Um relatório de 2026 da Comissão Europeia traça o retrato mais completo até hoje das bibliotecas públicas europeias — e várias das suas conclusões, da leitura à desinformação, tocam diretamente o trabalho da escola.
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Em fevereiro de 2026, um grupo de trabalho ligado à Comissão Europeia terminou um relatório que poucos vão ler na íntegra, mas cujas conclusões deviam interessar a qualquer professor português. Chama-se Strengthening Europe through public libraries — «Fortalecer a Europa através das bibliotecas públicas», numa tradução livre —, tem 164 páginas e resulta de dois anos de trabalho de 36 peritos de 25 Estados-Membros, com contributos adicionais de oito países não pertencentes à União. O documento não fala de escolas em primeiro lugar; fala de bibliotecas públicas municipais, das grandes e das pequenas, das urbanas e das rurais. Mas basta avançar algumas páginas para perceber que a leitura em queda entre adolescentes, o combate à desinformação e a chegada da inteligência artificial às salas de leitura são, no fundo, os mesmos problemas com que a escola lida todos os dias — vistos de um edifício ao fundo da rua.
Um retrato inédito das bibliotecas públicas europeias
O relatório nasce de um mandato aprovado pelo Conselho da União Europeia em 2023, que pediu a um grupo do chamado Método Aberto de Coordenação para documentar o papel cultural, social e democrático das bibliotecas públicas. O resultado é o primeiro levantamento comparável à escala europeia: cerca de 67 mil bibliotecas públicas, 757 milhões de visitas e 75 milhões de utilizadores registados por ano, servidas por perto de 170 mil profissionais — um número que se manteve estável na última década, apesar de as bibliotecas terem passado a servir mais oito milhões de utilizadores. Os autores identificaram dez desafios societais em que as bibliotecas desempenham um papel ativo, da literacia à resiliência democrática, da inclusão social à resposta a catástrofes. Para quem trabalha em educação, dois desses desafios merecem particular atenção: a literacia e a democracia informacional.
A leitura em queda e o regresso da biblioteca como resposta
O relatório arranca este capítulo com um dado que qualquer professor de português reconhece de imediato: 26,2% dos jovens de 15 anos na União Europeia foram classificados como maus leitores no estudo PISA 2022 da OCDE, uma tendência acompanhada por quebras semelhantes a matemática e ciências desde 2018. A consequência, apontam os autores, não se limita à sala de aula: uma literacia limitada compromete a capacidade de participação plena na sociedade e na vida democrática, precisamente numa altura em que o Pacto para as Competências da União Europeia definiu metas ambiciosas de qualificação da população ativa.
É neste ponto que o relatório situa as bibliotecas públicas como parceiras da escola, não como substitutas. O documento é explícito ao descrever as bibliotecas como um complemento ao trabalho essencial das escolas, ajudando a sustentar e reforçar competências de leitura para além do horário letivo. Dois exemplos escolhidos pelos autores ilustram bem essa lógica de complementaridade. A Estratégia Nacional de Literacia 2030 da Finlândia junta educação pré-escolar, escolas, bibliotecas e serviços sociais num único plano municipal de leitura, com indicadores próprios e financiamento garantido até 2025; o programa inclui a distribuição de um «saco de leitura» a cada recém-nascido através dos centros de saúde infantil, com um livro e um convite explícito à biblioteca local. Na Polónia, a campanha «Livro pequeno — grande pessoa» chega, todos os meses, a cerca de 30 mil recém-nascidos em mais de 90% dos hospitais do país, e prolonga-se depois pelas quase sete mil bibliotecas polacas com um sistema de autocolantes e diplomas que transforma a leitura infantil num pequeno ritual de progressão.
Para uma escola portuguesa, o interesse prático destes exemplos não está em copiá-los ponto por ponto, mas no princípio que os une: a leitura por prazer floresce quando a escola, a biblioteca e a família falam a mesma língua sobre o mesmo objetivo, em vez de tratarem a leitura como tarefa exclusivamente escolar.
Bibliotecas contra a desinformação, também em Portugal
O capítulo dedicado à resiliência democrática é, provavelmente, o que mais interessa a um blogue centrado em literacia mediática. O relatório liga diretamente o enfraquecimento da confiança nas instituições, a queda na educação para a cidadania e a propagação de desinformação — sobretudo através das redes sociais — a um enfraquecimento mais amplo da vida democrática europeia. E nota, com alguma franqueza, que o recente Escudo Europeu para a Democracia, apresentado pela Comissão, sublinha a importância da literacia mediática e digital sem, no entanto, reconhecer explicitamente o papel das bibliotecas nesse esforço — uma lacuna que o próprio relatório procura corrigir.
Um dos exemplos mais relevantes para o público deste blogue tem, de facto, origem portuguesa. O projeto CLAD — Citizens and Libraries Against Disinformation —, financiado pelo programa CERV da União Europeia e implementado entre 2024 e 2026, junta o Goethe-Institut, a Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e parceiros eslovacos para desenvolver formação e eventos comunitários que ajudam profissionais e cidadãos a identificar desinformação. O projeto parte de um diagnóstico simples: numa época de sobrecarga informativa, distinguir factos de falsidades tornou-se decisivo para decisões pessoais, profissionais e cívicas — e as bibliotecas, pela sua neutralidade e proximidade, estão bem posicionadas para esse papel.
Mais próximo ainda do trabalho de sala de aula está o projeto SMILES — Innovative methods for media & information literacy education involving school and libraries —, financiado pelo Erasmus+ e desenvolvido na Bélgica, em Espanha e nos Países Baixos. O projeto juntou bibliotecas, escolas e organizações de literacia mediática para conceber e testar uma série de oficinas destinadas a alunos entre os 12 e os 15 anos, com um objetivo muito concreto: equipá-los com ferramentas práticas para identificar e contrariar notícias falsas. É um modelo replicável em qualquer disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: uma sessão dividida em duas partes, em que os alunos analisam primeiro um conjunto de notícias reais e fabricadas para identificar os sinais de alerta — fonte, data, autoria, linguagem emocional, ausência de contraditório — e depois tentam eles próprios construir uma notícia falsa credível, exercício que costuma ensinar mais sobre os mecanismos da desinformação do que qualquer lista de critérios memorizada.
A divisão digital, a inteligência artificial e a nova literacia digital
O relatório dedica também um capítulo à divisão digital, com um número que ajuda a explicar por que razão a literacia digital continua a ser prioritária nas escolas: em 2023, apenas 56% da população da União Europeia possuía competências digitais consideradas «básicas», segundo dados do Eurostat citados no documento. As bibliotecas surgem aqui como espaços de formação digital para públicos que a escola já não alcança diretamente — adultos, seniores, famílias inteiras — mas os métodos descritos têm paralelo direto com o que já acontece em contexto escolar.
Na Dinamarca, a iniciativa «O cidadão na transformação digital» juntou as bibliotecas centrais do país, entre 2023 e 2025, para construir uma visão partilhada sobre inteligência artificial, assente em quatro pilares: a literacia digital dos cidadãos, a compreensão tecnológica dos próprios bibliotecários, a infraestrutura digital das bibliotecas e um debate nacional sobre IA. Um dos programas resultantes, «Crianças, tecnologia e brincadeira», desenvolvido com universidades e escolas de design, equipa bibliotecários infantis com ferramentas para apresentar conceitos de inteligência artificial a crianças através do jogo e da narrativa — uma abordagem que qualquer professor do 1.º ciclo reconhecerá como próxima da sua própria prática. Em Berlim, o projeto Digital Zebra forma «navegadores digitais» que acompanham utilizadores de todas as idades nos seus primeiros passos com serviços digitais, insistindo — e este ponto é relevante para qualquer discussão sobre IA na escola — que a tecnologia funciona melhor quando apoiada por acompanhamento humano próximo, e não apenas pelo acesso ao equipamento.
O que o relatório pede aos governos — e à escola
A parte final do documento propõe seis recomendações estratégicas aos decisores políticos: um quadro legal robusto, financiamento sustentável e partilhado entre níveis de governo, decisões baseadas em dados, uma força de trabalho qualificada, espaços públicos inclusivos e maturidade digital. Nenhuma delas se dirige diretamente às escolas, mas uma merece destaque para quem trabalha em educação: o relatório recomenda explicitamente que a formação contínua dos profissionais de bibliotecas inclua competências digitais, inteligência artificial e literacia mediática, apoiada por uma plataforma europeia de intercâmbio — exatamente o tipo de investimento que, do lado escolar, tantas vezes falta às equipas docentes.
Há também um exemplo português no capítulo dedicado à sustentabilidade que vale a pena assinalar. O Clube de Literacia para a Transição Climática, sediado na Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, reúne uma coleção dedicada ao tema, oficinas com especialistas e um projeto comunitário de recolha de histórias locais sobre práticas sustentáveis, que são depois transformadas em exposição e publicação. É um modelo direto de projeto interdisciplinar entre biblioteca e comunidade — cidadania, ciências, geografia — que qualquer escola próxima de uma biblioteca municipal poderia procurar replicar em parceria.

Uma ideia para a sala de aula
Do conjunto do relatório, a ligação mais imediata para uma aula portuguesa está, provavelmente, no modelo do projeto SMILES. Uma sequência de duas aulas de Cidadania e Desenvolvimento pode seguir a mesma lógica: na primeira, os alunos recebem um conjunto de notícias reais e fabricadas — sem saber quais são quais — e discutem em grupo os critérios que usam para decidir em que confiar; na segunda, é pedido aos próprios alunos que redijam uma notícia falsa plausível sobre um tema à escolha, com título, fonte fictícia e imagem, e que depois expliquem à turma que técnicas de persuasão usaram. Construir a desinformação, mesmo que como exercício controlado, costuma revelar aos alunos, de dentro para fora, os mecanismos que o discurso teórico sobre «notícias falsas» nem sempre consegue tornar visíveis. Uma parceria com a biblioteca municipal da área escolar — como fazem os projetos CLAD e SMILES — pode ainda trazer à sala um profissional habituado a lidar com pedidos de informação fiável, reforçando a ideia de que a literacia mediática não é um exercício isolado do currículo, mas uma competência que se pratica em vários espaços da comunidade.

Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta do relatório “Strengthening Europe through public libraries” (Comissão Europeia, Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, 2026).
Referências
Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, Grupo do Método Aberto de Coordenação sobre o papel das bibliotecas. (2026). Strengthening Europe through public libraries: How sustained investment in public libraries and their multiple roles delivers social, cultural and democratic returns. Serviço das Publicações da União Europeia. https://doi.org/10.2766/1906144
Conselho da União Europeia. (2023). Open Method of Coordination (OMC) Group of Member States’ experts on Building bridges: strengthen the multiple roles of libraries as gateways to and transmitters of cultural works, skills and European values – Approved mandate (Nota 14250/23). https://data.consilium.europa.eu/doc/document/ST-14250-2023-INIT/en/pdf
Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura. (2024). Education and training monitor 2024 – Comparative report. Serviço das Publicações da União Europeia. https://data.europa.eu/doi/10.2766/815875
Eurostat. (2023, 15 de dezembro). 56 % of EU people have basic digital skills. https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/-/ddn-20231215-3
Goethe-Institut. (s.d.). CLAD – Citizens and libraries against disinformation. https://www.goethe.de/prj/cld/en/index.html
Para saber mais
- Página do relatório no Serviço das Publicações da União Europeia, onde é possível localizar a ficha completa e as versões noutras línguas.
- Página do projeto SMILES sobre literacia mediática e informacional, com os materiais e oficinas desenvolvidos para escolas.
- Estratégia Nacional de Literacia 2030 da Finlândia, na página do Ministério da Educação finlandês.



















