Vinte mil livros numa casa: o que a biblioteca de Loyola Brandão ensina a quem quer formar leitores

Ignácio de Loyola Brandão abriu a porta da sua biblioteca ao Estadão e falou dos livros que o formaram. Partimos desse vídeo para propor projetos que fazem das bibliotecas pessoais um motor de leitura, na escola e fora dela.

Há vídeos que se veem em vinte minutos e dão matéria para um ano letivo. Este é um deles: um escritor brasileiro de oitenta e tal anos a mostrar as suas estantes e a dizer, sem rodeios, de que livros gosta e de quais não gosta. Não há aqui nenhuma metodologia de promoção da leitura, e é por isso mesmo que dá tanto que pensar.

Quem é Loyola Brandão e porque nos interessa

Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara, no estado de São Paulo, em 1936. Foi jornalista durante décadas e é autor de romances, contos e crónicas que a crítica brasileira há muito lê como retrato do país. Entre os títulos mais conhecidos estão Zero e Não verás país nenhum, e a Prefeitura de São Paulo assinalou os seus oitenta anos, em 2016, com uma lista de leituras disponíveis na rede de bibliotecas municipais. Pertence à Academia Brasileira de Letras, que tem acompanhado e divulgado o que se vai escrevendo sobre ele.

Ao Diário de Notícias, em 2017, contou como Zero foi recusado por editoras brasileiras, acabou publicado em Itália, esteve proibido durante anos e continuou a circular em cópias feitas pelos próprios leitores, muitos deles jovens que juntavam dinheiro para as fotocópias. A conclusão que tirou cabe numa frase: um livro não se mata. É uma boa porta de entrada para o que vem a seguir, porque um homem que pensa assim sobre os livros costuma ter uma casa à medida dessa convicção.

O vídeo e a iniciativa do Estadão

O vídeo que nos serviu de ponto de partida, «Loyola Brandão critica livro de García Márquez, mostra seus favoritos e diz qual obra jamais leria», faz parte da série Coleção de Livros, uma iniciativa do Estadão. A ideia é simples e quase doméstica: a equipa do jornal vai a casa de figuras da cultura, filma as estantes e pede a cada convidado que fale dos livros que escolheu para viver ao seu lado. Segundo a cobertura da Estadão Conteúdo, publicada em março de 2025 a propósito da segunda temporada, Loyola Brandão escolheu dezassete títulos e explicou cada escolha.

O que Loyola Brandão diz de García Márquez, e a obra que garante que jamais leria, é aquilo que dá título ao vídeo e que o torna fácil de partilhar. Interessa-nos menos como polémica e mais como método: um leitor com autoridade a dizer, com franqueza, «isto não me serviu» é uma lição que as aulas de Português raramente dão. Aprender a ler passa também por aprender a discordar de um livro sem medo de ser castigado por isso.

Dezassete livros, dezassete maneiras de entrar na leitura

A lista que escolheu mostra uma biblioteca construída por camadas de idade. Há o livro da infância, As Aventuras de Pinocchio, que leu aos oito anos. Há Alice no País das Maravilhas, oferecido pela madrinha aos dez. Há o romance de juventude, Este Lado do Paraíso, de Fitzgerald, lido aos dezoito ou dezanove anos e que lhe despertou a vontade de escrever. E há os livros de maturidade, como Luz em Agosto, de Faulkner, que diz ter lido dez vezes, ou Misericórdia, da portuguesa Lídia Jorge, que elogia como romance recente.

Entre eles cabem Graciliano Ramos, Céline, Sartre, Steinbeck, Kundera, Lima Barreto, as Cartas a Theo de Van Gogh e uma biografia de Patricia Highsmith. Repare-se na mistura: clássicos e policiais, romance e correspondência, literatura brasileira e estrangeira, livros que o formaram e livros que simplesmente encontrou e o encantaram. Nenhuma escola montaria um currículo assim, e é precisamente a promiscuidade das estantes que torna uma biblioteca pessoal tão eficaz como porta de entrada. O leitor jovem não precisa de um cânone arrumado, precisa de encontrar um livro que lhe pareça escrito para si.

A casa que é biblioteca

Segundo a reportagem da Gazeta de Alagoas, republicada pela Academia Brasileira de Letras, o escritor reuniu cerca de vinte mil volumes. Os livros cobrem as paredes do apartamento em São Paulo, sobem as escadas até ao escritório e agrupam-se, em certas prateleiras, por afinidade: uma dedicada a Clarice Lispector, outra onde Faulkner e Highsmith ficam lado a lado. O pai também juntou cerca de mil clássicos na casa da família, em Araraquara.

O detalhe mais interessante do ponto de vista educativo é o que acontece a seguir. Loyola Brandão tem vindo a dar livros, e cerca de oitocentos foram para uma pequena biblioteca numa comunidade rural, a Cangalha, em Aiuruoca, no sul de Minas Gerais. Uma biblioteca pessoal, afinal, não tem de ser um fim de linha. Pode ser o ponto de partida de outra, mais pequena, noutro sítio, onde os livros vão ter leitores que nunca o encontrariam por outra via.

O que a escola pode aprender com uma estante

Quem trabalha com leitura em contexto escolar conhece o fosso entre o que se pede aos alunos e o que lhes damos como modelo. Pedimos que leiam, mas poucas vezes mostramos a nossa estante, os livros que abandonámos a meio, aquele que relemos dez vezes. O vídeo faz exatamente o contrário. O adulto leitor deixa de ser uma figura abstrata e passa a ser alguém com gostos, manias e pontos cegos.

Isto liga-se a vários temas que o blogue tem vindo a trabalhar. A reflexão sobre o que a escola pode aprender com quem lê devagar parte do mesmo pressuposto: a leitura profunda aprende-se vendo alguém a fazê-la. O artigo sobre o manifesto europeu pela leitura lembra que o problema é de política e de prática, e os resultados do PISA 2025 não nos deixam descansados. Já a comunicação sobre multiliteracias na era da inteligência artificial defende que se lê de formas diferentes consoante o propósito, e uma estante pessoal tem exatamente essa diversidade: livros para rir, para estudar, para chorar, para consultar.

Projetos para pôr as bibliotecas pessoais a trabalhar

O que se segue são propostas nossas, pensadas para serem adaptadas. Não decorrem do vídeo nem foram testadas por nós em todos os contextos; funcionam como ponto de partida para quem quiser experimentar, numa turma, numa biblioteca escolar, num município ou numa família.

A estante aberta

Cada professor, e se possível cada funcionário da escola, escolhe cinco a dez livros da sua casa e fotografa-os ou leva-os para uma exposição na biblioteca escolar. Ao lado de cada um, um cartão manuscrito com três coisas: quando o leu, porque o guardou e a quem o daria. É a versão escolar da série do Estadão e custa quase nada. Os alunos descobrem que o professor de Matemática leu policiais e que a assistente operacional guarda poesia. A pergunta que fica no ar é a que mais importa: «e tu, o que tens em casa?».

O meu livro de infância

Loyola Brandão lembra o Pinocchio aos oito anos e a Alice aos dez, e lembra quem lhe deu cada um. Propomos um projeto intergeracional em que cada aluno entrevista um adulto da família sobre o livro que marcou a sua infância, pede-o emprestado (ou procura-o na biblioteca) e apresenta à turma o livro e a história de quem o leu. Em sala de aula, dá origem a textos biográficos, a gravações de áudio e a um mapa coletivo de leituras da comunidade. Para muitas famílias, será a primeira vez que alguém lhes pergunta o que leram.

O livro que não me serviu

Se há coisa que o vídeo ensina é que se pode criticar um livro com fundamento. Num ciclo de debates com o 3.º ciclo e o secundário, cada aluno apresenta em dois minutos um livro de que não gostou, com razões e exemplos do texto, e a turma responde. A regra é que a crítica tem de citar uma passagem. O resultado costuma ser mais honesto e mais trabalhoso do que a clássica ficha de leitura, e treina argumentação, leitura atenta e respeito pela opinião contrária. Funciona bem articulado com propostas de leitura orientada, como a do Cavaleiro da Dinamarca, que dão primeiro um livro comum para depois se poder discordar dele.

Estante circulante

Inspirados pelo gesto de Loyola Brandão com a biblioteca da Cangalha, propomos que as escolas e os municípios facilitem a doação de bibliotecas pessoais, ou de parte delas, para pequenos polos de leitura em lugares onde não há livraria nem biblioteca: lares de idosos, centros de saúde, cafés de aldeia, paragens de autocarro cobertas, centros de dia, associações. Quem doa pode deixar uma nota dentro de cada livro com o seu nome e uma linha sobre o que o livro lhe disse. Os alunos podem ajudar a catalogar, a fazer etiquetas e a manter a rotação. O modelo da Little Free Library, que nasceu em Saint Paul, no Minnesota, e se organiza como rede de caixas de troca de livros mantidas por voluntários, mostra que a ideia tem pernas para andar, ainda que cada comunidade deva criar a sua versão.

Herança de leitor

Muitas bibliotecas pessoais acabam em caixotes porque a família não sabe o que fazer com elas. Imaginemos um serviço municipal ou da biblioteca escolar, de cooperação com a biblioteca pública, que recebe esses fundos, faz a triagem do que serve cada comunidade, regista a proveniência e mantém visível o nome do leitor que os reuniu. Uma prateleira com o nome de alguém, como a que Loyola Brandão dedica a Clarice, dá ao leitor jovem uma bússola e à família uma maneira de não perder a memória do seu leitor. Seria também uma fonte valiosa de livros usados para projetos de troca nas escolas.

Biblioteca de bolso para cada aluno

No início do ano letivo, cada aluno de uma turma recebe uma pequena estante de cartão ou madeira, que fica na sala, e uma meta simples: ao longo do ano, reunir ali dez livros próprios, vindos de trocas, empréstimos longos e ofertas. Os alunos reconhecem os livros dos colegas, trocam-nos e vão construindo, desde cedo, a ideia de que uma biblioteca é coisa que se faz e não só que se visita. No final, cada um escolhe três livros para levar para casa de forma definitiva. Para alunos que não têm livros em casa, este projeto resolve um problema material sem humilhar ninguém.

Clube de leitura com biblioteca à vista

Os clubes de leitura funcionam melhor quando acontecem num sítio onde há livros por todo o lado. Propomos reunir, de forma regular, alunos de diferentes idades e adultos da comunidade em casa de quem aceite abrir a sua biblioteca, de modo a que a conversa possa começar numa prateleira e não numa lista. O adulto anfitrião conta a história de três livros, os jovens trazem um e todos ficam com um para ler até ao encontro seguinte. É um dispositivo simples que quase sempre cria vínculos fora da escola.

Biblioteca falada

Nem todos os leitores têm estantes cheias, e muitos adultos mais velhos não leem já com facilidade. Em parceria com lares e centros de dia, os alunos gravam ou transmitem em direto leituras de passagens escolhidas pelos idosos, a partir das suas bibliotecas. O processo é de ida e volta: o adulto escolhe e comenta, o aluno prepara e lê. O som fica depois disponível no blogue da escola, numa rádio escolar ou em formato de podcast. É um projeto que une literacia oral, literacia digital e relação entre gerações, e que se articula bem com experiências como as do encontro com Gonçalo M. Tavares em Alcanena, onde a conversa com o autor foi a protagonista.

Inventário vivo: as bibliotecas da escola em dados

Muitos adultos nunca contaram os livros que têm em casa. Um projeto de Matemática e Português pode propor a cada aluno que estime quantos livros há em sua casa, os classifique por tipo, língua e década de publicação, e construa gráficos com a turma. Mais tarde, compara-se a amostra com os resultados dos estudos nacionais e internacionais, para trabalhar a relação entre a presença de livros em casa e os resultados de leitura. Os alunos descobrem que estão a fazer ciência com a sua própria casa e percebem melhor porque é que o acesso a livros pesa tanto.

Exposição «A minha estante»

Uma exposição itinerante, com fotografias de estantes de pessoas da comunidade (professores, pais, comerciantes, autarcas, bombeiros), cada uma acompanhada de uma frase sobre o livro mais importante. Pode ser montada na biblioteca escolar, na junta de freguesia, no centro de saúde, na estação de comboios. A fotografia dá lugar à conversa e a conversa dá lugar ao empréstimo. É exatamente o gesto que o Estadão fez ao filmar estantes de escritores, adaptado a uma escala em que qualquer pessoa pode ser protagonista.

Estantes digitais com limite de sete

A leitura de hoje também passa por ecrãs. Propomos que os alunos construam uma «estante digital» pessoal, com sete obras no máximo (livros, artigos, podcasts, ebooks, livros ouvidos) e uma nota sobre cada. Obriga a escolher, a justificar e a citar. É também um exercício de curadoria de conteúdos e de literacia da informação, que se pode ligar a plataformas de gestão de leituras e às bibliotecas digitais disponíveis. O limite é deliberado: uma biblioteca de vinte mil volumes começa pela pergunta sobre o que merece ficar.

Para que isto funcione

Três cuidados parecem-nos essenciais. O primeiro é a liberdade de escolha: nenhum destes projetos funciona se os alunos tiverem de ler apenas o que o adulto aprova. A biblioteca de Loyola Brandão tem Highsmith ao lado de Faulkner, e é essa convivência que a torna viva. O segundo é a continuidade: um projeto de um mês não muda hábitos, e vale mais fazer uma coisa pequena todos os meses do que uma grande uma vez por ano. O terceiro é a avaliação honesta: contar livros emprestados, perguntar aos alunos o que leram, observar quem volta à estante. Os dados que produzimos devem servir para ajustar o projeto e não apenas para o relatório.

Há ainda uma pergunta que fica de fora destas propostas e que merece resposta própria: o que se faz com os leitores que nunca tiveram uma estante em casa. Para esses, a biblioteca escolar e a biblioteca pública continuam a ser o espaço decisivo, e as bibliotecas pessoais só ajudam se vierem somar-se a elas e não substituí-las.

Uma estante é um retrato

Quem filma uma estante filma uma pessoa. O mérito da iniciativa do Estadão está aí: percebeu que o interesse não está só nos livros, está em quem os escolhe, os guarda, os abandona e os dá. Loyola Brandão dá, acumula e volta a dar. Se conseguirmos que os nossos alunos, e os adultos à sua volta, façam o mesmo, teremos feito mais pela leitura do que muitos planos bem desenhados.

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Nota editorial e de transparência: este artigo foi redigido com apoio de inteligência artificial e revisto pelos autores.

Referências

Academia Brasileira de Letras. (2025, 25 de março). ABL na mídia – Gazeta de Alagoas: A biblioteca de Ignácio de Loyola Brandão. https://www.academia.org.br/noticias/abl-na-midia-gazeta-de-alagoas-biblioteca-de-ignacio-de-loyola-brandao

Estadão Conteúdo. (2025, 20 de março). Coleção de Livros: Ignácio de Loyola Brandão elege seus livros preferidos e explica escolhas; veja. Terra. https://www.terra.com.br/diversao/colecao-de-livros-ignacio-de-loyola-brandao-elege-seus-livros-preferidos-e-explica-escolhas-veja,2dd7590489b9648dee19ab3361e2746f9rirlazv.html

Estadão. (s.d.). Loyola Brandão critica livro de García Márquez, mostra seus favoritos e diz qual obra jamais leria [Vídeo]. YouTube. https://www.youtube.com/watch?v=7JHULXL1tHo

Little Free Library. (s.d.). About. https://littlefreelibrary.org/about/

Redação DN. (2017, 27 de fevereiro). «Um livro não se mata». Diário de Notícias. https://www.dn.pt/artes/um-livro-nao-se-mata-5692907.html

Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa de São Paulo. (2016, 2 de agosto). Loyola Brandão, 80 anos [Notícia da rede de bibliotecas municipais]. https://prefeitura.sp.gov.br/web/cultura/w/bibliotecas/noticias/20379

Todas as ligações foram consultadas a 12 de outubro de 2026.

Para saber mais

Anne Carson, Nobel da Literatura 2026: o que a escola pode aprender com quem lê devagar, no blogue.

Uma linha num plano, um manifesto em Bruxelas: a Europa assume o seu problema com a leitura, no blogue.

Quando um assobio muda tudo: Assobiando à Vontade, de Mário Dionísio, em sala de aula, no blogue.

O vídeo do Estadão sobre a biblioteca de Loyola Brandão, no YouTube.

Bibliotecas públicas na Europa: o novo relatório da Comissão Europeia

Um relatório de 2026 da Comissão Europeia traça o retrato mais completo até hoje das bibliotecas públicas europeias — e várias das suas conclusões, da leitura à desinformação, tocam diretamente o trabalho da escola.

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Em fevereiro de 2026, um grupo de trabalho ligado à Comissão Europeia terminou um relatório que poucos vão ler na íntegra, mas cujas conclusões deviam interessar a qualquer professor português. Chama-se Strengthening Europe through public libraries — «Fortalecer a Europa através das bibliotecas públicas», numa tradução livre —, tem 164 páginas e resulta de dois anos de trabalho de 36 peritos de 25 Estados-Membros, com contributos adicionais de oito países não pertencentes à União. O documento não fala de escolas em primeiro lugar; fala de bibliotecas públicas municipais, das grandes e das pequenas, das urbanas e das rurais. Mas basta avançar algumas páginas para perceber que a leitura em queda entre adolescentes, o combate à desinformação e a chegada da inteligência artificial às salas de leitura são, no fundo, os mesmos problemas com que a escola lida todos os dias — vistos de um edifício ao fundo da rua.

Um retrato inédito das bibliotecas públicas europeias

O relatório nasce de um mandato aprovado pelo Conselho da União Europeia em 2023, que pediu a um grupo do chamado Método Aberto de Coordenação para documentar o papel cultural, social e democrático das bibliotecas públicas. O resultado é o primeiro levantamento comparável à escala europeia: cerca de 67 mil bibliotecas públicas, 757 milhões de visitas e 75 milhões de utilizadores registados por ano, servidas por perto de 170 mil profissionais — um número que se manteve estável na última década, apesar de as bibliotecas terem passado a servir mais oito milhões de utilizadores. Os autores identificaram dez desafios societais em que as bibliotecas desempenham um papel ativo, da literacia à resiliência democrática, da inclusão social à resposta a catástrofes. Para quem trabalha em educação, dois desses desafios merecem particular atenção: a literacia e a democracia informacional.

A leitura em queda e o regresso da biblioteca como resposta

O relatório arranca este capítulo com um dado que qualquer professor de português reconhece de imediato: 26,2% dos jovens de 15 anos na União Europeia foram classificados como maus leitores no estudo PISA 2022 da OCDE, uma tendência acompanhada por quebras semelhantes a matemática e ciências desde 2018. A consequência, apontam os autores, não se limita à sala de aula: uma literacia limitada compromete a capacidade de participação plena na sociedade e na vida democrática, precisamente numa altura em que o Pacto para as Competências da União Europeia definiu metas ambiciosas de qualificação da população ativa.

É neste ponto que o relatório situa as bibliotecas públicas como parceiras da escola, não como substitutas. O documento é explícito ao descrever as bibliotecas como um complemento ao trabalho essencial das escolas, ajudando a sustentar e reforçar competências de leitura para além do horário letivo. Dois exemplos escolhidos pelos autores ilustram bem essa lógica de complementaridade. A Estratégia Nacional de Literacia 2030 da Finlândia junta educação pré-escolar, escolas, bibliotecas e serviços sociais num único plano municipal de leitura, com indicadores próprios e financiamento garantido até 2025; o programa inclui a distribuição de um «saco de leitura» a cada recém-nascido através dos centros de saúde infantil, com um livro e um convite explícito à biblioteca local. Na Polónia, a campanha «Livro pequeno — grande pessoa» chega, todos os meses, a cerca de 30 mil recém-nascidos em mais de 90% dos hospitais do país, e prolonga-se depois pelas quase sete mil bibliotecas polacas com um sistema de autocolantes e diplomas que transforma a leitura infantil num pequeno ritual de progressão.

Para uma escola portuguesa, o interesse prático destes exemplos não está em copiá-los ponto por ponto, mas no princípio que os une: a leitura por prazer floresce quando a escola, a biblioteca e a família falam a mesma língua sobre o mesmo objetivo, em vez de tratarem a leitura como tarefa exclusivamente escolar.

Bibliotecas contra a desinformação, também em Portugal

O capítulo dedicado à resiliência democrática é, provavelmente, o que mais interessa a um blogue centrado em literacia mediática. O relatório liga diretamente o enfraquecimento da confiança nas instituições, a queda na educação para a cidadania e a propagação de desinformação — sobretudo através das redes sociais — a um enfraquecimento mais amplo da vida democrática europeia. E nota, com alguma franqueza, que o recente Escudo Europeu para a Democracia, apresentado pela Comissão, sublinha a importância da literacia mediática e digital sem, no entanto, reconhecer explicitamente o papel das bibliotecas nesse esforço — uma lacuna que o próprio relatório procura corrigir.

Um dos exemplos mais relevantes para o público deste blogue tem, de facto, origem portuguesa. O projeto CLAD — Citizens and Libraries Against Disinformation —, financiado pelo programa CERV da União Europeia e implementado entre 2024 e 2026, junta o Goethe-Institut, a Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas e parceiros eslovacos para desenvolver formação e eventos comunitários que ajudam profissionais e cidadãos a identificar desinformação. O projeto parte de um diagnóstico simples: numa época de sobrecarga informativa, distinguir factos de falsidades tornou-se decisivo para decisões pessoais, profissionais e cívicas — e as bibliotecas, pela sua neutralidade e proximidade, estão bem posicionadas para esse papel.

Mais próximo ainda do trabalho de sala de aula está o projeto SMILES — Innovative methods for media & information literacy education involving school and libraries —, financiado pelo Erasmus+ e desenvolvido na Bélgica, em Espanha e nos Países Baixos. O projeto juntou bibliotecas, escolas e organizações de literacia mediática para conceber e testar uma série de oficinas destinadas a alunos entre os 12 e os 15 anos, com um objetivo muito concreto: equipá-los com ferramentas práticas para identificar e contrariar notícias falsas. É um modelo replicável em qualquer disciplina de Cidadania e Desenvolvimento: uma sessão dividida em duas partes, em que os alunos analisam primeiro um conjunto de notícias reais e fabricadas para identificar os sinais de alerta — fonte, data, autoria, linguagem emocional, ausência de contraditório — e depois tentam eles próprios construir uma notícia falsa credível, exercício que costuma ensinar mais sobre os mecanismos da desinformação do que qualquer lista de critérios memorizada.

A divisão digital, a inteligência artificial e a nova literacia digital

O relatório dedica também um capítulo à divisão digital, com um número que ajuda a explicar por que razão a literacia digital continua a ser prioritária nas escolas: em 2023, apenas 56% da população da União Europeia possuía competências digitais consideradas «básicas», segundo dados do Eurostat citados no documento. As bibliotecas surgem aqui como espaços de formação digital para públicos que a escola já não alcança diretamente — adultos, seniores, famílias inteiras — mas os métodos descritos têm paralelo direto com o que já acontece em contexto escolar.

Na Dinamarca, a iniciativa «O cidadão na transformação digital» juntou as bibliotecas centrais do país, entre 2023 e 2025, para construir uma visão partilhada sobre inteligência artificial, assente em quatro pilares: a literacia digital dos cidadãos, a compreensão tecnológica dos próprios bibliotecários, a infraestrutura digital das bibliotecas e um debate nacional sobre IA. Um dos programas resultantes, «Crianças, tecnologia e brincadeira», desenvolvido com universidades e escolas de design, equipa bibliotecários infantis com ferramentas para apresentar conceitos de inteligência artificial a crianças através do jogo e da narrativa — uma abordagem que qualquer professor do 1.º ciclo reconhecerá como próxima da sua própria prática. Em Berlim, o projeto Digital Zebra forma «navegadores digitais» que acompanham utilizadores de todas as idades nos seus primeiros passos com serviços digitais, insistindo — e este ponto é relevante para qualquer discussão sobre IA na escola — que a tecnologia funciona melhor quando apoiada por acompanhamento humano próximo, e não apenas pelo acesso ao equipamento.

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O que o relatório pede aos governos — e à escola

A parte final do documento propõe seis recomendações estratégicas aos decisores políticos: um quadro legal robusto, financiamento sustentável e partilhado entre níveis de governo, decisões baseadas em dados, uma força de trabalho qualificada, espaços públicos inclusivos e maturidade digital. Nenhuma delas se dirige diretamente às escolas, mas uma merece destaque para quem trabalha em educação: o relatório recomenda explicitamente que a formação contínua dos profissionais de bibliotecas inclua competências digitais, inteligência artificial e literacia mediática, apoiada por uma plataforma europeia de intercâmbio — exatamente o tipo de investimento que, do lado escolar, tantas vezes falta às equipas docentes.

Há também um exemplo português no capítulo dedicado à sustentabilidade que vale a pena assinalar. O Clube de Literacia para a Transição Climática, sediado na Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim, reúne uma coleção dedicada ao tema, oficinas com especialistas e um projeto comunitário de recolha de histórias locais sobre práticas sustentáveis, que são depois transformadas em exposição e publicação. É um modelo direto de projeto interdisciplinar entre biblioteca e comunidade — cidadania, ciências, geografia — que qualquer escola próxima de uma biblioteca municipal poderia procurar replicar em parceria.

Uma ideia para a sala de aula

Do conjunto do relatório, a ligação mais imediata para uma aula portuguesa está, provavelmente, no modelo do projeto SMILES. Uma sequência de duas aulas de Cidadania e Desenvolvimento pode seguir a mesma lógica: na primeira, os alunos recebem um conjunto de notícias reais e fabricadas — sem saber quais são quais — e discutem em grupo os critérios que usam para decidir em que confiar; na segunda, é pedido aos próprios alunos que redijam uma notícia falsa plausível sobre um tema à escolha, com título, fonte fictícia e imagem, e que depois expliquem à turma que técnicas de persuasão usaram. Construir a desinformação, mesmo que como exercício controlado, costuma revelar aos alunos, de dentro para fora, os mecanismos que o discurso teórico sobre «notícias falsas» nem sempre consegue tornar visíveis. Uma parceria com a biblioteca municipal da área escolar — como fazem os projetos CLAD e SMILES — pode ainda trazer à sala um profissional habituado a lidar com pedidos de informação fiável, reforçando a ideia de que a literacia mediática não é um exercício isolado do currículo, mas uma competência que se pratica em vários espaços da comunidade.


Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta do relatório “Strengthening Europe through public libraries” (Comissão Europeia, Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, 2026).

Referências

Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura, Grupo do Método Aberto de Coordenação sobre o papel das bibliotecas. (2026). Strengthening Europe through public libraries: How sustained investment in public libraries and their multiple roles delivers social, cultural and democratic returns. Serviço das Publicações da União Europeia. https://doi.org/10.2766/1906144

Conselho da União Europeia. (2023). Open Method of Coordination (OMC) Group of Member States’ experts on Building bridges: strengthen the multiple roles of libraries as gateways to and transmitters of cultural works, skills and European values – Approved mandate (Nota 14250/23). https://data.consilium.europa.eu/doc/document/ST-14250-2023-INIT/en/pdf

Comissão Europeia: Direção-Geral da Educação, Juventude, Desporto e Cultura. (2024). Education and training monitor 2024 – Comparative report. Serviço das Publicações da União Europeia. https://data.europa.eu/doi/10.2766/815875

Eurostat. (2023, 15 de dezembro). 56 % of EU people have basic digital skills. https://ec.europa.eu/eurostat/web/products-eurostat-news/-/ddn-20231215-3

Goethe-Institut. (s.d.). CLAD – Citizens and libraries against disinformation. https://www.goethe.de/prj/cld/en/index.html

Para saber mais

A leitura fragmentada: o alerta dos especialistas

Um encontro internacional dedicado às políticas de leitura na Ibero-América deixou reflexões que interessam diretamente a quem trabalha todos os dias com livros e alunos: da ameaça da leitura fragmentada nos ecrãs à urgência de bibliotecas mais inclusivas.

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Leitura em debate na Ibero-América

O documento que serve de base a este artigo reúne as conclusões de um encontro internacional promovido pela Cerlalc e pela OEI, dedicado às políticas de livro, leitura, escrita e oralidade em toda a região ibero-americana. Ao longo de vários painéis, especialistas de países como o Brasil, a Espanha, a Argentina e Portugal discutiram o estado da leitura hoje, com dados, experiências de terreno e propostas concretas. Para quem trabalha em contexto escolar, há aqui pistas valiosas sobre para onde caminham as políticas educativas ligadas à leitura.

O paradoxo dos nossos dias

Uma das ideias mais marcantes do encontro foi enunciada por Dolores Prades: apesar de as literaturas produzidas nas margens sociais terem conseguido finalmente questionar o cânone oficial e dar voz a autores indígenas e afrodescendentes, os índices de leitura continuam a cair de forma preocupante. No Brasil, por exemplo, o estudo “Retratos da Leitura” mostrou a perda de cerca de seis milhões de leitores em apenas quatro anos. Este recuo, associado a uma onda global de conservadorismo e desinformação, obriga a repensar como se promove a leitura enquanto ferramenta de resistência cívica.

A leitura ameaçada pelo digital

A intervenção mais densa sobre este tema coube ao historiador Roger Chartier, que alertou para o facto de a própria natureza da leitura estar a mudar com os ecrãs. Segundo Chartier, a leitura digital tende a ser apressada e impaciente, favorecendo a falta de questionamento sobre a veracidade dos conteúdos consumidos. Um dos pontos mais úteis para professores é a sua explicação sobre a perda da “totalidade textual”: no ecrã, os textos surgem fragmentados, sem limites nítidos, o que dificulta perceber onde começa e acaba uma ideia completa. Chartier recorda ainda que, no mundo digital, a garantia da verdade deixou de assentar no exame crítico dos enunciados para passar a depender da confiança cega no meio que os transmite, o que abre caminho à desinformação.

Esta reflexão liga-se diretamente à sala de aula: se os alunos leem cada vez mais em fragmentos descontextualizados, a escola tem um papel decisivo em ensinar a reconstruir essa totalidade e a distinguir factos de manipulação.

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Porque continuamos a precisar dos clássicos

Retomando Italo Calvino, Chartier defendeu que os clássicos permanecem relevantes precisamente porque cada geração de leitores os torna contemporâneos, encontrando neles respostas para os seus próprios medos e sonhos. Essa permanência resulta de séculos de leituras acumuladas, mas também de escolhas e exclusões feitas por instituições como a escola, a crítica literária e a edição — escolhas que hoje estão a ser questionadas e ampliadas.

Bibliotecas como motores de mudança

Vários intervenientes insistiram que a biblioteca deixou de ser apenas um depósito de livros. Jorge Moisés Kroll do Prado citou o bibliotecónomo David Lankes para resumir esta transformação: “as más bibliotecas fazem coleções, as boas bibliotecas prestam serviços e as excelentes criam comunidades“. Glória Pérez-Salmerón reforçou esta ideia, descrevendo a biblioteca como um “espaço do comum”, aberto a toda a cidadania e capaz de gerar confiança e pertença.

Vera Saboya partilhou a experiência das Bibliotecas Parque no Rio de Janeiro, instaladas em zonas de grande vulnerabilidade social, e defendeu que estas comunidades têm o direito de aceder também às obras do chamado “alta cultura”, muitas vezes vistas como distantes das suas realidades. Saboya propôs ainda pensar na figura do “não leitor” na sociedade acelerada de hoje, sugerindo que as políticas públicas ofereçam materiais diversos que conectem com os interesses reais das pessoas, em vez de impor um modelo único de leitura.

Leitura como direito e como resistência

Um dos momentos mais tocantes do encontro foi o testemunho de Waldemar Cubilla, que descobriu a leitura como estratégia de sobrevivência durante uma década de reclusão e, depois de recuperar a liberdade, fundou a Biblioteca Popular La Cárcova, num bairro periférico de Buenos Aires. Para Cubilla, a leitura funciona como um exercício de liberdade e reparação histórica, sobretudo para crianças e jovens em contextos marcados pela pobreza. Já Fabrício Brito, através do coletivo A Pombagem, defendeu uma conceção de leitura que ultrapassa o ato individual e elitista, tornando-se experiência coletiva, oral e situada nas comunidades periféricas.

Equidade racial e de género na agenda da leitura

O encontro dedicou também espaço à forma como o racismo e o sexismo condicionam o acesso à cultura escrita. Francile Carneiro, bibliotecária negra, introduziu o conceito de “epistemicídio” para descrever a exclusão sistemática dos saberes produzidos por comunidades marginalizadas, defendendo bibliotecas antirracistas capazes de validar outros conhecimentos. Margarita Cuéllar, diretora da Cerlalc, apresentou dados que mostram que as mulheres ocupam um papel central no setor editorial, mas continuam afastadas dos cargos de decisão, o que explica a sua maior presença em editoras pequenas e independentes.

O que ficou por resolver

Apesar dos avanços conceptuais — como a passagem de políticas centradas apenas na leitura para incluir também a escrita e a oralidade —, o estudo regional apresentado no encontro revelou lacunas persistentes que interessam diretamente às escolas:

  • Escolarização excessiva das políticas, com pouca atenção a adultos e pessoas idosas, que atuam como mediadores familiares e são vulneráveis à desinformação
  • Formação do pessoal bibliotecário ainda demasiado técnica, com necessidade de uma preparação mais sociopolítica
  • Fraca articulação entre discurso e prática nos temas de inclusão, direitos humanos e equidade
  • Barreiras estruturais no acesso ao ecossistema digital, como infraestrutura insuficiente e baixa literacia digital

Estes pontos deixam um recado claro para quem trabalha na educação: garantir livros nas escolas é apenas o primeiro passo, mas sem formação de mediadores, sem diversidade de acervos e sem atenção crítica ao mundo digital, o hábito de leitura continuará a perder terreno.

Os guardiões do conhecimento: o que será um bibliotecário no século XXI?

Este artigo é uma adaptação livre de um texto publicado originalmente em inglês por Ben Hope, Diretor da Biblioteca da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, EUA), no LinkedIn, a 17 de junho de 2026, sob o título “It’s Time for Librarians to Rethink Librarianship” ¹. A versão aqui apresentada foi traduzida e reescrita para um contexto lusófono, mantendo as ideias centrais do autor.

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Nos últimos anos, a profissão bibliotecária tem-se interrogado sobre como preservar as bibliotecas e os bibliotecários. Mas talvez estejam a ser feitas as perguntas erradas.

Em vez de proteger títulos e estruturas, a questão central deveria ser outra: como ligar melhor as pessoas ao conhecimento de que precisam para resolver problemas, tomar decisões e avançar no saber? Não é necessariamente a mesma coisa.

Já passámos por isto antes

A história da biblioteconomia é uma história de adaptação. O catálogo em fichas deu lugar a sistemas online. Os índices em papel foram substituídos por bases de dados digitais. Os motores de busca transformaram a forma como a informação é descoberta. Cada mudança gerou ansiedade — e cada uma criou novas oportunidades para demonstrar o valor da profissão.

A inteligência artificial não é diferente. É mais uma vaga. E, tal como nas anteriores, as competências que sempre definiram os bibliotecários são precisamente as que mais importam agora: compreender como a informação é organizada, descrita, preservada e tornada pesquisável; valorizar a proveniência, a autoridade e a autenticidade; reconhecer que o acesso à informação não basta — é necessário que as pessoas confiem naquilo que encontram.

Estas não são competências do passado. São competências do futuro.

O trabalho está a mudar — mas a missão não

O bibliotecário do futuro passará menos tempo a gerir coleções físicas e mais tempo a desenhar sistemas de recuperação de informação, a sintetizar evidências, a curar repositórios digitais, a desenvolver ferramentas de descoberta com IA e a criar a infraestrutura de conhecimento que sustenta a investigação e a tomada de decisões.

Nada disto representa uma rutura com a biblioteconomia. Representa, antes, um regresso ao seu propósito mais fundo.

O que verdadeiramente preocupa não é a mudança tecnológica — é a tendência para a profissão se definir pelos mecanismos com que entrega valor, em vez de pelo valor em si. Quando existe um apego excessivo a edifícios, coleções, fluxos de trabalho ou títulos profissionais, perde-se de vista a missão que sempre mais importou.

O que os utilizadores precisam das bibliotecas

Os leitores, os alunos, os investigadores, os cidadãos — não beneficiam das bibliotecas por causa do nome que estas têm. Beneficiam do trabalho que nelas se realiza: organizar o conhecimento, preservar evidências, possibilitar a descoberta, sintetizar informação, apoiar decisões informadas.

Se no futuro estas funções forem desempenhadas com títulos diferentes — arquivistas de IA, curadores de conhecimento digital, gestores de dados de investigação — a missão permanece a mesma.

As bibliotecas resistiram durante séculos precisamente porque se adaptaram. De tábuas de argila a manuscritos iluminados, de coleções impressas a repositórios digitais, os formatos mudaram. O propósito, não.

A próxima transformação já começou

Quem liderar a profissão para o futuro compreenderá que a biblioteconomia não é definida por livros, edifícios ou mesmo pelo nome “biblioteca”. É definida pelo compromisso de garantir que o conhecimento permanece pesquisável, de confiança, acessível e preservado para as gerações futuras.

A ficção científica há muito imaginou um futuro em que os guardiões do conhecimento são essenciais para a sobrevivência da civilização — não como gestores de coleções, mas como preservadores da memória coletiva da humanidade. Esse futuro pode estar mais próximo do que se pensa.

Para quem trabalha em bibliotecas escolares, esta reflexão tem uma urgência particular. São frequentemente os primeiros a ajudar crianças e jovens a navegar num mundo saturado de informação — a distinguir o fiável do enganoso, o relevante do irrelevante. Esse papel nunca foi tão necessário.

Sempre que uma biblioteca — escolar, pública ou especializada — ajuda a sociedade a preservar, organizar e dar sentido ao seu conhecimento, está a continuar o trabalho essencial que os bibliotecários sempre fizeram. Com ou sem esse título.


¹ Hope, B. (2026, 17 de junho). It’s Time for Librarians to Rethink Librarianship [Publicação no LinkedIn]. LinkedIn. https://www.linkedin.com/posts/4benhope/

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Sant Cugat del Vallès — Da Antiguidade Romana aos Dias de Hoje

Visão Geral

Sant Cugat del Vallès é um município catalão situado na comarca do Vallès Occidental, a apenas 18 km a noroeste de Barcelona. Com uma superfície de 48,2 km² e uma população de cerca de 97.959 habitantes (dados de janeiro de 2025), é o terceiro município mais populoso da comarca, a seguir a Terrassa e Sabadell. A cidade conjuga um extraordinário património medieval com uma qualidade de vida reconhecida: em 2017, era o oitavo município mais próspero de Espanha, com uma renda bruta média por habitante de 48.942 euros. Hoje, o seu PIB per capita ultrapassa os 59.780 euros, muito acima da média metropolitana de Barcelona.


1. Das Origens Romanas ao Martírio de Sant Cugat (sécs. I–IV)

A história de Sant Cugat começa com um assentamento militar romano conhecido como Castrum Octavianum, fundado por ordem do imperador Augusto (Octaviano) e situado junto à via imperial que ligava os Pirinéus a Tarraco (Tarragona). Tratava-se de uma fortaleza que dominava e protegia o território do Vallès, cujas terras foram doadas a veteranos da legião do imperador.

O episódio fundador que deu nome à cidade é o martírio de Sant Cugat (em latim, Cucuphas ou Cucufate). Nascido no norte de África, na cidade de Scil·li perto de Cartago, era mercador, generoso com os pobres e predicador do Evangelho. Acompanhado do seu amigo Félix, veio por mar até Barcelona e começou a pregar com tal fervor que muitos barceloneses o seguiram. Preso pelas autoridades romanas durante a perseguição do governador Maximiano (delegado de Diocleciano), foi sujeito a suplícios e, segundo a tradição, foi decapitado no ano 304 d.C. em Castrum Octavianum. A primeira referência escrita ao mártir é do poeta latino Aurélio Prudêncio, nascido em Tàrraco em 348 d.C., que na sua obra Peristephanon escreveu: “Barcelona se erguerá, confiada, en su ínclito Cugat”.

Após o martírio, duas cristãs de Iluro (Mataró) — Juliana e Semproniana — enterraram o seu corpo, morrendo elas próprias mártires. Em torno do túmulo do santo foi construído um pequeno martyrium funerário que se tornaria o embrião do futuro mosteiro.


2. Da Época Visigótica à Invasão Sarracena (sécs. V–VIII)

Durante a época visigótica, o espaço adquiriu crescente relevância religiosa. O martyrium original terá sido destruído por um incêndio no início do século VI, mas o local não foi abandonado: já no século VII existia uma pequena basílica visigótica, cujos vestígios ainda são visíveis na parte inferior da cabeça da igreja atual. Esta primeira comunidade religiosa foi destruída em 717, durante a invasão muçulmana da Península Ibérica. O local foi recuperado pelos francos em 801, abrindo caminho para a grande fundação medieval.


3. A Fundação do Mosteiro Beneditino (séc. IX)

O mosteiro como tal foi fundado no século IX, no contexto da política franca de criação de mosteiros beneditinos como instrumentos de organização territorial e de difusão do feudalismo. A primeira referência documental data de 878, através de um precepto do rei Luís, o Gago, concedido ao bispo Frodoí de Barcelona. O primeiro abade verdadeiramente documentado foi Ostofred (878–895).

Em julho de 985, o mosteiro sofreu o devastador ataque de Al-Mansur (Almançor) ao condado de Barcelona: o abade Joan e vários monges morreram, o arquivo foi incendiado e os documentos que provavam as propriedades do mosteiro perderam-se. Apesar desta catástrofe, a comunidade reorganizou-se rapidamente. Sob o abade Odó (986–1010), iniciou-se um período de grande impulso: o mosteiro cresceu em domínios territoriais, poder económico e influência política, tornando-se o mais importante do condado de Barcelona. Durante os séculos X e XI, graças a doações e privilégios de condes e nobres, a abadia controlava extensos feudos e exercia uma jurisdição senhoril sobre o território circundante.


4. A Construção do Conjunto Monástico (sécs. XI–XIV)

A Igreja

A igreja do mosteiro começou a ser construída em estilo românico, mas a obra prolongou-se até ao século XIV, altura em que já decorria em estilo gótico. Esta transição produz um dos seus maiores encantos: um interior claramente românico que culmina numa fachada gótica com um imponente rosáceo. O campanário de planta quadrada, decorado com lesenas e arcos cegos, é de estilo românico do século XI. A nave apresenta três corpos cobertos com abóbadas de cruzaria, e uma cúpula que se transforma exteriormente num formoso cimório octogonal. O rosáceo da fachada gótica, do século XIV, é inspirado no da catedral de Notre-Dame de Paris.

O Claustro Românico — Joia da Europa Medieval

O elemento mais distintivo e celebrado é o claustro românico, considerado uma das joias da escultura medieval europeia e um dos melhores conservados do continente. A sua construção começou por volta de 1190, graças ao legado testamentário de Guillem de Claramunt, que desejava ser enterrado próximo do túmulo do mártir. O conjunto ficou concluído em cerca de 1220.

Sant Cugat Monastery cloister

O mestre de obras foi Arnau Cadell, que também dirigiu a construção do claustro da catedral de Girona. Cadell assinou a obra numa pequena lápide junto a um capitel do ângulo nordeste, onde se vê a representação do próprio mestre esculpindo um capitel. Cada ala do claustro mede cerca de trinta metros, dotando o pátio de uma superfície de cerca de novecentos metros quadrados. Cada galeria é composta por três séries de cinco arcadas, separadas por contrafortes, e as arcadas sustentam-se em pares de colunas em pedra proveniente de Girona.

No total, existem 144 colunas e capiteis — número altamente simbólico, alusivo às medidas dos muros da Jerusalém Celeste descritos no Livro do Apocalipse. Cada capitel é único e narra cenas do Antigo e Novo Testamento (o Dilúvio Universal, o Lavatorio de Pés, a Apresentação de Jesus no Templo, o Ciclo de Abraão), motivos de fauna, flora e da vida monástica quotidiana. Uma fonte-lavatório central evoca o Paraíso descrito no Génesis e simboliza a união do céu com a terra.


5. O Poder Feudal e o Declínio (sécs. XIV–XIX)

No seu apogeu medieval, o mosteiro de Sant Cugat era o mais poderoso do condado de Barcelona, exercendo controlo feudal sobre dezenas de paróquias e localidades. O palácio abacial — atual casa reitoral — chegou a hospedar vários reis da coroa de Aragão. Uma sucessão de capelas barrocas e retábulos renascentistas enriquecem o conjunto, resultado das obras de embelezamento dos séculos XVI e XVII.

A decadência chegou com a desamortização do século XIX: em 1835, como consequência das leis liberais que expropriaram os bens do clero regular, os monges abandonaram o mosteiro. O edifício permaneceu vazio até 1851, quando se iniciou a restauração. Em 3 de junho de 1931 foi declarado Monumento Nacional (Bem de Interesse Cultural), reconhecimento que protegeu definitivamente o seu património.


6. O Crescimento da Vila (sécs. XIX–XX)

Após séculos de vida agrícola centrada sobretudo na vinha, a abertura em 1877 da estrada de Gràcia (que ligava Sant Cugat a Barcelona) tirou a vila do seu isolamento ancestral, favoreceu o comércio e atraiu os primeiros veraneantes barceloneses, fascinados pelo ambiente serrano de Collserola. A praga da filoxera, que dizimou as vinhas em 1887-1888, perturbou o crescimento económico mas paradoxalmente libertou terrenos para construção.

O Modernismo

Modernist house exterior

A aproximação a Barcelona e a chegada de veraneantes burgueses criaram condições para o desenvolvimento do modernismo arquitetónico em Sant Cugat, com cerca de uma década de atraso em relação à capital. A Casa Armet (Avenida de Gràcia), projetada em 1898, é considerada a primeira casa puramente modernista da cidade.

Outros exemplos notáveis incluem a Casa Mónaco, a Casa Mir (ou Casa Manuel Mir Foix, com torre e fachada ornamentada), a Casa Jover e a Bodega Cooperativa, obra do arquiteto Cèsar Martinell. O espaço mais surpreendente é o Generalife, uma casa de influência modernista e arabizante construída em 1914 pelo arquiteto Eduard Maria Balcells — discípulo de Gaudí —, com cúpula de azulejo ao estilo gaudiniano, janelas geminadas e jardins com magnólias.
A chegada dos Ferrocarrils de la Generalitat de Catalunya (FGC) reforçou a ligação a Barcelona e acelerou a transformação de Sant Cugat em núcleo residencial. A cidade foi oficialmente elevada à categoria de cidade em 1978.


7. Sant Cugat Hoje: Cidade Próspera e Multifacetada

Dados Demográficos e Económicos

Sant Cugat conta com cerca de 97.959 habitantes (janeiro de 2025), e é a única cidade catalã com mais de 20.000 habitantes que registou uma ligeira perda populacional entre 2024 e 2025, resultante de uma limpeza administrativa do registo — o município tinha descido de 98.649 para 97.959 residentes. O seu PIB per capita de 59.780 euros é largamente superior à média da área metropolitana de Barcelona (36.190 euros), e a taxa de desemprego registado é de apenas 2,48%.

IndicadorSant CugatMédia AMB Barcelona
PIB per capita (€)59.78036.190
Renda Familiar Disponível Bruta/hab. (€)23.90019.400
Densidade populacional (hab/km²)1.8875.177
Taxa de desemprego registado2,48%—

Tecido Empresarial e Inovação

Com mais de 8.774 empresas registadas, Sant Cugat possui um vibrante ecossistema empresarial que integra multinacionais, startups tecnológicas e prestadores de serviços especializados. A Câmara Municipal criou o InvestSantCugat, plataforma dedicada a atrair investimento externo e apoiar empreendedores. A proximidade com Barcelona, a qualidade de vida e as boas infraestruturas de transporte tornam a cidade especialmente apelativa para trabalhadores do setor do conhecimento.


8. Os Principais Monumentos e Pontos de Interesse

Mosteiro de Sant Cugat

Sant Cugat Monastery
O mosteiro é o símbolo indiscutível da cidade e um dos conjuntos monásticos mais importantes da Catalunha. A visita cobre a igreja (aberta das 8h às 13h e das 17h às 21h), o claustro românico e o Museu do Mosteiro, que acolhe coleções de arte sacra, arqueologia e explicações sobre a vida quotidiana dos monges medievais. As visitas guiadas gratuitas ao mosteiro realizam-se aos sábados às 10h. A Universidade Autónoma de Barcelona (UAB) desenvolveu um inovador projeto de digitalização em 3D dos 144 capiteis, criando o primeiro catálogo digital tridimensional das peças, acessível para preservação, ensino e impressão 3D.

Parque Natural de Collserola

Forest trail

Sant Cugat é o município com maior superfície integrada no Parque Natural da Serra de Collserola — o maior parque metropolitano de Espanha, com mais de 8.000 hectares. Quarenta e quatro por cento do território do município está dentro do parque, que pertence também à rede europeia Natura 2000. A fauna inclui javalis, esquilos, ginetas, açores e numerosas aves; a flora é tipicamente mediterrânica.

Forest hills

Dentro dos limites de Sant Cugat, destacam-se:

  • A Torre Negra, torre de defesa medieval do século XII, muito bem conservada, que foi palco de disputas entre os seus proprietários e o mosteiro
  • O Pi d’en Xandri, pinheiro monumental com mais de 250 anos, 23 metros de altura e um tronco com mais de 3 metros de diâmetro — símbolo da luta cívica da cidade
  • A Ermida de Sant Medir, de estilo românico do século XI, envolva por sobreiros, destino de romaria no dia 3 de março
  • O Pantà de Can Borrell, pequena barragem construída no início do século XX para abastecer de água a quinta homónima

O parque oferece doze itinerários de vários comprimentos e dificuldades, ideais para caminhantes, ciclistas de montanha e corredores.

Mercantic — O Mercado Vintage de Referência

Vintage furniture market

Instalado na antiga fábrica de cerâmica fundada por Josep Barnils em 1956, o Mercantic abriu as suas portas em 1992. Considerado um ponto de referência europeu para colecionadores e amantes do vintage, ocupa uma área de mais de 15.000 m² dividida entre a Nave Central, o Bairro das Casitas e o Distrito Antigo, com mais de 100 comerciantes residentes e seis restaurantes.

Antique market

Cada domingo, o pátio exterior anima-se com um mercado adicional de 50 expositores de antiguidades, segunda mão e colecionismo. O destaque da oferta cultural é a livraria El Siglo, com mais de 150.000 livros antigos e em segunda mão, que organiza também concertos de música ao vivo com vermute. O primeiro domingo de cada mês celebra-se o Sunday Market / La Descarregada, com livros, discos, roupa vintage e objetos curiosos.

#diasnalivraria

Centre d’Alt Rendiment (CAR)


Fundado em 1987 na expectativa dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, o Centre d’Alt Rendiment de Sant Cugat foi o primeiro centro de alto rendimento desportivo do mundo a integrar um centro educativo, permitindo aos atletas continuar os seus estudos. As suas instalações incluem piscina olímpica interior e exterior, piscina de saltos, pista de atletismo, campo de futebol, pavilhão coberto e pistas de ténis.
O CAR já formou mais de 3.400 medalhistas e o seu orçamento anual ronda os 11,5 milhões de euros, dos quais 9,5 milhões são financiados pelo Consejo Superior de Deportes e pelo Consell Català de l’Esport. Nos Jogos Olímpicos do Rio 2016, 78 dos 305 atletas da delegação espanhola eram formados ou treinados no CAR. Entre os nomes que passaram pelo centro destacam-se Mireia Belmonte, Arantxa Sánchez Vicario, Gervasi Deferr, Gemma Mengual, Ona Carbonell, Garbiñe Muguruza e o atleta mundial Serhiy Bubka.


9. Cultura, Festas e Vida Urbana

Gastronomia e Vida de Bairro

A Plaça de Barcelona é o coração do Sant Cugat mais tradicional, com esplanadas tranquilas e um ambiente de vila que contrasta com a azáfama de Barcelona. A Avenida de Gràcia — a principal artéria comercial — concentra as melhores edificações modernistas e novecentistas, além de restaurantes e lojas de qualidade.

Festas Populares

A festa principal da cidade celebra-se a 27 de julho, dia de Sant Cugat, em memória do mártir que lhe deu o nome. A romaria de Sant Medir, no dia 3 de março, é uma celebração secular com missa, sardanas, castells e uma refeição de campo na ermida homónima no interior de Collserola.

Circuito de Catalunya

A menos de 20 km de Sant Cugat encontra-se o Circuit de Catalunya (em Montmeló), um dos grandes circuitos de Fórmula 1 da Europa, facilmente acessível a partir da cidade.


10. Acessibilidade e Ligações

Sant Cugat está integrada na rede metropolitana de Barcelona e é facilmente acessível:

Meio de transporteLigaçãoTempo aproximado
FGC — Linha S1 (Terrassa)Plaça Catalunya, Barcelona~30 min
FGC — Linha S2 (Sabadell)Plaça Catalunya, Barcelona~30 min
Autopista AP-7Barcelona / Girona / França—
C-16 (Túneis de Vallvidrera)Barcelona centro~15 min de carro
B-30Eixo norte-sul da comarca—

A frequência de comboios da FGC é elevada (a cada 6–12 minutos nas horas de ponta), tornando Sant Cugat uma das cidades-dormitório mais bem servidas da área metropolitana de Barcelona, mas também um destino de turismo de proximidade para excursionistas barceloneses.


Síntese Histórica

PeríodoEvento / Marco
Séc. I a.C.Fundação do Castrum Octavianum romano
304 d.C.Martírio de Sant Cugat (Cucufate)
Séc. VConstrução da primeira basílica paleocristã
717Destruição pela invasão muçulmana
801Recuperação pelos francos
878Primeira referência documental do mosteiro
985Saque de Al-Mansur (Almançor)
c. 1190–1220Construção do claustro românico (Arnau Cadell)
Séc. XIVConclusão da igreja gótica e do rosáceo
1835Desamortização — monges abandonam o mosteiro
1877Abertura da estrada de Gràcia; fim do isolamento
1887–88Filoxera destrói as vinhas
1898Casa Armet — primeira casa modernista
1931Mosteiro declarado Monumento Nacional
1978Sant Cugat elevada à categoria de cidade
1987Fundação do CAR (Centro de Alto Rendimento)
1992Jogos Olímpicos de Barcelona; abertura do Mercantic
20178.º município mais próspero de Espanha
2025~97.959 habitantes; PIB per capita de 59.780 €