Como é que a Inteligência Artificial está a mudar, de facto, a sala de aula? Entre simuladores de Geometria, tutores de Poesia e agendas digitais para alunos com necessidades especiais, uma ação de formação em “IA e Ética” no Centro de Formação de Escolas do Concelho de Oeiras (CFECO) mostrou que o professor continua a ser a bússola ética e o curador de inteligência neste novo ecossistema digital.
A Inteligência Artificial entrou definitivamente nas escolas. Já não é um tema “de futuro”, é uma questão de prática diária, de decisões concretas na sala de aula e no conselho pedagógico. A formação “IA e Ética: desafios e oportunidades” nasceu precisamente desta urgência: como modernizar o ecossistema educativo sem perder de vista a responsabilidade ética e o papel insubstituível do professor.
Mais do que ensinar a “mexer em ferramentas”, esta formação ajudou a mudar o enquadramento: a IA deixou de ser vista como acessório tecnológico e passou a ser entendida como parte da arquitetura pedagógica. Ao trabalhar com ChatGPT, Claude, NotebookLM, Gemini, Gama, SchoolAI ou Vibe Coding, os docentes perceberam que não basta consumir tecnologia; é preciso cocriá‑la, criticá‑la e enquadrá‑la no currículo. O professor torna‑se, assim, um curador de inteligência: filtra, seleciona, combina e faz as perguntas certas.
Quando a IA entra na Geometria, na Geografia e na Sustentabilidade
Nas áreas das Ciências, Matemática e Sustentabilidade, a mudança foi muito visível. Usando IA para gerar ficheiros .GPP no GeoGebra, os professores de Geometria transformaram exercícios estáticos em explorações dinâmicas: os alunos manipularam polígonos, testaram hipóteses, compararam áreas e perímetros em tempo real.
Com Vibe Coding, surgiram simuladores de zonas costeiras para estudar a acidificação dos oceanos. Ao alterar variáveis como poluição ou subida do nível do mar, os alunos observavam imediatamente as consequências no modelo. A ciência deixava de ser só teoria para se tornar experimentação em ambiente digital.
Em Geografia e Inglês, a IA apoiou projetos ligados à pegada ecológica e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Ferramentas como o Trysider serviram para recolher opiniões dos alunos, promover debate e trabalhar, em simultâneo, literacia ambiental, argumentação e participação democrática. A IA funcionou como laboratório de dados e cenários; o pensamento crítico ficou nas mãos dos alunos e dos professores.
Poesia, humanismo e o lugar da autoria
Nas Humanidades, a tensão entre humano e máquina é particularmente sensível. A pergunta é inevitável: o que acontece à autoria num mundo em que um modelo pode gerar poemas em segundos?
Um dos grupos trabalhou com um Tutor de Poesia em SchoolAI. Em vez de dar respostas prontas, a ferramenta foi configurada como guia socrático: coloca questões, chama a atenção para recursos expressivos, sugere ângulos de leitura. A interpretação, no entanto, continua a ser tarefa do aluno.
No 1.º Ciclo, um projeto sobre o ensino das cores ajudou a revelar o “lado B” da integração da IA: a parte técnica. Houve dificuldades com layouts na ferramenta Gama e com código corrompido pelo uso do Word. A solução passou por assumir uma competência que muitas vezes é invisível: compreender que, para editar HTML em segurança, é preciso recorrer a editores de texto simples. A literacia digital do professor inclui, cada vez mais, esta gramática dos bastidores.
IA como ferramenta de inclusão: Educação Especial e PLNM
Onde a dimensão humanista da IA se torna mais evidente é na Educação Especial e no Português Língua Não Materna. Uma Agenda Digital para alunos com perturções do espetro do autismo, construída com apoio de IA, ajudou a estruturar rotinas visuais e a reduzir a ansiedade associada à imprevisibilidade do dia.
No âmbito do “Método das 28 Palavras”, a criação de recursos imagem‑palavra para alunos não verbais mostrou que a IA pode acelerar a produção de materiais altamente personalizados. No PLNM, a combinação de tradução automática, geração de imagens e flashcards facilitou a entrada de alunos recém‑chegados no vocabulário básico da escola e do quotidiano.
Neste cenário, a IA não substitui a relação pedagógica; amplia o raio de ação do professor e torna mais viável a diferenciação. A inclusão deixa de ser apenas um princípio abstrato e ganha suporte técnico concreto.

Desafios, limites e a indispensável curadoria docente
A formação também tornou visíveis vários problemas reais:
- Conflito PT‑BR / PT‑PT e enviesamentos culturais nas respostas.
- Alucinações e erros científicos em conteúdos gerados.
- Limites de créditos em ferramentas, que interrompem projetos em curso.
- Erros de código causados por formatação invisível em processadores de texto.
A resposta não é abandonar a IA, mas reforçar a curadoria humana. O professor assume o papel de filtro linguístico, verificador de fontes, gestor de ferramentas. A competência crucial deixa de ser “saber tudo” e passa a ser saber perguntar, confirmar e corrigir.
Da sala de aula ao regulamento: a governação da IA
Esta transformação não pode ficar apenas na esfera da aula. Um dos grupos trabalhou a reconfiguração de um corredor para o transformar num “Ponto de Biblioteca”, recorrendo a IA para simular fluxos, disposição de mobiliário e organização de recursos. Outro grupo desenhou um rascunho de regulamento interno para o uso da IA na escola, ancorado na legislação em vigor.
A mensagem é clara: a IA exige uma visão de conjunto. Escolas que queiram integrar estas ferramentas de forma responsável precisam de:
- Infraestrutura tecnológica minimamente estável (e, em alguns casos, versões pagas das ferramentas).
- Formação contínua, em cascata, com partilha de boas práticas e de “más práticas” também.
- Um regulamento vivo, revisto regularmente, que acompanhe a velocidade da evolução tecnológica.
E agora? O professor como arquiteto e bússola
Ao longo da formação, o movimento foi nítido: do ceticismo defensivo para um entusiasmo prudente. A IA não apareceu como “ameaça ao professor”, mas como um poderoso assistente de diferenciação pedagógica – desde que haja supervisão qualificada e uma ética clara.
O professor do século XXI é, cada vez mais:
- Mediador cultural, que põe em diálogo textos, dados, imagens e contextos.
- Arquiteto de experiências de aprendizagem, que desenha atividades onde a IA acrescenta valor.
- Bússola ética, que ajuda os alunos a navegar num mar de informação rápida, mas nem sempre rigorosa.
Se a escola conseguir articular estes papéis com condições materiais reais e um quadro ético robusto, então o encontro entre humanismo e algoritmo deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma oportunidade para elevar o potencial de cada aluno.


