A empresa que disse “não” ao Pentágono: o que está em jogo no confronto entre a Anthropic e o governo dos EUA

Numa noite de fevereiro, poucas horas depois de o secretário de Defesa dos Estados Unidos o ter classificado como uma ameaça à segurança nacional, Dario Amodei sentou-se diante das câmaras da CBS News para explicar por que razão a sua empresa — uma das mais valiosas startups de inteligência artificial do mundo — se recusou a ceder perante o Pentágono.

A entrevista, conduzida por Jo Ling Kent e publicada a 28 de fevereiro de 2026, dura quase 28 minutos e merece ser vista na íntegra. Não por ser espetacular, mas por ser rara: um CEO a falar em tempo real sobre uma crise que pode definir os limites da tecnologia mais poderosa do nosso tempo.

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Duas linhas que não se cruzam

A Anthropic, criadora do modelo de IA Claude, colabora com o governo norte-americano desde cedo. Foi a primeira empresa de IA a operar na rede classificada do Departamento de Defesa e chegou a assinar um contrato avaliado em 200 milhões de dólares. Amodei faz questão de o sublinhar: a sua equipa acredita na defesa do país, trabalha com os serviços de informação e apoia a maioria esmagadora dos cenários de utilização militar — cerca de 98 a 99 por cento, segundo as suas próprias estimativas.

Mas há duas exceções. Duas “linhas vermelhas” que a empresa definiu desde o início e que se recusa a ultrapassar:

  1. Vigilância em massa de cidadãos americanos. A IA torna hoje possível comprar grandes volumes de dados pessoais a empresas privadas — localizações, filiações políticas, informações sensíveis — e analisá-los à escala. Isto não é ilegal, como o próprio Amodei reconhece. Simplesmente, antes da era da IA, não era exequível. A tecnologia avançou mais depressa do que a lei.
  2. Armas autónomas letais sem supervisão humana. Sistemas que selecionam alvos e executam ataques sem qualquer intervenção de um soldado. Amodei não é contra estas armas por princípio — admite que podem vir a ser necessárias se os adversários as desenvolverem —, mas argumenta que a fiabilidade dos modelos atuais não justifica retirar o ser humano do circuito. O risco de fogo amigo, de alvos civis atingidos por erro ou de uma escalada descontrolada é real.

O Pentágono queria acesso irrestrito ao Claude para “todos os fins legais”. A Anthropic queria que as duas exceções ficassem consagradas no contrato. Não chegaram a acordo.


A escalada

O que se seguiu foi rápido e sem precedentes para uma empresa americana.

O presidente Donald Trump publicou uma mensagem nas redes sociais ordenando a todas as agências federais que cessassem imediatamente o uso da tecnologia da Anthropic. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, designou a empresa como “risco para a cadeia de fornecimento” — um rótulo que, até então, só tinha sido aplicado a entidades ligadas a adversários estrangeiros, como empresas russas de cibersegurança ou fabricantes chineses de semicondutores. Mais de 200 milhões de dólares em contratos federais foram cancelados.

Hegseth chamou a Anthropic de “arrogante” e “moralista”. Emil Michael, o responsável tecnológico do Departamento de Defesa, acusou Amodei de ter um “complexo de Deus”. O próprio Trump descreveu a empresa como “uma empresa radical de esquerda, woke“.

A Anthropic processou o governo em dois tribunais federais distintos. Em março de 2026, a juíza Rita Lin, em São Francisco, concedeu uma injunção preliminar, escrevendo numa decisão de 43 páginas que nada na legislação existente sustentava “a noção orwelliana de que uma empresa americana pode ser rotulada de potencial adversária e sabotadora dos EUA por expressar desacordo com o governo”. Na capital, porém, o Tribunal de Recurso do Distrito de Colúmbia negou o pedido da Anthropic para suspender a designação de risco, argumentando que o equilíbrio de interesses pendia a favor do governo num contexto de conflito militar ativo.

O resultado prático, até ao momento, é um compromisso partido ao meio: a Anthropic está excluída de novos contratos com o Departamento de Defesa, mas pode continuar a trabalhar com outras agências governamentais.


O que Amodei realmente disse

A entrevista à CBS News vale pela franqueza com que Amodei expõe o dilema. Não há spin corporativo nem linguagem evasiva. Alguns pontos que merecem destaque:

Sobre a fiabilidade da IA em contexto militar: Amodei é direto ao dizer que os modelos atuais ainda são imprevisíveis. Qualquer pessoa que utilize um assistente de IA no dia a dia reconhece que as respostas nem sempre são fiáveis. Agora, transpor essa margem de erro para um sistema de armas é uma proposta de risco completamente diferente.

Sobre o papel de uma empresa privada: Amodei reconhece que não é sustentável, a longo prazo, que uma empresa privada defina os limites éticos do uso militar de IA. Isso cabe ao Congresso. Mas o Congresso é lento a legislar, e entretanto alguém tem de tomar decisões.

Sobre patriotismo: A palavra volta várias vezes. Amodei não aceita a narrativa de que a Anthropic é antipatriótica. Pelo contrário: argumenta que discordar do governo “é a coisa mais americana do mundo” e que as linhas vermelhas existem precisamente para defender valores que considera fundamentais para a democracia.

Sobre o futuro: Mesmo após o corte público, Amodei deixou a porta aberta a negociações. Disse que a empresa e o Pentágono “têm muito mais em comum do que diferenças” e que continuava a tentar desescalar a situação.


Os desenvolvimentos mais recentes

A história não ficou congelada na noite daquela entrevista. Nas semanas seguintes, o cenário evoluiu de formas que ninguém antecipou por completo.

Em abril de 2026, a Anthropic revelou o Mythos, um modelo de fronteira desenhado para cibersegurança e considerado demasiado capaz em ataques ofensivos para ser lançado publicamente. O acesso foi restringido a cerca de quarenta organizações. Uma delas, segundo a Axios, é a própria Agência Nacional de Segurança (NSA) — que opera sob a tutela do mesmo Departamento de Defesa que, em tribunal, argumenta que a Anthropic representa um risco para a segurança nacional.

A contradição não passou despercebida: o governo está simultaneamente a utilizar a tecnologia da Anthropic e a combatê-la em tribunal.

A 18 de abril, Amodei reuniu-se na Casa Branca com a chefe de gabinete Susie Wiles e o secretário do Tesouro Scott Bessent. Ambas as partes descreveram o encontro como “produtivo”. Três dias depois, Trump declarou à CNBC que um acordo com a Anthropic para uso no Departamento de Defesa era “possível”, acrescentando que a empresa “está a endireitar-se” e que “são muito inteligentes”.

Num desenvolvimento separado, a Anthropic apresentou uma declaração judicial afirmando que não possui qualquer “botão de desligar” para os seus modelos uma vez implantados em ambientes classificados — sublinhando que a empresa não tem visibilidade nem capacidade técnica para controlar o que acontece com o Claude depois de entregue ao Pentágono.


Por que é que isto nos diz respeito

É tentador ver esta história como um conflito exclusivamente americano: uma empresa de Silicon Valley contra o aparelho militar de Washington, com tweets presidenciais e decisões judiciais pelo meio. Mas as questões que levanta são universais.

Quem define os limites do uso militar da inteligência artificial? A empresa que a cria, o governo que a compra ou a sociedade que vive com as consequências?

A IA está a transformar a forma como os exércitos operam — desde a análise de informações à seleção de alvos —, e a regulação não acompanha a velocidade da inovação. A Anthropic tomou uma posição: há utilizações que, na sua avaliação, a tecnologia atual não suporta com segurança. O Pentágono tomou outra: num contexto de competição geopolítica com a China e conflitos ativos, as restrições autoimpostas são um luxo que os EUA não podem permitir.

Nenhuma das duas posições é absurda. Ambas comportam riscos.

O que esta entrevista e os meses que se seguiram tornam claro é que a pergunta central ainda não tem resposta: numa democracia, como é que se governa uma tecnologia que evolui mais depressa do que as leis que a deveriam regular? Até o Congresso agir — e ninguém sabe quando —, as respostas vão continuar a ser improvisadas, caso a caso, contrato a contrato, tribunal a tribunal.

E talvez o facto de uma empresa ter dito “não” — com todas as consequências financeiras e políticas que isso implica — seja, por si só, um dado importante para essa conversa.


Fontes principais:

Governar com inteligência artificial: o que os governos precisam aprender (e depressa)

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A inteligência artificial já não é uma promessa do futuro — é uma realidade que está a transformar a forma como os governos funcionam, decidem e prestam serviços aos cidadãos. O relatório Gobernar con la Inteligencia Artificial, publicado pela OCDE em 2025, faz um diagnóstico exigente e ao mesmo tempo esperançoso sobre este processo de transformação.

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O que está em jogo

Os governos encontram-se perante uma janela de oportunidade única. Segundo a OCDE, a IA pode aumentar significativamente a produtividade do setor público, tornar os serviços mais eficazes e melhorar a capacidade de supervisão e prestação de contas. Mas este potencial está longe de ser aproveitado de forma sistemática. A maioria das iniciativas é fragmentada, experimental e concentrada em ganhos imediatos de eficiência — automatizar o que já existe — em vez de reimaginar o estado ao serviço dos cidadãos.

Como a IA já está a ser usada nos governos

Os casos de uso analisados pela OCDE distribuem-se por quatro grandes categorias:

  • Automatização e adaptação de processos — desde a redução do tempo de elaboração de sentenças judiciais na Argentina (de 60 para 10 minutos, com o sistema Prometea) à criação de chatbots para contribuintes em Singapura
  • Melhoria da tomada de decisão e previsão — como a previsão de incêndios florestais no Canadá, a gestão financeira em tempo real na Coreia (sistema dBrain) ou simulações de planeamento urbano em Helsínquia
  • Reforço da prestação de contas e deteção de anomalias — o Tribunal de Contas de Portugal utiliza IA para identificar casos prioritários em contratação pública; a Lituânia desenvolveu ferramentas para avaliar riscos de corrupção em textos jurídicos
  • Empoderamento de partes interessadas externas — plataformas como a Decide Madrid (Espanha) e a MAPLE (Estados Unidos) permitem que os cidadãos compreendam melhor as leis e participem ativamente na sua elaboração

Os riscos que não se podem ignorar

O relatório identifica cinco tipos de risco que qualquer governo deve considerar ao adotar a IA:

  1. Riscos para os direitos fundamentais e valores democráticos
  2. Riscos para a segurança e a integridade dos sistemas
  3. Riscos operacionais e de governação
  4. Riscos para a confiança pública
  5. O risco da inação — frequentemente esquecido, mas igualmente grave

Este último merece atenção especial. Não agir também tem custos: a lentidão na adoção de tecnologias já testadas traduz-se em ineficiências desnecessárias, serviços de pior qualidade e uma crescente distância entre as capacidades do setor público e as do setor privado. O medo de errar com a IA pode paralisar até iniciativas de baixo risco e elevado benefício.

Por outro lado, quando os sistemas falham — e falham, como mostram os dados do Monitor de Incidentes de IA da OCDE, com mais de 3 800 incidentes relacionados com governo registados até abril de 2025 — a confiança pública sofre danos que se generalizam a toda a administração.

O que faz a diferença: governação inteligente

A adoção responsável da IA exige muito mais do que tecnologia. O relatório identifica sete habilitadores essenciais: governação, dados abertos, infraestrutura digital, competências e talento, investimento, contratação pública e parcerias com atores não governamentais.

Destacam-se três condições críticas:

Liderança com visão. O Reino Unido, por exemplo, tem apostado na criação de uma cultura de adoção da IA a partir do topo do governo, com planos que exigem que todas as organizações do setor público tenham um líder digital no seu comité executivo até 2026.

Funções e responsabilidades claras. Vários países europeus — como a Espanha, com a sua Secretaria de Estado de Digitalização e IA, ou a Noruega, com o Ministério de Digitalização e Governação Pública — têm alargado os mandatos das suas estruturas para garantir uma implementação coerente.

Participação cidadã. A IA não pode ser imposta às pessoas, tem de ser construída com elas. Em 2024, a Presidência Belga do Conselho da União Europeia convocou 60 cidadãos para debater a governação da IA. A Coalição Global para uma IA Inclusiva, em parceria com o Laboratório de Democracia Deliberativa de Stanford, prevê envolver mais de 10 000 cidadãos em mais de 100 países em 2025 e 2026.

O que isto significa para a escola e para a educação

Este relatório não fala diretamente de educação, mas as suas lições são aplicáveis a qualquer instituição pública — incluindo as escolas. A questão não é se devemos usar IA, mas como a usamos de forma responsável, transparente e centrada nas pessoas.

Ensinar os alunos a compreender como a IA funciona nos serviços públicos — como uma decisão pode ser tomada por um algoritmo, o que é transparência algorítmica, o que significa contestar uma decisão automática — é hoje parte integrante da literacia digital e da formação para a cidadania ativa.

Como sintetiza o Instituto Ada Lovelace, citado pela OCDE: “a IA não é uma oportunidade para automatizar o setor público, mas para o reimaginar”. Talvez valha a pena dizer o mesmo da escola.


Fonte principal: OCDE (2025). Gobernar con la Inteligencia Artificial. OECD Publishing, Paris.

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Lourenço Marques: o explorador que deu o nome à capital de Moçambique

Imagem Perplexity

Saber mais | O Bairro da Malhangalene |

Este artigo documenta a vida e o legado de Lourenço Marques, o explorador e comerciante português do século XVI cujo nome se tornou sinónimo da atual capital de Moçambique durante mais de quatro séculos. Baseado em fontes históricas portuguesas e moçambicanas, o documento apresenta os factos verificados sobre a sua biografia, as suas expedições à costa oriental africana, o estabelecimento de relações comerciais com os povos locais e o desenvolvimento da cidade que perpetuou o seu nome até 1976.

Rua Araújo | 1890

Introdução

Lourenço Marques foi um explorador e comerciante português que viveu no século XVI e se notabilizou pelas explorações que realizou na costa sudeste de África, particularmente na região que hoje corresponde ao sul de Moçambique[1]. A sua importância histórica transcende a mera atividade exploratória, pois foi o responsável pelo estabelecimento das primeiras bases comerciais portuguesas permanentes numa baía estratégica do Oceano Índico, que viria a receber o seu nome por ordem régia e a desenvolver-se como uma das principais cidades da África Austral[2].

Apesar da escassez de registos detalhados sobre a sua vida pessoal — característica comum aos exploradores e comerciantes da época que não pertenciam à alta nobreza —, as fontes históricas permitem reconstituir os momentos mais significativos da sua atividade e compreender o seu papel na expansão portuguesa em África durante o reinado de D. João III[3].

Contexto Histórico: Portugal no Século XVI

No início do século XVI, Portugal encontrava-se no auge da sua expansão marítima. Após a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498, os Portugueses estabeleceram rapidamente uma rede de feitorias e fortalezas ao longo da costa oriental africana e do subcontinente indiano[4]. A Ilha de Moçambique, ocupada desde 1507, tornou-se a sede do governo colonial português na região e o ponto de partida para novas explorações[5].

A costa sudeste de África despertava particular interesse devido ao comércio de ouro, marfim e outros produtos valiosos. Já em 1502, durante a segunda viagem de Vasco da Gama, António de Campo havia avistado uma vasta baía que alguns navegadores denominaram “Baía da Lagoa” (Bay of the Lagoon), nome que os Ingleses viriam a corromper para “Delagoa Bay”[6]. Contudo, o reconhecimento sistemático desta região só ocorreria décadas mais tarde.

Biografia de Lourenço Marques

Origem e Formação

Sobre a origem, nascimento e formação de Lourenço Marques, os registos históricos são praticamente inexistentes. Não se conhecem as datas exatas do seu nascimento ou morte, nem a sua região de origem em Portugal[7]. Esta lacuna documental não é surpreendente: tratava-se de um comerciante e explorador de origens presumivelmente modestas, não pertencente à fidalguia ou à alta administração colonial, cujas ações só ganharam relevo histórico devido às consequências práticas das suas explorações[8].

Liceu Salazar

A Expedição de 1544: O Marco Histórico

O momento mais bem documentado da vida de Lourenço Marques ocorreu em 1544, quando, no reinado de D. João III, comandou uma expedição de exploração e reconhecimento da costa sul de Moçambique[9]. Esta expedição, realizada em parceria com António Caldeira, partiu da Ilha de Moçambique com objetivos claramente comerciais: explorar as possibilidades de comércio na região meridional da costa oriental africana e estabelecer contactos com as populações locais[10].

A expedição seguiu uma rota metódica ao longo da costa:

  1. Exploraram a costa e chegaram ao Rio Limpopo, onde estabeleceram os primeiros contactos com os indígenas locais[11]
  2. Prosseguiram até ao Rio Umbeluzi, motivados pela perspetiva de comércio e enriquecimento[12]
  3. Navegaram pelo Rio Maputo (designação que prevaleceu na toponímia local)[13]
  4. Desceram finalmente até à vasta baía que já fora anteriormente avistada mas nunca sistematicamente explorada[14]
Aeroporto Gago Coutinho (anos 60)

A Descoberta da Baía

Quando Lourenço Marques e António Caldeira chegaram à baía, depararam-se com um estuário vasto e estratégico, formado pela confluência de vários rios importantes: o Espírito Santo (formado pela junção do Matola, Umbeluzi e Tembe), o Maputo e o Komati[15]. A baía já era conhecida por diversos nomes: alguns chamavam-lhe “Baía da Boa Morte”, António do Campo designara-a “Baía da Lagoa”, e era também conhecida como “Baía dos Mpfumos” ou “Baía dos Chefes” pelas populações locais[16].

Reconhecendo o potencial estratégico e comercial do local, os dois aventureiros decidiram ali estabelecer um grande mercado para produtos do interior, instalando-se na região com carácter permanente[17].

A fachada nascente da estação ferroviária de Lourenço Marques.

Estabelecimento e Atividade Comercial

Lourenço Marques não se limitou a explorar a região; fixou-se permanentemente na área da baía, tornando-se um dos primeiros colonos europeus naquela parte de África[18]. As suas atividades principais centravam-se no comércio:

  • Marfim: o principal produto comercial, abundante na região devido às populações de elefantes do interior[19]
  • Cobre: metal valioso também comercializado com os povos locais[20]
  • Outros produtos do interior africano que atraíam interesse comercial europeu[21]

Para viabilizar estas atividades comerciais, Lourenço Marques demonstrou habilidades diplomáticas essenciais: estabeleceu pactos de paz com os indígenas locais, incluindo acordos com régulos e chefes das comunidades Ronga e outros povos bantus da região[22]. Estes acordos eram fundamentais não apenas para garantir a segurança dos comerciantes portugueses, mas também para assegurar o fluxo regular de mercadorias do interior até à costa[23].

Segundo o testemunho de D. João de Castro, que navegava no Canal de Moçambique em 1545, Lourenço Marques e os seus companheiros já se encontravam estabelecidos e ativos no comércio de marfim e cobre nessa data[24].

Lourenço Marques, 1970
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O Império da Mediocridade e o Triunfo da Incompetência

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A ascensão do império dos medíocres

A contemporaneidade parece sucumbir a uma vaga implacável e silenciosa: a “pandemia da mediocridade”, tal como diagnosticada por Esther Peñas. Sob esta égide de nivelamento por baixo, assistimos à consolidação do “império dos medíocres”, um ecossistema social onde o talento, o virtuosismo e a destreza intelectual deixaram de suscitar assombro para se tornarem elementos de fricção. Vivemos a inversão absoluta do ideal platónico da Aristocracia — o governo dos melhores — em prol de uma estrutura que repele o brilho.

Neste novo paradigma, as ideias fulgurantes são remetidas ao ostracismo e o carisma pessoal carece de audiência. Como lapidarmente se afirma no texto de apoio, no império da mediania, “o seu talento, o seu virtuosismo, a sua destreza para qualquer disciplina não pontuam, nem assombram, nem fascinam: é a sombra da mediocridade”. Esta desvalorização do mérito não é um mero desvio estético, mas uma reconfiguração da própria autoridade política.

O princípio de Peter e a mecânica da incompetência

A suspeita de que os medíocres detêm as rédeas do mundo encontra o seu fundamento teórico no “princípio de Peter”, hipótese formulada pelo pedagogo Laurence J. Peter nos anos sessenta. A mecânica deste fenómeno é de uma simplicidade inquietante: «com o tempo, todo o posto acaba por ser desempenhado por alguém incompetente para as suas obrigações».

Este processo de degradação institucional ocorre porque o sucesso num determinado cargo é recompensado com a promoção para uma função de maior responsabilidade, para a qual o indivíduo pode não possuir as competências necessárias. O ciclo repete-se até que cada agente alcance o seu nível máximo de incompetência, onde permanece estagnado. O resultado é um sistema bloqueado, gerido por uma elite que, por definição, já não é capaz de exercer as funções que lhe foram confiadas, transformando a incompetência na norma de governação global.

Mediocracia: a conformidade como passaporte para o poder

O filósofo Alain Deneault, no seu ensaio Mediocracia: quando os medíocres tomam o poder, argumenta que a ascensão ao topo não depende da sabedoria, mas da mestria em navegar na mediania. Segundo Deneault, a esfera do poder é hoje reservada a quem adota uma de duas posturas: o acatamento acrítico das normas para salvaguardar a sua posição ou a manipulação invisível das regras que não se tem capacidade de cumprir.

Esta “mediocracia” infiltra-se em todos os poros da sociedade — do meio académico ao económico — garantindo que os argumentos que confirmam o status quo prevaleçam invariavelmente sobre a originalidade. A mediocridade triunfa pelas seguintes razões:

• Validação do existente: Favorecem-se argumentos que confirmem teorias e estruturas já estabelecidas.

• Aversão ao risco: Evitam-se sistematicamente críticas profundas ou soluções que possam comprometer a estabilidade do sistema.

• Esvaziamento espiritual: As propostas perdem a sua “relevância espiritual”, tornando-se meros instrumentos de manutenção burocrática.

• Neutralização do dissenso: O triunfo pertence a quem não questiona, garantindo que soluções originais e potencialmente desestabilizadoras nunca cheguem a ser implementadas.

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Donald Trump e o dilema da história: acidente ou mudança estrutural?

A figura de Donald Trump serve de catalisador para a análise de José Ignacio Torreblanca sobre a natureza do poder contemporâneo. O debate divide-se entre uma visão estrutural, que interpreta o giro populista como uma resposta orgânica dos “perdedores da globalização” — trabalhadores do Rust Belt fustigados por perdas salariais —, e uma visão acidentalista, que atribui a sua vitória de 2016 a uma conjunção anómala de fatores, como a desinformação russa e o uso fraudulento de dados pela Cambridge Analytica.

A eleição de 2020 deveria ter funcionado como o “desempate” entre estas teorias. Contudo, os resultados mantiveram-se numa ambiguidade desesperante para os analistas. Apesar de enfrentar um escrutínio marcado por “20.000 mentiras documentadas” e um desrespeito frontal pela ética institucional, Trump obteve 71,3 milhões de votos. A fragilidade do sistema é evidenciada pelas margens ínfimas nos estados-chave, onde a presença da libertária Jo Jorgensen poderia ter alterado o destino do mundo se os seus votos tivessem sido canalizados estrategicamente.

Estado-chaveMargem em 2016 (Votos)Margem em 2020 (Votos)
Michigan10.794 (Vitória Trump)
Wisconsin22.738 (Vitória Trump)20.000 (Vitória Biden)
Pennsylvania44.292 (Vitória Trump)45.000 (Vitória Biden)
Arizona15.000 (Vitória Biden)
Geórgia11.000 (Vitória Biden)

A perversão do sistema: cultura, economia e uniformidade

A hegemonia do medíocre é sustentada por uma perversão económica e cultural. Deneault alerta para o facto de o dinheiro perverter a mente humana, obliterando a “consciência sensorial da diversidade do mundo”. Esta uniformização atinge o seu ápice na reflexão de Herbert Marcuse sobre o sistema onde patrão e operário consomem os mesmos conteúdos. A falha não reside apenas na dissolução das classes, mas no facto de ambos passarem a legitimar os princípios que sustentam o próprio sistema que os nivela.

Somerset Maugham captou a essência desta condição com uma ironia mordaz: “solo una persona mediocre está siempre en su mejor momento” (apenas uma pessoa medíocre está sempre no seu melhor momento). Este paradoxo explica por que a mediocridade é tão resiliente: ao não agir, o medíocre nunca erra; ao não contradizer, evita o conflito; e ao não julgar, limita-se a obedecer, mantendo uma performance constante de funcionalidade sem nunca atingir a excelência.

O perigo de destacar-se numa distopia de iguais

A sátira de Kurt Vonnegut, Harrison Bergeron (1961), oferece o espelho distópico desta realidade. Num futuro onde a Constituição impõe que ninguém seja mais inteligente, forte ou belo que o próximo, o Estado utiliza a violência para garantir a “igualdade”.

O exemplo de George é paradigmático: detentor de uma inteligência acima da média, é forçado a usar um dispositivo que, a cada vinte segundos, emite ruídos agudos para estilhaçar o seu pensamento. O objetivo é impedir que George — ou qualquer outro — tire “partido injusto” das suas capacidades. Esta narrativa ilustra a pressão contemporânea para a uniformidade, onde o destaque individual é visto como uma ameaça ao conforto da coletividade medíocre.

Conclusão: a absolvição da mediocridade

A mediocridade transcendeu a falha individual para se tornar o padrão de triunfo e o motor de preservação do sistema. Aqueles que recusam o pensamento original e abraçam a conformidade são os novos eleitos de uma estrutura que pune o brilho para proteger a sua própria incompetência.

Perante este cenário de resignação intelectual e política, resta-nos uma imagem melancólica. Se uma voz divina ressoasse hoje sobre o mundo, não clamaria pela excelência perdida nem pela reforma dos costumes. Em vez disso, num tom de aceitação resignada perante o triunfo definitivo do comum sobre o extraordinário, proferiria apenas a absolvição final: «Medíocres do mundo, eu vos absolvo!».

Davos 2026: Discurso especial de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá

O Fim de uma Ilusão: O Apelo à Autonomia Estratégica para as Potências Intermédias

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1. Introdução: O Despertar para uma Nova Realidade

Senhoras e senhores, encontramo-nos hoje num momento de viragem, um ponto de inflexão que definirá a ordem global para as gerações vindouras. O que vivemos não é uma mera transição, mas sim uma “rutura na ordem mundial”. Chegou ao fim o que poderíamos descrever como uma “ficção agradável”, dando lugar a uma “dura realidade” onde a geopolítica das grandes potências parece não conhecer limites nem constrangimentos. Esta é uma realidade que temos o dever de enfrentar com honestidade e determinação.

O dilema que se impõe a todas as nações é tão antigo como a própria história. Por um lado, somos confrontados com a lógica brutal descrita por Tucídides, segundo a qual “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. Por outro, observamos uma forte tendência por parte de muitos países para a acomodação, para seguir o fluxo na esperança de que a complacência lhes possa comprar segurança.

Contudo, a acomodação não garante segurança. As potências intermédias, como o Canadá e tantas outras aqui representadas, não estão impotentes perante esta nova era de rivalidade. Pelo contrário, temos a capacidade e a responsabilidade de construir uma nova ordem, alicerçada nos nossos valores de respeito pelos direitos humanos, soberania e integridade territorial. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade, e o primeiro passo é reconhecer a mentira sistémica em que vivemos durante demasiado tempo.

2. A Ilusão da Ordem Baseada em Regras: Viver na Mentira

Para compreendermos a nossa situação atual, é fundamental analisar a complacência que caracterizou a antiga ordem internacional. Os sistemas não se perpetuam apenas pela força bruta, mas sim pela participação tácita daqueles que, mesmo reconhecendo as suas falhas, optam por não as confrontar.

O dissidente checo e futuro presidente, Václav Havel, ilustrou este fenómeno de forma brilhante no seu ensaio O Poder dos Sem Poder. Ele descreve um merceeiro que, todas as manhãs, coloca um letreiro na sua montra com o lema “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. O merceeiro não acredita na mensagem, nem os seus clientes, nem ninguém. Ele fá-lo simplesmente para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se integrar. E porque todos os outros comerciantes na sua rua fazem o mesmo, o sistema persiste, não pela sua verdade, mas pela disponibilidade de todos em participar em rituais que, em privado, sabem ser falsos. Havel chamou a isto “viver na mentira”. A fragilidade de tal sistema reside precisamente na mesma fonte do seu poder: basta que uma pessoa retire o letreiro para que a ilusão comece a quebrar.

Esta analogia aplica-se perfeitamente à política externa de muitas potências intermédias. Durante décadas, nações como o Canadá prosperaram sob a chamada “ordem internacional baseada em regras”. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Sabíamos, no entanto, que esta narrativa era parcialmente falsa. Sabíamos que os mais fortes se isentavam das regras quando lhes era conveniente, que as normas comerciais eram aplicadas de forma assimétrica e que o direito internacional era aplicado com um rigor variável. Mesmo assim, esta ficção era útil. A hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos globais: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas de resolução de conflitos. Em troca destes benefícios, decidimos “colocar o letreiro na janela”.

Hoje, essa barganha chegou ao fim.

3. A Realidade da Rutura: Quando a Integração se Torna Subordinação

A mudança que testemunhamos não é uma transição suave, mas uma “rutura” fundamental. Ao longo das últimas duas décadas, crises sucessivas nos setores financeiro, da saúde, da energia e na geopolítica expuseram os riscos profundos de uma integração global extrema. Mais recentemente, assistimos a um desenvolvimento ainda mais alarmante: as grandes potências começaram a usar a interdependência económica como uma arma.

Esta instrumentalização da integração manifesta-se de várias formas:

• Pautas aduaneiras são usadas como ferramentas de alavancagem para extrair concessões.

• Infraestruturas financeiras são convertidas em instrumentos de coerção para impor vontades.

• Cadeias de abastecimento são tratadas não como fontes de eficiência, mas como vulnerabilidades a serem exploradas.

A conclusão é inescapável: não se pode viver na mentira do benefício mútuo através da integração, quando a integração se torna a fonte da sua subordinação. Esta nova realidade ameaça a própria arquitetura da resolução de problemas coletivos — desde a Organização Mundial do Comércio, às Nações Unidas e à COP — impulsionando um movimento global em direção a uma maior autonomia estratégica.

É compreensível que, quando as regras já não o protegem, cada um procure proteger-se a si mesmo. No entanto, devemos estar cientes dos perigos. Um “mundo de fortalezas”, onde cada nação se fecha sobre si mesma, será inevitavelmente mais pobre, mais frágil e menos sustentável. O isolacionismo é estrategicamente ineficiente. A colaboração entre potências intermédias não é um ideal, mas uma necessidade pragmática. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades geram resultados positivos para todos. Precisamos de uma abordagem mais ambiciosa, que partilhe o custo da autonomia estratégica.

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