O livro “Como construir políticas públicas, ex ante” é um guia prático e teórico sobre o processo de formulação, análise e implementação de políticas públicas, com foco na importância da análise ex ante, ou seja, o exame cuidadoso antes da ação ou execução.
Estrutura e objetivo do livro
A obra oferece um passo a passo detalhado para diagnosticar problemas públicos, definir públicos-alvo, estruturar soluções inteligentes e integradas, e criar bases sólidas para monitoramento e avaliação dos resultados. O texto enfatiza a necessidade de distinguir entre a identificação correta dos problemas (não confundir ausência de solução com o problema em si) e a especificação clara dos públicos afetados, para evitar medidas superficiais ou desalinhadas.
Principais ideias e metodologias
O autor argumenta que:
O diagnóstico eficaz de problemas é central: é necessário mapear causas, consequências e contextos usando instrumentos como mapas explicativos e árvore de problemas.
A “teoria da mudança” deve fundamentar toda política: formula-se uma narrativa lógica explicando como uma intervenção proposta pode provocar resultados positivos para o público-alvo.
Políticas bem desenhadas articulam vários programas complementares e mutuamente reforçadores sob um “guarda-chuva” teórico coerente.
Defende-se a revisão periódica das políticas existentes e o uso de evidências (monitoramento rigoroso) para validar e ajustar continuamente ações e estratégias.
Exemplos e aplicações práticas
O livro ilustra os conceitos com exemplos reais e hipotéticos, como políticas de mobilidade urbana, erradicação da pobreza e projetos de reinserção de ex-presidiários nos EUA. Mostra-se como detetar causas-raiz, desdobrar problemas em variáveis, focar no público central e testar intervenções antes da implementação em larga escala.
Importância do monitoramento e avaliação
A obra destaca o imprescindível papel do monitoramento e da avaliação baseados em indicadores e metas claras, estabelecendo uma linha de base para medir a evolução do problema e avaliar se as políticas e programas estão a gerar os impactos desejados.
Glossário e orientações finais
No fim, apresenta um glossário abrangente sobre os termos essenciais de políticas públicas e recomenda práticas de coordenação, articulação entre atores institucionais e a importância de participação social na construção e ajuste das políticas.
“Como construir políticas públicas, ex ante” é um guia de referência para decisores, gestores e estudantes da área, promovendo uma abordagem rigorosa, participativa e baseada em evidências para a criação de políticas públicas eficientes, eficazes e legítimas.
Este artigo examina de forma compreensiva a vida e obra de Sir William Gerald Golding (1911-1993), autor britânico que recebeu o Prémio Nobel de Literatura em 1983. A investigação revela como as suas experiências de guerra na Segunda Guerra Mundial, particularmente a sua participação no Dia-D, moldaram profundamente a sua visão pessimista da natureza humana, transformando-o num dos mais importantes moralistas literários do século XX. A obra de Golding, centrada na exploração do mal inerente ao ser humano, situa-se como resposta directa aos horrores testemunhados durante o conflito mundial e reflecte as ansiedades do período pós-guerra e da era atómica.
Portrait photograph of William Golding with his autograph ebay
Os Primeiros Anos: Formação e Influências Familiares
William Gerald Golding nasceu a 19 de setembro de 1911 em Newquay, Cornwall, numa família que exerceria influência determinante na sua formação intelectual e moral. O pai, Alec Golding, era professor de ciências na Marlborough Grammar School e autor de vários manuais escolares, enquanto a mãe, Mildred Curnoe, participava activamente no movimento sufragista, lutando pelos direitos das mulheres. Esta combinação de racionalismo científico paterno e activismo social materno criaria em Golding uma tensão fundamental entre razão e paixão que permearia toda a sua obra literária.muse.jhu+2
A infância de Golding foi marcada por uma certa solidão social, limitada ao círculo familiar e à ama Lily, mas compensada por uma precoce paixão pela leitura e pela matemática. Desde tenra idade, devorava clássicos como A Odisseia de Homero, as obras de Jonathan Swift, Edgar Allan Poe e Jules Verne. Esta educação literária precoce, combinada com a atmosfera intelectualmente estimulante da casa paterna, moldou o futuro escritor desde os primeiros anos.semanticscholar
Em 1921, Golding ingressou na Marlborough Grammar School, onde o pai leccionava ciências. Foi aqui que, aos doze anos, concebeu a sua primeira obra de ficção – uma epopeia planeada de doze volumes sobre as origens do movimento sindical, da qual apenas sobreviveu a primeira frase: “Nasci no Ducado da Cornualha a 11 de outubro de 1792; os meus pais eram pessoas ricas mas honestas”. O uso da conjunção adversativa “mas” já revelava, segundo o próprio autor mais tarde observaria, uma percepção aguçada das contradições humanas.semanticscholar
A Formação Universitária e os Primeiros Escritos
Em 1930, Golding ingressou no Brasenose College da Universidade de Oxford, inicialmente para estudar ciências naturais, seguindo os desejos paternos. Contudo, após dois anos, transferiu-se para Literatura Inglesa, seguindo a sua verdadeira vocação. Esta mudança de rumo reflectiu a tensão interior entre as expectativas familiares e a paixão pessoal pela literatura, tema que mais tarde exploraria nas complexas relações familiares das suas personagens.muse.jhu+2
Durante os anos de Oxford, Golding revelou aspectos perturbadores da sua personalidade que viriam a influenciar profundamente a sua obra. Numa confissão privada registada no seu diário, admitiu ter tentado violar uma adolescente durante as férias, percebendo posteriormente que ela “queria sexo intenso”. Esta revelação, embora perturbadora, ilustra a honestidade brutal com que Golding se confrontava com os aspectos mais sombrios da natureza humana – honestidade que se tornaria a marca distintiva da sua ficção. ijmra
Em 1934, aos 23 anos, Golding obteve o seu diploma com menção de segunda classe e publicou a sua primeira obra, Poems, pela editora Macmillan como parte da série Contemporary Poets. O livro continha trinta poemas, mas recebeu pouca atenção do establishment literário, causando grande desilusão ao jovem autor. Este fracasso inicial levou-o a um período de incerteza, durante o qual se mudou para Londres, tentou a carreira de actor, antes de encontrar finalmente o seu primeiro posto como professor em 1935.dergipark+2
First edition of ‘Lord of the Flies’ by William Golding, featuring the original 1954 cover art symbolizing the novel’s themes of survival and human nature rareandantiquebooks
Os Maias (1888) representa o ápice da produção literária de José Maria de Eça de Queirós (1845-1900) e constitui uma das mais importantes obras da literatura portuguesa. Esta análise exaustiva pretende examinar todos os aspetos fundamentais desta obra monumental, desde o contexto histórico e biográfico até à sua estrutura narrativa, simbolismo e significado duradouro na literatura lusófona. A obra, com o subtítulo Episódios da Vida Romântica, apresenta-se simultaneamente como uma crónica de costumes da sociedade lisboeta oitocentista e como uma tragédia familiar que espelha a decadência moral e cultural de Portugal durante a segunda metade do século XIX. tradestories+3
Retrato gravado de José Maria de Eça de Queirós, o grande romancista português do século XIX bridgemanimages
O Autor no seu Contexto: Eça de Queirós e a Geração de 70
Biografia e Formação Intelectual
José Maria de Eça de Queirós nasceu a 25 de novembro de 1845 na Póvoa de Varzim, numa época de profundas transformações sociais e políticas em Portugal. Filho de José Maria Teixeira de Queirós e Carolina Augusta Pereira de Eça, o futuro escritor experimentou desde cedo a condição de filho ilegítimo, facto que marcaria a sua sensibilidade e a sua obra. A sua formação foi cosmopolita: estudou Direito na Universidade de Coimbra (1861-1866), onde conheceu figuras centrais da Geração de 70, como Antero de Quental. ebiografia+1
A experiência coimbrã foi determinante na formação intelectual de Eça, permitindo-lhe contactar com as correntes europeias mais avançadas do seu tempo. O ambiente universitário fervilhava com as ideias de Proudhon, Renan, Taine e outros pensadores que questionavam os valores tradicionais. Esta abertura intelectual culminaria na participação nas famosas Conferências do Casino (1871), onde Eça proferiu a conferência “O Realismo como Nova Expressão da Arte”. dialnet.unirioja+2
A Geração de 70 e o Programa Reformista
A Geração de 70, movimento intelectual do qual Eça foi uma figura central, caracterizava-se por um programa ambicioso de modernização de Portugal. O manifesto das Conferências do Casino, assinado por personalidades como Antero de Quental, Eça de Queirós, Oliveira Martins e Teófilo Braga, propunha “abrir uma tribuna onde tenham voz as ideias e os trabalhos que caracterizam este movimento do século”, “ligar Portugal com o movimento moderno” e “estudar as condições da transformação política, económica e religiosa da sociedade portuguesa”.mat.uc+2
Este espírito reformista reflectiu-se directamente na obra queirosiana. Os Maias representa a concretização literária deste programa, oferecendo um diagnóstico impiedoso da sociedade portuguesa e propondo, através da crítica, os caminhos para a regeneração nacional. periodicos.ufba+1
Página de título da primeira edição de “Os Maias” de Eça de Queiroz, publicada em 1888 no Porto, Portugal booktique
A Experiência Diplomática e Jornalística
A carreira diplomática de Eça, iniciada em 1872 com a nomeação para cônsul em Havana, proporcionou-lhe uma perspectiva privilegiada sobre Portugal. As nomeações subsequentes para Newcastle (1874), Bristol (1878) e finalmente Paris (1888) permitiram-lhe observar a sociedade portuguesa com o distanciamento necessário à análise crítica. Esta experiência cosmopolita enriqueceu a sua visão literária, permitindo-lhe contrastar a modernidade europeia com o atraso português.ebiografia+2
Paralelamente à diplomacia, a actividade jornalística de Eça, nomeadamente a colaboração em As Farpas (com Ramalho Ortigão), forneceu-lhe material abundante para a crítica social que caracteriza Os Maias. A prosa jornalística serviu como laboratório para as técnicas narrativas que depois aplicaria nos romances.periodicos.uff+1
A relação entre as ciências sociais, humanas e a biologia têm uma longa história. Embora seja verdade que isso nem sempre foi fácil, não há dúvida de que chegamos a um ponto em que é essencial redefini-las. Os avanços na biologia, caracterizados, entre outras coisas, pela sua enorme diferenciação interna, a sua aplicabilidade técnica, bem como a tendência inerente das diferentes ciências a “expandir” os seus objetos de estudo, levaram esta disciplina, particularmente no que diz respeito à teoria da evolução, a ter cada vez mais expectativas de retornos maiores no campo das ciências sociais humanas.
Esse sentimento não é surpreendente quando, numa ampla variedade de campos, a biologia é referida como “a ciência do século XXI”.
Espera-se, entre outras coisas, que a evolução explique o surgimento de instituições sociais como a religião e que os genes sejam responsáveis por comportamentos e disposições “sociais”.
Essas expectativas contrastam com a distância que prevaleceu entre a explicação das ciências sociais e da biologia por algum tempo. Particularmente após a Segunda Guerra Mundial, essas relações ficaram praticamente congeladas, visto que o mundo testemunhou as terríveis consequências da mistura de critérios “naturalistas” e posições políticas extremistas. Nesse contexto, é essencial que aqueles que estudam as ciências sociais e humanas se empenhem em aprender mais sobre as teorias, conceitos, avanços e debates dentro da biologia evolutiva, não apenas para estabelecer um diálogo com essa disciplina e construir pontes de pesquisa, mas também para serem capazes de responder, de forma informada, a certas posições biológicas extremas.
Essas posições são caracterizadas por um desdém por tudo o que foi dito sobre o social pelas ciências sociais, pela promoção de uma abordagem reducionista que pressupõe que o humano e o social estão subsumidos ao campo das ciências naturais, ou por uma exaltação do quantitativo que contrasta com a maioria das perspectivas humanistas e sociais.
Da mesma forma, com abordagens igualmente radicais, a evolução tem sido frequentemente usada para justificar fenómenos sociais repreensíveis, como a desigualdade ou o racismo, provocando objeções óbvias, justificadas e necessárias por parte das ciências sociais e humanas. Felizmente, essas abordagens extremas perderam a sua relevância, e um espírito renovado de conciliação, estruturas conceptuais e experimentais partilhadas e diálogo interteórico está a começar a emergir entre essas disciplinas.
Com “Atlas do Corpo e da Imaginação”, exploramos uma das obras mais significativas de Gonçalo M. Tavares, que se destaca como uma peça central para compreender a sua filosofia e processo criativo. Publicado pela Caminho em 2013, este livro é uma reflexão filosófica e teórica que interroga a linguagem, os conceitos e a própria condição humana, servindo como uma chave de leitura para a totalidade da sua vasta produção literária.
Natureza e Propósito do “Atlas do Corpo e da Imaginação”
O “Atlas do Corpo e da Imaginação” não é uma obra comum; é um texto híbrido que combina teoria, fragmentos e imagens, com um design de capa e ilustrações de “Os Espacialistas”. A sua estrutura multifacetada permite múltiplos caminhos de leitura, convidando o leitor a percorrê-lo do início ao fim, ao contrário, por saltos, ou por fragmentos, capítulos ou entradas e saídas rápidas. Esta abordagem espelha a própria natureza da investigação que a obra propõe: um estudo que visa questionar e emitir lucidez, em vez de fornecer resultados definitivos.
A obra reflete sobre a relação intrínseca entre o corpo, o pensamento e a imaginação, explorando como estes se cruzam e se influenciam mutuamente. O livro é, essencialmente, uma “cartografia” que tenta mapear e desdobrar as complexas ligações entre a existência física e os processos mentais e criativos.
Conceitos-Chave e Temas Explorados
O Corpo:
Tavares enfatiza a centralidade do corpo na nossa perceção e interação com o mundo. O corpo não é apenas uma entidade física, mas um “volume inteligente” que sofre e ama.
A obra desenvolve a ideia de que o corpo é múltiplo, não uma unidade singular, o que o autor expressa através da formulação que “o conceito de corpo é expresso obrigatoriamente por um erro e por um abuso sobre a gramática: o meus corpos no mundos”.
A dor, a saúde e a doença são vistas como experiências corporais que abalam e clarificam o projeto humano, os limites do corpo e as possibilidades da linguagem.
A mão é destacada como um “órgão extraordinário” onde reside grande parte da potência da humanidade, um órgão que pensa manualmente e que age no mundo. O pensamento da mão é capaz de modificar a matéria do mundo imediatamente, ao contrário do pensamento cerebral, que atua mais a longo prazo.
A Imaginação:
Tavares, influenciado por Bachelard, define a imaginação não apenas como a faculdade de formar imagens, mas “a faculdade de deformar as imagens fornecidas pela percepção” e de libertar-nos das imagens primeiras.
É um reino da “primeira vez” e de um olhar que busca constantemente o novo, recusando a repetição e a previsibilidade.
A imaginação é uma “máquina de produzir realidades” alternativas, capaz de contrariar o visível e expandir as possibilidades de acontecimentos.
Os pormenores e miniaturas são cruciais para a imaginação, pois concentram valores e permitem “possuir melhor o mundo”.
A imaginação é também um ato de “contestação de territórios” e de ideias fixas, cruzando conceitos e abrindo novas possibilidades onde a realidade se afasta da previsibilidade. A partícula “e” é vista como um ligador universal na linguagem, tal como existe um “e” entre as coisas do mundo.
O Pensamento e a Linguagem:
A obra explora a ligação do pensamento com a linguagem e os signos, afirmando que “o pensamento é essencialmente a atividade que opera com signos”. O pensamento pode ser “realizado pela mão, quando pensamos por intermédio da escrita; pela boca e pela laringe, quando pensamos por intermédio da fala”.
Há uma distinção entre ver e imaginar: “ver obedece ao tempo, está fixo a um tempo; imaginar não obedece ao tempo, tem liberdade total na escolha do momento em que se manifesta”.
Tavares sugere que aperfeiçoar os nomes e a linguagem leva ao aperfeiçoamento do pensamento e das ideias.
O Processo Criativo de Gonçalo M. Tavares e o “Atlas”
Gonçalo M. Tavares descreve o seu processo de escrita como uma fase inicial “quase louca, quase animal, sem pensar muito, só a escrever, escrever, escrever”, seguida por uma fase de revisão muito técnica e demorada, onde se dedica a “tirar apenas uma palavra, uma vírgula”. Ele prefere a ideia de “energia extraordinária” em vez de “inspiração”. A leitura, para ele, é uma “arte marcial da linguagem” que exige o uso constante de um lápis, um “bisturi” para dissecar o texto, revelando assim a sua biografia e a importância que dá a cada fragmento.
A sua prática de escrever e ler é altamente disciplinada, com uma rotina matinal dedicada à escrita em cafés ou no seu ateliê. Ele percebe que a mudança de escrever à mão para o computador alterou o seu modo de pensar, vendo a escrita como uma “modalidade atlética” onde o corpo está integralmente envolvido.
A interdisciplinaridade é uma característica fundamental do seu trabalho. O “Atlas do Corpo e da Imaginação” é um exemplo claro disso, ao cruzar a literatura com a filosofia, a ciência e as artes. A obra não se limita a géneros, abordando a literatura como um espaço onde é possível pensar o sujeito e sua relação com o mundo, resistindo ao “entretenimento gratuito” e aos “experimentalismos sem fundamentação”.
A sua obra, como o “Atlas”, é um convite à lucidez e a um “treino” para uma melhor perceção da realidade, do mal, do medo e da violência, incentivando o leitor a “percorrer o verso”, ou seja, o lado contrário das coisas, a ver o que não está à mostra. A fragmentação, que é uma característica marcante da sua escrita, é vista como uma “máquina de produzir inícios”, impondo uma urgência e acelerando o pensamento.
Em suma, “Atlas do Corpo e da Imaginação” é uma profunda exploração da experiência humana através das lentes do corpo, da imaginação e do pensamento. Ele reflete a abordagem única de Gonçalo M. Tavares à literatura, não como um mero passatempo, mas como uma ferramenta vital para a compreensão e a transformação da nossa perceção do mundo e de nós mesmos.
Gonçalo M. Tavares | Café com Letras Online | Município de Oeiras