Chomsky estava errado?» O que mostra, afinal, o estudo da Nature Human Behaviour

Circula uma publicação que garante que um estudo recente «provou» que Chomsky estava errado e que falamos como o ChatGPT. Em vez de discutir a publicação, fomos ler o artigo de ponta a ponta. É um trabalho cuidadoso, com seis estudos e resultados pequenos mas consistentes, e que diz coisas interessantes para quem ensina línguas. Diz também bastante menos do que lhe atribuem.

A publicação resume-se depressa: o cérebro não guarda a linguagem em árvores gramaticais, falamos a prever o bloco seguinte e é assim que funciona o ChatGPT. Do artigo, o que há a registar é outra coisa, e merece ser contada com algum vagar.

A pergunta de partida

O artigo de Yngwie A. Nielsen e Morten H. Christiansen saiu na Nature Human Behaviour a 21 de janeiro de 2026 (volume 10, páginas 579 a 588), depois de aceite em dezembro de 2025. Christiansen é professor de Psicologia em Cornell e Nielsen trabalha na Universidade de Aarhus, na Dinamarca. Os dois partem de uma pergunta antiga: como é que qualquer falante consegue produzir e compreender frases que nunca ouviu?

Os autores descrevem duas respostas clássicas. Na primeira, a mente tem um léxico e uma gramática generativa, e esta combina palavras em constituintes, que são grupos de palavras encaixados uns nos outros. Em «o rapaz deu o livro à rapariga», «o livro» é um constituinte, «deu o livro à rapariga» é outro, e assim sucessivamente até à frase inteira. Na segunda, mais próxima das abordagens construcionistas, a mente guarda construções, isto é, formas com um sentido convencionado, que vão de palavras soltas a expressões fixas e a padrões de frase.

Há, porém, um problema que a investigação sobre blocos de palavras (ou lexical bundles) já tinha levantado. Sequências como in the middle of the lêem-se mais depressa do que equivalentes menos frequentes, mas não são constituintes, porque deixam um grupo preposicional a meio, e também não é claro que tenham um sentido convencionado. Seriam, então, estruturas que não são nem uma coisa nem outra. É essa lacuna que o artigo quer testar.

Como se testa uma coisa destas

O instrumento é o priming estrutural. Quando processamos uma estrutura, ela deixa um rasto, e outra frase com a mesma estrutura é processada mais depressa a seguir. Durante décadas este efeito foi usado como argumento a favor da realidade psicológica dos constituintes. Nielsen e Christiansen usam-no ao contrário: aplicam-no a sequências de três palavras que não são constituintes, descritas apenas pela sua sequência de classes de palavras (por exemplo, substantivo, preposição, determinante, como em example of an).

A tarefa dada aos participantes é simples. Aparecem três palavras no ecrã e a pessoa decide, o mais depressa que puder, se aquilo pode fazer parte de uma frase em inglês (work for a) ou não (bring am top). Em algumas dessas decisões, a sequência anterior tem a mesma estrutura de classes de palavras que a seguinte, como knew that she antes de wondered if you. Noutras, a anterior tem uma estrutura sem relação, como example of an. Se a mente guarda um padrão desse tipo, a decisão deve ser mais rápida no primeiro caso.

Seis estudos, e o que cada um acrescenta

No primeiro estudo, com 40 estudantes de Cornell, a decisão foi cerca de 33 milissegundos mais rápida quando as duas sequências tinham a mesma estrutura (821 contra 854 ms, em média). O segundo estudo, com 57 estudantes da Universidade da Florida, serviu para excluir uma explicação mais simples, a de que o que se ativa são as classes de palavras soltas. Para isso inverteram a ordem (de me again and para or how you) e o benefício desapareceu, e até houve um ligeiro atraso. É a sequência que conta e não apenas o conjunto de classes.

O terceiro estudo ataca a objeção mais evidente: e se estas sequências, afinal, aparecessem muitas vezes como constituintes em frases reais? Os autores recolheram frases de um corpus de inglês americano e viram que, em média, cerca de 1% das ocorrências era de facto constituinte. Repetiram depois a experiência com 200 participantes recrutados online, metade com sequências que não são constituintes e metade com constituintes. O priming apareceu nos dois casos, com sinais moderados de que era mais forte nas sequências que não são constituintes (36 contra 20 ms, em números redondos).

O quarto estudo, também com 200 participantes, responde a uma objeção mais subtil: quem lê live in a pode estar a prever que vem aí um substantivo e a construir mentalmente o constituinte inteiro («viver num carro»). Compararam por isso fragmentos de três palavras com os constituintes de quatro em que estes se encaixam. Um fragmento ajudou mais a processar outro fragmento do que o constituinte completo, e o contrário também se verificou. Os autores consideram isto inconsistente com a ideia de que os fragmentos são sempre completados em constituintes. O total de participantes nas quatro experiências, 40 + 57 + 200 + 200, dá os 497 do resumo.

Os dois últimos estudos saem do laboratório e analisam dados já existentes. No quinto, a partir de um corpus de leitura com registo dos movimentos oculares (68 leitores de frases de jornal), uma estrutura repetida da frase anterior associou-se a uma leitura cerca de 48 ms mais rápida e a menos regressões, embora com bastante incerteza estatística e sem efeito claro na primeira passagem pelo texto. No sexto, com 642 conversas telefónicas entre 358 falantes, a probabilidade de alguém produzir uma dada sequência de classes de palavras subiu de 2,12% para 2,39% logo no turno a seguir a tê-la ouvido (uma diferença de 0,27 pontos percentuais, ou seja, cerca de 13%, o que dá um odds ratio de 1,13). São efeitos modestos, mas apareceram em dois contextos muito diferentes.

O que os autores concluem

A conclusão principal é que os constituintes não são o único tipo de estrutura que a mente usa. Os próprios autores sublinham que o resultado põe um desafio a todas as abordagens e não apenas à generativa. As construcionistas, dizem, têm mecanismos de aprendizagem suficientemente flexíveis para adquirir estas estruturas, mas quase só estudaram construções que são constituintes ou que se descrevem com constituintes, e por isso o desafio é «para todos». Notam ainda que as estruturas lineares podem ser um fator de confusão em muitos estudos anteriores de priming sintático.

Há prudências que o texto faz questão de deixar escritas. O estudo não exclui que os constituintes tenham um papel no processamento de unidades maiores do que as três palavras testadas. Os resultados limitam-se ao inglês, e, embora os autores esperem que se estendam a outras línguas, dizem que é preciso investigá-lo. E não afirmam que as sequências de classes de palavras estejam guardadas como símbolos. Tratam-nas como uma forma de descrever percursos de processamento, que ficam mais fáceis de percorrer à força de passarem por lá, como as pegadas que se vão alargando num caminho de floresta.

A hipótese mais ousada é uma proposta a testar: que estas sequências sirvam de «cola de processamento» entre unidades com sentido, ajudando a encaixá-las em tempo real. Por exemplo, top of the a ligar on the top a the tallest mountain. Está na conclusão como especulação, e assim deve ser lida.

E os modelos de linguagem?

O artigo toca nos modelos de linguagem, mas de passagem. Refere que uma rede neuronal reproduzia boa parte dos resultados de priming sintático, e que resultados convergentes foram obtidos com grandes modelos de linguagem. Os autores tiram daí que o priming pode, em princípio, assentar em estruturas que não são constituintes, e acrescentam que não se sabe que representações o modelo usa. É tudo. Não dizem que os humanos falam como o ChatGPT, e a ideia de que falamos «a prever o bloco seguinte» não é uma conclusão deles. Pelo contrário, o quarto estudo discute e afasta uma explicação baseada na previsão de estruturas maiores. Convém, por isso, não confundir duas coisas: um modelo estatístico e uma pessoa podem ambos mostrar priming, o que não os torna a mesma máquina. Já escrevemos sobre essa diferença a propósito do ensaio de Renato Ortiz, e sobre o facto de a fluência não provar compreensão.

Quanto a Chomsky, o nome não aparece no texto principal do artigo. Surge na bibliografia, com O Programa Minimalista (1995), citado a propósito das formas de descrever a estrutura em constituintes. O alvo declarado é a ideia de que a representação mental da linguagem assenta em constituintes. A manchete é de quem a escreveu.

O que isto tem a ver com a escola

Para começar, convém ver quem participou. Foram estudantes universitários, adultos recrutados online e falantes de inglês dos corpora, sem um único aluno do básico ou do secundário e sem nenhum falante de português. Tudo o que se segue é, portanto, extrapolação nossa e deve ser lido assim.

A gramática do Português trabalha constituintes e funções sintáticas ao longo dos anos: no 9.º, as Aprendizagens Essenciais pedem que o aluno analise frases simples e complexas para identificar constituintes e funções sintáticas (Direção-Geral da Educação, s.d.-a), e no secundário o conhecimento dos grupos da frase é para sistematizar (Direção-Geral da Educação, s.d.-b). O estudo não testa ensino nenhum e não dá razões para abandonar a análise sintática. Uma coisa é o que a gramática escolar permite ver numa frase, o que continua a ser útil, a ler e a escrever melhor. Outra é o que a mente faz em poucas centenas de milissegundos. A distinção é nossa, e dá boa conversa para um grupo disciplinar.

Nas aulas de língua, o que o artigo reforça, sem demonstrar para o ensino, é a importância dos blocos. O próprio texto cita como exemplo de bloco frequente in accordance with, que tem tradução óbvia em «de acordo com». Se a mente aprende e reutiliza sequências, faz sentido trabalhar expressões e combinações habituais, em Português, em Inglês e em Português Língua Não Materna, e não só vocabulário isolado. A equipa de Cornell admite que as conclusões podem vir a ter alguma coisa a dizer sobre o ensino de segundas línguas (Blackwood, 2026), mas é uma expectativa e não um resultado.

Quem corrige redações conhece também os blocos feitos que aparecem sem ninguém os pedir, como «nos dias de hoje» ou «ao longo dos tempos». É uma impressão de professor, sem dados por trás, mas liga-se ao que escrevemos sobre o texto que sai sempre com a mesma cara, seja de um aluno apressado seja de uma máquina.

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Duas coisas para experimentar

As propostas são nossas, não foram testadas com alunos e o estudo foi feito em inglês.

Ler um estudo, não a manchete. Com uma turma do 9.º ano ou do secundário, e em articulação com o professor de Inglês, pôr lado a lado a publicação viral e o resumo do artigo, que está em acesso aberto na página da revista. Os alunos sublinham os verbos de certeza («prova», «completamente errado», «exatamente») e os de cautela («evidência», «desafio», «poderá»), e verificam, afirmação a afirmação, o que da publicação aparece no resumo. A seguir podem olhar para quem foram os participantes e quantos eram. A discussão ensina mais do que qualquer aviso sobre desinformação, porque aqui o estudo é verdadeiro e a publicação é que o deforma. Quem quiser enquadrar a atividade na literacia em IA tem os nossos cinco passos.

A caça aos blocos. Num texto da turma ou numa notícia, os alunos procuram, à mão ou numa folha de cálculo, sequências de três ou quatro palavras que se repetem, e perguntam-se se cada uma forma um grupo. «Ao longo do», por exemplo, junta uma locução com um determinante, e «de acordo com o» está na mesma situação. Que a mente guarde sequências assim é uma hipótese a discutir e não um resultado, e saber se acontece em português europeu é uma pergunta em aberto. Que os alunos a formulem já é bom treino.

Reservas

Não somos linguistas, e a discussão entre as escolas teóricas é técnica e vai longe. Lemos o texto principal do artigo e não o material suplementar, onde os autores discutem outras noções de constituência. Os efeitos medem-se em dezenas de milissegundos e alguns intervalos de incerteza incluem o zero, como acontece no estudo da leitura. Os autores usam análise bayesiana, que fala em graus de evidência e não em «significativo» ou «não significativo», e convém lê-la assim. Trata-se de um conjunto de estudos pré-registados e com dados abertos, o que conta a favor, mas continua a ser um conjunto de estudos, e a discussão só agora começou.

Uma pergunta para levar

Quando um aluno nos mostrar, amanhã, mais uma manchete que começa por «estudo prova», saberá ir ver quantos eram os participantes, quem eram e o que os autores escreveram na conclusão? Talvez valha a pena ensinar-lhe esse gesto antes de lhe ensinarmos a desconfiar de tudo.


Nota editorial e de transparência. Este artigo foi elaborado com assistência de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir do texto principal do artigo de Nielsen e Christiansen (2026), lido na íntegra numa cópia alojada em servidor da Universidade de Cornell, e do comunicado da Cornell Chronicle (Blackwood, 2026), consultados a 26 de outubro de 2026. Os exemplos para a sala de aula são propostas nossas. O texto foi sujeito a revisão e à responsabilidade editorial dos autores do blogue.

Referências

Blackwood, K. (2026, 21 de janeiro). Discovery challenges assumptions about the structure of language. Cornell Chronicle. Consultado a 26 de outubro de 2026, em https://news.cornell.edu/stories/2026/01/discovery-challenges-assumptions-about-structure-language

Direção-Geral da Educação. (s.d.-a). Português, 9.º ano: Leitura. Lisboa no Renascimento. Funções sintáticas (1) (Bloco n.º 24) [Materiais de apoio]. Consultado a 26 de outubro de 2026, em https://estudoautonomo.dge.mec.pt/sites/default/files/inline-files/24_Portugu%C3%AAs_9%C2%BA%20ano_Leitura%20Lisboa%20no%20Renascimento.%20Fun%C3%A7%C3%B5es%20sint%C3%A1ticas%20%281%29.pdf

Direção-Geral da Educação. (s.d.-b). Os constituintes da frase e as suas funções sintáticas: A análise sintática ajuda-me a ler e escrever melhor? (Guião de Trabalho Autónomo n.º 17, Português, 11.º ano) [Materiais de apoio]. Consultado a 26 de outubro de 2026, em https://estudoautonomo.dge.mec.pt/sites/default/files/2025-02/GTA%2017_Portugu%C3%AAs.%C2%BA%20ano_tema%204_Constituintes%20da%20frase%20e%20fun%C3%A7%C3%B5es%20sint%C3%A1ticas.pdf

Nielsen, Y. A., & Christiansen, M. H. (2026). Evidence for the representation of non-hierarchical structures in language. Nature Human Behaviour, 10, 579–588. https://doi.org/10.1038/s41562-025-02387-z

Para saber mais

Fora do blogue: o artigo original, a começar pelo resumo; os dados, materiais e código no OSF, para quem quiser ver como se fez; o comunicado da Cornell Chronicle, curto e claro; e o episódio 137 do podcast Because Language, em inglês, em que os dois autores explicam o trabalho.

No blogue: Escrever com a máquina ou escrever sem ela? O que a escola pode aprender com um ensaio de Renato Ortiz; Uma IA pode ter consciência? O que pode aprender a escola com quem responde «não sabemos»; Literacia digital em ação: como combater a desinformação na sala de aula; Literacia em IA: cinco passos para a escola; Reaprender a perguntar: estamos a caminho da geração prompt?

Estónia no PISA 2025: o sucesso constrói-se com confiança, equidade e bons professores

A Estónia volta a destacar-se no PISA 2025. O que sustenta estes resultados? Autonomia pedagógica, apoio às dificuldades e uma aposta na tecnologia que começa nos professores. Um olhar sobre as escolhas estónias e o que podem ensinar a Portugal.

Quando saem os resultados do PISA, procuramos quase sempre a mesma coisa: uma explicação que caiba numa frase. Um método de ensino, uma reforma curricular, uma tecnologia. Algo que possamos identificar, importar e pôr a funcionar no ano letivo seguinte.

A Estónia merece uma leitura mais demorada. O seu percurso obriga-nos a olhar para a maneira como se organiza uma escola, para a ajuda que chega a um aluno quando começa a ficar para trás e para a liberdade de um professor que conhece a turma que tem à frente.

Nos resultados do PISA 2025, divulgados pela OCDE a 8 de setembro de 2026, o país volta a destacar-se. Para percebermos porquê, convém começar pelos dados e resistir à tentação de atribuir a uma novidade recente o mérito de um trabalho de muitos anos.

O que mostram os resultados mais recentes

Segundo a síntese do Ministério da Educação e Investigação estónio, a Estónia ocupa o primeiro lugar europeu em ciências e matemática e o segundo em leitura. São posições pela ordenação das médias; diferenças muito pequenas entre países não devem ser confundidas com diferenças estatisticamente significativas.

A comparação com Portugal ajuda a perceber a dimensão dos resultados:

Domínio — PISA 2025EstóniaPortugalMédia da OCDE
Ciências527482482
Matemática508460463
Leitura499462461
Pontuações médias. Fontes: Education GPS — Estónia e síntese executiva do PISA 2025, OCDE.

A distância entre os dois países é de 45 pontos em ciências, 48 em matemática e 37 em leitura. Há, porém, uma nuance indispensável: o sucesso estónio também contém dificuldades. Entre 2022 e 2025, os resultados mantiveram-se estatisticamente estáveis em ciências e matemática, mas a média de leitura desceu 12 pontos.

Portugal registou variações de menos 3 pontos em ciências, menos 12 em matemática e menos 15 em leitura. Estar próximo da média da OCDE exige, por isso, uma pergunta adicional: como está a evoluir essa média? Neste ciclo, também ela desceu nos três domínios.

Um lugar elevado na tabela e uma melhoria das aprendizagens são coisas diferentes. A Estónia continua a conseguir resultados fortes, mas tem razões para se preocupar com a leitura. Portugal tem razões para olhar para a distância que o separa desse desempenho e para o seu próprio percurso.

Esta preocupação com a leitura aproxima-se do que defendemos em «Ler o mundo em múltiplos formatos: multiliteracias na era da inteligência artificial», a partir da conferência apresentada no IX Encontro Leitur@s, em Seia. A escola precisa de ensinar a ajustar a atenção à finalidade da leitura: procurar informação, estudar um argumento, comparar perspetivas ou permanecer num texto para o compreender melhor.

A qualidade vê-se também em quem consegue acompanhar

O indicador talvez mais expressivo está nas ciências: cerca de 90% dos alunos estónios atingem pelo menos o nível 2 de proficiência, o patamar básico definido pelo PISA. Em Portugal, são 76%; na média da OCDE, 74%.

Ao mesmo tempo, 11,3% dos alunos estónios chegam aos níveis mais elevados de ciências. Em Portugal, a nota nacional da OCDE aponta para 6%. O sistema estónio consegue combinar uma base ampla de alunos com competências essenciais e uma proporção apreciável de desempenhos de excelência.

A origem social continua a contar. Na Estónia, a diferença em ciências entre os quartos socioeconómicos mais e menos favorecidos é de 68 pontos. Em Portugal, atinge 92 pontos. Não estamos perante uma sociedade onde as desigualdades deixaram de existir; estamos perante resultados em que o peso dessas desigualdades é menor.

A própria análise da OCDE sobre desempenho e equidade inclui a Estónia num pequeno grupo de sistemas que combinam resultados acima da média, inclusão elevada da população de 15 anos no estudo e uma associação relativamente reduzida entre origem socioeconómica e desempenho em ciências.

Para a escola, esta combinação tem um significado concreto: vale a pena observar tanto os alunos que resolvem os problemas mais difíceis como aqueles que ainda precisam de ajuda para compreender o enunciado.

Ajudar cedo faz parte da organização da escola

Uma parte importante da explicação encontra-se na forma como a Estónia organiza o apoio aos alunos. A Education Estonia, iniciativa da agência pública de educação e juventude, descreve uma estrutura com dois níveis: a intervenção próxima, nos jardins de infância e nas escolas, e uma rede externa de aconselhamento especializado, os centros Rajaleidja, também conhecidos como Pathfinder.

Esta rede disponibiliza aconselhamento gratuito a famílias, professores e outros profissionais, com a participação de psicólogos, terapeutas da fala e especialistas em educação especial e apoio socioeducativo. Nas escolas, a diferenciação pode passar por pequenos grupos, materiais adaptados e apoio adicional. Também contempla desafios acrescidos para quem aprende mais depressa.

Estas medidas oferecem uma explicação plausível para a capacidade de sustentar as aprendizagens de muitos alunos. O PISA, por si só, não permite calcular quantos pontos se devem a cada uma delas, nem demonstrar uma relação causal isolada.

Ainda assim, o princípio é relevante para Portugal: uma dificuldade identificada precisa de uma resposta disponível. Entre reconhecer que um aluno necessita de apoio e conseguir prestá-lo há um intervalo que merece tanta atenção como qualquer reforma curricular.

A autonomia precisa de chegar à aula

No artigo que dedicámos à intervenção de Kristina Kallas no Oeiras Education Forum, destacámos a confiança nas comunidades, nas escolas e nos professores. Os dados internacionais ajudam a dar conteúdo a essa ideia.

No TALIS 2024, a OCDE identifica na Estónia maior autonomia pedagógica declarada pelos professores e maior participação docente nas decisões da escola do que na média dos países da organização, em pelo menos dois terços dos aspetos analisados em cada área.

A autonomia interessa quando permite tomar decisões úteis: voltar a um conceito que a turma não compreendeu, escolher materiais adequados, ajustar a sequência do trabalho ou construir uma atividade com outro professor. Para isso, quem decide precisa de preparação, tempo e apoio.

O mesmo inquérito mostra que 91% dos docentes estónios recentemente diplomados consideravam elevada a qualidade global da sua formação inicial, contra 75% na média da OCDE. É uma perceção dos professores, não uma medição direta da qualidade dos cursos, mas ajuda a compreender a base profissional em que essa autonomia assenta.

Há um exemplo especialmente esclarecedor no estudo da OCDE sobre flexibilidade curricular. Na escola Pelgulinna Gümnaasium, em Taline, foram organizados círculos de aprendizagem entre professores, com 75 minutos semanais libertados da atividade letiva para esse trabalho. Os grupos partilhavam o que aprendiam e aprofundavam problemas pedagógicos escolhidos pela escola.

É uma experiência de uma escola, não uma regra que possamos atribuir a todo o país. Mas torna visível uma escolha: dar tempo à colaboração dentro da organização do trabalho. Para os professores portugueses, frequentemente convidados a colaborar, investigar e inovar, esta concretização merece atenção.

A tecnologia entra numa escola que já sabe o que procura

Temos acompanhado este percurso no blogue: primeiro, com o anúncio do acesso ao ChatGPT no ensino secundário; depois, com a análise do programa AI Leap e da sua ambição de ensinar a pensar.

O anúncio oficial de 2025 previa uma primeira fase dirigida a 20 mil alunos dos 10.º e 11.º anos e a três mil professores, com acesso a ferramentas e formação docente. A iniciativa recupera o legado do Tiger Leap, que décadas antes levara computadores e internet às escolas estónias.

A dimensão nacional da ambição deve distinguir-se da cobertura concreta de cada fase. Na atualização de setembro de 2026, o ministério anuncia o alargamento ao conjunto do secundário geral, a professores do ensino básico e a professores e alunos do secundário profissional. A formação, os materiais e a aprendizagem entre docentes continuam a fazer parte do programa.

Esta cronologia impede atribuir ao AI Leap o sucesso acumulado da Estónia no PISA. Uma iniciativa lançada em 2025, inicialmente dirigida a determinados anos do secundário, não explica o percurso anterior de um sistema, nem permite estabelecer o seu efeito sobre os resultados agora publicados.

O que ela mostra é a orientação de uma política. Na apresentação do programa no Tallinn Digital Summit, o ministério destacou a competência digital dos professores, a literacia em IA dos alunos e a investigação sobre os efeitos destas ferramentas na aprendizagem e no pensamento.

Há aqui uma proposta educativa que merece ser discutida: criar condições para experimentar, aprender a avaliar as respostas e acompanhar os efeitos sobre aquilo que os alunos conseguem fazer por si próprios.

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Aprender a usar também é aprender a pensar

O perfil estónio do PISA 2025 acrescenta um dado relevante: 72,5% dos alunos referem aprender nas aulas a avaliar informação produzida por IA, acima dos 62,6% da média da OCDE. Trata-se de uma resposta a um questionário, que não equivale a uma prova de domínio dessa competência. Mas revela a presença do assunto no trabalho escolar.

Numa aula de Português, por exemplo, uma resposta gerada pode tornar-se objeto de leitura crítica: o aluno confronta-a com o texto literário, identifica uma interpretação sem apoio, procura uma passagem que sustente o argumento e reescreve a sua conclusão. Em ciências, pode examinar uma explicação e verificar se os dados apresentados permitem aceitá-la. Em matemática, pode discutir um procedimento e localizar o passo em que o raciocínio falha.

São propostas pedagógicas decorrentes desta abordagem, não descrições de práticas universais nas escolas estónias. O seu valor estará no trabalho intelectual que exigem ao aluno e na informação que dão ao professor sobre a aprendizagem.

Também a avaliação merece acompanhar esse trabalho. Como propusemos no artigo sobre autoria e avaliação do processo na presença da IA, pedir ao aluno que explique uma escolha, identifique as fontes verificadas e descreva o contributo da ferramenta ajuda a tornar visível a sua participação intelectual. Essa explicação dá ao professor elementos que o produto final, sozinho, pode não revelar.

Para Portugal, uma aposta desta natureza pede acesso equitativo, formação ligada às disciplinas, tempo para preparar atividades e avaliação dos resultados. Uma ferramenta pode entrar rapidamente na escola; uma prática pedagógica precisa de ser construída.

O que Portugal pode aprender, sem idealizar

A Estónia também enfrenta problemas. No PISA 2025, 73,5% dos seus alunos frequentavam escolas cujos diretores referiam que a falta de professores limitava, pelo menos em alguma medida, a capacidade de assegurar o ensino. E o recuo na leitura exige atenção, mesmo num país com resultados elevados.

Portugal tem, por sua vez, experiência que merece ser reconhecida. O estudo da OCDE sobre flexibilidade curricular inclui iniciativas portuguesas de aprendizagem entre pares e de experimentação pedagógica. A comparação deve ajudar-nos a perceber como dar consistência ao que funciona e como melhorar as condições para o generalizar.

Da leitura conjunta das fontes emerge uma interpretação: o desempenho estónio é compatível com um sistema que articula expectativas exigentes, apoio às dificuldades, autonomia profissional e continuidade do investimento educativo. Esta combinação é mais convincente do que uma explicação assente numa medida isolada. Continua, porém, a ser uma interpretação informada, não uma demonstração causal fornecida pelo PISA.

As perguntas que deixa às escolas portuguesas são bastante concretas. Quanto tempo demora a chegar o apoio a um aluno? Que decisões pode realmente tomar o professor? Que espaço existe no horário para trabalhar com os colegas? Como sabemos se uma atividade com tecnologia melhorou a compreensão, a escrita ou a capacidade de resolver um problema?

É nesse trabalho quotidiano que a comparação com a Estónia se torna útil. O próximo resultado começa muito antes do próximo teste: no aluno que recebe ajuda a tempo, no professor que consegue preparar melhor uma aula e na escola que dispõe de condições para transformar uma boa ideia numa aprendizagem duradoura.


Artigo preparado com informação consultada em 10 de setembro de 2026. Resultados: PISA 2025. Os dados do TALIS 2024 referem-se ao inquérito aos professores e são identificados separadamente. As ligações no texto conduzem aos artigos anteriores do blogue e às fontes institucionais utilizadas.

PISA 2025: Portugal na média, escola em alerta

Os resultados do PISA 2025 colocam Portugal próximo da média da OCDE em Ciências, Leitura, Matemática e resolução computacional de problemas. Mas, por detrás dessa aparente estabilidade, há sinais que merecem atenção: a queda acentuada na leitura e na matemática, o peso persistente das desigualdades socioeconómicas e um paradoxo particularmente interessante — os alunos portugueses revelam bons resultados na resolução de problemas em ambientes digitais, precisamente quando a inteligência artificial começa a obrigar a escola a repensar o que significa aprender.

Há duas formas de olhar para os resultados do PISA 2025 em Portugal.

A primeira é relativamente tranquilizadora: os alunos portugueses de 15 anos estão, em todos os domínios avaliados, muito próximos da média dos países da OCDE.

A segunda obriga-nos a olhar para lá da fotografia de 2025. E aí o cenário torna-se bastante menos confortável.

Porque estar na média não significa necessariamente estar bem. Sobretudo quando a própria média está a descer.

O PISA 2025, realizado em 91 países e economias, avaliou Ciências, Leitura e Matemática e introduziu ainda um domínio particularmente relevante para uma escola cada vez mais digital: a Aprendizagem no Mundo Digital, centrada na resolução computacional de problemas. Em Portugal participaram 6945 alunos de 225 escolas.

E talvez seja precisamente a combinação destes quatro domínios que torna esta edição do PISA tão interessante.

Não estamos apenas perante mais uma comparação internacional de resultados escolares. O relatório levanta questões muito mais profundas sobre como se lê, como se aprende, como se pensa e qual deve ser o lugar da tecnologia — e agora da inteligência artificial — nesse processo.

Portugal na média, domínio após domínio

Os resultados portugueses são, à primeira vista, extraordinariamente próximos dos valores médios da OCDE:

DomínioPortugalMédia OCDE
Ciências482482
Leitura462461
Matemática460463
Resolução computacional de problemas501500

A conclusão imediata é simples: Portugal apresenta resultados estatisticamente alinhados com a média da OCDE nos quatro domínios.

Mas esta tabela esconde uma parte importante da história.

Quando olhamos para a evolução temporal, encontramos descidas que dificilmente podem ser ignoradas.

O sinal de alarme vem da leitura

A leitura merece particular atenção.

Portugal obteve 462 pontos, praticamente o mesmo valor da média da OCDE, situada nos 461 pontos.

O problema está no percurso até aqui.

Em 2022, os alunos portugueses tinham obtido 477 pontos. Em apenas um ciclo, Portugal perdeu 15 pontos, uma descida estatisticamente significativa. E, entre 2018 e 2025, a quebra acumulada chega aos 30 pontos.

Há outro número que ajuda a perceber melhor a situação: 28,4% dos alunos portugueses estão abaixo do nível 2 de proficiência em leitura. Apenas cerca de 3% atingem os níveis superiores de desempenho.

Isto interessa muito mais à escola do que uma simples posição num ranking internacional.

O próprio conceito de leitura do PISA já não corresponde apenas a compreender aquilo que está escrito num texto. Inclui a capacidade de localizar informação, comparar fontes, avaliar a sua credibilidade, estabelecer relações, formular inferências e refletir criticamente sobre aquilo que se lê.

Ou seja: exatamente as competências de que precisamos num mundo de motores de pesquisa, redes sociais, desinformação e sistemas de inteligência artificial.

É difícil imaginar uma competência mais importante neste momento.

Ler num mundo de inteligência artificial

O relatório internacional da OCDE vai ainda mais longe.

Entre 2018 e 2025, o desempenho médio em leitura diminuiu significativamente em grande parte dos sistemas educativos. A OCDE chama a atenção para uma deterioração justamente nas capacidades que mais importam num ambiente informacional saturado: avaliar informação, relacionar diferentes fontes e pensar criticamente sobre aquilo que se lê.

Surge ainda uma expressão particularmente sugestiva no relatório: “hasty readers”, leitores apressados.

São alunos que avançam rapidamente pelos textos e respondem depressa, mas incorretamente. Segundo a OCDE, a proporção destes leitores quase duplicou entre 2018 e 2025.

Talvez esta seja uma das mensagens mais importantes de todo o PISA 2025.

Durante anos, discutimos se os alunos deveriam ler em papel ou no ecrã. A questão parece agora ser outra:

conseguem parar suficientemente para pensar sobre aquilo que estão a ler?

Num ambiente digital construído em torno da velocidade, da notificação, do scroll e da resposta imediata, ensinar a ler pode passar cada vez mais por ensinar a abrandar.

Há textos para percorrer rapidamente. Mas há outros que exigem atenção demorada, releitura, dúvida, confronto de fontes e silêncio cognitivo.

A escola terá de continuar a criar espaço para isso.

A matemática também recua

A Matemática apresenta um problema semelhante.

Portugal obteve 460 pontos, face aos 463 pontos da média da OCDE. A diferença não é estatisticamente significativa.

Mas, relativamente a 2022, verifica-se uma descida significativa de 12 pontos. Entre 2018 e 2025, a queda acumulada portuguesa é de 33 pontos.

Mais preocupante ainda: 35,2% dos alunos portugueses encontram-se abaixo do nível 2 de proficiência em Matemática. Apenas cerca de 6% atingem os níveis 5 e 6.

É provavelmente aqui que devemos evitar uma leitura demasiado disciplinar dos resultados.

O PISA não está apenas a testar se um aluno sabe executar um procedimento matemático. Procura perceber se consegue interpretar uma situação, raciocinar, selecionar informação relevante e utilizar a matemática para resolver problemas do mundo real.

São competências que atravessam praticamente todo o currículo.

Ciências: estabilidade relativa, mas não estagnação confortável

As Ciências foram o domínio principal do PISA 2025.

Portugal alcançou exatamente a média da OCDE: 482 pontos.

É o domínio em que o desempenho português apresenta maior estabilidade. Ainda assim, o país perdeu três pontos relativamente a 2022 e dez pontos entre 2018 e 2025.

Há, contudo, uma mudança conceptual importante que interessa diretamente às escolas.

O PISA deixa de entender a literacia científica apenas como domínio de conhecimentos. Valoriza a capacidade de pesquisar informação, avaliar evidências, distinguir ciência de opinião, identificar fragilidades num argumento e utilizar conhecimento científico para tomar decisões.

O mesmo acontece com as Ciências do Ambiente.

A sustentabilidade, as alterações climáticas, a biodiversidade ou a utilização dos recursos naturais não aparecem apenas como conteúdos a memorizar. O quadro conceptual procura perceber se os alunos conseguem compreender problemas, analisar evidências e participar na construção de soluções.

Há aqui uma aproximação evidente entre conhecimento disciplinar, pensamento crítico e cidadania.

E isso deveria ter consequências na forma como ensinamos.

E depois aparece uma surpresa: o digital

Talvez um dos resultados mais interessantes para a escola portuguesa esteja num domínio que até agora não existia no PISA: Aprendizagem no Mundo Digital.

O objetivo não era medir quantos programas os alunos utilizam nem a sua destreza operacional com computadores.

A avaliação procurou perceber se os jovens conseguem construir conhecimento, aprender autonomamente, adaptar estratégias e resolver problemas utilizando ferramentas computacionais.

Portugal obteve 501 pontos, face aos 500 da OCDE.

Na programação, Portugal e OCDE registaram 499 pontos. Na modelação, Portugal obteve 499 pontos e a OCDE 497.

Mas existe um dado ainda mais curioso.

Neste domínio, 24,5% dos alunos portugueses são top performers e 20,7% são low performers.

É o único domínio avaliado em que Portugal tem mais alunos nos níveis superiores do que abaixo do nível 2.

Não é um resultado menor.

Sugere que existe entre os jovens portugueses uma capacidade considerável para resolver problemas em ambientes computacionais.

Mas não devemos confundir isto com literacia digital plena.

Saber operar num ambiente digital não significa necessariamente saber avaliar criticamente informação digital.

E é precisamente aqui que os resultados da leitura e os resultados digitais começam a dialogar.

O verdadeiro desafio digital talvez não seja tecnológico

O relatório internacional do PISA 2025 traz dados especialmente relevantes para este debate.

A utilização moderada de dispositivos digitais para aprender surge associada, em média, a melhores resultados. Porém, quando os dispositivos são usados intensamente para lazer durante o período escolar, a relação com o desempenho torna-se negativa.

Mais ainda: 28% dos alunos da OCDE afirmam que os colegas se distraem com dispositivos digitais durante a maioria ou a totalidade das aulas de Ciências.

Isto obriga a ultrapassar dois discursos demasiado simples.

Um diz que a tecnologia melhora automaticamente a aprendizagem.

O outro diz que basta retirar a tecnologia das escolas.

Nenhum parece particularmente útil.

A questão decisiva continua a ser o que fazemos com a tecnologia.

E a inteligência artificial?

O PISA 2025 é também o primeiro grande ciclo internacional de avaliação realizado num contexto em que a inteligência artificial generativa já faz parte da vida escolar de muitos alunos.

Os resultados internacionais recomendam prudência.

A relação entre utilização de IA e desempenho não é linear. Em várias tarefas escolares específicas, os alunos que afirmam não recorrer a chatbots de IA apresentam, em média, melhores resultados do que aqueles que os utilizam.

Porém, a própria OCDE sublinha que os padrões mudam quando a utilização da IA é acompanhada por oportunidades de desenvolver literacia em IA — incluindo avaliar criticamente a informação produzida pelos sistemas.

A mensagem não deveria ser “usar IA” ou “não usar IA”.

Deveria ser:

usar a IA sem deixar que ela substitua o trabalho cognitivo do aluno.

O prefácio do relatório da OCDE formula esta ideia de forma particularmente feliz: a tecnologia deve funcionar como andaime e não como muleta.

É talvez uma boa regra pedagógica para os próximos anos.

Um aluno pode pedir a uma IA que proponha uma interpretação alternativa de um texto. Pode comparar respostas, identificar erros, verificar fontes, reformular argumentos ou solicitar feedback.

O problema começa quando aquilo que deveria provocar pensamento passa a evitá-lo.

A desigualdade continua sentada dentro da sala de aula

Há ainda outro resultado que não pode ser secundarizado.

O estatuto socioeconómico e cultural continua fortemente associado ao desempenho escolar.

Em Portugal, a diferença entre os alunos mais e menos favorecidos é de:

  • 92 pontos em Ciências;
  • 80 pontos em Leitura;
  • 99 pontos em Matemática;
  • 59 pontos na resolução computacional de problemas.

A Matemática é o domínio onde esta relação é mais forte: cerca de 17% da variação do desempenho em Portugal é explicada pelo estatuto socioeconómico e cultural dos alunos.

Há, contudo, um dado interessante no domínio digital.

A diferença entre os alunos mais favorecidos e menos favorecidos cai para cerca de 59 pontos, bastante abaixo dos restantes domínios. Além disso, 16% dos alunos portugueses em situação socioeconómica desfavorecida são considerados academicamente resilientes neste domínio, ligeiramente acima da média da OCDE, de 15%.

A tecnologia não elimina, evidentemente, as desigualdades.

Mas este dado merece ser estudado.

O que pode a escola retirar destes resultados?

Talvez a pior utilização possível do PISA fosse transformar mais uma vez os resultados numa discussão sobre rankings.

Há perguntas bem mais interessantes.

Que oportunidades damos aos alunos para ler textos longos sem interrupções?

Quantas vezes lhes pedimos que comparem fontes?

Ensinamos explicitamente a verificar a credibilidade de uma informação?

Criamos tarefas em que seja necessário persistir perante um problema cuja solução não aparece imediatamente?

Quando utilizamos tecnologia, ela aumenta a atividade intelectual do aluno ou apenas torna mais rápida a obtenção de uma resposta?

Quando recorremos à inteligência artificial, pedimos ao aluno que pense com a ferramenta ou permitimos que a ferramenta pense por ele?

Estas perguntas atravessam Português, Matemática, Ciências, História, Geografia, línguas estrangeiras e praticamente todas as restantes disciplinas.

Por isso, talvez uma das mensagens mais fortes do PISA 2025 seja esta:

a literacia deixou definitivamente de caber dentro de uma disciplina.

Ensinar a pensar continua a ser a tecnologia mais importante

O PISA 2025 chega num momento curioso.

Nunca os alunos tiveram acesso tão rápido a tanta informação. Nunca tiveram ferramentas tão poderosas para escrever, calcular, programar, traduzir, pesquisar e gerar conteúdos.

E, no entanto, alguns dos indicadores que mais preocupam estão relacionados com capacidades muito antigas: ler cuidadosamente, compreender, relacionar ideias, persistir perante uma dificuldade e distinguir informação sólida de uma resposta apenas plausível.

Há aqui uma aparente contradição.

Talvez não seja uma contradição.

Quanto mais poderosas forem as tecnologias que colocamos nas mãos dos alunos, mais importantes se tornam as competências que lhes permitem decidir quando confiar, quando desconfiar, quando perguntar, quando verificar e quando continuar a pensar por si próprios.

O PISA 2025 não nos pede uma escola menos digital.

Pede-nos provavelmente uma escola mais exigente cognitivamente dentro do digital.

E essa diferença é enorme.

Fontes

Este artigo foi elaborado a partir do Relatório Nacional PISA 2025, publicado pelo EduQA — Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação, dos respetivos materiais de síntese e infografia, e do relatório internacional PISA 2025 Results (Volume I): Future-Ready Students, publicado pela OCDE.

Dois modelos, um só país: o que a OCDE diz sobre a certificação em Portugal

Um relatório da OCDE de 195 páginas mapeou 71 certificados de secundário em 38 países — e os dois certificados portugueses caem em modelos diferentes. O que isso revela sobre exames, avaliação interna e o uso da inteligência artificial em trabalhos e na PAP.

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A OCDE acaba de publicar o mapa mais detalhado até hoje sobre como os países certificam o fim do secundário — e Portugal está lá, com os seus dois certificados a caírem em modelos diferentes, exatamente como qualquer professor de um curso científico-humanístico ou de um curso profissional intuiria.

Todos os verões, Portugal discute os exames nacionais — os que houve, as classificações, o peso que tiveram no acesso ao ensino superior. É uma discussão quase sempre feita de dentro, comparando este ano com o anterior, uma reforma com a que a precedeu. Um novo relatório da OCDE muda o ângulo: em vez de olhar para Portugal isolado, coloca-o ao lado de 37 outros países e 70 outros certificados, com uma pergunta simples — quem avalia o quê, como, e em que condições.

Este artigo parte da leitura direta de «The Theory and Practice of Upper Secondary Certification» (OCDE, 2026), relatório de 195 páginas produzido pelo projeto Transitions in Upper Secondary Education da OCDE, com base num exercício de mapeamento de 71 certificados de conclusão do secundário em 38 países — incluindo os dois certificados portugueses — realizado em 2024 e 2025. Portugal esteve representado no grupo de trabalho informal que acompanhou o relatório por Anabela Serrão e Gonçalo Santos. Este artigo seleciona os pontos de maior interesse direto para professores, diretores de turma e equipas de direção portuguesas — o lugar dos certificados portugueses no mapa internacional, o valor preditivo da avaliação feita pelos professores e os quatro modelos de utilização da inteligência artificial em avaliação de alto risco já em discussão entre os países da OCDE — e cruza-os com o Decreto-Lei n.º 55/2018, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória e as regras mais recentes sobre os exames nacionais.

Um mapa que não existia até agora

Comparar sistemas de certificação do secundário entre países é, surpreendentemente, um exercício raro. Cada país discute a reforma dos seus próprios exames como se fosse um caso único, mas há décadas que ministérios de educação de países diferentes fazem, isoladamente, perguntas parecidas: quanto deve pesar um exame nacional, quem deve marcar um trabalho de projeto, se uma prova oral é mais justa do que um teste escrito. O relatório da OCDE nasceu precisamente de conversas repetidas entre governos sobre estas mesmas questões, reunidas desde 2023 no Grupo de Trabalho Informal sobre Certificação e Avaliação, e resultou numa matriz que classifica cada componente de cada certificado por quatro eixos — o tipo de tarefa, as condições em que é realizada, o momento em que ocorre e quem é responsável por a definir e corrigir.

A fotografia que essa matriz produz é reveladora. Entre os 71 certificados analisados, 59 incluem exames ou testes, 39 incluem atividades práticas e desempenhos, 38 incluem avaliações definidas pelos próprios professores e 32 incluem projetos ou portefólios. A conclusão mais robusta do relatório não é que um destes formatos seja superior aos outros — é que a esmagadora maioria dos sistemas, 57 em 71, combina vários deles no mesmo certificado, precisamente porque cada formato compensa as fragilidades dos restantes. Um exame é eficiente a avaliar um corpo alargado de conhecimento em condições comparáveis entre escolas, mas dificilmente capta competências práticas; um projeto avalia essas competências com autenticidade, mas é difícil de tornar comparável entre milhares de alunos sem um grande investimento em fiabilidade.

Portugal aparece em dois modelos diferentes

A descoberta mais direta do relatório para um leitor português está numa tabela de classificação que junta os 71 certificados em apenas três modelos. O relatório distingue certificados com exame externo e sem avaliação interna (modelo 1, apenas 10 dos 71 — raro, e quase sempre em educação geral), certificados com avaliação interna e sem qualquer exame externo (modelo 2, 19 dos 71 — predominante em vias profissionalizantes) e certificados que combinam os dois (modelo 3, 42 dos 71 — o modelo mais frequente, sobretudo em educação geral, onde 36 dos 45 certificados analisados incluem exame externo).

Portugal não tem um certificado — tem dois, e a OCDE classifica-os em modelos diferentes. O certificado de conclusão do ensino secundário e diploma associado ao Nível 3 do Quadro Nacional de Qualificações, a via seguida pelos cursos científico-humanísticos, cai no modelo 3: combina avaliação interna contínua com exames nacionais externos. É exatamente o que qualquer diretor de turma do secundário geral reconhece na prática, e que o Decreto-Lei n.º 62/2023 confirma nas suas regras mais recentes — os alunos têm de realizar exames nacionais em três disciplinas, Português obrigatoriamente para todos, mais duas disciplinas da componente de formação específica do seu curso, ou, em alternativa, uma dessas disciplinas e Filosofia (Comissão Europeia/Eurydice, 2026). Já o certificado profissional — a via dos cursos profissionais — cai no modelo 2: assenta inteiramente na avaliação interna, sem qualquer exame nacional externo. Ver os dois certificados portugueses separados desta forma, lado a lado com os de outros 37 países, torna visível algo que a discussão interna portuguesa raramente formula assim: não existe «o» sistema de avaliação português, existem dois, desenhados para funções diferentes, e ambos encaixam com naturalidade nos modelos que a maioria dos países da OCDE também utiliza.

O relatório vai ainda mais longe na granularidade, e encontra em Portugal dois exemplos que cita explicitamente como boas ilustrações internacionais. Na Prova de Aptidão Profissional dos cursos profissionais, os alunos são avaliados no final do programa sobre a totalidade dos conhecimentos, competências e atitudes desenvolvidos ao longo dos três anos — o que a OCDE descreve como uma avaliação «sinóptica» ou de «capstone», com a vantagem de os alunos terem tido todo o percurso formativo para desenvolver as competências que essa prova final mede. E na formação em contexto de trabalho da mesma via profissional, o relatório usa Portugal como exemplo de avaliação sem restrições pré-definidas: não há tarefas específicas impostas antecipadamente, e os alunos são avaliados pela forma como respondem às tarefas que naturalmente surgem no local de trabalho, com acesso às mesmas ferramentas e tecnologias que teriam em qualquer contexto profissional real. Há ainda um pormenor mais discreto, mas relevante para quem explica notas a encarregados de educação: o relatório identifica Portugal, ao lado de poucos outros sistemas, como um caso em que os resultados dos exames finais são registados disciplina a disciplina, e não combinados numa média geral — ao contrário, por exemplo, do modelo francês, em que o baccalauréat exige uma média de 10 em 20 no conjunto das provas.

Quem avalia importa: o valor preditivo da nota do professor

Um dos achados mais úteis do relatório para qualquer conversa sobre o peso da avaliação interna diz respeito a quem, afinal, prevê melhor o sucesso futuro de um aluno. Em sistemas onde coexistem avaliação interna e um exame de acesso ao ensino superior separado — como a Suécia e os Estados Unidos —, é possível comparar diretamente o poder preditivo de cada um. Um inquérito nacional sueco sobre a avaliação escolar analisou, para o ano letivo de 2018/19, a correlação entre as notas atribuídas pelos professores, os testes nacionais estandardizados e o exame sueco de acesso ao ensino superior (SweSat) com o sucesso dos alunos no primeiro ano de ensino superior. A nota do professor foi a que mais se correlacionou com esse sucesso, com um coeficiente de 0,28; o SweSat foi o que menos se correlacionou, com 0,19. Um estudo anterior, com mais de 164 mil alunos suecos entre 1993 e 2001, tinha chegado à mesma conclusão, e nos Estados Unidos um estudo com quase 150 mil alunos de quatro estados encontrou o mesmo padrão: as notas atribuídas pelos professores previam melhor do que os resultados do SAT tanto a conclusão atempada do curso como a média final dos alunos no ensino superior.

A explicação que o relatório avança não é que os professores sejam melhores a medir conhecimento do que um teste padronizado — é que não medem apenas conhecimento. Estudos sobre a prática de avaliação de professores mostram que estes, ao atribuir uma nota, incorporam frequentemente juízos sobre assiduidade, comportamento, motivação e esforço, para tornarem a avaliação mais justa e mais útil à aprendizagem do próprio aluno. Isso torna a nota do professor menos fiável enquanto medida isolada de conhecimento — mas mais preditiva do sucesso futuro, porque capta competências como autocontrolo, autoeficácia e perseverança que também determinam esse sucesso. É um argumento que qualquer professor português reconhece intuitivamente, e que tem uma ligação direta com o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória: áreas de competência como o desenvolvimento pessoal e autonomia ou o relacionamento interpessoal não têm equivalente direto num exame nacional, mas são precisamente o tipo de competência que a avaliação interna, feita ao longo do ano, está em posição privilegiada para captar.

Isto não significa que os exames sejam dispensáveis — o próprio relatório sublinha que os dois formatos cumprem funções diferentes e complementares, o que explica porque 42 dos 71 certificados analisados, incluindo o certificado geral português, combinam avaliação interna com exame externo. A avaliação interna ganha em validade e em relevância para competências mais amplas; o exame externo ganha em comparabilidade e em credibilidade perante quem seleciona candidatos para o ensino superior ou para o mercado de trabalho, especialmente quando a procura excede a oferta. É por isso que, nos Estados Unidos, o movimento de universidades «test-optional» — que deixam de exigir testes estandardizados na candidatura — cresceu de cerca de 12% das instituições antes de 2020 para mais de 85% em 2024, precisamente à medida que a evidência sobre o valor preditivo das notas escolares se consolidava.

Nenhum país permite IA num exame — mas quase todos discutem os outros formatos

A parte do relatório com maior interesse imediato para quem lida com trabalhos, portefólios e provas de aptidão profissional em Portugal é a que trata da inteligência artificial em avaliação de alto risco. À data do mapeamento, realizado em 2024 e 2025, nenhum dos países analisados permite o uso de ferramentas de inteligência artificial generativa sob condições de exame — nem um. O que já existe, em contrapartida, é regulação sobre o uso de IA em projetos e trabalhos de curso, onde a Nova Zelândia, a agência reguladora inglesa Ofqual e a Scottish Qualifications Authority têm posições publicadas, e onde a Joint Council for Qualifications inglesa já divulgou orientações sobre o que constitui uso indevido de IA em avaliação.

Nas conversas do grupo de trabalho, participantes da Áustria, da Dinamarca, da Noruega e da Escócia manifestaram interesse em encontrar formas reguladas de permitir o uso de IA em avaliação de alto risco fora do contexto estrito de exame, e o relatório identifica quatro modelos já em discussão entre países. No primeiro — «humano em circuito» —, os alunos podem usar IA livremente, mas têm de demonstrar que reviram e compreenderam o resultado, por exemplo através de um componente escrito reflexivo ou de uma prova oral. No segundo — «usos específicos» —, a IA só é permitida em certas fases da tarefa ou para certos fins, como gerar ideias mas não escrever o texto final. No terceiro — «qualquer uso com citação» —, os alunos têm de declarar sempre que recorreram a IA, mas não a podem citar como fonte única do trabalho. No quarto — «qualquer uso sob supervisão» —, os alunos têm acesso à totalidade das ferramentas disponíveis na internet, desde que o processo seja supervisionado, em tempo real através de navegadores vigiados ou, de forma assíncrona, através da recolha dos registos de diálogo com o sistema de IA.

O relatório organiza o debate público e político sobre este tema à volta de quatro tensões — equidade, relevância, exequibilidade e credibilidade — e é honesto quanto ao facto de os argumentos, para já, serem sobretudo conceptuais e ideológicos, não empíricos. Do lado das vantagens possíveis, a IA pode ajudar alunos com competências mais frágeis ou que não falam a língua de ensino como língua materna a concentrarem-se no que está a ser avaliado, apresentar informação de forma mais acessível a alunos com necessidades específicas, aproximar a avaliação das ferramentas que os alunos vão de facto usar na vida profissional e reduzir tarefas mecânicas como formatação e citações, libertando tempo para um ciclo de correção e feedback mais rápido. Do lado dos riscos, há a desigualdade de acesso às ferramentas entre alunos e entre escolas, o risco de a IA substituir em vez de reforçar o desenvolvimento de competências de tratamento de informação, questões de licenciamento e de proteção legal do aluno em caso de contestação, e — talvez o argumento mais delicado — a dificuldade em diferenciar o mérito real de cada aluno, e em comparar um certificado atual com os de anos anteriores, se todos passarem a produzir trabalhos de qualidade semelhante com apoio de IA.

O próprio relatório assinala porque é que esta discussão é particularmente difícil precisamente nos formatos que Portugal mais usa nas suas duas vias de certificação: é mais fácil regular o uso de IA em exames escritos ou digitais sem acesso à internet do que em trabalhos de projeto, portefólios ou provas de aptidão profissional, que decorrem em condições abertas e sob supervisão de professores e escolas individuais — a combinação exata que, segundo o relatório, gera mais receio e mais ansiedade sobre até que ponto os alunos estão a usar IA, e sobre se há inconsistências entre alunos e entre escolas na forma como esse uso é tratado.

Exames, resultados e ansiedade: o que os números da PISA mostram

Uma parte mais discreta do relatório, mas com peso direto na discussão pública sobre exames nacionais, é a análise original que a OCDE fez cruzando a proporção de alunos que fazem exames externos com os resultados do PISA 2022. Em sistemas onde uma fatia maior de alunos realiza exames externos, os resultados médios em matemática, leitura e ciências são de facto mais elevados — 43,6 pontos a mais em matemática, 30,8 em leitura e 37,4 em ciências, quando se compara quem faz exames com quem não faz. Mas essa relação deixa de ser estatisticamente significativa assim que se controla o contexto socioeconómico dos alunos e das escolas: a diferença cai para 13,6 pontos em matemática, 1,5 em leitura e 8,2 em ciências, valores que, face às respetivas margens de erro, já não permitem concluir que os exames, por si só, expliquem melhores resultados. A mesma cautela metodológica é válida para a ansiedade: os países com maior proporção de alunos a fazer exames externos tendem a registar níveis mais baixos de ansiedade face à matemática, mas essa associação também não se mantém estatisticamente significativa depois de controlado o contexto socioeconómico e o desempenho dos próprios alunos. Portugal surge, aliás, no gráfico do relatório com um índice de ansiedade matemática comparativamente baixo face a outros países com proporções semelhantes de alunos a realizar exames externos.

O relatório é cauteloso quanto às implicações destes números, e essa cautela merece ser levada para qualquer conversa de sala de professores sobre o tema: não há, nestes dados, prova de que os exames melhorem o desempenho dos alunos, mas também não há prova de que aumentem a sua ansiedade face à matemática. A explicação mais plausível é que, mesmo em sistemas sem exame nacional externo, os alunos continuam expostos a avaliação de alto risco — apenas conduzida na escola, de forma repetida ao longo do ano e em formatos mais variados —, e que o stress associado a essa avaliação depende sobretudo do peso real que os seus resultados têm no acesso ao percurso seguinte, e não do formato específico em que é medida.

O que isto diz à escola portuguesa

Nenhuma linha deste relatório foi escrita a pensar no currículo português — a OCDE dirige-se a decisores de política educativa de 38 países, não a um conselho pedagógico —, mas o enquadramento para o aplicar já existe, e cobre de forma quase completa aquilo que este texto tem vindo a descrever. O modelo misto do certificado geral português, combinando avaliação interna e exames nacionais em três disciplinas nos termos do Decreto-Lei n.º 62/2023, corresponde exatamente ao modelo que a maioria dos países da OCDE em educação geral utiliza, e que o relatório associa a um equilíbrio entre validade e credibilidade. O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória oferece o enquadramento para reconhecer, com mais confiança, o valor da avaliação interna em áreas de competência que um exame nacional não mede diretamente — o desenvolvimento pessoal e autonomia, o relacionamento interpessoal, o pensamento crítico aplicado a um projeto concreto (Direção-Geral da Educação, 2017). E a margem de autonomia curricular de 25% que o Decreto-Lei n.º 55/2018 já concede às escolas oferece o espaço formal onde uma escola ou agrupamento pode desenhar, sem esperar por orientação nacional, critérios próprios para o uso de inteligência artificial em trabalhos de projeto, portefólios e provas de aptidão profissional — exatamente os formatos que este relatório identifica como os mais difíceis de regular a nível central, e para os quais Portugal, ao contrário do Reino Unido ou da Escócia, ainda não tem uma orientação nacional equivalente à da Joint Council for Qualifications inglesa.

Uma proposta para a sala de aula

Uma forma simples de levar os quatro modelos de uso de IA descritos no relatório a uma turma do secundário, seja de Cidadania e Desenvolvimento, seja de uma disciplina onde os alunos façam regularmente trabalhos de grupo ou projetos, não exige qualquer material que a escola não tenha já. Pode apresentar-se aos alunos os quatro modelos — humano em circuito, usos específicos, qualquer uso com citação, qualquer uso sob supervisão — sem os identificar como boa ou má prática, e pedir-lhes que escolham, em pequenos grupos, qual aplicariam ao próximo trabalho de projeto da turma, justificando a escolha à luz de quatro perguntas simples: torna o trabalho mais justo para todos os colegas, independentemente do acesso que cada um tem a ferramentas de IA em casa? Ajuda a desenvolver uma competência que vale a pena ter mesmo sem IA? É exequível verificar, sem sobrecarregar o professor? E continua a permitir distinguir o trabalho de um aluno do de outro? O objetivo não é chegar a uma resposta única, é tornar visível para o próprio aluno que a escolha de um modelo de uso de IA envolve sempre um compromisso entre estes quatro valores, e que nenhum modelo os satisfaz todos ao mesmo tempo.

A segunda parte da proposta dirige-se a quem coordena os cursos profissionais ou a comissão de avaliação de uma escola ou agrupamento. Vale a pena aproveitar a publicação deste relatório para rever, em conselho pedagógico, os critérios internos que já existem — ou que ainda faltam — para o uso de inteligência artificial na Prova de Aptidão Profissional e nos trabalhos de projeto de longa duração, precisamente os formatos que o relatório da OCDE identifica como os mais expostos a este risco e os menos cobertos por orientação nacional. Não se trata de copiar a solução de outro país, que o próprio relatório recusa recomendar como modelo único — trata-se de decidir, com clareza e por escrito, qual dos quatro modelos descritos faz mais sentido para a realidade concreta de cada curso, antes que a ausência de critério se torne, ela própria, o problema.


Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta de «The Theory and Practice of Upper Secondary Certification» (OCDE, 2026).

Referências

Comissão Europeia/Eurydice. (2026, 24 de abril). Assessment in general upper secondary education: Portugal. Eurypedia. Recuperado a 27 de agosto de 2026, de https://eurydice.eacea.ec.europa.eu/eurypedia/portugal/assessment-general-upper-secondary-education

Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Noticias_Imagens/perfil_do_aluno.pdf

OECD. (2026). The theory and practice of upper secondary certification. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/b3fea5ba-en

Portugal. (2018). Decreto-Lei n.º 55/2018, de 6 de julho. Diário da República, 1.ª série, n.º 129.

Portugal. (2023). Decreto-Lei n.º 62/2023, de 25 de julho. Diário da República, 1.ª série. https://files.diariodarepublica.pt/1s/2023/07/14300/0000600009.pdf

Para saber mais

«The Theory and Practice of Upper Secondary Certification», na OCDE, o relatório integral de 195 páginas em que este artigo se baseia.

Assessment in general upper secondary education, no Eurydice da Comissão Europeia, com a descrição oficial e atualizada das regras de avaliação e exames em Portugal.

Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, na Direção-Geral da Educação, para enquadrar as áreas de competência referidas neste artigo.

Decreto-Lei n.º 62/2023, de 25 de julho, no Diário da República, com as regras atuais sobre os exames nacionais do secundário.

Bibliotecas públicas na Europa: o novo relatório da Comissão Europeia

Um relatório de 2026 da Comissão Europeia traça o retrato mais completo até hoje das bibliotecas públicas europeias — e várias das suas conclusões, da leitura à desinformação, tocam diretamente o trabalho da escola.

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Em fevereiro de 2026, um grupo de trabalho ligado à Comissão Europeia terminou um relatório que poucos vão ler na íntegra, mas cujas conclusões deviam interessar a qualquer professor português. Chama-se Strengthening Europe through public libraries — «Fortalecer a Europa através das bibliotecas públicas», numa tradução livre —, tem 164 páginas e resulta de dois anos de trabalho de 36 peritos de 25 Estados-Membros, com contributos adicionais de oito países não pertencentes à União. O documento não fala de escolas em primeiro lugar; fala de bibliotecas públicas municipais, das grandes e das pequenas, das urbanas e das rurais. Mas basta avançar algumas páginas para perceber que a leitura em queda entre adolescentes, o combate à desinformação e a chegada da inteligência artificial às salas de leitura são, no fundo, os mesmos problemas com que a escola lida todos os dias — vistos de um edifício ao fundo da rua.

Um retrato inédito das bibliotecas públicas europeias

O relatório nasce de um mandato aprovado pelo Conselho da União Europeia em 2023, que pediu a um grupo do chamado Método Aberto de Coordenação para documentar o papel cultural, social e democrático das bibliotecas públicas. O resultado é o primeiro levantamento comparável à escala europeia: cerca de 67 mil bibliotecas públicas, 757 milhões de visitas e 75 milhões de utilizadores registados por ano, servidas por perto de 170 mil profissionais — um número que se manteve estável na última década, apesar de as bibliotecas terem passado a servir mais oito milhões de utilizadores. Os autores identificaram dez desafios societais em que as bibliotecas desempenham um papel ativo, da literacia à resiliência democrática, da inclusão social à resposta a catástrofes. Para quem trabalha em educação, dois desses desafios merecem particular atenção: a literacia e a democracia informacional.

A leitura em queda e o regresso da biblioteca como resposta

O relatório arranca este capítulo com um dado que qualquer professor de português reconhece de imediato: 26,2% dos jovens de 15 anos na União Europeia foram classificados como maus leitores no estudo PISA 2022 da OCDE, uma tendência acompanhada por quebras semelhantes a matemática e ciências desde 2018. A consequência, apontam os autores, não se limita à sala de aula: uma literacia limitada compromete a capacidade de participação plena na sociedade e na vida democrática, precisamente numa altura em que o Pacto para as Competências da União Europeia definiu metas ambiciosas de qualificação da população ativa.

É neste ponto que o relatório situa as bibliotecas públicas como parceiras da escola, não como substitutas. O documento é explícito ao descrever as bibliotecas como um complemento ao trabalho essencial das escolas, ajudando a sustentar e reforçar competências de leitura para além do horário letivo. Dois exemplos escolhidos pelos autores ilustram bem essa lógica de complementaridade. A Estratégia Nacional de Literacia 2030 da Finlândia junta educação pré-escolar, escolas, bibliotecas e serviços sociais num único plano municipal de leitura, com indicadores próprios e financiamento garantido até 2025; o programa inclui a distribuição de um «saco de leitura» a cada recém-nascido através dos centros de saúde infantil, com um livro e um convite explícito à biblioteca local. Na Polónia, a campanha «Livro pequeno — grande pessoa» chega, todos os meses, a cerca de 30 mil recém-nascidos em mais de 90% dos hospitais do país, e prolonga-se depois pelas quase sete mil bibliotecas polacas com um sistema de autocolantes e diplomas que transforma a leitura infantil num pequeno ritual de progressão.

Para uma escola portuguesa, o interesse prático destes exemplos não está em copiá-los ponto por ponto, mas no princípio que os une: a leitura por prazer floresce quando a escola, a biblioteca e a família falam a mesma língua sobre o mesmo objetivo, em vez de tratarem a leitura como tarefa exclusivamente escolar.

Bibliotecas contra a desinformação, também em Portugal

O capítulo dedicado à resiliência democrática é, provavelmente, o que mais interessa a um blogue centrado em literacia mediática. O relatório liga diretamente o enfraquecimento da confiança nas instituições, a queda na educação para a cidadania e a propagação de desinformação — sobretudo através das redes sociais — a um enfraquecimento mais amplo da vida democrática europeia. E nota, com alguma franqueza, que o recente Escudo Europeu para a Democracia, apresentado pela Comissão, sublinha a importância da literacia mediática e digital sem, no entanto, reconhecer explicitamente o papel das bibliotecas nesse esforço — uma lacuna que o próprio relatório procura corrigir.

Um dos exemplos mais relevantes para o público deste blogue tem, de facto, origem portuguesa. O projeto CLAD — Citizens and Libraries Against Disinformation —, financiado pelo programa CERV da União Europeia e implementado entre 2024 e 2026, junta o Goethe-Institut, a Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e parceiros eslovacos para desenvolver formação e eventos comunitários que ajudam profissionais e cidadãos a identificar desinformação. O projeto parte de um diagnóstico simples: numa época de sobrecarga informativa, distinguir factos de falsidades tornou-se decisivo para decisões pessoais, profissionais e cívicas — e as bibliotecas, pela sua neutralidade e proximidade, estão bem posicionadas para esse papel.

Mais próximo ainda do trabalho de sala de aula está o projeto SMILES — Innovative methods for media & information literacy education involving school and libraries —, financiado pelo Erasmus+ e desenvolvido na Bélgica, em Espanha e nos Países Baixos. O projeto juntou bibliotecas, escolas e organizações de literacia mediática para conceber e testar uma série de oficinas destinadas a alunos entre os 12 e os 15 anos, com um objetivo muito concreto: equipá-los com ferramentas práticas para identificar e contrariar notícias falsas. É um modelo replicável em qualquer disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: uma sessão dividida em duas partes, em que os alunos analisam primeiro um conjunto de notícias reais e fabricadas para identificar os sinais de alerta — fonte, data, autoria, linguagem emocional, ausência de contraditório — e depois tentam eles próprios construir uma notícia falsa credível, exercício que costuma ensinar mais sobre os mecanismos da desinformação do que qualquer lista de critérios memorizada.

A divisão digital, a inteligência artificial e a nova literacia digital

O relatório dedica também um capítulo à divisão digital, com um número que ajuda a explicar por que razão a literacia digital continua a ser prioritária nas escolas: em 2023, apenas 56% da população da União Europeia possuía competências digitais consideradas «básicas», segundo dados do Eurostat citados no documento. As bibliotecas surgem aqui como espaços de formação digital para públicos que a escola já não alcança diretamente — adultos, seniores, famílias inteiras — mas os métodos descritos têm paralelo direto com o que já acontece em contexto escolar.

Na Dinamarca, a iniciativa «O cidadão na transformação digital» juntou as bibliotecas centrais do país, entre 2023 e 2025, para construir uma visão partilhada sobre inteligência artificial, assente em quatro pilares: a literacia digital dos cidadãos, a compreensão tecnológica dos próprios bibliotecários, a infraestrutura digital das bibliotecas e um debate nacional sobre IA. Um dos programas resultantes, «Crianças, tecnologia e brincadeira», desenvolvido com universidades e escolas de design, equipa bibliotecários infantis com ferramentas para apresentar conceitos de inteligência artificial a crianças através do jogo e da narrativa — uma abordagem que qualquer professor do 1.º ciclo reconhecerá como próxima da sua própria prática. Em Berlim, o projeto Digital Zebra forma «navegadores digitais» que acompanham utilizadores de todas as idades nos seus primeiros passos com serviços digitais, insistindo — e este ponto é relevante para qualquer discussão sobre IA na escola — que a tecnologia funciona melhor quando apoiada por acompanhamento humano próximo, e não apenas pelo acesso ao equipamento.

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O que o relatório pede aos governos — e à escola

A parte final do documento propõe seis recomendações estratégicas aos decisores políticos: um quadro legal robusto, financiamento sustentável e partilhado entre níveis de governo, decisões baseadas em dados, uma força de trabalho qualificada, espaços públicos inclusivos e maturidade digital. Nenhuma delas se dirige diretamente às escolas, mas uma merece destaque para quem trabalha em educação: o relatório recomenda explicitamente que a formação contínua dos profissionais de bibliotecas inclua competências digitais, inteligência artificial e literacia mediática, apoiada por uma plataforma europeia de intercâmbio — exatamente o tipo de investimento que, do lado escolar, tantas vezes falta às equipas docentes.

Há também um exemplo português no capítulo dedicado à sustentabilidade que vale a pena assinalar. O Clube de Literacia para a Transição Climática, sediado na Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, reúne uma coleção dedicada ao tema, oficinas com especialistas e um projeto comunitário de recolha de histórias locais sobre práticas sustentáveis, que são depois transformadas em exposição e publicação. É um modelo direto de projeto interdisciplinar entre biblioteca e comunidade — cidadania, ciências, geografia — que qualquer escola próxima de uma biblioteca municipal poderia procurar replicar em parceria.

Uma ideia para a sala de aula

Do conjunto do relatório, a ligação mais imediata para uma aula portuguesa está, provavelmente, no modelo do projeto SMILES. Uma sequência de duas aulas de Cidadania e Desenvolvimento pode seguir a mesma lógica: na primeira, os alunos recebem um conjunto de notícias reais e fabricadas — sem saber quais são quais — e discutem em grupo os critérios que usam para decidir em que confiar; na segunda, é pedido aos próprios alunos que redijam uma notícia falsa plausível sobre um tema à escolha, com título, fonte fictícia e imagem, e que depois expliquem à turma que técnicas de persuasão usaram. Construir a desinformação, mesmo que como exercício controlado, costuma revelar aos alunos, de dentro para fora, os mecanismos que o discurso teórico sobre «notícias falsas» nem sempre consegue tornar visíveis. Uma parceria com a biblioteca municipal da área escolar — como fazem os projetos CLAD e SMILES — pode ainda trazer à sala um profissional habituado a lidar com pedidos de informação fiável, reforçando a ideia de que a literacia mediática não é um exercício isolado do currículo, mas uma competência que se pratica em vários espaços da comunidade.


Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta do relatório “Strengthening Europe through public libraries” (Comissão Europeia, Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, 2026).

Referências

Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, Grupo do Método Aberto de Coordenação sobre o papel das bibliotecas. (2026). Strengthening Europe through public libraries: How sustained investment in public libraries and their multiple roles delivers social, cultural and democratic returns. Serviço das Publicações da União Europeia. https://doi.org/10.2766/1906144

Conselho da União Europeia. (2023). Open Method of Coordination (OMC) Group of Member States’ experts on Building bridges: strengthen the multiple roles of libraries as gateways to and transmitters of cultural works, skills and European values – Approved mandate (Nota 14250/23). https://data.consilium.europa.eu/doc/document/ST-14250-2023-INIT/en/pdf

Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura. (2024). Education and training monitor 2024 – Comparative report. Serviço das Publicações da União Europeia. https://data.europa.eu/doi/10.2766/815875

Eurostat. (2023, 15 de dezembro). 56 % of EU people have basic digital skills. https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/-/ddn-20231215-3

Goethe-Institut. (s.d.). CLAD – Citizens and libraries against disinformation. https://www.goethe.de/prj/cld/en/index.html

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