Capítulo 10: os Miúdos a Votos festejaram dez anos a ler e a votar, na Gulbenkian

Lisboa, 28 de maio de 2026

Houve uma página em branco há dez anos. Hoje, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, fechou-se o décimo capítulo dessa história — e abriu-se, de imediato, o convite para o próximo. A Festa Final dos “Miúdos a Votos!”, a iniciativa de leitura e cidadania da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), celebrou a sua 10.ª edição com um espetáculo inteiramente feito por alunos e para alunos, sob o mote “10 Capítulos de Uma Grande Aventura”.

Foi uma festa de leitura, mas também — e é por aí que este blogue olha para ela — uma demonstração concreta de como a tecnologia, os média e a web podem estar ao serviço da formação de leitores e de cidadãos críticos desde os primeiros anos de escolaridade.


Uma eleição a sério, à escala de um país

O conceito dos “Miúdos a Votos!” é tão simples quanto poderoso: dar a crianças e jovens, do 1.º ao 12.º ano, a possibilidade de elegerem o seu livro preferido replicando os procedimentos e as normas de uma eleição real. Listas de candidatos, campanha eleitoral, dia de eleição, boletins, apuramento — tudo acontece como numa votação verdadeira, transformando a promoção da leitura num exercício vivo de cidadania democrática.

A iniciativa, organizada anualmente pela RBE desde 2016, é aberta a todas as escolas, públicas ou privadas, e estende-se a estabelecimentos de ensino no estrangeiro que tenham o Português como primeira língua. Este ano, o calendário cumpriu as etapas habituais: seleção dos livros candidatos, campanha eleitoral (de 19 de fevereiro a 20 de março), dia da eleição a 24 de março e, como ponto alto, esta festa final.

O rigor do processo assenta numa rede de parceiros que dá ao projeto credibilidade institucional e profundidade pedagógica — e é aqui que entram três nomes incontornáveis.

Pordata: o rigor por trás dos votos

O apuramento dos resultados é da responsabilidade da Pordata, que assegura a transparência e o rigor da votação. A Pordata é a Base de Dados de Portugal Contemporâneo, organizada e desenvolvida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, e reúne estatísticas oficiais e certificadas sobre o país e a Europa. Que seja precisamente esta entidade a contar os votos não é detalhe menor: ensina aos alunos que, numa democracia, os números importam, devem ser fidedignos e podem (e devem) ser escrutinados. É literacia estatística aplicada, em estado puro. Para os dez anos, a Pordata foi mais longe e reuniu toda a história do projeto em dois painéis interativos — a que voltaremos mais abaixo.

Comissão Nacional de Eleições: a moldura democrática

O enquadramento eleitoral conta com o apoio da Comissão Nacional de Eleições (CNE), o órgão independente que vela pela regularidade dos atos eleitorais em Portugal. A sua presença reforça a dimensão cívica do projeto: votar não é escolher ao acaso, é um direito com regras, com igualdade de oportunidades entre candidatos e com respeito pelo resultado das urnas — incluindo a curiosa “Lei de Limitação de Mandatos” que o projeto adota para impedir que os mesmos títulos vençam indefinidamente.

Rádio Miúdos: a voz dos alunos

Durante a campanha, os alunos não se limitaram a fazer cartazes e debates. Gravaram podcasts — os Tempos de Antena — em que defendem o livro que mais gostam, transmitidos pela Rádio Miúdos, a primeira rádio portuguesa para crianças, online, criada em 2015 e feita com e para os mais novos. É aqui que o projeto cruza, de forma natural, a promoção da leitura com a produção mediática pelos próprios alunos: argumentar, gravar, editar som, respeitar tempos de antena, comunicar com clareza. Tudo competências de literacia dos média que a escola raramente trabalha de forma tão envolvente.

A tudo isto soma-se o acolhimento e o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que recebeu a festa no seu auditório.


O tema: a festa lida como um livro de dez capítulos

Para assinalar a década, a festa foi desenhada como um livro com dez capítulos. No ecrã, um grande livro projetado ia virando as suas páginas, e cada bloco do espetáculo abria-se como um novo capítulo. A metáfora deu ao evento aquilo de que mais precisava: um fio condutor claro, imediatamente compreensível para uma plateia de crianças, capaz de unir num só arco narrativo a retrospetiva dos dez anos, as atuações das escolas e os anúncios dos resultados.

No ecrã, dez capítulos passaram em imagens — cartazes, alunos a votar, momentos das nove edições anteriores — enquanto uma voz off conduzia a plateia ao presente:

“Tudo começa com uma página em branco. Dez anos. Dez capítulos. Escritos por vocês — miúdos que pegaram em livros como se fossem mundos, e em votos como se fossem voz. E hoje, chegamos ao Capítulo 10. Bem-vindos à Festa Final dos Miúdos a Votos.”

A partir daí, a sala acendeu-se e a festa não mais parou.


Dez anos em retrospetiva

Intercaladas ao longo do espetáculo, surgiram as “Cápsulas do Tempo” — pequenos apontamentos em vídeo que recordaram livros vencedores, campanhas marcantes e rostos de alunos e professores que, ano após ano, fizeram crescer o projeto.


Os livros vencedores da 10.ª edição

O coração da festa foram, naturalmente, os resultados. Apurados pela Pordata, os títulos mais votados em cada ciclo de ensino foram:

  • 1.º Ciclo: Não Abras Este Livro
  • 2.º Ciclo: Avozinha Gângster
  • 3.º Ciclo: A Criada
  • Ensino Secundário: A Criada

O facto de A Criada ter conquistado simultaneamente o 3.º Ciclo e o Secundário é, por si só, um sinal interessante sobre as escolhas de leitura dos jovens portugueses — e um bom ponto de partida para conversas em sala de aula e na biblioteca escolar.


Uma década em dez livros: os vencedores de cada ano

Para assinalar os dez anos, a Pordata reuniu e tratou os dados de todas as edições e disponibilizou-os em dois painéis interativos — um dashboard estatístico e uma narrativa visual (“storytelling”). É um arquivo precioso, que permite percorrer a história do projeto ano a ano. (Nota: a Pordata identifica cada edição pelo ano da eleição, de 2017 a 2026, correspondendo aos anos letivos de 2016-2017 a 2025-2026.)

O livro mais votado em cada edição conta, por si só, uma pequena história das leituras de uma geração:

EdiçãoLivro mais votadoVotosEscolas
2017 (1.ª)O Principezinho49 317440
2018A Avozinha Gângster54 476505
2019Não Abras Este Livro75 970727
2020Ano de exceção (pandemia)16 815—
2021Gravity Falls — Diário 374 161610
2022Gravity Falls — Diário 3102 513862
2023O Diário de Anne Frank117 642936
2024A Avozinha Gângster109 203959
2025Harry Potter e a Pedra Filosofal121 060960
2026 (10.ª)Revelado hoje (vencedores por ciclo, acima)118 510968

Fonte: Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Há nesta tabela várias leituras. O arranque, em 2017, com O Principezinho — o clássico de Saint-Exupéry — a vencer logo na primeira edição. A ascensão do fenómeno Gravity Falls, que venceu dois anos consecutivos (2021 e 2022) em plena recuperação pós-pandemia. E momentos de enorme significado, como a vitória de O Diário de Anne Frank em 2023, prova de que os jovens leitores também procuram a memória e a História.

Os números de uma geração

Os dados da Pordata traduzem em números aquilo que se sente na sala: o projeto não parou de crescer. Começou com 440 escolas em 2017 e chegou a 968 escolas em 2026 — um crescimento de 120%. Ao longo da década, foram contabilizados cerca de 845 mil votos.

A única quebra aconteceu em 2020, quando a pandemia de COVID-19 fechou as escolas: nesse ano registaram-se apenas 16 815 votos, uma queda de 78%. Mas a recuperação foi imediata — em 2021, os votos voltaram aos 74 161, como se nada tivesse acontecido. Os livros, esses, nunca fecharam.

Os campeões de uma geração

Olhando para as dez edições no seu conjunto, a Pordata destaca os títulos com mais presenças no pódio ao longo do tempo:

  • 1.º lugar histórico: A Avozinha Gângster — 15 presenças no pódio
  • 2.º lugar histórico: Harry Potter e a Pedra Filosofal — 14 presenças no pódio
  • 3.º lugar histórico: O Diário de Anne Frank — 12 presenças no pódio

E, por ciclo de ensino, os líderes históricos são Gravity Falls — Diário 3 (no 1.º e no 2.º Ciclos), A Avozinha Gângster (no 3.º Ciclo) e After — Depois de o Conhecer (no Ensino Secundário) — um retrato fiel da diversidade de gostos que convive neste universo, do humor à fantasia, do diário ao romance juvenil.


Prémio Melhor Campanha: quando ler é também comunicar

A reta final do espetáculo foi reservada ao Prémio Melhor Campanha, que distingue as ações de campanha mais criativas desenvolvidas pelas escolas. Foram atribuídos quatro prémios monetários de 600€ cada, um por cada categoria de ensino.

As escolas distinguidas foram Padrão da Légua, Carregal do Sal, António Gedeão e Paços de Ferreira. Este prémio é, talvez, o que melhor traduz a alma contemporânea do projeto: premeia não apenas a leitura, mas a capacidade de a comunicar — através de cartazes, debates, podcasts, vídeos e ações junto da comunidade. Ler, argumentar, persuadir e mobilizar: competências de cidadania e de literacia mediática que servirão estes alunos muito para além da escola.


Porque é que isto interessa a quem pensa TIC, Educação e Web

Vista da perspetiva deste blogue, a Festa Final dos “Miúdos a Votos!” é muito mais do que uma celebração da leitura. É um caso de estudo sobre integração de tecnologia, média e cidadania no quotidiano escolar:

  • Produção mediática pelos alunos: os podcasts dos Tempos de Antena, transmitidos pela Rádio Miúdos, colocam os estudantes no papel de criadores de conteúdo, não apenas de consumidores.
  • Literacia estatística e dados abertos: o apuramento pela Pordata abre a porta a trabalhar dados, gráficos e interpretação de resultados com rigor.
  • Cidadania digital e democrática: ao replicar uma eleição real, com o apoio da CNE, o projeto ensina regras, igualdade de oportunidades e respeito pelo voto — fundamentos de uma cidadania que também é digital.
  • A web como palco e arquivo: o Portal RBE documenta cada uma das dez edições, criando uma memória pública e acessível do projeto.

Num tempo em que tanto se discute o lugar dos ecrãs na infância, os “Miúdos a Votos!” oferecem uma resposta serena e construtiva: a tecnologia ao serviço da palavra, da leitura e da voz dos mais novos. Como lembra o lema da Rádio Miúdos, “quando os miúdos se expressam em liberdade, a democracia floresce”.

O Capítulo 10 fechou-se hoje na Gulbenkian. O Capítulo 11 começa já a ser escrito — nas bibliotecas escolares, nas salas de aula e, cada vez mais, também na web.


Saber mais

Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor: Manuel António Pina e o Teatro dos Descobrimentos

O medo do desconhecido, o peso da memória e a fronteira ténue entre o que se vê e o que se acredita. É em torno destas tensões que Manuel António Pina constrói uma das mais instigantes peças de teatro para jovens da literatura portuguesa contemporânea: Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor.​

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A Obra em contexto

Manuel António Pina (1943–2012), poeta, jornalista e escritor portuense, é um nome incontornável da literatura portuguesa. Reconhecido sobretudo pela sua poesia de linguagem despojada e filosófica, Pina dedicou também uma parte considerável da sua obra à literatura para crianças e jovens — e esta peça teatral é um exemplo brilhante dessa vertente.​

O drama revisita o universo dos Descobrimentos com um olhar que não é o da glorificação épica, mas sim o da humanidade frágil daqueles que nele participaram — os marinheiros anónimos, as mães que ficavam em terra, os físicos que tentavam curar com triaga e razão o que nem a ciência nem a fé conseguiam explicar.​


A estrutura: três tempos, uma memória

A peça organiza-se numa estrutura narrativa de três camadas temporais, como bonecas russas encaixadas umas nas outras:​

  • O Tempo Presente (cerca de 1520): Mestre João, físico e astrólogo, regressa velho e doente das Índias. Ao passar a Angra de S. Brás, perto do Cabo da Boa Esperança, recorda os acontecimentos que viveu naquele mesmo lugar.
  • O Tempo do Perfeito (cerca de 1501): Mestre João encontra um náufrago — o jovem Manuel — que recolhe a bordo e de quem ouve uma história perturbadora.
  • O Tempo do Mais-que-Perfeito (1488 e 1500): a história de Manuel, desde a infância em Massarelos, no Porto, até ao naufrágio na caravela de Bartolomeu Dias.

Esta arquitetura temporal sofisticada não é meramente técnica — é filosófica. O passado não está morto; está presente em Mestre João enquanto ele escreve, tal como o Adamastor está presente em Manuel enquanto navega. A memória é, ela própria, uma forma de não escapar ao destino.​


Manuel e o Adamastor: O sonho que se torna real

No coração da peça está uma ideia perturbadora e bela: um sonho pode ser uma verdade que ainda não aconteceu — ou uma verdade que já aconteceu, noutro lugar, ao mesmo tempo.​

Manuel, adolescente de 14 anos, sonha que o pai naufraga e que luta com um monstro gigantesco — a Avantesma — conseguindo salvá-lo. Quando o pai regressa da viagem de Bartolomeu Dias ao Cabo Tormentoso, conta que esteve prestes a morrer afogado, e que foi salvo por uma sombra misteriosa — homem ou anjo, não saberia dizer — que afugentou o monstro com grandes pancadas.​

“O meu sonho! A Avantesma! Meu Deus, foi tudo verdade!” — Manuel​

A coincidência aterra Manuel. Não conta o sonho a ninguém, mas sabe que, “lá longe, nos fundos do Mar Tenebroso, tem agora um inimigo terrível à sua espera, sedento de vingança.” Quando é chamado para a frota de Pedro Álvares Cabral e descobre que o barco passa pelo mesmo Cabo, a inevitabilidade do encontro torna-se opressiva.​


Mestre João: a razão perante o inexplicável

A figura de Mestre João é central na peça e representa uma das suas tensões mais ricas: a do homem de ciência que se vê forçado a reconhecer os limites do seu saber.​

Mestre João existiu historicamente — foi bacharel em Artes e Medicina, físico e cirurgião de D. Manuel I, e acompanhou a frota de Cabral. Na peça, Manuel António Pina constrói-o como um humanista que acredita na razão, na experiência e no testemunho dos sentidos — mas que, perante o Adamastor, hesita:​

“Mas quem poderá acreditar no testemunho dos seus sentidos perante coisas tão desconformes a todas as leis da natureza como as que me foi dado nesta mesma Angra de S. Brás ver e ouvir?”​

No fim, Mestre João não resolve a tensão. Não afirma que o Adamastor é real nem que é ilusão. Diz apenas: “Na alma dos homens é que existem monstros e demónios, e não no mar.” — mas logo acrescenta, quando Manuel lhe pergunta se assim é mesmo que nos matam: “Eu creio que sim, filho… Mas que sei eu?”​

Esta dúvida honesta é, talvez, a maior lição filosófica da peça.


O Adamastor: Entre Camões e o Medo Humano

O Adamastor, figura importada por Camões da mitologia grega e imortalizada em Os Lusíadas como o gigante guardião do Cabo das Tormentas, surge aqui não como alegoria épica mas como medo encarnado, como força que persegue os homens porque eles a invocaram — no sonho, na aventura, no desafio aos “Mares do Fim do Mundo”.​

A peça nota, em nota de rodapé, que o nome “Adamastor” é posterior aos acontecimentos narrados — é Camões que o populariza. Manuel chama-lhe simplesmente a Avantesma. Esta distinção é significativa: o monstro existe antes do nome. O nome só lhe dá forma literária; o medo já existia antes.​


As personagens secundárias e a dimensão humana

A peça ganha profundidade humana nas cenas em terra, no Porto de finais do século XV, onde vivem a mãe e a irmã Ana de Manuel. A mãe representa a resistência silenciosa das mulheres que ficavam — as que perdiam maridos, filhos e irmãos para o mar sem que ninguém escrevesse epopeias sobre elas:​

“Antes prouvera que nunca partisse a desafiar a vontade de Deus Nosso Senhor.”​

Ana, a irmã mais nova, é a voz do equilíbrio e da esperança: “Trás a névoa vem o Sol, minha mãe, e trás um tempo vem outro.” Juntas, mãe e filha constroem um contraponto comovente à grandiosidade épica das viagens.​


Um final em aberto

A peça termina de forma deliberadamente ambígua, num Pretérito Indeterminado — uma designação temporal invulgar que o autor usa para o ato final. O Adamastor ergue-se sobre Manuel, arrasta-o para o mar… e depois, na praia, jaz o corpo de Manuel, “abandonado e só.”​

Morreu? Sobreviveu mais uma vez? A estrutura circular da peça — Manuel encontrado na praia no início e no fim — deixa a questão em aberto. O que os olhos veem pode ser a morte ou pode ser a salvação. A certeza não existe. Só o mar, e o silêncio.


Porquê ler esta obra?

Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor é uma obra que funciona em múltiplos registos:​

  • Para a História: oferece um retrato vívido e rigorosamente documentado da vida a bordo das naus dos Descobrimentos — alimentação, instrumentos náuticos, medição do tempo, vida quotidiana.
  • Para a Literatura: explora a intertextualidade com Camões e Gil Vicente (cujo Auto das Fadas é encenado a bordo na Cena 11).
  • Para a Filosofia: coloca, com seriedade e beleza, a questão dos limites do conhecimento humano e da relação entre razão e fé.
  • Para o Teatro: a sua estrutura em três tempos sobrepostos é um exercício notável de dramaturgia.

É uma peça que resiste à leitura fácil e convida a pensar — o melhor que qualquer obra de literatura pode fazer.


“Sempre haverá muitas sabedorias por saber. No fundo de todas as sabedorias sabidas reside um mistério onde não alcançam os nossos instrumentos e as nossas medidas nem as nossas palavras…”
— Mestre João, Aquilo que os Olhos Veem ou o Adamastor, de Manuel António Pina​

Porquê ler os clássicos? uma viagem ao encontro das vozes imortais

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Ler nas Fontes: ¿Por qué leer los clásicos? | Leer a los clásicos

A palavra “clássico” pode impor um certo receio reverencial. Vem-nos à mente livros de natureza colossal, obras que resistiram ao tempo e continuam a falar-nos através dos séculos. Mas o que torna verdadeiramente um livro clássico e porque devemos dedicar-lhes o nosso tempo?

O Que Define Um Clássico

Italo Calvino afirmou que “os clássicos são esses livros de los cuales se suele oír decir ‘Estoy releyendo…’ y nunca ‘Estoy leyendo…'”. Um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, que se presta a incansáveis revisões e interpretações . São obras que, como escreveu Borges, “las generaciones de los hombres, urgidas por diversas razones, leen con previo fervor y con una misteriosa lealtad”.

Os clássicos são os superviventes do naufrágio do olvido, representam aquilo que Schopenhauer chamava de “literatura permanente”. São obras que uma nação, um grupo de nações ou o longo tempo decidiram ler como se nas suas páginas tudo fosse deliberado, profundo como o cosmos e capaz de interpretações sem termo.

O Tempo Como Crítico Literário

O tempo é o crítico literário por excelência, que nos faz o grande favor de separar o trigo do joio, ditando sentença imparcial quanto à verdadeira qualidade ou importância de uma obra. O que permanece, o que sempre fica, são os clássicos: fonte inesgotável de qualidade, conhecimento e, acima de tudo, humanidade.

Mark Twain escreveu, com a sua característica acidez, que um clássico é um livro que toda a gente elogia mas ninguém lê. Contudo, esta perceção apenas revela um dos grandes equívocos sobre os clássicos: associá-los a livros mortos, empoeirados e aborrecidos, cujo habitat natural parece ser o intelectualismo mais rançoso.

A Universalidade e a Renovação Constante

O principal atributo dos clássicos é a sua marcada universalidade, uma universalidade que logrou perviver ao longo dos anos. Um verdadeiro clássico não é aquele que resiste ao devir do tempo pela sua descafeinada influência, mas sim aquele livro que continua a transmitir a sua mensagem com tanta ou mais força como o fez no dia da sua publicação.

Um clássico nunca se mantém quieto, nunca repousa na sua velha glória, mas renova-se continuamente conforme as exigências de cada época. Como afirmou Azorín, nos clássicos vemos a nós mesmos, e esse “nós” nunca muda . Ao reler o passado, sucede que, em muitas ocasiões, estamos na realidade a ler acerca do presente.

O Encontro Pessoal com os Clássicos

Ler os clássicos pode ser comparado a uma viagem ao Hades homérico, onde oferecemos sangue — ou melhor, o nosso tempo — aos espíritos para que ganhem voz e nos falem. Como escreveu Sainte-Beuve, o importante de um clássico é que “nos devuelve nuestros propios pensamientos con toda riqueza y madurez” e nos dá “esa amistad que no engaña”.

Existem clássicos universais (Homero, Platão, Virgílio, Dante, Shakespeare, Cervantes), clássicos nacionais (Goethe, Quevedo, Racine) e, fundamentalmente, os nossos clássicos pessoais. Cada leitor tem os seus clássicos, aqueles com os quais se encontra mais à vontade e com os quais dialoga mais profundamente .

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Ler por Amor, Não por Obrigação

Como advertiu Calvino: “se não salta a faísca, não há nada a fazer: não se leem os clássicos por dever ou por respeito, mas apenas por amor”. A escola deve fazer-nos conhecer certo número de clássicos, mas as escolhas que contam são as que ocorrem fora ou depois de qualquer escola.

Reconhecer que nem todos os clássicos têm de o ser para nós — admitir que há “clássicos” aborrecidos e medíocres — é o primeiro passo para alcançar a liberdade como leitores. Os clássicos devem libertar-nos, e não amordaçar-nos contra a nossa vontade.

A Relevância dos Clássicos no Século XXI

Não devemos temer os clássicos nem esperar que transcorram séculos para que uma obra se torne clássica. A literatura moderna está repleta de potenciais clássicos, desde O Grande Gatsby até Cem Anos de Solidão, desde a poesia de T. S. Eliot até aos contos de Raymond Carver.

Os clássicos não são úteis no sentido prático — não nos curarão dores nem resolverão problemas económicos. Mas ajudam-nos a proporcionar uns alicerces necessários para aprendermos a discernir o bom do meramente oportuno . São obras que nos tornam mais humanos e, por isso, mais livres como pessoas.

O Diálogo Entre Tradição e Modernidade

Escrever literatura é entrar numa tradição ressonante que vem de longe. Escrevemos a partir das nossas leituras, numa tradição vertebrada em torno dos clássicos. Mesmo a vanguarda conta com a tradição, seja para se opor a ela ou para a continuar.

A melhor poesia e prosa do nosso tempo caracteriza-se por essa polifonia, esse jogo intertextual que é constitutivo da modernidade literária. Para percebermos a profundidade e a ironia dos textos modernos, precisamos de ter leituras dos antigos.

Conclusão: A Nossa Biblioteca Ideal

A última e mais reveladora definição de Calvino situa a essência dos clássicos no plano subjetivo do próprio leitor: “tu clásico es aquel que no puede serte indiferente y que te sirve para definirte a ti mismo”. Um verdadeiro clássico é aquele que nos muda irremediavelmente, que se converte em parte integral do nosso ser desde a sua leitura em diante.

Não há nada mais desprezível que uma leitura forçada. Aos clássicos devemos chegar por nossa conta, sem pressa mas sem pausa. Devemos inventar a nossa biblioteca ideal dos nossos clássicos. Porque, no final, se um livro não nos diz nada, simplesmente não é um bom livro para nós.

Como escreveu Cervantes: “Em algum lugar de um livro há uma frase à nossa espera para dar um sentido à existência”. Os clássicos são as raízes de uma árvore de extensos ramos e infinitas folhas, que nos ensinam a observar em profundidade a beleza e a estranheza do mundo . Por isso, estejamos tranquilos: clássicos haverá sempre.

Vergílio Ferreira: Vida, Obra e Legado

Vergílio Ferreira -Entrevista nas vésperas do aniversário aos 67 anos

O Labirinto da Existência

A literatura portuguesa do século XX encontra em Vergílio Ferreira (1916–1996) uma das suas expressões mais densas, complexas e rigorosas. Escritor de uma “lucidez sem Deus nem pátria”, como frequentemente se descrevia ou era descrito, a sua trajetória literária é um espelho das grandes tensões intelectuais europeias, transpostas para o contexto específico de um Portugal sob a ditadura do Estado Novo e, posteriormente, em busca da sua identidade democrática. A obra vergiliana não se limita a contar histórias; ela constitui um vasto sistema de interrogação metafísica, onde o romance se dissolve no ensaio e o diário se torna o campo de batalha de uma alma em perpétuo desassossego. Este relatório propõe uma análise exaustiva da vida e da obra deste vulto das letras, examinando as suas fases estéticas, a sua produção diarística e ensaística, e a marca indelével que deixou na cultura lusófona.

O Mundo Original: A Génese de um Pensador em Melo

Vergílio António Ferreira nasceu a 28 de Janeiro de 1916, numa tarde de sexta-feira, na pequena aldeia de Melo, no concelho de Gouveia. A geografia desta infância, situada nas faldas da Serra da Estrela, forneceria o material telúrico e simbólico para quase toda a sua ficção posterior. A montanha, o granito e, sobretudo, a neve, tornaram-se elementos fundamentais do seu imaginário, representando uma pureza original e um silêncio metafísico que o autor tentaria recuperar ao longo de toda a sua vida.

Contudo, a harmonia deste “mundo original” foi precocemente estilhaçada por um trauma biográfico profundo. Em 1920, quando Vergílio contava apenas quatro anos de idade, os seus pais, António Augusto Ferreira e Josefa Ferreira, emigraram para os Estados Unidos da América. O escritor e os seus irmãos foram deixados ao cuidado de tias maternas e da avó, uma separação que o autor descreveria mais tarde, em obras como Nítido Nulo (1971), como uma ferida aberta na sua perceção da realidade e do afeto. Este sentimento de abandono e a condição de “exilado” na própria terra natal são chaves de leitura essenciais para compreender o isolamento ontológico que caracteriza os seus protagonistas.

Melo: a aldeia eterna de Vergílio Ferreira

Em 1926, por influência de um tio-avô padre e após uma peregrinação familiar a Lourdes, Vergílio ingressa no Seminário do Fundão. Os seis anos passados nesta instituição (1926–1932) foram vividos como um tempo de clausura, opressão e “terror” moral. O seminário não foi para ele um local de revelação divina, mas sim o espaço onde descobriu a restrição das liberdades individuais e a hipocrisia de certos princípios religiosos. Esta experiência traumática de juventude constituiu a matéria-prima para uma das suas obras mais celebradas, Manhã Submersa (1954), onde a “manhã” da infância aparece asfixiada pelo peso das batinas e das paredes frias da instituição.

Cronologia da Infância e Juventude (1916-1932)
DataAcontecimento
28 Jan 1916Nascimento em Melo, Gouveia.
1920Emigração dos pais para os EUA; separação traumática.
1926Entrada no Seminário do Fundão por influência familiar.
1926-1932Frequência do curso de Humanidades no seminário.
1932Abandono do seminário e transição para o ensino laico na Guarda.

Coimbra e o Nascimento para a Escrita: A Formação Académica

Após abandonar o seminário em 1932, Vergílio Ferreira fixa-se na Guarda para concluir o curso liceal. É nesta cidade “altaneira” que ele começa a encontrar-se enquanto indivíduo e a dedicar-se às suas primeiras tentativas poéticas, embora estas permanecessem inéditas por décadas. A cidade da Guarda representou a sua primeira grande libertação do destino clerical que lhe fora traçado.

Em 1936, Vergílio ingressa na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra para estudar Filologia Clássica. Coimbra, com a sua universidade no alto da colina batida pelo sol e a sua mítica aura estudantil, marcaria o autor de forma indelével. Foi nesta cidade que ele se formou intelectualmente, bebendo da cultura clássica que mais tarde informaria o rigor e a estrutura do seu pensamento. Concluiu a licenciatura em 1940, iniciando de imediato o estágio para a docência.

A carreira de professor liceal foi a sua profissão de vida, levando-o a percorrer Portugal de norte a sul. Estagiou em Coimbra e lecionou sucessivamente em Faro (1942), Bragança (1944), Évora (1945) e, finalmente, em Lisboa, a partir de 1959, onde ensinou no Liceu Camões até à sua jubilação. Cada uma destas geografias deixou marcas na sua obra: o sul de Faro aparece em Estrela Polar (1962), a dureza de Bragança em Vagão J (1946) e, de forma mais luminosa e mítica, a cidade de Évora em Aparição (1959).

[Foto 1: Vergílio Ferreira em Coimbra – O Jovem Licenciado]

Vergílio Ferreira (1940)

A Evolução Estética: Do Engajamento Social à Revelação Existencial

A obra de Vergílio Ferreira é geralmente segmentada em dois grandes períodos, embora a crítica contemporânea prefira falar de uma evolução orgânica com preocupações transversais. O primeiro período é marcado pelo Neo-realismo, o movimento literário dominante em Portugal na década de 1940, que via na literatura uma arma de intervenção social contra a ditadura e o subdesenvolvimento.

A Fase Neo-realista: O Caminho e o Vagão

Vergílio iniciou-se na ficção com O Caminho Fica Longe (1943), um romance de estreia que foi apreendido pela censura salazarista devido ao seu conteúdo crítico. Seguiram-se Onde Tudo Foi Morrendo (1944) e Vagão J (1946). Nestas obras, o autor foca-se nas dificuldades socioeconómicas do país, na crise de 1929 e na exploração das classes trabalhadoras. Contudo, mesmo nesta fase, Vergílio já demonstrava uma inquietação que o distinguia dos seus pares: em Vagão J, a técnica narrativa e a atenção ao fluxo de pensamento dos personagens já anunciavam uma rutura com o realismo tradicional.

O autor confessaria mais tarde que o Neo-realismo foi a “tendência da sua juventude”, mas que rapidamente sentiu a necessidade de ir além do “homem económico”. Para Vergílio, a doutrina política não podia tornar-se a censura da arte; o ser humano possuía dimensões metafísicas que o marxismo e o materialismo dialético não explicavam satisfatoriamente.

A Grande Viragem: Mudança

Publicado em 1949, o romance Mudança é o marco divisor de águas na sua carreira. Como o próprio título sugere, a obra regista a transição do autor do Neo-realismo para o Existencialismo. Embora ainda enraizado em questões sociais e na decadência dos estratos dominantes, o foco desloca-se para a consciência do protagonista, Carlos Bruno, e para a sua reflexão sobre os valores da sociedade e a individualidade.

Nesta obra, Vergílio Ferreira começa a explorar a influência de Hegel (a “consciência infeliz”) e a fenomenologia, procurando surpreender a realidade no seu instante primordial de revelação. A partir daqui, a sua escrita libertar-se-ia definitivamente dos espartilhos ideológicos para se tornar uma pesquisa exaustiva sobre a condição humana face à vida e à morte.

Obras de Ficção do Primeiro Período (1943-1954)
TítuloAno de Publicação
O Caminho Fica Longe1943
Onde Tudo Foi Morrendo1944
Vagão J1946
Mudança1949
A Face Sangrenta (Contos)1953
Manhã Submersa1954

A Maturidade e o Existencialismo: Aparição e o Absurdo

Com a publicação de Aparição em 1959, Vergílio Ferreira atinge o seu auge criativo e a consagração definitiva. Este romance, ambientado numa Évora solar e ancestral, narra a experiência do professor Alberto Soares, que vive um “ano trágico” de encontros e revelações. O conceito de “aparição” vergiliana é fundamental: trata-se da tomada de consciência súbita de si mesmo como um ser consciente da sua própria morte e das suas limitações.

Nesta fase, Vergílio assume o “romance-problema” ou “romance de ideias”. Influenciado por Jean-Paul Sartre, Martin Heidegger e Albert Camus, o autor explora o “absurdo da vida” e a solidão como a condição essencial para a existência humana. Contudo, o seu existencialismo não é meramente teórico; ele é vivido através do corpo, que o autor define como a “realização de um espírito” e uma “concha de poeira” perante a vastidão do espaço.

A Escrita Cinematografada e a Teatralidade do Pensamento

A obra de Vergílio Ferreira possui uma qualidade visual e rítmica que atraiu outros meios de expressão. Manhã Submersa foi adaptado ao cinema e à televisão por Lauro António em 1979/1980, com o próprio escritor a participar como ator no filme, no papel de Reitor. Esta colaboração demonstrou o interesse de Vergílio pelo cinema como uma forma de narrativa capaz de captar a “transfiguração do mundo”.

Embora tenha escrito pouco teatro, Vergílio utilizava o romance como um “biombo” onde o autor se despia por trás, encenando dramas de consciência. A sua paixão era a palavra absoluta, influenciada por modelos como o Padre António Vieira e Eça de Queirós, mas filtrada por uma rede intelectual rigorosa.

O Legado dos Diários: Conta-Corrente

Um dos aspetos mais impressionantes da produção de Vergílio Ferreira são os seus diários, publicados sob o título genérico de Conta-Corrente. Iniciados em 1969 e estendendo-se até à sua morte, estes nove volumes constituem um documento único da vida cultural portuguesa das décadas de 1970, 80 e 90.

Nos diários, Vergílio revela-se um observador perspicaz e, por vezes, impiedoso do meio literário e político. Registou com detalhe os anos da resistência ao salazarismo, a explosão de liberdade do 25 de Abril de 1974 e o posterior desencanto com as novas realidades democráticas. Conta-Corrente não é apenas uma coleção de confissões pessoais; é um exercício de pensamento contínuo sobre temas como a velhice, o papel da arte, a educação e a finitude.

O autor sempre desvalorizou esta escrita, chamando-lhe o seu “grau zero” ou “rés do chão”, mas para os leitores e historiadores, estes diários são fundamentais para compreender o homem por trás dos romances metafísicos. Neles, descobrimos o “ser murado” que Vergílio era no convívio social, alguém que vivia aquém da sua natureza pública para poder criar no silêncio do seu escritório em Lisboa ou na casa de campo em Fontanelas.

A Série Conta-Corrente
VolumesPeríodo Coberto
Volume I1969-1976
Volume II1977-1979
Volume III1980-1981
Volume IV1982-1983
Volume V1984-1985
Nova Série I-IV1986-1994

Ensaísmo e Reflexão: O Espaço do Invisível

Paralelamente à ficção, Vergílio Ferreira desenvolveu uma vasta obra ensaística que servia de suporte teórico aos seus romances. Obras como Do Mundo Original (1957), Interrogação ao Destino (1963) e Invocação ao Meu Corpo (1969) exploram a relação entre o homem e a transcendência num mundo onde “Deus morreu”.

Especial destaque merece o ensaio Da Fenomenologia a Sartre (1963), que serviu de prefácio à tradução portuguesa de O Existencialismo é um Humanismo. Através destes textos, Vergílio estabeleceu-se como o principal introdutor do existencialismo em Portugal, embora sempre reclamando a sua independência intelectual face a Sartre ou Heidegger. Para ele, a arte era o único caminho para atingir o domínio do intemporal onde o Ser se descobre.

A sua estética, que designou por “Mitoestilo”, consistia na organização de toda a obra em torno de fantasmas e mitos pessoais, fundindo o lirismo com a reflexão filosófica. Esta abordagem permitiu-lhe tratar de situações-limite que a linguagem quotidiana não conseguia alcançar, utilizando a “palavra artística” como uma ponte para o invisível.

Repercussões na Literatura Portuguesa: Ontem, Hoje e Amanhã

A influência de Vergílio Ferreira na literatura portuguesa é profunda, embora marcada por uma certa ambivalência. Ontem, durante a sua vida, foi uma figura dominante e respeitada, recebendo as maiores honrarias, incluindo o Prémio Camões em 1992. Foi o “mestre” de uma geração que procurava uma alternativa tanto ao realismo socialista como ao experimentalismo vazio.

O Legado no “Ontem” e “Hoje”

Ontem, a sua influência sentiu-se na coragem com que enfrentou as questões metafísicas num país tradicionalmente avesso a especulações filosóficas no romance. Hoje, a sua obra continua a ser estudada em academias de todo o mundo, de Coimbra a São Paulo, e os seus romances fundamentais como Manhã Submersa e Aparição mantêm-se como referências éticas e estéticas.

Escritores contemporâneos de renome, como Lídia Jorge, admitem a sua dívida intelectual e afetiva para com Vergílio. Lídia Jorge descreve a sua obra como um “lugar único na ficção portuguesa”, sem antecedentes ou epígonos claros, destacando a pertinência contínua do seu pensamento impertinente e independente. Outros nomes, como Gonçalo M. Tavares, prosseguem hoje a tradição do “romance de ideias” iniciada por Vergílio e Raul Brandão.

O Horizonte do “Amanhã”

Para o “Amanhã”, o legado de Vergílio Ferreira projeta-se como uma interrogação sobre a desumanização do mundo tecnológico e a perda de sentido. Num tempo de fragmentaridade e coesão perdida, a sua recusa da narrativa clássica em favor do fragmento e do abalo do leitor revela-se profética. A sua obra diarística e ensaística liga o escritor às “raízes morais do presente”, lembrando a fragilidade do bem e o peso da memória numa sociedade que sofre de amnésia histórica.

A reedição da sua obra completa, iniciada por ocasião do centenário do seu nascimento em 2016, garante que os seus livros continuem acessíveis a novas gerações de leitores que procuram respostas para a angústia contemporânea. Vergílio Ferreira continuará a ser lido amanhã porque captou o que há de “eterno e absoluto no Homem”, transcendendo a conjuntura política para atingir a universalidade da condição humana.

Principais Prémios e Condecorações
PrémioAno
Prémio Camilo Castelo Branco (Aparição)1960
Prémio da Casa da Imprensa (Alegria Breve)1965
Prémio D. Dinis1981
Prémio Literário Município de Lisboa (Para Sempre)1983
Grande Prémio de Romance e Novela da APE (Até ao Fim)1987
Prémio Femina estrangeiro, França (Manhã Submersa)1990
Prémio Europália (Conjunto da Obra)1991
Prémio Camões1992
Grande Prémio de Romance e Novela da APE (Na Tua Face)1993

Roteiros de Memória: Melo e a Casa Para Sempre

Para quem deseja conhecer Vergílio Ferreira além das páginas dos seus livros, a aldeia de Melo oferece uma experiência imersiva. A “Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre”, inaugurada recentemente, celebra o pensamento do autor e a importância da Serra da Estrela na sua escrita. O visitante pode percorrer os espaços interiores e exteriores que inspiraram obras como Até ao Fim e Cartas a Sandra, estabelecendo uma ligação emocional com o universo vergiliano.

O “Roteiro Literário Vergiliano” em Melo conduz os turistas pela casa onde nasceu o escritor, pela escola primária onde aprendeu as primeiras letras e pela Igreja Matriz onde foi batizado. Este percurso não é apenas turístico, mas uma peregrinação literária que permite ler excertos dos textos nos locais onde a realidade e a ficção se fundem.

Conclusão: A Palavra como Destino

Vergílio Ferreira faleceu em Lisboa a 1 de março de 1996, deixando como última obra concluída o romance epistolar Cartas a Sandra. A sua morte foi o culminar de uma vida dedicada obsessivamente à arte de pensar e escrever. Como ele próprio afirmou, a arte é uma “fatalidade” e uma “questão a resolver entre nós e nós”.

Este relatório demonstrou que a obra de Vergílio Ferreira é um sistema integrado onde a vida, a geografia e a filosofia se alimentam mutuamente. Do seminário claustrofóbico à Évora luminosa, do neo-realismo combativo ao existencialismo angustiado, o autor percorreu todos os caminhos da alma humana. A sua relevância hoje e amanhã reside na sua capacidade de “comover e abalar”, oferecendo uma bússola intelectual num mundo cada vez mais desorientado.

A herança vergiliana não se esgota nos seus livros; ela vive na inquietação de cada leitor que, ao fechar Aparição ou Manhã Submersa, se descobre mais consciente da sua própria dignidade e do mistério insondável de existir. Vergílio Ferreira permanece, assim, como uma sentinela da lucidez nas letras portuguesas, um autor que, em nome da terra e do homem, transformou o silêncio da montanha na voz mais profunda da nossa modernidade.

Manual de Educação para a Cidadania Digital | Conselho da Europa

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Este manual é um guia estruturado que visa preparar crianças e jovens para uma participação segura, ética e ativa na cidadania digital, com enfoque educativo e prático na promoção dos direitos humanos nos ambientes digitais.

Princípios Fundamentais

O documento organiza a cidadania digital em três níveis principais:

  • Contextual: acesso equitativo à tecnologia, literacia digital básica e infraestrutura segura são requisitos mínimos para a participação social e educativa online; as desigualdades socioeconómicas, culturais ou físicas tornam urgente a adoção de políticas inclusivas nas escolas e comunidades.
  • Informativo: conhecer os direitos e responsabilidades no digital, aceder a fontes de informação fiáveis e cultivar capacidades de participação crítica em todos os ambientes digitais; estas competências desenvolvem-se tanto em casa como na escola, dependendo de práticas de pensamento crítico e análise informativa.
  • Organizativo: envolve pensamento flexível, resolução de problemas, comunicação eficaz e oportunidades reais de participação democrática e criativa; aplicar competências cognitivas, éticas, emocionais e sociais é essencial para exercer cidadania digital plena.

Competências-Chave

O manual define domínios de competência como:

  • Acesso e Inclusão: garantir que todas as crianças têm acesso tecnológico e participam plenamente independente de género, origem, capacidade ou contexto social.
  • Aprendizagem e Criatividade: estimular a autoaprendizagem, a criatividade e a curiosidade, promovendo ambientes colaborativos e abertos a novas ideias.
  • Literacia Mediatica e Informativa: formar utilizadores capazes de encontrar, analisar e criar informação proveniente de múltiplos meios, focando as competências de pensamento crítico e discernimento nas escolhas online e offline.
  • Comunicação, Empatia e Participação: valorizar processos de escuta, observação, respeito e cooperação, estimulando o envolvimento responsável nas comunidades digitais.
  • Privacidade e Segurança: proteger dados e identidade online, aplicando regulamentos como o RGPD e desenvolvendo estratégias práticas de proteção de dados e combate a ameaças digitais.

Recomendações Pedagógicas

Sugere práticas como:

  • Construção de matrizes colaborativas sobre inclusão digital;
  • Debate sobre fake news, ética, empatia e responsabilidade nos media;
  • Projetos que envolvam análise crítica de campanhas, participação cívica, e produção de conteúdos digitais responsáveis.
  • Envolvimento ativo de alunos, professores, pais e comunidade na promoção de bem-estar online e na defesa dos direitos humanos no digital.
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