A importância de ler | Paulo Freire

A leitura do mundo precede a leitura da palavra: reflexões sobre o pensamento de Paulo Freire

1. A essência do ato de ler antes da escrita

A compreensão profunda da alfabetização na perspetiva de Paulo Freire começa com uma premissa fundamental: ninguém inicia a aprendizagem pela palavra escrita. Antes de decifrar letras ou símbolos num papel, os seres humanos dedicam-se a ler o mundo. Esta leitura do mundo é o ato de interpretar e compreender a realidade envolvente, um exercício que a humanidade praticou durante milénios antes da invenção da linguagem estruturada e, muitos séculos mais tarde, da escrita. Para Paulo Freire, ler é, na sua essência, um processo de dar sentido à existência e ao contexto social. A escrita surge apenas como uma etapa posterior desta interpretação contínua da vida, permitindo que o sujeito nomeie a realidade que já aprendeu a ler.

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2. Vozes da alfabetização: o impacto humano de aprender a ler

Aprender a ler e a escrever não é um mero processo mecânico de memorização de sílabas; é um ato de libertação e de conquista de autonomia. As motivações dos alunos revelam o peso da exclusão histórica e o desejo profundo de recuperar a dignidade:

  • A busca pela independência total, para não ter de perguntar nada a ninguém dentro da própria casa.
  • A vontade de se deslocar de forma autónoma, como o sonho de caminhar sozinha pelo Rio de Janeiro sem depender de guias ou de favores.
  • A necessidade prática e emocional de ler a sua própria correspondência e de identificar o nome das flores numa revista.
  • A superação do medo de “não saber nada”, evoluindo para a segurança de conseguir assinar o nome e ler o letreiro de um autocarro.

O momento em que a técnica encontra a vida produz uma carga simbólica avassaladora, como se observa no relato sobre o aluno Joaquim ao escrever o nome da sua companheira:

“Foi aqui nesta sala que um Joaquim se levantou durante o processo da pesquisa, foi ao quadro negro, apanhou o giz e escreveu Nina. Quando acabou de escrever, deu uma gargalhada nervosa… Ele olhou para mim e disse: ‘Puxa, Dina é o nome de minha mulher’. Eu percebia nos olhos deles uma espécie de alívio centenário, como se tivessem sacudido para fora uma pedra que há séculos repousava sobre os seus ombros.”

3. O papel do educador e a superação da desesperança

O educador popular deve possuir uma sensibilidade apurada e um rigor metódico para reconhecer o momento exato de intervir, evitando discursos longos ou argumentos puramente teóricos. Esta postura exige a capacidade de dialogar com o erro de forma pedagógica. Um exemplo desta sensibilidade reside na intervenção quando um aluno, ao tentar escrever “Luz”, entra em conflito com o som da letra (escrevendo “Luzi” ou “Luze”). Em vez da correção fria, o educador utiliza o diálogo para que o aluno perceba, por si mesmo, a dissonância entre a escrita e a fala.

Outro pilar desta prática é o combate à desesperança. No diálogo com o senhor Luis, de 57 anos, que pensava em desistir por achar a aprendizagem difícil, o educador intervém para mostrar os avanços reais. Ao situar os poucos meses de escola face aos 56 anos de exclusão e silêncio imposto, o educador ajuda o aluno a compreender que o seu progresso é uma vitória. A tarefa do educador é, portanto, contribuir para uma assunção crítica, permitindo que o aluno passe da passividade inicial para posturas rebeldes e criticamente transformadoras do mundo.

4. A escola como espaço de libertação e terapia

Para muitos adultos que enfrentam rotinas de trabalho exaustivas, a escola transcende a função cognitiva. Ela constitui-se como um espaço de terapia e convívio social essencial. O ambiente escolar permite que o cansaço acumulado, o stresse e até as dores de cabeça resultantes de uma rotina de problemas se dissipem através do riso e da partilha. Ao participarem neste projeto, os alunos deixam de ser objetos para se tornarem sujeitos, transformando o esforço de aprender numa fonte de felicidade que resgata o passado e fortalece o presente.

5. Da adaptação à intervenção: a política e o movimento social

Paulo Freire estabelece uma distinção crucial entre adaptação e intervenção (ou “infecção”). A adaptação é uma adequação biológica ou social às condições materiais e geográficas — um momento necessário da vida, mas insuficiente para a dignidade humana. A intervenção no mundo ocorre através da tomada de decisão para mudar a realidade.

Nesta perspetiva, Paulo Freire recusa terminantemente qualquer visão fatalista da história. A afirmação “a realidade é assim mesmo” é rejeitada como uma barreira ideológica que serve ao poder instituído. Para o educador, toda a realidade está submetida à possibilidade de intervenção humana. É por isso que ele vê em movimentos como o dos Sem-terra uma das expressões mais fortes da vida política e cívica do Brasil; eles representam a superação da adaptação passiva em direção à assunção do povo como sujeito da sua própria história, lutando para que se obtenha o mínimo de transformação social.

6. A vocação do “ser mais” e o inacabamento humano

A filosofia freiriana assenta na consciência do inacabamento humano. Ao contrário dos outros animais ou das árvores, o ser humano é o único bicho que tem consciência de que é um ser incompleto. É precisamente esta consciência que o empurra para um movimento permanente de busca.

  • Ser mais: É a vocação ontológica do ser humano, uma procura constante pela humanização e pelo aperfeiçoamento ético.
  • Desumanização: Não é um destino inevitável, mas um acidente trágico e uma distorção do processo de busca que deve ser combatida. Esta caminhada de “deixar de ser” para “ser” exige uma briga constante pela dignidade, movida pela certeza de que o inacabamento é a mola propulsora da nossa existência no mundo.

7. O encontro entre a fé e a mundanidade

A trajetória de Paulo Freire é marcada por uma síntese entre a fé cristã e a análise crítica da realidade. Ao trabalhar com camponeses e favelados no Recife e em Pernambuco, movido inicialmente por uma lealdade ao Cristo de quem se sentia “camarada”, Paulo Freire deparou-se com uma realidade de negação da dignidade tão profunda que esta o remeteu para a leitura de Marx.

Para explicar esta relação, Paulo Freire recorre ao pensamento de Miguel de Unamuno na sua obra “Ideias e Crenças”, distinguindo que as ideias nós temo-las, mas nas crenças nós estamos ou habitamos. Enquanto para Darcy Ribeiro a fé era algo que teria de passar pelo crivo da razão crítica (e por isso ele não a possuía), para Paulo Freire a fé era uma crença que o habitava, não necessitando de justificações científicas ou filosóficas. A leitura de Marx não o afastou de Cristo; pelo contrário, ofereceu-lhe a fundamentação objetiva na mundanidade para continuar a lutar pela libertação dos oprimidos.

8. Conclusão: a marcha pela decência

O legado de Paulo Freire encerra-se com um apelo vibrante à ética e à esperança ativa. O seu desejo era ver o surgimento de novas marchas que atravessassem a sociedade, para além das lutas agrárias: a marcha pela decência e a marcha pela superação da “sem-vergonhice” institucionalizada que se democratizou de forma terrível. Para o educador, estas movimentações são o que nos afirma como gente e como sociedade que procura democratizar-se verdadeiramente. A sua mensagem final é de uma profunda felicidade por testemunhar o ímpeto da vontade amorosa de mudar o mundo.

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