Nove pensadores para levar para a sala de aula

A revista espanhola Ethic escolheu nove nomes para explicar o pensamento que hoje atravessa os debates sobre democracia, desigualdade, tecnologia e identidade. Lemos a lista com olhos de professor e fizemos uma pergunta simples: o que pode cada um destes autores fazer por uma turma do secundário, numa escola onde a inteligência artificial já entrou pela porta da frente?

Uma lista é sempre um ponto de vista

A Ethic publicou, a 17 de setembro, uma seleção de nove pensadores que, na leitura da autora, ajudaram a moldar muitas das políticas sociais e económicas das sociedades atuais: Noam Chomsky, Peter Singer, Martha Nussbaum, Slavoj Žižek, Michael Sandel, Judith Butler, Byung-Chul Han, Thomas Piketty e Yuval Noah Harari. O próprio texto começa por admitir que fechar um grupo destes é tarefa ingrata. Tem razão, e é precisamente por isso que vale a pena olhar primeiro para quem lá está.

Feitas as contas, são sete homens e duas mulheres. Quatro nasceram nos Estados Unidos. O mais velho, Chomsky, é de 1928; o mais novo, Harari, de 1976. Não há ninguém de África nem da América Latina, e o conjunto inclina-se de forma bastante clara para o campo progressista, sem vozes liberais ou conservadoras de peso. Nada disto invalida a escolha. Mas convém dizê-lo aos alunos logo no início, porque uma lista de «mais influentes» é um argumento, não um facto. Pedir a uma turma que proponha o décimo nome, e que o defenda perante os colegas, ensina mais sobre critérios, fontes e vieses do que decorar os nove.

Pensar a máquina: Chomsky e Harari

Para quem trabalha com tecnologia na escola, há dois nomes que saltam da página. Chomsky tornou-se incontornável na linguística com a ideia de que trazemos de nascença uma capacidade para a gramática, o que ajudaria a explicar a facilidade com que as crianças aprendem línguas complicadíssimas. A Ethic lembra, porém, que a fama pública lhe veio sobretudo de outro lado: da crítica feroz à política externa norte-americana e ao capitalismo neoliberal, e da defesa de democracias mais participativas, assentes em cidadãos capazes de pensar criticamente.

O artigo não o refere, mas interessa-nos muito: Chomsky levou a sua linguística para o debate sobre inteligência artificial. Em março de 2023, num ensaio de opinião no New York Times escrito com Ian Roberts e Jeffrey Watumull, defendeu que o ChatGPT e os seus pares nada têm de parecido com a mente humana. Seriam máquinas estatísticas que procuram padrões em quantidades gigantescas de dados, ao passo que a mente humana trabalha com pouca informação e procura explicações, não correlações. O texto foi muito contestado. O cientista da computação Scott Aaronson, por exemplo, respondeu-lhe no seu blogue em termos bastante duros. Pôr os dois textos lado a lado numa aula, no original ou resumidos pelo professor, dá uma conversa mais honesta sobre o que a IA faz, e não faz, do que qualquer tutorial de ferramentas.

Harari chega ao mesmo território por outro caminho. Historiador de formação, ficou conhecido com Sapiens e com a ideia de que a história serve, antes de mais, para compreender o presente. A Ethic destaca a sua tese de que o «dataísmo», a fé nos dados e no seu processamento, se tornou uma espécie de nova religião. Em Nexus (2024), Harari foi mais longe e percorreu a história das redes de informação desde a Idade da Pedra até à IA. A ideia central do livro, tal como a resume uma recensão publicada na revista AI & Society, é que mais informação não significa, por si só, mais verdade nem mais sabedoria, e que sistemas de IA cada vez mais autónomos podem distorcer a verdade e fragilizar as instituições democráticas. O autor não fecha a porta ao otimismo, mas pede regulação e responsabilidade coletiva.

Quem ensina literacia mediática reconhece aqui o seu próprio programa. A área de competências Informação e comunicação do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória ganha outra espessura quando os alunos percebem que a pergunta «isto é verdade?» é mais antiga do que a internet, e que a resposta nunca dependeu apenas da quantidade de informação disponível.

O silêncio, a atenção e o ecrã

Byung-Chul Han é, provavelmente, o filósofo desta lista que os professores mais citam sem o terem lido por inteiro. Os seus livros são curtos, os títulos colam-se ao ouvido (A sociedade do cansaço, A sociedade da transparência) e o diagnóstico parece escrito para a sala dos professores: vivemos numa cultura do rendimento em que cada um se explora a si próprio, e o excesso de informação, de comunicação e de produtividade acaba com o silêncio de que precisamos para observar e pensar. A Ethic cita-o a dizer que tudo grita e que a informação nos rouba o silêncio.

Em 2025, Han recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades. No discurso de Oviedo, segundo a imprensa que o cobriu, voltou ao tema do telemóvel: já não somos nós que usamos o smartphone, é ele que nos usa, e as redes sociais, em vez de nos aproximarem, isolam-nos e tornam-nos mais agressivos. Han não dá receitas, e seria um erro usá-lo como argumento de autoridade num regulamento interno. O que oferece é vocabulário. Palavras como «cansaço», «transparência» ou «ruído» ajudam os alunos a nomear aquilo que sentem quando passam a noite a deslizar o dedo pelo ecrã e chegam à escola exaustos. E dão sentido a coisas tão simples como dez minutos de leitura silenciosa no início da aula ou uma biblioteca onde, por uma vez, nada vibra.

Mérito, justiça e bem comum

Michael Sandel tornou-se conhecido com Justiça e com um curso em Harvard que faz dos dilemas morais um espetáculo de sala cheia. A Ethic destaca a sua defesa do bem comum como eixo da ética pública, mas é o livro de 2020, The Tyranny of Merit, que mais diz à escola. Sandel argumenta que a meritocracia gera arrogância em quem ganha e humilhação em quem perde, e que esquece o papel da sorte: a família em que se nasce, o bairro, a escola que se frequenta. Propõe, em alternativa, uma ideia de sucesso mais humilde e mais solidária, que devolva dignidade ao trabalho.

Isto toca num nervo sensível. Passamos a vida a dizer aos alunos que, se se esforçarem, conseguem. Sandel não manda deixar de o dizer. Obriga, isso sim, a acrescentar uma pergunta incómoda: quanto do teu resultado dependeu só de ti? Num debate de Cidadania e Desenvolvimento, ou numa aula de Filosofia, esta pergunta abre mais caminhos do que qualquer discurso motivacional. Vale a pena ouvir também os críticos de Sandel, que o acusam de desvalorizar a competência e as credenciais. O desacordo faz parte da aula.

Thomas Piketty responde ao mesmo problema com números. Para o economista francês, a forma como a riqueza se distribui não resulta de leis naturais da economia, mas de decisões políticas, leis e ideologias de cada época. Em O capital no século XXI defende que, sem intervenção do Estado, a desigualdade tende a crescer, porque o rendimento do capital cresce mais depressa do que a economia no seu conjunto (a célebre desigualdade r > g, que a Ethic descreve de forma um pouco solta). A Ethic sublinha um ponto que nos diz diretamente respeito: Piketty considera que o acesso de todos a uma educação e a uma saúde de qualidade está em risco quando a desigualdade dispara. Para as aulas de Economia, Geografia ou História, os seus gráficos são material de primeira para aprender a ler dados, a desconfiar deles e a discuti-los.

Florescer, e não apenas passar de ano

Se tivéssemos de escolher um só nome desta lista para a formação de professores, seria o de Martha Nussbaum. Com Amartya Sen, desenvolveu a abordagem das capacidades, que pergunta não quanto uma pessoa tem, mas o que é realmente capaz de fazer e de ser com a liberdade de que dispõe. A Ethic lembra que esta abordagem influenciou a forma como as Nações Unidas medem o desenvolvimento humano e vários programas de justiça social e de educação.

Em Not for Profit (2010), Nussbaum escreveu aquilo que muitos professores pensam e poucos conseguem argumentar tão bem. Quando a educação se põe ao serviço exclusivo do crescimento económico, perdem-se as humanidades e as artes, e com elas a capacidade de pensar criticamente, de compreender outras culturas e de imaginar a experiência de outra pessoa. Para Nussbaum, a literatura não é um luxo curricular; é uma condição da democracia. É difícil encontrar melhor argumento para defender o tempo de leitura, o clube de teatro ou a aula de Português que não se esgota na preparação para o exame.

Ética fora da zona de conforto

Os três nomes que faltam são, cada um à sua maneira, desconfortáveis. E ainda bem.

Peter Singer publicou Libertação animal em 1975 e mudou a forma como se discute o estatuto moral dos animais: o critério, defende, é a capacidade de sentir dor e sofrer. Herdeiro do utilitarismo de Bentham e de Mill, leva essa lógica até conclusões que muita gente rejeita, sobretudo em bioética. Precisamente por isso, é um parceiro ideal para a unidade de ética do 10.º ano de Filosofia, onde os alunos estudam Mill. Singer mostra como uma teoria clássica é usada hoje e onde pode conduzir, e obriga a turma a fazer o que as Aprendizagens Essenciais pedem: avaliar teses, argumentos e contra-argumentos, em vez de escolher o lado que soa melhor.

Judith Butler é, destes nove, a autora que mais divide a opinião pública. A sua tese de que o género é uma construção social e performativa, feita de atos e normas culturais que se repetem, está na origem da teoria queer e é hoje objeto de um debate aceso, dentro e fora da academia. Numa escola, o essencial é de método: distinguir entre explicar uma teoria e aderir a ela, conhecer os argumentos de quem a defende e de quem a critica, e respeitar a pluralidade de convicções de alunos e famílias. A Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania inclui a igualdade de género entre os seus domínios, e é nesse quadro que a discussão faz sentido.

Slavoj Žižek, por fim, é o filósofo pop da lista, conhecido por explicar Hegel e Lacan com cenas de filmes e anedotas. Para ele, a ideologia é o enquadramento invisível que nos faz aceitar como normal a realidade em que vivemos, e o capitalismo e a cultura de massas moldam o nosso pensamento sem que demos por isso. Traduzido para a escola, é um excelente ponto de partida para analisar anúncios, séries, videoclipes e memes: o que é que isto me está a pedir que ache normal?

E agora, na escola?

Não é preciso ler os nove de fio a pavio para tirar partido desta lista. Uma proposta possível é distribuir os pensadores por grupos e pedir a cada um que traga uma ideia central, um exemplo do quotidiano da turma e uma crítica séria feita por outro autor. Outra é pegar num dilema da vida escolar, seja o uso do telemóvel, a classificação dos trabalhos ou o recurso à IA nos trabalhos de casa, e discuti-lo à maneira de Sandel, com posições defendidas por argumentos e não por gritos.

E há uma terceira, que junta Chomsky e Harari no mesmo exercício. Peça-se a um assistente de IA que resuma o pensamento de um destes autores e compare-se o resultado com um texto do próprio. Onde acertou? O que simplificou? O que inventou? Poucas atividades ensinam tão bem que a fluência de uma resposta não prova a sua verdade.

No fundo, a lista da Ethic acaba por ser um bom pretexto para regressar a uma das áreas de competências do Perfil dos Alunos, a do pensamento crítico e criativo. Nenhum destes nove pensadores precisa de ser aceite. Todos merecem ser discutidos. E talvez seja esse o maior elogio que se pode fazer a um filósofo numa sala de aula.

Nota de transparência. Este artigo foi escrito com o apoio de uma ferramenta de inteligência artificial, a partir do artigo da revista Ethic indicado nas referências e de fontes complementares consultadas a 24 de setembro de 2026.

Referências

Aaronson, S. (2023, março). The false promise of Chomskyism. Shtetl-Optimized. https://scottaaronson.blog/?p=7094

Chomsky, N., Roberts, I., & Watumull, J. (2023, 8 de março). Noam Chomsky: The false promise of ChatGPT. The New York Times. https://www.nytimes.com/2023/03/08/opinion/noam-chomsky-chatgpt-ai.html

Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho. (2017). Diário da República. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/6478-2017-107752620

Direção-Geral da Educação. (s.d.). Filosofia (CH): Aprendizagens essenciais. Consultado a 24 de setembro de 2026, em https://www.dge.mec.pt/filosofia-1

Fundación Princesa de Asturias. (2025). Byung-Chul Han: Premio Princesa de Asturias de Comunicación y Humanidades 2025. https://www.fpa.es/es/premios-princesa-de-asturias/premiados/2025-byung-chul-han/

Gómez-Cotta, C. (2026, 17 de setembro). Estos son algunos de los pensadores más influyentes en la actualidad. Ethic. https://ethic.es/pensadores-mas-influyentes/

Harari, Y. N. (2024). Nexus: A brief history of information networks from the Stone Age to AI. Random House.

Infobae. (2025, 24 de outubro). El filósofo Byung-Chul Han, al recoger su premio Princesa de Asturias: «Aunque creamos ser más libres que nunca, vivimos en un régimen que explota la libertad». Infobae. https://www.infobae.com/cultura/2025/10/24/el-filosofo-byung-chul-han-al-recoger-su-premio-princesa-de-asturias-aunque-creamos-ser-mas-libres-que-nunca-vivimos-en-un-regimen-que-explota-la-libertad/

Konch, M. (2026). Review of «Nexus: A brief history of information networks from the Stone Age to AI» by Yuval Noah Harari, Random House, 2024. AI & Society, 41, 1595–1598. https://doi.org/10.1007/s00146-025-02569-3

Nussbaum, M. C. (2010). Not for profit: Why democracy needs the humanities. Princeton University Press.

Sandel, M. J. (2020). The tyranny of merit: What’s become of the common good? Farrar, Straus and Giroux.

Para saber mais

Martha Nussbaum y la vulnerabilidad humana (Ethic): a noção de vulnerabilidade como ponto de partida para a justiça social.

Yuval Noah Harari en cinco ideas clave (Ethic): uma introdução rápida ao autor de Sapiens.

Diez ideas clave para entender a Noam Chomsky (Ethic): da linguística à crítica política.

Página oficial de Nexus: apresentação do livro e fontes indicadas pelo autor.

Not for Profit, na Princeton University Press: apresentação da obra de Nussbaum sobre educação e humanidades.

Byung-Chul Han na Fundação Princesa das Astúrias: ata do júri, discurso e trajetória.

Aprendizagens Essenciais de Filosofia (DGE): documentos curriculares do 10.º e 11.º anos.

DCE Planner: o novo roteiro do Conselho da Europa para a cidadania digital na escola

O Conselho da Europa publicou o DCE Planner, um referencial com 320 resultados de aprendizagem para ensinar cidadania digital dos 5 aos 18 anos, construído com a participação de Portugal.

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Ensinar cidadania digital sempre foi, em boa parte, um exercício de improviso. Cada escola decide o que entende por ser um bom cidadão digital, cada professor organiza esse ensino como pode e cada país segue o seu próprio caminho, oscilando entre a proteção contra riscos e a promoção de competências mais amplas de participação e pensamento crítico. O Conselho da Europa acaba de propor um instrumento que pretende dar alguma ordem a esse improviso: o DCE Planner — Digital Citizenship Education Planner —, um referencial curricular com 320 resultados de aprendizagem, organizados por idade e por domínio digital, pensado para ser usado tal como está, sem grandes traduções pedagógicas, diretamente na preparação de aulas, projetos e políticas escolares.

Publicado pelo Conselho da Europa e assinado por Olena Styslavska-Doliwa e Ted Huddleston, o documento tem como destinatários potenciais os 46 Estados-membros da organização e resulta de um processo de construção coletiva que arrancou há quase uma década.

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De um vazio identificado em 2016 a uma prioridade da estratégia europeia

A iniciativa de educação para a cidadania digital — conhecida pela sigla DCE — nasceu em 2016, quando o Departamento de Educação do Conselho da Europa reuniu um grupo de peritos para pensar como preparar os alunos europeus para um mundo cada vez mais digital. O primeiro passo foi uma revisão da literatura e uma consulta a mais de duzentas organizações e especialistas em todos os Estados-membros. A conclusão foi clara: praticamente todas as respostas educativas ao mundo digital se concentravam em temas isolados — segurança em linha, uso responsável, civilidade digital —, sem que existisse uma visão de conjunto, alicerçada nos valores da cultura democrática.

Dessa constatação nasceram, ao longo dos anos seguintes, uma rede de promotores da cidadania digital em cada país, um manual de referência e diversos materiais de sensibilização. Persistia, no entanto, um problema: continuava a faltar um instrumento prático e comum que ajudasse professores e escolas a saber, de forma concreta, o que ensinar e a que idade. Um estudo de viabilidade conduzido em 2023 com promotores de 21 países confirmou essa lacuna e recomendou avançar para um referencial partilhado. A proposta tornou-se, pouco depois, uma das prioridades da estratégia de educação do Conselho da Europa para 2024-2030, conhecida como Learners first, e ganhou visibilidade adicional com a designação de 2025 como Ano Europeu da Educação para a Cidadania Digital.

A construção do DCE Planner decorreu entre 2023 e 2025: um workshop em Lisboa, quatro workshops em Estrasburgo dedicados a diferentes faixas etárias, questionários a promotores nacionais e uma consulta final a quarenta especialistas de vinte e cinco países. A versão inicial do referencial foi apresentada no lançamento do Ano Europeu, em janeiro de 2025, e o quadro de resultados de aprendizagem foi formalmente lançado a 27 e 28 de maio de 2025, no primeiro Fórum de Educação para a Cidadania Digital, em Estrasburgo, sob o mote «Let’s Act Now!». A edição integral, com a lista completa de colaboradores e as referências bibliográficas, seria publicada em fevereiro de 2026.

Dez domínios, oito temas, quatro idades

A arquitetura do DCE Planner é, ao mesmo tempo, simples e ambiciosa. Os seus resultados de aprendizagem organizam-se em dez domínios digitais, agrupados em três grandes áreas: estar em linha (acesso e inclusão, aprendizagem e criatividade, literacia mediática e da informação), bem-estar em linha (ética e empatia, saúde e bem-estar, presença digital e comunicação) e direitos em linha (participação ativa, direitos e responsabilidades, privacidade e segurança, consciência do consumidor).

Cada um destes domínios desdobra-se em oito temas, que se repetem ao longo das quatro faixas etárias contempladas — 5-7, 8-11, 12-15 e 16-18 anos —, aprofundando-se progressivamente à medida que os alunos crescem. É o que os próprios autores, citando o modelo de currículo em espiral de Jerome Bruner, descrevem como uma revisitação constante dos mesmos temas, cada vez com maior complexidade. Multiplicar dez domínios por oito temas e por quatro faixas etárias dá, precisamente, os 320 resultados de aprendizagem que compõem o documento.

Esta arquitetura tem uma consequência prática que interessa particularmente a quem está na sala de aula: cada resultado de aprendizagem cobre também um tipo diferente de competência cognitiva. Uns pedem apenas que o aluno identifique ou descreva algo; outros exigem que compare, analise ou discuta; outros ainda pedem uma ação concreta, como denunciar um comportamento ou colaborar num projeto. O domínio da ética e empatia ilustra bem esta progressão: identificar tipos de comportamento hostil em linha é conhecimento; distinguir cyberbullying de uma «brincadeira inofensiva» é pensamento crítico; saber o que fazer ao testemunhar uma situação de cyberbullying é já ação prática.

Da tabela para a aula

O que distingue o DCE Planner de muitos outros documentos de referência é a sua vocação de uso imediato. Os resultados de aprendizagem estão escritos em linguagem simples e seguem quase sempre a mesma fórmula introdutória — é capaz de —, o que os torna fáceis de copiar diretamente para um plano de aula, sem necessidade de reinterpretação.

Alguns exemplos ajudam a perceber o alcance do documento. Na literacia mediática e da informação, um aluno entre os 16 e os 18 anos deve ser capaz de refletir sobre a forma como o seu próprio comportamento em linha condiciona as notícias que recebe, e de identificar formas de escapar a essa espiral. No domínio da participação ativa, entre os 12 e os 15 anos, espera-se que saiba propor formas de usar a tecnologia para reforçar a participação dos estudantes nas decisões da escola. Já na aprendizagem e criatividade, para o grupo mais velho, surgem resultados que seria difícil encontrar num documento anterior a 2023: explorar de que forma ferramentas de inteligência artificial podem melhorar a aprendizagem, ou identificar as questões de direitos de autor associadas à criação de conteúdos com IA.

Para os mais pequenos, entre os 5 e os 7 anos, o documento assume que a cidadania digital, tal como a conhecemos nos alunos mais velhos, ainda não existe verdadeiramente — e propõe, em vez disso, precursores dessa cidadania: hábitos saudáveis, atenção aos outros, capacidade de pedir ajuda a um adulto de confiança. No domínio dos direitos e responsabilidades, por exemplo, não se pede a uma criança desta idade que atue sobre os seus direitos digitais, mas apenas que seja capaz de «falar quando vê algo errado, mesmo que os outros se mantenham calados» — uma base emocional e social sobre a qual assentará, mais tarde, uma cidadania digital mais consciente.

Um processo com participação portuguesa

O DCE Planner não nasceu de um gabinete fechado em Estrasburgo. Envolveu mais de sessenta educadores, especialistas e estudantes de trinta dos quarenta e seis Estados-membros do Conselho da Europa — perto de dois terços do total —, distribuídos por grupos de trabalho dedicados a cada faixa etária, workshops presenciais e rondas sucessivas de consulta.

Portugal esteve entre os países representados. Na lista de colaboradores da edição final, a Direção-Geral da Educação surge representada por Susana Tavares, e a Universidade Autónoma de Lisboa, através do CIES-ISCTE, por Vitor Tomé, investigador com trabalho conhecido na área da literacia mediática. Vale a pena sublinhar este dado: significa que as escolas portuguesas não estão a receber um instrumento pensado exclusivamente para outras realidades educativas, mas um referencial que teve, desde o início, uma voz nacional na sua construção.

Que lugar ocupa este referencial nas escolas portuguesas

Convém ser preciso sobre o que o DCE Planner é e o que não é. Não é um currículo fechado, nem substitui as Aprendizagens Essenciais de cada disciplina ou qualquer outro documento curricular nacional. Os próprios autores insistem neste ponto: trata-se de um referencial flexível, um repositório de exemplos dos quais professores, escolas e responsáveis educativos podem escolher, adaptar e combinar conforme as suas necessidades — e não de um programa a cumprir do princípio ao fim.

Esta lógica encaixa com relativa naturalidade na autonomia e flexibilidade curricular que o quadro legal português já reconhece às escolas, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 55/2018, e no Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, onde a dimensão digital e a cidadania já ocupam um lugar central. O DCE Planner não substitui as Aprendizagens Essenciais: oferece-lhes uma grelha adicional, mais detalhada e organizada por domínio digital, que pode ajudar a decidir onde e como inserir a cidadania digital nas diferentes disciplinas — porque, como o próprio documento sublinha, este não é tema de uma disciplina isolada, mas de qualquer aula em que a tecnologia entre, ainda que de forma indireta.

O referencial também não surge isolado no panorama europeu. Foi desenhado para complementar o Quadro de Referência de Competências para uma Cultura Democrática, já conhecido de muitas escolas europeias e disponível em português, estendendo para o mundo digital os mesmos valores de democracia, direitos humanos e Estado de direito que sustentam aquele documento. Para além da sala de aula, os autores sugerem ainda outros usos possíveis: planeamento da formação de professores, autoavaliação de escolas, desenvolvimento curricular e projetos de educação não formal, com associações de jovens e famílias.

Uma ferramenta para explorar com calma

Um documento com 320 resultados de aprendizagem não se lê de uma vez, nem essa parece ser a intenção dos seus autores. A proposta é outra: que cada escola, cada grupo disciplinar ou cada professor escolha os domínios e as idades que lhe interessam, e comece por aí — talvez pela literacia mediática, talvez pela ética e empatia, talvez pela participação ativa —, sem sentir a obrigação de abraçar o documento na totalidade desde o primeiro dia.

Num momento em que a desinformação, o uso excessivo de ecrãs e a chegada da inteligência artificial às salas de aula colocam questões novas quase todas as semanas, um instrumento europeu que ajude a organizar o que ensinar — e a que idade — não resolve tudo, mas oferece, pelo menos, um mapa comum a partir do qual as escolas portuguesas podem construir as suas próprias respostas.

Referências

Styslavska-Doliwa, O., & Huddleston, T. (2026). DCE Planner: A curriculum framework for digital citizenship education. Council of Europe Publishing. https://rm.coe.int/1680b5e660

Council of Europe. (2025, 26 de maio). Council of Europe to launch a Digital Citizenship Education Curriculum Framework. Consultado em 5 de julho de 2026, em https://www.coe.int/en/web/education/-/council-of-europe-to-launch-a-digital-citizenship-education-curriculum-framework

Council of Europe. (2018). Reference framework of competences for democratic culture: Volume 1. Context, concepts and model. Council of Europe Publishing. Consultado em 5 de julho de 2026, em https://www.coe.int/en/web/education/-/reference-framework-of-competences-for-democratic-culture

Currículo, Ensino e Aprendizagem no Design: o que realmente importa

Março 2026

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Chegou às minhas mãos um documento de trabalho académico que, apesar de ter sido produzido no contexto de um doutoramento em Estudos de Currículo e Ciências da Aprendizagem nos EUA, tem muito para nos dizer — a nós, educadores portugueses que trabalhamos diariamente com alunos, formamos professores e pensamos sobre como melhorar o ensino. Chama-se Curriculum Instruction Handbook for Design Education, da autoria de Bara´ah Muqaddam, e é um daqueles textos que nos fazem parar e refletir sobre o que fazemos dentro da sala de aula.

Não vou fazer um resumo académico. Vou partilhar o que me pareceu mais importante — e mais útil para quem ensina.

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Aprender não é receber informação

A ideia central do documento é simples, mas revolucionária na prática: aprender não é um processo passivo. Não aprendemos porque um professor nos transmite conteúdo. Aprendemos quando estamos ativamente envolvidos, quando experimentamos, erramos, refletimos e tentamos de novo.

A investigação em neurociência mostra que a emoção e a cognição estão profundamente ligadas. Quando um aluno está emocionalmente investido numa tarefa — seja um projeto, uma apresentação, uma escrita criativa —, a atenção sustenta-se mais, a memória retém melhor e o conhecimento dura mais tempo. Isto não é novidade para quem está em sala de aula, mas é bom ver confirmado pela ciência aquilo que já sentimos na pele.

O documento descreve um ciclo de aprendizagem que passa pelo envolvimento emocional → atenção → aprendizagem ativa → reflexão → memória de longo prazo. É uma espiral, não uma linha reta. E a reflexão é o elemento que transforma a experiência em conhecimento real.

O papel do professor: tornar o pensamento visível

No ensino do design — e, por extensão, em qualquer área criativa ou complexa —, o professor não é apenas quem transmite conteúdo. É quem torna o pensamento visível. Isso implica modelar processos em voz alta, mostrar como se raciocina perante um problema, guiar sem prescrever soluções.

O ciclo instrucional proposto no documento segue esta lógica:

  • Modelação pelo docente — mostrar como se pensa, não apenas o que se faz
  • Prática guiada — acompanhar os alunos enquanto experimentam
  • Aplicação autónoma — deixar que os alunos testem as suas ideias
  • Reflexão sobre o processo — promover a metacognição
  • Feedback e revisão — fechar o ciclo com melhoria

Este modelo é válido muito além do design. Funciona na língua portuguesa, nas ciências, na história, nas artes. O que muda é a forma como se aplica, não o princípio.

A metacognição como ferramenta de ensino

Uma das ideias que mais me marcou foi a importância da metacognição — ou seja, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. O documento cita investigação que mostra que mesmo intervenções mínimas, como pedir aos alunos que expliquem por que tomaram determinada decisão, têm um impacto significativo na forma como aprendem.

Na prática, isto significa:

  • Pedir aos alunos que justifiquem as suas escolhas
  • Encorajar a comparação entre alternativas
  • Propor momentos de reflexão após atividades
  • Pedir que documentem o processo, não apenas o resultado

São estratégias simples. Mas que exigem tempo, intenção e cultura de sala de aula. Não se improvisam.

Currículo: não é uma lista de conteúdos

O documento insiste numa ideia que qualquer formador de professores conhece, mas que continua a não ser prática comum: o currículo é um sistema alinhado. Não é uma lista de temas a cumprir. É a relação coerente entre aquilo que queremos que os alunos aprendam (objetivos), o que fazemos em aula (atividades) e como avaliamos (instrumentos).

Quando estes três elementos estão desalinhados — objetivos ambiciosos, atividades rotineiras, testes de memorização —, os alunos ficam confusos, desmotivados e aprendem menos do que poderiam. A coerência curricular não é um luxo. É uma necessidade.

O documento também valoriza a progressão e a sequência: os conteúdos devem ser organizados de forma a que os alunos construam sobre o que já sabem, avançando do simples para o complexo, do concreto para o abstrato. Parece óbvio, mas na prática raramente acontece de forma intencional.

A IA no currículo: ferramenta, não substituto

Num dos capítulos mais atuais do documento, aborda-se a integração de ferramentas digitais e IA no currículo. A posição é equilibrada e sensata: a IA pode expandir as possibilidades criativas, ajudar a gerar ideias e explorar alternativas — mas não substitui o pensamento crítico nem a autoria do aluno.

Os alunos devem aprender a:

  • Usar a IA como apoio, não como atalho
  • Avaliar criticamente os resultados gerados por IA
  • Transformar ideias geradas automaticamente em soluções originais e pessoais

Esta é exatamente a conversa que precisamos de ter nas nossas escolas. A IA já está na sala de aula — com ou sem a nossa autorização. A questão não é se os alunos a usam, mas como os ajudamos a usá-la bem.

Avaliação que serve para aprender

A avaliação é, talvez, o capítulo mais desafiante. O documento defende uma mudança de paradigma: de uma avaliação que mede resultados para uma avaliação que apoia a aprendizagem. Isto implica:

  • Dar feedback contínuo, não apenas no final
  • Valorizar o processo tanto quanto o produto
  • Permitir a iteração e a melhoria ao longo do percurso
  • Incluir a reflexão do próprio aluno como parte da avaliação

Num sistema de ensino que ainda vive muito orientado para a nota final e para os exames, esta proposta soa a utopia. Mas há espaço para a aplicar — em projetos, em portefólios, em trabalhos de grupo, em momentos de autoavaliação estruturada. Depende de nós.

A instituição também precisa de aprender

Há uma dimensão do documento que raramente aparece nos manuais de pedagogia: a escola como organização aprendente. Não basta que os professores sejam bons individualmente. É preciso que a instituição crie condições para que o bom trabalho aconteça e se sustente.

Isso implica liderança com visão, comunidades de prática entre docentes, formação contínua integrada no quotidiano — não como evento isolado —, e sistemas de avaliação do próprio currículo que permitam ajustá-lo ao longo do tempo.

Uma escola que não reflete sobre si mesma tende a repetir os mesmos erros, ano após ano.

O que fica

Este documento foi escrito para o contexto do ensino do design. Mas as suas ideias centrais transcendem o contexto. A aprendizagem ativa, a reflexão sistemática, o alinhamento curricular, a avaliação formativa, a integração responsável da IA — são princípios que cabem em qualquer sala de aula, em qualquer disciplina.

O que mais me ficou foi esta frase implícita ao longo de todo o texto: ensinar bem não é uma questão de talento natural. É uma questão de intencionalidade. Fazer escolhas conscientes sobre o que ensinamos, como ensinamos e como sabemos se funcionou.

Vale a pena parar e perguntar: nas nossas aulas, essas escolhas são mesmo intencionais?


Referência: Muqaddam, B. (2026). Curriculum Instruction Handbook for Design Education. Edgewood University, EdD Program in Curriculum Studies and Learning Sciences.

IAVE

National Framework for Artificial Intelligence in Digital Learning (AIDL) in the Kingdom of Saudi Arabia

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O Centro Nacional de E-Learning anunciou o Quadro Nacional de Inteligência Artificial na Aprendizagem Digital (AIDL) no Reino. O quadro visa regulamentar o uso de tecnologias de inteligência artificial na educação digital, no país. É composto por nove dimensões-chave, com cada dimensão contendo várias secções principais. Cada secção fornece uma definição, identifica a diretriz-chave que explica os seus principais usos e aplicações. As nove dimensões incluem:

1. Liderança
2. Desenho de Currículo e Desenvolvimento de Conteúdo
3. Ensino e Aprendizagem
4. Avaliação e Monitorização de Desempenho
5. Ética e Uso Responsável da Inteligência Artificial
6. Normas Técnicas, Segurança e Privacidade de Dados
7. Apoio ao Estudante
8. Desenvolvimento Profissional
9. Avaliação e Melhoria Contínua

A estrutura representa um passo importante e estratégico, servindo como um indicador-chave do interesse do Reino em adotar tecnologias modernas no setor educacional, governar o seu uso e desenvolver aplicativos para maximizar o seu impacto e alcançar os resultados esperados da adoção de tecnologias de inteligência artificial no país.

La laïcité à l’École

Dezembro 2023

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Préface
Principe cardinal de notre République française, la laïcité a pour vocation historique de fonder l’unité de notre pays dans une loi commune et de garantir l’accès à une culture partagée.
Au moment où le fanatisme reprend sa course sous maintes latitudes, la laïcité apparaît comme un véritable choix de civilisation. L’École républicaine en est la voix et le terreau. C’est cette mission qui est violemment attaquée aujourd’hui. Ainsi portons-nous à jamais le deuil de nos professeurs, Samuel Paty et Dominique Bernard, assassinés pour ce qu’ils représentaient, des acteurs de notre héritage républicain et des passeurs de liberté.
Aujourd’hui, devant ce sursaut de l’inqualifiable, les professions de foi ne suffisent plus. L’application du principe de laïcité ne doit souffrir ni entorse ni ambiguïté. C’est pourquoi j’ai décidé, dès la rentrée 2023, d’interdire le port du qamis et de l’abaya à l’école, en clarifiant le cadre d’application de la loi de 2004.
La laïcité n’est pas une contrainte mais une liberté. En séparant la religion et la politique, la religion et le droit, elle permet l’égalité de tous, croyants et non croyants. Elle est la condition de la liberté de conscience dans notre République et son École.
Pour que l’enseignement soit vraiment libre, il doit être à l’abri de toute tutelle religieuse. C’est l’ambition de l’éducation à la française. L’origine d’une telle ambition émancipatrice est connue, mais parfois oubliée : permettre aux citoyens de se rassembler par-delà leurs différences, sans les nier ni les brimer. Notre enseignement donne le primat à la connaissance sur la multiplicité des appartenances et des observances, la prévalence au collectif sur les particularismes.
Je suis convaincu que l’école, par-delà les différences de tous ceux qu’elle accueille, doit être le lieu de la construction de références communes et de l’intérêt général sous la tutelle de la seule raison
et non d’une croyance quelle qu’elle soit.
Je remercie à cet égard mon prédécesseur Jean-Michel Blanquer d’avoir créé le Conseil des sages de la laïcité. Composé d’experts de haut niveau, ce Conseil vient, en appui de l’équipe nationale et des équipes académiques Valeurs de la République dans les académies, répondre à l’aspiration des professeurs et de l’ensemble des personnels de l’Education nationale de pouvoir disposer d’un socle, d’un cadre sûr, auxquels adosser leurs pratiques pédagogiques pour s’inscrire dans la mission historique de notre école républicaine. En s’appuyant sur des textes de référence, ce vadémécum vient répondre à des situations concrètes avec une approche pédagogique de la laïcité, offrant ainsi une ressource complète pour nos personnels enseignants et pour un large public.
Je vous en souhaite une excellente lecture,
Respectueusement et fidèlement,

Gabriel Attal
Ministre de l’Éducation et de la Jeunesse

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