Da Odisseia ao dia a dia: o rasto de Homero no português atual

Quando um colega descreve o trajeto até à escola como «uma verdadeira odisseia», ou quando o técnico de informática avisa para não abrir um anexo por poder ser um «cavalo de Troia», ninguém está a citar a Ilíada ou a Odisseia. Ou talvez esteja: há quase três mil anos que Homero se infiltrou, sem que a maioria dê por isso, no português do dia a dia. Este artigo percorre essa herança — de «mentor» a «estentóreo», do «canto de sereia» ao «calcanhar de Aquiles» — e propõe uma forma de a levar para a sala de aula.

Uma professora comenta, na sala de professores, que a primeira semana de aulas «foi uma verdadeira odisseia». No computador ao lado, alguém avisa que não deve abrir aquele anexo de correio eletrónico, porque pode ser um «cavalo de Troia». Mais adiante, um aluno mais velho descreve o antigo diretor de turma como «o meu mentor», e um colega, ao ouvir o professor de Educação Física dar instruções do outro lado do pavilhão, comenta que ele tem «uma voz estentórea». Nenhuma destas pessoas está a pensar em literatura grega. Ou talvez esteja, sem saber: todas acabaram de invocar Homero.

A influência de Homero na língua portuguesa não é um resíduo académico, é uma presença viva no vocabulário de qualquer escola. Muitas das palavras e expressões que professores, alunos e funcionários usam todos os dias têm origem direta ou indireta na Ilíada, na Odisseia ou na tradição literária que estes dois poemas geraram ao longo de quase três milénios. Este artigo não pretende ensinar mitologia pela mitologia: pretende mostrar que uma parte do português corrente é, literalmente, um vestígio arqueológico — e que reconhecer esse vestígio é já um exercício de literacia.

Do nome próprio ao uso comum

Algumas personagens da Ilíada e da Odisseia percorreram um caminho linguístico invulgar: deixaram de ser nomes próprios para se tornarem palavras comuns. O caso mais evidente é «odisseia». O título do poema que narra o regresso acidentado de Odisseu — Ulisses, na tradição latina — a Ítaca passou a designar qualquer viagem longa, difícil e cheia de contratempos. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa regista hoje «odisseia» como substantivo comum, definindo-a simplesmente como uma «viagem cheia de aventuras e peripécias» (Priberam, s.d.), sem que a maioria de quem a usa associe a palavra ao poema que lhe deu origem.

Algo semelhante aconteceu com «mentor». Na Odisseia, Mentor é o amigo fiel a quem Ulisses confia a educação do filho, Telémaco, antes de partir para a guerra de Troia; a deusa Atena assume por vezes a sua aparência para orientar o rapaz à distância (Wikipédia, s.d.-a). Não é por isso estranho que hoje se chame mentor à pessoa experiente que aconselha e acompanha outra no seu percurso pessoal ou profissional. Há, no entanto, um pormenor que vale a pena assinalar com rigor: a palavra só se generalizou como substantivo comum bastante depois de Homero, através do romance pedagógico Les Aventures de Télémaque, publicado pelo escritor francês François Fénelon em 1699, cujo protagonista retoma precisamente a personagem de Mentor (Wikipédia, s.d.-a). Entre a personagem homérica e a palavra que hoje se usa em qualquer plano de mentoria escolar medeiam, portanto, mais de dois mil anos e uma obra que raramente se menciona.

Menos conhecida é a história de «estentóreo». O adjetivo deriva de Estêntor, um arauto grego que participa na guerra de Troia e de quem Homero diz, num único verso da Ilíada, que possuía uma voz tão potente como a de cinquenta homens juntos. Essa única menção, no canto V, bastou para que o nome de Estêntor passasse a designar, ainda hoje, qualquer voz excecionalmente forte e ressonante — um dos exemplos mais económicos de como um verso isolado pode sobreviver, através de um adjetivo, quase três mil anos ao poema que o contém.

Troia como símbolo do engano

Se os nomes próprios mostram como algumas personagens homéricas se incorporaram no léxico, as expressões revelam um fenómeno ainda mais interessante: as imagens criadas por Homero continuam a ser o recurso a que se recorre para explicar situações do quotidiano escolar. A mais conhecida é, sem dúvida, a do «cavalo de Troia», tornado símbolo universal do engano. Tal como os guerreiros gregos conseguiram entrar na cidade escondidos no enorme cavalo de madeira idealizado por Ulisses, chama-se hoje cavalo de Troia a qualquer pessoa, objeto ou estratégia que se apresenta sob uma aparência inofensiva para se infiltrar e agir a partir de dentro.

É desse cavalo de madeira que deriva também o termo informático que qualquer escola conhece bem: o cavalo de Troia, ou trojan, um tipo de software malicioso que se disfarça de programa inofensivo para se instalar num sistema e abrir, a partir daí, uma porta a quem o controla (Wikipédia, s.d.-b). A diferença entre este tipo de ameaça e um vírus tradicional está precisamente na fidelidade à imagem original: o cavalo de Troia informático não se replica sozinho nem se espalha como um vírus, depende de enganar alguém para ser instalado — exatamente como o cavalo de madeira dependeu da decisão dos próprios troianos de o trazerem para dentro das muralhas. Sempre que um responsável de informática de um agrupamento avisa os professores para não abrirem um anexo suspeito, está, sem talvez se dar conta, a repetir uma metáfora com quase três mil anos.

Perigos e sedução enganosa

As aventuras de Ulisses forneceram, por seu turno, algumas das imagens mais eficazes para falar de perigo e de sedução enganosa. Estar «entre Cila e Caríbdis» significa encontrar-se preso entre dois riscos igualmente graves, sem forma de evitar um sem se expor ao outro. A expressão remete para o estreito de Messina, entre a Sicília e a costa italiana, onde a tradição grega situava dois monstros marinhos: Cila, um rochedo que devorava os marinheiros que dele se aproximassem, e Caríbdis, um turbilhão que sorvia as águas do mar. Fugir de um significava quase sempre aproximar-se perigosamente do outro — daí existir também, em português, a variante «fugir de Cila para cair em Caríbdis», usada para descrever a situação de quem, ao evitar um perigo, cai noutro maior (Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, 2006).

Do mesmo modo, os «cantos de sereia» continuam a representar promessas tão sedutoras quanto enganosas: discursos, ofertas ou propostas que atraem de forma quase irresistível, mas que podem conduzir ao fracasso a quem se deixa levar por elas. Na Odisseia, as sereias atraíam os marinheiros com um canto tão belo que estes se lançavam ao mar e morriam nos recifes; Ulisses só sobrevive à passagem por ouvi-lo porque manda tapar os ouvidos da tripulação com cera e se faz amarrar ao mastro do próprio navio. É essa imagem — a de saber que algo é irresistível e, por isso mesmo, preparar-se antecipadamente para lhe resistir — que a expressão continua a transportar sempre que se usa para descrever, por exemplo, uma oferta comercial demasiado boa para ser verdadeira.

O calcanhar que Homero nunca escreveu

Poucas expressões de origem homérica são tão usadas em contexto escolar como «calcanhar de Aquiles», aplicada ao ponto fraco ou vulnerável de uma pessoa, de uma equipa ou de um projeto. A história é conhecida: a ninfa Tétis, mãe de Aquiles, terá mergulhado o filho recém-nascido nas águas do rio Estige para o tornar invulnerável, segurando-o pelo calcanhar — o único ponto do corpo que, por não ter sido tocado pela água, permaneceu vulnerável e viria a ser, mais tarde, a causa da sua morte.

Há, no entanto, um rigor que vale a pena repor, precisamente porque a expressão costuma ser apresentada como se viesse diretamente de Homero: o episódio do calcanhar não existe na Ilíada. No poema homérico, Aquiles é ferido e sangra como qualquer outro guerreiro, sem qualquer menção a uma vulnerabilidade especial; a primeira referência conhecida ao banho no Estige surge apenas séculos depois, num poema latino incompleto de Estácio, já no século I, e mesmo essa versão não é totalmente clara quanto à causa exata da morte do herói (Wikipédia, s.d.-c). A expressão «calcanhar de Aquiles», tal como hoje se usa para designar um ponto fraco, é ainda mais tardia: os primeiros registos em sentido figurado datam apenas do século XIX. Isto não torna a expressão menos legítima — mostra, isso sim, algo mais interessante do ponto de vista da literacia: uma imagem pode continuar a ser sentida como «homérica» mesmo quando a sua origem exata pertence a uma camada bem posterior da tradição, construída ao longo de séculos por autores que reescreveram e completaram o mito original.

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A pedra que nunca chega ao cume

Ao contrário do calcanhar de Aquiles, «trabalho de Sísifo» é uma expressão genuinamente homérica, ainda que pouca gente o saiba. No canto XI da Odisseia, Ulisses desce ao reino dos mortos para consultar o adivinho Tirésias e, entre as sombras que ali avista, descreve Sísifo condenado a empurrar eternamente uma enorme pedra até ao cimo de uma colina — pedra que, sempre que está prestes a alcançar o topo, rola de novo até à base, obrigando-o a recomeçar (Wikipédia, s.d.-d). Chama-se hoje trabalho de Sísifo a qualquer tarefa que pareça condenada a repetir-se indefinidamente sem nunca chegar a uma conclusão — uma imagem com aplicação óbvia, para qualquer professor, ao ritmo de certas rotinas burocráticas ou à sensação de arrumar uma sala de aula que volta a ficar desarrumada assim que se vira costas.

Para além de Homero

A influência de Homero é apenas uma parte da herança linguística que o mundo grego deixou no português. A língua conserva dezenas de palavras e expressões nascidas da mitologia e da história clássicas que continuam plenamente ativas na fala corrente, ainda que não venham diretamente da Ilíada nem da Odisseia.

É o caso de «pânico», palavra que designa o medo súbito e desproporcionado e que deriva do deus Pã, divindade grega dos pastores e dos rebanhos, cujo aparecimento inesperado nos bosques provocava, segundo a tradição, um terror irracional em quem por ali passava (Gazeta Digital, s.d.). É também o caso de «panaceia», usada para descrever qualquer solução apresentada como capaz de resolver todos os problemas: o termo vem de Panaceia, deusa da cura universal e filha de Asclépio, deus da medicina, cujo nome grego significava literalmente «a que tudo cura» (Dicionário Etimológico, s.d.).

Duas outras expressões merecem menção, precisamente porque a sua origem não pertence a Homero, ainda que muitas vezes se lhes atribua essa proveniência por associação. A «espada de Dâmocles», usada para descrever um perigo iminente que paira sobre alguém, remonta a uma anedota moral sobre a corte do tirano de Siracusa Dionísio, registada originalmente pelo historiador siciliano Timeu de Tauromênio e popularizada, séculos depois, por Cícero (Wikipédia, s.d.-e) — não tem, portanto, qualquer ligação direta aos poemas homéricos. O mesmo se aplica à «caixa de Pandora», que designa algo que desperta grande curiosidade mas que seria preferível não abrir: a personagem de Pandora e a história da sua caixa — na verdade, um vaso — pertencem à obra do poeta Hesíodo, contemporâneo tardio de Homero mas autor de uma tradição distinta. Distinguir estas origens não é um exercício de pedantismo: é precisamente o tipo de precisão que se pede a um aluno quando se lhe ensina a verificar uma fonte antes de a citar.

O que isto diz à escola portuguesa

Nenhuma destas palavras foi cunhada a pensar em currículo escolar, mas o seu peso nas Aprendizagens Essenciais de Português é maior do que a maioria dos manuais deixa perceber. O domínio da educação literária, presente em todos os ciclos, inclui explicitamente o contacto dos alunos com textos da tradição oral e da literatura clássica como forma de compreender a construção do imaginário coletivo; e o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória identifica a consciência linguística — a capacidade de refletir sobre a própria língua e a sua história — como uma das competências que sustentam o pensamento crítico (Direção-Geral da Educação, 2017). Uma expressão como «cavalo de Troia» não é apenas um curiosidade etimológica: é um ponto de entrada para discutir, em Cidadania e Desenvolvimento, a diferença entre uma ameaça visível e uma ameaça disfarçada — seja ela um vírus informático, uma mensagem de desinformação apresentada como notícia isenta, ou uma manipulação social que se apresenta como ajuda.

Este artigo dialoga diretamente com outro já publicado neste blogue, sobre as lições da própria Odisseia como narrativa de vida — perseverança, hospitalidade, o amadurecimento de Telémaco. Se aquele texto olhava para o que o poema ensina enquanto história, este olha para o que o poema deixou entranhado na própria língua com que se conta essa e qualquer outra história. São duas formas complementares de levar Homero para uma sala de aula portuguesa: uma pela narrativa, outra pelo vocabulário.

Uma proposta para a sala de aula

Uma forma simples de levar este artigo para uma turma do terceiro ciclo ou do secundário não passa por pedir aos alunos que decorem etimologias, passa por lhes pedir que façam o percurso inverso ao que aqui se fez. Distribui-se à turma uma lista de frases do quotidiano escolar que usam, sem o assinalar, expressões de origem clássica: «isto tem sido uma odisseia», «cuidado com o anexo, pode ser um cavalo de Troia», «ele é o meu mentor», «aquilo é o calcanhar de Aquiles da equipa», «isto é um trabalho de Sísifo». Pede-se a cada grupo que escolha duas ou três dessas frases e investigue, com o apoio de um dicionário e dos recursos indicados nas referências deste artigo, a história que está por detrás de cada expressão — e que verifique, tal como se fez aqui a propósito do calcanhar de Aquiles, se a origem popularmente atribuída corresponde de facto ao texto homérico ou se é uma camada posterior da tradição.

A parte mais reveladora do exercício costuma surgir quando os grupos comparam as suas descobertas e percebem que nem todas as expressões «gregas» vêm do mesmo sítio, nem sequer do mesmo século. Perceber que «cavalo de Troia» e «trabalho de Sísifo» vêm efetivamente de Homero, mas que «espada de Dâmocles» e «caixa de Pandora» têm origens bem distintas, é um exercício concreto de literacia da informação: aprender a não aceitar uma atribuição só porque soa bem, e a verificar a fonte antes de a repetir — uma competência que serve tanto para a mitologia grega como para qualquer notícia que circule hoje numa aplicação de mensagens.

No fundo, o que este percurso pelas palavras oferece a uma escola não é uma lista de curiosidades para impressionar num teste — é a demonstração concreta de que a língua portuguesa transporta, sem que a maioria dê por isso, quase três mil anos de história. Sempre que um professor chama mentor a um colega mais experiente, sempre que um técnico de informática avisa para um cavalo de Troia, sempre que alguém descreve um dia difícil como uma odisseia, a escola portuguesa está, sem talvez o saber, a manter viva uma tradição que começou muito antes de existir Portugal, muito antes de existir a própria língua portuguesa — e que continuará, provavelmente, muito depois de esta conversa terminar.


Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), tomando como modelo estrutural um artigo em castelhano sobre o mesmo tema, publicado em The Conversation e assinado por M. Dolores Jiménez-López (Universitat Rovira i Virgili), e aplicando o mesmo exercício, de forma original e verificada de raiz, ao português. Todas as etimologias e origens de expressões apresentadas foram confirmadas através de dicionários de referência (Priberam, Infopédia), da Wikipédia em português e de fontes especializadas em etimologia.

Referências

Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. (2006, 25 de outubro). Entre Cila e Caríbdis. https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/entre-cila-e-caribdis/18728

Dicionário Etimológico. (s.d.). Panaceia. https://www.dicionarioetimologico.com.br/panaceia/

Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação. https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Noticias_Imagens/perfil_do_aluno.pdf

Gazeta Digital. (s.d.). Origem da palavra «pânico». https://www.gazetadigital.com.br/editorias/cidades/origem-da-palavra-panico/139231

Infopédia. (s.d.). 10 expressões de origem mitológica. Porto Editora. https://www.infopedia.pt/topicos/dominio-da-lingua/expressoes-de-origem-mitologica

Jiménez-López, M. D. (2026). De la Odisea a nuestros días: la huella de Homero en el español actual. The Conversation. https://theconversation.com/de-la-odisea-a-nuestros-dias-la-huella-de-homero-en-el-espanol-actual-282066

Priberam. (s.d.). Odisseia. In Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. https://dicionario.priberam.org/odisseia

Wikipédia. (s.d.-a). Mentor (Odisseia). https://pt.wikipedia.org/wiki/Mentor_(Odisseia)

Wikipédia. (s.d.-b). Cavalo de Troia (computação). https://pt.wikipedia.org/wiki/Cavalo_de_troia_(computa%C3%A7%C3%A3o)

Wikipédia. (s.d.-c). Aquiles. https://pt.wikipedia.org/wiki/Aquiles

Wikipédia. (s.d.-d). Sísifo. https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADsifo

Wikipédia. (s.d.-e). Dâmocles. https://pt.wikipedia.org/wiki/D%C3%A2mocles

Para saber mais

«O que nos ensina “A Odisseia”?», já publicado neste blogue, sobre as lições de vida do poema homérico — um complemento natural a este artigo, focado no vocabulário que o poema deixou na língua.

Artigo original de M. Dolores Jiménez-López, em castelhano, na The Conversation, que serviu de modelo estrutural a este texto.

Lista de expressões idiomáticas de origem histórica ou mitológica, na Wikipédia em português, para quem quiser alargar o levantamento feito neste artigo a outras tradições além da grega.

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, recurso de referência para confirmar significados e etimologias em qualquer atividade de sala de aula sobre este tema.

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