Os guardiões do conhecimento: o que será um bibliotecário no século XXI?

Este artigo é uma adaptação livre de um texto publicado originalmente em inglês por Ben Hope, Diretor da Biblioteca da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration, EUA), no LinkedIn, a 17 de junho de 2026, sob o título “It’s Time for Librarians to Rethink Librarianship” ¹. A versão aqui apresentada foi traduzida e reescrita para um contexto lusófono, mantendo as ideias centrais do autor.

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Nos últimos anos, a profissão bibliotecária tem-se interrogado sobre como preservar as bibliotecas e os bibliotecários. Mas talvez estejam a ser feitas as perguntas erradas.

Em vez de proteger títulos e estruturas, a questão central deveria ser outra: como ligar melhor as pessoas ao conhecimento de que precisam para resolver problemas, tomar decisões e avançar no saber? Não é necessariamente a mesma coisa.

Já passámos por isto antes

A história da biblioteconomia é uma história de adaptação. O catálogo em fichas deu lugar a sistemas online. Os índices em papel foram substituídos por bases de dados digitais. Os motores de busca transformaram a forma como a informação é descoberta. Cada mudança gerou ansiedade — e cada uma criou novas oportunidades para demonstrar o valor da profissão.

A inteligência artificial não é diferente. É mais uma vaga. E, tal como nas anteriores, as competências que sempre definiram os bibliotecários são precisamente as que mais importam agora: compreender como a informação é organizada, descrita, preservada e tornada pesquisável; valorizar a proveniência, a autoridade e a autenticidade; reconhecer que o acesso à informação não basta — é necessário que as pessoas confiem naquilo que encontram.

Estas não são competências do passado. São competências do futuro.

O trabalho está a mudar — mas a missão não

O bibliotecário do futuro passará menos tempo a gerir coleções físicas e mais tempo a desenhar sistemas de recuperação de informação, a sintetizar evidências, a curar repositórios digitais, a desenvolver ferramentas de descoberta com IA e a criar a infraestrutura de conhecimento que sustenta a investigação e a tomada de decisões.

Nada disto representa uma rutura com a biblioteconomia. Representa, antes, um regresso ao seu propósito mais fundo.

O que verdadeiramente preocupa não é a mudança tecnológica — é a tendência para a profissão se definir pelos mecanismos com que entrega valor, em vez de pelo valor em si. Quando existe um apego excessivo a edifícios, coleções, fluxos de trabalho ou títulos profissionais, perde-se de vista a missão que sempre mais importou.

O que os utilizadores precisam das bibliotecas

Os leitores, os alunos, os investigadores, os cidadãos — não beneficiam das bibliotecas por causa do nome que estas têm. Beneficiam do trabalho que nelas se realiza: organizar o conhecimento, preservar evidências, possibilitar a descoberta, sintetizar informação, apoiar decisões informadas.

Se no futuro estas funções forem desempenhadas com títulos diferentes — arquivistas de IA, curadores de conhecimento digital, gestores de dados de investigação — a missão permanece a mesma.

As bibliotecas resistiram durante séculos precisamente porque se adaptaram. De tábuas de argila a manuscritos iluminados, de coleções impressas a repositórios digitais, os formatos mudaram. O propósito, não.

A próxima transformação já começou

Quem liderar a profissão para o futuro compreenderá que a biblioteconomia não é definida por livros, edifícios ou mesmo pelo nome “biblioteca”. É definida pelo compromisso de garantir que o conhecimento permanece pesquisável, de confiança, acessível e preservado para as gerações futuras.

A ficção científica há muito imaginou um futuro em que os guardiões do conhecimento são essenciais para a sobrevivência da civilização — não como gestores de coleções, mas como preservadores da memória coletiva da humanidade. Esse futuro pode estar mais próximo do que se pensa.

Para quem trabalha em bibliotecas escolares, esta reflexão tem uma urgência particular. São frequentemente os primeiros a ajudar crianças e jovens a navegar num mundo saturado de informação — a distinguir o fiável do enganoso, o relevante do irrelevante. Esse papel nunca foi tão necessário.

Sempre que uma biblioteca — escolar, pública ou especializada — ajuda a sociedade a preservar, organizar e dar sentido ao seu conhecimento, está a continuar o trabalho essencial que os bibliotecários sempre fizeram. Com ou sem esse título.


¹ Hope, B. (2026, 17 de junho). It’s Time for Librarians to Rethink Librarianship [Publicação no LinkedIn]. LinkedIn. https://www.linkedin.com/posts/4benhope/

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