Lisboa, 28 de maio de 2026
Houve uma página em branco há dez anos. Hoje, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, fechou-se o décimo capítulo dessa história — e abriu-se, de imediato, o convite para o próximo. A Festa Final dos “Miúdos a Votos!”, a iniciativa de leitura e cidadania da Rede de Bibliotecas Escolares (RBE), celebrou a sua 10.ª edição com um espetáculo inteiramente feito por alunos e para alunos, sob o mote “10 Capítulos de Uma Grande Aventura”.
Foi uma festa de leitura, mas também — e é por aí que este blogue olha para ela — uma demonstração concreta de como a tecnologia, os média e a web podem estar ao serviço da formação de leitores e de cidadãos críticos desde os primeiros anos de escolaridade.
Uma eleição a sério, à escala de um país
O conceito dos “Miúdos a Votos!” é tão simples quanto poderoso: dar a crianças e jovens, do 1.º ao 12.º ano, a possibilidade de elegerem o seu livro preferido replicando os procedimentos e as normas de uma eleição real. Listas de candidatos, campanha eleitoral, dia de eleição, boletins, apuramento — tudo acontece como numa votação verdadeira, transformando a promoção da leitura num exercício vivo de cidadania democrática.
A iniciativa, organizada anualmente pela RBE desde 2016, é aberta a todas as escolas, públicas ou privadas, e estende-se a estabelecimentos de ensino no estrangeiro que tenham o Português como primeira língua. Este ano, o calendário cumpriu as etapas habituais: seleção dos livros candidatos, campanha eleitoral (de 19 de fevereiro a 20 de março), dia da eleição a 24 de março e, como ponto alto, esta festa final.
O rigor do processo assenta numa rede de parceiros que dá ao projeto credibilidade institucional e profundidade pedagógica — e é aqui que entram três nomes incontornáveis.
Pordata: o rigor por trás dos votos
O apuramento dos resultados é da responsabilidade da Pordata, que assegura a transparência e o rigor da votação. A Pordata é a Base de Dados de Portugal Contemporâneo, organizada e desenvolvida pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, e reúne estatísticas oficiais e certificadas sobre o país e a Europa. Que seja precisamente esta entidade a contar os votos não é detalhe menor: ensina aos alunos que, numa democracia, os números importam, devem ser fidedignos e podem (e devem) ser escrutinados. É literacia estatística aplicada, em estado puro. Para os dez anos, a Pordata foi mais longe e reuniu toda a história do projeto em dois painéis interativos — a que voltaremos mais abaixo.
Comissão Nacional de Eleições: a moldura democrática
O enquadramento eleitoral conta com o apoio da Comissão Nacional de Eleições (CNE), o órgão independente que vela pela regularidade dos atos eleitorais em Portugal. A sua presença reforça a dimensão cívica do projeto: votar não é escolher ao acaso, é um direito com regras, com igualdade de oportunidades entre candidatos e com respeito pelo resultado das urnas — incluindo a curiosa “Lei de Limitação de Mandatos” que o projeto adota para impedir que os mesmos títulos vençam indefinidamente.
Rádio Miúdos: a voz dos alunos
Durante a campanha, os alunos não se limitaram a fazer cartazes e debates. Gravaram podcasts — os Tempos de Antena — em que defendem o livro que mais gostam, transmitidos pela Rádio Miúdos, a primeira rádio portuguesa para crianças, online, criada em 2015 e feita com e para os mais novos. É aqui que o projeto cruza, de forma natural, a promoção da leitura com a produção mediática pelos próprios alunos: argumentar, gravar, editar som, respeitar tempos de antena, comunicar com clareza. Tudo competências de literacia dos média que a escola raramente trabalha de forma tão envolvente.
A tudo isto soma-se o acolhimento e o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, que recebeu a festa no seu auditório.
O tema: a festa lida como um livro de dez capítulos
Para assinalar a década, a festa foi desenhada como um livro com dez capítulos. No ecrã, um grande livro projetado ia virando as suas páginas, e cada bloco do espetáculo abria-se como um novo capítulo. A metáfora deu ao evento aquilo de que mais precisava: um fio condutor claro, imediatamente compreensível para uma plateia de crianças, capaz de unir num só arco narrativo a retrospetiva dos dez anos, as atuações das escolas e os anúncios dos resultados.
No ecrã, dez capítulos passaram em imagens — cartazes, alunos a votar, momentos das nove edições anteriores — enquanto uma voz off conduzia a plateia ao presente:
“Tudo começa com uma página em branco. Dez anos. Dez capítulos. Escritos por vocês — miúdos que pegaram em livros como se fossem mundos, e em votos como se fossem voz. E hoje, chegamos ao Capítulo 10. Bem-vindos à Festa Final dos Miúdos a Votos.”
A partir daí, a sala acendeu-se e a festa não mais parou.
Dez anos em retrospetiva
Intercaladas ao longo do espetáculo, surgiram as “Cápsulas do Tempo” — pequenos apontamentos em vídeo que recordaram livros vencedores, campanhas marcantes e rostos de alunos e professores que, ano após ano, fizeram crescer o projeto.
Os livros vencedores da 10.ª edição
O coração da festa foram, naturalmente, os resultados. Apurados pela Pordata, os títulos mais votados em cada ciclo de ensino foram:
- 1.º Ciclo: Não Abras Este Livro
- 2.º Ciclo: Avozinha Gângster
- 3.º Ciclo: A Criada
- Ensino Secundário: A Criada
O facto de A Criada ter conquistado simultaneamente o 3.º Ciclo e o Secundário é, por si só, um sinal interessante sobre as escolhas de leitura dos jovens portugueses — e um bom ponto de partida para conversas em sala de aula e na biblioteca escolar.
Uma década em dez livros: os vencedores de cada ano
Para assinalar os dez anos, a Pordata reuniu e tratou os dados de todas as edições e disponibilizou-os em dois painéis interativos — um dashboard estatístico e uma narrativa visual (“storytelling”). É um arquivo precioso, que permite percorrer a história do projeto ano a ano. (Nota: a Pordata identifica cada edição pelo ano da eleição, de 2017 a 2026, correspondendo aos anos letivos de 2016-2017 a 2025-2026.)
O livro mais votado em cada edição conta, por si só, uma pequena história das leituras de uma geração:
| Edição | Livro mais votado | Votos | Escolas |
|---|---|---|---|
| 2017 (1.ª) | O Principezinho | 49 317 | 440 |
| 2018 | A Avozinha Gângster | 54 476 | 505 |
| 2019 | Não Abras Este Livro | 75 970 | 727 |
| 2020 | Ano de exceção (pandemia) | 16 815 | — |
| 2021 | Gravity Falls — Diário 3 | 74 161 | 610 |
| 2022 | Gravity Falls — Diário 3 | 102 513 | 862 |
| 2023 | O Diário de Anne Frank | 117 642 | 936 |
| 2024 | A Avozinha Gângster | 109 203 | 959 |
| 2025 | Harry Potter e a Pedra Filosofal | 121 060 | 960 |
| 2026 (10.ª) | Revelado hoje (vencedores por ciclo, acima) | 118 510 | 968 |
Fonte: Pordata / Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Há nesta tabela várias leituras. O arranque, em 2017, com O Principezinho — o clássico de Saint-Exupéry — a vencer logo na primeira edição. A ascensão do fenómeno Gravity Falls, que venceu dois anos consecutivos (2021 e 2022) em plena recuperação pós-pandemia. E momentos de enorme significado, como a vitória de O Diário de Anne Frank em 2023, prova de que os jovens leitores também procuram a memória e a História.
Os números de uma geração
Os dados da Pordata traduzem em números aquilo que se sente na sala: o projeto não parou de crescer. Começou com 440 escolas em 2017 e chegou a 968 escolas em 2026 — um crescimento de 120%. Ao longo da década, foram contabilizados cerca de 845 mil votos.
A única quebra aconteceu em 2020, quando a pandemia de COVID-19 fechou as escolas: nesse ano registaram-se apenas 16 815 votos, uma queda de 78%. Mas a recuperação foi imediata — em 2021, os votos voltaram aos 74 161, como se nada tivesse acontecido. Os livros, esses, nunca fecharam.
Os campeões de uma geração
Olhando para as dez edições no seu conjunto, a Pordata destaca os títulos com mais presenças no pódio ao longo do tempo:
- 1.º lugar histórico: A Avozinha Gângster — 15 presenças no pódio
- 2.º lugar histórico: Harry Potter e a Pedra Filosofal — 14 presenças no pódio
- 3.º lugar histórico: O Diário de Anne Frank — 12 presenças no pódio
E, por ciclo de ensino, os líderes históricos são Gravity Falls — Diário 3 (no 1.º e no 2.º Ciclos), A Avozinha Gângster (no 3.º Ciclo) e After — Depois de o Conhecer (no Ensino Secundário) — um retrato fiel da diversidade de gostos que convive neste universo, do humor à fantasia, do diário ao romance juvenil.
Prémio Melhor Campanha: quando ler é também comunicar
A reta final do espetáculo foi reservada ao Prémio Melhor Campanha, que distingue as ações de campanha mais criativas desenvolvidas pelas escolas. Foram atribuídos quatro prémios monetários de 600€ cada, um por cada categoria de ensino.
As escolas distinguidas foram Padrão da Légua, Carregal do Sal, António Gedeão e Paços de Ferreira. Este prémio é, talvez, o que melhor traduz a alma contemporânea do projeto: premeia não apenas a leitura, mas a capacidade de a comunicar — através de cartazes, debates, podcasts, vídeos e ações junto da comunidade. Ler, argumentar, persuadir e mobilizar: competências de cidadania e de literacia mediática que servirão estes alunos muito para além da escola.
Porque é que isto interessa a quem pensa TIC, Educação e Web
Vista da perspetiva deste blogue, a Festa Final dos “Miúdos a Votos!” é muito mais do que uma celebração da leitura. É um caso de estudo sobre integração de tecnologia, média e cidadania no quotidiano escolar:
- Produção mediática pelos alunos: os podcasts dos Tempos de Antena, transmitidos pela Rádio Miúdos, colocam os estudantes no papel de criadores de conteúdo, não apenas de consumidores.
- Literacia estatística e dados abertos: o apuramento pela Pordata abre a porta a trabalhar dados, gráficos e interpretação de resultados com rigor.
- Cidadania digital e democrática: ao replicar uma eleição real, com o apoio da CNE, o projeto ensina regras, igualdade de oportunidades e respeito pelo voto — fundamentos de uma cidadania que também é digital.
- A web como palco e arquivo: o Portal RBE documenta cada uma das dez edições, criando uma memória pública e acessível do projeto.
Num tempo em que tanto se discute o lugar dos ecrãs na infância, os “Miúdos a Votos!” oferecem uma resposta serena e construtiva: a tecnologia ao serviço da palavra, da leitura e da voz dos mais novos. Como lembra o lema da Rádio Miúdos, “quando os miúdos se expressam em liberdade, a democracia floresce”.
O Capítulo 10 fechou-se hoje na Gulbenkian. O Capítulo 11 começa já a ser escrito — nas bibliotecas escolares, nas salas de aula e, cada vez mais, também na web.
Saber mais
- Página oficial da iniciativa: Portal RBE — Miúdos a Votos
- Histórico das dez edições (2016-2026): Portal RBE
- Painel interativo de estatísticas (10 anos): Pordata — Miúdos a Votos (https://pordata.bitbucket.io/Apps-pordata/muidos-a-votos/index.html)
- Narrativa visual dos 10 anos: Pordata — Miúdos a Votos: 10 Anos de História (https://pordata.bitbucket.io/Apps-pordata/muidos-a-votos/storytelling.html)
- Parceiros: Pordata, Rádio Miúdos, Comissão Nacional de Eleições e Fundação Calouste Gulbenkian

