A empresa que disse “não” ao Pentágono: o que está em jogo no confronto entre a Anthropic e o governo dos EUA

Numa noite de fevereiro, poucas horas depois de o secretário de Defesa dos Estados Unidos o ter classificado como uma ameaça à segurança nacional, Dario Amodei sentou-se diante das câmaras da CBS News para explicar por que razão a sua empresa — uma das mais valiosas startups de inteligência artificial do mundo — se recusou a ceder perante o Pentágono.

A entrevista, conduzida por Jo Ling Kent e publicada a 28 de fevereiro de 2026, dura quase 28 minutos e merece ser vista na íntegra. Não por ser espetacular, mas por ser rara: um CEO a falar em tempo real sobre uma crise que pode definir os limites da tecnologia mais poderosa do nosso tempo.

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Duas linhas que não se cruzam

A Anthropic, criadora do modelo de IA Claude, colabora com o governo norte-americano desde cedo. Foi a primeira empresa de IA a operar na rede classificada do Departamento de Defesa e chegou a assinar um contrato avaliado em 200 milhões de dólares. Amodei faz questão de o sublinhar: a sua equipa acredita na defesa do país, trabalha com os serviços de informação e apoia a maioria esmagadora dos cenários de utilização militar — cerca de 98 a 99 por cento, segundo as suas próprias estimativas.

Mas há duas exceções. Duas “linhas vermelhas” que a empresa definiu desde o início e que se recusa a ultrapassar:

  1. Vigilância em massa de cidadãos americanos. A IA torna hoje possível comprar grandes volumes de dados pessoais a empresas privadas — localizações, filiações políticas, informações sensíveis — e analisá-los à escala. Isto não é ilegal, como o próprio Amodei reconhece. Simplesmente, antes da era da IA, não era exequível. A tecnologia avançou mais depressa do que a lei.
  2. Armas autónomas letais sem supervisão humana. Sistemas que selecionam alvos e executam ataques sem qualquer intervenção de um soldado. Amodei não é contra estas armas por princípio — admite que podem vir a ser necessárias se os adversários as desenvolverem —, mas argumenta que a fiabilidade dos modelos atuais não justifica retirar o ser humano do circuito. O risco de fogo amigo, de alvos civis atingidos por erro ou de uma escalada descontrolada é real.

O Pentágono queria acesso irrestrito ao Claude para “todos os fins legais”. A Anthropic queria que as duas exceções ficassem consagradas no contrato. Não chegaram a acordo.


A escalada

O que se seguiu foi rápido e sem precedentes para uma empresa americana.

O presidente Donald Trump publicou uma mensagem nas redes sociais ordenando a todas as agências federais que cessassem imediatamente o uso da tecnologia da Anthropic. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, designou a empresa como “risco para a cadeia de fornecimento” — um rótulo que, até então, só tinha sido aplicado a entidades ligadas a adversários estrangeiros, como empresas russas de cibersegurança ou fabricantes chineses de semicondutores. Mais de 200 milhões de dólares em contratos federais foram cancelados.

Hegseth chamou a Anthropic de “arrogante” e “moralista”. Emil Michael, o responsável tecnológico do Departamento de Defesa, acusou Amodei de ter um “complexo de Deus”. O próprio Trump descreveu a empresa como “uma empresa radical de esquerda, woke“.

A Anthropic processou o governo em dois tribunais federais distintos. Em março de 2026, a juíza Rita Lin, em São Francisco, concedeu uma injunção preliminar, escrevendo numa decisão de 43 páginas que nada na legislação existente sustentava “a noção orwelliana de que uma empresa americana pode ser rotulada de potencial adversária e sabotadora dos EUA por expressar desacordo com o governo”. Na capital, porém, o Tribunal de Recurso do Distrito de Colúmbia negou o pedido da Anthropic para suspender a designação de risco, argumentando que o equilíbrio de interesses pendia a favor do governo num contexto de conflito militar ativo.

O resultado prático, até ao momento, é um compromisso partido ao meio: a Anthropic está excluída de novos contratos com o Departamento de Defesa, mas pode continuar a trabalhar com outras agências governamentais.


O que Amodei realmente disse

A entrevista à CBS News vale pela franqueza com que Amodei expõe o dilema. Não há spin corporativo nem linguagem evasiva. Alguns pontos que merecem destaque:

Sobre a fiabilidade da IA em contexto militar: Amodei é direto ao dizer que os modelos atuais ainda são imprevisíveis. Qualquer pessoa que utilize um assistente de IA no dia a dia reconhece que as respostas nem sempre são fiáveis. Agora, transpor essa margem de erro para um sistema de armas é uma proposta de risco completamente diferente.

Sobre o papel de uma empresa privada: Amodei reconhece que não é sustentável, a longo prazo, que uma empresa privada defina os limites éticos do uso militar de IA. Isso cabe ao Congresso. Mas o Congresso é lento a legislar, e entretanto alguém tem de tomar decisões.

Sobre patriotismo: A palavra volta várias vezes. Amodei não aceita a narrativa de que a Anthropic é antipatriótica. Pelo contrário: argumenta que discordar do governo “é a coisa mais americana do mundo” e que as linhas vermelhas existem precisamente para defender valores que considera fundamentais para a democracia.

Sobre o futuro: Mesmo após o corte público, Amodei deixou a porta aberta a negociações. Disse que a empresa e o Pentágono “têm muito mais em comum do que diferenças” e que continuava a tentar desescalar a situação.


Os desenvolvimentos mais recentes

A história não ficou congelada na noite daquela entrevista. Nas semanas seguintes, o cenário evoluiu de formas que ninguém antecipou por completo.

Em abril de 2026, a Anthropic revelou o Mythos, um modelo de fronteira desenhado para cibersegurança e considerado demasiado capaz em ataques ofensivos para ser lançado publicamente. O acesso foi restringido a cerca de quarenta organizações. Uma delas, segundo a Axios, é a própria Agência Nacional de Segurança (NSA) — que opera sob a tutela do mesmo Departamento de Defesa que, em tribunal, argumenta que a Anthropic representa um risco para a segurança nacional.

A contradição não passou despercebida: o governo está simultaneamente a utilizar a tecnologia da Anthropic e a combatê-la em tribunal.

A 18 de abril, Amodei reuniu-se na Casa Branca com a chefe de gabinete Susie Wiles e o secretário do Tesouro Scott Bessent. Ambas as partes descreveram o encontro como “produtivo”. Três dias depois, Trump declarou à CNBC que um acordo com a Anthropic para uso no Departamento de Defesa era “possível”, acrescentando que a empresa “está a endireitar-se” e que “são muito inteligentes”.

Num desenvolvimento separado, a Anthropic apresentou uma declaração judicial afirmando que não possui qualquer “botão de desligar” para os seus modelos uma vez implantados em ambientes classificados — sublinhando que a empresa não tem visibilidade nem capacidade técnica para controlar o que acontece com o Claude depois de entregue ao Pentágono.


Por que é que isto nos diz respeito

É tentador ver esta história como um conflito exclusivamente americano: uma empresa de Silicon Valley contra o aparelho militar de Washington, com tweets presidenciais e decisões judiciais pelo meio. Mas as questões que levanta são universais.

Quem define os limites do uso militar da inteligência artificial? A empresa que a cria, o governo que a compra ou a sociedade que vive com as consequências?

A IA está a transformar a forma como os exércitos operam — desde a análise de informações à seleção de alvos —, e a regulação não acompanha a velocidade da inovação. A Anthropic tomou uma posição: há utilizações que, na sua avaliação, a tecnologia atual não suporta com segurança. O Pentágono tomou outra: num contexto de competição geopolítica com a China e conflitos ativos, as restrições autoimpostas são um luxo que os EUA não podem permitir.

Nenhuma das duas posições é absurda. Ambas comportam riscos.

O que esta entrevista e os meses que se seguiram tornam claro é que a pergunta central ainda não tem resposta: numa democracia, como é que se governa uma tecnologia que evolui mais depressa do que as leis que a deveriam regular? Até o Congresso agir — e ninguém sabe quando —, as respostas vão continuar a ser improvisadas, caso a caso, contrato a contrato, tribunal a tribunal.

E talvez o facto de uma empresa ter dito “não” — com todas as consequências financeiras e políticas que isso implica — seja, por si só, um dado importante para essa conversa.


Fontes principais:

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