Stories of Teacher Authenticity | eBook

Há uma pergunta que raramente aparece nos programas de formação de professores, mas que está no coração de qualquer sala de aula viva: o que é que os alunos realmente guardam dos seus professores? A resposta, quase sempre, não tem nada a ver com conteúdos nem com grelhas de avaliação. Tem a ver com pessoas. Com professores que se mostraram humanos.
É exatamente este terreno que o livro Stories of Teacher Authenticity decide explorar — e com resultados que vale a pena trazer para a conversa das nossas escolas.
O que significa ser um professor autêntico?
Há mais de um século, John Dewey já denunciava a contradição entre o que os educadores pregam e o que efetivamente fazem na sala de aula. Hoje, a tensão não desapareceu. Continuamos a falar de aprendizagem centrada no aluno em conferências e depois a encher o quadro de matéria enquanto os alunos copiam em silêncio.
Alan Maley, no prefácio da obra, coloca o dedo na ferida: as publicações sobre ensino focam-se quase exclusivamente na dimensão técnica — métodos, materiais, análise linguística — e esquecem o que acontece entre as pessoas na sala de aula. Cita Earl Stevick para lembrar que o sucesso depende menos de técnicas do que da presença ou ausência de harmonia naquele espaço . E vai mais longe, lembrando a famosa frase atribuída a Theodore Roosevelt: “They don’t care how much you know until they know how much you care.” Não se preocupam com o quanto sabes, enquanto não souberem o quanto te importas.
Ser autêntico, neste sentido, é aceitar a vulnerabilidade. É deixar de se esconder atrás de um muro de conhecimento superior . É arriscar.
“Não sei” — as palavras mais libertadoras de uma sala de aula
Guo Qingli, professora de Mandarim em Pequim, conta como um dia um aluno lhe fez uma pergunta para a qual não tinha resposta — e como, em vez de admitir isso, deu uma resposta vaga para salvar as aparências. O momento perseguiu-a durante dias.
Inspirada por Confúcio — “O sábio admite que sabe algumas coisas e não sabe outras” — decidiu fazer diferente. Confessou o erro à turma. Os alunos perdoaram-na. E nasceu ali algo novo: uma investigação conjunta, em grupos, onde professora e alunos procuraram juntos a resposta que faltava.
O que aconteceu a seguir é significativo. A delegada de turma, que sentia a mesma pressão de parecer sempre saber tudo, viu a professora dizer “não sei” sem perder autoridade — e libertou-se também. Passou a recolher as dúvidas dos colegas e a afixá-las no placard para que outros respondessem. Deixou de distribuir “taças de arroz” e passou a ajudar os alunos a “cultivar o seu próprio arroz”.
Para professores que trabalham em contextos de alta exigência — onde os alunos chegam cada vez mais informados, com acesso imediato a qualquer resposta — esta postura não é fraqueza. É estratégia pedagógica e é honestidade intelectual.
Praticar o que se prega: o modelo Falar–Agir–Caminhar Juntos
Os editores da obra propõem um modelo simples mas exigente :
- Falar (Talk): explicar aos alunos os princípios que orientam as nossas escolhas pedagógicas
- Agir (Walk the Talk): fazer na prática o que se disse que se ia fazer — para que os alunos nos vejam a ser coerentes
- Caminhar Juntos (Walk Together): convidar os alunos a adotar comportamentos semelhantes, depois de os terem observado no professor
O problema, dizem os editores, é que muitos de nós pensamos que estamos a ser centrados no aluno — quando os próprios alunos nos veem como desorganizados ou impreparados . A autenticidade não é uma intenção. É algo que os outros percebem — ou não — nas nossas ações.
Amar aprender (e mostrar isso)
Jessie Teh, professora de Singapura, parte de uma convicção simples: se os alunos não querem aprender, a aula é penosa — para eles e para o professor. A solução que encontrou foi mostrar, ela mesma, o que é amar aprender.
Quando teve dificuldade a instalar o quadro interativo, pediu ajuda a uma colega — à frente dos alunos. Quando não sabia responder a uma pergunta de biologia, assumiu que não sabia — e propôs que todos pesquisassem em casa e partilhassem na aula seguinte. Quando reparou que os alunos tinham vergonha de pedir ajuda, fez um inquérito para perceber porquê, partilhou os resultados com a turma e disse: “Eu também me sinto assim. Estamos todos no mesmo barco.”
Esta abordagem tem um nome na literatura pedagógica: growth mindset. Mas aqui não é um cartaz na parede — é uma professora que o vive em frente aos alunos.
O professor como leitor, escritor, aprendente
Vários capítulos do livro tocam num ponto que raramente aparece nos planos de formação: o professor como modelo ativo daquilo que ensina.
Anita Kurniawati Hadiyanto, professora de leitura na Indonésia, percebeu que não conseguia motivar os alunos para ler enquanto ela, durante o tempo de leitura silenciosa, estivesse a corrigir testes. Passou a ler com eles — os mesmos livros graduados que eles liam — e a partilhar entusiasticamente as suas leituras . Os alunos ficaram surpreendidos quando ela começou a seguir as sugestões de livros deles: nunca esperavam que a professora aceitasse as suas recomendações .
George Jacobs, um dos editores, descreve como escreve com os alunos — não para eles. Mostra que escrever nem sempre é fácil ou divertido, mas que enfrentar esse desafio e comunicar com os outros pode ser recompensador. Um estudo que cita refere que uma das características que os alunos mais valorizam num professor autêntico é a paixão pelo que ensina.
Reflexão: a autenticidade que se constrói pelo erro
Nimrod Delante conta como, numa aula sobre literatura filipina, as suas perguntas mal formuladas desencadearam um conflito entre dois aluno . Em vez de se esquivar, pediu desculpa. Admitiu que tinha sido descuidado e insensível. Anos depois, partilha esse episódio nas suas aulas de comunicação intercultural em Singapura — não para se penitenciar, mas para mostrar que os erros podem ser ponto de partida para uma compreensão mais profunda do ser humano.
“As palavras constroem ou destroem pessoas e sociedades”, conclui . E a reflexão — não como exercício académico, mas como hábito vivido — é o que transforma um professor num aprendente perpétuo.
O que fica para as nossas escolas
A autenticidade não é um traço de personalidade com que se nasce. É uma prática diária, feita de pequenas escolhas: admitir uma dúvida, ler em voz alta para a turma, partilhar um fracasso pessoal, ouvir verdadeiramente o que os alunos dizem.
Os editores são honestos: ser 100% autêntico é provavelmente impossível. Mas cada gesto nessa direção cria um ambiente onde os alunos se sentem seguros para arriscar, errar e crescer. Onde o professor deixa de ser o “sábio no palco” para se tornar, nas palavras de Sonam Zangpo Sherpa do Butão, o “guia ao lado” .
E talvez seja isso o que os alunos vão guardar — não as fichas de trabalho nem as datas dos testes, mas o professor que um dia disse “não sei, vamos descobrir juntos” e ficou à mesa com eles até encontrarem a resposta.

Referência: Asmawi, A., Jacobs, G. M., Qingli, G., & Renandya, W. A. (Eds.). (2023). Stories of Teacher Authenticity. PeacheyPublications Ltd. Disponível gratuitamente em linha.

