Dante Alighieri — O poeta que inventou o Além

“Nel mezzo del cammin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura”
(“No meio do caminho da nossa vida / me vi numa floresta escura”)
— Divina Comédia, Inferno, Canto I

Visão Geral

Dante Alighieri (1265–1321) é uma das figuras mais monumentais da história da literatura mundial. Poeta, filósofo, político e linguista, este florentino que viveu e escreveu na transição entre a Idade Média e o Renascimento legou à humanidade uma obra que, sete séculos depois, continua a ser lida, estudada, ilustrada e adaptada em todos os cantos do globo. A Divina Comédia, o seu opus magnum, não é apenas poesia: é uma enciclopédia do saber medieval, uma síntese da teologia cristã e da filosofia clássica, e um espelho da condição humana em toda a sua grandeza e miséria.

Considerado o “pai da língua italiana”, Dante foi o primeiro grande escritor a tomar a decisão — então revolucionária — de compor a sua obra-prima não em latim, a língua dos eruditos, mas no vulgar florentino que todos falavam nas ruas. Este gesto democrático transformou para sempre a literatura europeia.

I. A Florença de Dante: Um Mundo em Ebulição

A Cidade-Estado e os seus Conflitos

Dante nasceu em Florença, provavelmente em maio de 1265, numa família de baixa nobreza guelfa. A cidade que o viu crescer era um caldeirão político permanente: as duas grandes facções italianas, os Guelfos (apoiantes do Papa) e os Gibelinos (apoiantes do Imperador), travavam batalhas sangrentas pelo controlo das cidades-estado. O próprio poeta combateu na Batalha de Campaldino em 1289, quando o exército guelfo de Florença derrotou os gibelinos de Pisa e Arezzo.
A vitória guelfa não trouxe a paz, porque o partido vencedor rapidamente se cindiu em duas facções rivais: os Guelfos Brancos — moderados, que respeitavam o papado mas resistiam à sua ingerência política — e os Guelfos Negros — radicais, aliados do Papa Bonifácio VIII. Dante pertencia aos brancos, e esta escolha política seria a causa da sua ruína pessoal e, paradoxalmente, o motor da sua maior obra.

Política e Queda

Em 1300, Dante atingiu o pico da sua carreira política: foi eleito prior do Conselho de Florença, um dos cargos mais elevados da cidade. Mas quando Carlos de Valois, enviado pelo Papa, entrou em Florença e permitiu que os Guelfos Negros tomassem o poder, Dante — que se encontrava em Roma em missão diplomática — foi condenado in absentia por corrupção e oposição ao Papa. Em 1302, a sentença foi agravada: pena de morte caso pusesse os pés em Florença.

O decreto que exilou Dante só seria revogado pela cidade de Florença mais de 700 anos depois — em 2008.
O exílio forçado durou os últimos vinte anos da vida do poeta. Peregrinou por Forlì, Verona, Bolonha, Pádua, Veneza, Ravena — vivendo sob a proteção das famílias governantes do norte de Itália. Em 1315, recebeu uma proposta de amnistia que recusou por a considerar humilhante: teria de se declarar culpado publicamente. Morreu em Ravena, na noite de 13 para 14 de setembro de 1321, vítima de malária.


II. O Homem e o Poeta: Vida Interior

Uma Paixão Impossível: Beatriz

A história de Dante não pode ser contada sem Beatriz Portinari. Dante tinha nove anos quando a viu pela primeira vez, numa festa em casa dos Portinari no dia 1 de maio. Ela tinha oito. O poeta ficou instantaneamente apaixonado, e esse amor — nunca correspondido, nunca consumado — tornou-se o combustível de toda a sua criação poética.
O segundo encontro registado ocorreu anos mais tarde, numa rua de Florença, quando Beatriz caminhava vestida de branco, acompanhada por duas mulheres. Poucos momentos partilhados, mas suficientes para que Dante os transformasse em eternidade literária. Em 1290, Beatriz morreu prematuramente — tinha apenas 24 anos — e a dor desse luto tornou-se o impulso criativo da Vita Nuova.

A tradição que identifica Bice di Folco Portinari como a Beatriz de Dante é hoje amplamente aceite pelos investigadores. No plano literário, Beatriz transcende a mulher real: na Divina Comédia, transforma-se na guia celestial que conduz Dante pelo Paraíso, símbolo da graça divina e da sabedoria transcendente.

Casamento e Família

Apesar do amor por Beatriz, Dante cumpriu os acordos familiares: casou-se com Gemma Donati por volta de 1285, numa aliança entre as duas famílias. Com ela teve quatro filhos — Pietro, Jacopo, Antonia e provavelmente um quarto filho — embora nunca os mencione nos seus escritos. Durante o exílio, a família ficou em Florença; Dante nunca mais viveu com ela.

III. A Obra: Um Mapa do Saber Medieval

Vita Nuova (c. 1292–1293)

A Vita Nuova (“Vida Nova”) é o primeiro grande testemunho literário do amor de Dante por Beatriz. Composta por 31 poemas — maioritariamente sonetos — intercalados com comentários em prosa onde o autor analisa a sua própria criação, a obra inaugura uma forma literária nova: a autobiografia poética. A língua escolhida é o toscano — tanto para os poemas como para os comentários, o que era inovador. Beatriz é apresentada como a personificação do Amor que impulsiona o poeta em direção às virtudes e à perfeição.

Convivio e De Vulgari Eloquentia (c. 1304–1307)

O Convivio (“O Banquete”) é uma obra filosófica inacabada, composta por quatro tratados, onde Dante defende o uso da língua vulgar como veículo legítimo do conhecimento — mais democrático e acessível que o latim. Em paralelo, o De Vulgari Eloquentia (“Sobre a Eloquência Vulgar”) — curiosamente escrito em latim — é o primeiro tratado sistemático sobre a língua italiana, onde Dante reflete sobre qual dos dialetos italianos merece elevar-se a língua literária.

De Monarchia (c. 1310–1313)

Tratado político em três livros, o De Monarchia expõe as ideias políticas de Dante com clareza radical: defende a supremacia do poder temporal sobre o poder papal e a necessidade de um Imperador universal que garanta a paz no mundo, independente da autoridade da Igreja. A obra foi incluída no Índice dos Livros Proibidos pela Igreja Católica — prova do quanto incomodava.


IV. A Divina Comédia: A Obra que Mudou Tudo

A Divina Comédia — que Dante simplesmente chamou Comédia (o adjetivo “Divina” foi acrescentado pelo escritor Giovanni Boccaccio, em sinal de reverência) — é a maior realização literária da Idade Média e um dos textos mais influentes da história da humanidade.

Composta provavelmente entre 1307 e 1321, é uma viagem alegórica ao mundo dos mortos: Dante-personagem percorre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, guiado primeiro pelo poeta latino Virgílio e depois pela sua amada Beatriz.

Estrutura e Numerologia Sagrada

A arquitetura da obra é de uma simetria matemática impressionante, baseada no número 3 — símbolo da Santíssima Trindade:

  • 100 cantos no total: 34 no Inferno (1 introdutório + 33) e 33 cada no Purgatório e no Paraísoclube.literaturaclassica.
  • Cada canto é composto em tercetos de decassílabos (versos de 10-11 sílabas), rimados num esquema encadeado ABA BCB CDC — a terza rima, inventada por Dante
  • O número 33 evoca a idade de Cristo e a perfeição da Trindade; 100 é o número da perfeição absoluta
  • O total de versos é de 14.233 linhas poéticas

O Inferno: Nove Círculos de Punição

O Inferno é uma catedral de condenados, estruturada em nove círculos concêntricos que descem em espiral até ao centro da Terra, onde Lúcifer está aprisionado. Cada círculo acolhe pecadores punidos pela contrapasso — a punição espelha simetricamente o pecado cometido em vida:

CírculoPecadoPunição
1 — LimboVirtudes sem fé cristãTristeza sem tormento
2LuxúriaSoprados por ventos eternos
3GulaMergulhados em lama e chuva
5IraLutas num pântano fétido
6HeresiaSepultados em sepulcros ardentes
7ViolênciaRio de sangue fervente
8FraudeDez bolsas de tormentos específicos
9TraiçãoAprisionados no gelo eterno

O Purgatório: Ascensão e Redenção

O Purgatório é uma montanha de sete terraços, correspondentes aos sete pecados capitais, onde as almas expiam os seus erros com esperança de salvação. É o único dos três reinos onde existe o tempo e a possibilidade de mudança — a dimensão mais humana da obra.

O Paraíso: Luz e Beatitude

O Paraíso organiza-se segundo a cosmologia ptolemaica — nove esferas celestiais correspondentes aos planetas — até ao Empíreo, onde Deus reside como Luz pura. Beatriz guia Dante até à Rosa Mística, onde o poeta contempla finalmente o Amor que move o sol e as outras estrelas — o verso final da obra.


V. A Síntese Filosófica: Entre Aristóteles e o Paraíso

Dante não era apenas poeta: era um filósofo que dominou o saber enciclopédico do seu tempo. A Divina Comédia é inseparável do contexto intelectual da escolástica medieval, onde a razão (representada por Aristóteles) e a fé (representada pela teologia cristã de Tomás de Aquino) se esforçavam por dialogar.

Tal como Tomás de Aquino sistematizou Aristóteles à luz do Evangelho, Dante tomou Virgílio — o maior poeta pagão — como guia pelo Inferno e Purgatório: um símbolo de que a razão humana pode conduzir até certo ponto, mas que a graça divina (Beatriz) é necessária para alcançar o Paraíso. Esta síntese entre herança clássica e fé cristã faz de Dante a encruzilhada viva entre dois mundos.

Pai da Língua Italiana

O impacto linguístico de Dante é incalculável. Ao escrever a Divina Comédia no vulgar florentino — enriquecido com elementos latinos, sicilianos e provençais — criou uma língua literária que se tornou a base do italiano moderno. Foi ele o primeiro a questionar, no De Vulgari Eloquentia, se o “volgare” merecia a mesma dignidade literária que o latim. A resposta que deu com a sua obra foi definitiva: sim, e de forma inultrapassável.linguasagem.

Artistas Inspirados pela Comédia

A Divina Comédia funcionou como um catalisador para gerações de artistas de todas as disciplinas:

  • Sandro Botticelli (séc. XV) criou uma cartografia detalhada do Inferno e ilustrou a obra completa em pergaminho para Federico da Montefeltrow
  • Michelangelo foi influenciado pela iconografia dantesca
  • William Blake produziu ilustrações “claras, simples e enigmáticas” que se tornaram referência visual da obra
  • Gustave Doré (séc. XIX) criou as gravuras mais populares da Divina Comédia, tornando o Inferno visualmente reconhecível para o mundo moderno
  • Salvador Dalí também produziu a sua série de ilustrações da obra
  • Franz Liszt compôs uma Sinfonia Dante baseada na obra; Robert Schumann e Rossini também se inspiraram em Dante

Dante no Século XXI

O interesse por Dante não diminuiu com a distância temporal — paradoxalmente, cresceu. Em 2021, por ocasião dos 700 anos da sua morte, o Papa Francisco assinou a Carta Apostólica Candor Lucis Aeternae, descrevendo Dante como “profeta da esperança” e a Divina Comédia como “parte integrante da nossa cultura” e caminho de volta às raízes cristãs da Europa. Exposições em todo o mundo, novas traduções e estudos académicos assinalaram o centenário.

A Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa acolheu exposições comemorativas dedicadas a Dante, incluindo “Visões de Dante: O Inferno segundo Botticelli”. Em Portugal, a tradução de Jorge Vaz de Carvalho para a Imprensa Nacional foi uma das mais celebradas publicações do ano.


VII. O Túmulo de Ravena: Uma Injustiça Histórica

Dante morreu em Ravena, onde os seus restos mortais permanecem num mausoléu junto à Basílica de São Francisco. Florença — a cidade que o exilou, condenou à morte e de cujas pedras foi forçado a partir para sempre — reclamou várias vezes o seu corpo ao longo dos séculos. Ravena recusou sempre. A cidade que o acolheu guarda o seu poeta mais famoso; a que o traiu, apenas uma tumba vazia na Basílica de Santa Croce.


VIII. O Que Vale a Pena Ler e Ver

Para Começar a Ler Dante

ObraO que éPor onde começar
Vita NuovaAutobiografia poética do amor por BeatrizPrimeira obra; mais breve e acessível
Divina Comédia — InfernoPrimeira parte da obra-primaO Canto I (prólogo) e o Canto V (Paolo e Francesca)
Divina Comédia — PurgatórioA dimensão mais humana da obraCantos I, XI e XXVII
Divina Comédia — ParaísoA mais difícil, a mais luminosaCanto XXXIII (contemplação final)
De MonarchiaPensamento político dantescoPara quem se interessa por filosofia política

Traduções em Português Recomendadas

  • Jorge Vaz de Carvalho (Imprensa Nacional, 2021): A tradução portuguesa contemporânea mais completa e elogiada pela fidelidade poética
  • Cristiano Martins (Brasil): Clássica tradução em verso, amplamente disponível
  • Para leitores de língua portuguesa, a edição do Guia de Leitura da Literatura Clássica oferece uma excelente introdução estruturada

Para Ver e Explorar

  • Ilustrações de Gustave Doré: Disponíveis em alta resolução em museus digitais — um percurso visual incomparável pelo Inferno
  • Mapa do Inferno de Botticelli (Biblioteca do Vaticano): Uma das mais impressionantes cartografias artísticas da história
  • Exposição permanente em Ravena: O mausoléu de Dante e o complexo monumental que o rodeia são visita obrigatória
  • Museu Casa di Dante, Florença: Sobre a vida e o contexto histórico do poeta

Conclusão

Dante Alighieri é daqueles escritores que não se “terminam” — são sempre maiores do que a última vez que os lemos. A Divina Comédia não é um poema sobre o além: é um poema sobre o aquém, sobre a condição humana, sobre a perda, o amor, o poder, a injustiça, a esperança e a redenção. Escrita num exílio doloroso, por um homem que perdeu tudo — a cidade, o amor, a família, a carreira —, é paradoxalmente um testemunho de que a arte sobrevive ao sofrimento que a gera.

Sete séculos depois, o florentino de túnica vermelha e coroa de louros continua a guiar-nos — como Virgílio a Dante — pelas florestas escuras da nossa própria existência.

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Os Lusíadas também são imagens: a lição de Frederico Lourenço para quem ensina Camões

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Há frases que ficam connosco mais tempo do que uma aula inteira. «Cada vez mais me convenço de que Os Lusíadas são também imagens.» Foi assim que Frederico Lourenço resumiu, numa conversa pública com o editor Francisco José Viegas por ocasião do Dia de Camões de 2024, uma ideia que me parece ter mais alcance pedagógico do que se possa imaginar à primeira vista (Saraiva, 2024). Não é apenas uma observação sobre o estilo de um poeta do século XVI. É, no fundo, um convite a repensar a forma como apresentamos Os Lusíadas aos alunos — e a perguntar porque é que tantos deles continuam a associar o nome de Camões a um exercício de resistência, e não de descoberta.

A conversa aconteceu na Feira do Livro de Lisboa, a 10 de junho de 2024, dia em que se assinalam simultaneamente a morte do poeta, em 1580, e o seu quinto centenário de nascimento, ainda que nenhuma fonte confirme com certeza absoluta o ano em que Camões nasceu. O pretexto foi o lançamento de Camões — Uma Antologia, da editora Quetzal, com seleção e comentário do próprio Frederico Lourenço, professor de línguas e literaturas clássicas na Universidade de Coimbra e tradutor de Homero, Horácio, Vergílio e da Bíblia. O volume tem 630 páginas e reúne as passagens mais marcantes d’Os Lusíadas e da lírica camoniana, acompanhadas de um comentário que se pretende, em simultâneo, acessível e erudito (Lourenço, 2024). Vale a pena conhecer o livro. Mas vale também a pena ler a entrevista que o acompanhou, porque nela há, pelo menos, quatro ideias que tocam diretamente naquilo que se passa — ou se devia passar — numa aula de Português.

Um poeta sem retrato seguro, e o que isso ensina sobre fontes

Comecemos pelo que talvez surpreenda mais os alunos: sabemos espantosamente pouco sobre a vida de Camões. Não há documento que confirme o dia, o ano ou o local do seu nascimento. As certezas reduzem-se, praticamente, a quatro datas: a prisão em 1552, a partida para a Índia em 1553, o regresso a Portugal em 1569 e a primeira edição d’Os Lusíadas, em 1572 — além, claro, da data da morte, a 10 de junho de 1580. Tudo o resto, incluindo a célebre perda de um olho ou a passagem pela Universidade de Coimbra, é suposição construída ao longo dos séculos.

Frederico Lourenço sugere, e parece-me uma chave de leitura particularmente útil para a escola, que esta escassez documental transformou a vida de Camões numa espécie de tela em branco onde cada geração projeta a sua própria imagem do poeta. É um excelente ponto de partida para trabalhar, em sala de aula, a diferença entre facto verificável e suposição plausível — uma distinção que está no centro de qualquer literacia da informação e que continua a ser, hoje, tão urgente perante um motor de busca como era no século XIX perante um manuscrito perdido. Ensinar os alunos a perguntar «como se sabe isto?» diante de uma biografia de Camões é, no fundo, o mesmo exercício que lhes pedimos quando avaliam uma fonte na internet ou uma resposta gerada por inteligência artificial: separar o que está documentado do que é, apenas, uma narrativa convincente.

Ler “Os Lusíadas” como quem olha para um quadro

A ideia central da entrevista, e a que lhe dá título, é a leitura pictórica d’Os Lusíadas. Frederico Lourenço estabelece um paralelo entre a construção poética de Camões e a pintura de Ticiano — não por acaso, a capa da nova antologia reproduz o mito de Diana e Acteão, tema que fascinou tanto o poeta português quanto o pintor veneziano. Para Lourenço, a obra tem uma dimensão arquitetónica, pela exímia construção do poema, e uma dimensão pictórica, pela beleza das imagens e das cores que o atravessam.

Esta observação tem uma aplicação direta na sala de aula, e talvez seja a mais subaproveitada de todas. Há muito que a investigação em literacias reconhece que aprender a ler um texto complexo e aprender a ler uma imagem complexa mobilizam competências interligadas, e que cruzar as duas leituras facilita o acesso a obras que, de outro modo, intimidam pela sua densidade verbal. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória já identifica as literacias múltiplas — entre elas a leitura visual — como um alicerce transversal da aprendizagem (Ministério da Educação, 2017), e a própria UNESCO recomenda, há mais de uma década, que a educação para os media e para a informação integre sistematicamente a análise de imagens ao lado da análise de texto (Wilson et al., 2011). Pedir aos alunos que comparem uma estância d’Os Lusíadas com um quadro renascentista que trate o mesmo episódio mitológico não é um exercício de enriquecimento cultural avulso: é treino direto de competências que o currículo já exige, só que raramente as articula com a poesia épica do século XVI.

A pergunta que continua a dividir-nos: celebrar ou questionar o império?

Há, contudo, uma questão mais incómoda, e Frederico Lourenço não a evita. Os Lusíadas foram, durante séculos, lidos sobretudo como justificação de uma visão imperial — leitura que ganhou força crescente a partir da União Ibérica, em 1580, e que o Estado Novo explorou intensamente, num paralelo que a própria entrevista traça com o uso que Mussolini fez da Eneida de Vergílio. Mas essa não é a única leitura possível, e talvez nem seja a mais fiel ao texto. Já em 1959, em plena ditadura, um estudioso português propôs uma contraleitura, identificando no Velho do Restelo a voz crítica do próprio Camões em relação à aventura ultramarina. E, se lermos com atenção o Canto X, a profecia da ninfa sobre as futuras conquistas portuguesas descreve, sem rodeios, episódios de violência que dificilmente cabem numa narrativa de pura glória.

Esta tensão entre celebração e crítica não é uma curiosidade académica distante do currículo: está, literalmente, nele. As Aprendizagens Essenciais de Português para o 12.º ano incluem precisamente as estâncias do Canto X dedicadas às reflexões finais do poeta, ao lado de excertos do Canto I, V, VII, VIII e IX (Direção-Geral da Educação, 2018). Ou seja, o material que permite trabalhar esta leitura dupla já está nas mãos dos professores — falta, muitas vezes, o convite explícito a fazê-lo. E o ano de 2024 trouxe esse convite de forma quase simbólica: os 500 anos de Camões coincidiram com os 50 anos do 25 de Abril, e é difícil pensar em melhor ocasião para perguntar aos alunos que leitura faz sentido hoje, num país que já não precisa d’Os Lusíadas para sustentar a sua autoestima coletiva, mas que continua a precisar de instrumentos para pensar criticamente o seu próprio passado colonial. É também aqui que a disciplina de Português se cruza de forma mais natural com os domínios da Cidadania e Desenvolvimento.

Uma “rapsódia”: como entrar no poema sem se perder nele

Um dos aspetos mais interessantes da nova antologia é a lógica que presidiu à escolha dos excertos. Inspirando-se nos antigos rapsodos que recitavam Homero e na hipótese, defendida por vários investigadores, de que a Ilíada terá crescido por acumulação de episódios a partir de um núcleo mais breve, Frederico Lourenço perguntou-se se Os Lusíadas não terão sido compostos de forma semelhante — com um essencial escrito primeiro e episódios de ornamento acrescentados depois. A partir dessa hipótese, construiu uma seleção que retém cerca de 70% do poema, organizada de modo a permitir uma leitura corrida, sem que falte nenhuma peça fundamental para a compreensão do todo.

Para quem ensina, este é um modelo didático em si mesmo. Mostra que selecionar excertos com critério, em vez de tentar abarcar o poema na íntegra ou de o reduzir a meia dúzia de estâncias avulsas para exame, pode ser a diferença entre um aluno que desiste ao terceiro canto e um aluno que chega ao décimo com uma ideia clara do que leu. A curadoria de um texto canónico — decidir o que entra, o que fica de fora e porquê — é, ela própria, um exercício de leitura crítica que vale a pena tornar visível na sala de aula, em vez de o esconder atrás de uma antologia já pronta.

Do manuscrito perdido ao ecrã: aceder às fontes de Camões hoje

Há um contraste que a entrevista sugere sem o explorar até ao fim, e que me parece particularmente relevante: o acesso ao conhecimento clássico, no tempo de Camões, era privilégio de poucos. O jovem poeta deve a sua extraordinária cultura latina, italiana e espanhola ao convívio com famílias nobres que mantinham bibliotecas privadas e ligações a instituições eclesiásticas — um acesso a fontes que a maior parte dos seus contemporâneos simplesmente não tinha. Hoje, esse acesso democratizou-se de uma forma que o próprio Camões dificilmente imaginaria.

A primeira edição d’Os Lusíadas, impressa em Lisboa em 1572, está digitalizada e disponível gratuitamente na Biblioteca Nacional Digital, tal como edições posteriores comentadas, incluindo a de 1613 e a monumental edição anotada por Manuel de Faria e Sousa, publicada em Madrid em 1639 — precisamente o comentarista que Frederico Lourenço refere na entrevista como o primeiro a tentar registar, de forma exaustiva, todas as fontes clássicas utilizadas por Camões. O Arquivo Nacional da Torre do Tombo disponibiliza igualmente, através da sua plataforma Digitarq, milhares de documentos da época que ajudam a reconstituir o contexto em que o poema foi escrito e recebido. Para um professor de Português, mostrar aos alunos a página de rosto da edição de 1572, tal como saiu da tipografia de Lisboa, tem um efeito que nenhuma reprodução em manual consegue replicar: torna tangível a distância de quase cinco séculos, e ao mesmo tempo a proximidade que a tecnologia tornou possível. Esta é, afinal, uma das formas mais simples de literacia digital aplicada ao património: saber que estas fontes existem, saber onde procurá-las e saber como as integrar numa aula sem depender de intermediários.

Para a sala de aula

Destas quatro ideias nascem, sem grande esforço, propostas de trabalho concretas. Uma possibilidade é pedir aos alunos que comparem uma estância d’Os Lusíadas com uma pintura renascentista do mesmo episódio mitológico — o mito de Diana e Acteão, presente na capa da antologia de Frederico Lourenço, é um ponto de partida evidente — e que identifiquem, em ambas as linguagens, os recursos usados para construir a mesma cena: a cor, o movimento, o enquadramento, a escolha do momento narrativo. Outra é organizar um debate estruturado em torno da leitura dupla d’Os Lusíadas, dividindo a turma entre uma defesa da leitura celebrativa e uma defesa da leitura crítica, usando como prova textual o discurso do Velho do Restelo e a profecia da ninfa no Canto X — ambos já presentes nas Aprendizagens Essenciais do 12.º ano —, e fechando a atividade com uma reflexão sobre o que esta tensão nos diz sobre a forma como Portugal lê hoje o seu próprio passado colonial. Uma terceira proposta é, simplesmente, levar os alunos à Biblioteca Nacional Digital para que vejam, com os seus próprios olhos, a edição original de 1572, e que depois discutam o que mudou — e o que não mudou — entre ler um poema impresso há quase 500 anos e ler esse mesmo poema disponível, hoje, a um clique de distância.

Nenhuma destas propostas substitui a leitura atenta dos versos. Mas todas ajudam a quebrar a barreira inicial que tantos alunos erguem perante Os Lusíadas só de ouvir o nome — e isso, sozinho, já justifica o esforço.

Uma última nota

O que mais fica desta entrevista não é propriamente uma resposta, mas a disposição com que Frederico Lourenço continua a interrogar um poema que conhece, presumivelmente, melhor do que qualquer outra pessoa viva. Depois de décadas de estudo, de uma tradução premiada da Bíblia, de uma vida dedicada aos clássicos, é ainda capaz de dizer que está «cada vez mais» convencido de algo — não menos. Para quem ensina, talvez seja este o exemplo mais valioso de todos: o de que um texto canónico nunca está definitivamente explicado, e de que cada nova geração de leitores, com as suas próprias ferramentas e as suas próprias perguntas, tem ainda algo de novo para lhe descobrir.


Nota editorial: a entrevista escrita por José Cabrita Saraiva, parte da entrevista de Francisco José Viegas a Frederico Lourenço, publicada no jornal SOL em 26 de junho de 2024, por ocasião do lançamento da obra Camões — Uma Antologia (Quetzal). As referências ao currículo português, ao Perfil dos Alunos e aos arquivos digitais mencionados foram verificadas diretamente nas fontes oficiais indicadas abaixo.

Referências

Direção-Geral da Educação. (2018). Aprendizagens essenciais: Português, 12.º ano, ensino secundário. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Aprendizagens_Essenciais/12_portugues.pdf

Lourenço, F. (2024). Camões — Uma antologia. Quetzal.

Ministério da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Direção-Geral da Educação. https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Saraiva, J. C. (2024, 26 de junho). Frederico Lourenço: «Cada vez mais me convenço de que Os Lusíadas são também imagens». SOL. https://sol.iol.pt/2024/06/26/frederico-lourenco-cada-vez-mais-me-convenco-de-que-os-lusiadas-sao-tambem-imagens

Wilson, C., Grizzle, A., Tuazon, R., Akyempong, K., & Cheung, C. K. (2011). Media and information literacy curriculum for teachers. UNESCO. https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000192971

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Muito ego, pouca introspecção — e a escola no meio disto tudo

A escritora Marta Jiménez Serrano disse numa entrevista recente algo que ficou a ecoar: «Vivemos numa época de muito ego e pouca introspecção.» Podia tê-lo dito um professor a observar uma turma. Ou um diretor numa reunião de avaliação. Ou qualquer um de nós ao olhar para as redes sociais. A frase é simples, mas aponta para um problema que a escola conhece bem — e para o qual ainda não encontrou resposta suficiente.

Marta Jiménez Serrano é escritora espanhola. Em maio de 2026, publicou Oxígeno (Alfaguara), um romance autobiográfico sobre uma intoxicação por monóxido de carbono que quase a matou a ela e ao seu companheiro, o escritor Juan Gómez Bárcena, num dia de outono de 2020. O livro parte de um facto concreto — a negligência de uma senhoria, um acidente doméstico, a fronteira ténue entre a vida e a morte — para falar de coisas muito maiores: a fragilidade da existência, o medo, o amor, a responsabilidade, a comunicação com o outro.

Numa entrevista à revista Ethic, publicada a 19 de maio de 2026, Marta disse coisas que merecem ser lidas com atenção. Não porque falem de escola — não falam diretamente —, mas precisamente porque falam de tudo aquilo que acontece antes de um jovem entrar numa sala de aula e que continua depois de sair. Falam de como nos relacionamos connosco próprios e com os outros. E isso, como qualquer professor sabe, é o centro de tudo.

O ego que se vê, o eu que se esconde

Há uma distinção que Marta faz na entrevista e que vale a pena guardar: a diferença entre ego e eu. O ego, diz ela, está voltado para fora — é a imagem, a performance, o que os outros veem. O eu, esse, exige introspecção. Exige parar, descer, olhar para dentro sem a pressão de parecer bem.

Esta distinção não é nova — a psicologia há muito a trabalha —, mas ganha hoje uma dimensão que as gerações anteriores não conheceram com esta intensidade. Os jovens que habitam as escolas cresceram numa lógica de exposição permanente: perfis, seguidores, stories, reações, comparações em tempo real. O ego não é apenas cultivado; é exigido. Mostrar dúvidas, fragilidades ou contradições tornou-se um risco. E o resultado é uma geração que sabe construir imagens mas que, muitas vezes, tem dificuldade em habitar-se a si própria.

A escola raramente questiona isto. Avaliam-se competências, medem-se resultados, premeia-se o desempenho visível. Mas quanto espaço existe, no dia a dia escolar, para aquilo que não se vê — a dúvida, a incerteza, o conhecimento de si? A introspecção não é um valor decorativo. É uma ferramenta. Quem se conhece melhor toma decisões mais conscientes, relaciona-se com mais empatia e suporta melhor a adversidade. E isso aprende-se — ou não se aprende — na escola.

A escrita como lugar de chegada a si próprio

Marta Jiménez Serrano diz que a terapia e a escrita são, para ela, duas formas de introspecção. Não por acaso: ambas obrigam a pôr palavras no que se sente, e esse gesto de nomear é já, em si mesmo, um ato de compreensão.

Na escola, a escrita continua a ser, em grande medida, uma ferramenta de avaliação. Escreve-se para mostrar o que se sabe. Escreve-se para a nota. Há professores que conhecem o valor de escrever de outra forma — de escrever para pensar, para explorar, para chegar a algo que ainda não se sabia que se pensava —, mas essa prática está longe de ser sistemática.

A escrita pessoal, o diário, a narrativa autobiográfica, a carta que nunca se envia — estes géneros habitam as margens do currículo, quando habitam algum sítio. E no entanto são exactamente estes os géneros que desenvolvem a capacidade de olhar para dentro, de organizar a experiência emocional, de dar sentido ao caos interior que qualquer adolescente conhece bem.

Marta conta que ao escrever Oxígeno conseguiu «colocar e entender o trauma, pôr palavras no que viveu». Não é uma afirmação banal. É o reconhecimento de que escrever pode ser curar — ou pelo menos ajudar a compreender o que dói. Os professores de Português sabem disto. Poderiam partilhá-lo mais.

Responsabilidade: a palavra que incomoda

Há um conceito que atravessa toda a entrevista e que Marta assume com clareza: a responsabilidade. Não no sentido punitivo ou moralizante, mas no sentido de «fazer-nos cargo do que nos toca».

É interessante que ela reconheça ao mesmo tempo os problemas estruturais — a crise da habitação, as condições materiais que afetam a saúde mental — e a necessidade de cada um assumir o que pode mudar. Não é uma lógica de culpabilização individual; é uma recusa do fatalismo que serve de desculpa para a inação. «É fácil atirar a bola para fora», diz ela, «mas somos todos responsáveis por muitas das coisas do nosso dia a dia.»

Esta tensão entre constrangimento estrutural e agência individual é uma das mais difíceis de trabalhar em contexto escolar. Os jovens que chegam às escolas carregam histórias muito diferentes — condições económicas, contextos familiares, trajetórias marcadas por inequidades que não escolheram. A escola não pode ignorar isso. Mas também não pode deixar de cultivar a ideia de que, mesmo dentro de margens estreitas, há escolhas. E que fazer escolhas é um exercício que se pratica — ou que se perde por falta de prática.

Ensinar responsabilidade não é fazer sermões. É criar condições para que os jovens experimentem, falhem, reflitam e voltem a tentar. É modelar comportamentos — o professor que assume os seus erros, o diretor que explica as suas decisões, o adulto que não faz o que prometeu e o reconhece — porque os jovens aprendem muito mais pelo que veem fazer do que pelo que ouvem dizer.

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Suportar o sofrimento — o próprio e o dos outros

Talvez o ponto mais perturbador da entrevista de Marta seja este: «Temos pouca tolerância à tristeza alheia, mas também nos custa muito suportar a nossa.» E acrescenta: «Queremos estar bem a todo o custo, e exigimos o mesmo aos outros, deixamos pouco espaço para a dor e a angústia porque vivemos com pressa.»

Isto tem uma tradução directa na escola. A pressão para que os jovens estejam «bem», para que superem as dificuldades rapidamente, para que não interrompam o funcionamento normal das aulas com o peso das suas histórias — esta pressão existe, muitas vezes sem intenção, nas rotinas escolares. O sofrimento inconveniente é encaminhado para o psicólogo, para o diretor de turma, para outro sítio. E os próprios jovens aprendem depressa que certas emoções não têm lugar na sala de aula.

Mas a verdade é que o sofrimento não desaparece porque não tem espaço. Reaparece de outras formas — no comportamento, na apatia, nas relações. E os professores que criam, mesmo que brevemente, condições para que os alunos se sintam vistos e ouvidos nos seus estados reais — não apenas nos seus resultados — fazem uma diferença que nenhuma escala consegue medir com rigor.

Marta afirma que «o trauma quase nunca nasce da dor, mas de não deixarmos espaço para essa dor». É uma ideia que a psicologia do trauma confirma: o que magoa não é apenas o que acontece, mas a ausência de um espaço seguro onde isso possa ser processado. A escola pode ser esse espaço — não para todos, não sempre, mas com mais frequência do que é hoje.

A linguagem simples como acto político

Há um detalhe na entrevista que passou despercebido, mas que para quem trabalha com leitura e escrita em contexto escolar tem um peso considerável. Marta diz que quando escreveu o seu primeiro livro queria que a avó o entendesse — uma mulher que foi à escola apenas um ano, «não era uma mulher letrada». E acrescenta: «A cultura pode usar-se para ficar por cima do outro e como ascensor social, mas a mim interessa-me como lugar de encontro.»

Esta afirmação é uma posição. É uma recusa da literatura como sinal de estatuto, como linguagem de iniciados, como código que separa os que sabem dos que não sabem. É a defesa de uma escrita que inclui — e essa escolha, diz ela, é ideológica.

A escola vive uma tensão semelhante. A linguagem académica, o vocabulário técnico, as formas de escrever e de dizer que são valorizadas nos exames e nos relatórios — tudo isto pode funcionar como mecanismo de inclusão ou de exclusão. Os alunos que vêm de famílias onde esse capital linguístico circula naturalmente chegam com uma vantagem que não pediu para ser avaliada, mas que é avaliada todos os dias. Os que chegam sem esse vocabulário têm de aprender a língua da escola antes de poder mostrar o que sabem.

Não se trata de baixar o nível. Trata-se de perceber que a clareza é uma forma de respeito. Que explicar bem não é condescendência — é precisão. E que os professores que conseguem dizer coisas complexas de forma simples não estão a facilitar; estão a fazer um trabalho muito mais difícil do que os que se escondem atrás do jargão.

Ligar-se ao outro — e o que isso exige

«Os momentos em que a vida vale a pena são quando nos relacionamos com os outros», diz Marta. «Um vínculo verdadeiro não é algo que aconteça todos os dias. É difícil de conseguir.»

A escola é, pela sua natureza, um laboratório de relações. Acontecem ali coisas que não acontecem em mais nenhum lugar: grupos misturados por idade, por origem, por interesse — ou antes, sem qualquer interesse comum salvo o de estarem ali —, forçados a partilhar espaço, tempo e tarefas durante anos. Isso é complexo. É conflituoso. E é absolutamente essencial.

O que os jovens aprendem — ou não aprendem — sobre como estar com os outros, sobre como sustentar uma relação mesmo quando é difícil, sobre como comunicar o que sentem sem destruir o que têm, ficará com eles muito depois de se terem esquecido das datas históricas ou das fórmulas químicas.

Marta fala da incomunicação como uma das suas obsessões — «o intento de comunicar com o outro e sentir-me menos só». Há nesta frase um eco de algo que os professores conhecem: a solidão de estar rodeado de pessoas e não ser verdadeiramente visto. Esse é talvez o sentimento mais comum nas escolas — e um dos menos reconhecidos.


Oxígeno é um livro sobre quase morrer. Mas é, sobretudo, um livro sobre o que fica quando se sobrevive: a pergunta sobre o que vale a pena, a consciência da fragilidade, a necessidade de se relacionar de verdade com os outros e consigo próprio. Não é um livro sobre escola. Mas fala, a cada página, daquilo que a escola deveria cultivar — e que muitas vezes não tem tempo, nem espaço, nem coragem para cultivar.

Vale a pena ler. E vale ainda mais a pena perguntar o que dele podemos trazer para a sala de aula.


Para trabalhar na escola

A entrevista e o livro de Marta Jiménez Serrano sugerem vários pontos de partida para trabalho em contexto escolar. Uma aula de Português pode explorar a escrita autobiográfica como forma de introspecção — não para avaliação, mas como exercício de escuta interior. Uma aula de Filosofia pode questionar a diferença entre ego e identidade, entre a imagem que projectamos e o que somos quando não estamos a ser observados. Uma sessão de tutoria pode abrir espaço para falar de responsabilidade — não como conceito abstrato, mas como prática concreta do dia a dia. E em qualquer disciplina, o modelo do professor que usa linguagem clara, que não se esconde atrás do vocabulário técnico, já é, em si mesmo, uma forma de inclusão.


Referências

Jiménez Serrano, M. (2026). Oxígeno. Alfaguara.

Tolosa, L. (2026, 19 de maio). Marta Jiménez Serrano: «Vivimos en una época de mucho ego y poca introspección». Ethic. https://ethic.es/entrevista-marta-jimenez-serrano-oxigeno


Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor: Manuel António Pina e o Teatro dos Descobrimentos

O medo do desconhecido, o peso da memória e a fronteira ténue entre o que se vê e o que se acredita. É em torno destas tensões que Manuel António Pina constrói uma das mais instigantes peças de teatro para jovens da literatura portuguesa contemporânea: Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor.​

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A Obra em contexto

Manuel António Pina (1943–2012), poeta, jornalista e escritor portuense, é um nome incontornável da literatura portuguesa. Reconhecido sobretudo pela sua poesia de linguagem despojada e filosófica, Pina dedicou também uma parte considerável da sua obra à literatura para crianças e jovens — e esta peça teatral é um exemplo brilhante dessa vertente.​

O drama revisita o universo dos Descobrimentos com um olhar que não é o da glorificação épica, mas sim o da humanidade frágil daqueles que nele participaram — os marinheiros anónimos, as mães que ficavam em terra, os físicos que tentavam curar com triaga e razão o que nem a ciência nem a fé conseguiam explicar.​


A estrutura: três tempos, uma memória

A peça organiza-se numa estrutura narrativa de três camadas temporais, como bonecas russas encaixadas umas nas outras:​

  • O Tempo Presente (cerca de 1520): Mestre João, físico e astrólogo, regressa velho e doente das Índias. Ao passar a Angra de S. Brás, perto do Cabo da Boa Esperança, recorda os acontecimentos que viveu naquele mesmo lugar.
  • O Tempo do Perfeito (cerca de 1501): Mestre João encontra um náufrago — o jovem Manuel — que recolhe a bordo e de quem ouve uma história perturbadora.
  • O Tempo do Mais-que-Perfeito (1488 e 1500): a história de Manuel, desde a infância em Massarelos, no Porto, até ao naufrágio na caravela de Bartolomeu Dias.

Esta arquitetura temporal sofisticada não é meramente técnica — é filosófica. O passado não está morto; está presente em Mestre João enquanto ele escreve, tal como o Adamastor está presente em Manuel enquanto navega. A memória é, ela própria, uma forma de não escapar ao destino.​


Manuel e o Adamastor: O sonho que se torna real

No coração da peça está uma ideia perturbadora e bela: um sonho pode ser uma verdade que ainda não aconteceu — ou uma verdade que já aconteceu, noutro lugar, ao mesmo tempo.​

Manuel, adolescente de 14 anos, sonha que o pai naufraga e que luta com um monstro gigantesco — a Avantesma — conseguindo salvá-lo. Quando o pai regressa da viagem de Bartolomeu Dias ao Cabo Tormentoso, conta que esteve prestes a morrer afogado, e que foi salvo por uma sombra misteriosa — homem ou anjo, não saberia dizer — que afugentou o monstro com grandes pancadas.​

“O meu sonho! A Avantesma! Meu Deus, foi tudo verdade!” — Manuel​

A coincidência aterra Manuel. Não conta o sonho a ninguém, mas sabe que, “lá longe, nos fundos do Mar Tenebroso, tem agora um inimigo terrível à sua espera, sedento de vingança.” Quando é chamado para a frota de Pedro Álvares Cabral e descobre que o barco passa pelo mesmo Cabo, a inevitabilidade do encontro torna-se opressiva.​


Mestre João: a razão perante o inexplicável

A figura de Mestre João é central na peça e representa uma das suas tensões mais ricas: a do homem de ciência que se vê forçado a reconhecer os limites do seu saber.​

Mestre João existiu historicamente — foi bacharel em Artes e Medicina, físico e cirurgião de D. Manuel I, e acompanhou a frota de Cabral. Na peça, Manuel António Pina constrói-o como um humanista que acredita na razão, na experiência e no testemunho dos sentidos — mas que, perante o Adamastor, hesita:​

“Mas quem poderá acreditar no testemunho dos seus sentidos perante coisas tão desconformes a todas as leis da natureza como as que me foi dado nesta mesma Angra de S. Brás ver e ouvir?”

No fim, Mestre João não resolve a tensão. Não afirma que o Adamastor é real nem que é ilusão. Diz apenas: “Na alma dos homens é que existem monstros e demónios, e não no mar.” — mas logo acrescenta, quando Manuel lhe pergunta se assim é mesmo que nos matam: “Eu creio que sim, filho… Mas que sei eu?”

Esta dúvida honesta é, talvez, a maior lição filosófica da peça.


O Adamastor: Entre Camões e o Medo Humano

O Adamastor, figura importada por Camões da mitologia grega e imortalizada em Os Lusíadas como o gigante guardião do Cabo das Tormentas, surge aqui não como alegoria épica mas como medo encarnado, como força que persegue os homens porque eles a invocaram — no sonho, na aventura, no desafio aos “Mares do Fim do Mundo”.​

A peça nota, em nota de rodapé, que o nome “Adamastor” é posterior aos acontecimentos narrados — é Camões que o populariza. Manuel chama-lhe simplesmente a Avantesma. Esta distinção é significativa: o monstro existe antes do nome. O nome só lhe dá forma literária; o medo já existia antes.​


As personagens secundárias e a dimensão humana

A peça ganha profundidade humana nas cenas em terra, no Porto de finais do século XV, onde vivem a mãe e a irmã Ana de Manuel. A mãe representa a resistência silenciosa das mulheres que ficavam — as que perdiam maridos, filhos e irmãos para o mar sem que ninguém escrevesse epopeias sobre elas:​

“Antes prouvera que nunca partisse a desafiar a vontade de Deus Nosso Senhor.”

Ana, a irmã mais nova, é a voz do equilíbrio e da esperança: “Trás a névoa vem o Sol, minha mãe, e trás um tempo vem outro.” Juntas, mãe e filha constroem um contraponto comovente à grandiosidade épica das viagens.​


Um final em aberto

A peça termina de forma deliberadamente ambígua, num Pretérito Indeterminado — uma designação temporal invulgar que o autor usa para o ato final. O Adamastor ergue-se sobre Manuel, arrasta-o para o mar… e depois, na praia, jaz o corpo de Manuel, “abandonado e só.”​

Morreu? Sobreviveu mais uma vez? A estrutura circular da peça — Manuel encontrado na praia no início e no fim — deixa a questão em aberto. O que os olhos veem pode ser a morte ou pode ser a salvação. A certeza não existe. Só o mar, e o silêncio.


Porquê ler esta obra?

Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor é uma obra que funciona em múltiplos registos:​

  • Para a História: oferece um retrato vívido e rigorosamente documentado da vida a bordo das naus dos Descobrimentos — alimentação, instrumentos náuticos, medição do tempo, vida quotidiana.
  • Para a Literatura: explora a intertextualidade com Camões e Gil Vicente (cujo Auto das Fadas é encenado a bordo na Cena 11).
  • Para a Filosofia: coloca, com seriedade e beleza, a questão dos limites do conhecimento humano e da relação entre razão e fé.
  • Para o Teatro: a sua estrutura em três tempos sobrepostos é um exercício notável de dramaturgia.

É uma peça que resiste à leitura fácil e convida a pensar — o melhor que qualquer obra de literatura pode fazer.


“Sempre haverá muitas sabedorias por saber. No fundo de todas as sabedorias sabidas reside um mistério onde não alcançam os nossos instrumentos e as nossas medidas nem as nossas palavras…”
— Mestre João, Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor, de Manuel António Pina​

Dois gigantes, uma noite: Lobo Antunes e Eduardo Lourenço frente a frente

Há conversas que ficam. Não porque sejam perfeitas nem porque digam tudo — mas precisamente porque deixam algo por dizer, qualquer coisa que continua a trabalhar em nós depois de fecharmos o ecrã ou sairmos da sala.

Foi o que aconteceu naquela noite de 30 de setembro de 2017, na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais. No encerramento do FIC 2017, o escritor António Lobo Antunes e o filósofo Eduardo Lourenço sentaram-se frente a frente. Não para debater. Para conversar. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.


O Império que Nunca Existiu

Eduardo Lourenço chegou com um tema que podia parecer paradoxal: “um império que nunca existiu”. E no entanto, todos sabemos do que fala. Portugal construiu, ao longo de séculos, uma identidade assente numa missão histórica — ser o portador de uma fé, de uma língua, de uma presença no mundo. Um país pequeno, sul-europeu, quase na beira do mapa, que foi, durante dois séculos, o centro de uma aventura global no Oriente.

Só que esse império — glorioso nos livros, presente nos poemas de Camões, cantado e recantado — terminou. E não terminou de forma suave. Terminou a 25 de Abril de 1974, abruptamente, com o regresso de meio país de uma guerra que ninguém queria assumir ter perdido.

A pergunta que Eduardo Lourenço coloca, com a serenidade de quem passou a vida inteira a pensar nisso, é perturbante na sua simplicidade: fizemos o luto?


As Cartas de África

É aqui que entra Lobo Antunes. Não como teórico — como testemunha.

Eduardo Lourenço evoca as cartas que o escritor enviou à sua mulher durante o serviço militar em Angola. Cartas que se tornaram livro (D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto), e que são, na sua leitura, “uma espécie de póstuma do nosso império” — uma obra de luto individual que é também um luto colectivo.

Lobo Antunes responde com a sua voz inconfundível — por vezes irónica, por vezes crua — e fala de África não com nostalgia, mas com a lucidez dolorosa de quem esteve lá, viu o que havia para ver, e sobreviveu para contá-lo. A guerra colonial foi, nas suas palavras, uma prova de vida e de morte. E a literatura foi a forma de a sobreviver duas vezes.


Mais do que uma Conversa Literária

O que torna este encontro especial não é só o que se diz — é como se diz. Eduardo Lourenço, com os seus 94 anos à data, falava com uma clareza filosófica que era ao mesmo tempo poética. Lobo Antunes, mais irrequieto, mais físico na linguagem, mais cortante, equilibrava o tom com humor e afecto genuíno.

E havia entre eles qualquer coisa rara: amizade intelectual a sério. Não a pose do debate televisivo, não a encenação académica. Dois homens que se respeitavam profundamente, que tinham lido um ao outro com atenção, e que naquela noite se permitiram ser simplesmente eles próprios.

Eduardo Lourenço disse o que pensa de Lobo Antunes sem papas na língua: “não é um autor fácil, é exigente, é duro, é violento — mas tem uma singularidade fantástica”. E Lobo Antunes devolveu o elogio com a sua forma oblíqua de o fazer — contando histórias, desviando, regressando.

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O Que Fica

Há uma frase que Eduardo Lourenço deixou cair quase de passagem, mas que não se esquece:

“O império está perdido. Mas o que fica é aquilo que a memória mais exigente merece um futuro.”

É a língua. É sempre a língua. O único império que Portugal tem hoje — e que continua a crescer — não se mede em território. Mede-se em vozes, em livros, em conversas como aquela, em leitores de Maputo a São Paulo, de Lisboa a Goa.

E talvez seja por isso que vale a pena ver este vídeo. Não só pelo que dizem estes dois homens. Mas pelo que nos fazem pensar sobre nós próprios: quem somos, de onde viemos, e o que fazemos com a memória que herdámos sem pedir.

Às vezes, a melhor coisa que podemos fazer com o passado é olhá-lo de frente — sem açúcar, como disse Eduardo Lourenço — e continuar a caminhar.


O vídeo está disponível no YouTube, com a duração de pouco mais de uma hora. Vale cada minuto.
🎥 António Lobo Antunes e Eduardo Lourenço no FIC 2017