria: Krasznahorkai deixou um aviso — um país que já teve um ditador pode voltar a ter outro — e uma farpa dirigida às «figuras narcisistas que têm saído dos esgotos da História», entre as quais deixou clara a referência ao atual presidente norte-americano.

Há ainda um pormenor que interessa particularmente a um blogue sobre tecnologia e educação: tanto na sessão de Krasznahorkai como na de Olga Tokarczuk, os autores falaram nas suas línguas maternas, e o sistema de legendagem em tempo real anunciado pela organização — apresentado como fruto da combinação entre tradução humana e apoio de inteligência artificial — nem sempre funcionou nas melhores condições, com legendas pequenas, lentas e em constante reformulação. É um lembrete oportuno, e gratuito, de que a tradução automática em contexto ao vivo continua a ser um dos desafios mais difíceis da IA aplicada — e um bom exemplo prático para discutir, em sala de aula, a diferença entre aquilo que a inteligência artificial promete e aquilo que, hoje, ainda consegue cumprir com fiabilidade.

O que fica para a escola

Há aqui, na verdade, duas lições distintas, e ambas úteis. A primeira é prática: o modelo «um livro, um bilhete» do Babell é uma ideia perfeitamente transponível para uma escola — seja como mecânica de um clube de leitura, seja como forma de dar visibilidade a uma biblioteca escolar sem nunca pronunciar o nome dessa instituição, seja como desafio de cidadania a propor aos alunos («o que aconteceria se, na nossa escola, o acesso a um evento dependesse de trazer um livro para doar ou trocar?»). É um exemplo concreto de como a promoção da leitura pode ser desenhada com criatividade, em vez de depender apenas da obrigatoriedade curricular.

A segunda lição é de outra natureza, e talvez mais importante: a figura de Salman Rushdie continua a ser, hoje, o exemplo mais visível e mais vivo de um escritor que paga um preço físico real pela liberdade de expressão. Numa disciplina como Cidadania e Desenvolvimento, ou numa aula de Português sobre censura e liberdade criativa, a história de Rushdie oferece algo que os manuais raramente conseguem: um caso concreto, contemporâneo, sem ambiguidade histórica, sobre o que significa continuar a escrever depois de uma condenação à morte por causa de um livro — sem transformar essa história em melodrama, como o próprio demonstrou ao responder com ironia a uma pergunta sobre a sua mortalidade.

Não é preciso ensinar Os Versículos Satânicos — obra de leitura exigente e pouco adequada, em regra, ao ensino não superior — para usar a trajetória do seu autor como ponto de partida para uma discussão séria sobre os limites entre liberdade de expressão e ofensa religiosa, sobre o custo pessoal de escrever e sobre a razão pela qual mais de três mil pessoas, num domingo à noite, preferiram esperar horas numa fila a ficar em casa. Essa pergunta — porque é que ainda vale a pena esperar por um livro, por um escritor, por uma história — é, no fundo, a pergunta que qualquer professor de português faz silenciosamente todos os dias.

A isto soma-se a lição, mais direta, de Krasznahorkai: mesmo o escritor mais associado ao fim do mundo na literatura europeia contemporânea escolhe, quando confrontado com um público, recomendar simplesmente que se leia — porque ler continua a ser, nas suas palavras, sempre «um caminho». E a experiência menos conseguida da legendagem em tempo real nas suas sessões, apoiada por inteligência artificial, oferece um contraponto honesto e produtivo a qualquer entusiasmo excessivo com estas ferramentas: mesmo em 2026, traduzir ao vivo continua a ser um problema em aberto, e é saudável que os alunos o saibam.

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Referências

Observador. (2026, 29 de junho). Salman Rushdie no Coliseu do Porto: horas de espera para uma lição sobre a vida, a escrita e o “preferia que não” da morte. https://observador.pt/especiais/salman-rushdie-no-coliseu-do-porto-horas-de-espera-para-uma-licao-sobre-a-vida-a-escrita-e-o-preferia-que-nao-da-morte/

Notícias ao Minuto. (2026, 30 de junho). Salman Rushdie lembrou “Oz” e Shakespeare no Porto. https://www.noticiasaominuto.com/pais/3012701/salman-rushdie-lembrou-oz-e-shakespeare-no-porto

Notícias ao Minuto. (2026, 28 de junho). Nobel László Krasznahorkai faz apelo à leitura que “é sempre um caminho”. https://www.noticiasaominuto.com/cultura/3012670/nobel-laszlo-krasznahorkai-faz-apelo-a-leitura-que-e-sempre-um-caminho

Jornal Universitário do Porto. (2026, 29 de junho). László Krasznahorkai e Lídia Jorge nos últimos dias do Babell. https://www.jup.pt/cultura/artigo/laszlo-krasznahorkai-e-lidia-jorge-nos-ultimos-dias-do-babell.aspx

RTP. (2025, 17 de dezembro). Festival literário Babell traz ao Porto Salman Rushdie, Olga Tokarczuk e Margaret Atwood. https://www.rtp.pt/noticias/cultura/festival-literario-babell-traz-ao-porto-salman-rushdie-olga-tokarczuk-e-margaret-atwood_n1704966

Leonardo Padura Fuentes — O escritor de Havana

Escrevo sobre os problemas dos indivíduos na sociedade cubana. E muitas vezes, nos meus livros, mais do que conflitos dramáticos entre personagens, encontrarás um conflito social entre os personagens e o seu tempo histórico.”
Leonardo Padura Fuentes

Quem é Leonardo Padura?

Leonardo de la Caridad Padura Fuentes nasceu em Havana, Cuba, a 9 de outubro de 1955, no bairro popular de Mantilla. É romancista, ensaísta, jornalista e argumentista de cinema, considerado um dos mais importantes escritores cubanos contemporâneos — e um dos nomes mais relevantes da literatura ibero-americana do século XXI. Completou 70 anos em 2025, com uma carreira que abrange mais de quatro décadas de escrita.

A sua vida nunca saiu de Cuba. Ao contrário de muitos intelectuais que abandonaram a ilha nos últimos anos, Padura manteve-se em Havana com uma explicação simples e carregada de sentido: “Tenho muitas razões para viver fora de Cuba, mas as que me mantêm aqui pesam mais. Uma delas é o meu sentido de pertença — a uma realidade, a uma cultura, a uma forma de ver a vida, a uma forma de me expressar.” Esta decisão não é ingénua. É profundamente literária e política ao mesmo tempo.


Formação e os anos de jornalismo

Padura licenciou-se em Literatura Hispano-Americana na Universidade de Havana em 1980. Assumiu a cadeira de literatura latino-americana nessa mesma universidade e destacou-se como jornalista investigativo ao longo dos anos 80, trabalhando para meios de comunicação social estatais. Este período jornalístico foi decisivo: aprendeu a observar a sociedade cubana com olhos clínicos, a documentar o que outros preferiam ignorar, e a desenvolver uma voz que equilibrava factos e ficção com maestria.

Da escrita jornalística resultaram obras de reportagem e ensaio como El alma en el terreno, Los rostros de la salsa e El viaje más largo, coletâneas que revelam um escritor fascinado pela identidade cultural cubana — a música, o desporto, os rituais quotidianos. Escreveu também argumentos para documentários cinematográficos, incluindo Yo soy del son a la salsa, que recebeu o Prémio Coral no 18.º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana.


Havana como personagem

Havana não é apenas o cenário das histórias de Padura. É uma co-protagonista. A cidade que ele descreve é um tecido denso de dificuldades económicas, sincretismo afro-descendente, corrupção, malandragem, música vibrante e crescente desigualdade — tudo isso envolto na sombra de uma revolução que moldou o século XX.

É sobretudo o bairro de Mantilla, onde Padura nasceu e ainda vive, que alimenta a geografia afetiva dos seus romances. As suas ruas, os seus bares, as praias e os parques surgem nas páginas como mapas de uma alma coletiva. Para Padura, escrever sobre Cuba não é uma escolha política — é uma necessidade orgânica, quase biológica.


A série Mario Conde: Quatro Estações em Havana

A obra que projetou Leonardo Padura para a fama internacional é a série de romances policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde — conhecido carinhosamente como El Conde. A série iniciou-se com Pasado Perfecto (1991) e percorreu décadas de publicação.

Mario Conde é um detetive de Havana que nunca encontrou o seu lugar no mundo. Sonhou ser escritor, acabou na polícia, e percorre uma cidade que parece estar sempre a desmoronar-se com beleza. O que torna esta série única não é o mistério policial em si — são as páginas de reflexão social, memória, amizade e perda que o Conde carrega consigo em cada investigação.

Os principais romances da série Mario Conde

TítuloAnoNota Temática
Pasado Perfecto1991O desaparecimento de um quadro do Partido; corrupção pós-revolucionáriaaplengua.org
Vientos de Cuaresma1994Crime numa escola; a moral numa sociedade em criseaplengua.org
Máscaras1997Identidade, homossexualidade e teatro em Havanabrasil.elpais
Paisaje de Otoño1998Prémio Hammett 1998; o fim da carreira de Conde na políciawikipedia
Adiós, Hemingway2001Hemingway em Cuba; passado e presente entrelaçadosaplengua.org
La Neblina del Ayer2009O Conde reformado, entre livros velhos e memóriaswikipedia
Herejes2013Um Rembrandt desaparecido e a diáspora cubanainstagram
La Transparencia del Tiempo2018Escultura medieval, violência e gentrificação em Havanaaplengua.org
Personas Decentes2023O crime de 1910 e os anos da pandemiainstagram

Através das investigações do Conde, Padura criou o que muitos críticos descrevem como a mais consistente e profunda crónica social de Cuba desde a Revolução. “Para Padura, o policial é apenas um pretexto para falar da sociedade cubana e fazer um exame de consciência da sua geração”, sintetiza a crítica literária de língua espanhola.


El Hombre que Amaba a los Perros — A grande obra

Em 2009, Padura publicou aquilo que muitos consideram a sua obra-prima: El hombre que amaba a los perros (O Homem que Gostava de Cães). Fruto de cinco anos de investigação histórica, o romance entrelaça três narrativas em torno de um dos crimes mais reveladores do século XX: o assassinato de Léon Trotsky por Ramón Mercader, em Cidade do México, em 20 de agosto de 1940.

A estrutura do livro é tripartida:

  • Léon Trotsky — o revolucionário russo, cofundador do Estado soviético, perseguido por Stalin durante 11 anos de exílio errante por Turquia, França, Noruega e México
  • Ramón Mercader — o comunista catalão recrutado pelos serviços de inteligência soviéticos, transformado num assassino frio e metódico
  • Iván Cárdenas — um escritor cubano frustrado que, nos anos 70, conhece na praia de Havana um misterioso homem que passeava dois galgos russos e que vai revelando, aos poucos, uma história que o marcará para sempre

O que torna o livro extraordinário é a compaixão com que Padura trata todos os personagens — incluindo o assassino. Através da reconstituição da vida de Mercader, desde a infância na Barcelona burguesa, passando pela Guerra Civil Espanhola e pelos treinos nos serviços secretos soviéticos, o autor analisa como um ser humano se transforma num instrumento ao serviço de uma ideologia. Figuras como George Orwell, Frida Kahlo e Diego Rivera surgem no livro como personagens secundários que enriquecem o painel histórico.

A publicação em Cuba só aconteceu em 2011, dois anos após o lançamento original — um sinal evidente das tensões entre a obra de Padura e o regime.


Outros romances essenciais

La Novela de mi Vida (2002)

Este romance mergulha na vida e obra de José María Heredia, o poeta romântico cubano do século XIX considerado o primeiro grande poeta nacional da ilha. Padura recria a trajetória do exílio de Heredia — que viveu entre México e Nova Iorque — e compara-a com a condição dos cubanos de hoje, obrigados a escolher entre ficar e partir. É uma meditação sobre identidade, lealdade e o custo da arte sob regimes autoritários.

Herejes (2013)

O Conde investiga o desaparecimento de uma jovem havanesa e o rasto de um quadro de Rembrandt que pertenceu a uma família judaica que tentou fugir da Europa nazi em 1939 a bordo do navio St. Louis — que foi recusado em vários portos, incluindo Cuba. Padura usa o mistério para refletir sobre liberdade, escolha e heresia — aqueles que ousam ser diferentes dentro de qualquer sistema, seja político, religioso ou social.

Como Polvo en el Viento (2021)

Afastando-se temporariamente do Conde, Padura escreveu um romance coral sobre uma geração de amigos cubanos dispersados pela diáspora, nos anos 90 e 2000. É o seu olhar mais direto sobre o fenómeno das migrações cubanas — aqueles que ficaram, os que partiram, e o que sobrou das suas relações.


A Cuba de Padura: entre a lealdade e a crítica

Leonardo Padura nunca foi um dissidente clássico. Nunca abandonou Cuba, nunca lançou manifestos políticos abertos. E, no entanto, a sua obra constitui uma das mais consistentes críticas à sociedade cubana pós-revolucionária escrita de dentroascecuba.

Os seus livros raramente são censurados formalmente — mas circulam em Cuba em tiragens muito limitadas, e o regime nunca o promoveu nos meios oficiais. O próprio Padura descreve a sua posição com precisão: “Sou escritor, no essencial, da vida cubana, e a política não pode estar fora dessa vida, porque é parte diária, ativa e penetrante dela.”

Este equilíbrio delicado — crítica sem exílio, lealdade sem silêncio — é talvez o traço mais singular da sua trajetória intelectual. Faz dele uma voz insubstituível: alguém que conhece Cuba por dentro e que recusa tanto a propaganda do regime como a retórica simplista do anticomunismo externo.


Prémios e reconhecimento internacional

Ao longo de quatro décadas, Padura acumulou um reconhecimento internacional raro para um escritor que nunca deixou Cuba:

  • Prémio UNEAC (Cuba, 1993) — pela tetralogia Las Cuatro Estaciones
  • Prémio Café Gijón (Espanha, 1995) — pela série Mario Conde
  • Prémio Hammett da International Association of Crime Writers (1998 e novamente em 2006)
  • Prémio Nacional de Literatura de Cuba (2012)
  • Prémio Princesa das Astúrias de Letras (Espanha, 2015) — o júri destacou que a sua obra constitui “uma soberba aventura do diálogo e da liberdade”
  • Série Netflix Quatro Estações em Havana (2016), com Jorge Perugorría como Mario Conde
  • Membro da Academia Cubana da Língua (desde 2018)
  • Membro honorário ou correspondente das academias de língua do Panamá, Costa Rica e Puerto Rico

Os seus livros foram traduzidos para mais de 15 línguas e publicados em dezenas de países.


A série no ecrã: Quatro Estações em Havana

Em 2016, a Netflix estreou a minissérie Quatro Estações em Havana, baseada nos romances de Mario Conde, com o ator cubano Jorge Perugorría no papel do detetive. A adaptação foi elogiada pela forma como captou a atmosfera de Havana — a luz difusa, os carros americanos dos anos 50, as ruas cheias de histórias — e pela fidelidade ao espírito melancólico e literário do protagonista.

A série abriu a obra de Padura a novos públicos em todo o mundo, tornando Mario Conde num dos detetives literários mais reconhecidos da América Latina.


O que vale a pena ler (e por onde começar)

Para quem descobre Padura pela primeira vez, a escolha do primeiro livro depende do que se procura:

Se procuras…Começa por…
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Uma introdução ao Mario Conde e à Havana dos anos 90Máscaras (1997) — o mais literariamente rico da série
Uma obra histórica monumental e perturbadoraEl Hombre que Amaba a los Perros (2009)
A melancolia do Conde mais maduro, entre nostalgia e livrosLa Neblina del Ayer (2009)
Uma reflexão sobre identidade cubana e exílioLa Novela de mi Vida (2002)
A obra mais recente e mais longaPersonas Decentes (2023)

O legado: um escritor para o século XXI

Leonardo Padura criou algo que poucos escritores conseguem: uma obra que é simultaneamente popular e literariamente exigente, profundamente local e universalmente ressonante. Mario Conde é uma criação que pertence ao cânone dos grandes detetives literários — ao lado de Philip Marlowe, Hercule Poirot ou Pepe Carvalho.

Mas o legado de Padura vai além do policial. É o legado de um escritor que, ao recusar-se a sair de Cuba, transformou a lealdade numa forma de resistência; que, ao escrever sobre os mortos — Trotsky, Heredia, Mercader —, nos fala sempre dos vivos; e que, ao construir o seu Havana literário tijolo a tijolo, criou um monumento à memória de uma geração inteira.

Nos seus romances, Cuba não é um símbolo nem um argumento. É uma ilha real, com cheiro a mar e a fritura, com vizinhos que bebem rum e discutem basebol, com funcionários corruptos e sonhadores frustrados. É esse realismo implacável, temperado por uma prosa elegante e uma compaixão profunda pelos seus personagens, que faz de Padura um escritor verdadeiramente incontornável.

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Dante Alighieri — O poeta que inventou o Além

“Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura”
(“No meio do caminho da nossa vida / me vi numa floresta escura”)
— Divina Comédia, Inferno, Canto I

Visão Geral

Dante Alighieri (1265–1321) é uma das figuras mais monumentais da história da literatura mundial. Poeta, filósofo, político e linguista, este florentino que viveu e escreveu na transição entre a Idade Média e o Renascimento legou à humanidade uma obra que, sete séculos depois, continua a ser lida, estudada, ilustrada e adaptada em todos os cantos do globo. A Divina Comédia, o seu opus magnum, não é apenas poesia: é uma enciclopédia do saber medieval, uma síntese da teologia cristã e da filosofia clássica, e um espelho da condição humana em toda a sua grandeza e miséria.

Considerado o “pai da língua italiana”, Dante foi o primeiro grande escritor a tomar a decisão — então revolucionária — de compor a sua obra-prima não em latim, a língua dos eruditos, mas no vulgar florentino que todos falavam nas ruas. Este gesto democrático transformou para sempre a literatura europeia.

I. A Florença de Dante: Um Mundo em Ebulição

A Cidade-Estado e os seus Conflitos

Dante nasceu em Florença, provavelmente em maio de 1265, numa família de baixa nobreza guelfa. A cidade que o viu crescer era um caldeirão político permanente: as duas grandes facções italianas, os Guelfos (apoiantes do Papa) e os Gibelinos (apoiantes do Imperador), travavam batalhas sangrentas pelo controlo das cidades-estado. O próprio poeta combateu na Batalha de Campaldino em 1289, quando o exército guelfo de Florença derrotou os gibelinos de Pisa e Arezzo.
A vitória guelfa não trouxe a paz, porque o partido vencedor rapidamente se cindiu em duas facções rivais: os Guelfos Brancos — moderados, que respeitavam o papado mas resistiam à sua ingerência política — e os Guelfos Negros — radicais, aliados do Papa Bonifácio VIII. Dante pertencia aos brancos, e esta escolha política seria a causa da sua ruína pessoal e, paradoxalmente, o motor da sua maior obra.

Política e Queda

Em 1300, Dante atingiu o pico da sua carreira política: foi eleito prior do Conselho de Florença, um dos cargos mais elevados da cidade. Mas quando Carlos de Valois, enviado pelo Papa, entrou em Florença e permitiu que os Guelfos Negros tomassem o poder, Dante — que se encontrava em Roma em missão diplomática — foi condenado in absentia por corrupção e oposição ao Papa. Em 1302, a sentença foi agravada: pena de morte caso pusesse os pés em Florença.

O decreto que exilou Dante só seria revogado pela cidade de Florença mais de 700 anos depois — em 2008.
O exílio forçado durou os últimos vinte anos da vida do poeta. Peregrinou por Forlì, Verona, Bolonha, Pádua, Veneza, Ravena — vivendo sob a proteção das famílias governantes do norte de Itália. Em 1315, recebeu uma proposta de amnistia que recusou por a considerar humilhante: teria de se declarar culpado publicamente. Morreu em Ravena, na noite de 13 para 14 de setembro de 1321, vítima de malária.


II. O Homem e o Poeta: Vida Interior

Uma Paixão Impossível: Beatriz

A história de Dante não pode ser contada sem Beatriz Portinari. Dante tinha nove anos quando a viu pela primeira vez, numa festa em casa dos Portinari no dia 1 de maio. Ela tinha oito. O poeta ficou instantaneamente apaixonado, e esse amor — nunca correspondido, nunca consumado — tornou-se o combustível de toda a sua criação poética.
O segundo encontro registado ocorreu anos mais tarde, numa rua de Florença, quando Beatriz caminhava vestida de branco, acompanhada por duas mulheres. Poucos momentos partilhados, mas suficientes para que Dante os transformasse em eternidade literária. Em 1290, Beatriz morreu prematuramente — tinha apenas 24 anos — e a dor desse luto tornou-se o impulso criativo da Vita Nuova.

A tradição que identifica Bice di Folco Portinari como a Beatriz de Dante é hoje amplamente aceite pelos investigadores. No plano literário, Beatriz transcende a mulher real: na Divina Comédia, transforma-se na guia celestial que conduz Dante pelo Paraíso, símbolo da graça divina e da sabedoria transcendente.

Casamento e Família

Apesar do amor por Beatriz, Dante cumpriu os acordos familiares: casou-se com Gemma Donati por volta de 1285, numa aliança entre as duas famílias. Com ela teve quatro filhos — Pietro, Jacopo, Antonia e provavelmente um quarto filho — embora nunca os mencione nos seus escritos. Durante o exílio, a família ficou em Florença; Dante nunca mais viveu com ela.

III. A Obra: Um Mapa do Saber Medieval

Vita Nuova (c. 1292–1293)

A Vita Nuova (“Vida Nova”) é o primeiro grande testemunho literário do amor de Dante por Beatriz. Composta por 31 poemas — maioritariamente sonetos — intercalados com comentários em prosa onde o autor analisa a sua própria criação, a obra inaugura uma forma literária nova: a autobiografia poética. A língua escolhida é o toscano — tanto para os poemas como para os comentários, o que era inovador. Beatriz é apresentada como a personificação do Amor que impulsiona o poeta em direção às virtudes e à perfeição.

Convivio e De Vulgari Eloquentia (c. 1304–1307)

O Convivio (“O Banquete”) é uma obra filosófica inacabada, composta por quatro tratados, onde Dante defende o uso da língua vulgar como veículo legítimo do conhecimento — mais democrático e acessível que o latim. Em paralelo, o De Vulgari Eloquentia (“Sobre a Eloquência Vulgar”) — curiosamente escrito em latim — é o primeiro tratado sistemático sobre a língua italiana, onde Dante reflete sobre qual dos dialetos italianos merece elevar-se a língua literária.

De Monarchia (c. 1310–1313)

Tratado político em três livros, o De Monarchia expõe as ideias políticas de Dante com clareza radical: defende a supremacia do poder temporal sobre o poder papal e a necessidade de um Imperador universal que garanta a paz no mundo, independente da autoridade da Igreja. A obra foi incluída no Índice dos Livros Proibidos pela Igreja Católica — prova do quanto incomodava.


IV. A Divina Comédia: A Obra que Mudou Tudo

A Divina Comédia — que Dante simplesmente chamou Comédia (o adjetivo “Divina” foi acrescentado pelo escritor Giovanni Boccaccio, em sinal de reverência) — é a maior realização literária da Idade Média e um dos textos mais influentes da história da humanidade.

Composta provavelmente entre 1307 e 1321, é uma viagem alegórica ao mundo dos mortos: Dante-personagem percorre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, guiado primeiro pelo poeta latino Virgílio e depois pela sua amada Beatriz.

Estrutura e Numerologia Sagrada

A arquitetura da obra é de uma simetria matemática impressionante, baseada no número 3 — símbolo da Santíssima Trindade:

  • 100 cantos no total: 34 no Inferno (1 introdutório + 33) e 33 cada no Purgatório e no Paraísoclube.literaturaclassica.
  • Cada canto é composto em tercetos de decassílabos (versos de 10-11 sílabas), rimados num esquema encadeado ABA BCB CDC — a terza rima, inventada por Dante
  • O número 33 evoca a idade de Cristo e a perfeição da Trindade; 100 é o número da perfeição absoluta
  • O total de versos é de 14.233 linhas poéticas

O Inferno: Nove Círculos de Punição

O Inferno é uma catedral de condenados, estruturada em nove círculos concêntricos que descem em espiral até ao centro da Terra, onde Lúcifer está aprisionado. Cada círculo acolhe pecadores punidos pela contrapasso — a punição espelha simetricamente o pecado cometido em vida:

CírculoPecadoPunição
1 — LimboVirtudes sem fé cristãTristeza sem tormento
2LuxúriaSoprados por ventos eternos
3GulaMergulhados em lama e chuva
5IraLutas num pântano fétido
6HeresiaSepultados em sepulcros ardentes
7ViolênciaRio de sangue fervente
8FraudeDez bolsas de tormentos específicos
9TraiçãoAprisionados no gelo eterno

O Purgatório: Ascensão e Redenção

O Purgatório é uma montanha de sete terraços, correspondentes aos sete pecados capitais, onde as almas expiam os seus erros com esperança de salvação. É o único dos três reinos onde existe o tempo e a possibilidade de mudança — a dimensão mais humana da obra.

O Paraíso: Luz e Beatitude

O Paraíso organiza-se segundo a cosmologia ptolemaica — nove esferas celestiais correspondentes aos planetas — até ao Empíreo, onde Deus reside como Luz pura. Beatriz guia Dante até à Rosa Mística, onde o poeta contempla finalmente o Amor que move o sol e as outras estrelas — o verso final da obra.


V. A Síntese Filosófica: Entre Aristóteles e o Paraíso

Dante não era apenas poeta: era um filósofo que dominou o saber enciclopédico do seu tempo. A Divina Comédia é inseparável do contexto intelectual da escolástica medieval, onde a razão (representada por Aristóteles) e a fé (representada pela teologia cristã de Tomás de Aquino) se esforçavam por dialogar.

Tal como Tomás de Aquino sistematizou Aristóteles à luz do Evangelho, Dante tomou Virgílio — o maior poeta pagão — como guia pelo Inferno e Purgatório: um símbolo de que a razão humana pode conduzir até certo ponto, mas que a graça divina (Beatriz) é necessária para alcançar o Paraíso. Esta síntese entre herança clássica e fé cristã faz de Dante a encruzilhada viva entre dois mundos.

Pai da Língua Italiana

O impacto linguístico de Dante é incalculável. Ao escrever a Divina Comédia no vulgar florentino — enriquecido com elementos latinos, sicilianos e provençais — criou uma língua literária que se tornou a base do italiano moderno. Foi ele o primeiro a questionar, no De Vulgari Eloquentia, se o “volgare” merecia a mesma dignidade literária que o latim. A resposta que deu com a sua obra foi definitiva: sim, e de forma inultrapassável.linguasagem.

Artistas Inspirados pela Comédia

A Divina Comédia funcionou como um catalisador para gerações de artistas de todas as disciplinas:

  • Sandro Botticelli (séc. XV) criou uma cartografia detalhada do Inferno e ilustrou a obra completa em pergaminho para Federico da Montefeltrow
  • Michelangelo foi influenciado pela iconografia dantesca
  • William Blake produziu ilustrações “claras, simples e enigmáticas” que se tornaram referência visual da obra
  • Gustave Doré (séc. XIX) criou as gravuras mais populares da Divina Comédia, tornando o Inferno visualmente reconhecível para o mundo moderno
  • Salvador Dalí também produziu a sua série de ilustrações da obra
  • Franz Liszt compôs uma Sinfonia Dante baseada na obra; Robert Schumann e Rossini também se inspiraram em Dante

Dante no Século XXI

O interesse por Dante não diminuiu com a distância temporal — paradoxalmente, cresceu. Em 2021, por ocasião dos 700 anos da sua morte, o Papa Francisco assinou a Carta Apostólica Candor Lucis Aeternae, descrevendo Dante como “profeta da esperança” e a Divina Comédia como “parte integrante da nossa cultura” e caminho de volta às raízes cristãs da Europa. Exposições em todo o mundo, novas traduções e estudos académicos assinalaram o centenário.

A Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa acolheu exposições comemorativas dedicadas a Dante, incluindo “Visões de Dante: O Inferno segundo Botticelli”. Em Portugal, a tradução de Jorge Vaz de Carvalho para a Imprensa Nacional foi uma das mais celebradas publicações do ano.


VII. O Túmulo de Ravena: Uma Injustiça Histórica

Dante morreu em Ravena, onde os seus restos mortais permanecem num mausoléu junto à Basílica de São Francisco. Florença — a cidade que o exilou, condenou à morte e de cujas pedras foi forçado a partir para sempre — reclamou várias vezes o seu corpo ao longo dos séculos. Ravena recusou sempre. A cidade que o acolheu guarda o seu poeta mais famoso; a que o traiu, apenas uma tumba vazia na Basílica de Santa Croce.


VIII. O Que Vale a Pena Ler e Ver

Para Começar a Ler Dante

ObraO que éPor onde começar
Vita NuovaAutobiografia poética do amor por BeatrizPrimeira obra; mais breve e acessível
Divina Comédia — InfernoPrimeira parte da obra-primaO Canto I (prólogo) e o Canto V (Paolo e Francesca)
Divina Comédia — PurgatórioA dimensão mais humana da obraCantos I, XI e XXVII
Divina Comédia — ParaísoA mais difícil, a mais luminosaCanto XXXIII (contemplação final)
De MonarchiaPensamento político dantescoPara quem se interessa por filosofia política

Traduções em Português Recomendadas

  • Jorge Vaz de Carvalho (Imprensa Nacional, 2021): A tradução portuguesa contemporânea mais completa e elogiada pela fidelidade poética
  • Cristiano Martins (Brasil): Clássica tradução em verso, amplamente disponível
  • Para leitores de língua portuguesa, a edição do Guia de Leitura da Literatura Clássica oferece uma excelente introdução estruturada

Para Ver e Explorar

  • Ilustrações de Gustave Doré: Disponíveis em alta resolução em museus digitais — um percurso visual incomparável pelo Inferno
  • Mapa do Inferno de Botticelli (Biblioteca do Vaticano): Uma das mais impressionantes cartografias artísticas da história
  • Exposição permanente em Ravena: O mausoléu de Dante e o complexo monumental que o rodeia são visita obrigatória
  • Museu Casa di Dante, Florença: Sobre a vida e o contexto histórico do poeta

Conclusão

Dante Alighieri é daqueles escritores que não se “terminam” — são sempre maiores do que a última vez que os lemos. A Divina Comédia não é um poema sobre o além: é um poema sobre o aquém, sobre a condição humana, sobre a perda, o amor, o poder, a injustiça, a esperança e a redenção. Escrita num exílio doloroso, por um homem que perdeu tudo — a cidade, o amor, a família, a carreira —, é paradoxalmente um testemunho de que a arte sobrevive ao sofrimento que a gera.

Sete séculos depois, o florentino de túnica vermelha e coroa de louros continua a guiar-nos — como Virgílio a Dante — pelas florestas escuras da nossa própria existência.

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Os Lusíadas também são imagens: a lição de Frederico Lourenço para quem ensina Camões

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Há frases que ficam connosco mais tempo do que uma aula inteira. «Cada vez mais me convenço de que Os Lusíadas são também imagens.» Foi assim que Frederico Lourenço resumiu, numa conversa pública com o editor Francisco José Viegas por ocasião do Dia de Camões de 2024, uma ideia que me parece ter mais alcance pedagógico do que se possa imaginar à primeira vista (Saraiva, 2024). Não é apenas uma observação sobre o estilo de um poeta do século XVI. É, no fundo, um convite a repensar a forma como apresentamos Os Lusíadas aos alunos — e a perguntar porque é que tantos deles continuam a associar o nome de Camões a um exercício de resistência, e não de descoberta.

A conversa aconteceu na Feira do Livro de Lisboa, a 10 de junho de 2024, dia em que se assinalam simultaneamente a morte do poeta, em 1580, e o seu quinto centenário de nascimento, ainda que nenhuma fonte confirme com certeza absoluta o ano em que Camões nasceu. O pretexto foi o lançamento de Camões — Uma Antologia, da editora Quetzal, com seleção e comentário do próprio Frederico Lourenço, professor de línguas e literaturas clássicas na Universidade de Coimbra e tradutor de Homero, Horácio, Vergílio e da Bíblia. O volume tem 630 páginas e reúne as passagens mais marcantes d’Os Lusíadas e da lírica camoniana, acompanhadas de um comentário que se pretende, em simultâneo, acessível e erudito (Lourenço, 2024). Vale a pena conhecer o livro. Mas vale também a pena ler a entrevista que o acompanhou, porque nela há, pelo menos, quatro ideias que tocam diretamente naquilo que se passa — ou se devia passar — numa aula de Português.

Um poeta sem retrato seguro, e o que isso ensina sobre fontes

Comecemos pelo que talvez surpreenda mais os alunos: sabemos espantosamente pouco sobre a vida de Camões. Não há documento que confirme o dia, o ano ou o local do seu nascimento. As certezas reduzem-se, praticamente, a quatro datas: a prisão em 1552, a partida para a Índia em 1553, o regresso a Portugal em 1569 e a primeira edição d’Os Lusíadas, em 1572 — além, claro, da data da morte, a 10 de junho de 1580. Tudo o resto, incluindo a célebre perda de um olho ou a passagem pela Universidade de Coimbra, é suposição construída ao longo dos séculos.

Frederico Lourenço sugere, e parece-me uma chave de leitura particularmente útil para a escola, que esta escassez documental transformou a vida de Camões numa espécie de tela em branco onde cada geração projeta a sua própria imagem do poeta. É um excelente ponto de partida para trabalhar, em sala de aula, a diferença entre facto verificável e suposição plausível — uma distinção que está no centro de qualquer literacia da informação e que continua a ser, hoje, tão urgente perante um motor de busca como era no século XIX perante um manuscrito perdido. Ensinar os alunos a perguntar «como se sabe isto?» diante de uma biografia de Camões é, no fundo, o mesmo exercício que lhes pedimos quando avaliam uma fonte na internet ou uma resposta gerada por inteligência artificial: separar o que está documentado do que é, apenas, uma narrativa convincente.

Ler “Os Lusíadas” como quem olha para um quadro

A ideia central da entrevista, e a que lhe dá título, é a leitura pictórica d’Os Lusíadas. Frederico Lourenço estabelece um paralelo entre a construção poética de Camões e a pintura de Ticiano — não por acaso, a capa da nova antologia reproduz o mito de Diana e Acteão, tema que fascinou tanto o poeta português quanto o pintor veneziano. Para Lourenço, a obra tem uma dimensão arquitetónica, pela exímia construção do poema, e uma dimensão pictórica, pela beleza das imagens e das cores que o atravessam.

Esta observação tem uma aplicação direta na sala de aula, e talvez seja a mais subaproveitada de todas. Há muito que a investigação em literacias reconhece que aprender a ler um texto complexo e aprender a ler uma imagem complexa mobilizam competências interligadas, e que cruzar as duas leituras facilita o acesso a obras que, de outro modo, intimidam pela sua densidade verbal. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória já identifica as literacias múltiplas — entre elas a leitura visual — como um alicerce transversal da aprendizagem (Ministério da Educação, 2017), e a própria UNESCO recomenda, há mais de uma década, que a educação para os media e para a informação integre sistematicamente a análise de imagens ao lado da análise de texto (Wilson et al., 2011). Pedir aos alunos que comparem uma estância d’Os Lusíadas com um quadro renascentista que trate o mesmo episódio mitológico não é um exercício de enriquecimento cultural avulso: é treino direto de competências que o currículo já exige, só que raramente as articula com a poesia épica do século XVI.

A pergunta que continua a dividir-nos: celebrar ou questionar o império?

Há, contudo, uma questão mais incómoda, e Frederico Lourenço não a evita. Os Lusíadas foram, durante séculos, lidos sobretudo como justificação de uma visão imperial — leitura que ganhou força crescente a partir da União Ibérica, em 1580, e que o Estado Novo explorou intensamente, num paralelo que a própria entrevista traça com o uso que Mussolini fez da Eneida de Vergílio. Mas essa não é a única leitura possível, e talvez nem seja a mais fiel ao texto. Já em 1959, em plena ditadura, um estudioso português propôs uma contraleitura, identificando no Velho do Restelo a voz crítica do próprio Camões em relação à aventura ultramarina. E, se lermos com atenção o Canto X, a profecia da ninfa sobre as futuras conquistas portuguesas descreve, sem rodeios, episódios de violência que dificilmente cabem numa narrativa de pura glória.

Esta tensão entre celebração e crítica não é uma curiosidade académica distante do currículo: está, literalmente, nele. As Aprendizagens Essenciais de Português para o 12.º ano incluem precisamente as estâncias do Canto X dedicadas às reflexões finais do poeta, ao lado de excertos do Canto I, V, VII, VIII e IX (Direção-Geral da Educação, 2018). Ou seja, o material que permite trabalhar esta leitura dupla já está nas mãos dos professores — falta, muitas vezes, o convite explícito a fazê-lo. E o ano de 2024 trouxe esse convite de forma quase simbólica: os 500 anos de Camões coincidiram com os 50 anos do 25 de Abril, e é difícil pensar em melhor ocasião para perguntar aos alunos que leitura faz sentido hoje, num país que já não precisa d’Os Lusíadas para sustentar a sua autoestima coletiva, mas que continua a precisar de instrumentos para pensar criticamente o seu próprio passado colonial. É também aqui que a disciplina de Português se cruza de forma mais natural com os domínios da Cidadania e Desenvolvimento.

Uma “rapsódia”: como entrar no poema sem se perder nele

Um dos aspetos mais interessantes da nova antologia é a lógica que presidiu à escolha dos excertos. Inspirando-se nos antigos rapsodos que recitavam Homero e na hipótese, defendida por vários investigadores, de que a Ilíada terá crescido por acumulação de episódios a partir de um núcleo mais breve, Frederico Lourenço perguntou-se se Os Lusíadas não terão sido compostos de forma semelhante — com um essencial escrito primeiro e episódios de ornamento acrescentados depois. A partir dessa hipótese, construiu uma seleção que retém cerca de 70% do poema, organizada de modo a permitir uma leitura corrida, sem que falte nenhuma peça fundamental para a compreensão do todo.

Para quem ensina, este é um modelo didático em si mesmo. Mostra que selecionar excertos com critério, em vez de tentar abarcar o poema na íntegra ou de o reduzir a meia dúzia de estâncias avulsas para exame, pode ser a diferença entre um aluno que desiste ao terceiro canto e um aluno que chega ao décimo com uma ideia clara do que leu. A curadoria de um texto canónico — decidir o que entra, o que fica de fora e porquê — é, ela própria, um exercício de leitura crítica que vale a pena tornar visível na sala de aula, em vez de o esconder atrás de uma antologia já pronta.

Do manuscrito perdido ao ecrã: aceder às fontes de Camões hoje

Há um contraste que a entrevista sugere sem o explorar até ao fim, e que me parece particularmente relevante: o acesso ao conhecimento clássico, no tempo de Camões, era privilégio de poucos. O jovem poeta deve a sua extraordinária cultura latina, italiana e espanhola ao convívio com famílias nobres que mantinham bibliotecas privadas e ligações a instituições eclesiásticas — um acesso a fontes que a maior parte dos seus contemporâneos simplesmente não tinha. Hoje, esse acesso democratizou-se de uma forma que o próprio Camões dificilmente imaginaria.

A primeira edição d’Os Lusíadas, impressa em Lisboa em 1572, está digitalizada e disponível gratuitamente na Biblioteca Nacional Digital, tal como edições posteriores comentadas, incluindo a de 1613 e a monumental edição anotada por Manuel de Faria e Sousa, publicada em Madrid em 1639 — precisamente o comentarista que Frederico Lourenço refere na entrevista como o primeiro a tentar registar, de forma exaustiva, todas as fontes clássicas utilizadas por Camões. O Arquivo Nacional da Torre do Tombo disponibiliza igualmente, através da sua plataforma Digitarq, milhares de documentos da época que ajudam a reconstituir o contexto em que o poema foi escrito e recebido. Para um professor de Português, mostrar aos alunos a página de rosto da edição de 1572, tal como saiu da tipografia de Lisboa, tem um efeito que nenhuma reprodução em manual consegue replicar: torna tangível a distância de quase cinco séculos, e ao mesmo tempo a proximidade que a tecnologia tornou possível. Esta é, afinal, uma das formas mais simples de literacia digital aplicada ao património: saber que estas fontes existem, saber onde procurá-las e saber como as integrar numa aula sem depender de intermediários.

Para a sala de aula

Destas quatro ideias nascem, sem grande esforço, propostas de trabalho concretas. Uma possibilidade é pedir aos alunos que comparem uma estância d’Os Lusíadas com uma pintura renascentista do mesmo episódio mitológico — o mito de Diana e Acteão, presente na capa da antologia de Frederico Lourenço, é um ponto de partida evidente — e que identifiquem, em ambas as linguagens, os recursos usados para construir a mesma cena: a cor, o movimento, o enquadramento, a escolha do momento narrativo. Outra é organizar um debate estruturado em torno da leitura dupla d’Os Lusíadas, dividindo a turma entre uma defesa da leitura celebrativa e uma defesa da leitura crítica, usando como prova textual o discurso do Velho do Restelo e a profecia da ninfa no Canto X — ambos já presentes nas Aprendizagens Essenciais do 12.º ano —, e fechando a atividade com uma reflexão sobre o que esta tensão nos diz sobre a forma como Portugal lê hoje o seu próprio passado colonial. Uma terceira proposta é, simplesmente, levar os alunos à Biblioteca Nacional Digital para que vejam, com os seus próprios olhos, a edição original de 1572, e que depois discutam o que mudou — e o que não mudou — entre ler um poema impresso há quase 500 anos e ler esse mesmo poema disponível, hoje, a um clique de distância.

Nenhuma destas propostas substitui a leitura atenta dos versos. Mas todas ajudam a quebrar a barreira inicial que tantos alunos erguem perante Os Lusíadas só de ouvir o nome — e isso, sozinho, já justifica o esforço.

Uma última nota

O que mais fica desta entrevista não é propriamente uma resposta, mas a disposição com que Frederico Lourenço continua a interrogar um poema que conhece, presumivelmente, melhor do que qualquer outra pessoa viva. Depois de décadas de estudo, de uma tradução premiada da Bíblia, de uma vida dedicada aos clássicos, é ainda capaz de dizer que está «cada vez mais» convencido de algo — não menos. Para quem ensina, talvez seja este o exemplo mais valioso de todos: o de que um texto canónico nunca está definitivamente explicado, e de que cada nova geração de leitores, com as suas próprias ferramentas e as suas próprias perguntas, tem ainda algo de novo para lhe descobrir.


Nota editorial: a entrevista escrita por José Cabrita Saraiva, parte da entrevista de Francisco José Viegas a Frederico Lourenço, publicada no jornal SOL em 26 de junho de 2024, por ocasião do lançamento da obra Camões — Uma Antologia (Quetzal). As referências ao currículo português, ao Perfil dos Alunos e aos arquivos digitais mencionados foram verificadas diretamente nas fontes oficiais indicadas abaixo.

Referências

Direção-Geral da Educação. (2018). Aprendizagens essenciais: Português, 12.º ano, ensino secundário. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Aprendizagens_Essenciais/12_portugues.pdf

Lourenço, F. (2024). Camões — Uma antologia. Quetzal.

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Direção-Geral da Educação. https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Saraiva, J. C. (2024, 26 de junho). Frederico Lourenço: «Cada vez mais me convenço de que Os Lusíadas são também imagens». SOL. https://sol.iol.pt/2024/06/26/frederico-lourenco-cada-vez-mais-me-convenco-de-que-os-lusiadas-sao-tambem-imagens

Wilson, C., Grizzle, A., Tuazon, R., Akyempong, K., & Cheung, C. K. (2011). Media and information literacy curriculum for teachers. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000192971

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