Da ameba ao T-Rex: o que Yuval Harari diz à escola sobre um futuro imprevisível

Pela primeira vez na história da humanidade, a geração mais velha não consegue dizer à mais nova como será o mundo em que vai trabalhar. É desta constatação, simples e desconfortável, que parte o historiador Yuval Noah Harari para repensar o que a escola deve — e sobretudo o que já não deve — ensinar. Um percurso pelas suas ideias sobre inteligência artificial, trabalho e educação, da imagem da «ameba» que se tornará «T-Rex» à arte, pouco ensinada, de desaprender.

Há uma pergunta que qualquer professor já ouviu de um aluno, formulada com maior ou menor elegância: «Para que é que isto me vai servir?» Durante milhares de anos, a resposta era relativamente fácil. Um camponês chinês do ano 1018 não sabia se o império ia cair ou se a peste ia chegar, mas sabia que, em 1050, a maioria das pessoas continuaria a semear arroz e a tecer seda — e por isso ensinava aos filhos exatamente isso. As competências transmitidas de pais para filhos, e de professores para alunos, tinham validade garantida para uma vida inteira. Yuval Noah Harari, historiador da Universidade Hebraica de Jerusalém e autor de Sapiens, 21 Lições para o Século XXI e, mais recentemente, Nexus, sustenta que esse pacto milenar entre gerações se quebrou: não fazemos ideia de como será o mercado de trabalho em 2050, que profissões existirão ou que competências serão úteis daqui a duas ou três décadas. E uma escola que finge sabê-lo, avisa, está a preparar jovens para um mundo que pode já não existir quando eles lá chegarem.

O fim da vida em duas etapas

A consequência mais direta deste diagnóstico toca a própria arquitetura do sistema educativo. Herdámos um modelo de vida dividido em duas fases complementares: primeiro aprende-se, depois trabalha-se com aquilo que se aprendeu. Na juventude acumula-se conhecimento e constrói-se uma identidade; na idade adulta aplica-se esse capital numa carreira mais ou menos linear. Harari argumenta, sobretudo em 21 Lições para o Século XXI, que a aceleração tecnológica e o aumento da esperança de vida tornaram este modelo obsoleto: para se manter relevante, económica e socialmente, uma pessoa terá de continuar a aprender e a reinventar-se ao longo de toda a vida — incluindo aos cinquenta anos, quando reconfigurar hábitos mentais custa bem mais do que aos quinze. Não se trata apenas de mudar de emprego algumas vezes; trata-se de atravessar ciclos sucessivos de choque tecnológico, obsolescência e reinvenção, com o desgaste psicológico que isso implica.

Para a escola, a implicação é menos óbvia do que parece. Se ninguém sabe que competências técnicas serão úteis em 2050, apostar tudo em competências técnicas específicas é arriscado. Harari chega a formular a provocação de forma extrema: ensinar as crianças a programar pode revelar-se uma má aposta a prazo, porque a própria inteligência artificial já escreve código e fá-lo-á cada vez melhor. A provocação merece ser lida com cautela — o pensamento computacional continua a ter valor formativo próprio, independentemente de quem escreve as linhas de código —, mas o argumento de fundo mantém-se: o que envelhece depressa são as ferramentas, não a capacidade de as aprender. Daí a insistência do autor, na linha de muitos especialistas em pedagogia, nos chamados «quatro C» — pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade — e, acima de tudo, na capacidade de lidar com a mudança e de preservar o equilíbrio mental em situações desconhecidas. Quem conhece o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória reconhecerá aqui um território familiar: as áreas de competência que o documento português já consagra apontam precisamente nesta direção, ainda que a prática quotidiana das escolas nem sempre as acompanhe.

Da ameba ao T-Rex

A imagem mais citada de Harari sobre a inteligência artificial nasceu, curiosamente, num palco português. Em maio de 2023, na Estufa Fria, em Lisboa, numa conferência organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, o historiador recorreu a uma comparação que desde então repetiu em livros e entrevistas: a evolução da vida orgânica na Terra demorou cerca de quatro mil milhões de anos a ir da ameba ao tiranossauro; a evolução da inteligência artificial, que é inorgânica, fará um percurso equivalente em décadas — ou menos. «Se o ChatGPT é a ameba da IA», perguntava, «como será o T-Rex?» Numa entrevista posterior à revista Noema, a propósito de Nexus, foi mais preciso: é provável que encontremos os «T-Rex» da inteligência artificial por volta de 2040 ou 2050 — dentro do tempo de vida da maioria dos alunos que hoje estão sentados nas nossas salas de aula.

O ponto não é o alarme pela metáfora, mas a diferença de escalas temporais. A biologia humana precisa de descanso, de sono, de pausas; os sistemas digitais não. Um currículo escolar, revisto de dez em dez anos com sorte, compete com uma tecnologia que muda de capacidades em meses. Harari não conclui daí que a escola deva correr atrás da última ferramenta — pelo contrário: conclui que deve investir naquilo que não caduca, e que é justamente o mais difícil de ensinar.

Uma tecnologia que decide por si própria

Há um segundo argumento de Harari que interessa particularmente a quem trabalha literacia mediática, porque desmonta uma analogia repetida até à exaustão: a de que a inteligência artificial é «apenas mais uma ferramenta», como a imprensa ou a rádio. Na conferência de Lisboa, o historiador foi direto: os jornais, a rádio e a televisão não geram notícias falsas sem que um ser humano as escreva, e a bomba atómica, com todo o seu poder destrutivo, não decide que cidade destruir. A inteligência artificial é a primeira tecnologia da história capaz de tomar decisões por si própria e de gerar ideias novas — o que faz dela menos um instrumento nas nossas mãos e mais um agente com quem passamos a partilhar o mundo. Pode discordar-se do vocabulário, e muitos investigadores discordam, mas a distinção tem valor pedagógico imediato: ajuda os alunos a perceber porque é que discutir a IA como se fosse uma calculadora melhorada falha o essencial da questão.

Harari acrescenta um episódio que já pertence ao passado recente e que qualquer aula sobre desinformação pode explorar. Os algoritmos das redes sociais da última década não tinham opiniões nem emoções; tinham apenas uma instrução — maximizar o tempo que os utilizadores passam no ecrã. Ao testar milhões de variações, descobriram sozinhos que o medo, a indignação e o ódio retêm a atenção humana com muito mais eficácia do que a moderação, e passaram a servir esse tipo de conteúdo em doses crescentes. Em Nexus, Harari descreve este caso como a primeira batalha perdida contra uma inteligência artificial ainda primitiva — e alerta que a fronteira seguinte já não é a atenção, mas a intimidade: sistemas capazes de simular empatia e de construir relações personalizadas com cada utilizador serão instrumentos de persuasão sem precedente. Para uma disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, é difícil imaginar matéria-prima mais atual.

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Desaprender, dizer «não sei», manter o equilíbrio

Se há uma competência que atravessa todo o pensamento de Harari sobre educação, é uma que raramente aparece nos programas: desaprender. O conhecimento antigo, argumenta, pode transformar-se num fardo — um conjunto de convicções que bloqueia a aprendizagem do que vem a seguir. Aprender, aplicar, assistir à obsolescência do que se aprendeu, desaprender ativamente e reaprender: é este o ciclo que o autor antevê como rotina de qualquer vida profissional, e desaprender é a etapa mais dolorosa, porque exige destruir certezas em que investimos tempo e identidade. Curiosamente, Harari encontra o modelo desta atitude não no futuro, mas no passado: em Sapiens, defende que a revolução científica não começou com novos instrumentos, mas com uma revolução da ignorância — a disposição coletiva para admitir «não sabemos». Uma escola que penaliza sistematicamente o erro e a dúvida, sugere esta leitura, está a treinar os alunos exatamente na atitude contrária àquela que a ciência exige e que o futuro vai premiar.

A par da honestidade intelectual, Harari insiste numa competência de outra ordem: a resiliência psicológica. Reinventar-se repetidamente ao longo da vida vai gerar níveis de stress e crises de identidade sem precedente, e as sociedades terão de construir redes de apoio à estabilidade mental à mesma escala a que hoje constroem infraestruturas digitais. Quando o autor afirma que a flexibilidade mental será a maior vantagem competitiva do século XXI, não está a propor mais uma «competência transversal» para juntar à lista — está a dizer que o bem-estar psicológico deixou de ser um tema lateral da educação para passar a ser o seu centro de gravidade.

Comprar tempo: o que Harari pede aos governos

O historiador não deposita a responsabilidade toda na escola — longe disso. Aos governos, pede regulação da implementação da inteligência artificial na sociedade, com testes de segurança prévios semelhantes aos que se exigem a um medicamento ou a um automóvel novo antes de chegarem ao mercado. E avança uma proposta concreta que repetiu em Lisboa: ilegalizar a falsificação de seres humanos, tal como se ilegalizou a falsificação de moeda — nenhum sistema artificial deveria poder fazer-se passar por uma pessoa, e qualquer «bot» deveria ser obrigado a declarar a sua natureza no momento em que interage com um cidadão. São propostas discutíveis, e a discussão europeia sobre regulação da IA tem seguido caminhos próprios, mas colocam a questão no plano certo: o problema não é travar a investigação, é decidir coletivamente em que condições estas tecnologias entram na vida das pessoas — incluindo na das crianças.

Uma ideia para a sala de aula

Destas ideias todas, a que mais facilmente se transforma em aula é, talvez, a da revolução da ignorância. Uma sequência simples para Cidadania e Desenvolvimento, ou para qualquer disciplina disposta a arriscar, pode começar por pedir aos alunos que escrevam três coisas de que têm a certeza absoluta sobre o mundo do trabalho que os espera — e depois confrontá-los com a pergunta de Harari: como é que sabem? Num segundo momento, cada grupo escolhe uma profissão atual e investiga que tarefas dessa profissão a inteligência artificial já executa hoje, distinguindo o que encontrou verificado em fontes fiáveis daquilo que é especulação — um exercício de pesquisa que treina, ao mesmo tempo, literacia da informação e humildade intelectual. O fecho pode ser uma conversa sobre a experiência de dizer «não sei» em voz alta na sala de aula: quantos alunos sentem que podem fazê-lo sem custo? A resposta a essa pergunta diz mais sobre a preparação de uma turma para 2050 do que qualquer teste de conhecimentos.

No fundo, o que Harari devolve à escola não é um programa, é uma inversão de prioridades. Durante séculos, ensinar foi transmitir certezas testadas pelo tempo. Num mundo em que o tempo deixou de testar seja o que for durante muito tempo, ensinar passa a ser outra coisa: preparar pessoas capazes de mudar sem se perderem. É uma tarefa mais difícil do que passar matéria — e é, precisamente por isso, aquela em que nenhuma máquina nos substitui tão cedo.


Este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir de um conjunto de materiais de síntese sobre o pensamento de Yuval Noah Harari.

Referências

Fundação Francisco Manuel dos Santos. (2023, maio). Yuval Noah Harari discute o futuro da Humanidade em conferência da Fundação Francisco Manuel dos Santos [Comunicado de imprensa]. https://ffms.pt/sites/default/files/2023-05/PR%20FFMS_Humanidade%2C%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20assim%20t%C3%A3o%20simples%20VF.pdf

Gardels, N. (2024, 9 de outubro). AI will take over human systems from within [Entrevista a Yuval Noah Harari]. Noema Magazine. https://www.noemamag.com/al-will-take-over-human-systems-from-within/

Harari, Y. N. (2014). Sapiens: A brief history of humankind. Harvill Secker.

Harari, Y. N. (2018). 21 lessons for the 21st century. Jonathan Cape.

Harari, Y. N. (2024). Nexus: A brief history of information networks from the Stone Age to AI. Random House.

The Canadian Friends of the Hebrew University. (2023, junho). Hebrew U’s Yuval Harari: AI could be “the T-rex” that “will destroy democracy”. https://www.cfhu.org/news/hebrew-us-yuval-harari-ai-could-be-the-t-rex-that-will-destroy-democracy/

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