Quando os alunos chegam antes dos professores: IA, escola e pedagogia

Há qualquer coisa de revelador na ideia de que são os alunos, e não as escolas, a impulsionar a entrada da inteligência artificial nas salas de aula. Não é uma hipótese teórica — é o que os dados mostram. Em Espanha, país que serve de espelho próximo para quem trabalha em educação em Portugal, 75% dos jovens entre os 16 e os 24 anos utilizam agentes de inteligência artificial regularmente. Entre os estudantes desta faixa etária, a percentagem chega aos 59%, largamente acima da média europeia de 39%. E se olharmos para os alunos do ensino secundário, 35% já recorrem à IA nas suas tarefas escolares — comparando com 14% em França e 25% em Itália. São números que não permitem contemporizações.

Em Portugal, o panorama caminha em sentido semelhante. O governo aprovou, em dezembro de 2025, a Agenda Nacional para a Inteligência Artificial e a Estratégia Digital Nacional, com um investimento direto de cerca de 350 milhões de euros no plano de ação para 2025-2026. O ministro da Educação, Fernando Alexandre, foi direto na mensagem: a IA não pode ser ignorada e as escolas têm de se adaptar, através da formação de professores e da alteração dos métodos de ensino. No ensino superior, a FCT e a FCCN lançaram, em maio de 2025, a plataforma IAedu, que democratiza o acesso a modelos de linguagem de grande dimensão com autenticação institucional. É um passo importante — mas a questão mais urgente não é tecnológica. É pedagógica.

A brecha que divide o corpo docente

Se entre os alunos o entusiasmo é evidente, o mesmo não pode dizer-se dos professores. Em Espanha, os dados desenham uma fratura nítida: 60% dos docentes com menos de 30 anos utilizam inteligência artificial no seu trabalho, mas esse valor cai para 27% entre os que têm mais de 30. Os professores que não a utilizam invocam, sobretudo, a falta de formação e a convicção de que a ferramenta não é útil para o seu trabalho. Não se trata, na maioria dos casos, de resistência ideológica — trata-se de desorientação formativa, agravada por uma sobrecarga profissional que deixa pouco espaço para aprender algo novo.

Este desfasamento coloca um paradoxo desconfortável: os alunos chegam à aula com ferramentas que os seus professores não dominam, e muitas vezes sem saber como usá-las com critério pedagógico. A inteligência artificial entra pela janela quando deveria entrar pela porta — com enquadramento, com propósito e com uma intenção educativa clara. A introdução sistemática da IA no ensino, hoje conduzida em grande medida pelos próprios estudantes, exige o acompanhamento de uma nova pedagogia e a formação do pessoal docente, tanto na formação inicial como na formação contínua. E exige também condições de trabalho que tornem essa adaptação possível sem somar mais peso a quem já carrega demasiado.

É precisamente este ponto que a UGT espanhola sublinha num documento recente: não basta formar professores se as condições estruturais não mudarem. Aumentar o pessoal para evitar a sobrecarga laboral não é um pedido de conforto — é um requisito para que qualquer transformação pedagógica real aconteça. Em Portugal, iniciativas como a Academia Professores do Futuro, lançada em novembro de 2025, procuram dar uma resposta, levando formação acreditada e ferramentas de IA a docentes de todo o país, incluindo os que vivem longe dos grandes centros. O caminho está a ser trilhado. Mas a velocidade dos recursos ainda não acompanha a urgência do momento.

Nem tudo é igual: a pedagogia tem de variar com a idade

Um dos equívocos mais comuns no debate sobre inteligência artificial e educação é tratar todos os ciclos de ensino como se fossem um bloco homogéneo. Não são. A pedagogia adequada a cada fase da vida escolar é profundamente diferente — e ignorar isso é um erro com consequências.

No ensino superior, é razoável confiar na autonomia dos estudantes e apostar em formas de avaliação que superem o exame tradicional como instrumento único de aferição. Apresentações orais, projetos de longa duração, portefólios, discussões em profundidade, trabalhos que exijam síntese crítica e tomada de posição pessoal: são estas as formas de avaliação que a IA ainda não consegue substituir, e que desenvolvem nos estudantes competências genuínas e duradouras. O exame clássico, neste contexto, começa a revelar-se não apenas desatualizado, mas honestamente insuficiente.

O mesmo raciocínio não se aplica ao ensino básico — e muito menos ao 1.º ciclo. A educação das crianças mais novas deve ser fundamentalmente analógica, ancorada na experiência física, relacional e sensorial do mundo. As crianças aprendem a ser pessoas antes de aprenderem conteúdos: aprendem a ouvir, a esperar, a partilhar, a gerir o erro, a sentir o peso de um livro, a olhar nos olhos de quem as ensina. Os seus cérebros ainda estão em plena formação, e confiar a agentes de inteligência artificial o seu desenvolvimento básico seria, como escreve o articulista da La Vanguardia, amputar uma parte essencial da experiência humana — o aprendizado da vida na sua maravilhosa multidimensionalidade.

Não se trata de hostilidade à tecnologia nem de saudosismo pedagógico. Trata-se de reconhecer que há dimensões do crescimento que nenhum algoritmo consegue proporcionar: a presença de um adulto que se importa, o conflito que se resolve no recreio, a história contada em voz alta numa tarde de inverno, o prazer físico de aprender a escrever à mão, o momento em que uma criança percebe que conseguiu. A inteligência artificial pode ser um instrumento poderoso quando o ser humano já tem ferramentas cognitivas e relacionais para a utilizar com discernimento. Antes disso, é demasiado cedo.

O que a escola precisa agora

A pergunta que se impõe não é se a IA deve entrar na escola — ela já lá está, nos bolsos dos alunos, nos telemóveis e nos computadores portáteis. A pergunta é como é que a escola responde a isso com inteligência pedagógica, e não apenas com entusiasmo tecnológico ou com proibições que não resistem ao primeiro clique fora da sala de aula.

Responder bem exige várias coisas em simultâneo. Professores formados — não apenas em ferramentas, mas em literacia crítica sobre o que a inteligência artificial faz e não faz, sobre os seus enviesamentos, as suas limitações e os seus riscos. Tempo e espaço profissional para que essa formação aconteça sem se somar ao trabalho já existente. Uma avaliação escolar que evolua, tornando-se mais rica, mais diversificada e mais difícil de delegar a uma máquina. E uma convicção firme: nas idades mais novas, a escola tem de ser, antes de tudo, um espaço humano.

A inteligência artificial, usada com sabedoria e com enquadramento pedagógico, pode ser uma aliada extraordinária do ensino. Mas a chave — como sempre em educação — está nos professores.


Sugestão de atividade (2.º e 3.º ciclos e ensino secundário)

Proponha aos alunos uma tarefa dupla: resolver o mesmo problema — uma análise de texto, um resumo histórico, a explicação de um fenómeno científico — primeiro sem IA e depois com IA. A seguir, peça-lhes que comparem os dois resultados e respondam: o que mudou? O que se perdeu? O que foi surpreendente? Esta atividade, simples e adaptável a qualquer disciplina, desenvolve pensamento crítico, metacognição e literacia sobre a própria ferramenta.


Clicar na imagem para ver a apresentação…

Referências

Governo de Portugal. (2025, 4 de dezembro). Reforma do Estado avança com Estratégia Digital e Agenda para a Inteligência Artificial. XXV Governo Constitucional. https://www.portugal.gov.pt/pt/gc25/comunicacao/noticia?i=reforma-do-estado-avanca-com-estrategia-digital-e-agenda-para-a-inteligencia-artificial

La Vanguardia. (2026, 4 de abril). Maestros artificiales [Artigo de opinião]. https://www.lavanguardia.com/opinion/20260404/11504773/maestros-artificiales.amp.html

Observador. (2025, 12 de novembro). Nova academia digital quer democratizar formação e apoio a professores. https://observador.pt/2025/11/12/nova-academia-digital-quer-democratizar-formacao-e-apoio-a-professores/

Rádio Renascença. (2026, 19 de janeiro). Inteligência artificial nas escolas: uma distração ou ajuda para os alunos? https://rr.pt/artigo/explicador-renascenca/2026/01/19/inteligencia-artificial-nas-escolas-uma-distracao-ou-ajuda-para-os-alunos/455954/

FCCN. (2025, maio). IAedu: democratizar o acesso à inteligência artificial na educação e investigação em Portugal. https://www.fccn.pt/en/blog/iaedu-democratizar-acesso-inteligencia-artificial-na-educacao-investigacao-em-portugal/

Currículo, Ensino e Aprendizagem no Design: o que realmente importa

Março 2026

Download |

Chegou às minhas mãos um documento de trabalho académico que, apesar de ter sido produzido no contexto de um doutoramento em Estudos de Currículo e Ciências da Aprendizagem nos EUA, tem muito para nos dizer — a nós, educadores portugueses que trabalhamos diariamente com alunos, formamos professores e pensamos sobre como melhorar o ensino. Chama-se Curriculum Instruction Handbook for Design Education, da autoria de Bara´ah Muqaddam, e é um daqueles textos que nos fazem parar e refletir sobre o que fazemos dentro da sala de aula.

Não vou fazer um resumo académico. Vou partilhar o que me pareceu mais importante — e mais útil para quem ensina.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

Aprender não é receber informação

A ideia central do documento é simples, mas revolucionária na prática: aprender não é um processo passivo. Não aprendemos porque um professor nos transmite conteúdo. Aprendemos quando estamos ativamente envolvidos, quando experimentamos, erramos, refletimos e tentamos de novo.

A investigação em neurociência mostra que a emoção e a cognição estão profundamente ligadas. Quando um aluno está emocionalmente investido numa tarefa — seja um projeto, uma apresentação, uma escrita criativa —, a atenção sustenta-se mais, a memória retém melhor e o conhecimento dura mais tempo. Isto não é novidade para quem está em sala de aula, mas é bom ver confirmado pela ciência aquilo que já sentimos na pele.

O documento descreve um ciclo de aprendizagem que passa pelo envolvimento emocional → atenção → aprendizagem ativa → reflexão → memória de longo prazo. É uma espiral, não uma linha reta. E a reflexão é o elemento que transforma a experiência em conhecimento real.

O papel do professor: tornar o pensamento visível

No ensino do design — e, por extensão, em qualquer área criativa ou complexa —, o professor não é apenas quem transmite conteúdo. É quem torna o pensamento visível. Isso implica modelar processos em voz alta, mostrar como se raciocina perante um problema, guiar sem prescrever soluções.

O ciclo instrucional proposto no documento segue esta lógica:

  • Modelação pelo docente — mostrar como se pensa, não apenas o que se faz
  • Prática guiada — acompanhar os alunos enquanto experimentam
  • Aplicação autónoma — deixar que os alunos testem as suas ideias
  • Reflexão sobre o processo — promover a metacognição
  • Feedback e revisão — fechar o ciclo com melhoria

Este modelo é válido muito além do design. Funciona na língua portuguesa, nas ciências, na história, nas artes. O que muda é a forma como se aplica, não o princípio.

A metacognição como ferramenta de ensino

Uma das ideias que mais me marcou foi a importância da metacognição — ou seja, a capacidade de pensar sobre o próprio pensamento. O documento cita investigação que mostra que mesmo intervenções mínimas, como pedir aos alunos que expliquem por que tomaram determinada decisão, têm um impacto significativo na forma como aprendem.

Na prática, isto significa:

  • Pedir aos alunos que justifiquem as suas escolhas
  • Encorajar a comparação entre alternativas
  • Propor momentos de reflexão após atividades
  • Pedir que documentem o processo, não apenas o resultado

São estratégias simples. Mas que exigem tempo, intenção e cultura de sala de aula. Não se improvisam.

Currículo: não é uma lista de conteúdos

O documento insiste numa ideia que qualquer formador de professores conhece, mas que continua a não ser prática comum: o currículo é um sistema alinhado. Não é uma lista de temas a cumprir. É a relação coerente entre aquilo que queremos que os alunos aprendam (objetivos), o que fazemos em aula (atividades) e como avaliamos (instrumentos).

Quando estes três elementos estão desalinhados — objetivos ambiciosos, atividades rotineiras, testes de memorização —, os alunos ficam confusos, desmotivados e aprendem menos do que poderiam. A coerência curricular não é um luxo. É uma necessidade.

O documento também valoriza a progressão e a sequência: os conteúdos devem ser organizados de forma a que os alunos construam sobre o que já sabem, avançando do simples para o complexo, do concreto para o abstrato. Parece óbvio, mas na prática raramente acontece de forma intencional.

A IA no currículo: ferramenta, não substituto

Num dos capítulos mais atuais do documento, aborda-se a integração de ferramentas digitais e IA no currículo. A posição é equilibrada e sensata: a IA pode expandir as possibilidades criativas, ajudar a gerar ideias e explorar alternativas — mas não substitui o pensamento crítico nem a autoria do aluno.

Os alunos devem aprender a:

  • Usar a IA como apoio, não como atalho
  • Avaliar criticamente os resultados gerados por IA
  • Transformar ideias geradas automaticamente em soluções originais e pessoais

Esta é exatamente a conversa que precisamos de ter nas nossas escolas. A IA já está na sala de aula — com ou sem a nossa autorização. A questão não é se os alunos a usam, mas como os ajudamos a usá-la bem.

Avaliação que serve para aprender

A avaliação é, talvez, o capítulo mais desafiante. O documento defende uma mudança de paradigma: de uma avaliação que mede resultados para uma avaliação que apoia a aprendizagem. Isto implica:

  • Dar feedback contínuo, não apenas no final
  • Valorizar o processo tanto quanto o produto
  • Permitir a iteração e a melhoria ao longo do percurso
  • Incluir a reflexão do próprio aluno como parte da avaliação

Num sistema de ensino que ainda vive muito orientado para a nota final e para os exames, esta proposta soa a utopia. Mas há espaço para a aplicar — em projetos, em portefólios, em trabalhos de grupo, em momentos de autoavaliação estruturada. Depende de nós.

A instituição também precisa de aprender

Há uma dimensão do documento que raramente aparece nos manuais de pedagogia: a escola como organização aprendente. Não basta que os professores sejam bons individualmente. É preciso que a instituição crie condições para que o bom trabalho aconteça e se sustente.

Isso implica liderança com visão, comunidades de prática entre docentes, formação contínua integrada no quotidiano — não como evento isolado —, e sistemas de avaliação do próprio currículo que permitam ajustá-lo ao longo do tempo.

Uma escola que não reflete sobre si mesma tende a repetir os mesmos erros, ano após ano.

O que fica

Este documento foi escrito para o contexto do ensino do design. Mas as suas ideias centrais transcendem o contexto. A aprendizagem ativa, a reflexão sistemática, o alinhamento curricular, a avaliação formativa, a integração responsável da IA — são princípios que cabem em qualquer sala de aula, em qualquer disciplina.

O que mais me ficou foi esta frase implícita ao longo de todo o texto: ensinar bem não é uma questão de talento natural. É uma questão de intencionalidade. Fazer escolhas conscientes sobre o que ensinamos, como ensinamos e como sabemos se funcionou.

Vale a pena parar e perguntar: nas nossas aulas, essas escolhas são mesmo intencionais?


Referência: Muqaddam, B. (2026). Curriculum Instruction Handbook for Design Education. Edgewood University, EdD Program in Curriculum Studies and Learning Sciences.

IAVE

Guia de leitura de poesia | PNL 2027

Dezembro de 2025

Download |

Ler Poesia na Escola: Um Guia para Transformar a Experiência Literária

1. Introdução: A Poesia como Ferramenta de Transformação

Como mediadores de leitura, sabemos que a poesia possui um poder singular: o de inquietar, comover e desafiar a nossa perceção do mundo. No entanto, o seu ensino tem sido frequentemente confinado ao estudo formal de métricas e biografias, o que afasta os alunos da fruição estética. Este guia, inspirado na visão de Regina dos Santos Duarte (Comissária do Plano Nacional de Leitura), propõe uma mudança de paradigma. O nosso objetivo é que a poesia deixe de ser vista como algo hermético para se tornar um motor de desenvolvimento pessoal e pensamento crítico.

A leitura poética deve ser abordada na sua dualidade fundamental: por um lado, é um instrumento técnico precioso para o treino da consciência fonológica e o alargamento do vocabulário; por outro, é uma experiência emocional profunda. Como especialistas, devemos enfatizar que o “som” (a fonologia) é a porta de entrada para o “sentir” (a emoção). A descoberta do poeta preferido é uma viagem individual que enriquece a identidade cultural do aluno e a sua sensibilidade para com o outro.

Clicar na imagem para a ver maior…

2. Porquê Ler Poesia?

A integração sistemática de textos poéticos no quotidiano escolar oferece benefícios que transcendem a disciplina de Português. Como mediadores, devemos destacar os seguintes contributos:

  • Estímulo à criatividade e sensibilidade: A poesia convida à exploração de imagens inusitadas e temas inesperados.
  • Alargamento da variedade vocabular: O contacto com o léxico poético enriquece a expressão oral e escrita.
  • Treino da atenção para sons e ritmos: A musicalidade do verso apura a perceção auditiva e a fluência linguística.
  • Respeito pela interpretação do outro: A leitura partilhada fomenta a aceitação de múltiplas perspetivas.

Para nos inspirarmos, recordamos as palavras de Phyllis Klein: a poesia “dá ritmo ao silêncio, luz à escuridão”. É esta luz que devemos levar para o interior de cada sala de aula.

3. Como e o Quê Ler: Estratégias para a Sala de Aula

Para transformar a prática letiva, precisamos de estratégias que tornem a poesia acessível sem lhe retirar a profundidade.

Diversificação do Acervo

A atualização da biblioteca escolar é o primeiro passo. Como especialistas, recomendamos que o acervo inclua uma curadoria diversificada que contemple:

  • Haikus, Poesia Visual e Experimental;
  • Poesia do Absurdo, Poesia Popular e Poesia sem rima;
  • Lengalengas e Rimas infantis;
  • Autores portugueses recentes e vozes estrangeiras traduzidas.

A Fisicalidade e a Voz

A abordagem deve iniciar-se pela presença física do poema na página. Devemos incentivar os alunos a observar a mancha gráfica: versos curtos ou longos? Disposição espacial invulgar? Posteriormente, a leitura em voz alta assume um papel central. É vital distingui-la da declamação (exercício de memória) ou da leitura expressiva (já interpretativa). A leitura em voz alta deve ser clara, pausada e repetida: primeiro para captar os sons e ritmos, e depois para aceder ao sentido.

O Papel da Análise Formal

A análise técnica não deve ser um fim, mas um meio. As figuras de estilo e a estrutura devem ser tratadas como “pistas” para a compreensão. Como mediadores, devemos lançar “meta-questões” que guiem o aluno: De quem é a voz que fala? A quem se dirige? Qual o efeito de uma repetição ou de uma oposição de palavras? A análise deve sempre servir para clarificar o impacto emocional do texto.

4. Percursos de Leitura: Do Pré-Escolar ao Ensino Secundário

Apresentamos propostas práticas estruturadas para facilitar a intervenção direta em contexto de sala de aula.

Pré-Escolar

Poema em Destaque | Atividade Sugerida | Tópico de Reflexão

  • “Bichinho de conta” (Sidónio Muralha) ou “Amor” (Matilde Rosa Araújo) | Dramatização e expressão corporal: As crianças podem enrolar-se como o bicho ou imitar o acordar das flores e aves ao som de gravações de cantos de pássaros | Como podemos usar o corpo para expressar o sentido da palavra? De que forma mostramos amor à natureza?

1.º Ciclo

Poema em Destaque | Atividade Sugerida | Tópico de Reflexão

  • “Elefone” (Laura E. Richards) ou “A mosca tosca” (José Jorge Letria) | Jogos de palavras e o disparate: Criar novos animais combinando nomes de objetos (ex: “teletromba”) ou inventar novos acidentes cómicos para a mosca | As palavras inventadas tornam a leitura mais divertida? Qual o impacto da rima na construção do humor?

2.º Ciclo

Poema em Destaque | Atividade Sugerida | Tópico de Reflexão

  • “Gralhas” (Eduardo Jorge Duarte) ou “Claraboia” (João Pedro Mésseder) | Exploração da polissemia: Identificar os dois sentidos de “gralhas” (ave vs. erro) e realizar exercícios de personificação de objetos domésticos | Como é que a troca de sentidos muda a nossa perceção do texto? De que forma os objetos ganham “humanidade” através da poesia?

3.º Ciclo

Poema em Destaque | Atividade Sugerida | Tópico de Reflexão

  • “Actuação escrita” (Pedro Oom) ou “No more tears” (Adília Lopes) | Liberdade da escrita e memória: Criação coletiva baseada na repetição “Pode-se escrever…” e narração de memórias de infância em verso | É possível escrever sem regras ou sem conhecer a língua? Como é que o humor publicitário e a melancolia coexistem num poema?

Ensino secundário

Poema em Destaque | Atividade Sugerida | Tópico de Reflexão

  • “Prece no Mediterrâneo” (Ana Luísa Amaral) ou “Instruções para viver uma vida” (Mary Oliver) | Intervenção social e “Diário do Espanto”: Debate sobre a crise dos refugiados e criação de fotografias que representem o “prestar atenção” a cenas comuns | Pode a poesia ser uma forma eficaz de resistência política? Será que “espantar-se” e “falar disso” é uma fórmula suficiente para lidar com a complexidade da vida?

5. Recomendações Finais para Educadores

Para garantir uma mediação de sucesso, partilhamos alguns conselhos fundamentais:

  • Utilizar “Andaimes para a Compreensão”: Devemos evitar poemas excessivamente complexos que nos obriguem a fornecer uma paráfrase imediata (o que retira ao aluno o esforço de pensar). Em vez disso, devemos colocar andaimes — pistas e estratégias de leitura — que preparem o aluno para exercer a sua própria autonomia compreensiva.
  • Incentivar a Subjetividade Fundamentada: Múltiplas interpretações são bem-vindas, desde que os alunos aprendam a justificar as suas conclusões com elementos concretos presentes no material textual.
  • Promover a Socialização: A poesia deve ser vivida em comunidade. Incentive a criação de clubes de leitura, fóruns de partilha de poemas favoritos e a elaboração de poemários temáticos.

6. Referências e Recursos Adicionais

Para aprofundar estes percursos, recomendamos a consulta regular do catálogo do Plano Nacional de Leitura 2027 e a exploração dos recursos LOSA II disponíveis no portal do PNL.

Como base teórica fundamental para a mediação, sugerimos:

  1. Eagleton, Terry (2024). Como ler um poema. Edições 70.
  2. Cruz, Gastão (2009). A vida da poesia. Assírio & Alvim.
  3. Lourenço, Eduardo (2002). Poesia e Metafísica. Gradiva.

A importância de ler | Paulo Freire

A leitura do mundo precede a leitura da palavra: reflexões sobre o pensamento de Paulo Freire

1. A essência do ato de ler antes da escrita

A compreensão profunda da alfabetização na perspetiva de Paulo Freire começa com uma premissa fundamental: ninguém inicia a aprendizagem pela palavra escrita. Antes de decifrar letras ou símbolos num papel, os seres humanos dedicam-se a ler o mundo. Esta leitura do mundo é o ato de interpretar e compreender a realidade envolvente, um exercício que a humanidade praticou durante milénios antes da invenção da linguagem estruturada e, muitos séculos mais tarde, da escrita. Para Paulo Freire, ler é, na sua essência, um processo de dar sentido à existência e ao contexto social. A escrita surge apenas como uma etapa posterior desta interpretação contínua da vida, permitindo que o sujeito nomeie a realidade que já aprendeu a ler.

Cicar na imagem para ver a Apresentação…

2. Vozes da alfabetização: o impacto humano de aprender a ler

Aprender a ler e a escrever não é um mero processo mecânico de memorização de sílabas; é um ato de libertação e de conquista de autonomia. As motivações dos alunos revelam o peso da exclusão histórica e o desejo profundo de recuperar a dignidade:

  • A busca pela independência total, para não ter de perguntar nada a ninguém dentro da própria casa.
  • A vontade de se deslocar de forma autónoma, como o sonho de caminhar sozinha pelo Rio de Janeiro sem depender de guias ou de favores.
  • A necessidade prática e emocional de ler a sua própria correspondência e de identificar o nome das flores numa revista.
  • A superação do medo de “não saber nada”, evoluindo para a segurança de conseguir assinar o nome e ler o letreiro de um autocarro.

O momento em que a técnica encontra a vida produz uma carga simbólica avassaladora, como se observa no relato sobre o aluno Joaquim ao escrever o nome da sua companheira:

“Foi aqui nesta sala que um Joaquim se levantou durante o processo da pesquisa, foi ao quadro negro, apanhou o giz e escreveu Nina. Quando acabou de escrever, deu uma gargalhada nervosa… Ele olhou para mim e disse: ‘Puxa, Dina é o nome de minha mulher’. Eu percebia nos olhos deles uma espécie de alívio centenário, como se tivessem sacudido para fora uma pedra que há séculos repousava sobre os seus ombros.”

3. O papel do educador e a superação da desesperança

O educador popular deve possuir uma sensibilidade apurada e um rigor metódico para reconhecer o momento exato de intervir, evitando discursos longos ou argumentos puramente teóricos. Esta postura exige a capacidade de dialogar com o erro de forma pedagógica. Um exemplo desta sensibilidade reside na intervenção quando um aluno, ao tentar escrever “Luz”, entra em conflito com o som da letra (escrevendo “Luzi” ou “Luze”). Em vez da correção fria, o educador utiliza o diálogo para que o aluno perceba, por si mesmo, a dissonância entre a escrita e a fala.

Outro pilar desta prática é o combate à desesperança. No diálogo com o senhor Luis, de 57 anos, que pensava em desistir por achar a aprendizagem difícil, o educador intervém para mostrar os avanços reais. Ao situar os poucos meses de escola face aos 56 anos de exclusão e silêncio imposto, o educador ajuda o aluno a compreender que o seu progresso é uma vitória. A tarefa do educador é, portanto, contribuir para uma assunção crítica, permitindo que o aluno passe da passividade inicial para posturas rebeldes e criticamente transformadoras do mundo.

4. A escola como espaço de libertação e terapia

Para muitos adultos que enfrentam rotinas de trabalho exaustivas, a escola transcende a função cognitiva. Ela constitui-se como um espaço de terapia e convívio social essencial. O ambiente escolar permite que o cansaço acumulado, o stresse e até as dores de cabeça resultantes de uma rotina de problemas se dissipem através do riso e da partilha. Ao participarem neste projeto, os alunos deixam de ser objetos para se tornarem sujeitos, transformando o esforço de aprender numa fonte de felicidade que resgata o passado e fortalece o presente.

5. Da adaptação à intervenção: a política e o movimento social

Paulo Freire estabelece uma distinção crucial entre adaptação e intervenção (ou “infecção”). A adaptação é uma adequação biológica ou social às condições materiais e geográficas — um momento necessário da vida, mas insuficiente para a dignidade humana. A intervenção no mundo ocorre através da tomada de decisão para mudar a realidade.

Nesta perspetiva, Paulo Freire recusa terminantemente qualquer visão fatalista da história. A afirmação “a realidade é assim mesmo” é rejeitada como uma barreira ideológica que serve ao poder instituído. Para o educador, toda a realidade está submetida à possibilidade de intervenção humana. É por isso que ele vê em movimentos como o dos Sem-terra uma das expressões mais fortes da vida política e cívica do Brasil; eles representam a superação da adaptação passiva em direção à assunção do povo como sujeito da sua própria história, lutando para que se obtenha o mínimo de transformação social.

6. A vocação do “ser mais” e o inacabamento humano

A filosofia freiriana assenta na consciência do inacabamento humano. Ao contrário dos outros animais ou das árvores, o ser humano é o único bicho que tem consciência de que é um ser incompleto. É precisamente esta consciência que o empurra para um movimento permanente de busca.

  • Ser mais: É a vocação ontológica do ser humano, uma procura constante pela humanização e pelo aperfeiçoamento ético.
  • Desumanização: Não é um destino inevitável, mas um acidente trágico e uma distorção do processo de busca que deve ser combatida. Esta caminhada de “deixar de ser” para “ser” exige uma briga constante pela dignidade, movida pela certeza de que o inacabamento é a mola propulsora da nossa existência no mundo.

7. O encontro entre a fé e a mundanidade

A trajetória de Paulo Freire é marcada por uma síntese entre a fé cristã e a análise crítica da realidade. Ao trabalhar com camponeses e favelados no Recife e em Pernambuco, movido inicialmente por uma lealdade ao Cristo de quem se sentia “camarada”, Paulo Freire deparou-se com uma realidade de negação da dignidade tão profunda que esta o remeteu para a leitura de Marx.

Para explicar esta relação, Paulo Freire recorre ao pensamento de Miguel de Unamuno na sua obra “Ideias e Crenças”, distinguindo que as ideias nós temo-las, mas nas crenças nós estamos ou habitamos. Enquanto para Darcy Ribeiro a fé era algo que teria de passar pelo crivo da razão crítica (e por isso ele não a possuía), para Paulo Freire a fé era uma crença que o habitava, não necessitando de justificações científicas ou filosóficas. A leitura de Marx não o afastou de Cristo; pelo contrário, ofereceu-lhe a fundamentação objetiva na mundanidade para continuar a lutar pela libertação dos oprimidos.

8. Conclusão: a marcha pela decência

O legado de Paulo Freire encerra-se com um apelo vibrante à ética e à esperança ativa. O seu desejo era ver o surgimento de novas marchas que atravessassem a sociedade, para além das lutas agrárias: a marcha pela decência e a marcha pela superação da “sem-vergonhice” institucionalizada que se democratizou de forma terrível. Para o educador, estas movimentações são o que nos afirma como gente e como sociedade que procura democratizar-se verdadeiramente. A sua mensagem final é de uma profunda felicidade por testemunhar o ímpeto da vontade amorosa de mudar o mundo.

Guia para a utilização da Inteligência Artificial no Instituto Superior Técnico

Download | Apresentação .pdf |

Clicar na imagem para a ver maior

Desde o lançamento do ChatGPT, a 30 de novembro de 2022, a Inteligência Artificial (IA) tem vindo a transformar rapidamente a investigação, o ensino e o mercado de trabalho. Esta tecnologia está a redefinir a forma como nos relacionamos com o mundo e, consequentemente, o próprio mundo.

O Instituto Superior Técnico adota uma abordagem proativa e centrada no ser humano perante esta transformação. Este guia tem como propósito fornecer orientações claras para a nossa comunidade — estudantes, docentes e colaboradores — sobre como utilizar a IA de forma ética, responsável e eficaz.

“As machines get better at being machines, humans have to get better at being more human.” – Andrew Scott, Professor de Economia na London Business School, McKinsey Global Institute’s Forward Thinking podcast (2023)

  1. O princípio fundamental: uma IA centrada no ser humano

A filosofia fundamental do Técnico é que a IA deve servir como um assistente poderoso, mas a tomada de decisão e a responsabilidade devem permanecer sempre centradas no ser humano. A utilização destas ferramentas deve ter como alicerces os seguintes valores:

• Ética

• Transparência

• Proteção de dados

• Proteção de propriedade intelectual

Este princípio alinha-se com a visão do Regulamento de Inteligência Artificial da União Europeia, que estipula que “a IA deverá ser uma tecnologia centrada no ser humano. Deverá servir de instrumento para as pessoas, com o objetivo último de aumentar o bem-estar humano.”

2. Oportunidades e riscos em contexto académico

Boosting Productivity and Creativity

As ferramentas de IA oferecem um potencial significativo para acelerar a investigação e o ensino, preparando os estudantes para os desafios de engenharia do futuro. Para estudantes e investigadores, os principais benefícios incluem:

• Compilar, resumir e organizar informação: Acelerar a fase inicial de pesquisa e estruturação de conhecimento.

• Assistir na programação e desenvolvimento de código: Aumentar a produtividade em tarefas de desenvolvimento de software.

• Fornecer feedback automatizado e permitir uma aprendizagem mais individualizada: Adaptar materiais e apoio ao ritmo de cada estudante.

• Estruturar relatórios técnicos e afinar perguntas de investigação: Refinar a clareza e o foco do trabalho académico.

• Ligar bases de dados, ficheiros e agendas: Atuar como assistente personalizado na organização e acesso à informação necessária para a realização de tarefas.

• Buscar padrões em grandes volumes de dados: Identificar tendências e correlações que poderiam passar despercebidas à análise humana.

Superando os desafios principais

Apesar das suas vantagens, os modelos de IA atuais apresentam riscos que exigem uma utilização crítica e informada. Os principais desafios são:

1. Erros (Alucinações): Os modelos de IA generativa são probabilísticos e podem produzir respostas incorretas ou fabricar fontes. Embora a sua exatidão esteja a melhorar rapidamente, toda a informação gerada deve ser rigorosamente verificada.

2. Enviesamentos (Biases): Os algoritmos são treinados com vastos conjuntos de dados que podem conter enviesamentos sociais, culturais ou de género. Isto pode levar a que as respostas da IA perpetuem estereótipos ou padrões de discriminação existentes.

3. Privacidade e Confidencialidade: É de importância crítica não utilizar dados de investigação confidenciais, informação pessoal ou estudos de caso sensíveis nos prompts, pois a informação submetida pode ser exposta ou utilizada para treinar modelos futuros, comprometendo a confidencialidade.

Continuar a ler