Uma viagem pela região do Barroso explora o património lusitano, desde o Castro de Carvalhelhos até às lendas de Monte Alegre. Entre o sagrado e o profano, destacam-se rituais mágicos, o mosteiro de Pitões e a Ponte da Misarela, unindo natureza, fé e identidade ancestral.
A narrativa percorre o extremo norte de Portugal, especificamente a região do Barroso, destacando o Castro de Lesenho (Campos), o Castro de Carvalhelhos, o Mosteiro de Pitões das Júnias, os Museus de Tourém e Montalegre, o Castelo de Montalegre, a Serra do Larouco e a Ponte da Mizarela.
Uma viagem ao Barroso: entre o sagrado, o profano e o silêncio das pedras
1. Introdução: o encontro do urbano com o granito
A minha jornada começa com o peso dos 40 anos e o cansaço de quem se sente asfixiado pelo asfalto. Como jornalista urbano, o meu quotidiano é um ciclo de cafés, cigarros e o ruído incessante dos automóveis, um reflexo deste nosso pobre século sem espírito e sem ordem. Acompanhado pela minha mulher, cuja beleza e juventude contrastam com o silêncio rotineiro que se instalou entre nós, parti para o extremo norte de Portugal. Procurava o encontro com o granito secular, com a gente de alma pura e com uma natureza exultante que parece desafiar a modernidade. Chegamos ao Barroso sob o signo de uma máxima que define a alma local: “Deus é bom mas o diabo não é nada mau.” É nesta dualidade mística que tentamos resgatar os nossos sentidos perdidos, trocando o céu de ferro das cidades por um chão de 2000 anos.
2. As raízes de pedra: o orgulho da arqueologia lusitana
O solo que pisamos é um monumento à resistência. O ponto de partida é o monolito do guerreiro galaico-lusitano, orgulho da arqueologia nacional, descoberto no Castro de Lesan, em Campos. Esta figura de pedra, datada do século I d.c., ancora-nos à segunda idade do ferro e à identidade de um povo indomável.
Este território ergue-se como um baluarte natural, estrategicamente desenhado entre a Galiza dos celtas a norte e o vale do Rio Tâmega a leste e a sul, sob o olhar vigilante da Serra do Larouco. No Castro de Carvalhelhos, o mais preservado da região, as construções circulares e as muralhas altivas contam histórias de defesa contra inimigos e feras. A profundidade histórica deste chão é ainda selada pela Cista de Vila da Ponte, um túmulo pré-românico onde um vaso de 3500 anos prova que, no Barroso, o tempo flui com uma lentidão sagrada.
3. Heróis e batalhas: a escaramuça dos nus
A memória barroca é feita de granito, mas também de sangue e audácia. Entre os vultos da história, destaca-se Diogo Peres, fidalgo da aldeia de Fornelos. Em 1471, durante as campanhas de Afonso Africano no norte de África, este herói protagonizou uma façanha memorável. À frente de apenas 20 cavaleiros portugueses, enfrentou e derrotou 400 mouros. Surpreendidos pelo ataque inimigo, os cavaleiros não tiveram tempo sequer para vestir as suas fardas; empunharam as armas e saltaram para os cavalos tal como estavam. Este golpe rápido e corajoso ficou imortalizado nos anais militares com o nome de “escaramuça dos nus”, um símbolo da bravura que corre nas veias desta gente.
4. O espírito da comunidade: fornos, pão e museus
O forno do povo é o coração da vida comunitária, funcionando como um altar sagrado onde o pão era de todos. Ali, entre o calor das pedras, rezava-se coletivamente enquanto a massa crescia. O ato de tirar o pão do forno é um ritual de gratidão, acompanhado por esta oração ancestral: “cresça o pão no forno e os seus bens pelo mundo todo; paz e saúde ao seu dono pela graça de Deus e da Virgem Maria.”
O orgulho nesta identidade está guardado em espaços que são verdadeiros santuários da memória:
- Museu de Torém: um inventário da memória recente, exibindo as alfaias e os aparelhos de trabalho agrícola que garantiram a subsistência e a dignidade social da região.
- Museu de Montalegre: guarda tesouros como torques de ouro maciço, espadas celtas quase intactas e os punhais de ferro que armaram um povo guerreiro. Destacam-se as espingardas com que os habitantes resistiram, com fúria indomável, às invasões francesas.
5. A fé e o isolamento: de São Bento de Pitões à Ponte da Misarela
O isolamento das montanhas forjou uma espiritualidade austera. Em 1158, sob a proteção de Hugo, arcebispo de Leão, o monge Roberto e os seus irmãos instituíram a ordem de São Bento no Mosteiro de São Bento de Pitões, dedicando-se à pobreza e ao silêncio dos montes.
No entanto, o sagrado convive com o abismo na Ponte da Misarela. Diz a lenda que a ponte foi erguida pelo próprio satanás para permitir a fuga de um criminoso. Quando o vulto negro desapareceu numa nuvem espessa, deixou para trás um rasto de enxofre e resina. Mais tarde, o lugar foi santificado e tornou-se palco de batismos uterinos: as grávidas esperavam sob a ponte até ao romper do dia para que o primeiro passante batizasse a criança ainda no ventre: “eu te batizo criatura de Deus; se fores rapaz serás geraz, se fores menina serás senhorinha.”
Este misticismo culmina no culto ao boi do povo. Adorado como um deus vivo de força e fecundidade, o animal é coberto de palmas, flores e cordões de oiro após as vitórias. Para que possa inundar a terra de vida, dão-lhe gemadas e cerveja, celebrando uma divindade viril num paraíso sem pecado original.
6. Conclusão: a transformação através da terra
Ao fim desta jornada, a dureza do Barroso operou em nós uma cura silenciosa. O contacto com rituais que queimam as “meigas” e esconjuram os males permitiu-nos reencontrar uma ordem espiritual que a cidade nos tinha roubado. Do alto da torre de homenagem do Castelo de Montalegre, construído por Dom Afonso III e concluído por Dom Dinis, contemplamos a Serra do Larouco, onde os antigos sacrificavam animais aos deuses.
Terminamos a viagem à beira do rio, sob o fulgor da tarde. Onde antes havia um silêncio vazio, há agora uma sabedoria partilhada. Ao apertar a mão da minha mulher, senti que o coração de ambos ardia com uma intensidade renovada, finalmente purificado pela força eterna deste chão de 2000 anos.


