Vinte mil livros numa casa: o que a biblioteca de Loyola Brandão ensina a quem quer formar leitores

Ignácio de Loyola Brandão abriu a porta da sua biblioteca ao Estadão e falou dos livros que o formaram. Partimos desse vídeo para propor projetos que fazem das bibliotecas pessoais um motor de leitura, na escola e fora dela.

Há vídeos que se veem em vinte minutos e dão matéria para um ano letivo. Este é um deles: um escritor brasileiro de oitenta e tal anos a mostrar as suas estantes e a dizer, sem rodeios, de que livros gosta e de quais não gosta. Não há aqui nenhuma metodologia de promoção da leitura, e é por isso mesmo que dá tanto que pensar.

Quem é Loyola Brandão e porque nos interessa

Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara, no estado de São Paulo, em 1936. Foi jornalista durante décadas e é autor de romances, contos e crónicas que a crítica brasileira há muito lê como retrato do país. Entre os títulos mais conhecidos estão Zero e Não verás país nenhum, e a Prefeitura de São Paulo assinalou os seus oitenta anos, em 2016, com uma lista de leituras disponíveis na rede de bibliotecas municipais. Pertence à Academia Brasileira de Letras, que tem acompanhado e divulgado o que se vai escrevendo sobre ele.

Ao Diário de Notícias, em 2017, contou como Zero foi recusado por editoras brasileiras, acabou publicado em Itália, esteve proibido durante anos e continuou a circular em cópias feitas pelos próprios leitores, muitos deles jovens que juntavam dinheiro para as fotocópias. A conclusão que tirou cabe numa frase: um livro não se mata. É uma boa porta de entrada para o que vem a seguir, porque um homem que pensa assim sobre os livros costuma ter uma casa à medida dessa convicção.

O vídeo e a iniciativa do Estadão

O vídeo que nos serviu de ponto de partida, «Loyola Brandão critica livro de García Márquez, mostra seus favoritos e diz qual obra jamais leria», faz parte da série Coleção de Livros, uma iniciativa do Estadão. A ideia é simples e quase doméstica: a equipa do jornal vai a casa de figuras da cultura, filma as estantes e pede a cada convidado que fale dos livros que escolheu para viver ao seu lado. Segundo a cobertura da Estadão Conteúdo, publicada em março de 2025 a propósito da segunda temporada, Loyola Brandão escolheu dezassete títulos e explicou cada escolha.

O que Loyola Brandão diz de García Márquez, e a obra que garante que jamais leria, é aquilo que dá título ao vídeo e que o torna fácil de partilhar. Interessa-nos menos como polémica e mais como método: um leitor com autoridade a dizer, com franqueza, «isto não me serviu» é uma lição que as aulas de Português raramente dão. Aprender a ler passa também por aprender a discordar de um livro sem medo de ser castigado por isso.

Dezassete livros, dezassete maneiras de entrar na leitura

A lista que escolheu mostra uma biblioteca construída por camadas de idade. Há o livro da infância, As Aventuras de Pinocchio, que leu aos oito anos. Há Alice no País das Maravilhas, oferecido pela madrinha aos dez. Há o romance de juventude, Este Lado do Paraíso, de Fitzgerald, lido aos dezoito ou dezanove anos e que lhe despertou a vontade de escrever. E há os livros de maturidade, como Luz em Agosto, de Faulkner, que diz ter lido dez vezes, ou Misericórdia, da portuguesa Lídia Jorge, que elogia como romance recente.

Entre eles cabem Graciliano Ramos, Céline, Sartre, Steinbeck, Kundera, Lima Barreto, as Cartas a Theo de Van Gogh e uma biografia de Patricia Highsmith. Repare-se na mistura: clássicos e policiais, romance e correspondência, literatura brasileira e estrangeira, livros que o formaram e livros que simplesmente encontrou e o encantaram. Nenhuma escola montaria um currículo assim, e é precisamente a promiscuidade das estantes que torna uma biblioteca pessoal tão eficaz como porta de entrada. O leitor jovem não precisa de um cânone arrumado, precisa de encontrar um livro que lhe pareça escrito para si.

A casa que é biblioteca

Segundo a reportagem da Gazeta de Alagoas, republicada pela Academia Brasileira de Letras, o escritor reuniu cerca de vinte mil volumes. Os livros cobrem as paredes do apartamento em São Paulo, sobem as escadas até ao escritório e agrupam-se, em certas prateleiras, por afinidade: uma dedicada a Clarice Lispector, outra onde Faulkner e Highsmith ficam lado a lado. O pai também juntou cerca de mil clássicos na casa da família, em Araraquara.

O detalhe mais interessante do ponto de vista educativo é o que acontece a seguir. Loyola Brandão tem vindo a dar livros, e cerca de oitocentos foram para uma pequena biblioteca numa comunidade rural, a Cangalha, em Aiuruoca, no sul de Minas Gerais. Uma biblioteca pessoal, afinal, não tem de ser um fim de linha. Pode ser o ponto de partida de outra, mais pequena, noutro sítio, onde os livros vão ter leitores que nunca o encontrariam por outra via.

O que a escola pode aprender com uma estante

Quem trabalha com leitura em contexto escolar conhece o fosso entre o que se pede aos alunos e o que lhes damos como modelo. Pedimos que leiam, mas poucas vezes mostramos a nossa estante, os livros que abandonámos a meio, aquele que relemos dez vezes. O vídeo faz exatamente o contrário. O adulto leitor deixa de ser uma figura abstrata e passa a ser alguém com gostos, manias e pontos cegos.

Isto liga-se a vários temas que o blogue tem vindo a trabalhar. A reflexão sobre o que a escola pode aprender com quem lê devagar parte do mesmo pressuposto: a leitura profunda aprende-se vendo alguém a fazê-la. O artigo sobre o manifesto europeu pela leitura lembra que o problema é de política e de prática, e os resultados do PISA 2025 não nos deixam descansados. Já a comunicação sobre multiliteracias na era da inteligência artificial defende que se lê de formas diferentes consoante o propósito, e uma estante pessoal tem exatamente essa diversidade: livros para rir, para estudar, para chorar, para consultar.

Projetos para pôr as bibliotecas pessoais a trabalhar

O que se segue são propostas nossas, pensadas para serem adaptadas. Não decorrem do vídeo nem foram testadas por nós em todos os contextos; funcionam como ponto de partida para quem quiser experimentar, numa turma, numa biblioteca escolar, num município ou numa família.

A estante aberta

Cada professor, e se possível cada funcionário da escola, escolhe cinco a dez livros da sua casa e fotografa-os ou leva-os para uma exposição na biblioteca escolar. Ao lado de cada um, um cartão manuscrito com três coisas: quando o leu, porque o guardou e a quem o daria. É a versão escolar da série do Estadão e custa quase nada. Os alunos descobrem que o professor de Matemática leu policiais e que a assistente operacional guarda poesia. A pergunta que fica no ar é a que mais importa: «e tu, o que tens em casa?».

O meu livro de infância

Loyola Brandão lembra o Pinocchio aos oito anos e a Alice aos dez, e lembra quem lhe deu cada um. Propomos um projeto intergeracional em que cada aluno entrevista um adulto da família sobre o livro que marcou a sua infância, pede-o emprestado (ou procura-o na biblioteca) e apresenta à turma o livro e a história de quem o leu. Em sala de aula, dá origem a textos biográficos, a gravações de áudio e a um mapa coletivo de leituras da comunidade. Para muitas famílias, será a primeira vez que alguém lhes pergunta o que leram.

O livro que não me serviu

Se há coisa que o vídeo ensina é que se pode criticar um livro com fundamento. Num ciclo de debates com o 3.º ciclo e o secundário, cada aluno apresenta em dois minutos um livro de que não gostou, com razões e exemplos do texto, e a turma responde. A regra é que a crítica tem de citar uma passagem. O resultado costuma ser mais honesto e mais trabalhoso do que a clássica ficha de leitura, e treina argumentação, leitura atenta e respeito pela opinião contrária. Funciona bem articulado com propostas de leitura orientada, como a do Cavaleiro da Dinamarca, que dão primeiro um livro comum para depois se poder discordar dele.

Estante circulante

Inspirados pelo gesto de Loyola Brandão com a biblioteca da Cangalha, propomos que as escolas e os municípios facilitem a doação de bibliotecas pessoais, ou de parte delas, para pequenos polos de leitura em lugares onde não há livraria nem biblioteca: lares de idosos, centros de saúde, cafés de aldeia, paragens de autocarro cobertas, centros de dia, associações. Quem doa pode deixar uma nota dentro de cada livro com o seu nome e uma linha sobre o que o livro lhe disse. Os alunos podem ajudar a catalogar, a fazer etiquetas e a manter a rotação. O modelo da Little Free Library, que nasceu em Saint Paul, no Minnesota, e se organiza como rede de caixas de troca de livros mantidas por voluntários, mostra que a ideia tem pernas para andar, ainda que cada comunidade deva criar a sua versão.

Herança de leitor

Muitas bibliotecas pessoais acabam em caixotes porque a família não sabe o que fazer com elas. Imaginemos um serviço municipal ou da biblioteca escolar, de cooperação com a biblioteca pública, que recebe esses fundos, faz a triagem do que serve cada comunidade, regista a proveniência e mantém visível o nome do leitor que os reuniu. Uma prateleira com o nome de alguém, como a que Loyola Brandão dedica a Clarice, dá ao leitor jovem uma bússola e à família uma maneira de não perder a memória do seu leitor. Seria também uma fonte valiosa de livros usados para projetos de troca nas escolas.

Biblioteca de bolso para cada aluno

No início do ano letivo, cada aluno de uma turma recebe uma pequena estante de cartão ou madeira, que fica na sala, e uma meta simples: ao longo do ano, reunir ali dez livros próprios, vindos de trocas, empréstimos longos e ofertas. Os alunos reconhecem os livros dos colegas, trocam-nos e vão construindo, desde cedo, a ideia de que uma biblioteca é coisa que se faz e não só que se visita. No final, cada um escolhe três livros para levar para casa de forma definitiva. Para alunos que não têm livros em casa, este projeto resolve um problema material sem humilhar ninguém.

Clube de leitura com biblioteca à vista

Os clubes de leitura funcionam melhor quando acontecem num sítio onde há livros por todo o lado. Propomos reunir, de forma regular, alunos de diferentes idades e adultos da comunidade em casa de quem aceite abrir a sua biblioteca, de modo a que a conversa possa começar numa prateleira e não numa lista. O adulto anfitrião conta a história de três livros, os jovens trazem um e todos ficam com um para ler até ao encontro seguinte. É um dispositivo simples que quase sempre cria vínculos fora da escola.

Biblioteca falada

Nem todos os leitores têm estantes cheias, e muitos adultos mais velhos não leem já com facilidade. Em parceria com lares e centros de dia, os alunos gravam ou transmitem em direto leituras de passagens escolhidas pelos idosos, a partir das suas bibliotecas. O processo é de ida e volta: o adulto escolhe e comenta, o aluno prepara e lê. O som fica depois disponível no blogue da escola, numa rádio escolar ou em formato de podcast. É um projeto que une literacia oral, literacia digital e relação entre gerações, e que se articula bem com experiências como as do encontro com Gonçalo M. Tavares em Alcanena, onde a conversa com o autor foi a protagonista.

Inventário vivo: as bibliotecas da escola em dados

Muitos adultos nunca contaram os livros que têm em casa. Um projeto de Matemática e Português pode propor a cada aluno que estime quantos livros há em sua casa, os classifique por tipo, língua e década de publicação, e construa gráficos com a turma. Mais tarde, compara-se a amostra com os resultados dos estudos nacionais e internacionais, para trabalhar a relação entre a presença de livros em casa e os resultados de leitura. Os alunos descobrem que estão a fazer ciência com a sua própria casa e percebem melhor porque é que o acesso a livros pesa tanto.

Exposição «A minha estante»

Uma exposição itinerante, com fotografias de estantes de pessoas da comunidade (professores, pais, comerciantes, autarcas, bombeiros), cada uma acompanhada de uma frase sobre o livro mais importante. Pode ser montada na biblioteca escolar, na junta de freguesia, no centro de saúde, na estação de comboios. A fotografia dá lugar à conversa e a conversa dá lugar ao empréstimo. É exatamente o gesto que o Estadão fez ao filmar estantes de escritores, adaptado a uma escala em que qualquer pessoa pode ser protagonista.

Estantes digitais com limite de sete

A leitura de hoje também passa por ecrãs. Propomos que os alunos construam uma «estante digital» pessoal, com sete obras no máximo (livros, artigos, podcasts, ebooks, livros ouvidos) e uma nota sobre cada. Obriga a escolher, a justificar e a citar. É também um exercício de curadoria de conteúdos e de literacia da informação, que se pode ligar a plataformas de gestão de leituras e às bibliotecas digitais disponíveis. O limite é deliberado: uma biblioteca de vinte mil volumes começa pela pergunta sobre o que merece ficar.

Para que isto funcione

Três cuidados parecem-nos essenciais. O primeiro é a liberdade de escolha: nenhum destes projetos funciona se os alunos tiverem de ler apenas o que o adulto aprova. A biblioteca de Loyola Brandão tem Highsmith ao lado de Faulkner, e é essa convivência que a torna viva. O segundo é a continuidade: um projeto de um mês não muda hábitos, e vale mais fazer uma coisa pequena todos os meses do que uma grande uma vez por ano. O terceiro é a avaliação honesta: contar livros emprestados, perguntar aos alunos o que leram, observar quem volta à estante. Os dados que produzimos devem servir para ajustar o projeto e não apenas para o relatório.

Há ainda uma pergunta que fica de fora destas propostas e que merece resposta própria: o que se faz com os leitores que nunca tiveram uma estante em casa. Para esses, a biblioteca escolar e a biblioteca pública continuam a ser o espaço decisivo, e as bibliotecas pessoais só ajudam se vierem somar-se a elas e não substituí-las.

Uma estante é um retrato

Quem filma uma estante filma uma pessoa. O mérito da iniciativa do Estadão está aí: percebeu que o interesse não está só nos livros, está em quem os escolhe, os guarda, os abandona e os dá. Loyola Brandão dá, acumula e volta a dar. Se conseguirmos que os nossos alunos, e os adultos à sua volta, façam o mesmo, teremos feito mais pela leitura do que muitos planos bem desenhados.

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Nota editorial e de transparência: este artigo foi redigido com apoio de inteligência artificial e revisto pelos autores.

Referências

Academia Brasileira de Letras. (2025, 25 de março). ABL na mídia – Gazeta de Alagoas: A biblioteca de Ignácio de Loyola Brandão. https://www.academia.org.br/noticias/abl-na-midia-gazeta-de-alagoas-biblioteca-de-ignacio-de-loyola-brandao

Estadão Conteúdo. (2025, 20 de março). Coleção de Livros: Ignácio de Loyola Brandão elege seus livros preferidos e explica escolhas; veja. Terra. https://www.terra.com.br/diversao/colecao-de-livros-ignacio-de-loyola-brandao-elege-seus-livros-preferidos-e-explica-escolhas-veja,2dd7590489b9648dee19ab3361e2746f9rirlazv.html

Estadão. (s.d.). Loyola Brandão critica livro de García Márquez, mostra seus favoritos e diz qual obra jamais leria [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=7JHULXL1tHo

Little Free Library. (s.d.). About. https://littlefreelibrary.org/about/

Redação DN. (2017, 27 de fevereiro). «Um livro não se mata». Diário de Notícias. https://www.dn.pt/artes/um-livro-nao-se-mata-5692907.html

Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo. (2016, 2 de agosto). Loyola Brandão, 80 anos [Notícia da rede de bibliotecas municipais]. https://prefeitura.sp.gov.br/web/cultura/w/bibliotecas/noticias/20379

Todas as ligações foram consultadas a 12 de outubro de 2026.

Para saber mais

Anne Carson, Nobel da Literatura 2026: o que a escola pode aprender com quem lê devagar, no blogue.

Uma linha num plano, um manifesto em Bruxelas: a Europa assume o seu problema com a leitura, no blogue.

Quando um assobio muda tudo: Assobiando à Vontade, de Mário Dionísio, em sala de aula, no blogue.

O vídeo do Estadão sobre a biblioteca de Loyola Brandão, no YouTube.

Da pintura ao IMAX: a Odisseia que a arte nunca parou de reinventar

Toda a gente fala do filme de Christopher Nolan, mas a Odisseia já tinha sido pintada e reinventada centenas de vezes antes de chegar ao IMAX. Este artigo segue esse percurso visual e pergunta o que ele pode ensinar às escolas portuguesas sobre ler imagens com sentido crítico.

Um mês depois de Christopher Nolan ter levado Ulisses ao IMAX, este artigo recua três séculos de pintura sobre a Odisseia para perguntar algo mais útil a uma escola do que «gostaram do filme?»: o que muda, de artista para artista, quando se decide como pintar um ciclope, uma feiticeira ou uma mulher que espera.

Este artigo parte de um ensaio de história de arte da historiadora Catriona Miller, publicado na DailyArt Magazine a propósito da estreia do filme de Nolan, e segue de perto os exemplos que a autora reúne sobre a receção artística da Odisseia ao longo dos séculos. Cruza-os com as Aprendizagens Essenciais de Português e de Clássicos da Literatura, com o Perfil dos Alunos e com a componente de Cidadania e Desenvolvimento, para propor uma leitura desta tradição visual mais próxima do que interessa a uma aula portuguesa do que a uma crítica de cinema.

Há um mês, o Ulisses de Matt Damon chegou às salas portuguesas dentro do filme mais caro da carreira de Christopher Nolan, rodado em película IMAX de 70 milímetros e com um elenco que junta Anne Hathaway, Zendaya, Tom Holland, Charlize Theron e Lupita Nyong’o (Britannica, 2026). O realizador de Oppenheimer baseou o guião na tradução inglesa de Emily Wilson, de 2017, e filmou entre Marrocos, a Grécia, a Islândia e Malta ao longo de seis meses. Para muitos alunos, foi provavelmente o primeiro contacto sério com a história de um rei que demora dez anos a voltar a casa depois de outros dez anos de guerra. Mas vale a pena que a escola lhes diga, sem lhes estragar o entusiasmo, que Nolan não inventou nada de novo ao decidir como havia de mostrar um ciclope ou uma feiticeira: está apenas a fazer, com uma câmara IMAX, o que pintores europeus já fazem há mais de trezentos anos.

Uma história que a pintura nunca deixou em paz

A Odisseia é, desde a Antiguidade, um dos textos mais repintados da cultura europeia, e cada geração de artistas escolheu contar dela uma coisa diferente. Segundo o levantamento feito pela historiadora de arte Catriona Miller, a narrativa oferece praticamente todos os géneros ao mesmo tempo — drama, magia, romance, morte — e foi por isso que pintores de épocas tão distantes como o maneirismo italiano e o simbolismo do fim do século XIX regressaram a ela vezes sem conta (Miller, 2026). O mais interessante para uma sala de aula não é a lista de nomes, é o facto de os mesmos episódios terem sido pintados de formas radicalmente diferentes consoante o século, o país e até o sexo de quem segurava o pincel — e é exactamente essa variação que transforma um conjunto de quadros antigos numa aula de leitura crítica de imagem com aplicação imediata.

Veja-se o encontro com o ciclope Polifemo, o episódio mais visualmente violento de toda a viagem: Ulisses e os companheiros ficam presos na gruta do gigante, cegam-no com uma estaca em brasa e fogem atados à barriga das ovelhas. Segundo Miller (2026), a maior parte dos pintores optou por representar Polifemo não como um monstro disforme, mas como um homem grande e idealizado — Pellegrino Tibaldi chega a citar deliberadamente a pose do Adão de Michelangelo, o que desloca a atenção da crueldade da criatura para a brutalidade da vingança humana. Só muito mais tarde, já no simbolismo de Odilon Redon, o ciclope volta a ganhar um olho enorme e penetrante que devolve ao espectador alguma simpatia por ele. É a mesma cena, mas duas épocas diferentes decidiram, em silêncio, de que lado da violência queriam que o público ficasse.

Cada pincelada é uma escolha, não um facto

O episódio de Circe mostra ainda melhor este ponto, porque a diferença não está apenas no estilo, está no que cada geração decidiu esconder. A feiticeira transforma parte da tripulação de Ulisses em porcos antes de ser vencida pelo herói, avisado pelo deus Hermes. Pintores mais antigos, como Wilhelm Schubert van Ehrenberg, autor de uma versão de 1667 que recorreu a um especialista em animais para encher a tela com um tigre, uma avestruz e um urso, usaram o episódio sobretudo como pretexto para um exercício de imaginação exótica, com Circe e Ulisses reduzidos a figuras pequenas ao fundo de uma vila clássica (Miller, 2026). Já os pintores vitorianos deslocaram por completo o centro da imagem: fazem Circe estender a taça diretamente para fora do quadro, sem Ulisses presente, convidando quem observa a ocupar o lugar do herói e a decidir, por si, se bebe ou não. A sedução deixou de ser contada; passou a ser dirigida diretamente ao espectador. Nenhuma das duas versões é «mais fiel» ao texto de Homero — são duas decisões editoriais distintas sobre o que a imagem deveria fazer ao público, tomadas por artistas que nunca se conheceram, separados por mais de cem anos.

O mesmo acontece com as sereias. A maior parte dos pintores optou por mulheres nuas ou sereias com cauda de peixe, uma escolha mais decorativa do que ameaçadora. John William Waterhouse fez o oposto: seguindo modelos da cerâmica grega antiga, pintou-as meio ave, meio mulher, a esvoaçar de forma agressiva à volta do barco, com Ulisses visivelmente a lutar contra as cordas que o prendem ao mastro (Miller, 2026). Waterhouse não estava a inventar; estava a escolher, entre duas tradições iconográficas disponíveis, a que devolvia perigo real a uma cena que o costume já tinha tornado quase decorativa. É esse tipo de escolha — entre fontes, entre tradições, entre o que se mostra e o que se sugere — que qualquer aluno confrontado hoje com uma imagem gerada por computador ou selecionada por um algoritmo de rede social também precisa de saber identificar.

Penélope não é quem espera, é quem trama

Se há uma figura da Odisseia que a arte costuma tratar com mais justiça do que a memória escolar média, é Penélope. Angelica Kauffman pintou-a isolada, segurando o arco que só o marido conseguia esticar, com os aros pelos quais Ulisses costumava disparar uma flecha caídos no chão a seus pés — dois objetos que, para quem já conhece o final da história, funcionam como uma promessa silenciosa de que o regresso está próximo (Miller, 2026). Joseph Wright preferiu mostrá-la a enrolar lã com o característico contraste de luz e sombra do seu pincel, enquanto o filho dorme ao luar ao fundo, rodeada por uma estátua do marido ausente e pelo cão que também o espera. Em ambos os casos, o que se pinta não é uma mulher passiva à espera — é uma mulher que, ao longo de vinte anos, engana sistematicamente um grupo de pretendentes ao trono, desfazendo de noite o tecido que teceu de dia, exatamente para ganhar tempo. É uma personagem construída à volta da astúcia, não da paciência, e vale a pena que os alunos a conheçam assim antes de a resumirem, de forma preguiçosa, a «a mulher que esperou».

Clicar na imagem para ver a apresentação…

O que isto diz à escola portuguesa

Nenhum destes quadros foi pintado a pensar no currículo português, mas o espaço curricular para os usar já existe, e está mais bem preparado para isto do que a origem do tema poderia sugerir. A disciplina de Clássicos da Literatura, no 12.º ano, tem como propósito explícito promover o conhecimento do património literário europeu e a relação interartística, e recomenda formalmente, entre as suas estratégias de ensino, a leitura comparativa, a análise de intertextualidades e a pesquisa sobre temas de História da Arte, incluindo artes visuais (Direção-Geral da Educação, 2018) — o que descreve, quase ponto por ponto, o exercício de comparar duas pinturas de Circe separadas por um século. As Aprendizagens Essenciais de Português para o 10.º ano, atualizadas em março de 2026, vão ainda mais longe: sugerem explicitamente que a leitura de uma obra literária pode dar origem à sua recriação multimodal, a um documentário ou a uma banda desenhada, desde que o aluno se aproprie da obra em leitura integral e pense sobre ela de forma autónoma e crítica (Direção-Geral da Educação, 2026a). A epopeia, como género, está nomeada de forma explícita entre os textos literários que os alunos devem saber contextualizar e situar em função de marcos históricos e culturais (Direção-Geral da Educação, 2018).

O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória oferece um terceiro ponto de entrada, talvez o mais imediato para qualquer disciplina: entre as suas dez áreas de competência, inclui a sensibilidade estética e artística e o pensamento crítico e pensamento criativo, definidos como a capacidade de interrogar a realidade e de formular juízos fundamentados sobre aquilo que se vê (Direção-Geral da Educação, 2017). E a Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania, atualizada em agosto de 2025, mantém a literacia mediática entre os domínios obrigatórios da componente de Cidadania e Desenvolvimento (Portugal, 2025) — o espaço mais óbvio para ligar tudo isto a uma pergunta que já não é sobre pintura nenhuma: quando um algoritmo escolhe que imagem me mostra primeiro, ou quando uma ferramenta de imagem gerada por inteligência artificial decide como representar uma cena, que escolhas estão a ser feitas em meu nome, e por quem? É, no fundo, a mesma pergunta que Tibaldi, van Ehrenberg e Waterhouse já respondiam à sua maneira, cada um no seu século.

Uma proposta para a sala de aula

Uma forma simples de levar isto a uma turma de Português, Clássicos da Literatura ou Educação Visual não exige qualquer material que a escola não tenha já. Pode dividir-se a turma em pequenos grupos e atribuir a cada um o mesmo episódio da Odisseia — Circe, as sereias ou o regresso de Penélope funcionam particularmente bem —, pedindo-lhes que procurem, em coleções digitais de museus de acesso livre, duas ou três representações desse episódio feitas em séculos diferentes. Cada grupo regista três respostas simples para cada imagem: o que o artista decidiu mostrar, o que decidiu deixar de fora, e que valores do seu tempo essa escolha parece revelar. Segue-se uma comparação com um fotograma ou cartaz do filme de Nolan sobre o mesmo episódio, fazendo exatamente as mesmas três perguntas. A discussão final não precisa de fechar em nenhuma resposta certa — precisa apenas de deixar claro que nenhuma imagem, pintada a óleo ou gerada por um computador, é uma janela neutra para a história: é sempre uma escolha, feita por alguém, num determinado momento, e essa é a competência de leitura que interessa treinar, muito para além da Odisseia.

A segunda parte da proposta dirige-se a quem coordena Cidadania e Desenvolvimento. Vale a pena aproveitar o entusiasmo em torno do filme de Nolan para uma sessão curta sobre autoria e representação: mostrar aos alunos duas ou três imagens da mesma cena — uma pintura antiga, um fotograma do filme, uma imagem gerada por inteligência artificial a partir de um pedido simples sobre o mesmo episódio — e pedir-lhes que identifiquem, em cada uma, quem decidiu o quê. É um exercício de quinze minutos que liga um tema de há trezentos anos a uma pergunta que os alunos já enfrentam todos os dias, sem talvez lhe saberem dar nome.


Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta e integral do artigo «The Odyssey in Art: Myth, Magic, and Mayhem», de Catriona Miller (DailyArt Magazine, 17 de agosto de 2026). Os dados sobre a estreia, o elenco e a produção do filme «The Odyssey», de Christopher Nolan, foram verificados de forma cruzada junto de fontes independentes (Wikipedia, Britannica e Rotten Tomatoes).

Referências

Britannica. (2026, 10 de agosto). Christopher Nolan’s The Odyssey. Encyclopaedia Britannica. https://www.britannica.com/topic/The-Odyssey-film-by-Nolan

Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Noticias_Imagens/perfil_do_aluno.pdf

Direção-Geral da Educação. (2018, agosto). Aprendizagens essenciais | Articulação com o Perfil dos Alunos — 12.º ano, ensino secundário, Clássicos da Literatura. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Aprendizagens_Essenciais/12_classicos_da_literatura.pdf

Direção-Geral da Educação. (2026a, março). Aprendizagens essenciais | Articulação com o Perfil dos Alunos — 10.º ano, ensino secundário, Português. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/es_10_portugues.pdf

Miller, C. (2026, 17 de agosto). The Odyssey in art: Myth, magic, and mayhem. DailyArt Magazine. https://www.dailyartmagazine.com/the-odyssey-in-art/

Portugal. (2025). Resolução do Conselho de Ministros n.º 127/2025, de 29 de agosto — Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. Diário da República, 1.ª série. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/enec-2025.pdf

Para saber mais

«The Odyssey in Art: Myth, Magic, and Mayhem», de Catriona Miller, na DailyArt Magazine, fonte principal deste artigo.

Aprendizagens Essenciais de Clássicos da Literatura (12.º ano), na Direção-Geral da Educação, com as estratégias de leitura comparativa e de relação interartística referidas neste texto.

Página oficial da disciplina de Clássicos da Literatura, na Direção-Geral da Educação

Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, na Direção-Geral da Educação, para enquadrar as áreas de competência referidas neste artigo.

A Manifesto Library na Livraria Lello: o que uma estrela pop tem para ensinar às escolas sobre livros e liberdade

Há notícias que, à primeira vista, parecem pertencer ao mundo do entretenimento e não ao da escola. A abertura de uma biblioteca por uma estrela pop é, tipicamente, uma dessas notícias. E, no entanto, quando se olha com atenção para o que aconteceu a 27 de junho, no Porto, dentro da Livraria Lello, encontramos um conjunto de temas que qualquer professor de Português, de Cidadania e Desenvolvimento ou responsável por uma biblioteca escolar reconhecerá de imediato: censura, liberdade de expressão, o valor do livro como objeto de resistência e a pergunta, sempre incómoda, de quem decide o que os jovens podem ou não ler.

O que abriu, onde e porquê

A cantora britânica Dua Lipa, através do seu clube de leitura Service95 Book Club, associou-se à histórica Livraria Lello para inaugurar a Manifesto Library, uma coleção permanente de cem livros instalada no novo auditório cultural da livraria portuense. A abertura ocorreu na noite de 27 de junho de 2026, como um dos momentos centrais do BABELL – Cidade-Livro, o primeiro festival literário internacional promovido pela Fundação Livraria Lello, que decorreu entre 24 e 29 de junho e reuniu autores como Salman Rushdie, Margaret Atwood, Olga Tokarczuk, Byung-Chul Han e Javier Cercas, entre muitos outros, em sessões dispersas por praças, ruas e espaços culturais de todo o Porto.

O momento não foi escolhido ao acaso. Em 2026, a Livraria Lello celebra 120 anos de existência — está aberta desde 1906 — e o ano marca também outra transformação relevante: a inauguração de uma ampliação do edifício assinada pelo arquiteto Álvaro Siza Vieira, distinguido com o Pritzker, que acrescenta à livraria cerca de mil metros quadrados adicionais, incluindo o auditório onde agora vive a Manifesto Library. É, aliás, esse mesmo espaço que acolheu, no mesmo festival, a instalação A4, uma obra encomendada ao artista e ativista chinês Ai Weiwei, e a chamada Livraria 1984, um espaço de apenas um metro quadrado dedicado inteiramente ao romance de George Orwell — descrita pelos seus criadores como a mais pequena livraria do mundo dedicada a um único título.

Cem livros, quatro perguntas

A Manifesto Library não pretende ser um arquivo estático de obras censuradas, mas antes um espaço vivo de leitura e debate. Os cem títulos que a compõem organizam-se em torno de quatro eixos temáticos — poder, controlo, voz e memória — que funcionam como quatro perguntas diferentes sobre a relação entre livros e liberdade.

No eixo do poder encontramos obras que interrogam quem manda, quem contesta e quem tem autoridade para definir as narrativas que herdamos, como O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, 1984, de George Orwell, ou Felon, de Reginald Dwayne Betts. O eixo do controlo reúne livros sobre vigilância, propaganda e os instrumentos, muitas vezes silenciosos, da pressão institucional, com títulos como O Conto da Aia, de Margaret Atwood, ou O Processo, de Franz Kafka. Já o eixo da voz dá espaço a perspetivas historicamente silenciadas ou marginalizadas, incluindo A Cor Púrpura, de Alice Walker, e Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie. Por fim, o eixo da memória reúne testemunhos pessoais e coletivos construídos contra o esquecimento deliberado, em contextos de guerra, ditadura e exílio, como A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera, e Os Livros de Jacob, de Olga Tokarczuk.

Segundo a nota editorial divulgada pela própria Service95, muitos destes títulos foram, em diferentes países e momentos históricos, proibidos, retirados de currículos escolares ou removidos de sistemas de bibliotecas — frequentemente por abordarem temas como raça, sexualidade ou identidade de género. Outros nunca foram formalmente censurados, mas continuam a suscitar debate público intenso em torno destas mesmas questões. É precisamente essa tensão — entre o que foi silenciado e o que continua a incomodar — que a coleção procura tornar visível.

As palavras de quem a criou

Dua Lipa descreveu o projeto como «uma parceria de sonho», nascida da vontade, antiga, de transformar o clube de leitura que fundou num verdadeiro lugar de encontro entre escritores e leitores. Nas suas palavras, divulgadas pela Fundação Livraria Lello, esta é uma biblioteca concebida como «um santuário para livros que desapareceram e para autores cuja coragem desmascara estruturas de poder», dirigida a leitores que se recusam a que outros decidam por eles o que podem ler.

Do lado da livraria, Francisca Pedro Pinto, responsável de marca da Livraria Lello, sublinhou a continuidade entre a história centenária da instituição e este novo capítulo: «há 120 anos que a Livraria Lello se ergue sobre uma convicção simples — a de que o livro é uma tecnologia de liberdade». Uma frase que, note-se, dialoga diretamente com a metáfora que Jorge Luís Borges — sem parentesco conhecido com o autor destas linhas — usou décadas antes e que o Presidente da República Portuguesa recuperou no discurso de abertura do festival, ao descrever o livro como «uma extensão da memória e da imaginação».

Um festival que troca livros por cultura

Vale a pena deter-nos um pouco no BABELL, porque o seu modelo é, em si mesmo, um exercício interessante de promoção da leitura. O acesso às sessões do festival não se faz por bilhete convencional, mas através da compra de um livro numa rede de mais de cinquenta livrarias participantes na cidade do Porto — uma forma original de transformar a leitura em condição de acesso à cultura, e não apenas em consequência dela.

Do programa do festival destacam-se dois momentos com relevância direta para quem trabalha em contexto escolar. Por um lado, um conjunto de colóquios dedicados especificamente a educação e leitura, agendados para o último dia do festival na Biblioteca Municipal Almeida Garrett. Por outro, uma programação infantil, com curadoria de Adélia Carvalho, realizada nas manhãs de 27 e 28 de junho nos Jardins do Palácio de Cristal — prova de que a organização do festival não pensou este projeto apenas para um público adulto e literário, mas quis desde o início incluir crianças e famílias na experiência.

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Porque é que isto interessa às nossas escolas

É fácil olhar para este acontecimento como uma simples curiosidade cultural, mais um projeto de uma celebridade internacional com visibilidade em Portugal. Achamos, no entanto, que há aqui pelo menos três fios que merecem ser trazidos para dentro da sala de aula.

O primeiro é o da liberdade de expressão e da censura, um tema que se cruza diretamente com os referenciais de Cidadania e Desenvolvimento e com as Aprendizagens Essenciais de Português, sobretudo nos ciclos em que se trabalha a leitura crítica e a argumentação. A Manifesto Library oferece um ponto de partida concreto e internacional para uma discussão que, entre nós, tende a ficar abstrata: porque é que um livro é retirado de uma biblioteca ou de um currículo escolar? Quem decide? E que diferença existe entre uma decisão editorial legítima — adequar uma obra a uma faixa etária, por exemplo — e um ato de silenciamento? Comparar casos concretos de obras contestadas em diferentes países, com os alunos, é um exercício de pensamento crítico mais produtivo do que qualquer exposição teórica sobre o conceito de censura.

O segundo fio é o da própria leitura como prática social e não apenas escolar. O modelo do BABELL — trocar um livro por acesso a um festival — e a proposta da Manifesto Library — transformar uma livraria centenária num espaço de debate público — são, ambos, tentativas de devolver a leitura ao centro da vida coletiva, numa altura em que o tempo de atenção dos mais jovens está cada vez mais fragmentado entre ecrãs. Para um blogue como este, dedicado à relação entre tecnologia e educação, este contraponto entre o livro físico e o mundo digital não é irrelevante: mostra que a promoção da leitura e a literacia digital não são terrenos opostos, mas complementares, e que vale a pena continuar a criar, também nas nossas escolas, momentos e espaços que devolvam ao livro em papel o seu lugar de destaque.

O terceiro fio, mais subtil, é o da própria literacia mediática aplicada a este caso. Uma estrela pop a promover a leitura é, simultaneamente, uma boa notícia para a causa dos livros e um excelente pretexto para discutir com os alunos como funciona a construção de uma imagem pública através da cultura — que interesses comerciais e de reputação convivem, sem se anularem, com um propósito cultural genuíno. Nada disto desvaloriza o projeto; pelo contrário, ensinar os alunos a olhar para uma iniciativa como esta com esse duplo olhar — reconhecendo o seu valor cultural sem deixar de identificar a sua dimensão de marketing — é, também, literacia mediática em ação.

Para levar para a aula

Sem transformar isto num receituário, deixamos três pistas de trabalho que nos parecem particularmente diretas. Pode propor-se aos alunos que escolham um dos quatro eixos da Manifesto Library — poder, controlo, voz ou memória — e investiguem, em pequenos grupos, a história de contestação de uma das obras associadas a esse eixo, apresentando depois à turma os argumentos usados por quem pediu a sua retirada e por quem defendeu a sua permanência nas bibliotecas. Pode também usar-se o próprio conceito do festival — trocar um livro por um bilhete de acesso à cultura — como mote para um pequeno projeto de promoção da leitura na escola, associado à biblioteca escolar. E pode, por fim, explorar-se com os alunos mais velhos a tensão entre celebridade e causa cultural, pedindo-lhes que analisem criticamente comunicados de imprensa e publicações nas redes sociais sobre este projeto, distinguindo factos verificáveis de linguagem promocional.

A Manifesto Library não vai resolver, por si só, nenhum dos desafios de leitura que as nossas escolas enfrentam. Mas é um bom recordatório de que a discussão sobre livros, liberdade e censura continua bem viva — e de que, por vezes, os pontos de partida mais úteis para essa discussão em sala de aula chegam de lugares tão inesperados como uma livraria centenária no Porto.


Este artigo foi elaborado com apoio de inteligência artificial para pesquisa e redação, a partir de fontes primárias — o comunicado oficial da Service95, os conteúdos publicados pela Fundação Livraria Lello no âmbito do festival BABELL, a intervenção do Presidente da República na sessão de abertura do festival e cobertura da imprensa especializada em cultura e arquitetura .

Referências

Espaço de Arquitetura. (2026). Livraria Lello inaugura expansão de Álvaro Siza e lança BABELL. https://espacodearquitetura.com/noticias/livraria-lello-inaugura-expansao-de-alvaro-siza-e-lanca-babell/

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026a). About BABELL. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/about-babell

Fundação Livraria Lello / BABELL. (2026b). BABELL unveils full programme. https://babell.fundacaolivrarialello.pt/en/conteudos/noticias/babell-unveils-full-programme

Music-News.com. (2026, junho). Dua Lipa and Livraria Lello open the Manifesto Library in Porto. https://www.music-news.com/news/UK/189761/Dua-Lipa-and-Livraria-Lello-open-the-Manifesto-Library-in-Porto

Presidência da República Portuguesa. (2026, junho 24). Intervenção na sessão inaugural do festival literário e cultural “BABELL – Cidade-Livro” e visita à Livraria Lello. https://www.presidencia.pt/en-en/news-agenda/all-news/2026/06/intervencao-na-sessao-inaugural-do-festival-literario-e-cultural-babell-cidade-livro-e-visita-a-livraria-lello/

Service95. (2026, julho 2). Inside the Manifesto Library: Service95 Book Club’s permanent collection at Livraria Lello, Porto. https://www.service95.com/manifesto-library-launch

Leonardo Padura Fuentes — O escritor de Havana

Escrevo sobre os problemas dos indivíduos na sociedade cubana. E muitas vezes, nos meus livros, mais do que conflitos dramáticos entre personagens, encontrarás um conflito social entre os personagens e o seu tempo histórico.”
— Leonardo Padura Fuentes

Quem é Leonardo Padura?

Leonardo de la Caridad Padura Fuentes nasceu em Havana, Cuba, a 9 de outubro de 1955, no bairro popular de Mantilla. É romancista, ensaísta, jornalista e argumentista de cinema, considerado um dos mais importantes escritores cubanos contemporâneos — e um dos nomes mais relevantes da literatura ibero-americana do século XXI. Completou 70 anos em 2025, com uma carreira que abrange mais de quatro décadas de escrita.

A sua vida nunca saiu de Cuba. Ao contrário de muitos intelectuais que abandonaram a ilha nos últimos anos, Padura manteve-se em Havana com uma explicação simples e carregada de sentido: “Tenho muitas razões para viver fora de Cuba, mas as que me mantêm aqui pesam mais. Uma delas é o meu sentido de pertença — a uma realidade, a uma cultura, a uma forma de ver a vida, a uma forma de me expressar.” Esta decisão não é ingénua. É profundamente literária e política ao mesmo tempo.


Formação e os anos de jornalismo

Padura licenciou-se em Literatura Hispano-Americana na Universidade de Havana em 1980. Assumiu a cadeira de literatura latino-americana nessa mesma universidade e destacou-se como jornalista investigativo ao longo dos anos 80, trabalhando para meios de comunicação social estatais. Este período jornalístico foi decisivo: aprendeu a observar a sociedade cubana com olhos clínicos, a documentar o que outros preferiam ignorar, e a desenvolver uma voz que equilibrava factos e ficção com maestria.

Da escrita jornalística resultaram obras de reportagem e ensaio como El alma en el terreno, Los rostros de la salsa e El viaje más largo, coletâneas que revelam um escritor fascinado pela identidade cultural cubana — a música, o desporto, os rituais quotidianos. Escreveu também argumentos para documentários cinematográficos, incluindo Yo soy del son a la salsa, que recebeu o Prémio Coral no 18.º Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano de Havana.


Havana como personagem

Havana não é apenas o cenário das histórias de Padura. É uma co-protagonista. A cidade que ele descreve é um tecido denso de dificuldades económicas, sincretismo afro-descendente, corrupção, malandragem, música vibrante e crescente desigualdade — tudo isso envolto na sombra de uma revolução que moldou o século XX.

É sobretudo o bairro de Mantilla, onde Padura nasceu e ainda vive, que alimenta a geografia afetiva dos seus romances. As suas ruas, os seus bares, as praias e os parques surgem nas páginas como mapas de uma alma coletiva. Para Padura, escrever sobre Cuba não é uma escolha política — é uma necessidade orgânica, quase biológica.


A série Mario Conde: Quatro Estações em Havana

A obra que projetou Leonardo Padura para a fama internacional é a série de romances policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde — conhecido carinhosamente como El Conde. A série iniciou-se com Pasado Perfecto (1991) e percorreu décadas de publicação.

Mario Conde é um detetive de Havana que nunca encontrou o seu lugar no mundo. Sonhou ser escritor, acabou na polícia, e percorre uma cidade que parece estar sempre a desmoronar-se com beleza. O que torna esta série única não é o mistério policial em si — são as páginas de reflexão social, memória, amizade e perda que o Conde carrega consigo em cada investigação.

Os principais romances da série Mario Conde

TítuloAnoNota Temática
Pasado Perfecto1991O desaparecimento de um quadro do Partido; corrupção pós-revolucionáriaaplengua.org
Vientos de Cuaresma1994Crime numa escola; a moral numa sociedade em criseaplengua.org
Máscaras1997Identidade, homossexualidade e teatro em Havanabrasil.elpais
Paisaje de Otoño1998Prémio Hammett 1998; o fim da carreira de Conde na políciawikipedia
Adiós, Hemingway2001Hemingway em Cuba; passado e presente entrelaçadosaplengua.org
La Neblina del Ayer2009O Conde reformado, entre livros velhos e memóriaswikipedia
Herejes2013Um Rembrandt desaparecido e a diáspora cubanainstagram
La Transparencia del Tiempo2018Escultura medieval, violência e gentrificação em Havanaaplengua.org
Personas Decentes2023O crime de 1910 e os anos da pandemiainstagram

Através das investigações do Conde, Padura criou o que muitos críticos descrevem como a mais consistente e profunda crónica social de Cuba desde a Revolução. “Para Padura, o policial é apenas um pretexto para falar da sociedade cubana e fazer um exame de consciência da sua geração”, sintetiza a crítica literária de língua espanhola.


El Hombre que Amaba a los Perros — A grande obra

Em 2009, Padura publicou aquilo que muitos consideram a sua obra-prima: El hombre que amaba a los perros (O Homem que Gostava de Cães). Fruto de cinco anos de investigação histórica, o romance entrelaça três narrativas em torno de um dos crimes mais reveladores do século XX: o assassinato de Léon Trotsky por Ramón Mercader, em Cidade do México, em 20 de agosto de 1940.

A estrutura do livro é tripartida:

  • Léon Trotsky — o revolucionário russo, cofundador do Estado soviético, perseguido por Stalin durante 11 anos de exílio errante por Turquia, França, Noruega e México
  • Ramón Mercader — o comunista catalão recrutado pelos serviços de inteligência soviéticos, transformado num assassino frio e metódico
  • Iván Cárdenas — um escritor cubano frustrado que, nos anos 70, conhece na praia de Havana um misterioso homem que passeava dois galgos russos e que vai revelando, aos poucos, uma história que o marcará para sempre

O que torna o livro extraordinário é a compaixão com que Padura trata todos os personagens — incluindo o assassino. Através da reconstituição da vida de Mercader, desde a infância na Barcelona burguesa, passando pela Guerra Civil Espanhola e pelos treinos nos serviços secretos soviéticos, o autor analisa como um ser humano se transforma num instrumento ao serviço de uma ideologia. Figuras como George Orwell, Frida Kahlo e Diego Rivera surgem no livro como personagens secundários que enriquecem o painel histórico.

A publicação em Cuba só aconteceu em 2011, dois anos após o lançamento original — um sinal evidente das tensões entre a obra de Padura e o regime.


Outros romances essenciais

La Novela de mi Vida (2002)

Este romance mergulha na vida e obra de José María Heredia, o poeta romântico cubano do século XIX considerado o primeiro grande poeta nacional da ilha. Padura recria a trajetória do exílio de Heredia — que viveu entre México e Nova Iorque — e compara-a com a condição dos cubanos de hoje, obrigados a escolher entre ficar e partir. É uma meditação sobre identidade, lealdade e o custo da arte sob regimes autoritários.

Herejes (2013)

O Conde investiga o desaparecimento de uma jovem havanesa e o rasto de um quadro de Rembrandt que pertenceu a uma família judaica que tentou fugir da Europa nazi em 1939 a bordo do navio St. Louis — que foi recusado em vários portos, incluindo Cuba. Padura usa o mistério para refletir sobre liberdade, escolha e heresia — aqueles que ousam ser diferentes dentro de qualquer sistema, seja político, religioso ou social.

Como Polvo en el Viento (2021)

Afastando-se temporariamente do Conde, Padura escreveu um romance coral sobre uma geração de amigos cubanos dispersados pela diáspora, nos anos 90 e 2000. É o seu olhar mais direto sobre o fenómeno das migrações cubanas — aqueles que ficaram, os que partiram, e o que sobrou das suas relações.


A Cuba de Padura: entre a lealdade e a crítica

Leonardo Padura nunca foi um dissidente clássico. Nunca abandonou Cuba, nunca lançou manifestos políticos abertos. E, no entanto, a sua obra constitui uma das mais consistentes críticas à sociedade cubana pós-revolucionária escrita de dentroascecuba.

Os seus livros raramente são censurados formalmente — mas circulam em Cuba em tiragens muito limitadas, e o regime nunca o promoveu nos meios oficiais. O próprio Padura descreve a sua posição com precisão: “Sou escritor, no essencial, da vida cubana, e a política não pode estar fora dessa vida, porque é parte diária, ativa e penetrante dela.”

Este equilíbrio delicado — crítica sem exílio, lealdade sem silêncio — é talvez o traço mais singular da sua trajetória intelectual. Faz dele uma voz insubstituível: alguém que conhece Cuba por dentro e que recusa tanto a propaganda do regime como a retórica simplista do anticomunismo externo.


Prémios e reconhecimento internacional

Ao longo de quatro décadas, Padura acumulou um reconhecimento internacional raro para um escritor que nunca deixou Cuba:

  • Prémio UNEAC (Cuba, 1993) — pela tetralogia Las Cuatro Estaciones
  • Prémio Café Gijón (Espanha, 1995) — pela série Mario Conde
  • Prémio Hammett da International Association of Crime Writers (1998 e novamente em 2006)
  • Prémio Nacional de Literatura de Cuba (2012)
  • Prémio Princesa das Astúrias de Letras (Espanha, 2015) — o júri destacou que a sua obra constitui “uma soberba aventura do diálogo e da liberdade”
  • Série Netflix Quatro Estações em Havana (2016), com Jorge Perugorría como Mario Conde
  • Membro da Academia Cubana da Língua (desde 2018)
  • Membro honorário ou correspondente das academias de língua do Panamá, Costa Rica e Puerto Rico

Os seus livros foram traduzidos para mais de 15 línguas e publicados em dezenas de países.


A série no ecrã: Quatro Estações em Havana

Em 2016, a Netflix estreou a minissérie Quatro Estações em Havana, baseada nos romances de Mario Conde, com o ator cubano Jorge Perugorría no papel do detetive. A adaptação foi elogiada pela forma como captou a atmosfera de Havana — a luz difusa, os carros americanos dos anos 50, as ruas cheias de histórias — e pela fidelidade ao espírito melancólico e literário do protagonista.

A série abriu a obra de Padura a novos públicos em todo o mundo, tornando Mario Conde num dos detetives literários mais reconhecidos da América Latina.


O que vale a pena ler (e por onde começar)

Para quem descobre Padura pela primeira vez, a escolha do primeiro livro depende do que se procura:

Se procuras…Começa por…
Se procuras…Começa por…
Uma introdução ao Mario Conde e à Havana dos anos 90Máscaras (1997) — o mais literariamente rico da série
Uma obra histórica monumental e perturbadoraEl Hombre que Amaba a los Perros (2009)
A melancolia do Conde mais maduro, entre nostalgia e livrosLa Neblina del Ayer (2009)
Uma reflexão sobre identidade cubana e exílioLa Novela de mi Vida (2002)
A obra mais recente e mais longaPersonas Decentes (2023)

O legado: um escritor para o século XXI

Leonardo Padura criou algo que poucos escritores conseguem: uma obra que é simultaneamente popular e literariamente exigente, profundamente local e universalmente ressonante. Mario Conde é uma criação que pertence ao cânone dos grandes detetives literários — ao lado de Philip Marlowe, Hercule Poirot ou Pepe Carvalho.

Mas o legado de Padura vai além do policial. É o legado de um escritor que, ao recusar-se a sair de Cuba, transformou a lealdade numa forma de resistência; que, ao escrever sobre os mortos — Trotsky, Heredia, Mercader —, nos fala sempre dos vivos; e que, ao construir o seu Havana literário tijolo a tijolo, criou um monumento à memória de uma geração inteira.

Nos seus romances, Cuba não é um símbolo nem um argumento. É uma ilha real, com cheiro a mar e a fritura, com vizinhos que bebem rum e discutem basebol, com funcionários corruptos e sonhadores frustrados. É esse realismo implacável, temperado por uma prosa elegante e uma compaixão profunda pelos seus personagens, que faz de Padura um escritor verdadeiramente incontornável.

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Mensagens para uma IA ao serviço da Humanidade

Uma obra que nos convida a pensar antes de delegar

Blogue de Alejandro Barros – Recensão |

Há livros que chegam no momento certo. Mensajes para una IA al servicio de la humanidad — recém-publicado em março de 2026 pela Edições Mensaje, no âmbito das comemorações do 75.º aniversário da revista chilena homónima — é um desses casos. Não se trata de um manual técnico, nem de um manifesto tecnofóbico. É um exercício coletivo de discernimento: trinta vozes vindas da ciência, da educação, do direito, da filosofia e das políticas públicas, que se interrogam sobre o que a inteligência artificial (IA) nos está a fazer como sociedade.

A pergunta que atravessa todo o volume é simples na forma, mas profunda no alcance: queremos uma IA ao serviço da humanidade, ou estamos nós a colocar-nos ao serviço da IA?


A Inteligência que não compreende

O livro abre com uma distinção fundamental que, no frenesim quotidiano dos chatbots e assistentes, tende a escapar-nos. Quando dizemos que uma máquina “aprende”, estamos a usar uma metáfora, não uma descrição rigorosa. Os sistemas de IA processam e correlacionam padrões a partir de enormes volumes de dados, mas não possuem experiência vivida, não compreendem o sentido nem mantêm uma relação com o mundo como totalidade significativa.

Esta distinção não é meramente académica. Ela condiciona a forma como devemos entender tanto as capacidades como os limites destas ferramentas. Uma máquina pode otimizar processos, mas não conhece a fragilidade, a esperança, a culpa ou o perdão. A inteligência humana está sempre situada numa biografia, num corpo, numa comunidade e numa história — e reduzi-la a um conjunto de operações formais seria empobrecê-la de forma irreparável.

Para quem trabalha em bibliotecas escolares ou em salas de aula com adolescentes que já normalizam o uso de ferramentas generativas, esta clarificação conceptual é um ponto de partida incontornável. Antes de ensinar a usar, importa ensinar a compreender o que se está a usar.


Cinco eixos de reflexão

O volume organiza-se em seis capítulos temáticos que, na prática, funcionam como cinco grandes eixos de reflexão:

1. A IA como revolução planetária
Figuras como Álvaro Soto Arriaza defendem que a IA vai mudar “de forma disruptiva a vida de cada um de nós”, enquanto Martín Tironi alerta para a necessidade de compreender esta revolução no contexto dos limites planetários. O investigador Fernando de La Torre lança uma advertência que não passa despercebida: “O 1% que concentra o poder tecnológico é o maior perigo para a humanidade”. A concentração de capacidade computacional e de dados em poucos atores globais não é uma preocupação futurista — é uma realidade presente que interpela as democracias.

2. Dignidade e identidade humana no ciberespaço
Especialistas como Gabriela Arriagada e Ramón López de Mántaras sublinham que “o risco da inteligência artificial é que nos leve a esquecer o valor do ser humano”. Neste capítulo, surgem questões sobre a solidão digital dos jovens, o livre-arbítrio e a liberdade condicionada pelos algoritmos — temas que qualquer educador deveria ter presente quando pensa o bem-estar dos seus alunos.

3. Ética e governança na fronteira digital
A necessidade de regulação é transversal, mas há vozes que alertam para os excessos. Maximiliano Santa Cruz afirma não ser “partidário de sobrerreagir e fazer imediatamente normas ad hoc para a IA”, ao passo que Danielle Zaror é clara: “Esta tecnologia deve permitir o exercício dos direitos, não limitá-los nem anulá-los”.

4. Educação e as novas literacias
Este é, para mim, o capítulo mais relevante — e aquele que mais diretamente interpela o trabalho em bibliotecas escolares. Cristóbal Cobo Romani, investigador de referência em educação e tecnologia, é direto: “Hoje precisamos de novas literacias e meta-competências”. Julio Bascuñán acrescenta que “nenhuma ferramenta tecnológica substituirá a pessoa e a sua relação com os seus semelhantes”. Não basta ensinar a usar ferramentas; é necessário formar critério, capacidade crítica, consciência histórica e sentido moral. As novas literacias não são apenas digitais: são também éticas, políticas e, por que não, espirituais.

5. A IA ao serviço das comunidade

O capítulo final do livro é talvez o mais esperançoso — e o mais concreto. Aqui, a pergunta deixa de ser filosófica e torna-se prática: afinal, o que pode a IA fazer pelo ser humano quando é deliberadamente orientada para o bem comum?

Os exemplos reunidos são diversificados e surpreendentes. Carlos Aspillaga apresenta projetos de IA desenvolvidos ao serviço de comunidades indígenas, mostrando que a tecnologia pode ajudar a preservar línguas e saberes em risco de desaparecimento.


O maior risco não é que as máquinas pensem

Há uma frase na contracapa do livro que resume, com economia de palavras, o espírito do projeto: “O maior risco hoje não é que as máquinas pensem, mas que nós deixemos de o fazer.”

É uma afirmação que ecoa em contextos educativos com uma urgência particular. Quando um aluno entrega um trabalho gerado por IA sem o questionar, sem o verificar, sem o fazer seu, não está apenas a infringir regras académicas — está a abdicar da sua própria capacidade de pensar. E quando um professor usa um assistente generativo para planificar aulas ou avaliar sem critério reflexivo, o mesmo risco se aplica.

O livro não demoniza a tecnologia. Pelo contrário: posiciona-se num ponto de equilíbrio difícil, recusando tanto a “fascinação ingénua” como o “rejeição temerosa”. O que propõe é discernimento — palavra que, não por acaso, tem raízes na tradição inaciana que inspira a publicação.


Para o Contexto Ibero-Americano (e Português)

Embora o livro seja editado no Chile e centrado no contexto latino-americano, as suas preocupações são plenamente pertinentes para Portugal. A questão não é só que IA queremos desenvolver, mas para quem. Numa região marcada por desigualdades digitais persistentes, a pergunta sobre acesso, uso e compreensão crítica das tecnologias é também a nossa.

Em Portugal, no contexto das bibliotecas escolares e dos planos de literacia digital, este livro oferece um enquadramento conceptual que faz falta. Não um manual de procedimentos, mas uma bússola de valores. Uma forma de lembrar que, antes de integrarmos ferramentas nos currículos, precisamos de saber porquê — e em função de que visão de pessoa e de sociedade o fazemos.


Vale a Pena Ler?

Sim — sobretudo se trabalha em educação ou em bibliotecas escolares e quer ir além dos tutoriais de “como usar o ChatGPT na sala de aula”. Este livro não dá receitas; faz perguntas. E, como qualquer bom professor sabe, são muitas vezes as perguntas que ensinam mais.

A obra está disponível em espanhol (ISBN 978-956-8662-32-5) e faz parte de uma coleção que inclui títulos anteriores como Educar, ¿para qué? Mensajes para una educación con futuro (2024) — também este de leitura recomendada.

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