O que uma revisão sistemática diz sobre formar professores para a IA

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Uma revisão sistemática publicada na revista Frontiers in Education conclui que o maior obstáculo à formação de professores em inteligência artificial não é técnico, é motivacional — e que a maioria dos programas de formação continua a ser desenhada como se fosse o contrário. É um estudo pequeno, com limitações que vale a pena nomear, mas com três ou quatro conclusões que qualquer plano de formação de um agrupamento português deveria ter em conta antes de setembro.

Há uma cena que se repete em quase todas as escolas do país no início de cada ano letivo: alguém propõe uma ação de formação sobre inteligência artificial, a sala enche-se de professores com graus de entusiasmo muito diferentes, e três meses depois a prática letiva da maioria continua exatamente igual. Não é falta de qualidade do formador nem, na maior parte dos casos, falta de interesse dos formandos. É outra coisa — e é precisamente essa outra coisa que uma revisão sistemática publicada em outubro de 2024 na revista Frontiers in Education tentou identificar, ao perguntar não o que falta aos professores, mas que dificuldades encontram quem os forma.

Uma revisão pequena sobre um problema grande

O estudo é assinado por Yousef Aljemely, do College of Education da Universidade Majmaah, na Arábia Saudita, e segue o protocolo PRISMA, hoje a referência para revisões sistemáticas em ciências sociais e educação. A pesquisa, feita manualmente em julho de 2024 sobre sete bases de dados e nove editoras científicas, partiu de 816 registos e reteve, após a aplicação de critérios de inclusão e exclusão, um conjunto final de dez estudos publicados entre 2019 e 2024 — investigações realizadas na China, na Alemanha, na Turquia, em Espanha, em Omã, na República da Iacútia e num consórcio búlgaro-italiano-grego, a que se juntam três trabalhos de natureza teórica, sem país de referência.

Convém dizer desde já aquilo que o próprio autor reconhece: dez estudos são poucos, todos em língua inglesa, e a esmagadora maioria refere-se ao ensino superior. Nenhuma das conclusões desta revisão pode ser lida como evidência forte sobre o que acontece numa sala de aula do 2.º ciclo em Portugal. Vale mais como mapa de hipóteses do que como diagnóstico — mas é um mapa útil, porque nomeia com clareza um problema que a conversa portuguesa sobre formação docente costuma contornar.

O maior obstáculo não é técnico

A conclusão central da revisão é desconfortável para quem organiza formação: o principal desafio que os formadores enfrentam não é a dificuldade técnica dos conteúdos, é a falta de motivação dos professores para adotar inteligência artificial. E a dificuldade acrescida, sublinha o autor, é que a motivação é um fator intrínseco, sobre o qual um formador tem muito pouco poder direto. Pode-se ensinar uma competência; não se pode instalar uma vontade. O que se pode fazer — e é aqui que a revisão se torna prática — é desenhar a formação de modo a que a vontade tenha oportunidade de aparecer.

Um dos estudos analisados, conduzido por Sara Polak, Gianluca Schiavo e Massimo Zancanaro no âmbito da conferência CHI, propõe uma distinção que organiza bem o problema: a utilização de IA pelos professores depende de três fatores — vontade, competência e ferramenta. Os autores observam que os docentes possuem, em regra, conhecimentos digitais de base, mas não conhecimento específico sobre inteligência artificial. Traduzido para a realidade de um agrupamento português, isto significa que a lacuna raramente está onde se supõe: não é preciso ensinar de novo a usar uma plataforma ou a partilhar um ficheiro, é preciso explicar o que estes sistemas são, como funcionam e onde falham. E a formação que salta esse passo — que começa em «vamos abrir esta ferramenta» — está a trabalhar a competência sem tocar na vontade, que é justamente onde a revisão localiza o bloqueio.

Vinte e cinco por cento

O dado mais concreto de toda a revisão, e o mais próximo da realidade ibérica, vem de um inquérito espanhol de 2024 conduzido por Héctor Galindo-Domínguez e colegas da Universidade do País Basco, com 445 professores dos ensinos básico, secundário e superior. A atitude geral face à inteligência artificial era positiva, mas apenas 25% dos inquiridos — cerca de 111 professores, aplicando a percentagem ao total da amostra — tinham efetivamente integrado ferramentas de IA na sua prática letiva. As mais usadas eram o ChatGPT, o Dall-E e o Midjourney.

Mas há um segundo achado nesse estudo que interessa ainda mais a quem trabalha no básico e no secundário, e que a revisão de Aljemely não destaca com suficiente ênfase. Os professores dos ensinos básico e secundário usavam sobretudo a inteligência artificial para produzir conteúdos — apresentações, textos, vídeos — sem envolver os alunos no contacto com as ferramentas; já no ensino superior, os docentes usavam-na para explicar o funcionamento da própria tecnologia e para permitir que os estudantes experimentassem com ela. A diferença é significativa: no primeiro caso, a IA é uma máquina de fazer materiais para o professor; no segundo, é objeto de estudo e de literacia. Se a formação de professores replicar apenas o primeiro modelo — e a formação centrada em ferramentas tende a fazê-lo —, os alunos do básico e do secundário continuarão a ser as únicas pessoas na sala que usam IA sem ter ninguém a ensiná-los a olhar para ela criticamente.

A ordem dos fatores altera o produto

Vários dos estudos revistos convergem numa recomendação sobre a sequência da formação, e é provavelmente a conclusão mais aplicável de toda a revisão. Annabel Lindner e Marc Berges, num trabalho apresentado na conferência Frontiers in Education do IEEE, defendem que a formação deve começar pelos princípios funcionais — o que é, de facto, um modelo de linguagem, o que significa treinar um sistema com dados —, avançar depois para o detalhe técnico e só então abordar as consequências éticas e sociais. E acrescentam um pré-requisito: antes de qualquer formação, é preciso trabalhar a atitude dos professores face à tecnologia, porque só a aceitação prévia permite uma aprendizagem ativa em vez de uma assistência passiva.

Ismail Celik, num estudo publicado na Computers in Human Behavior, dá a esta ideia um enquadramento reconhecível para quem conhece o modelo TPACK: propõe o conceito de «TPACK inteligente», que acrescenta ao conhecimento tecnológico, pedagógico e de conteúdo duas dimensões próprias da IA — o conhecimento das suas potencialidades pedagógicas e o conhecimento da sua utilização ética. A distinção é útil porque desfaz uma confusão comum: saber usar uma ferramenta de IA e saber quando ela serve, para que aluno e com que salvaguardas são competências diferentes, e apenas a segunda é propriamente docente. Há ainda um ponto prático que atravessa a revisão e que qualquer formador reconhece: a formação tem de incluir experimentação direta, com tempo real para os professores mexerem nos sistemas, e não apenas demonstrações feitas de um projetor.

O que trava e, não é só falta de tempo

O estudo omanense de Hilal Al-Mughairi e Preeti Bhaskar, sobre a adoção do ChatGPT por docentes, identifica quatro motivações e três inibições que vale a pena ter presentes ao desenhar qualquer plano de formação. Do lado da motivação: a curiosidade por tecnologias educativas inovadoras, a poupança de tempo, a personalização do ensino e da aprendizagem e o desenvolvimento profissional. Do lado da inibição: a privacidade, a fiabilidade e a redução da interação humana. E as três barreiras que os autores identificam como as mais determinantes para a baixa utilização não são individuais, são institucionais — falta de apoio da instituição, restrições impostas por ela e ausência de orientação clara.

Esta última conclusão devia ser lida com atenção por quem dirige escolas. Um professor que não sabe se pode usar um assistente de IA para preparar uma ficha, se pode mencioná-lo aos alunos, se corre algum risco ao fazê-lo, resolve a incerteza da forma mais racional disponível: não faz nada e não conta a ninguém. A ausência de uma orientação escrita não produz prudência — produz utilização silenciosa, sem partilha entre pares e sem qualquer possibilidade de supervisão pedagógica. Uma página com regras claras, aprovada em conselho pedagógico, pode ter mais efeito formativo do que várias horas de ação acreditada.

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O que isto diz ao contexto português

Em maio deste ano, o Conselho Nacional de Educação publicou em Diário da República a Recomendação n.º 4/2026, sobre a integração da inteligência artificial no sistema educativo português, e as suas propostas para os docentes coincidem quase ponto por ponto com o que esta revisão sistemática sugere. O CNE defende a revisão da formação inicial de professores, tornando obrigatórios módulos de literacia em IA que abranjam literacia digital, pensamento computacional, literacia crítica de dados e ética da inteligência artificial, a par de investimento em programas de desenvolvimento profissional contínuo. Reconhece o potencial da tecnologia na aprendizagem e na redução da carga administrativa das escolas, mas avisa contra uma integração «acrítica e desordenada».

O cruzamento entre o documento nacional e a evidência internacional deixa, porém, uma questão em aberto. A recomendação portuguesa identifica corretamente os conteúdos que faltam; a revisão sistemática diz que o problema não está sobretudo nos conteúdos, mas na vontade e nas condições institucionais. São diagnósticos compatíveis, mas o segundo obriga a uma exigência adicional: um plano de formação que se limite a listar módulos, sem tratar a atitude, sem garantir tempo de experimentação e sem produzir orientação escrita ao nível de cada escola, corre o risco de cumprir a recomendação no papel e de deixar tudo na mesma na sala de aula. O quadro europeu DigCompEdu, já usado em Portugal para aferir competência digital docente, oferece a linguagem para essa avaliação, mas não substitui a decisão local sobre o que se autoriza, o que se proíbe e o que se declara.

Uma proposta para o plano de formação

Traduzir esta revisão numa sessão concreta é mais simples do que parece, e cabe numa manhã de trabalho de um grupo disciplinar ou de uma equipa de agrupamento. A primeira parte pode dispensar por completo qualquer ferramenta: pede-se a cada participante que escreva, em cinco minutos, uma tarefa profissional que fez na última semana e que não confiaria a um sistema de inteligência artificial, e outra que confiaria sem hesitar. A leitura em voz alta das respostas costuma revelar, em poucos minutos, que o grupo tem critérios muito diferentes sobre a mesma questão — e é essa constatação, mais do que qualquer exposição teórica, que abre espaço para a conversa sobre princípios de funcionamento e sobre ética.

A segunda parte troca a demonstração pela experimentação com um objetivo comum: cada participante submete a um assistente de IA uma tarefa real do seu trabalho — um enunciado, um resumo de uma reunião, uma grelha de observação — e avalia por escrito, em três linhas, o que teria de corrigir antes de usar o resultado. Não se trata de decidir se a ferramenta é boa; trata-se de treinar o julgamento profissional sobre o que ela produz, que é exatamente a competência que o «TPACK inteligente» descreve e que nenhuma formação centrada em botões consegue desenvolver. A sessão termina com a redação coletiva de um documento de meia página com três regras de utilização para a escola — o que nunca se introduz num sistema destes, o que se verifica sempre, o que se declara aos alunos e às famílias —, levado depois a conselho pedagógico. É a única parte do exercício que a revisão sistemática não sugere diretamente, mas é a que responde à barreira que os seus estudos identificam como mais determinante.

No fundo, o que este trabalho devolve a quem organiza formação não é uma lista de conteúdos, é uma inversão de prioridades. Durante três anos, a resposta institucional à chegada da inteligência artificial às escolas tem sido ensinar ferramentas a professores que ainda não decidiram se as querem usar, e para quê. A evidência disponível, ainda que escassa, aponta para o contrário: primeiro a conversa sobre a vontade e sobre as regras, depois a competência, e só no fim a ferramenta — que, essa, muda de nome de seis em seis meses.


Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura integral do artigo de acesso aberto de Yousef Aljemely publicado na revista Frontiers in Education, com verificação independente dos estudos primários citados.

Referências

Al-Mughairi, H., & Bhaskar, P. (2024). Exploring the factors affecting the adoption of AI techniques in higher education: Insights from teachers’ perspectives on ChatGPT. Journal of Research in Innovative Teaching & Learning. https://doi.org/10.1108/JRIT-09-2023-0129

Aljemely, Y. (2024). Challenges and best practices in training teachers to utilize artificial intelligence: A systematic review. Frontiers in Education, 9, Artigo 1470853. https://doi.org/10.3389/feduc.2024.1470853

Celik, I. (2023). Towards intelligent-TPACK: An empirical study on teachers’ professional knowledge to ethically integrate artificial intelligence (AI)-based tools into education. Computers in Human Behavior, 138, Artigo 107468. https://doi.org/10.1016/j.chb.2022.107468

Conselho Nacional de Educação. (2026, 21 de maio). Recomendação n.º 4/2026 — Integração da Inteligência Artificial no sistema educativo português. Diário da República, 2.ª série. https://www.cnedu.pt

Galindo-Domínguez, H., Delgado, N., Losada, D., & Etxabe, J.-M. (2024). An analysis of the use of artificial intelligence in education in Spain: The in-service teacher’s perspective. Journal of Digital Learning in Teacher Education, 40(1), 41–56. https://doi.org/10.1080/21532974.2023.2284726

Lindner, A., & Berges, M. (2020). Can you explain AI to me? Teachers’ pre-concepts about artificial intelligence. Em 2020 IEEE Frontiers in Education Conference (FIE) (pp. 1–9). IEEE.

Polak, S., Schiavo, G., & Zancanaro, M. (2022). Teachers’ perspective on artificial intelligence education: An initial investigation. Em CHI Conference on Human Factors in Computing Systems Extended Abstracts (pp. 1–7). ACM.

Redecker, C., & Punie, Y. (2017). European framework for the digital competence of educators: DigCompEdu. Serviço das Publicações da União Europeia. https://data.europa.eu/doi/10.2760/159770

Para saber mais

Quadro europeu DigCompEdu, no Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia, com as seis áreas e os seis níveis de progressão da competência digital docente.

Artigo integral de Yousef Aljemely na Frontiers in Education, em acesso aberto e com licença Creative Commons.

Página do Conselho Nacional de Educação, onde a Recomendação n.º 4/2026 é acompanhada de um estudo complementar sobre a integração da IA no sistema educativo português.

Sinais de que a escola precisa (mesmo) de formação em Inteligência Artificial

Num momento em que a inteligência artificial já faz parte do quotidiano dos alunos – nos motores de busca, nas redes sociais, nas plataformas de aprendizagem –, muitas escolas continuam sem uma estratégia clara para lidar com esta transformação. Fala‑se de IA quase sempre como ameaça de plágio ou “moda tecnológica”, mas raramente como oportunidade pedagógica para personalizar a aprendizagem, reforçar a inclusão e desenvolver pensamento crítico. Quando a IA é reduzida a medo, silêncio ou proibição genérica, esse é um dos sinais mais evidentes de que a instituição precisa de investir seriamente em formação: não apenas em mais dispositivos, mas em conhecimento, ética e tempo para que professores possam experimentar, errar e aprender com estas ferramentas.

Nos últimos anos, a Inteligência Artificial (IA) deixou de ser tema de ficção científica para se tornar parte da rotina de alunos e professores, através de motores de busca, plataformas educativas, sistemas de recomendação e ferramentas generativas como chatbots. Organismos internacionais como a UNESCO e várias revisões sistemáticas sobre IA nas escolas já alertam que integrar estas tecnologias de forma responsável é decisivo para a qualidade da educação e para a preparação dos estudantes para o futuro do trabalho.

Contudo, muitas instituições de ensino continuam sem uma estratégia clara para lidar com esta transformação: olham para a IA com desconfiança, reduzem o tema ao plágio ou à “moda do momento” e deixam professores e alunos sozinhos a tentar compreender o que está a acontecer. Este artigo identifica alguns sinais muito concretos de que uma escola, um agrupamento ou uma instituição de ensino superior precisa de investir a sério em formação em IA – não apenas em mais tecnologia, mas em conhecimento, reflexão pedagógica e ética.

1. Quando a IA é só “mais uma tecnologia” ou “uma ameaça”

Um dos primeiros sinais é o modo como se fala de IA na escola. Em muitas reuniões, a sigla surge apenas em dois contextos: como “mais uma tecnologia digital” indistinta ou como ameaça de plágio e fraude académica.

  • Se os docentes confundem IA com qualquer ferramenta digital, sem distinguir, por exemplo, entre um editor de texto e um sistema generativo que “inventa” conteúdos, há um problema de literacia técnica de base.
  • Se a IA só aparece nas conversas como algo a proibir ou controlar, e nunca como possibilidade de apoio à aprendizagem, diferenciação pedagógica ou inclusão, há um desequilíbrio sério na forma como a instituição olha para o tema.

Esta visão estreita não protege a escola: apenas empurra o uso da IA para fora do olhar pedagógico, deixando os alunos a experimentar sem orientação crítica nem enquadramento ético.

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2. Quando o currículo ignora a Inteligência Artificial

Outro sinal importante é o lugar – ou a ausência – da IA nos currículos e planos de curso. Revisões recentes sobre IA nas escolas mostram que o tema se distribui por quatro grandes áreas: processos de ensino, currículo e formação docente, gestão educacional e implicações éticas. Se o currículo da instituição praticamente não toca em nenhuma destas dimensões, é provável que a formação em IA esteja a ser negligenciada.

Vale a pena observar:

  • Os programas de disciplina mencionam IA de forma consistente, em várias áreas (ciências, humanidades, artes, cidadania digital)?
  • Existem projetos interdisciplinares em que os alunos analisam o impacto da IA no trabalho, na democracia, na saúde ou na cultura?
  • Os cursos de informática e tecnologias continuam focados apenas em hardware e programação tradicional, sem introduzir conceitos de aprendizagem automática, sistemas de recomendação ou algoritmos de decisão?

Quando o currículo ignora a IA, os alunos aprendem a usar estas ferramentas “por fora”, sem qualquer apoio da escola para desenvolver uma literacia crítica – isto é, a capacidade de compreender como funcionam, que oportunidades oferecem e que riscos trazem.

3. Quando não há política ética nem debate sobre riscos

A terceira dimensão é ética e de segurança. Guias internacionais sobre IA e educação insistem que a adoção destas tecnologias deve vir acompanhada de princípios claros: proteção de dados, transparência, não discriminação, responsabilidade e supervisão humana.

Sinais de alerta:

  • A instituição não tem qualquer documento que enquadre o uso de IA: não há critérios para escolher ferramentas, nem regras sobre que dados podem ser recolhidos, nem mecanismos de supervisão.
  • Pais e encarregados de educação não são informados sobre que plataformas de IA estão a ser usadas, com que objetivos e como são protegidos os dados dos alunos.
  • Não existe um protocolo para lidar com situações em que a IA produz conteúdos ofensivos, enviesados ou simplesmente errados.

Além disso, se nunca se discute em sala de aula o facto de que algoritmos podem reproduzir preconceitos presentes nos dados de treino – por exemplo, em sistemas de recrutamento, crédito ou avaliação de risco – a escola falha na sua missão de formar cidadãos críticos num mundo profundamente mediado por tecnologias automatizadas.

4. Quando a cultura da escola é de medo ou de inércia

A forma como a comunidade educativa reage à IA diz muito sobre a necessidade de formação. Estudos sobre literacia em IA de professores mostram que o receio é legítimo: muitos docentes sentem insegurança perante ferramentas que parecem “saber tudo” e levantam dúvidas sobre avaliação, plágio e autonomia intelectual dos alunos.

Esse receio, porém, pode evoluir em duas direções:

  • Uma cultura de rejeição, em que se fala da IA como “moda” ou “ameaça” e se recusa qualquer projeto de inovação.
  • Uma cultura de responsabilidade, em que se reconhece o potencial da IA para apoiar a aprendizagem, mas se exige enquadramento ético, políticas públicas e formação contínua.

Se a escola fica presa na primeira reação – medo, proibição, invisibilidade do problema – e não avança para a segunda, é um sinal claro de que faltam espaços de discussão e formação que devolvam aos docentes confiança e protagonismo nesta transição.

5. Quando a formação de professores não acompanha a realidade

Outra indicação forte é o estado da formação inicial e contínua de professores. Pesquisas recentes mostram que muitas escolas de educação superior ainda não preparam docentes para usar IA de forma pedagógica, crítica e ética.

Na prática, isso vê‑se quando:

  • Os planos anuais de formação contínua ignoram temas como IA, literacia digital avançada ou ética tecnológica.
  • Não existem workshops, seminários ou comunidades de prática dedicadas a explorar usos pedagógicos de IA, partilhar experiências e discutir desafios.
  • Tudo depende da iniciativa individual de alguns “entusiastas da tecnologia”, sem apoio institucional estruturado.

Sem formação sistemática, a IA entra na escola “pela porta dos fundos”: os alunos usam, os professores experimentam, mas ninguém tem tempo, apoio ou referências suficientes para construir uma abordagem consistente e responsável.

6. Quando a tecnologia está lá, mas não está ao serviço da pedagogia

A infraestrutura tecnológica também revela muito sobre a necessidade de formação em IA. Ter dispositivos e conectividade não basta; é preciso que a tecnologia esteja ao serviço de uma visão pedagógica clara.

Algumas perguntas úteis:

  • As ferramentas de IA usadas pela escola foram escolhidas com critérios pedagógicos e éticos, ou surgiram apenas porque são populares ou gratuitas?
  • Existem contas institucionais ou ambientes controlados para experimentar IA com os alunos, com supervisão e proteção de dados?
  • As equipas técnicas e de liderança compreendem as implicações de privacidade, segurança e equidade associados a sistemas de IA?

Se a resposta é negativa, o problema não é só “falta de tecnologia”, mas falta de estratégia: a escola precisa de formação que ajude a alinhar escolhas tecnológicas com objetivos educativos e princípios éticos.

7. Quando a escola se desliga do mundo do trabalho (e da investigação)

Por fim, há um sinal que muitas vezes passa despercebido: o grau de ligação da escola ao mundo do trabalho e às redes de investigação em IA e educação. Relatórios sobre prontidão em IA no ensino superior mostram um fosso crescente entre o que se ensina na universidade e o que o mercado de trabalho exige em termos de competências digitais e de IA.

Se:

  • Cursos profissionais e universitários não incluem módulos sobre IA, automação, análise de dados ou tomada de decisão algorítmica,
  • Estudantes chegam aos estágios sem qualquer preparação prévia para trabalhar com ferramentas de IA usadas nas empresas,
  • A instituição raramente participa em projetos‑piloto, parcerias com centros de investigação ou redes de escolas que experimentam IA,

então está a perder uma oportunidade de preparar melhor os alunos e de aprender com outros atores do sistema educativo.

E agora? Formação não é “mais uma tarefa”, é condição de futuro

Perante estes sinais, a conclusão é clara: a questão já não é “se” a escola deve integrar IA, mas “como” o faz, com que objetivos e sob que responsabilidade pedagógica e ética. Ignorar o tema, proibi‑lo de forma genérica ou delegar tudo na iniciativa de alguns professores é uma estratégia de alto risco.

Formação em IA, neste contexto, não significa transformar todos os docentes em programadores, mas ajudá‑los a:

  • Compreender o funcionamento básico das principais ferramentas de IA usadas pelos alunos e pela própria instituição.
  • Explorar usos pedagógicos que reforcem o pensamento crítico, a personalização da aprendizagem e a inclusão, em vez de substituir o esforço intelectual.
  • Discutir abertamente riscos, enviesamentos, desafios de avaliação e impacto da IA na cidadania e no mundo do trabalho.
  • Participar na construção de políticas éticas e de proteção de dados que coloquem a tecnologia ao serviço da educação – e não o contrário.

A IA pode ser uma aliada poderosa da escola, mas só o será se for integrada por professores confiantes, formados e críticos, apoiados por lideranças que assumem esta transição como responsabilidade coletiva, e não como “mais uma tarefa” acumulada.

Se a tua instituição se reconhece em vários dos sinais descritos acima, isso não é motivo de culpa, mas um bom ponto de partida: o primeiro passo da formação é, precisamente, identificar o problema e decidir que não se quer ficar para trás.

IX Encontro Leitur@s: Ana Paula Ferreira e Jorge Borges levam a inteligência artificial ao debate sobre a leitura, em Seia

No IX Encontro «Leitur@s», em Seia, Ana Paula Ferreira e Jorge Borges abrem os trabalhos com um painel sobre multiliteracias na era da IA e dinamizam dois workshops que questionam o papel dos assistentes de inteligência artificial na leitura e no ensino.

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Nos dias 4 e 5 de setembro de 2026, a Casa Municipal da Cultura de Seia recebe o IX Encontro «Leitur@s», subordinado ao tema «Entre páginas, pixels e pessoas». O programa, entretanto divulgado, junta educadores de infância, professores dos vários ciclos do ensino básico e secundário, docentes de educação especial e professores bibliotecários num formato que combina painéis de reflexão com workshops práticos, distribuídos ao longo de dois dias intensos. A ação está creditada pelo Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua e pelo Centro de Formação de Associação de Escolas Guarda 1, num total de treze horas, e a inscrição custa dez euros.

Entre os nomes que dão corpo ao programa, dois são particularmente familiares a quem acompanha este espaço: Ana Paula Ferreira e Jorge Borges assumem um papel central logo na abertura dos trabalhos e repetem-se, ao longo dos dois dias, em dois dos quatro workshops que compõem o encontro.

Uma abertura a duas vozes

O primeiro painel do encontro, agendado para as 10h00 de sexta-feira, chama-se «Ler o mundo em múltiplos formatos: multiliteracias na era da IA» e tem como dinamizadores, precisamente, Ana Paula Ferreira e Jorge Borges. A escolha não é despicienda: os dois autores assinam em conjunto o livro Digital Curation in Education: Towards Meaningful Learning, publicado ainda este ano, onde defendem que a curadoria digital deve ser entendida como uma competência estrutural na formação de professores, e não como uma boa prática opcional. É natural, por isso, que o painel de abertura do «Leitur@s» retome essa preocupação central: como é que a leitura — entendida em sentido lato, para lá do texto impresso — se reorganiza quando múltiplos formatos e sistemas de inteligência artificial entram na equação da sala de aula.

«Usar ou ser usado?»: o workshop de Ana Paula Ferreira

Ana Paula Ferreira dinamiza ainda o workshop «Usar ou ser usado? Assistentes de IA», repetido nada menos que quatro vezes ao longo do encontro — sexta-feira às 15h00 e às 17h00, sábado às 9h00 e às 11h00 —, o que sugere uma procura antecipada elevada e a intenção de garantir que todos os grupos de participantes possam frequentá-lo em regime de rotação. O próprio título, construído como pergunta, deixa antever uma discussão sobre agência e autonomia: até que ponto os assistentes conversacionais de IA são uma ferramenta ao serviço da leitura crítica e da pesquisa escolar, e a partir de que ponto é o utilizador que passa a ser conduzido pelas sugestões da máquina. É uma questão que dialoga diretamente com o conceito de «meta-curador» que Ana Paula Ferreira e Jorge Borges desenvolvem no livro acima referido — a ideia de que cabe ao educador exercer juízo crítico sobre aquilo que os sistemas generativos propõem, em vez de aceitar essas sugestões como resultado final.

Vale a pena notar que Ana Paula Ferreira é doutorada em Ciências da Educação pela Universidade NOVA de Lisboa e tem publicações nas áreas da avaliação, das bibliotecas escolares, da tecnologia educativa e da inteligência artificial, pelo que este workshop se insere numa linha de trabalho já consolidada, e não numa incursão pontual no tema.

«Ensinar e aprender no século XXI», por Jorge Borges

Também Jorge Borges tem workshop próprio, «Ensinar e aprender no século XXI», com o mesmo padrão de repetição ao longo dos dois dias — sexta-feira às 15h00 e às 17h00, sábado às 9h00 e às 11h00. O título, mais aberto, aponta para uma reflexão sobre metodologias de ensino e de aprendizagem adequadas a um contexto escolar em mudança acelerada, terreno que Jorge Borges conhece de dentro: foi diretor do Centro de Competência da Malha Atlântica, integrou as equipas nacionais eCRIE e ERTE, coordenou projetos nacionais e europeus na área da tecnologia educativa e foi coordenador interconcelhio de bibliotecas escolares, funções que atravessam justamente a interseção entre currículo, tecnologia e prática letiva que o workshop vai explorar.

O resto do programa, em poucas linhas

O encontro não se esgota, evidentemente, nestas três sessões. Mariana Abreu Loureiro dinamiza o segundo painel, sobre mediação interdisciplinar da leitura, e um workshop dedicado à exploração de livros sem palavras. Rita Sineiro conduz o workshop «Direitos Humanos e Leitura: do Medo à Ação» e, no sábado à tarde, o painel «Nos livros cabemos todos». Já a tarde de sábado junta ainda Luís Osório, com um painel sobre os caminhos da leitura para a igualdade e a inclusão, e Alfredo Leite, que encerra o dia com uma reflexão sobre o papel da biblioteca escolar na formação de leitores e na construção de comunidade. A sessão de encerramento fecha, assim, dois dias pensados como um percurso coerente entre multiliteracias, mediação e inclusão.

Porque interessa às escolas

Para quem trabalha diariamente com alunos que chegam à sala de aula já a usar assistentes conversacionais para fazer trabalhos de casa ou para resumir textos, o painel e os dois workshops de Ana Paula Ferreira e Jorge Borges tocam num problema muito concreto: o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória identifica a informação e comunicação, o pensamento crítico e o saber técnico e tecnológico como áreas de competência a desenvolver ao longo da escolaridade, mas raramente existe tempo de formação dedicado a discutir, com professores, onde termina o apoio da IA e onde começa a substituição do próprio pensamento do aluno. É esse espaço de formação que o «Leitur@s» parece querer preencher, e é também por isso que vale a pena assinalar aqui a presença destes dois autores, cujo trabalho este blogue tem vindo a acompanhar.

Este artigo foi redigido com apoio de inteligência artificial e verificado pelos autores.

Referências

Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

Ferreira, A. P., & Borges, J. (2026). Digital curation in education: Towards meaningful learning. https://books2read.com/b/bonMAL

IX Encontro Leitur@s: Entre páginas, pixels e pessoas [Divulgação oficial e programa]. (2026). Consultado a 9 de julho de 2026, de https://rbe.mec.pt/np4/ix-leitur@s.html

Borges, J. (2026, 17 de abril). Digital curation in education: When curating is teaching [eBook]. TIC, Educação e Web. https://jfborges.wordpress.com/2026/04/17/digital-curation-in-education-when-curating-is-teaching-ebook/

Vira a Página: quando um podcast sobre leitura se torna um projeto pedagógico completo

Há projetos que nascem de uma ideia simples e crescem até se tornarem um ecossistema. Foi exatamente isso que aconteceu com Vira a Página: Onde a Leitura Ganha Jogo — um podcast escolar sobre leitura que, ao longo do seu desenvolvimento, originou um storybook ilustrado, um conjunto de slides pedagógicos e um ficheiro áudio pronto a usar em contexto de aula ou de biblioteca.

O resultado é um produto digital transversal, concebido a partir de uma premissa desarmante: e se um aluno que odeia ler contasse, num podcast, como encontrou o seu primeiro livro?


O ponto de partida: o leitor relutante como protagonista

O episódio piloto do Vira a Página apresenta dois protagonistas — Mia, 13 anos, e Tomás, 14 — no estúdio de rádio da sua escola. O cenário é deliberado: a luz vermelha de “No Ar”, os microfones, os auscultadores. Uma estética de podcast que os jovens reconhecem imediatamente como sua.

Tomás é o arquétipo do leitor relutante: durante anos, os livros foram para ele objetos decorativos. Ler roubava tempo ao futebol e aos videojogos. Só quando o avô lhe ofereceu um livro sobre táticas de futebol — e ele o abriu apenas para ver as imagens — é que algo mudou. Sem dar por isso, o desinteresse transformou-se em fascínio. O tema era algo que ele já amava.

Esta narrativa não é acidental. É uma estratégia pedagógica precisa: mostrar ao público-alvo (alunos do 2.º e 3.º ciclo) que o problema nunca foi a leitura — foi não termos encontrado o livro certo.


A ciência no podcast: neuroplasticidade e os 6 Minutos

O episódio não fica pela história pessoal. Entra em cena a “Dra. Rita” — personagem interpretada por uma colega, Beatriz — que traz a dimensão científica de forma acessível.

A leitura, explica a especialista fictícia com toda a seriedade da ciência real, reforça as ligações entre neurónios — o fenómeno da neuroplasticidade. Acompanhar a história de uma personagem cria novas vias de processamento mental que se transferem para a vida fora do livro: mais foco, mais capacidade de decisão.

E depois surge o dado que dá nome ao ficheiro áudio associado ao projeto: ler durante apenas seis minutos pode reduzir os níveis de stress em mais de 68%. O número não é invenção criativa — vem de um estudo do neuropsicólogo Dr. David Lewis, conduzido pelo Mindlab International na Universidade de Sussex (2009), que mediu frequência cardíaca e tensão muscular em participantes sujeitos a diferentes atividades de relaxamento. A leitura revelou-se a mais eficaz, à frente de ouvir música (61%), beber chá (54%) ou caminhar (42%).

É este dado que o ficheiro áudio Ler Seis Minutos Reduz o Stress cristaliza — uma peça sonora pensada para ser partilhada, reproduzida numa biblioteca ou inserida numa aula de Português como mote de debate.


O ecossistema de conteúdo: três formatos, uma mensagem

O que torna este projeto pedagógico particularmente interessante não é o podcast em si, mas a arquitectura multimédia que o rodeia.

O storybook — produzido com imagens ilustradas, no Gemini, em estilo cartoon e texto narrativo — funciona como versão visual da história do podcast. Cada abertura de página corresponde a um momento do episódio: a entrada no estúdio, o quarto de Tomás cheio de livros ignorados, o livro de táticas de futebol deixado na mesa, a Dra. Rita com o esquema colorido do cérebro. É um livro que pode ser lido em voz alta, projetado numa aula, ou partilhado digitalmente com famílias.

Os slides produzidos no NotebookLM organizam os conceitos do episódio em painéis visuais independentes — “O Perfil do Leitor Relutante”, “Neuroplasticidade em Ação”, “O Poder dos 6 Minutos”, “A Fórmula do Leitor Moderno” — que podem ser usados em apresentações, exposições na biblioteca ou em sequências de aula invertida.

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Esta trifecta — áudio, narrativa visual, suporte infográfico — é um exemplo concreto do que a produção digital multimédia pode ser em contexto escolar: não um produto isolado, mas um conjunto coerente de recursos que se reforçam mutuamente.


NotebookLM como ferramenta de produção pedagógica

Vale a pena sublinhar a escolha do NotebookLM como plataforma de suporte à produção dos slides. Desenvolvida pelo Google, esta ferramenta de IA permite carregar documentos próprios — textos, PDFs, notas — e gerar, a partir deles, resumos, questões de estudo e, de forma especialmente relevante para este projeto, sínteses visuais e podcasts automáticos (“Audio Overviews”).

No contexto desta formação, o NotebookLM foi usado para transformar o guião narrativo do podcast em infografia pedagógica estruturada — sem que os conceitos migrassem para lá de modo difuso, mas organizados segundo a lógica da história: do problema (o leitor relutante) à solução (encontrar o livro certo) passando pela explicação científica (neuroplasticidade, stress, empatia).

Para professores e professores bibliotecários que trabalham com produção digital, esta é uma pista metodológica concreta: o NotebookLM não substitui a curadoria humana, mas amplifica-a, transformando conteúdo gerado em contexto de oficina em material pronto a publicar ou a partilhar com comunidades educativas.


Dicas práticas para replicar o projeto

O Vira a Página é replicável. Estes são os ingredientes mínimos para um grupo-turma ou grupo de formação:

1. Escolher um leitor relutante real (ou verosímil) como protagonista. A autenticidade narrativa é o que faz o público-alvo reconhecer-se.

2. Ancorar o guião num dado científico verificável. O estudo de Sussex sobre os 6 minutos é acessível, memorável e factualmente sólido.

3. Usar ferramentas gratuitas e sem instalação. Anchor/Spotify for Podcasters para gravar e publicar; Canva para a capa; NotebookLM para gerar sínteses e slides a partir do guião.

4. Produzir pelo menos dois formatos complementares. O podcast ganha escala quando tem um storybook para a biblioteca, um slide para a aula e um clip de áudio para as redes da escola.

5. Terminar com um apelo à ação concreto. No episódio, Mia e Tomás propõem: “Encontra o teu ‘Livro de Tática’.” Qual é o livro que já querias ler sobre algo que já amas?


Uma nota final: o lema que fica

O episódio encerra com o lema do programa: “Não fiques parado na mesma linha… Vira a Página!”

É uma boa síntese do que este projeto representa: a ideia de que a leitura não precisa de ser uma obrigação escolar desligada da vida dos alunos. Pode ser um podcast. Pode ser um livro de futebol. Pode ser seis minutos antes de dormir que reduzem o stress mais do que qualquer outro ritual.

O muro invisível que afasta os jovens dos livros não se derruba com listas de obras obrigatórias. Derruba-se, como Tomás descobriu, quando o tema é algo que já amamos — e quando alguém nos dá a ferramenta certa para começar.


Referências

Lewis, D. (2009). Galaxy Stress Research. Mindlab International, University of Sussex. [Estudo não publicado em peer review; dados amplamente divulgados pela Universidade de Sussex e citados em contexto académico e jornalístico.]

Borges, J. (2025). Vira a Página: Onde a Leitura Ganha Jogo [Storybook ilustrado]. TIC, Educação e WEB.

Google. (2023–2026). NotebookLM. https://notebooklm.google.com

Cremin, T. (2014). Building Communities of Engaged Readers: Reading for Pleasure. Routledge. https://doi.org/10.4324/9781315771915

IA, ética e escola: o que aprendemos com uma formação em rede | Formação

Como é que a Inteligência Artificial está a mudar, de facto, a sala de aula? Entre simuladores de Geometria, tutores de Poesia e agendas digitais para alunos com necessidades especiais, uma ação de formação em “IA e Ética” no Centro de Formação de Escolas do Concelho de Oeiras (CFECO) mostrou que o professor continua a ser a bússola ética e o curador de inteligência neste novo ecossistema digital.

A Inteligência Artificial entrou definitivamente nas escolas. Já não é um tema “de futuro”, é uma questão de prática diária, de decisões concretas na sala de aula e no conselho pedagógico. A formação “IA e Ética: desafios e oportunidades” nasceu precisamente desta urgência: como modernizar o ecossistema educativo sem perder de vista a responsabilidade ética e o papel insubstituível do professor.

Mais do que ensinar a “mexer em ferramentas”, esta formação ajudou a mudar o enquadramento: a IA deixou de ser vista como acessório tecnológico e passou a ser entendida como parte da arquitetura pedagógica. Ao trabalhar com ChatGPT, Claude, NotebookLM, Gemini, Gama, SchoolAI ou Vibe Coding, os docentes perceberam que não basta consumir tecnologia; é preciso cocriá‑la, criticá‑la e enquadrá‑la no currículo. O professor torna‑se, assim, um curador de inteligência: filtra, seleciona, combina e faz as perguntas certas.


Quando a IA entra na Geometria, na Geografia e na Sustentabilidade

Nas áreas das Ciências, Matemática e Sustentabilidade, a mudança foi muito visível. Usando IA para gerar ficheiros .GPP no GeoGebra, os professores de Geometria transformaram exercícios estáticos em explorações dinâmicas: os alunos manipularam polígonos, testaram hipóteses, compararam áreas e perímetros em tempo real.

Com Vibe Coding, surgiram simuladores de zonas costeiras para estudar a acidificação dos oceanos. Ao alterar variáveis como poluição ou subida do nível do mar, os alunos observavam imediatamente as consequências no modelo. A ciência deixava de ser só teoria para se tornar experimentação em ambiente digital.

Em Geografia e Inglês, a IA apoiou projetos ligados à pegada ecológica e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Ferramentas como o Trysider serviram para recolher opiniões dos alunos, promover debate e trabalhar, em simultâneo, literacia ambiental, argumentação e participação democrática. A IA funcionou como laboratório de dados e cenários; o pensamento crítico ficou nas mãos dos alunos e dos professores.


Poesia, humanismo e o lugar da autoria

Nas Humanidades, a tensão entre humano e máquina é particularmente sensível. A pergunta é inevitável: o que acontece à autoria num mundo em que um modelo pode gerar poemas em segundos?

Um dos grupos trabalhou com um Tutor de Poesia em SchoolAI. Em vez de dar respostas prontas, a ferramenta foi configurada como guia socrático: coloca questões, chama a atenção para recursos expressivos, sugere ângulos de leitura. A interpretação, no entanto, continua a ser tarefa do aluno.

No 1.º Ciclo, um projeto sobre o ensino das cores ajudou a revelar o “lado B” da integração da IA: a parte técnica. Houve dificuldades com layouts na ferramenta Gama e com código corrompido pelo uso do Word. A solução passou por assumir uma competência que muitas vezes é invisível: compreender que, para editar HTML em segurança, é preciso recorrer a editores de texto simples. A literacia digital do professor inclui, cada vez mais, esta gramática dos bastidores.

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IA como ferramenta de inclusão: Educação Especial e PLNM

Onde a dimensão humanista da IA se torna mais evidente é na Educação Especial e no Português Língua Não Materna. Uma Agenda Digital para alunos com perturções do espetro do autismo, construída com apoio de IA, ajudou a estruturar rotinas visuais e a reduzir a ansiedade associada à imprevisibilidade do dia.

No âmbito do “Método das 28 Palavras”, a criação de recursos imagem‑palavra para alunos não verbais mostrou que a IA pode acelerar a produção de materiais altamente personalizados. No PLNM, a combinação de tradução automática, geração de imagens e flashcards facilitou a entrada de alunos recém‑chegados no vocabulário básico da escola e do quotidiano.

Neste cenário, a IA não substitui a relação pedagógica; amplia o raio de ação do professor e torna mais viável a diferenciação. A inclusão deixa de ser apenas um princípio abstrato e ganha suporte técnico concreto.


Desafios, limites e a indispensável curadoria docente

A formação também tornou visíveis vários problemas reais:

  • Conflito PT‑BR / PT‑PT e enviesamentos culturais nas respostas.
  • Alucinações e erros científicos em conteúdos gerados.
  • Limites de créditos em ferramentas, que interrompem projetos em curso.
  • Erros de código causados por formatação invisível em processadores de texto.

A resposta não é abandonar a IA, mas reforçar a curadoria humana. O professor assume o papel de filtro linguístico, verificador de fontes, gestor de ferramentas. A competência crucial deixa de ser “saber tudo” e passa a ser saber perguntar, confirmar e corrigir.


Da sala de aula ao regulamento: a governação da IA

Esta transformação não pode ficar apenas na esfera da aula. Um dos grupos trabalhou a reconfiguração de um corredor para o transformar num “Ponto de Biblioteca”, recorrendo a IA para simular fluxos, disposição de mobiliário e organização de recursos. Outro grupo desenhou um rascunho de regulamento interno para o uso da IA na escola, ancorado na legislação em vigor.

A mensagem é clara: a IA exige uma visão de conjunto. Escolas que queiram integrar estas ferramentas de forma responsável precisam de:

  • Infraestrutura tecnológica minimamente estável (e, em alguns casos, versões pagas das ferramentas).
  • Formação contínua, em cascata, com partilha de boas práticas e de “más práticas” também.
  • Um regulamento vivo, revisto regularmente, que acompanhe a velocidade da evolução tecnológica.

E agora? O professor como arquiteto e bússola

Ao longo da formação, o movimento foi nítido: do ceticismo defensivo para um entusiasmo prudente. A IA não apareceu como “ameaça ao professor”, mas como um poderoso assistente de diferenciação pedagógica – desde que haja supervisão qualificada e uma ética clara.

O professor do século XXI é, cada vez mais:

  • Mediador cultural, que põe em diálogo textos, dados, imagens e contextos.
  • Arquiteto de experiências de aprendizagem, que desenha atividades onde a IA acrescenta valor.
  • Bússola ética, que ajuda os alunos a navegar num mar de informação rápida, mas nem sempre rigorosa.

Se a escola conseguir articular estes papéis com condições materiais reais e um quadro ético robusto, então o encontro entre humanismo e algoritmo deixa de ser uma ameaça e passa a ser uma oportunidade para elevar o potencial de cada aluno.