Download |
O “Dicionário de Valores”, de José Pacheco, não é apenas mais um livro sobre educação moral. Trata-se de um manifesto pedagógico que desafia educadores a transformarem valores escritos em projetos político-pedagógicos em atitudes concretas e vividas no quotidiano escolar. Publicado em 2012 pelas Edições SM, este dicionário alfabético reúne reflexões sobre 24 valores fundamentais, todos enraizados na experiência de quatro décadas à frente da Escola da Ponte, instituição que revolucionou a educação em Portugal.
Da Teoria à Praxis: O Propósito da Obra
Como explica Celso dos S. Vasconcellos no prefácio, o objetivo desta publicação não é ser um tratado académico sobre valores. A sua riqueza reside precisamente no facto de apresentar um conjunto limitado de valores, todos nascidos de uma vivência concreta no âmbito da Escola da Ponte. Pacheco deixa claro que valores não podem ser mero ornamento de documentos escolares: devem ser assumidos “integral e praxiologicamente pela equipa”.
A obra surge de uma convicção fundamental: “um professor não ensina aquilo que diz; o professor transmite aquilo que é”. Esta máxima perpassa todo o dicionário, reforçando que a transmissão de valores acontece pela convivência, pelo exemplo e pelo contágio emocional.
A Matriz Axiológica da Escola da Ponte
Nos primórdios do projeto, há quase quarenta anos, a equipa da Escola da Ponte realizou um exercício revelador: cada professor escreveu num papel os dez valores que orientavam as suas vidas. Três valores surgiram em todos os papéis: liberdade, solidariedade e responsabilidade. Estes tornaram-se os pilares da matriz axiológica que guiou todas as transformações pedagógicas subsequentes.
Os 24 Valores: De A a Z
O dicionário organiza-se alfabeticamente, abordando valores como:
- Autonomia: definida não como isolamento, mas como capacidade de ser autónomo sendo simultaneamente dependente, na relação EU-TU proposta por Martin Buber
- Beleza: valor raramente contemplado nos projetos político-pedagógicos, embora seja essencial, pois “ou a Educação é um ato estético ou não é Educação”
- Coerência: a fidelidade entre teoria e prática, ilustrada pela metáfora do barco com dois remos – “acreditar” e “agir” – que só avança quando ambos remam juntos
- Indignação: apresentada como motor de transformação, pois “o maior obstáculo fui eu, enquanto não me indignei, enquanto não agi para assegurar o saber e a felicidade aos meus alunos”
- Solidariedade: exemplificada através de histórias comoventes, como a do aluno André que acumulou faltas disciplinares por sair da sala sempre que um colega era injustamente expulso.
Narrativas que Educam
Uma das características mais marcantes do dicionário é o uso de narrativas reais. Pacheco recorre constantemente a episódios vividos na Escola da Ponte ou em escolas brasileiras, transformando conceitos abstratos em situações concretas. A história do Nelson, que chegou tarde à escola porque cuidara dos irmãos após ratos roerem a orelha do mais pequeno, mas que mesmo assim foi porque “pelo caminho, sinto uma coisa aqui dentro… parece mesmo… alegria”, ilustra como uma escola pode ser um espaço de bem-estar mesmo em contextos de vulnerabilidade social.
Crítica Social e Educacional
O autor não poupa críticas à sociedade brasileira e às práticas escolares tradicionais. Denuncia a “profunda crise moral” do país, a inversão de valores que confunde honestidade com desonestidade, e o facto de muitos projetos político-pedagógicos serem “ricos em diagnósticos e planos de ação, mas omissos ou muito frágeis na componente utópica, axiológica ou valorativa”.
Pacheco questiona: se queremos formar alunos autónomos, como pode o professor educar em autonomia quando não é ele próprio autónomo, estando sozinho na sala de aula, submetido à obediência hierárquica? Se a autonomia se exerce em relação ao outro, a solidão do professor tradicional impossibilita essa aprendizagem.
Esperança e Transformação
Apesar das críticas contundentes, o dicionário respira esperança. Rubem Alves, no prefácio, distingue o educador otimista do educador esperançoso: “o otimismo é da natureza do tempo e a esperança é da natureza da eternidade”. É esta esperança que move Pacheco a acreditar que “a velha escola está prestes a parir uma nova escola”.
A obra apresenta dois contrapontos finais: a “Escola X” (fraudulenta, onde valores escritos contradizem práticas autoritárias) e a “Escola Z” (que acolhe alunos de contextos vulneráveis e opera “o resgate daquilo que torna os seres humanos mais humanos”). Esta oposição sintetiza o x da questão: valores ou se vivem ou permanecem letra morta.
Relevância para Educadores
Como sublinha Maria do Pilar Lacerda no posfácio, esta publicação é “um mapa de navegação, um roteiro de reflexão” para ser utilizado em todas as disciplinas e momentos da atividade escolar. O desafio lançado é claro: que todos os educadores tenham tempo para repensar as suas práticas, transformando a escola num “grande laboratório de vivências mais bonitas, belas e justas”.
O “Dicionário de Valores” de José Pacheco é, em última análise, um convite à coerência. Convida-nos a atravessar a ponte entre o discurso e a ação, lembrando-nos que, como escreveu Julio Cortázar, “uma ponte só é verdadeiramente uma ponte quando alguém a atravessa”.







