Davos 2026: Discurso especial de Mark Carney, Primeiro-Ministro do Canadá

O Fim de uma Ilusão: O Apelo à Autonomia Estratégica para as Potências Intermédias

Clicar na imagem para a ver maior…

Fonte |

1. Introdução: O Despertar para uma Nova Realidade

Senhoras e senhores, encontramo-nos hoje num momento de viragem, um ponto de inflexão que definirá a ordem global para as gerações vindouras. O que vivemos não é uma mera transição, mas sim uma “rutura na ordem mundial”. Chegou ao fim o que poderíamos descrever como uma “ficção agradável”, dando lugar a uma “dura realidade” onde a geopolítica das grandes potências parece não conhecer limites nem constrangimentos. Esta é uma realidade que temos o dever de enfrentar com honestidade e determinação.

O dilema que se impõe a todas as nações é tão antigo como a própria história. Por um lado, somos confrontados com a lógica brutal descrita por Tucídides, segundo a qual “os fortes fazem o que podem, e os fracos sofrem o que devem”. Por outro, observamos uma forte tendência por parte de muitos países para a acomodação, para seguir o fluxo na esperança de que a complacência lhes possa comprar segurança.

Contudo, a acomodação não garante segurança. As potências intermédias, como o Canadá e tantas outras aqui representadas, não estão impotentes perante esta nova era de rivalidade. Pelo contrário, temos a capacidade e a responsabilidade de construir uma nova ordem, alicerçada nos nossos valores de respeito pelos direitos humanos, soberania e integridade territorial. O poder dos menos poderosos começa com a honestidade, e o primeiro passo é reconhecer a mentira sistémica em que vivemos durante demasiado tempo.

2. A Ilusão da Ordem Baseada em Regras: Viver na Mentira

Para compreendermos a nossa situação atual, é fundamental analisar a complacência que caracterizou a antiga ordem internacional. Os sistemas não se perpetuam apenas pela força bruta, mas sim pela participação tácita daqueles que, mesmo reconhecendo as suas falhas, optam por não as confrontar.

O dissidente checo e futuro presidente, Václav Havel, ilustrou este fenómeno de forma brilhante no seu ensaio O Poder dos Sem Poder. Ele descreve um merceeiro que, todas as manhãs, coloca um letreiro na sua montra com o lema “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”. O merceeiro não acredita na mensagem, nem os seus clientes, nem ninguém. Ele fá-lo simplesmente para evitar problemas, para sinalizar conformidade, para se integrar. E porque todos os outros comerciantes na sua rua fazem o mesmo, o sistema persiste, não pela sua verdade, mas pela disponibilidade de todos em participar em rituais que, em privado, sabem ser falsos. Havel chamou a isto “viver na mentira”. A fragilidade de tal sistema reside precisamente na mesma fonte do seu poder: basta que uma pessoa retire o letreiro para que a ilusão comece a quebrar.

Esta analogia aplica-se perfeitamente à política externa de muitas potências intermédias. Durante décadas, nações como o Canadá prosperaram sob a chamada “ordem internacional baseada em regras”. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Sabíamos, no entanto, que esta narrativa era parcialmente falsa. Sabíamos que os mais fortes se isentavam das regras quando lhes era conveniente, que as normas comerciais eram aplicadas de forma assimétrica e que o direito internacional era aplicado com um rigor variável. Mesmo assim, esta ficção era útil. A hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos globais: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a estruturas de resolução de conflitos. Em troca destes benefícios, decidimos “colocar o letreiro na janela”.

Hoje, essa barganha chegou ao fim.

3. A Realidade da Rutura: Quando a Integração se Torna Subordinação

A mudança que testemunhamos não é uma transição suave, mas uma “rutura” fundamental. Ao longo das últimas duas décadas, crises sucessivas nos setores financeiro, da saúde, da energia e na geopolítica expuseram os riscos profundos de uma integração global extrema. Mais recentemente, assistimos a um desenvolvimento ainda mais alarmante: as grandes potências começaram a usar a interdependência económica como uma arma.

Esta instrumentalização da integração manifesta-se de várias formas:

• Pautas aduaneiras são usadas como ferramentas de alavancagem para extrair concessões.

• Infraestruturas financeiras são convertidas em instrumentos de coerção para impor vontades.

• Cadeias de abastecimento são tratadas não como fontes de eficiência, mas como vulnerabilidades a serem exploradas.

A conclusão é inescapável: não se pode viver na mentira do benefício mútuo através da integração, quando a integração se torna a fonte da sua subordinação. Esta nova realidade ameaça a própria arquitetura da resolução de problemas coletivos — desde a Organização Mundial do Comércio, às Nações Unidas e à COP — impulsionando um movimento global em direção a uma maior autonomia estratégica.

É compreensível que, quando as regras já não o protegem, cada um procure proteger-se a si mesmo. No entanto, devemos estar cientes dos perigos. Um “mundo de fortalezas”, onde cada nação se fecha sobre si mesma, será inevitavelmente mais pobre, mais frágil e menos sustentável. O isolacionismo é estrategicamente ineficiente. A colaboração entre potências intermédias não é um ideal, mas uma necessidade pragmática. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades geram resultados positivos para todos. Precisamos de uma abordagem mais ambiciosa, que partilhe o custo da autonomia estratégica.

Screenshot

4. A Resposta do Canadá: Realismo Baseado em Valores e Força Estratégica

Face a este novo cenário, o Canadá foi uma das primeiras nações a ouvir o despertar, o que nos levou a uma mudança fundamental na nossa postura estratégica. A nossa nova abordagem assenta no que Alexander Stubb, o presidente da Finlândia, designou de “realismo baseado em valores”. Procuramos ser simultaneamente pragmáticos e fiéis aos nossos princípios: pragmáticos ao reconhecer que o progresso é incremental e que os interesses divergem, mas firmes na nossa defesa de valores como a soberania, a integridade territorial e os direitos humanos.

Esta estratégia apoia-se em dois pilares fundamentais:

• Construção de força interna: Já não contamos apenas com a força dos nossos valores, mas também com o valor da nossa força. O nosso governo reduziu impostos, removeu barreiras ao comércio interprovincial, está a acelerar investimentos em energia, IA e minerais críticos, e irá duplicar os gastos com a defesa até ao final desta década.

• Diversificação externa: Estamos a expandir rapidamente as nossas parcerias estratégicas. Nos últimos seis meses, assinámos doze acordos de comércio e segurança em quatro continentes. Concluímos uma parceria estratégica abrangente com a União Europeia e, apenas nos últimos dias, novos pactos com a China e o Qatar. Estamos a negociar ativamente acordos de livre comércio com a Índia, a ASEAN, o Mercosul e outras regiões.

Para resolver problemas globais, adotamos uma abordagem de “geometria variável”, formando diferentes coligações para diferentes desafios. Esta metodologia já está a produzir resultados concretos em várias frentes:

• Ucrânia: Somos um membro central da “Coligação dos Voluntários” e um dos maiores contribuintes per capita para a sua defesa.

• Soberania do Ártico: Mantemos uma aliança firme com a Gronelândia e a Dinamarca. O Canadá opõe-se firmemente à imposição de tarifas sobre a Gronelândia e apela a conversações focadas para alcançar os nossos objetivos partilhados de segurança e prosperidade na região.

• NATO: O nosso compromisso com o Artigo 5.º é inabalável, e estamos a realizar investimentos sem precedentes para proteger os flancos norte e oeste da aliança.

• Comércio Plurilateral: Lideramos esforços para construir uma ponte entre a Parceria Transpacífica e a União Europeia, criando um potencial bloco comercial de 1,5 mil milhões de pessoas.

• Minerais Críticos: Estamos a formar “clubes de compradores”, ancorados no G7, para diversificar as cadeias de abastecimento globais.

• Inteligência Artificial: Cooperamos com democracias congéneres para garantir que o futuro da tecnologia não seja ditado por hegemonias rivais.

Isto não é multilateralismo ingénuo. É a construção pragmática de coligações que funcionam, baseadas em interesses e valores partilhados. É a criação de uma densa teia de ligações que nos fortalecerá para os desafios futuros.

5. Conclusão: O Poder das Potências Intermédias para Viver na Verdade

As potências intermédias enfrentam uma escolha crítica: podemos competir entre si por favor, aceitando um papel subordinado, ou podemos combinar-nos para criar um terceiro caminho com impacto real. A velha máxima da diplomacia nunca foi tão relevante: “se não estamos à mesa, estamos no menu”.

No espírito de Havel, viver na verdade exige de nós três ações concretas e concertadas:

1. Nomear a realidade: Devemos parar de invocar uma ordem baseada em regras que já não funciona como anunciado e reconhecer que vivemos num sistema de intensa rivalidade entre grandes potências.

2. Agir de forma consistente: Temos de aplicar os mesmos padrões a aliados e a rivais. Criticar a intimidação económica vinda de uma direção enquanto se permanece em silêncio quando vem de outra é, simplesmente, manter o letreiro na janela.

3. Construir aquilo em que se acredita: Em vez de esperar que a antiga ordem seja restaurada, devemos criar novas instituições e acordos funcionais. Essencialmente, isto significa reduzir a nossa vulnerabilidade à coerção. A diversificação internacional não é apenas prudência económica; é o alicerce material de uma política externa honesta, porque os países ganham o direito de ter posições de princípio ao reduzirem a sua vulnerabilidade a retaliações.

O Canadá está preparado para este desafio. Somos uma superpotência energética, detemos vastas reservas de minerais críticos, temos a população mais instruída do mundo, capital abundante e, acima de tudo, valores de pluralismo e estabilidade. Somos um parceiro fiável, pronto para construir relações a longo prazo.

Tomámos a nossa decisão. Estamos a retirar o letreiro da janela. Compreendemos que a nostalgia não é uma estratégia. Acreditamos que, a partir desta fratura, podemos construir algo maior, melhor, mais forte e mais justo. Esta é a tarefa que cabe às potências intermédias, os países que mais têm a perder com um mundo de fortalezas e mais a ganhar com uma cooperação genuína. Os poderosos têm o seu poder. Mas nós também temos algo: a capacidade de parar de fingir, de nomear a realidade, de construir a nossa força e de agir em conjunto.

Este é o caminho do Canadá. É um caminho que escolhemos de forma aberta e confiante, e é um caminho que está aberto a qualquer país disposto a percorrê-lo connosco.

Muito obrigado.

Leave a Reply