Num só domingo, o festival Babell encheu a Praça dos Leões para ouvir o Nobel húngaro László Krasznahorkai e esgotou o Coliseu do Porto para Salman Rushdie. Entre o aviso sobre o presente e a ironia sobre a morte, ficam pelo menos três lições diretas para quem promove a leitura nas escolas.

Há notícias que interessam à escola sem falarem de escola. A sessão de Salman Rushdie no Coliseu do Porto, no passado domingo, é uma delas. Não por causa da fama do escritor — embora essa tenha sido, sem dúvida, o motor que levou três mil pessoas a enfrentar filas de horas —, mas por causa de duas coisas que ali aconteceram e que valem a pena trazer para a sala de aula: a forma como um festival literário conseguiu tornar a compra de um livro, mesmo o mais modesto, num acontecimento desejado; e o modo como um escritor que vive sob ameaça há mais de três décadas falou, com humor e sem drama, sobre escrita, medo e sobrevivência.
Um livro, um bilhete, uma fila de três horas
O Babell — Cidade-Livro é a primeira edição de um festival literário organizado pela Fundação Livraria Lello, em parceria com a Câmara Municipal do Porto, decorrido entre 24 e 30 de junho na cidade. O conceito que o distingue de qualquer outro evento literário é simples de explicar e difícil de esquecer: a entrada para as sessões não se compra em dinheiro, compra-se com um livro. Pode ser um exemplar novo ou usado, comprado num alfarrabista por um euro — o que interessa é o gesto. Cada uma das quase setenta livrarias aderentes da cidade entrega, no ato da compra, um código que dá acesso a uma sessão à escolha, através do site do festival.
É um modelo com potencial de replicação direta em contexto escolar, e vale a pena que bibliotecas escolares e clubes de leitura o conheçam: transformar a aquisição — e não apenas o empréstimo — de um livro num bilhete para algo desejável (uma sessão de leitura, um encontro com um autor, uma atividade de turma) desloca o foco da obrigação para o desejo. Não é por acaso que o comissário do festival, Rui Couceiro, tem defendido publicamente que quer ver “o livro e a leitura” chegarem às mãos das pessoas através deste mecanismo — e que a fórmula poderia, na sua visão, ser replicada internacionalmente.
Essa aposta pareceu compensar: a organização do festival tem falado em audiências recorde nesta primeira edição, com destaque para a sessão de encerramento e para a noite de Salman Rushdie, que se tornou, por larga margem, o momento de maior procura de todo o Babell.
Três mil pessoas, um escritor sob ameaça há 37 anos
A sessão estava marcada para as 21h30 de domingo, mas às 22h08, quando finalmente soou o sinal de início, ainda havia gente na rua, na fila que se estendia da Praça dos Poveiros pela Rua de Santo Ildefonso. O Coliseu do Porto, com lugar para cerca de três mil pessoas, esgotara. À entrada, detetores de metais, revista e reforço da Polícia de Segurança Pública somavam-se à equipa de segurança privada que acompanha Rushdie desde 1989, ano em que o aiatolá Khomeini decretou uma fatwa contra o escritor na sequência da publicação de Os Versículos Satânicos, oferecendo recompensa pela sua morte. Essas medidas tornaram-se ainda mais visíveis depois de, em 2022, Rushdie ter sido gravemente ferido numa tentativa de assassinato durante uma conferência numa universidade do estado de Nova Iorque.
Nada disto impediu, contudo, uma sessão marcada pelo humor. Conduzida pelo escritor e bibliófilo argentino Alberto Manguel — hoje radicado em Lisboa, onde aguarda a abertura de um centro de estudos dedicado à história da leitura —, a conversa arrancou com a leitura de um excerto por António Durães e percorreu, ao longo de cerca de quarenta e nove minutos, temas tão distintos como o fascínio de Rushdie por O Feiticeiro de Oz — o filme que, aos dez anos, o levou a escrever a sua primeira história, sobre um rapaz “numa cidade como a minha” —, o respeito quase reverencial pela velocidade de escrita de Shakespeare, a infância em Bombaim e a relação entre a esfera pública e a privada na construção das personagens de um romance.
O momento mais citado pela imprensa portuguesa nos dias seguintes foi, no entanto, o fecho da conversa, quando Manguel perguntou a Rushdie se tinha medo da morte. A resposta recorreu à literatura para desarmar o peso da pergunta: uma referência ao empregado de escritório Bartleby, de Herman Melville, que responde a qualquer pedido com um simples «preferia que não» — «essa é a minha visão da morte», resumiu o escritor.
Horas antes, na Praça dos Leões: o aviso de um Nobel
Horas antes de Rushdie subir ao palco do Coliseu, a Praça Gomes Teixeira — conhecida dos portuenses como Praça dos Leões — já tinha recebido a sua própria enchente: cerca de 1200 pessoas, segundo a organização, para ouvir o escritor húngaro László Krasznahorkai, distinguido em 2025 com o Prémio Nobel da Literatura e conhecido, muito antes do prémio, como o «mestre húngaro do Apocalipse». A conversa, conduzida pelo músico Pedro Abrunhosa, ficou resumida numa frase que a organização escolheu destacar em letras grandes: «Não precisamos de esperar pelo apocalipse. Ele já está aqui.»
Provocado pelas distopias de George Orwell e Aldous Huxley, citadas por Abrunhosa, Krasznahorkai foi taxativo: o futuro que esses livros descrevem é sombrio, mas continua a ser apenas uma possibilidade entre outras. O que hoje enfrentamos, defendeu, é pior — alterações climáticas, falta de água e de comida, guerras e outros conflitos, um planeta que terá de sustentar oito mil milhões de pessoas com recursos que, na sua conta, chegariam para metade disso. Falou do medo como o sentimento mais importante em qualquer ser vivo, por estar na base da luta pela sobrevivência, e da incapacidade de sentir medo como o estado mais perigoso de todos.
Perante um retrato tão sombrio, a reação do escritor não foi o desalento, mas o humor — que, garantiu, nunca é intencional nos seus livros, mas nasce das próprias situações e personagens. Evocou o cavaleiro do filme dos Monty Python que, mesmo depois de perder braços e pernas, continua a desafiar o adversário a lutar: o trágico e o cómico, disse, andam sempre de mãos dadas. A conversa passou também pela atualidade política, a propósito da recente derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria: Krasznahorkai deixou um aviso — um país que já teve um ditador pode voltar a ter outro — e uma farpa dirigida às «figuras narcisistas que têm saído dos esgotos da História», entre as quais deixou clara a referência ao atual presidente norte-americano.
Há ainda um pormenor que interessa particularmente a um blogue sobre tecnologia e educação: tanto na sessão de Krasznahorkai como na de Olga Tokarczuk, os autores falaram nas suas línguas maternas, e o sistema de legendagem em tempo real anunciado pela organização — apresentado como fruto da combinação entre tradução humana e apoio de inteligência artificial — nem sempre funcionou nas melhores condições, com legendas pequenas, lentas e em constante reformulação. É um lembrete oportuno, e gratuito, de que a tradução automática em contexto ao vivo continua a ser um dos desafios mais difíceis da IA aplicada — e um bom exemplo prático para discutir, em sala de aula, a diferença entre aquilo que a inteligência artificial promete e aquilo que, hoje, ainda consegue cumprir com fiabilidade.
O que fica para a escola
Há aqui, na verdade, duas lições distintas, e ambas úteis. A primeira é prática: o modelo «um livro, um bilhete» do Babell é uma ideia perfeitamente transponível para uma escola — seja como mecânica de um clube de leitura, seja como forma de dar visibilidade a uma biblioteca escolar sem nunca pronunciar o nome dessa instituição, seja como desafio de cidadania a propor aos alunos («o que aconteceria se, na nossa escola, o acesso a um evento dependesse de trazer um livro para doar ou trocar?»). É um exemplo concreto de como a promoção da leitura pode ser desenhada com criatividade, em vez de depender apenas da obrigatoriedade curricular.
A segunda lição é de outra natureza, e talvez mais importante: a figura de Salman Rushdie continua a ser, hoje, o exemplo mais visível e mais vivo de um escritor que paga um preço físico real pela liberdade de expressão. Numa disciplina como Cidadania e Desenvolvimento, ou numa aula de Português sobre censura e liberdade criativa, a história de Rushdie oferece algo que os manuais raramente conseguem: um caso concreto, contemporâneo, sem ambiguidade histórica, sobre o que significa continuar a escrever depois de uma condenação à morte por causa de um livro — sem transformar essa história em melodrama, como o próprio demonstrou ao responder com ironia a uma pergunta sobre a sua mortalidade.
Não é preciso ensinar Os Versículos Satânicos — obra de leitura exigente e pouco adequada, em regra, ao ensino não superior — para usar a trajetória do seu autor como ponto de partida para uma discussão séria sobre os limites entre liberdade de expressão e ofensa religiosa, sobre o custo pessoal de escrever e sobre a razão pela qual mais de três mil pessoas, num domingo à noite, preferiram esperar horas numa fila a ficar em casa. Essa pergunta — porque é que ainda vale a pena esperar por um livro, por um escritor, por uma história — é, no fundo, a pergunta que qualquer professor de português faz silenciosamente todos os dias.
A isto soma-se a lição, mais direta, de Krasznahorkai: mesmo o escritor mais associado ao fim do mundo na literatura europeia contemporânea escolhe, quando confrontado com um público, recomendar simplesmente que se leia — porque ler continua a ser, nas suas palavras, sempre «um caminho». E a experiência menos conseguida da legendagem em tempo real nas suas sessões, apoiada por inteligência artificial, oferece um contraponto honesto e produtivo a qualquer entusiasmo excessivo com estas ferramentas: mesmo em 2026, traduzir ao vivo continua a ser um problema em aberto, e é saudável que os alunos o saibam.
Referências
Observador. (2026, 29 de junho). Salman Rushdie no Coliseu do Porto: horas de espera para uma lição sobre a vida, a escrita e o “preferia que não” da morte. https://observador.pt/especiais/salman-rushdie-no-coliseu-do-porto-horas-de-espera-para-uma-licao-sobre-a-vida-a-escrita-e-o-preferia-que-nao-da-morte/
Notícias ao Minuto. (2026, 30 de junho). Salman Rushdie lembrou “Oz” e Shakespeare no Porto. https://www.noticiasaominuto.com/pais/3012701/salman-rushdie-lembrou-oz-e-shakespeare-no-porto
Notícias ao Minuto. (2026, 28 de junho). Nobel László Krasznahorkai faz apelo à leitura que “é sempre um caminho”. https://www.noticiasaominuto.com/cultura/3012670/nobel-laszlo-krasznahorkai-faz-apelo-a-leitura-que-e-sempre-um-caminho
Jornal Universitário do Porto. (2026, 29 de junho). László Krasznahorkai e Lídia Jorge nos últimos dias do Babell. https://www.jup.pt/cultura/artigo/laszlo-krasznahorkai-e-lidia-jorge-nos-ultimos-dias-do-babell.aspx
RTP. (2025, 17 de dezembro). Festival literário Babell traz ao Porto Salman Rushdie, Olga Tokarczuk e Margaret Atwood. https://www.rtp.pt/noticias/cultura/festival-literario-babell-traz-ao-porto-salman-rushdie-olga-tokarczuk-e-margaret-atwood_n1704966


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