Muito ego, pouca introspecção — e a escola no meio disto tudo

A escritora Marta Jiménez Serrano disse numa entrevista recente algo que ficou a ecoar: «Vivemos numa época de muito ego e pouca introspecção.» Podia tê-lo dito um professor a observar uma turma. Ou um diretor numa reunião de avaliação. Ou qualquer um de nós ao olhar para as redes sociais. A frase é simples, mas aponta para um problema que a escola conhece bem — e para o qual ainda não encontrou resposta suficiente.

Marta Jiménez Serrano é escritora espanhola. Em maio de 2026, publicou Oxígeno (Alfaguara), um romance autobiográfico sobre uma intoxicação por monóxido de carbono que quase a matou a ela e ao seu companheiro, o escritor Juan Gómez Bárcena, num dia de outono de 2020. O livro parte de um facto concreto — a negligência de uma senhoria, um acidente doméstico, a fronteira ténue entre a vida e a morte — para falar de coisas muito maiores: a fragilidade da existência, o medo, o amor, a responsabilidade, a comunicação com o outro.

Numa entrevista à revista Ethic, publicada a 19 de maio de 2026, Marta disse coisas que merecem ser lidas com atenção. Não porque falem de escola — não falam diretamente —, mas precisamente porque falam de tudo aquilo que acontece antes de um jovem entrar numa sala de aula e que continua depois de sair. Falam de como nos relacionamos connosco próprios e com os outros. E isso, como qualquer professor sabe, é o centro de tudo.

O ego que se vê, o eu que se esconde

Há uma distinção que Marta faz na entrevista e que vale a pena guardar: a diferença entre ego e eu. O ego, diz ela, está voltado para fora — é a imagem, a performance, o que os outros veem. O eu, esse, exige introspecção. Exige parar, descer, olhar para dentro sem a pressão de parecer bem.

Esta distinção não é nova — a psicologia há muito a trabalha —, mas ganha hoje uma dimensão que as gerações anteriores não conheceram com esta intensidade. Os jovens que habitam as escolas cresceram numa lógica de exposição permanente: perfis, seguidores, stories, reações, comparações em tempo real. O ego não é apenas cultivado; é exigido. Mostrar dúvidas, fragilidades ou contradições tornou-se um risco. E o resultado é uma geração que sabe construir imagens mas que, muitas vezes, tem dificuldade em habitar-se a si própria.

A escola raramente questiona isto. Avaliam-se competências, medem-se resultados, premeia-se o desempenho visível. Mas quanto espaço existe, no dia a dia escolar, para aquilo que não se vê — a dúvida, a incerteza, o conhecimento de si? A introspecção não é um valor decorativo. É uma ferramenta. Quem se conhece melhor toma decisões mais conscientes, relaciona-se com mais empatia e suporta melhor a adversidade. E isso aprende-se — ou não se aprende — na escola.

A escrita como lugar de chegada a si próprio

Marta Jiménez Serrano diz que a terapia e a escrita são, para ela, duas formas de introspecção. Não por acaso: ambas obrigam a pôr palavras no que se sente, e esse gesto de nomear é já, em si mesmo, um ato de compreensão.

Na escola, a escrita continua a ser, em grande medida, uma ferramenta de avaliação. Escreve-se para mostrar o que se sabe. Escreve-se para a nota. Há professores que conhecem o valor de escrever de outra forma — de escrever para pensar, para explorar, para chegar a algo que ainda não se sabia que se pensava —, mas essa prática está longe de ser sistemática.

A escrita pessoal, o diário, a narrativa autobiográfica, a carta que nunca se envia — estes géneros habitam as margens do currículo, quando habitam algum sítio. E no entanto são exactamente estes os géneros que desenvolvem a capacidade de olhar para dentro, de organizar a experiência emocional, de dar sentido ao caos interior que qualquer adolescente conhece bem.

Marta conta que ao escrever Oxígeno conseguiu «colocar e entender o trauma, pôr palavras no que viveu». Não é uma afirmação banal. É o reconhecimento de que escrever pode ser curar — ou pelo menos ajudar a compreender o que dói. Os professores de Português sabem disto. Poderiam partilhá-lo mais.

Responsabilidade: a palavra que incomoda

Há um conceito que atravessa toda a entrevista e que Marta assume com clareza: a responsabilidade. Não no sentido punitivo ou moralizante, mas no sentido de «fazer-nos cargo do que nos toca».

É interessante que ela reconheça ao mesmo tempo os problemas estruturais — a crise da habitação, as condições materiais que afetam a saúde mental — e a necessidade de cada um assumir o que pode mudar. Não é uma lógica de culpabilização individual; é uma recusa do fatalismo que serve de desculpa para a inação. «É fácil atirar a bola para fora», diz ela, «mas somos todos responsáveis por muitas das coisas do nosso dia a dia.»

Esta tensão entre constrangimento estrutural e agência individual é uma das mais difíceis de trabalhar em contexto escolar. Os jovens que chegam às escolas carregam histórias muito diferentes — condições económicas, contextos familiares, trajetórias marcadas por inequidades que não escolheram. A escola não pode ignorar isso. Mas também não pode deixar de cultivar a ideia de que, mesmo dentro de margens estreitas, há escolhas. E que fazer escolhas é um exercício que se pratica — ou que se perde por falta de prática.

Ensinar responsabilidade não é fazer sermões. É criar condições para que os jovens experimentem, falhem, reflitam e voltem a tentar. É modelar comportamentos — o professor que assume os seus erros, o diretor que explica as suas decisões, o adulto que não faz o que prometeu e o reconhece — porque os jovens aprendem muito mais pelo que veem fazer do que pelo que ouvem dizer.

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Suportar o sofrimento — o próprio e o dos outros

Talvez o ponto mais perturbador da entrevista de Marta seja este: «Temos pouca tolerância à tristeza alheia, mas também nos custa muito suportar a nossa.» E acrescenta: «Queremos estar bem a todo o custo, e exigimos o mesmo aos outros, deixamos pouco espaço para a dor e a angústia porque vivemos com pressa.»

Isto tem uma tradução directa na escola. A pressão para que os jovens estejam «bem», para que superem as dificuldades rapidamente, para que não interrompam o funcionamento normal das aulas com o peso das suas histórias — esta pressão existe, muitas vezes sem intenção, nas rotinas escolares. O sofrimento inconveniente é encaminhado para o psicólogo, para o diretor de turma, para outro sítio. E os próprios jovens aprendem depressa que certas emoções não têm lugar na sala de aula.

Mas a verdade é que o sofrimento não desaparece porque não tem espaço. Reaparece de outras formas — no comportamento, na apatia, nas relações. E os professores que criam, mesmo que brevemente, condições para que os alunos se sintam vistos e ouvidos nos seus estados reais — não apenas nos seus resultados — fazem uma diferença que nenhuma escala consegue medir com rigor.

Marta afirma que «o trauma quase nunca nasce da dor, mas de não deixarmos espaço para essa dor». É uma ideia que a psicologia do trauma confirma: o que magoa não é apenas o que acontece, mas a ausência de um espaço seguro onde isso possa ser processado. A escola pode ser esse espaço — não para todos, não sempre, mas com mais frequência do que é hoje.

A linguagem simples como acto político

Há um detalhe na entrevista que passou despercebido, mas que para quem trabalha com leitura e escrita em contexto escolar tem um peso considerável. Marta diz que quando escreveu o seu primeiro livro queria que a avó o entendesse — uma mulher que foi à escola apenas um ano, «não era uma mulher letrada». E acrescenta: «A cultura pode usar-se para ficar por cima do outro e como ascensor social, mas a mim interessa-me como lugar de encontro.»

Esta afirmação é uma posição. É uma recusa da literatura como sinal de estatuto, como linguagem de iniciados, como código que separa os que sabem dos que não sabem. É a defesa de uma escrita que inclui — e essa escolha, diz ela, é ideológica.

A escola vive uma tensão semelhante. A linguagem académica, o vocabulário técnico, as formas de escrever e de dizer que são valorizadas nos exames e nos relatórios — tudo isto pode funcionar como mecanismo de inclusão ou de exclusão. Os alunos que vêm de famílias onde esse capital linguístico circula naturalmente chegam com uma vantagem que não pediu para ser avaliada, mas que é avaliada todos os dias. Os que chegam sem esse vocabulário têm de aprender a língua da escola antes de poder mostrar o que sabem.

Não se trata de baixar o nível. Trata-se de perceber que a clareza é uma forma de respeito. Que explicar bem não é condescendência — é precisão. E que os professores que conseguem dizer coisas complexas de forma simples não estão a facilitar; estão a fazer um trabalho muito mais difícil do que os que se escondem atrás do jargão.

Ligar-se ao outro — e o que isso exige

«Os momentos em que a vida vale a pena são quando nos relacionamos com os outros», diz Marta. «Um vínculo verdadeiro não é algo que aconteça todos os dias. É difícil de conseguir.»

A escola é, pela sua natureza, um laboratório de relações. Acontecem ali coisas que não acontecem em mais nenhum lugar: grupos misturados por idade, por origem, por interesse — ou antes, sem qualquer interesse comum salvo o de estarem ali —, forçados a partilhar espaço, tempo e tarefas durante anos. Isso é complexo. É conflituoso. E é absolutamente essencial.

O que os jovens aprendem — ou não aprendem — sobre como estar com os outros, sobre como sustentar uma relação mesmo quando é difícil, sobre como comunicar o que sentem sem destruir o que têm, ficará com eles muito depois de se terem esquecido das datas históricas ou das fórmulas químicas.

Marta fala da incomunicação como uma das suas obsessões — «o intento de comunicar com o outro e sentir-me menos só». Há nesta frase um eco de algo que os professores conhecem: a solidão de estar rodeado de pessoas e não ser verdadeiramente visto. Esse é talvez o sentimento mais comum nas escolas — e um dos menos reconhecidos.


Oxígeno é um livro sobre quase morrer. Mas é, sobretudo, um livro sobre o que fica quando se sobrevive: a pergunta sobre o que vale a pena, a consciência da fragilidade, a necessidade de se relacionar de verdade com os outros e consigo próprio. Não é um livro sobre escola. Mas fala, a cada página, daquilo que a escola deveria cultivar — e que muitas vezes não tem tempo, nem espaço, nem coragem para cultivar.

Vale a pena ler. E vale ainda mais a pena perguntar o que dele podemos trazer para a sala de aula.


Para trabalhar na escola

A entrevista e o livro de Marta Jiménez Serrano sugerem vários pontos de partida para trabalho em contexto escolar. Uma aula de Português pode explorar a escrita autobiográfica como forma de introspecção — não para avaliação, mas como exercício de escuta interior. Uma aula de Filosofia pode questionar a diferença entre ego e identidade, entre a imagem que projectamos e o que somos quando não estamos a ser observados. Uma sessão de tutoria pode abrir espaço para falar de responsabilidade — não como conceito abstrato, mas como prática concreta do dia a dia. E em qualquer disciplina, o modelo do professor que usa linguagem clara, que não se esconde atrás do vocabulário técnico, já é, em si mesmo, uma forma de inclusão.


Referências

Jiménez Serrano, M. (2026). Oxígeno. Alfaguara.

Tolosa, L. (2026, 19 de maio). Marta Jiménez Serrano: «Vivimos en una época de mucho ego y poca introspección». Ethic. https://ethic.es/entrevista-marta-jimenez-serrano-oxigeno


Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor: Manuel António Pina e o Teatro dos Descobrimentos

O medo do desconhecido, o peso da memória e a fronteira ténue entre o que se vê e o que se acredita. É em torno destas tensões que Manuel António Pina constrói uma das mais instigantes peças de teatro para jovens da literatura portuguesa contemporânea: Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor.​

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A Obra em contexto

Manuel António Pina (1943–2012), poeta, jornalista e escritor portuense, é um nome incontornável da literatura portuguesa. Reconhecido sobretudo pela sua poesia de linguagem despojada e filosófica, Pina dedicou também uma parte considerável da sua obra à literatura para crianças e jovens — e esta peça teatral é um exemplo brilhante dessa vertente.​

O drama revisita o universo dos Descobrimentos com um olhar que não é o da glorificação épica, mas sim o da humanidade frágil daqueles que nele participaram — os marinheiros anónimos, as mães que ficavam em terra, os físicos que tentavam curar com triaga e razão o que nem a ciência nem a fé conseguiam explicar.​


A estrutura: três tempos, uma memória

A peça organiza-se numa estrutura narrativa de três camadas temporais, como bonecas russas encaixadas umas nas outras:​

  • O Tempo Presente (cerca de 1520): Mestre João, físico e astrólogo, regressa velho e doente das Índias. Ao passar a Angra de S. Brás, perto do Cabo da Boa Esperança, recorda os acontecimentos que viveu naquele mesmo lugar.
  • O Tempo do Perfeito (cerca de 1501): Mestre João encontra um náufrago — o jovem Manuel — que recolhe a bordo e de quem ouve uma história perturbadora.
  • O Tempo do Mais-que-Perfeito (1488 e 1500): a história de Manuel, desde a infância em Massarelos, no Porto, até ao naufrágio na caravela de Bartolomeu Dias.

Esta arquitetura temporal sofisticada não é meramente técnica — é filosófica. O passado não está morto; está presente em Mestre João enquanto ele escreve, tal como o Adamastor está presente em Manuel enquanto navega. A memória é, ela própria, uma forma de não escapar ao destino.​


Manuel e o Adamastor: O sonho que se torna real

No coração da peça está uma ideia perturbadora e bela: um sonho pode ser uma verdade que ainda não aconteceu — ou uma verdade que já aconteceu, noutro lugar, ao mesmo tempo.​

Manuel, adolescente de 14 anos, sonha que o pai naufraga e que luta com um monstro gigantesco — a Avantesma — conseguindo salvá-lo. Quando o pai regressa da viagem de Bartolomeu Dias ao Cabo Tormentoso, conta que esteve prestes a morrer afogado, e que foi salvo por uma sombra misteriosa — homem ou anjo, não saberia dizer — que afugentou o monstro com grandes pancadas.​

“O meu sonho! A Avantesma! Meu Deus, foi tudo verdade!” — Manuel​

A coincidência aterra Manuel. Não conta o sonho a ninguém, mas sabe que, “lá longe, nos fundos do Mar Tenebroso, tem agora um inimigo terrível à sua espera, sedento de vingança.” Quando é chamado para a frota de Pedro Álvares Cabral e descobre que o barco passa pelo mesmo Cabo, a inevitabilidade do encontro torna-se opressiva.​


Mestre João: a razão perante o inexplicável

A figura de Mestre João é central na peça e representa uma das suas tensões mais ricas: a do homem de ciência que se vê forçado a reconhecer os limites do seu saber.​

Mestre João existiu historicamente — foi bacharel em Artes e Medicina, físico e cirurgião de D. Manuel I, e acompanhou a frota de Cabral. Na peça, Manuel António Pina constrói-o como um humanista que acredita na razão, na experiência e no testemunho dos sentidos — mas que, perante o Adamastor, hesita:​

“Mas quem poderá acreditar no testemunho dos seus sentidos perante coisas tão desconformes a todas as leis da natureza como as que me foi dado nesta mesma Angra de S. Brás ver e ouvir?”

No fim, Mestre João não resolve a tensão. Não afirma que o Adamastor é real nem que é ilusão. Diz apenas: “Na alma dos homens é que existem monstros e demónios, e não no mar.” — mas logo acrescenta, quando Manuel lhe pergunta se assim é mesmo que nos matam: “Eu creio que sim, filho… Mas que sei eu?”

Esta dúvida honesta é, talvez, a maior lição filosófica da peça.


O Adamastor: Entre Camões e o Medo Humano

O Adamastor, figura importada por Camões da mitologia grega e imortalizada em Os Lusíadas como o gigante guardião do Cabo das Tormentas, surge aqui não como alegoria épica mas como medo encarnado, como força que persegue os homens porque eles a invocaram — no sonho, na aventura, no desafio aos “Mares do Fim do Mundo”.​

A peça nota, em nota de rodapé, que o nome “Adamastor” é posterior aos acontecimentos narrados — é Camões que o populariza. Manuel chama-lhe simplesmente a Avantesma. Esta distinção é significativa: o monstro existe antes do nome. O nome só lhe dá forma literária; o medo já existia antes.​


As personagens secundárias e a dimensão humana

A peça ganha profundidade humana nas cenas em terra, no Porto de finais do século XV, onde vivem a mãe e a irmã Ana de Manuel. A mãe representa a resistência silenciosa das mulheres que ficavam — as que perdiam maridos, filhos e irmãos para o mar sem que ninguém escrevesse epopeias sobre elas:​

“Antes prouvera que nunca partisse a desafiar a vontade de Deus Nosso Senhor.”

Ana, a irmã mais nova, é a voz do equilíbrio e da esperança: “Trás a névoa vem o Sol, minha mãe, e trás um tempo vem outro.” Juntas, mãe e filha constroem um contraponto comovente à grandiosidade épica das viagens.​


Um final em aberto

A peça termina de forma deliberadamente ambígua, num Pretérito Indeterminado — uma designação temporal invulgar que o autor usa para o ato final. O Adamastor ergue-se sobre Manuel, arrasta-o para o mar… e depois, na praia, jaz o corpo de Manuel, “abandonado e só.”​

Morreu? Sobreviveu mais uma vez? A estrutura circular da peça — Manuel encontrado na praia no início e no fim — deixa a questão em aberto. O que os olhos veem pode ser a morte ou pode ser a salvação. A certeza não existe. Só o mar, e o silêncio.


Porquê ler esta obra?

Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor é uma obra que funciona em múltiplos registos:​

  • Para a História: oferece um retrato vívido e rigorosamente documentado da vida a bordo das naus dos Descobrimentos — alimentação, instrumentos náuticos, medição do tempo, vida quotidiana.
  • Para a Literatura: explora a intertextualidade com Camões e Gil Vicente (cujo Auto das Fadas é encenado a bordo na Cena 11).
  • Para a Filosofia: coloca, com seriedade e beleza, a questão dos limites do conhecimento humano e da relação entre razão e fé.
  • Para o Teatro: a sua estrutura em três tempos sobrepostos é um exercício notável de dramaturgia.

É uma peça que resiste à leitura fácil e convida a pensar — o melhor que qualquer obra de literatura pode fazer.


“Sempre haverá muitas sabedorias por saber. No fundo de todas as sabedorias sabidas reside um mistério onde não alcançam os nossos instrumentos e as nossas medidas nem as nossas palavras…”
— Mestre João, Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor, de Manuel António Pina​

Dois gigantes, uma noite: Lobo Antunes e Eduardo Lourenço frente a frente

Há conversas que ficam. Não porque sejam perfeitas nem porque digam tudo — mas precisamente porque deixam algo por dizer, qualquer coisa que continua a trabalhar em nós depois de fecharmos o ecrã ou sairmos da sala.

Foi o que aconteceu naquela noite de 30 de setembro de 2017, na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. No encerramento do FIC 2017, o escritor António Lobo Antunes e o filósofo Eduardo Lourenço sentaram-se frente a frente. Não para debater. Para conversar. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.


O Império que Nunca Existiu

Eduardo Lourenço chegou com um tema que podia parecer paradoxal: “um império que nunca existiu”. E no entanto, todos sabemos do que fala. Portugal construiu, ao longo de séculos, uma identidade assente numa missão histórica — ser o portador de uma fé, de uma língua, de uma presença no mundo. Um país pequeno, sul-europeu, quase na beira do mapa, que foi, durante dois séculos, o centro de uma aventura global no Oriente.

Só que esse império — glorioso nos livros, presente nos poemas de Camões, cantado e recantado — terminou. E não terminou de forma suave. Terminou a 25 de Abril de 1974, abruptamente, com o regresso de meio país de uma guerra que ninguém queria assumir ter perdido.

A pergunta que Eduardo Lourenço coloca, com a serenidade de quem passou a vida inteira a pensar nisso, é perturbante na sua simplicidade: fizemos o luto?


As Cartas de África

É aqui que entra Lobo Antunes. Não como teórico — como testemunha.

Eduardo Lourenço evoca as cartas que o escritor enviou à sua mulher durante o serviço militar em Angola. Cartas que se tornaram livro (D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto), e que são, na sua leitura, “uma espécie de póstuma do nosso império” — uma obra de luto individual que é também um luto colectivo.

Lobo Antunes responde com a sua voz inconfundível — por vezes irónica, por vezes crua — e fala de África não com nostalgia, mas com a lucidez dolorosa de quem esteve lá, viu o que havia para ver, e sobreviveu para contá-lo. A guerra colonial foi, nas suas palavras, uma prova de vida e de morte. E a literatura foi a forma de a sobreviver duas vezes.


Mais do que uma Conversa Literária

O que torna este encontro especial não é só o que se diz — é como se diz. Eduardo Lourenço, com os seus 94 anos à data, falava com uma clareza filosófica que era ao mesmo tempo poética. Lobo Antunes, mais irrequieto, mais físico na linguagem, mais cortante, equilibrava o tom com humor e afecto genuíno.

E havia entre eles qualquer coisa rara: amizade intelectual a sério. Não a pose do debate televisivo, não a encenação académica. Dois homens que se respeitavam profundamente, que tinham lido um ao outro com atenção, e que naquela noite se permitiram ser simplesmente eles próprios.

Eduardo Lourenço disse o que pensa de Lobo Antunes sem papas na língua: “não é um autor fácil, é exigente, é duro, é violento — mas tem uma singularidade fantástica”. E Lobo Antunes devolveu o elogio com a sua forma oblíqua de o fazer — contando histórias, desviando, regressando.

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O Que Fica

Há uma frase que Eduardo Lourenço deixou cair quase de passagem, mas que não se esquece:

“O império está perdido. Mas o que fica é aquilo que a memória mais exigente merece um futuro.”

É a língua. É sempre a língua. O único império que Portugal tem hoje — e que continua a crescer — não se mede em território. Mede-se em vozes, em livros, em conversas como aquela, em leitores de Maputo a São Paulo, de Lisboa a Goa.

E talvez seja por isso que vale a pena ver este vídeo. Não só pelo que dizem estes dois homens. Mas pelo que nos fazem pensar sobre nós próprios: quem somos, de onde viemos, e o que fazemos com a memória que herdámos sem pedir.

Às vezes, a melhor coisa que podemos fazer com o passado é olhá-lo de frente — sem açúcar, como disse Eduardo Lourenço — e continuar a caminhar.


O vídeo está disponível no YouTube, com a duração de pouco mais de uma hora. Vale cada minuto.
🎥 António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço no FIC 2017

“As Palavras São Sempre uma Distância”: Uma Conversa com António Lobo Antunes

Em 2001, o escritor e psiquiatra António Lobo Antunes sentou-se perante as câmaras do programa Por Outro Lado para uma das suas raras entrevistas televisivas. Com a frontalidade que o caracteriza, falou de literatura, da guerra em Angola, da infância solitária, da psiquiatria — e do que significa, afinal, escrever.

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A Infância e o Avô: o Alicerce de Tudo

Lobo Antunes cresceu num ambiente familiar onde a proximidade afetiva não era simples. Criança introspetiva e pouco sociável — “nunca fui muito sociável, continuo a não ser” —, encontrou no seu avô, Daniel, a figura fundadora de toda a sua existência. “É o homem fundador da minha vida e da minha maneira de ser”, afirmou, sem hesitação. É nesse contexto de solidão, de brincadeiras a sós, que germina a sensibilidade literária que viria a marcar décadas da ficção portuguesa.

As brincadeiras de infância, recorda ele, já pressentiam os seus livros. A língua de peixe, referida na sua obra, não era apenas um jogo — era já uma forma de reinventar o mundo pelas palavras.


A Guerra em Angola: o Silêncio que Fala

Depois de partir para Angola como médico militar, Lobo Antunes viveu experiências-limite que moldaram irreversivelmente a sua escrita. A companhia onde serviu foi, segundo disse na entrevista, um destino de “castigo” por ter sido candidato único oficial pela CDU. Ainda assim, recusa a narrativa fácil: nunca teve “razão de queixa” dos militares que o rodearam — “encontrei pessoas com comportamento exemplar em situações de limite”.

O coronel Melo Antunes, figura presente nesse período, é evocado com discrição, como alguém que manteve sempre o mesmo ponto de vista político, no desencanto e na coerência. A guerra, insiste Lobo Antunes, não deve ser romantizada nem instrumentalizada: “Quando se está na guerra, quaisquer que fossem as opiniões, não se está a desfrutar em cheio os fundamentos do colonialismo”.


Escrever é uma Salvação — e um Sofrimento

A escrita, na visão de Lobo Antunes, não é um ofício confortável. É “muito desgastante fisicamente”, capaz de deixar o autor “completamente exausto”. Mas é também, paradoxalmente, a sua “razão de viver” e a sua “salvação”. “É muito mais difícil não estar a escrever do que estar”, admitiu.

O processo criativo começa de forma agradável — quando o livro “está a formar na cabeça” e os problemas da escrita ainda não chegaram. Mas quando chegam as palavras, chegam também os problemas técnicos, as revisões, a distância entre o que se quer dizer e o que se consegue dizer.

“As palavras são sempre uma distância enorme entre os sentimentos da nossa vida e os resultados que conseguimos. E é muito bom e satisfatório essa distância. Tanto que o trabalho é difícil.”


Os Livros Como Organismos Vivos

Uma das imagens mais marcantes da entrevista é a do escritor como o artista chinês dos pratos: sempre a correr de um lado para o outro para manter tudo em equilíbrio instável. Os personagens dos seus livros “não são símbolos” — são pessoas que procuram, como todos nós, saber quem são.

Lobo Antunes rejeita a ideia de que um livro deva ser lido com uma “chave mestra”: “Não quero que abram um livro com a minha chave. Quero que apanhem os livros com quem aprendemos sempre.” O leitor não deve compreender — deve sentir. Tal como numa fechadura, o trabalho do leitor é encontrar o click certo, com paciência e sensibilidade.


Sucesso, Qualidade e o Mercado

Com ironia fina, o escritor fala da relação sempre problemática entre sucesso comercial e qualidade literária. Há grandes livros que passam despercebidos; há livros medíocres que esgotam edições. “Não existe uma relação direta entre o sucesso e a qualidade”, constata. E acrescenta: “É melhor desconfiar do sucesso”.

Para escrever de verdade, é necessária “disponibilidade interior” — algo que o mercado editorial, na sua lógica de quantidade e de “lixo a preço acessível”, não favorece. A literatura exige exclusividade: é uma questão de consciência, tempo e entrega total.


A Psiquiatria e o Outro

Médico e escritor: duas profissões que, em Lobo Antunes, não se excluem — alimentam-se. O contacto diário com o sofrimento humano nos hospitais psiquiátricos não o distanciou das pessoas; pelo contrário, ensinou-lhe que o sofrimento de um doente internado “não é certamente diferente do meu ou do seu”. As condições desumanizantes dos hospitais psiquiátricos preocupam-no, e a crítica é clara: o sistema trata as pessoas como se o seu sofrimento pudesse ser gerido burocraticamente.


Para Refletir

Esta entrevista de 2001 permanece surpreendentemente atual. Num tempo em que a literatura compete com mil distrações e o mercado impõe o efémero, a voz de Lobo Antunes lembra-nos que escrever — e ler — é sempre um ato de coragem e de autoconhecimento.

Como ele próprio disse: um livro não conta, não explica. Tem que ser tomado como tal.


Fontes: Entrevista de António Lobo Antunes no programa “Por Outro Lado”, RTP, 2001. Disponível em: youtube.com

Porquê ler os clássicos? uma viagem ao encontro das vozes imortais

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Ler nas Fontes: ¿Por qué leer los clásicos? | Leer a los clásicos

A palavra “clássico” pode impor um certo receio reverencial. Vem-nos à mente livros de natureza colossal, obras que resistiram ao tempo e continuam a falar-nos através dos séculos. Mas o que torna verdadeiramente um livro clássico e porque devemos dedicar-lhes o nosso tempo?

O Que Define Um Clássico

Italo Calvino afirmou que “os clássicos são esses livros de los cuales se suele oír decir ‘Estoy releyendo…’ y nunca ‘Estoy leyendo…'”. Um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, que se presta a incansáveis revisões e interpretações . São obras que, como escreveu Borges, “las generaciones de los hombres, urgidas por diversas razones, leen con previo fervor y con una misteriosa lealtad”.

Os clássicos são os superviventes do naufrágio do olvido, representam aquilo que Schopenhauer chamava de “literatura permanente”. São obras que uma nação, um grupo de nações ou o longo tempo decidiram ler como se nas suas páginas tudo fosse deliberado, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem termo.

O Tempo Como Crítico Literário

O tempo é o crítico literário por excelência, que nos faz o grande favor de separar o trigo do joio, ditando sentença imparcial quanto à verdadeira qualidade ou importância de uma obra. O que permanece, o que sempre fica, são os clássicos: fonte inesgotável de qualidade, conhecimento e, acima de tudo, humanidade.

Mark Twain escreveu, com a sua característica acidez, que um clássico é um livro que toda a gente elogia mas ninguém lê. Contudo, esta perceção apenas revela um dos grandes equívocos sobre os clássicos: associá-los a livros mortos, empoeirados e aborrecidos, cujo habitat natural parece ser o intelectualismo mais rançoso.

A Universalidade e a Renovação Constante

O principal atributo dos clássicos é a sua marcada universalidade, uma universalidade que logrou perviver ao longo dos anos. Um verdadeiro clássico não é aquele que resiste ao devir do tempo pela sua descafeinada influência, mas sim aquele livro que continua a transmitir a sua mensagem com tanta ou mais força como o fez no dia da sua publicação.

Um clássico nunca se mantém quieto, nunca repousa na sua velha glória, mas renova-se continuamente conforme as exigências de cada época. Como afirmou Azorín, nos clássicos vemos a nós mesmos, e esse “nós” nunca muda . Ao reler o passado, sucede que, em muitas ocasiões, estamos na realidade a ler acerca do presente.

O Encontro Pessoal com os Clássicos

Ler os clássicos pode ser comparado a uma viagem ao Hades homérico, onde oferecemos sangue — ou melhor, o nosso tempo — aos espíritos para que ganhem voz e nos falem. Como escreveu Sainte-Beuve, o importante de um clássico é que “nos devuelve nuestros propios pensamientos con toda riqueza y madurez” e nos dá “esa amistad que no engaña”.

Existem clássicos universais (Homero, Platão, Virgílio, Dante, Shakespeare, Cervantes), clássicos nacionais (Goethe, Quevedo, Racine) e, fundamentalmente, os nossos clássicos pessoais. Cada leitor tem os seus clássicos, aqueles com os quais se encontra mais à vontade e com os quais dialoga mais profundamente .

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Ler por Amor, Não por Obrigação

Como advertiu Calvino: “se não salta a faísca, não há nada a fazer: não se leem os clássicos por dever ou por respeito, mas apenas por amor”. A escola deve fazer-nos conhecer certo número de clássicos, mas as escolhas que contam são as que ocorrem fora ou depois de qualquer escola.

Reconhecer que nem todos os clássicos têm de o ser para nós — admitir que há “clássicos” aborrecidos e medíocres — é o primeiro passo para alcançar a liberdade como leitores. Os clássicos devem libertar-nos, e não amordaçar-nos contra a nossa vontade.

A Relevância dos Clássicos no Século XXI

Não devemos temer os clássicos nem esperar que transcorram séculos para que uma obra se torne clássica. A literatura moderna está repleta de potenciais clássicos, desde O Grande Gatsby até Cem Anos de Solidão, desde a poesia de T. S. Eliot até aos contos de Raymond Carver.

Os clássicos não são úteis no sentido prático — não nos curarão dores nem resolverão problemas económicos. Mas ajudam-nos a proporcionar uns alicerces necessários para aprendermos a discernir o bom do meramente oportuno . São obras que nos tornam mais humanos e, por isso, mais livres como pessoas.

O Diálogo Entre Tradição e Modernidade

Escrever literatura é entrar numa tradição ressonante que vem de longe. Escrevemos a partir das nossas leituras, numa tradição vertebrada em torno dos clássicos. Mesmo a vanguarda conta com a tradição, seja para se opor a ela ou para a continuar.

A melhor poesia e prosa do nosso tempo caracteriza-se por essa polifonia, esse jogo intertextual que é constitutivo da modernidade literária. Para percebermos a profundidade e a ironia dos textos modernos, precisamos de ter leituras dos antigos.

Conclusão: A Nossa Biblioteca Ideal

A última e mais reveladora definição de Calvino situa a essência dos clássicos no plano subjetivo do próprio leitor: “tu clásico es aquel que no puede serte indiferente y que te sirve para definirte a ti mismo”. Um verdadeiro clássico é aquele que nos muda irremediavelmente, que se converte em parte integral do nosso ser desde a sua leitura em diante.

Não há nada mais desprezível que uma leitura forçada. Aos clássicos devemos chegar por nossa conta, sem pressa mas sem pausa. Devemos inventar a nossa biblioteca ideal dos nossos clássicos. Porque, no final, se um livro não nos diz nada, simplesmente não é um bom livro para nós.

Como escreveu Cervantes: “Em algum lugar de um livro há uma frase à nossa espera para dar um sentido à existência”. Os clássicos são as raízes de uma árvore de extensos ramos e infinitas folhas, que nos ensinam a observar em profundidade a beleza e a estranheza do mundo . Por isso, estejamos tranquilos: clássicos haverá sempre.