Atlas do Corpo e da Imaginação | Gonçalo M. Tavares

Gonçalo M. Tavares em 2023 | Wikipédia

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Gonçalo Manuel de Albuquerque Tavares GOIH (Luanda, Agosto de 1970), mais conhecido na forma Gonçalo M. Tavares, é um escritor e professor universitário português, cuja primeira obra foi publicada em 2001.[2]

Com “Atlas do Corpo e da Imaginação”, exploramos uma das obras mais significativas de Gonçalo M. Tavares, que se destaca como uma peça central para compreender a sua filosofia e processo criativo. Publicado pela Caminho em 2013, este livro é uma reflexão filosófica e teórica que interroga a linguagem, os conceitos e a própria condição humana, servindo como uma chave de leitura para a totalidade da sua vasta produção literária.

Natureza e Propósito do “Atlas do Corpo e da Imaginação”

O “Atlas do Corpo e da Imaginação” não é uma obra comum; é um texto híbrido que combina teoria, fragmentos e imagens, com um design de capa e ilustrações de “Os Espacialistas”. A sua estrutura multifacetada permite múltiplos caminhos de leitura, convidando o leitor a percorrê-lo do início ao fim, ao contrário, por saltos, ou por fragmentos, capítulos ou entradas e saídas rápidas. Esta abordagem espelha a própria natureza da investigação que a obra propõe: um estudo que visa questionar e emitir lucidez, em vez de fornecer resultados definitivos.

A obra reflete sobre a relação intrínseca entre o corpo, o pensamento e a imaginação, explorando como estes se cruzam e se influenciam mutuamente. O livro é, essencialmente, uma “cartografia” que tenta mapear e desdobrar as complexas ligações entre a existência física e os processos mentais e criativos.

Conceitos-Chave e Temas Explorados

  1. O Corpo:
    • Tavares enfatiza a centralidade do corpo na nossa perceção e interação com o mundo. O corpo não é apenas uma entidade física, mas um “volume inteligente” que sofre e ama.
    • A obra desenvolve a ideia de que o corpo é múltiplo, não uma unidade singular, o que o autor expressa através da formulação que “o conceito de corpo é expresso obrigatoriamente por um erro e por um abuso sobre a gramática: o meus corpos no mundos”.
    • A dor, a saúde e a doença são vistas como experiências corporais que abalam e clarificam o projeto humano, os limites do corpo e as possibilidades da linguagem.
    • A mão é destacada como um “órgão extraordinário” onde reside grande parte da potência da humanidade, um órgão que pensa manualmente e que age no mundo. O pensamento da mão é capaz de modificar a matéria do mundo imediatamente, ao contrário do pensamento cerebral, que atua mais a longo prazo.
  2. A Imaginação:
    • Tavares, influenciado por Bachelard, define a imaginação não apenas como a faculdade de formar imagens, mas “a faculdade de deformar as imagens fornecidas pela percepção” e de libertar-nos das imagens primeiras.
    • É um reino da “primeira vez” e de um olhar que busca constantemente o novo, recusando a repetição e a previsibilidade.
    • A imaginação é uma “máquina de produzir realidades” alternativas, capaz de contrariar o visível e expandir as possibilidades de acontecimentos.
    • Os pormenores e miniaturas são cruciais para a imaginação, pois concentram valores e permitem “possuir melhor o mundo”.
    • A imaginação é também um ato de “contestação de territórios” e de ideias fixas, cruzando conceitos e abrindo novas possibilidades onde a realidade se afasta da previsibilidade. A partícula “e” é vista como um ligador universal na linguagem, tal como existe um “e” entre as coisas do mundo.
  3. O Pensamento e a Linguagem:
    • A obra explora a ligação do pensamento com a linguagem e os signos, afirmando que “o pensamento é essencialmente a atividade que opera com signos”. O pensamento pode ser “realizado pela mão, quando pensamos por intermédio da escrita; pela boca e pela laringe, quando pensamos por intermédio da fala”.
    • Há uma distinção entre ver e imaginar: “ver obedece ao tempo, está fixo a um tempo; imaginar não obedece ao tempo, tem liberdade total na escolha do momento em que se manifesta”.
    • Tavares sugere que aperfeiçoar os nomes e a linguagem leva ao aperfeiçoamento do pensamento e das ideias.

O Processo Criativo de Gonçalo M. Tavares e o “Atlas”

Gonçalo M. Tavares descreve o seu processo de escrita como uma fase inicial “quase louca, quase animal, sem pensar muito, só a escrever, escrever, escrever”, seguida por uma fase de revisão muito técnica e demorada, onde se dedica a “tirar apenas uma palavra, uma vírgula”. Ele prefere a ideia de “energia extraordinária” em vez de “inspiração”. A leitura, para ele, é uma “arte marcial da linguagem” que exige o uso constante de um lápis, um “bisturi” para dissecar o texto, revelando assim a sua biografia e a importância que dá a cada fragmento.

A sua prática de escrever e ler é altamente disciplinada, com uma rotina matinal dedicada à escrita em cafés ou no seu ateliê. Ele percebe que a mudança de escrever à mão para o computador alterou o seu modo de pensar, vendo a escrita como uma “modalidade atlética” onde o corpo está integralmente envolvido.

A interdisciplinaridade é uma característica fundamental do seu trabalho. O “Atlas do Corpo e da Imaginação” é um exemplo claro disso, ao cruzar a literatura com a filosofia, a ciência e as artes. A obra não se limita a géneros, abordando a literatura como um espaço onde é possível pensar o sujeito e sua relação com o mundo, resistindo ao “entretenimento gratuito” e aos “experimentalismos sem fundamentação”.

A sua obra, como o “Atlas”, é um convite à lucidez e a um “treino” para uma melhor perceção da realidade, do mal, do medo e da violência, incentivando o leitor a “percorrer o verso”, ou seja, o lado contrário das coisas, a ver o que não está à mostra. A fragmentação, que é uma característica marcante da sua escrita, é vista como uma “máquina de produzir inícios”, impondo uma urgência e acelerando o pensamento.

Em suma, “Atlas do Corpo e da Imaginação” é uma profunda exploração da experiência humana através das lentes do corpo, da imaginação e do pensamento. Ele reflete a abordagem única de Gonçalo M. Tavares à literatura, não como um mero passatempo, mas como uma ferramenta vital para a compreensão e a transformação da nossa perceção do mundo e de nós mesmos.

Gonçalo M. Tavares | Café com Letras Online | Município de Oeiras

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