Bibliotecas públicas na Europa: o novo relatório da Comissão Europeia

Um relatório de 2026 da Comissão Europeia traça o retrato mais completo até hoje das bibliotecas públicas europeias — e várias das suas conclusões, da leitura à desinformação, tocam diretamente o trabalho da escola.

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Em fevereiro de 2026, um grupo de trabalho ligado à Comissão Europeia terminou um relatório que poucos vão ler na íntegra, mas cujas conclusões deviam interessar a qualquer professor português. Chama-se Strengthening Europe through public libraries — «Fortalecer a Europa através das bibliotecas públicas», numa tradução livre —, tem 164 páginas e resulta de dois anos de trabalho de 36 peritos de 25 Estados-Membros, com contributos adicionais de oito países não pertencentes à União. O documento não fala de escolas em primeiro lugar; fala de bibliotecas públicas municipais, das grandes e das pequenas, das urbanas e das rurais. Mas basta avançar algumas páginas para perceber que a leitura em queda entre adolescentes, o combate à desinformação e a chegada da inteligência artificial às salas de leitura são, no fundo, os mesmos problemas com que a escola lida todos os dias — vistos de um edifício ao fundo da rua.

Um retrato inédito das bibliotecas públicas europeias

O relatório nasce de um mandato aprovado pelo Conselho da União Europeia em 2023, que pediu a um grupo do chamado Método Aberto de Coordenação para documentar o papel cultural, social e democrático das bibliotecas públicas. O resultado é o primeiro levantamento comparável à escala europeia: cerca de 67 mil bibliotecas públicas, 757 milhões de visitas e 75 milhões de utilizadores registados por ano, servidas por perto de 170 mil profissionais — um número que se manteve estável na última década, apesar de as bibliotecas terem passado a servir mais oito milhões de utilizadores. Os autores identificaram dez desafios societais em que as bibliotecas desempenham um papel ativo, da literacia à resiliência democrática, da inclusão social à resposta a catástrofes. Para quem trabalha em educação, dois desses desafios merecem particular atenção: a literacia e a democracia informacional.

A leitura em queda e o regresso da biblioteca como resposta

O relatório arranca este capítulo com um dado que qualquer professor de português reconhece de imediato: 26,2% dos jovens de 15 anos na União Europeia foram classificados como maus leitores no estudo PISA 2022 da OCDE, uma tendência acompanhada por quebras semelhantes a matemática e ciências desde 2018. A consequência, apontam os autores, não se limita à sala de aula: uma literacia limitada compromete a capacidade de participação plena na sociedade e na vida democrática, precisamente numa altura em que o Pacto para as Competências da União Europeia definiu metas ambiciosas de qualificação da população ativa.

É neste ponto que o relatório situa as bibliotecas públicas como parceiras da escola, não como substitutas. O documento é explícito ao descrever as bibliotecas como um complemento ao trabalho essencial das escolas, ajudando a sustentar e reforçar competências de leitura para além do horário letivo. Dois exemplos escolhidos pelos autores ilustram bem essa lógica de complementaridade. A Estratégia Nacional de Literacia 2030 da Finlândia junta educação pré-escolar, escolas, bibliotecas e serviços sociais num único plano municipal de leitura, com indicadores próprios e financiamento garantido até 2025; o programa inclui a distribuição de um «saco de leitura» a cada recém-nascido através dos centros de saúde infantil, com um livro e um convite explícito à biblioteca local. Na Polónia, a campanha «Livro pequeno — grande pessoa» chega, todos os meses, a cerca de 30 mil recém-nascidos em mais de 90% dos hospitais do país, e prolonga-se depois pelas quase sete mil bibliotecas polacas com um sistema de autocolantes e diplomas que transforma a leitura infantil num pequeno ritual de progressão.

Para uma escola portuguesa, o interesse prático destes exemplos não está em copiá-los ponto por ponto, mas no princípio que os une: a leitura por prazer floresce quando a escola, a biblioteca e a família falam a mesma língua sobre o mesmo objetivo, em vez de tratarem a leitura como tarefa exclusivamente escolar.

Bibliotecas contra a desinformação, também em Portugal

O capítulo dedicado à resiliência democrática é, provavelmente, o que mais interessa a um blogue centrado em literacia mediática. O relatório liga diretamente o enfraquecimento da confiança nas instituições, a queda na educação para a cidadania e a propagação de desinformação — sobretudo através das redes sociais — a um enfraquecimento mais amplo da vida democrática europeia. E nota, com alguma franqueza, que o recente Escudo Europeu para a Democracia, apresentado pela Comissão, sublinha a importância da literacia mediática e digital sem, no entanto, reconhecer explicitamente o papel das bibliotecas nesse esforço — uma lacuna que o próprio relatório procura corrigir.

Um dos exemplos mais relevantes para o público deste blogue tem, de facto, origem portuguesa. O projeto CLAD — Citizens and Libraries Against Disinformation —, financiado pelo programa CERV da União Europeia e implementado entre 2024 e 2026, junta o Goethe-Institut, a Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e parceiros eslovacos para desenvolver formação e eventos comunitários que ajudam profissionais e cidadãos a identificar desinformação. O projeto parte de um diagnóstico simples: numa época de sobrecarga informativa, distinguir factos de falsidades tornou-se decisivo para decisões pessoais, profissionais e cívicas — e as bibliotecas, pela sua neutralidade e proximidade, estão bem posicionadas para esse papel.

Mais próximo ainda do trabalho de sala de aula está o projeto SMILES — Innovative methods for media & information literacy education involving school and libraries —, financiado pelo Erasmus+ e desenvolvido na Bélgica, em Espanha e nos Países Baixos. O projeto juntou bibliotecas, escolas e organizações de literacia mediática para conceber e testar uma série de oficinas destinadas a alunos entre os 12 e os 15 anos, com um objetivo muito concreto: equipá-los com ferramentas práticas para identificar e contrariar notícias falsas. É um modelo replicável em qualquer disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: uma sessão dividida em duas partes, em que os alunos analisam primeiro um conjunto de notícias reais e fabricadas para identificar os sinais de alerta — fonte, data, autoria, linguagem emocional, ausência de contraditório — e depois tentam eles próprios construir uma notícia falsa credível, exercício que costuma ensinar mais sobre os mecanismos da desinformação do que qualquer lista de critérios memorizada.

A divisão digital, a inteligência artificial e a nova literacia digital

O relatório dedica também um capítulo à divisão digital, com um número que ajuda a explicar por que razão a literacia digital continua a ser prioritária nas escolas: em 2023, apenas 56% da população da União Europeia possuía competências digitais consideradas «básicas», segundo dados do Eurostat citados no documento. As bibliotecas surgem aqui como espaços de formação digital para públicos que a escola já não alcança diretamente — adultos, seniores, famílias inteiras — mas os métodos descritos têm paralelo direto com o que já acontece em contexto escolar.

Na Dinamarca, a iniciativa «O cidadão na transformação digital» juntou as bibliotecas centrais do país, entre 2023 e 2025, para construir uma visão partilhada sobre inteligência artificial, assente em quatro pilares: a literacia digital dos cidadãos, a compreensão tecnológica dos próprios bibliotecários, a infraestrutura digital das bibliotecas e um debate nacional sobre IA. Um dos programas resultantes, «Crianças, tecnologia e brincadeira», desenvolvido com universidades e escolas de design, equipa bibliotecários infantis com ferramentas para apresentar conceitos de inteligência artificial a crianças através do jogo e da narrativa — uma abordagem que qualquer professor do 1.º ciclo reconhecerá como próxima da sua própria prática. Em Berlim, o projeto Digital Zebra forma «navegadores digitais» que acompanham utilizadores de todas as idades nos seus primeiros passos com serviços digitais, insistindo — e este ponto é relevante para qualquer discussão sobre IA na escola — que a tecnologia funciona melhor quando apoiada por acompanhamento humano próximo, e não apenas pelo acesso ao equipamento.

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O que o relatório pede aos governos — e à escola

A parte final do documento propõe seis recomendações estratégicas aos decisores políticos: um quadro legal robusto, financiamento sustentável e partilhado entre níveis de governo, decisões baseadas em dados, uma força de trabalho qualificada, espaços públicos inclusivos e maturidade digital. Nenhuma delas se dirige diretamente às escolas, mas uma merece destaque para quem trabalha em educação: o relatório recomenda explicitamente que a formação contínua dos profissionais de bibliotecas inclua competências digitais, inteligência artificial e literacia mediática, apoiada por uma plataforma europeia de intercâmbio — exatamente o tipo de investimento que, do lado escolar, tantas vezes falta às equipas docentes.

Há também um exemplo português no capítulo dedicado à sustentabilidade que vale a pena assinalar. O Clube de Literacia para a Transição Climática, sediado na Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, reúne uma coleção dedicada ao tema, oficinas com especialistas e um projeto comunitário de recolha de histórias locais sobre práticas sustentáveis, que são depois transformadas em exposição e publicação. É um modelo direto de projeto interdisciplinar entre biblioteca e comunidade — cidadania, ciências, geografia — que qualquer escola próxima de uma biblioteca municipal poderia procurar replicar em parceria.

Uma ideia para a sala de aula

Do conjunto do relatório, a ligação mais imediata para uma aula portuguesa está, provavelmente, no modelo do projeto SMILES. Uma sequência de duas aulas de Cidadania e Desenvolvimento pode seguir a mesma lógica: na primeira, os alunos recebem um conjunto de notícias reais e fabricadas — sem saber quais são quais — e discutem em grupo os critérios que usam para decidir em que confiar; na segunda, é pedido aos próprios alunos que redijam uma notícia falsa plausível sobre um tema à escolha, com título, fonte fictícia e imagem, e que depois expliquem à turma que técnicas de persuasão usaram. Construir a desinformação, mesmo que como exercício controlado, costuma revelar aos alunos, de dentro para fora, os mecanismos que o discurso teórico sobre «notícias falsas» nem sempre consegue tornar visíveis. Uma parceria com a biblioteca municipal da área escolar — como fazem os projetos CLAD e SMILES — pode ainda trazer à sala um profissional habituado a lidar com pedidos de informação fiável, reforçando a ideia de que a literacia mediática não é um exercício isolado do currículo, mas uma competência que se pratica em vários espaços da comunidade.


Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta do relatório “Strengthening Europe through public libraries” (Comissão Europeia, Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, 2026).

Referências

Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, Grupo do Método Aberto de Coordenação sobre o papel das bibliotecas. (2026). Strengthening Europe through public libraries: How sustained investment in public libraries and their multiple roles delivers social, cultural and democratic returns. Serviço das Publicações da União Europeia. https://doi.org/10.2766/1906144

Conselho da União Europeia. (2023). Open Method of Coordination (OMC) Group of Member States’ experts on Building bridges: strengthen the multiple roles of libraries as gateways to and transmitters of cultural works, skills and European values – Approved mandate (Nota 14250/23). https://data.consilium.europa.eu/doc/document/ST-14250-2023-INIT/en/pdf

Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura. (2024). Education and training monitor 2024 – Comparative report. Serviço das Publicações da União Europeia. https://data.europa.eu/doi/10.2766/815875

Eurostat. (2023, 15 de dezembro). 56 % of EU people have basic digital skills. https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/-/ddn-20231215-3

Goethe-Institut. (s.d.). CLAD – Citizens and libraries against disinformation. https://www.goethe.de/prj/cld/en/index.html

Para saber mais

A leitura fragmentada: o alerta dos especialistas

Um encontro internacional dedicado às políticas de leitura na Ibero-América deixou reflexões que interessam diretamente a quem trabalha todos os dias com livros e alunos: da ameaça da leitura fragmentada nos ecrãs à urgência de bibliotecas mais inclusivas.

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Leitura em debate na Ibero-América

O documento que serve de base a este artigo reúne as conclusões de um encontro internacional promovido pela Cerlalc e pela OEI, dedicado às políticas de livro, leitura, escrita e oralidade em toda a região ibero-americana. Ao longo de vários painéis, especialistas de países como o Brasil, a Espanha, a Argentina e Portugal discutiram o estado da leitura hoje, com dados, experiências de terreno e propostas concretas. Para quem trabalha em contexto escolar, há aqui pistas valiosas sobre para onde caminham as políticas educativas ligadas à leitura.

O paradoxo dos nossos dias

Uma das ideias mais marcantes do encontro foi enunciada por Dolores Prades: apesar de as literaturas produzidas nas margens sociais terem conseguido finalmente questionar o cânone oficial e dar voz a autores indígenas e afrodescendentes, os índices de leitura continuam a cair de forma preocupante. No Brasil, por exemplo, o estudo “Retratos da Leitura” mostrou a perda de cerca de seis milhões de leitores em apenas quatro anos. Este recuo, associado a uma onda global de conservadorismo e desinformação, obriga a repensar como se promove a leitura enquanto ferramenta de resistência cívica.

A leitura ameaçada pelo digital

A intervenção mais densa sobre este tema coube ao historiador Roger Chartier, que alertou para o facto de a própria natureza da leitura estar a mudar com os ecrãs. Segundo Chartier, a leitura digital tende a ser apressada e impaciente, favorecendo a falta de questionamento sobre a veracidade dos conteúdos consumidos. Um dos pontos mais úteis para professores é a sua explicação sobre a perda da “totalidade textual”: no ecrã, os textos surgem fragmentados, sem limites nítidos, o que dificulta perceber onde começa e acaba uma ideia completa. Chartier recorda ainda que, no mundo digital, a garantia da verdade deixou de assentar no exame crítico dos enunciados para passar a depender da confiança cega no meio que os transmite, o que abre caminho à desinformação.

Esta reflexão liga-se diretamente à sala de aula: se os alunos leem cada vez mais em fragmentos descontextualizados, a escola tem um papel decisivo em ensinar a reconstruir essa totalidade e a distinguir factos de manipulação.

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Porque continuamos a precisar dos clássicos

Retomando Italo Calvino, Chartier defendeu que os clássicos permanecem relevantes precisamente porque cada geração de leitores os torna contemporâneos, encontrando neles respostas para os seus próprios medos e sonhos. Essa permanência resulta de séculos de leituras acumuladas, mas também de escolhas e exclusões feitas por instituições como a escola, a crítica literária e a edição — escolhas que hoje estão a ser questionadas e ampliadas.

Bibliotecas como motores de mudança

Vários intervenientes insistiram que a biblioteca deixou de ser apenas um depósito de livros. Jorge Moisés Kroll do Prado citou o bibliotecónomo David Lankes para resumir esta transformação: “as más bibliotecas fazem coleções, as boas bibliotecas prestam serviços e as excelentes criam comunidades“. Glória Pérez-Salmerón reforçou esta ideia, descrevendo a biblioteca como um “espaço do comum”, aberto a toda a cidadania e capaz de gerar confiança e pertença.

Vera Saboya partilhou a experiência das Bibliotecas Parque no Rio de Janeiro, instaladas em zonas de grande vulnerabilidade social, e defendeu que estas comunidades têm o direito de aceder também às obras do chamado “alta cultura”, muitas vezes vistas como distantes das suas realidades. Saboya propôs ainda pensar na figura do “não leitor” na sociedade acelerada de hoje, sugerindo que as políticas públicas ofereçam materiais diversos que conectem com os interesses reais das pessoas, em vez de impor um modelo único de leitura.Memorias-Redplanes-vr3.pdf

Leitura como direito e como resistência

Um dos momentos mais tocantes do encontro foi o testemunho de Waldemar Cubilla, que descobriu a leitura como estratégia de sobrevivência durante uma década de reclusão e, depois de recuperar a liberdade, fundou a Biblioteca Popular La Cárcova, num bairro periférico de Buenos Aires. Para Cubilla, a leitura funciona como um exercício de liberdade e reparação histórica, sobretudo para crianças e jovens em contextos marcados pela pobreza. Já Fabrício Brito, através do coletivo A Pombagem, defendeu uma conceção de leitura que ultrapassa o ato individual e elitista, tornando-se experiência coletiva, oral e situada nas comunidades periféricas.

Equidade racial e de género na agenda da leitura

O encontro dedicou também espaço à forma como o racismo e o sexismo condicionam o acesso à cultura escrita. Francile Carneiro, bibliotecária negra, introduziu o conceito de “epistemicídio” para descrever a exclusão sistemática dos saberes produzidos por comunidades marginalizadas, defendendo bibliotecas antirracistas capazes de validar outros conhecimentos. Margarita Cuéllar, diretora da Cerlalc, apresentou dados que mostram que as mulheres ocupam um papel central no setor editorial, mas continuam afastadas dos cargos de decisão, o que explica a sua maior presença em editoras pequenas e independentes.

O que ficou por resolver

Apesar dos avanços conceptuais — como a passagem de políticas centradas apenas na leitura para incluir também a escrita e a oralidade —, o estudo regional apresentado no encontro revelou lacunas persistentes que interessam diretamente às escolas:

  • Escolarização excessiva das políticas, com pouca atenção a adultos e pessoas idosas, que atuam como mediadores familiares e são vulneráveis à desinformação
  • Formação do pessoal bibliotecário ainda demasiado técnica, com necessidade de uma preparação mais sociopolítica
  • Fraca articulação entre discurso e prática nos temas de inclusão, direitos humanos e equidade
  • Barreiras estruturais no acesso ao ecossistema digital, como infraestrutura insuficiente e baixa literacia digital

Estes pontos deixam um recado claro para quem trabalha na educação: garantir livros nas escolas é apenas o primeiro passo, mas sem formação de mediadores, sem diversidade de acervos e sem atenção crítica ao mundo digital, o hábito de leitura continuará a perder terreno.

Os guardiões do conhecimento: o que será um bibliotecário no século XXI?

Este artigo é uma adaptação livre de um texto publicado originalmente em inglês por Ben Hope, Diretor da Biblioteca da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, EUA), no LinkedIn, a 17 de junho de 2026, sob o título “It’s Time for Librarians to Rethink Librarianship” ¹. A versão aqui apresentada foi traduzida e reescrita para um contexto lusófono, mantendo as ideias centrais do autor.

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Nos últimos anos, a profissão bibliotecária tem-se interrogado sobre como preservar as bibliotecas e os bibliotecários. Mas talvez estejam a ser feitas as perguntas erradas.

Em vez de proteger títulos e estruturas, a questão central deveria ser outra: como ligar melhor as pessoas ao conhecimento de que precisam para resolver problemas, tomar decisões e avançar no saber? Não é necessariamente a mesma coisa.

Já passámos por isto antes

A história da biblioteconomia é uma história de adaptação. O catálogo em fichas deu lugar a sistemas online. Os índices em papel foram substituídos por bases de dados digitais. Os motores de busca transformaram a forma como a informação é descoberta. Cada mudança gerou ansiedade — e cada uma criou novas oportunidades para demonstrar o valor da profissão.

A inteligência artificial não é diferente. É mais uma vaga. E, tal como nas anteriores, as competências que sempre definiram os bibliotecários são precisamente as que mais importam agora: compreender como a informação é organizada, descrita, preservada e tornada pesquisável; valorizar a proveniência, a autoridade e a autenticidade; reconhecer que o acesso à informação não basta — é necessário que as pessoas confiem naquilo que encontram.

Estas não são competências do passado. São competências do futuro.

O trabalho está a mudar — mas a missão não

O bibliotecário do futuro passará menos tempo a gerir coleções físicas e mais tempo a desenhar sistemas de recuperação de informação, a sintetizar evidências, a curar repositórios digitais, a desenvolver ferramentas de descoberta com IA e a criar a infraestrutura de conhecimento que sustenta a investigação e a tomada de decisões.

Nada disto representa uma rutura com a biblioteconomia. Representa, antes, um regresso ao seu propósito mais fundo.

O que verdadeiramente preocupa não é a mudança tecnológica — é a tendência para a profissão se definir pelos mecanismos com que entrega valor, em vez de pelo valor em si. Quando existe um apego excessivo a edifícios, coleções, fluxos de trabalho ou títulos profissionais, perde-se de vista a missão que sempre mais importou.

O que os utilizadores precisam das bibliotecas

Os leitores, os alunos, os investigadores, os cidadãos — não beneficiam das bibliotecas por causa do nome que estas têm. Beneficiam do trabalho que nelas se realiza: organizar o conhecimento, preservar evidências, possibilitar a descoberta, sintetizar informação, apoiar decisões informadas.

Se no futuro estas funções forem desempenhadas com títulos diferentes — arquivistas de IA, curadores de conhecimento digital, gestores de dados de investigação — a missão permanece a mesma.

As bibliotecas resistiram durante séculos precisamente porque se adaptaram. De tábuas de argila a manuscritos iluminados, de coleções impressas a repositórios digitais, os formatos mudaram. O propósito, não.

A próxima transformação já começou

Quem liderar a profissão para o futuro compreenderá que a biblioteconomia não é definida por livros, edifícios ou mesmo pelo nome “biblioteca”. É definida pelo compromisso de garantir que o conhecimento permanece pesquisável, de confiança, acessível e preservado para as gerações futuras.

A ficção científica há muito imaginou um futuro em que os guardiões do conhecimento são essenciais para a sobrevivência da civilização — não como gestores de coleções, mas como preservadores da memória coletiva da humanidade. Esse futuro pode estar mais próximo do que se pensa.

Para quem trabalha em bibliotecas escolares, esta reflexão tem uma urgência particular. São frequentemente os primeiros a ajudar crianças e jovens a navegar num mundo saturado de informação — a distinguir o fiável do enganoso, o relevante do irrelevante. Esse papel nunca foi tão necessário.

Sempre que uma biblioteca — escolar, pública ou especializada — ajuda a sociedade a preservar, organizar e dar sentido ao seu conhecimento, está a continuar o trabalho essencial que os bibliotecários sempre fizeram. Com ou sem esse título.


¹ Hope, B. (2026, 17 de junho). It’s Time for Librarians to Rethink Librarianship [Publicação no LinkedIn]. LinkedIn. https://www.linkedin.com/posts/4benhope/

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Sant Cugat del Vallès — Da Antiguidade Romana aos Dias de Hoje

Visão Geral

Sant Cugat del Vallès é um município catalão situado na comarca do Vallès Occidental, a apenas 18 km a noroeste de Barcelona. Com uma superfície de 48,2 km² e uma população de cerca de 97.959 habitantes (dados de janeiro de 2025), é o terceiro município mais populoso da comarca, a seguir a Terrassa e Sabadell. A cidade conjuga um extraordinário património medieval com uma qualidade de vida reconhecida: em 2017, era o oitavo município mais próspero de Espanha, com uma renda bruta média por habitante de 48.942 euros. Hoje, o seu PIB per capita ultrapassa os 59.780 euros, muito acima da média metropolitana de Barcelona.


1. Das Origens Romanas ao Martírio de Sant Cugat (sécs. I–IV)

A história de Sant Cugat começa com um assentamento militar romano conhecido como Castrum Octavianum, fundado por ordem do imperador Augusto (Octaviano) e situado junto à via imperial que ligava os Pirinéus a Tarraco (Tarragona). Tratava-se de uma fortaleza que dominava e protegia o território do Vallès, cujas terras foram doadas a veteranos da legião do imperador.

O episódio fundador que deu nome à cidade é o martírio de Sant Cugat (em latim, Cucuphas ou Cucufate). Nascido no norte de África, na cidade de Scil·li perto de Cartago, era mercador, generoso com os pobres e predicador do Evangelho. Acompanhado do seu amigo Félix, veio por mar até Barcelona e começou a pregar com tal fervor que muitos barceloneses o seguiram. Preso pelas autoridades romanas durante a perseguição do governador Maximiano (delegado de Diocleciano), foi sujeito a suplícios e, segundo a tradição, foi decapitado no ano 304 d.C. em Castrum Octavianum. A primeira referência escrita ao mártir é do poeta latino Aurélio Prudêncio, nascido em Tàrraco em 348 d.C., que na sua obra Peristephanon escreveu: “Barcelona se erguerá, confiada, en su ínclito Cugat”.

Após o martírio, duas cristãs de Iluro (Mataró) — Juliana e Semproniana — enterraram o seu corpo, morrendo elas próprias mártires. Em torno do túmulo do santo foi construído um pequeno martyrium funerário que se tornaria o embrião do futuro mosteiro.


2. Da Época Visigótica à Invasão Sarracena (sécs. V–VIII)

Durante a época visigótica, o espaço adquiriu crescente relevância religiosa.martyrium original terá sido destruído por um incêndio no início do século VI, mas o local não foi abandonado: já no século VII existia uma pequena basílica visigótica, cujos vestígios ainda são visíveis na parte inferior da cabeça da igreja atual. Esta primeira comunidade religiosa foi destruída em 717, durante a invasão muçulmana da Península Ibérica. O local foi recuperado pelos francos em 801, abrindo caminho para a grande fundação medieval.


3. A Fundação do Mosteiro Beneditino (séc. IX)

O mosteiro como tal foi fundado no século IX, no contexto da política franca de criação de mosteiros beneditinos como instrumentos de organização territorial e de difusão do feudalismo. A primeira referência documental data de 878, através de um precepto do rei Luís, o Gago, concedido ao bispo Frodoí de Barcelona. O primeiro abade verdadeiramente documentado foi Ostofred (878–895).

Em julho de 985, o mosteiro sofreu o devastador ataque de Al-Mansur (Almançor) ao condado de Barcelona: o abade Joan e vários monges morreram, o arquivo foi incendiado e os documentos que provavam as propriedades do mosteiro perderam-se. Apesar desta catástrofe, a comunidade reorganizou-se rapidamente. Sob o abade Odó (986–1010), iniciou-se um período de grande impulso: o mosteiro cresceu em domínios territoriais, poder económico e influência política, tornando-se o mais importante do condado de Barcelona. Durante os séculos X e XI, graças a doações e privilégios de condes e nobres, a abadia controlava extensos feudos e exercia uma jurisdição senhoril sobre o território circundante.


4. A Construção do Conjunto Monástico (sécs. XI–XIV)

A Igreja

A igreja do mosteiro começou a ser construída em estilo românico, mas a obra prolongou-se até ao século XIV, altura em que já decorria em estilo gótico. Esta transição produz um dos seus maiores encantos: um interior claramente românico que culmina numa fachada gótica com um imponente rosáceo. O campanário de planta quadrada, decorado com lesenas e arcos cegos, é de estilo românico do século XI. A nave apresenta três corpos cobertos com abóbadas de cruzaria, e uma cúpula que se transforma exteriormente num formoso cimório octogonal. O rosáceo da fachada gótica, do século XIV, é inspirado no da catedral de Notre-Dame de Paris.

O Claustro Românico — Joia da Europa Medieval

O elemento mais distintivo e celebrado é o claustro românico, considerado uma das joias da escultura medieval europeia e um dos melhores conservados do continente. A sua construção começou por volta de 1190, graças ao legado testamentário de Guillem de Claramunt, que desejava ser enterrado próximo do túmulo do mártir. O conjunto ficou concluído em cerca de 1220.

Sant Cugat Monastery cloister

O mestre de obras foi Arnau Cadell, que também dirigiu a construção do claustro da catedral de Girona. Cadell assinou a obra numa pequena lápide junto a um capitel do ângulo nordeste, onde se vê a representação do próprio mestre esculpindo um capitel. Cada ala do claustro mede cerca de trinta metros, dotando o pátio de uma superfície de cerca de novecentos metros quadrados. Cada galeria é composta por três séries de cinco arcadas, separadas por contrafortes, e as arcadas sustentam-se em pares de colunas em pedra proveniente de Girona.

No total, existem 144 colunas e capiteis — número altamente simbólico, alusivo às medidas dos muros da Jerusalém Celeste descritos no Livro do Apocalipse. Cada capitel é único e narra cenas do Antigo e Novo Testamento (o Dilúvio Universal, o Lavatorio de Pés, a Apresentação de Jesus no Templo, o Ciclo de Abraão), motivos de fauna, flora e da vida monástica quotidiana. Uma fonte-lavatório central evoca o Paraíso descrito no Génesis e simboliza a união do céu com a terra.


5. O Poder Feudal e o Declínio (sécs. XIV–XIX)

No seu apogeu medieval, o mosteiro de Sant Cugat era o mais poderoso do condado de Barcelona, exercendo controlo feudal sobre dezenas de paróquias e localidades. O palácio abacial — atual casa reitoral — chegou a hospedar vários reis da coroa de Aragão. Uma sucessão de capelas barrocas e retábulos renascentistas enriquecem o conjunto, resultado das obras de embelezamento dos séculos XVI e XVII.

A decadência chegou com a desamortização do século XIX: em 1835, como consequência das leis liberais que expropriaram os bens do clero regular, os monges abandonaram o mosteiro. O edifício permaneceu vazio até 1851, quando se iniciou a restauração. Em 3 de junho de 1931 foi declarado Monumento Nacional (Bem de Interesse Cultural), reconhecimento que protegeu definitivamente o seu património.


6. O Crescimento da Vila (sécs. XIX–XX)

Após séculos de vida agrícola centrada sobretudo na vinha, a abertura em 1877 da estrada de Gràcia (que ligava Sant Cugat a Barcelona) tirou a vila do seu isolamento ancestral, favoreceu o comércio e atraiu os primeiros veraneantes barceloneses, fascinados pelo ambiente serrano de Collserola. A praga da filoxera, que dizimou as vinhas em 1887-1888, perturbou o crescimento económico mas paradoxalmente libertou terrenos para construção.

O Modernismo

Modernist house exterior

A aproximação a Barcelona e a chegada de veraneantes burgueses criaram condições para o desenvolvimento do modernismo arquitetónico em Sant Cugat, com cerca de uma década de atraso em relação à capital. A Casa Armet (Avenida de Gràcia), projetada em 1898, é considerada a primeira casa puramente modernista da cidade.

Outros exemplos notáveis incluem a Casa Mónaco, a Casa Mir (ou Casa Manuel Mir Foix, com torre e fachada ornamentada), a Casa Jover e a Bodega Cooperativa, obra do arquiteto Cèsar Martinell. O espaço mais surpreendente é o Generalife, uma casa de influência modernista e arabizante construída em 1914 pelo arquiteto Eduard Maria Balcells — discípulo de Gaudí —, com cúpula de azulejo ao estilo gaudiniano, janelas geminadas e jardins com magnólias.
A chegada dos Ferrocarrils de la Generalitat de Catalunya (FGC) reforçou a ligação a Barcelona e acelerou a transformação de Sant Cugat em núcleo residencial. A cidade foi oficialmente elevada à categoria de cidade em 1978.


7. Sant Cugat Hoje: Cidade Próspera e Multifacetada

Dados Demográficos e Económicos

Sant Cugat conta com cerca de 97.959 habitantes (janeiro de 2025), e é a única cidade catalã com mais de 20.000 habitantes que registou uma ligeira perda populacional entre 2024 e 2025, resultante de uma limpeza administrativa do registo — o município tinha descido de 98.649 para 97.959 residentes. O seu PIB per capita de 59.780 euros é largamente superior à média da área metropolitana de Barcelona (36.190 euros), e a taxa de desemprego registado é de apenas 2,48%.

IndicadorSant CugatMédia AMB Barcelona
PIB per capita (€)59.78036.190
Renda Familiar Disponível Bruta/hab. (€)23.90019.400
Densidade populacional (hab/km²)1.8875.177
Taxa de desemprego registado2,48%

Tecido Empresarial e Inovação

Com mais de 8.774 empresas registadas, Sant Cugat possui um vibrante ecossistema empresarial que integra multinacionais, startups tecnológicas e prestadores de serviços especializados. A Câmara Municipal criou o InvestSantCugat, plataforma dedicada a atrair investimento externo e apoiar empreendedores. A proximidade com Barcelona, a qualidade de vida e as boas infraestruturas de transporte tornam a cidade especialmente apelativa para trabalhadores do setor do conhecimento.


8. Os Principais Monumentos e Pontos de Interesse

Mosteiro de Sant Cugat

Sant Cugat Monastery
O mosteiro é o símbolo indiscutível da cidade e um dos conjuntos monásticos mais importantes da Catalunha. A visita cobre a igreja (aberta das 8h às 13h e das 17h às 21h), o claustro românico e o Museu do Mosteiro, que acolhe coleções de arte sacra, arqueologia e explicações sobre a vida quotidiana dos monges medievais. As visitas guiadas gratuitas ao mosteiro realizam-se aos sábados às 10h. A Universidade Autónoma de Barcelona (UAB) desenvolveu um inovador projeto de digitalização em 3D dos 144 capiteis, criando o primeiro catálogo digital tridimensional das peças, acessível para preservação, ensino e impressão 3D.

Parque Natural de Collserola

Forest trail

Sant Cugat é o município com maior superfície integrada no Parque Natural da Serra de Collserola — o maior parque metropolitano de Espanha, com mais de 8.000 hectares. Quarenta e quatro por cento do território do município está dentro do parque, que pertence também à rede europeia Natura 2000. A fauna inclui javalis, esquilos, ginetas, açores e numerosas aves; a flora é tipicamente mediterrânica.

Forest hills

Dentro dos limites de Sant Cugat, destacam-se:

  • Torre Negra, torre de defesa medieval do século XII, muito bem conservada, que foi palco de disputas entre os seus proprietários e o mosteiro
  • Pi d’en Xandri, pinheiro monumental com mais de 250 anos, 23 metros de altura e um tronco com mais de 3 metros de diâmetro — símbolo da luta cívica da cidade
  • Ermida de Sant Medir, de estilo românico do século XI, envolva por sobreiros, destino de romaria no dia 3 de março
  • Pantà de Can Borrell, pequena barragem construída no início do século XX para abastecer de água a quinta homónima

O parque oferece doze itinerários de vários comprimentos e dificuldades, ideais para caminhantes, ciclistas de montanha e corredores.

Mercantic — O Mercado Vintage de Referência

Vintage furniture market

Instalado na antiga fábrica de cerâmica fundada por Josep Barnils em 1956, o Mercantic abriu as suas portas em 1992. Considerado um ponto de referência europeu para colecionadores e amantes do vintage, ocupa uma área de mais de 15.000 m² dividida entre a Nave Central, o Bairro das Casitas e o Distrito Antigo, com mais de 100 comerciantes residentes e seis restaurantes.

Antique market

Cada domingo, o pátio exterior anima-se com um mercado adicional de 50 expositores de antiguidades, segunda mão e colecionismo. O destaque da oferta cultural é a livraria El Siglo, com mais de 150.000 livros antigos e em segunda mão, que organiza também concertos de música ao vivo com vermute. O primeiro domingo de cada mês celebra-se o Sunday Market / La Descarregada, com livros, discos, roupa vintage e objetos curiosos.

#diasnalivraria

Centre d’Alt Rendiment (CAR)


Fundado em 1987 na expectativa dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, o Centre d’Alt Rendiment de Sant Cugat foi o primeiro centro de alto rendimento desportivo do mundo a integrar um centro educativo, permitindo aos atletas continuar os seus estudos. As suas instalações incluem piscina olímpica interior e exterior, piscina de saltos, pista de atletismo, campo de futebol, pavilhão coberto e pistas de ténis.
O CAR já formou mais de 3.400 medalhistas e o seu orçamento anual ronda os 11,5 milhões de euros, dos quais 9,5 milhões são financiados pelo Consejo Superior de Deportes e pelo Consell Català de l’Esport. Nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, 78 dos 305 atletas da delegação espanhola eram formados ou treinados no CAR. Entre os nomes que passaram pelo centro destacam-se Mireia BelmonteArantxa Sánchez VicarioGervasi DeferrGemma MengualOna CarbonellGarbiñe Muguruza e o atleta mundial Serhiy Bubka.


9. Cultura, Festas e Vida Urbana

Gastronomia e Vida de Bairro

Plaça de Barcelona é o coração do Sant Cugat mais tradicional, com esplanadas tranquilas e um ambiente de vila que contrasta com a azáfama de Barcelona. A Avenida de Gràcia — a principal artéria comercial — concentra as melhores edificações modernistas e novecentistas, além de restaurantes e lojas de qualidade.

Festas Populares

A festa principal da cidade celebra-se a 27 de julho, dia de Sant Cugat, em memória do mártir que lhe deu o nome. A romaria de Sant Medir, no dia 3 de março, é uma celebração secular com missa, sardanas, castells e uma refeição de campo na ermida homónima no interior de Collserola.

Circuito de Catalunya

A menos de 20 km de Sant Cugat encontra-se o Circuit de Catalunya (em Montmeló), um dos grandes circuitos de Fórmula 1 da Europa, facilmente acessível a partir da cidade.


10. Acessibilidade e Ligações

Sant Cugat está integrada na rede metropolitana de Barcelona e é facilmente acessível:

Meio de transporteLigaçãoTempo aproximado
FGC — Linha S1 (Terrassa)Plaça Catalunya, Barcelona~30 min
FGC — Linha S2 (Sabadell)Plaça Catalunya, Barcelona~30 min
Autopista AP-7Barcelona / Girona / França
C-16 (Túneis de Vallvidrera)Barcelona centro~15 min de carro
B-30Eixo norte-sul da comarca

A frequência de comboios da FGC é elevada (a cada 6–12 minutos nas horas de ponta), tornando Sant Cugat uma das cidades-dormitório mais bem servidas da área metropolitana de Barcelona, mas também um destino de turismo de proximidade para excursionistas barceloneses.


Síntese Histórica

PeríodoEvento / Marco
Séc. I a.C.Fundação do Castrum Octavianum romano
304 d.C.Martírio de Sant Cugat (Cucufate)
Séc. VConstrução da primeira basílica paleocristã
717Destruição pela invasão muçulmana
801Recuperação pelos francos
878Primeira referência documental do mosteiro
985Saque de Al-Mansur (Almançor)
c. 1190–1220Construção do claustro românico (Arnau Cadell)
Séc. XIVConclusão da igreja gótica e do rosáceo
1835Desamortização — monges abandonam o mosteiro
1877Abertura da estrada de Gràcia; fim do isolamento
1887–88Filoxera destrói as vinhas
1898Casa Armet — primeira casa modernista
1931Mosteiro declarado Monumento Nacional
1978Sant Cugat elevada à categoria de cidade
1987Fundação do CAR (Centro de Alto Rendimento)
1992Jogos Olímpicos de Barcelona; abertura do Mercantic
20178.º município mais próspero de Espanha
2025~97.959 habitantes; PIB per capita de 59.780 €

Capítulo 10: os Miúdos a Votos festejaram dez anos a ler e a votar, na Gulbenkian

Lisboa, 28 de maio de 2026

Houve uma página em branco há dez anos. Hoje, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, fechou-se o décimo capítulo dessa história — e abriu-se, de imediato, o convite para o próximo. A Festa Final dos “Miúdos a Votos!”, a iniciativa de leitura e cidadania da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), celebrou a sua 10.ª edição com um espetáculo inteiramente feito por alunos e para alunos, sob o mote “10 Capítulos de Uma Grande Aventura”.

Foi uma festa de leitura, mas também — e é por aí que este blogue olha para ela — uma demonstração concreta de como a tecnologia, os média e a web podem estar ao serviço da formação de leitores e de cidadãos críticos desde os primeiros anos de escolaridade.


Uma eleição a sério, à escala de um país

O conceito dos “Miúdos a Votos!” é tão simples quanto poderoso: dar a crianças e jovens, do 1.º ao 12.º ano, a possibilidade de elegerem o seu livro preferido replicando os procedimentos e as normas de uma eleição real. Listas de candidatos, campanha eleitoral, dia de eleição, boletins, apuramento — tudo acontece como numa votação verdadeira, transformando a promoção da leitura num exercício vivo de cidadania democrática.

A iniciativa, organizada anualmente pela RBE desde 2016, é aberta a todas as escolas, públicas ou privadas, e estende-se a estabelecimentos de ensino no estrangeiro que tenham o Português como primeira língua. Este ano, o calendário cumpriu as etapas habituais: seleção dos livros candidatos, campanha eleitoral (de 19 de fevereiro a 20 de março), dia da eleição a 24 de março e, como ponto alto, esta festa final.

O rigor do processo assenta numa rede de parceiros que dá ao projeto credibilidade institucional e profundidade pedagógica — e é aqui que entram três nomes incontornáveis.

Pordata: o rigor por trás dos votos

O apuramento dos resultados é da responsabilidade da Pordata, que assegura a transparência e o rigor da votação. A Pordata é a Base de Dados de Portugal Contemporâneo, organizada e desenvolvida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, e reúne estatísticas oficiais e certificadas sobre o país e a Europa. Que seja precisamente esta entidade a contar os votos não é detalhe menor: ensina aos alunos que, numa democracia, os números importam, devem ser fidedignos e podem (e devem) ser escrutinados. É literacia estatística aplicada, em estado puro. Para os dez anos, a Pordata foi mais longe e reuniu toda a história do projeto em dois painéis interativos — a que voltaremos mais abaixo.

Comissão Nacional de Eleições: a moldura democrática

O enquadramento eleitoral conta com o apoio da Comissão Nacional de Eleições (CNE), o órgão independente que vela pela regularidade dos atos eleitorais em Portugal. A sua presença reforça a dimensão cívica do projeto: votar não é escolher ao acaso, é um direito com regras, com igualdade de oportunidades entre candidatos e com respeito pelo resultado das urnas — incluindo a curiosa “Lei de Limitação de Mandatos” que o projeto adota para impedir que os mesmos títulos vençam indefinidamente.

Rádio Miúdos: a voz dos alunos

Durante a campanha, os alunos não se limitaram a fazer cartazes e debates. Gravaram podcasts — os Tempos de Antena — em que defendem o livro que mais gostam, transmitidos pela Rádio Miúdos, a primeira rádio portuguesa para crianças, online, criada em 2015 e feita com e para os mais novos. É aqui que o projeto cruza, de forma natural, a promoção da leitura com a produção mediática pelos próprios alunos: argumentar, gravar, editar som, respeitar tempos de antena, comunicar com clareza. Tudo competências de literacia dos média que a escola raramente trabalha de forma tão envolvente.

A tudo isto soma-se o acolhimento e o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que recebeu a festa no seu auditório.


O tema: a festa lida como um livro de dez capítulos

Para assinalar a década, a festa foi desenhada como um livro com dez capítulos. No ecrã, um grande livro projetado ia virando as suas páginas, e cada bloco do espetáculo abria-se como um novo capítulo. A metáfora deu ao evento aquilo de que mais precisava: um fio condutor claro, imediatamente compreensível para uma plateia de crianças, capaz de unir num só arco narrativo a retrospetiva dos dez anos, as atuações das escolas e os anúncios dos resultados.

No ecrã, dez capítulos passaram em imagens — cartazes, alunos a votar, momentos das nove edições anteriores — enquanto uma voz off conduzia a plateia ao presente:

“Tudo começa com uma página em branco. Dez anos. Dez capítulos. Escritos por vocês — miúdos que pegaram em livros como se fossem mundos, e em votos como se fossem voz. E hoje, chegamos ao Capítulo 10. Bem-vindos à Festa Final dos Miúdos a Votos.”

A partir daí, a sala acendeu-se e a festa não mais parou.


Dez anos em retrospetiva

Intercaladas ao longo do espetáculo, surgiram as “Cápsulas do Tempo” — pequenos apontamentos em vídeo que recordaram livros vencedores, campanhas marcantes e rostos de alunos e professores que, ano após ano, fizeram crescer o projeto.


Os livros vencedores da 10.ª edição

O coração da festa foram, naturalmente, os resultados. Apurados pela Pordata, os títulos mais votados em cada ciclo de ensino foram:

  • 1.º Ciclo: Não Abras Este Livro
  • 2.º Ciclo: Avozinha Gângster
  • 3.º Ciclo: A Criada
  • Ensino Secundário: A Criada

O facto de A Criada ter conquistado simultaneamente o 3.º Ciclo e o Secundário é, por si só, um sinal interessante sobre as escolhas de leitura dos jovens portugueses — e um bom ponto de partida para conversas em sala de aula e na biblioteca escolar.


Uma década em dez livros: os vencedores de cada ano

Para assinalar os dez anos, a Pordata reuniu e tratou os dados de todas as edições e disponibilizou-os em dois painéis interativos — um dashboard estatístico e uma narrativa visual (“storytelling”). É um arquivo precioso, que permite percorrer a história do projeto ano a ano. (Nota: a Pordata identifica cada edição pelo ano da eleição, de 2017 a 2026, correspondendo aos anos letivos de 2016-2017 a 2025-2026.)

O livro mais votado em cada edição conta, por si só, uma pequena história das leituras de uma geração:

EdiçãoLivro mais votadoVotosEscolas
2017 (1.ª)O Principezinho49 317440
2018A Avozinha Gângster54 476505
2019Não Abras Este Livro75 970727
2020Ano de exceção (pandemia)16 815
2021Gravity Falls — Diário 374 161610
2022Gravity Falls — Diário 3102 513862
2023O Diário de Anne Frank117 642936
2024A Avozinha Gângster109 203959
2025Harry Potter e a Pedra Filosofal121 060960
2026 (10.ª)Revelado hoje (vencedores por ciclo, acima)118 510968

Fonte: Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Há nesta tabela várias leituras. O arranque, em 2017, com O Principezinho — o clássico de Saint-Exupéry — a vencer logo na primeira edição. A ascensão do fenómeno Gravity Falls, que venceu dois anos consecutivos (2021 e 2022) em plena recuperação pós-pandemia. E momentos de enorme significado, como a vitória de O Diário de Anne Frank em 2023, prova de que os jovens leitores também procuram a memória e a História.

Os números de uma geração

Os dados da Pordata traduzem em números aquilo que se sente na sala: o projeto não parou de crescer. Começou com 440 escolas em 2017 e chegou a 968 escolas em 2026 — um crescimento de 120%. Ao longo da década, foram contabilizados cerca de 845 mil votos.

A única quebra aconteceu em 2020, quando a pandemia de COVID-19 fechou as escolas: nesse ano registaram-se apenas 16 815 votos, uma queda de 78%. Mas a recuperação foi imediata — em 2021, os votos voltaram aos 74 161, como se nada tivesse acontecido. Os livros, esses, nunca fecharam.

Os campeões de uma geração

Olhando para as dez edições no seu conjunto, a Pordata destaca os títulos com mais presenças no pódio ao longo do tempo:

  • 1.º lugar histórico: A Avozinha Gângster — 15 presenças no pódio
  • 2.º lugar histórico: Harry Potter e a Pedra Filosofal — 14 presenças no pódio
  • 3.º lugar histórico: O Diário de Anne Frank — 12 presenças no pódio

E, por ciclo de ensino, os líderes históricos são Gravity Falls — Diário 3 (no 1.º e no 2.º Ciclos), A Avozinha Gângster (no 3.º Ciclo) e After — Depois de o Conhecer (no Ensino Secundário) — um retrato fiel da diversidade de gostos que convive neste universo, do humor à fantasia, do diário ao romance juvenil.


Prémio Melhor Campanha: quando ler é também comunicar

A reta final do espetáculo foi reservada ao Prémio Melhor Campanha, que distingue as ações de campanha mais criativas desenvolvidas pelas escolas. Foram atribuídos quatro prémios monetários de 600€ cada, um por cada categoria de ensino.

As escolas distinguidas foram Padrão da Légua, Carregal do Sal, António Gedeão e Paços de Ferreira. Este prémio é, talvez, o que melhor traduz a alma contemporânea do projeto: premeia não apenas a leitura, mas a capacidade de a comunicar — através de cartazes, debates, podcasts, vídeos e ações junto da comunidade. Ler, argumentar, persuadir e mobilizar: competências de cidadania e de literacia mediática que servirão estes alunos muito para além da escola.


Porque é que isto interessa a quem pensa TIC, Educação e Web

Vista da perspetiva deste blogue, a Festa Final dos “Miúdos a Votos!” é muito mais do que uma celebração da leitura. É um caso de estudo sobre integração de tecnologia, média e cidadania no quotidiano escolar:

  • Produção mediática pelos alunos: os podcasts dos Tempos de Antena, transmitidos pela Rádio Miúdos, colocam os estudantes no papel de criadores de conteúdo, não apenas de consumidores.
  • Literacia estatística e dados abertos: o apuramento pela Pordata abre a porta a trabalhar dados, gráficos e interpretação de resultados com rigor.
  • Cidadania digital e democrática: ao replicar uma eleição real, com o apoio da CNE, o projeto ensina regras, igualdade de oportunidades e respeito pelo voto — fundamentos de uma cidadania que também é digital.
  • A web como palco e arquivo: o Portal RBE documenta cada uma das dez edições, criando uma memória pública e acessível do projeto.

Num tempo em que tanto se discute o lugar dos ecrãs na infância, os “Miúdos a Votos!” oferecem uma resposta serena e construtiva: a tecnologia ao serviço da palavra, da leitura e da voz dos mais novos. Como lembra o lema da Rádio Miúdos, “quando os miúdos se expressam em liberdade, a democracia floresce”.

O Capítulo 10 fechou-se hoje na Gulbenkian. O Capítulo 11 começa já a ser escrito — nas bibliotecas escolares, nas salas de aula e, cada vez mais, também na web.


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