Há uma pergunta que quase ninguém se faz quando abre o telemóvel de manhã: quem decidiu que esta informação merece a minha atenção? Não fomos nós. Foi um algoritmo. E esse algoritmo não foi desenhado para nos informar — foi desenhado para nos prender.
No último episódio da segunda temporada do podcast Disrupting Peace, da World Peace Foundation (The Fletcher School, Tufts University), Bridget Conley conversou com especialistas do News Literacy Project sobre o que acontece quando uma geração inteira cresce num ecossistema informativo onde o envolvimento emocional vale mais do que a verdade. A conversa é desconfortável. E é exatamente por isso que importa.
Uma geração que desconfia de tudo — e de todos
Os dados são claros: um estudo recente do News Literacy Project revelou que 84% dos adolescentes norte-americanos têm uma perceção negativa da imprensa, descrevendo frequentemente o jornalismo como enganador ou impreciso. Charles Salter, presidente e CEO da organização, resumiu o problema de forma direta na National News Literacy Week de 2026: as gerações Z e Alpha precisam de aprender a navegar num mar de conteúdo-lixo gerado por IA e rumores virais.
Mas atenção: o problema não é só a desinformação. É algo mais subtil e mais perigoso — o cinismo. Os jovens não caem tanto em notícias falsas por ingenuidade; caem porque desistiram de tentar distinguir o verdadeiro do falso. Quando tudo parece duvidoso, a resposta mais fácil é não acreditar em nada. E uma sociedade onde ninguém acredita em nada é tão vulnerável como uma sociedade onde toda a gente acredita em tudo.
É precisamente este ponto que os convidados do Disrupting Peace sublinham: a diferença entre ceticismo saudável e cinismo destrutivo. O primeiro é uma ferramenta; o segundo é uma armadilha.
Algoritmos, IA e a erosão silenciosa da confiança
Os números ajudam a perceber a escala do problema. Estimativas do Serviço de Estudos do Parlamento Europeu indicam que os vídeos deepfake partilhados online poderão ter passado de cerca de 500 mil em 2023 para 8 milhões em 2025 — um crescimento de 16 vezes em dois anos. E as ferramentas para os criar estão cada vez mais acessíveis: qualquer pessoa com acesso à internet pode gerar imagens, vídeos e textos convincentes em segundos, sem qualquer competência técnica especial.
Mas os deepfakes são apenas a parte mais visível. O problema de fundo são os algoritmos que organizam o que vemos, lemos e ouvimos. Não filtram por verdade ou relevância — filtram por reação emocional. Quanto mais forte a emoção (indignação, medo, revolta), mais provável é que o conteúdo circule. É uma máquina de amplificação que trata a manipulação emocional e o jornalismo sério como se fossem a mesma coisa.
No podcast, esta dinâmica é descrita sem rodeios: vivemos num ambiente em que a informação enganadora tem uma vantagem estrutural sobre a informação fiável. Não porque seja melhor, mas porque é mais rentável em termos de atenção.

Abrandar para ver melhor
Uma das ideias mais práticas discutidas no episódio — e que a investigação confirma — é surpreendentemente simples: abrandar. Parar antes de reagir. Resistir ao impulso de partilhar, comentar ou indignar-se imediatamente.
A lógica é quase fisiológica. Quando uma notícia nos provoca uma reação emocional intensa, é o momento em que devemos ter mais cuidado, não menos. O conteúdo que nos faz sentir alguma coisa com muita força — raiva, indignação, medo — é frequentemente desenhado para isso mesmo. É engenharia emocional, e a melhor defesa contra ela é reconhecê-la quando acontece.
Isto liga-se a uma segunda estratégia igualmente concreta: verificar a fonte original. Não o post que partilhou. Não o comentário que interpretou. A fonte. Quem publicou? Com que propósito? Com que evidência? É um hábito que se treina, como qualquer outro.
Pre-bunking: vacinar antes de infetar
O pre-bunking — a ideia de preparar as pessoas para reconhecerem técnicas de manipulação antes de serem expostas a elas — é uma das abordagens mais discutidas no episódio, e a investigação recente dá-lhe razão.
Uma meta-análise publicada em 2026 na revista Current Opinion in Psychology, que reuniu 33 experiências com mais de 37 mil participantes, concluiu que tanto intervenções gamificadas como vídeos curtos de inoculação melhoram consistentemente a capacidade de distinguir informação fiável de informação manipulada — sem provocar desconfiança generalizada. Ou seja, as pessoas ficam mais atentas sem ficarem mais cínicas.
Um estudo de campo publicado no Harvard Kennedy School Misinformation Review, também em 2026, mostrou que um vídeo de pre-bunking de apenas 19 segundos, distribuído como anúncio no Instagram a quase 376 mil utilizadores no Reino Unido, aumentou em 21 pontos percentuais a capacidade de identificar manipulação emocional num título noticioso — e o efeito manteve-se durante cinco meses.
A investigação é convergente: não se trata de ensinar as pessoas o que pensar, mas de as equipar com ferramentas para pensarem como a informação é construída.
Educação: a peça que continua a faltar
Apesar de tudo o que se sabe, a integração da literacia mediática nos sistemas educativos continua aquém do necessário. A UNESCO reporta que, embora 88% dos Estados-membros reconheçam a importância da literacia mediática e informacional, apenas 17% adotaram uma política específica e autónoma nesta área. E um terço dos países que a integram nos currículos escolares limitam-na a competências digitais básicas, sem abordar o pensamento crítico em sentido lato.
Nos Estados Unidos, o News Literacy Project trabalha para garantir que todos os alunos recebam formação em literacia mediática antes de terminarem o ensino secundário. A organização, fundada em 2008 pelo jornalista Alan C. Miller e atualmente liderada por Charles Salter, disponibiliza gratuitamente recursos como a plataforma Checkology e a newsletter The Sift, e apoia distritos escolares na implementação de programas estruturados.
Mas a escala do desafio excede em muito o que uma organização pode fazer sozinha. Como os convidados do podcast argumentam, a literacia mediática não é uma disciplina opcional — é uma competência de sobrevivência democrática. Tão fundamental como saber ler e escrever.
E nós, em Portugal?
A pergunta impõe-se a quem trabalha em educação no contexto português e europeu. O Regulamento Europeu da IA (EU AI Act) e o Regulamento dos Serviços Digitais (Digital Services Act) criaram enquadramento legal, mas a tradução dessas políticas em práticas pedagógicas concretas continua a ser um caminho em construção.
Nas bibliotecas escolares, o desafio é duplo. Por um lado, são frequentemente os espaços onde alunos e professores se cruzam com informação de múltiplas fontes e formatos. Por outro, os profissionais que nelas trabalham precisam, eles próprios, de atualização contínua para acompanharem a velocidade com que o ecossistema informativo muda.
Integrar a literacia mediática e informacional no trabalho quotidiano das bibliotecas escolares — nos clubes de leitura, nas atividades de pesquisa, nos projetos interdisciplinares — não exige uma revolução. Exige intenção, sistematicidade e formação.
Consumir menos, pensar mais
O episódio do Disrupting Peace termina com uma ideia que merece ficar: não precisamos de consumir mais informação. Precisamos de consumir melhor. E “melhor” não significa encontrar as fontes perfeitas — significa desenvolver o hábito de nos perguntarmos, sempre que algo nos chega ao ecrã: isto é verdade? quem beneficia se eu acreditar nisto? que evidência sustenta esta afirmação?
Não é uma solução mágica. Mas é um ponto de partida. E num mundo em que a desinformação tem uma vantagem estrutural sobre a verdade, talvez o gesto mais radical que possamos ter seja, simplesmente, parar para pensar.
Para ouvir: How to Get Smarter About the Information We Consume — episódio final da temporada 2 do podcast Disrupting Peace, World Peace Foundation / The Fletcher School, Tufts University. Disponível em Spotify, Apple Podcasts e YouTube.
Para explorar: News Literacy Project — newslit.org
Referências
Conley, B. (Apresentadora). (2026, 21 de abril). How to get smarter about the information we consume [Episódio de podcast]. In Disrupting Peace. World Peace Foundation / The Fletcher School, Tufts University. https://youtu.be/4PbX72hZPc8
News Literacy Project & E.W. Scripps Company. (2026, 29 de janeiro). National News Literacy Week 2026 focuses on rebuilding trust in the age of AI [Comunicado de imprensa]. https://scripps.com/press-releases/national-news-literacy-week-2026-focuses-on-rebuilding-trust-in-the-age-of-ai/
Simchon, A., Zipori, T., Teitelbaum, L., Lewandowsky, S., & van der Linden, S. (2026). A signal detection theory meta-analysis of psychological inoculation against misinformation. Current Opinion in Psychology, 67, 102194. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2025.102194
Noble, N. S. et al. (2026). Prebunking misinformation techniques in social media feeds: Results from an Instagram field study. Harvard Kennedy School Misinformation Review. https://misinforeview.hks.harvard.edu/article/prebunking-misinformation-techniques-in-social-media-feeds-results-from-an-instagram-field-study/
UNESCO. (2025). Media and information literacy for all: Closing the gaps. Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
Stimson Center. (2026, 27 de fevereiro). AI in the age of fake (imagined) content. https://www.stimson.org/2026/ai-in-the-age-of-fake-imagined-content/
