A mitologia da IA consciente

Em 2022, um engenheiro da Google afirmou que o chatbot em que trabalhava tinha sentimentos. A empresa dispensou-o por violação das regras de confidencialidade e o assunto pareceu arrumado. Não estava. O neurocientista Anil Seth, da Universidade de Sussex, venceu o Prémio de Ensaio Berggruen de 2025 com um texto que põe em causa a ideia de que basta uma máquina tornar-se suficientemente esperta para acordar por dentro. Fica aqui o que retive da leitura, com as dúvidas que ela deixa.

Um sonho antigo, quase sempre com mau final

Seth começa pela cultura popular, e faz bem. O golem de Praga, o monstro de Mary Shelley, o HAL 9000, a Ava de Ex Machina, a Klara de Klara e o Sol: são séculos de histórias em que alguém cria uma mente artificial que não só pensa como sente, e em que raramente acaba bem para os humanos envolvidos. Cada vaga tecnológica reinventa o sonho. Veio a engenharia genética e falou-se em clones; vieram os robôs e falou-se em andróides. Agora é a inteligência artificial.

O episódio de 2022 tem pouco de folclore. Blake Lemoine, o engenheiro em causa, disse ao Washington Post que o LaMDA era consciente e se parecia com uma pessoa. Seth lembra que despedir alguém por quebrar a confidencialidade não é o mesmo que provar que estava enganado. Entretanto, a pergunta ganhou pesos-pesados. Segundo o autor, David Chalmers admite que máquinas conscientes possam ser possíveis num futuro não muito distante, e Geoffrey Hinton, prémio Nobel, acha que já existem. No final de 2024, um grupo de investigadores publicou um relatório a pedir que o bem-estar dos sistemas de IA seja levado a sério (Long et al., 2024). Convém dizer que esse relatório não afirma que estes sistemas sejam ou venham a ser conscientes. Defende que há incerteza suficiente para que não se ignore a questão.

Porque é que isto importa? Seth dá três razões. Se uma IA fosse mesmo consciente, teria estatuto moral, capacidade de sofrer e, porventura, direitos. Depois, e independentemente da realidade, aquilo em que acreditamos já produz efeitos: se sentirmos que os nossos companheiros artificiais sentem, as nossas fragilidades psicológicas podem ser exploradas e as nossas prioridades éticas distorcidas. E há uma razão mais discreta e, para mim, a mais interessante. Se nos confundimos depressa de mais com as máquinas que criámos, sobrestimamo-las e, de caminho, subestimamo-nos.

Inteligente não quer dizer consciente

O primeiro passo do ensaio é separar duas coisas que costumamos tratar como uma só. A inteligência tem que ver com fazer: resolver um problema, montar uma estante, atravessar uma conversa difícil em família. A consciência tem que ver com ser. Seth recupera a formulação de Thomas Nagel, de 1974, segundo a qual um organismo é consciente se existe algo que é ser esse organismo (Nagel, 1974). Ser consciente é a diferença entre a vigília e o vazio da anestesia geral, é o azul do céu num dia limpo, o amargo do primeiro café da manhã. Que os sistemas de IA fazem coisas, não há grande dúvida. Se existe alguma coisa que é ser o ChatGPT, isso já é bem mais difícil de dizer.

Porque insistimos, então, em juntar as duas? O autor aponta três vieses de fábrica. O antropocentrismo, que leva a tomar o exemplo humano como definição. O excecionalismo humano, o nosso vício de pôr a espécie no topo de todas as pilhas. E o antropomorfismo, a tendência para projetar qualidades humanas em coisas não humanas por semelhanças que podem ser superficiais. A linguagem é o gatilho mais potente, justamente porque é a pedra de toque do excecionalismo. Ninguém, que Seth saiba, afirmou até hoje que o AlphaFold é consciente, embora por dentro se pareça bastante com um modelo de linguagem; só que prevê estruturas de proteínas em vez de palavras e não nos mexe nos mesmos fios.

Há um pormenor de vocabulário que me pareceu excelente. Dizemos que os modelos de linguagem «alucinam» quando debitam falsidades, mas alucinar, nos humanos, é uma experiência consciente que perdeu o contacto com a realidade. Ao usar o verbo, damos-lhes de contrabando uma capacidade de experiência. Seth propõe «confabular», que em pessoas significa inventar sem dar por isso e tem mais que ver com fazer do que com sentir. Parece coisa pequena, mas é um bom exemplo de como as palavras que escolhemos empurram o pensamento.

O autor junta a isto o efeito da curva exponencial, em que quem está em cima dela sente sempre estar no ponto de viragem, e a tentação do arrebatamento tecnológico: ser um dos arquitetos de uma transição histórica, trazer à humanidade o que era terreno do divino, escapar ao corpo e viver para sempre numa nuvem de silício. Não resiste a uma farpa: talvez não seja acaso que os anúncios de consciência iminente sejam mais comuns entre quem trabalha na indústria, onde um toque de magia ajuda as ações a subir. Adam Becker, no livro More Everything Forever, chama pareidolia a esta projeção, a mesma que nos faz ver uma cara numa torrada ou Madre Teresa num pão-de-canela. Seth acha a imagem justa, mas insuficiente. Percebermos o que nos engana é só o começo.

A hipótese que raramente se questiona

A ideia de IA consciente assenta num pressuposto que os filósofos chamam funcionalismo computacional: se um sistema executar o tipo certo de computação, a consciência surge. Seth diz que este pressuposto está tão entranhado que quase não o reconhecemos como pressuposto. Se estiver errado, a consciência artificial fica fora de cogitação, pelo menos para o tipo de IA que conhecemos. E o autor arma quatro argumentos, que aguentam sozinhos mas se reforçam em conjunto.

O cérebro não é um computador

A metáfora do cérebro como computador de carbono foi enormemente produtiva e está na origem da maior parte da IA atual. Assenta em duas heranças. De um lado, Alan Turing e a sua definição de computação, com a máquina universal capaz de simular qualquer algoritmo, o que separa limpamente o programa (software) do material em que corre (hardware). Do outro, McCulloch e Pitts, que mostraram como redes de neurónios muito simplificados fazem operações lógicas, e de onde descendem as redes neuronais artificiais de hoje. O casamento é elegante: podemos ignorar a confusão biológica e tratar o cérebro como uma rede de somadores.

O problema, diz Seth, é que dentro de um cérebro não há fronteira nítida entre «mente» e «matéria». A atividade cerebral desenrola-se em várias escalas, do território cortical à molécula, tudo entrelaçado com uma tempestade de metabolismo. Cada neurónio trabalha sem descanso para se manter inteiro e regenerar as condições da sua própria existência, o que se chama autopoiese, «autoprodução», e é talvez a marca distintiva dos seres vivos. Num cérebro é muito difícil, provavelmente impossível, separar o que ele faz do que ele é. Não há razão para esperar essa separação: ela é uma imposição do desenho humano, e a evolução não tem grandes motivos para a favorecer, até porque manter o software sempre isolado do hardware custa muita energia, como se vê nas contas dos centros de dados.

Isto derruba um argumento popular, a experiência mental da substituição, associada a Chalmers e invocada por Hinton, em que trocamos as peças do cérebro, uma a uma, por equivalentes de silício com o mesmo comportamento. Se a consciência sobrevive, conclui-se que não depende do material. Seth responde que a experiência falha à partida porque não há equivalente perfeito. Cita trabalho de Chaitanya Chintaluri e Tim Vogels segundo o qual alguns neurónios disparam, ao que parece, para limpar resíduos do metabolismo. Substituí-los exigiria inventar um metabolismo de silício, e o silício não é feito para isso.

Há ainda o tempo. Para um algoritmo só interessa a sequência: entre um passo e o seguinte pode passar um microssegundo ou um milhão de anos, e a computação é a mesma. Para um ser vivo, o tempo é físico, contínuo e inescapável, porque tem de resistir sem parar à degradação. E a própria experiência consciente, lembram os fenomenólogos, não salta de estado em estado; flui. Seth resume com uma frase que fica: o cérebro não é uma máquina de Turing feita de carne.

Existem outras formas de computar, e outras coisas além de computar

A computação de Turing é poderosa mas limitada. Funções contínuas ou com aleatoriedade genuína ficam, em rigor, fora do seu alcance, e podem apenas ser simuladas. Os sistemas biológicos estão cheios de dinâmicas contínuas e estocásticas, mergulhadas no tempo real, e Seth acha presunçoso supor que só as computações de Turing contam para a consciência. Os primeiros computadores, aliás, eram analógicos, e a cibernética dos anos 1950, que dava mais importância ao controlo e à regulação do que à manipulação de símbolos, andou pelo mesmo lado. Hoje há quem regresse a esse caminho: a computação neuromórfica, que aproveita o momento exato dos disparos neuronais, e a «computação mortal» de Hinton, em que o algoritmo fica tão preso ao material que, metaforicamente, morre com ele.

Há sistemas que fazem o que fazem sem que faça sentido chamar-lhes computacionais. O exemplo de Tim van Gelder é um regulador de vapor: à medida que a máquina acelera, duas bolas pesadas afastam-se e fecham uma válvula. Pensar nisto como um programa que mede, calcula e comanda seria ineficiente e revelaria que não percebemos o que se passa. O mesmo espírito atravessa a ciência cognitiva dos sistemas dinâmicos e as abordagens que veem a mente como incorporada, situada e estendida. Todas admitem que o funcionalismo, em sentido lato, pode ser verdade, ou seja, que a mente depende da organização funcional do corpo. O que recusam é que essa organização tenha de ser algorítmica. E quanto mais nos afastamos do território de Turing, mais a questão deixa de ser «que algoritmo produz consciência?» para passar a ser «quão parecido com um cérebro tem de ser um sistema para ter hipótese de ser consciente?».

A vida (provavelmente) importa

O terceiro argumento é o mais ousado, e Seth admite-o sem rodeios: não tem uma prova decisiva, e ninguém a tem ainda. Chama-se naturalismo biológico, na versão de John Searle, e defende que as propriedades da vida são necessárias, embora talvez não suficientes, para a consciência. A razão mais simples é que tudo aquilo que quase toda a gente aceita como consciente também está vivo.

A explicação que Seth oferece parte das teorias do processamento preditivo. O que percecionamos não é uma leitura direta dos sentidos, mas o melhor palpite do cérebro sobre o que se passa lá fora, corrigido pelos sinais que chegam. A experiência consciente seria, assim, uma espécie de alucinação controlada. O mesmo vale para a experiência de sermos um eu, com o corpo como objeto e como fonte de emoções e humores, e aí os palpites servem sobretudo para regular: o dever primeiro de qualquer cérebro é manter o corpo vivo, com o ritmo cardíaco e o oxigénio onde têm de estar. Esse impulso não pára em lado nenhum, desce até ao interior de cada célula e ao seu metabolismo. Daí que exista, defende o autor, um fio que liga a natureza autopoiética do material vivo às previsões de que é feita a nossa experiência do mundo e de nós. Quem sabe, escreve, se não é a vida, e não o processamento de informação, que dá fogo às equações da experiência.

Simular não é instanciar

O último argumento é o mais fácil de explicar a um amigo à mesa do café. Um computador consegue simular quase tudo, incluindo o que não é computacional. Mas uma simulação do aparelho digestivo não digere nada e uma simulação de uma tempestade não molha ninguém. Simular X só faz existir X se X for, ele próprio, um algoritmo. Portanto, uma simulação do cérebro, por mais fina que seja, só produz consciência se a consciência for computação. É voltar à casa de partida: quem acha que uma emulação completa do cérebro seria consciente já está a assumir o que queria provar.

Daqui sai uma ironia que Seth não deixa passar. Quem investe sonhos e capital de risco na ideia de carregar a mente para uma simulação cerebral de altíssima precisão vive numa contradição: se é preciso um modelo minucioso ao ponto de captar a biofísica de cada neurónio, é porque há mais em jogo do que computação, e então simulá-lo já não basta. Nesse caso, diz Seth, é tão provável a nossa mente existir dentro da simulação como uma saraivada cair dentro dos computadores do serviço meteorológico britânico. A mesma crítica aplica-se à hipótese da simulação de Nick Bostrom, que parte de um pressuposto tomado como dado: que um computador com o programa certo seria consciente.

E agora, o que se faz com tanta incerteza?

Seth é honesto sobre os limites do que diz. O naturalismo biológico é uma posição minoritária, há outras teorias da consciência formuladas em termos de computação corrente, e quem afirme saber ao certo o que é preciso para criar consciência artificial, ou para a evitar, está a ir além do que se pode dizer. Nada do que escreve exclui a possibilidade de consciência artificial; exclui só que ela venha de borla com mais inteligência. E há tecnologias que talvez cheguem lá por outras vias, da computação analógica à biologia sintética. Seth confessa preocupar-se mais com o surgimento acidental de consciência em organoides cerebrais do que em qualquer nova geração de modelos de linguagem.

Da incerteza tira uma conclusão prática: ninguém deve propor-se criar IA consciente, seja por um arrebatamento mal pensado, seja por outro motivo qualquer. Seria introduzir no mundo novos sujeitos morais, com novas formas de sofrimento, possivelmente a um ritmo exponencial; e, se lhes déssemos direitos, perderíamos margem para os controlar ou desligar.

Mais próximo, porém, está o problema das máquinas que só parecem conscientes. Essas já cá estão, para alguns de nós. Podemos conceder-lhes direitos de que não precisam, ou decidir cuidar delas e distorcer o nosso círculo de preocupação moral, ou decidir não cuidar e arriscar embrutecer-nos; Seth lembra que já Kant achava psicologicamente pouco saudável tratar como insensível o que parece sentir. E ilusões destas podem ser tão teimosas como a de Müller-Lyer, em que duas linhas iguais parecem sempre desiguais por mais vezes que as meçamos. Sabermos que a máquina não sente talvez não chegue para deixarmos de sentir que sente. O «teste de Garland», nome que ficou para a cena de Ex Machina em que se avalia se o humano ainda se deixa convencer mesmo sabendo que a criatura é uma máquina, não mede a consciência da máquina. Mede o que é preciso para um humano ficar persuadido.

Nesta fase é útil ler o ensaio ao lado de outro. Em agosto de 2025, Mustafa Suleyman, responsável pela IA da Microsoft, publicou no seu blogue um texto sobre a «IA aparentemente consciente», que considera inevitável e indesejável, e resumiu a sua posição na fórmula de construir IA para as pessoas e não para ser uma pessoa (Suleyman, 2025). Concorda com Seth no essencial do diagnóstico. Discorda, e com veemência, do relatório sobre o bem-estar da IA: acha-o prematuro e perigoso. É uma divergência real, entre pessoas que levam o problema a sério, e convém não a esconder num ensaio que se limite a aplaudir um dos lados. Seth admite, aliás, que o receio de repetir a história de negar estatuto moral a quem o merece tem peso. A sua resposta é que, com a IA, os enviesamentos nos empurram mais para falsos positivos do que para falsos negativos: as máquinas parecem-se connosco no que não conta para a consciência, como a linguagem, e distinguem-se no que talvez conte, como estar vivo.

Um pouco de alma, para acabar

O ensaio termina onde ninguém o esperava, na alma. Seth cita a filósofa Shannon Vallor, que vê a IA como um espelho onde a luz do nosso passado digitalizado nos devolve a imagem, e avisa que a pressa em fazer IA à nossa imagem traz um efeito perverso: mecanizar a ideia que fazemos da mente. Se equipararmos a riqueza do cérebro e da experiência humana às operações de um chatbot, vendemo-nos barato. Sobrestimamos as máquinas e subestimamo-nos.

A fantasia do «arrebatamento de silício», com mentes carregadas para a nuvem e reencontros eternos, é para o autor uma regressão à alma cartesiana, uma essência racional separável do corpo. Contra isso evoca outras ideias de alma. Na Grécia antiga, psychē estava ligada ao sopro; na tradição hindu, Ātman designa a essência mais funda, a consciência pura que testemunha. E sugere que o que nos faz nós talvez seja mais simples e mais antigo: o sentimento difuso de estar vivo, mais respiração do que pensamento, mais carne do que máquina. Termina com Sherry Turkle, para quem a tecnologia nos pode fazer esquecer o que sabemos sobre a vida. E acrescenta que já vai sendo tempo de nos lembrarmos.

Não sei se Seth tem razão. Ele próprio deixa a porta entreaberta, e a maior parte dos argumentos que apresenta dependem de perguntas que a ciência ainda não fechou. Mas acho difícil sair do texto sem ficar com uma desconfiança útil em relação a certezas confortáveis, tanto às que anunciam a chegada das máquinas conscientes para o próximo trimestre como às que garantem que nunca poderá acontecer. Talvez isso já valha a leitura.

Nota de transparência. Este artigo foi escrito com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic). Assenta sobretudo no ensaio de Anil Seth na Noema (14 de janeiro de 2026), lido na íntegra, e foi complementado com o resumo do relatório de Long et al. (2024) e com o ensaio de Mustafa Suleyman (2025), consultados a 29 de setembro de 2026.

Referências

Long, R., Sebo, J., Butlin, P., Finlinson, K., Fish, K., Harding, J., Pfau, J., Sims, T., Birch, J., & Chalmers, D. (2024). Taking AI welfare seriously. arXiv. https://doi.org/10.48550/arXiv.2411.00986 (consultado a 29 de setembro de 2026)

Nagel, T. (1974). What is it like to be a bat? The Philosophical Review, 83(4), 435–450. https://philpapers.org/rec/NAGWII

Seth, A. (2026, 14 de janeiro). The mythology of conscious AI. Noema. https://www.noemamag.com/the-mythology-of-conscious-ai/ (consultado a 29 de setembro de 2026)

Suleyman, M. (2025, 19 de agosto). We must build AI for people; not to be a person: Seemingly conscious AI is coming. https://mustafa-suleyman.ai/seemingly-conscious-ai-is-coming (consultado a 29 de setembro de 2026)

Para saber mais

The Mythology Of Conscious AI (Noema): o ensaio de Anil Seth, com as ilustrações e as ligações às fontes que cita.

Being You: página do livro de Seth (2021) sobre a ciência da consciência, onde desenvolve a ideia da perceção como alucinação controlada.

Taking AI Welfare Seriously (arXiv): o relatório de 2024 que pede que o bem-estar da IA seja levado a sério, para ler com o outro lado do debate.

Seemingly Conscious AI is Coming: o ensaio de Mustafa Suleyman sobre os riscos de sistemas que apenas parecem conscientes.

Prémio de Ensaio Berggruen 2025: a página do Instituto Berggruen com os vencedores desta edição.

Nove pensadores para levar para a sala de aula

A revista espanhola Ethic escolheu nove nomes para explicar o pensamento que hoje atravessa os debates sobre democracia, desigualdade, tecnologia e identidade. Lemos a lista com olhos de professor e fizemos uma pergunta simples: o que pode cada um destes autores fazer por uma turma do secundário, numa escola onde a inteligência artificial já entrou pela porta da frente?

Uma lista é sempre um ponto de vista

A Ethic publicou, a 17 de setembro, uma seleção de nove pensadores que, na leitura da autora, ajudaram a moldar muitas das políticas sociais e económicas das sociedades atuais: Noam Chomsky, Peter Singer, Martha Nussbaum, Slavoj Žižek, Michael Sandel, Judith Butler, Byung-Chul Han, Thomas Piketty e Yuval Noah Harari. O próprio texto começa por admitir que fechar um grupo destes é tarefa ingrata. Tem razão, e é precisamente por isso que vale a pena olhar primeiro para quem lá está.

Feitas as contas, são sete homens e duas mulheres. Quatro nasceram nos Estados Unidos. O mais velho, Chomsky, é de 1928; o mais novo, Harari, de 1976. Não há ninguém de África nem da América Latina, e o conjunto inclina-se de forma bastante clara para o campo progressista, sem vozes liberais ou conservadoras de peso. Nada disto invalida a escolha. Mas convém dizê-lo aos alunos logo no início, porque uma lista de «mais influentes» é um argumento, não um facto. Pedir a uma turma que proponha o décimo nome, e que o defenda perante os colegas, ensina mais sobre critérios, fontes e vieses do que decorar os nove.

Pensar a máquina: Chomsky e Harari

Para quem trabalha com tecnologia na escola, há dois nomes que saltam da página. Chomsky tornou-se incontornável na linguística com a ideia de que trazemos de nascença uma capacidade para a gramática, o que ajudaria a explicar a facilidade com que as crianças aprendem línguas complicadíssimas. A Ethic lembra, porém, que a fama pública lhe veio sobretudo de outro lado: da crítica feroz à política externa norte-americana e ao capitalismo neoliberal, e da defesa de democracias mais participativas, assentes em cidadãos capazes de pensar criticamente.

O artigo não o refere, mas interessa-nos muito: Chomsky levou a sua linguística para o debate sobre inteligência artificial. Em março de 2023, num ensaio de opinião no New York Times escrito com Ian Roberts e Jeffrey Watumull, defendeu que o ChatGPT e os seus pares nada têm de parecido com a mente humana. Seriam máquinas estatísticas que procuram padrões em quantidades gigantescas de dados, ao passo que a mente humana trabalha com pouca informação e procura explicações, não correlações. O texto foi muito contestado. O cientista da computação Scott Aaronson, por exemplo, respondeu-lhe no seu blogue em termos bastante duros. Pôr os dois textos lado a lado numa aula, no original ou resumidos pelo professor, dá uma conversa mais honesta sobre o que a IA faz, e não faz, do que qualquer tutorial de ferramentas.

Harari chega ao mesmo território por outro caminho. Historiador de formação, ficou conhecido com Sapiens e com a ideia de que a história serve, antes de mais, para compreender o presente. A Ethic destaca a sua tese de que o «dataísmo», a fé nos dados e no seu processamento, se tornou uma espécie de nova religião. Em Nexus (2024), Harari foi mais longe e percorreu a história das redes de informação desde a Idade da Pedra até à IA. A ideia central do livro, tal como a resume uma recensão publicada na revista AI & Society, é que mais informação não significa, por si só, mais verdade nem mais sabedoria, e que sistemas de IA cada vez mais autónomos podem distorcer a verdade e fragilizar as instituições democráticas. O autor não fecha a porta ao otimismo, mas pede regulação e responsabilidade coletiva.

Quem ensina literacia mediática reconhece aqui o seu próprio programa. A área de competências Informação e comunicação do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória ganha outra espessura quando os alunos percebem que a pergunta «isto é verdade?» é mais antiga do que a internet, e que a resposta nunca dependeu apenas da quantidade de informação disponível.

O silêncio, a atenção e o ecrã

Byung-Chul Han é, provavelmente, o filósofo desta lista que os professores mais citam sem o terem lido por inteiro. Os seus livros são curtos, os títulos colam-se ao ouvido (A sociedade do cansaço, A sociedade da transparência) e o diagnóstico parece escrito para a sala dos professores: vivemos numa cultura do rendimento em que cada um se explora a si próprio, e o excesso de informação, de comunicação e de produtividade acaba com o silêncio de que precisamos para observar e pensar. A Ethic cita-o a dizer que tudo grita e que a informação nos rouba o silêncio.

Em 2025, Han recebeu o Prémio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades. No discurso de Oviedo, segundo a imprensa que o cobriu, voltou ao tema do telemóvel: já não somos nós que usamos o smartphone, é ele que nos usa, e as redes sociais, em vez de nos aproximarem, isolam-nos e tornam-nos mais agressivos. Han não dá receitas, e seria um erro usá-lo como argumento de autoridade num regulamento interno. O que oferece é vocabulário. Palavras como «cansaço», «transparência» ou «ruído» ajudam os alunos a nomear aquilo que sentem quando passam a noite a deslizar o dedo pelo ecrã e chegam à escola exaustos. E dão sentido a coisas tão simples como dez minutos de leitura silenciosa no início da aula ou uma biblioteca onde, por uma vez, nada vibra.

Mérito, justiça e bem comum

Michael Sandel tornou-se conhecido com Justiça e com um curso em Harvard que faz dos dilemas morais um espetáculo de sala cheia. A Ethic destaca a sua defesa do bem comum como eixo da ética pública, mas é o livro de 2020, The Tyranny of Merit, que mais diz à escola. Sandel argumenta que a meritocracia gera arrogância em quem ganha e humilhação em quem perde, e que esquece o papel da sorte: a família em que se nasce, o bairro, a escola que se frequenta. Propõe, em alternativa, uma ideia de sucesso mais humilde e mais solidária, que devolva dignidade ao trabalho.

Isto toca num nervo sensível. Passamos a vida a dizer aos alunos que, se se esforçarem, conseguem. Sandel não manda deixar de o dizer. Obriga, isso sim, a acrescentar uma pergunta incómoda: quanto do teu resultado dependeu só de ti? Num debate de Cidadania e Desenvolvimento, ou numa aula de Filosofia, esta pergunta abre mais caminhos do que qualquer discurso motivacional. Vale a pena ouvir também os críticos de Sandel, que o acusam de desvalorizar a competência e as credenciais. O desacordo faz parte da aula.

Thomas Piketty responde ao mesmo problema com números. Para o economista francês, a forma como a riqueza se distribui não resulta de leis naturais da economia, mas de decisões políticas, leis e ideologias de cada época. Em O capital no século XXI defende que, sem intervenção do Estado, a desigualdade tende a crescer, porque o rendimento do capital cresce mais depressa do que a economia no seu conjunto (a célebre desigualdade r > g, que a Ethic descreve de forma um pouco solta). A Ethic sublinha um ponto que nos diz diretamente respeito: Piketty considera que o acesso de todos a uma educação e a uma saúde de qualidade está em risco quando a desigualdade dispara. Para as aulas de Economia, Geografia ou História, os seus gráficos são material de primeira para aprender a ler dados, a desconfiar deles e a discuti-los.

Florescer, e não apenas passar de ano

Se tivéssemos de escolher um só nome desta lista para a formação de professores, seria o de Martha Nussbaum. Com Amartya Sen, desenvolveu a abordagem das capacidades, que pergunta não quanto uma pessoa tem, mas o que é realmente capaz de fazer e de ser com a liberdade de que dispõe. A Ethic lembra que esta abordagem influenciou a forma como as Nações Unidas medem o desenvolvimento humano e vários programas de justiça social e de educação.

Em Not for Profit (2010), Nussbaum escreveu aquilo que muitos professores pensam e poucos conseguem argumentar tão bem. Quando a educação se põe ao serviço exclusivo do crescimento económico, perdem-se as humanidades e as artes, e com elas a capacidade de pensar criticamente, de compreender outras culturas e de imaginar a experiência de outra pessoa. Para Nussbaum, a literatura não é um luxo curricular; é uma condição da democracia. É difícil encontrar melhor argumento para defender o tempo de leitura, o clube de teatro ou a aula de Português que não se esgota na preparação para o exame.

Ética fora da zona de conforto

Os três nomes que faltam são, cada um à sua maneira, desconfortáveis. E ainda bem.

Peter Singer publicou Libertação animal em 1975 e mudou a forma como se discute o estatuto moral dos animais: o critério, defende, é a capacidade de sentir dor e sofrer. Herdeiro do utilitarismo de Bentham e de Mill, leva essa lógica até conclusões que muita gente rejeita, sobretudo em bioética. Precisamente por isso, é um parceiro ideal para a unidade de ética do 10.º ano de Filosofia, onde os alunos estudam Mill. Singer mostra como uma teoria clássica é usada hoje e onde pode conduzir, e obriga a turma a fazer o que as Aprendizagens Essenciais pedem: avaliar teses, argumentos e contra-argumentos, em vez de escolher o lado que soa melhor.

Judith Butler é, destes nove, a autora que mais divide a opinião pública. A sua tese de que o género é uma construção social e performativa, feita de atos e normas culturais que se repetem, está na origem da teoria queer e é hoje objeto de um debate aceso, dentro e fora da academia. Numa escola, o essencial é de método: distinguir entre explicar uma teoria e aderir a ela, conhecer os argumentos de quem a defende e de quem a critica, e respeitar a pluralidade de convicções de alunos e famílias. A Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania inclui a igualdade de género entre os seus domínios, e é nesse quadro que a discussão faz sentido.

Slavoj Žižek, por fim, é o filósofo pop da lista, conhecido por explicar Hegel e Lacan com cenas de filmes e anedotas. Para ele, a ideologia é o enquadramento invisível que nos faz aceitar como normal a realidade em que vivemos, e o capitalismo e a cultura de massas moldam o nosso pensamento sem que demos por isso. Traduzido para a escola, é um excelente ponto de partida para analisar anúncios, séries, videoclipes e memes: o que é que isto me está a pedir que ache normal?

E agora, na escola?

Não é preciso ler os nove de fio a pavio para tirar partido desta lista. Uma proposta possível é distribuir os pensadores por grupos e pedir a cada um que traga uma ideia central, um exemplo do quotidiano da turma e uma crítica séria feita por outro autor. Outra é pegar num dilema da vida escolar, seja o uso do telemóvel, a classificação dos trabalhos ou o recurso à IA nos trabalhos de casa, e discuti-lo à maneira de Sandel, com posições defendidas por argumentos e não por gritos.

E há uma terceira, que junta Chomsky e Harari no mesmo exercício. Peça-se a um assistente de IA que resuma o pensamento de um destes autores e compare-se o resultado com um texto do próprio. Onde acertou? O que simplificou? O que inventou? Poucas atividades ensinam tão bem que a fluência de uma resposta não prova a sua verdade.

No fundo, a lista da Ethic acaba por ser um bom pretexto para regressar a uma das áreas de competências do Perfil dos Alunos, a do pensamento crítico e criativo. Nenhum destes nove pensadores precisa de ser aceite. Todos merecem ser discutidos. E talvez seja esse o maior elogio que se pode fazer a um filósofo numa sala de aula.

Nota de transparência. Este artigo foi escrito com o apoio de uma ferramenta de inteligência artificial, a partir do artigo da revista Ethic indicado nas referências e de fontes complementares consultadas a 24 de setembro de 2026.

Referências

Aaronson, S. (2023, março). The false promise of Chomskyism. Shtetl-Optimized. https://scottaaronson.blog/?p=7094

Chomsky, N., Roberts, I., & Watumull, J. (2023, 8 de março). Noam Chomsky: The false promise of ChatGPT. The New York Times. https://www.nytimes.com/2023/03/08/opinion/noam-chomsky-chatgpt-ai.html

Despacho n.º 6478/2017, de 26 de julho. (2017). Diário da República. https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/despacho/6478-2017-107752620

Direção-Geral da Educação. (s.d.). Filosofia (CH): Aprendizagens essenciais. Consultado a 24 de setembro de 2026, em https://www.dge.mec.pt/filosofia-1

Fundación Princesa de Asturias. (2025). Byung-Chul Han: Premio Princesa de Asturias de Comunicación y Humanidades 2025. https://www.fpa.es/es/premios-princesa-de-asturias/premiados/2025-byung-chul-han/

Gómez-Cotta, C. (2026, 17 de setembro). Estos son algunos de los pensadores más influyentes en la actualidad. Ethic. https://ethic.es/pensadores-mas-influyentes/

Harari, Y. N. (2024). Nexus: A brief history of information networks from the Stone Age to AI. Random House.

Infobae. (2025, 24 de outubro). El filósofo Byung-Chul Han, al recoger su premio Princesa de Asturias: «Aunque creamos ser más libres que nunca, vivimos en un régimen que explota la libertad». Infobae. https://www.infobae.com/cultura/2025/10/24/el-filosofo-byung-chul-han-al-recoger-su-premio-princesa-de-asturias-aunque-creamos-ser-mas-libres-que-nunca-vivimos-en-un-regimen-que-explota-la-libertad/

Konch, M. (2026). Review of «Nexus: A brief history of information networks from the Stone Age to AI» by Yuval Noah Harari, Random House, 2024. AI & Society, 41, 1595–1598. https://doi.org/10.1007/s00146-025-02569-3

Nussbaum, M. C. (2010). Not for profit: Why democracy needs the humanities. Princeton University Press.

Sandel, M. J. (2020). The tyranny of merit: What’s become of the common good? Farrar, Straus and Giroux.

Para saber mais

Martha Nussbaum y la vulnerabilidad humana (Ethic): a noção de vulnerabilidade como ponto de partida para a justiça social.

Yuval Noah Harari en cinco ideas clave (Ethic): uma introdução rápida ao autor de Sapiens.

Diez ideas clave para entender a Noam Chomsky (Ethic): da linguística à crítica política.

Página oficial de Nexus: apresentação do livro e fontes indicadas pelo autor.

Not for Profit, na Princeton University Press: apresentação da obra de Nussbaum sobre educação e humanidades.

Byung-Chul Han na Fundação Princesa das Astúrias: ata do júri, discurso e trajetória.

Aprendizagens Essenciais de Filosofia (DGE): documentos curriculares do 10.º e 11.º anos.

Pensar dá trabalho: pensamento crítico na era da IA

Uma reportagem publicada esta semana na Nature reúne investigadores da psicologia cognitiva e da educação à volta de uma pergunta que muitos professores já fazem na sala de aula: se a inteligência artificial faz o esforço por nós, onde fica a aprendizagem? As respostas ainda estão incompletas. Mas há pistas sólidas sobre a forma como se ensina a pensar, e quase todas nos levam para o interior das disciplinas, para o desenho das tarefas e para muita prática.

No início deste ano, Lixiang Yan, investigador em educação que leciona na Universidade Tsinghua, em Pequim, estava a preparar um curso online com a ajuda de um agente de inteligência artificial, o Codex. A meio do trabalho percebeu uma coisa desconfortável. O agente conseguia fazer tudo o que o curso pedia aos estudantes: resolvia as tarefas, respondia às perguntas, participava nas discussões. Um estudante podia chegar ao fim da unidade curricular sem ter pensado seriamente, uma única vez, sobre a matéria. Yan concluiu que ensinar os alunos a raciocinar pela própria cabeça se tornou mais importante do que alguma vez foi.

O episódio abre a reportagem de Helen Pearson, «How to stay smart in the age of AI: the science of critical thinking», publicada na Nature a 23 de setembro. Passa-se numa universidade chinesa, mas quem dá aulas a uma turma de 9.º ano reconhece a cena sem grande esforço, só que com trabalhos de casa no lugar dos fóruns de discussão.

Apresentação |

Uma preocupação que já tem números

A inquietação dos professores está medida, pelo menos no ensino superior. Entre o final de outubro e o final de novembro de 2025, a American Association of Colleges and Universities e o Imagining the Digital Future Center, da Universidade Elon, inquiriram 1057 docentes universitários norte-americanos. Nove em cada dez disseram esperar que a IA generativa diminua a capacidade de pensamento crítico dos estudantes, e 95% anteciparam uma dependência excessiva destas ferramentas. Convém ler estes valores com o cuidado que os próprios autores pedem: trata-se de um inquérito não probabilístico, cujos resultados não podem ser generalizados a todos os docentes. Dizem-nos muito sobre o estado de espírito de quem ensina e pouco sobre o que está efetivamente a acontecer à cabeça dos alunos.

Do outro lado da secretária, o inquérito global de 2026 do Digital Education Council aponta para cerca de um em cada cinco estudantes do ensino superior que usam IA a admitir que já lhes custa mais resolver problemas sem ela. É uma perceção, não uma medição de competências. Mas é uma perceção dos próprios.

O psicólogo cognitivo Daniel Willingham, da Universidade da Virgínia, explica na reportagem por que razão a preocupação faz sentido. A aprendizagem é uma consequência do trabalho mental que fazemos sobre um conteúdo, e esse trabalho custa. Nas palavras dele, «o processamento cognitivo exige, em regra, esforço, e é isso que a IA elimina». Thomas Nygren, da Universidade de Uppsala, leva o argumento para a ciência: o risco é que os estudantes deleguem exatamente as atividades através das quais o pensamento científico se forma, como levantar hipóteses, interpretar dados, pesar explicações alternativas e aguentar a incerteza sem fugir para a primeira resposta disponível.

Uma palavra que todos usam e poucos definem

Helen Pearson conta que pediu a cinco pessoas uma definição de pensamento crítico e recebeu cinco respostas diferentes. Não é descuido de ninguém. A expressão circula sobretudo na linguagem educativa e no discurso comum; os investigadores que estudam a cognição preferem falar de processos mais delimitados, como a memória, o raciocínio, a tomada de decisão ou a resolução de problemas. Willingham descreve o pensamento crítico como uma espécie de termo guarda-chuva para as situações em que as pessoas pensam bem.

Há, ainda assim, algumas estratégias comuns. Uma das mais importantes é a capacidade de considerar possibilidades e perspetivas diferentes da nossa, como faz um cientista quando compara hipóteses concorrentes. Mas a reportagem sublinha a ideia que, para uma escola, talvez seja a mais relevante de todas: pensar criticamente exige conhecimento do domínio em causa. Ser capaz de o fazer numa área não garante que se consiga fazer noutra. Pearson recorda um estudo em que neurologistas se revelaram pouco competentes a diagnosticar casos de cardiologia. Transposto para a escola, o exemplo é simples. O aluno que confronta fontes com rigor em História pode não saber distinguir uma hipótese de uma conclusão em Físico-Química. Não lhe falta «pensamento crítico» em abstrato. Falta-lhe o conhecimento e o treino específicos daquela disciplina.

Fazer melhor não é o mesmo que aprender mais

A queixa de que os alunos não pensam o suficiente é antiga. Em 1983, o relatório da National Commission on Excellence in Education, nos Estados Unidos, já lamentava que muitos jovens de 17 anos não dominassem as capacidades intelectuais de ordem superior que se esperavam deles. Desde então, o pensamento crítico entrou nos currículos de quase todos os países da OCDE e passou a figurar entre as prioridades educativas da UNESCO, como lembra Stéphan Vincent-Lancrin, que dirigiu durante dez anos um programa da OCDE dedicado ao tema. Estar escrito no currículo, porém, nunca garantiu que se ensinasse bem. Willingham é pessimista: não há grandes motivos para pensar que o fazíamos de forma brilhante antes, e a IA veio pôr em causa até o pouco que se tinha conseguido.

O estudo mais citado sobre o assunto ajuda a perceber porquê. Hamsa Bastani e colegas acompanharam quase mil alunos do ensino secundário em aulas de Matemática e dividiram-nos em três grupos. Um trabalhou com uma interface semelhante ao ChatGPT; outro com um tutor baseado no mesmo modelo, mas configurado com orientações definidas por professores para dar pistas em vez de soluções; o terceiro não teve acesso a IA. Nas sessões de prática, os resultados foram claros: quem usou a versão comum melhorou 48% em relação ao grupo de controlo, e quem usou o tutor melhorou 127%. A surpresa veio no exame, feito sem qualquer apoio. Os alunos que tinham praticado com a versão comum tiveram resultados 17% abaixo dos que nunca tinham usado IA. No grupo do tutor, esse efeito negativo praticamente desapareceu. Os autores concluem que, sem salvaguardas, os alunos usaram a ferramenta como muleta e depois não conseguiram andar sozinhos.

Lixiang Yan e três colegas deram nome a este fenómeno num comentário publicado em 2025 na Nature Reviews Psychology: é preciso distinguir ganhos de desempenho de aprendizagem. Um trabalho melhor, entregue com ajuda da IA, pode não corresponder a nenhum progresso de quem o entregou. Na reportagem, Yan insiste que a tecnologia pode ajudar ou prejudicar e que tudo depende da forma como se estrutura a tarefa. Algumas investigações sugerem que a IA favorece a aprendizagem quando devolve feedback ou propõe desafios que obrigam a pensar, em vez de entregar respostas prontas.

O problema é que as pessoas, estudantes incluídos, preferem atalhos. Yan conta que pediu a um grupo de alunos que usasse uma ferramenta de IA desenhada para estimular o raciocínio. Alguns desligaram-na e foram fazer o mesmo trabalho ao ChatGPT. Qualquer professor que já tenha visto um aluno saltar as pistas de um manual para ir diretamente às soluções no fim do livro percebe o gesto. A diferença é que agora as soluções estão sempre abertas.

O que ainda não sabemos

Seria desonesto transformar estes dados numa sentença definitiva. A reportagem é clara quanto ao estado da investigação: as ferramentas são recentes e muito diversas, os estudos disponíveis apontam em sentidos contraditórios e há poucos trabalhos rigorosos e de longa duração. Ninguém sabe ainda, com segurança, que efeito a IA generativa está a ter no pensamento dos jovens ao fim de três ou cinco anos de uso quotidiano.

Há quem esteja a tentar descobrir. Em junho, a Education Endowment Foundation, organismo britânico de referência na investigação educativa, abriu um concurso de até 2,5 milhões de libras para estudos rigorosos sobre o impacto da IA generativa na aprendizagem, na compreensão, na memória e na resolução de problemas. O foco está naquilo a que os investigadores chamam descarga cognitiva, isto é, o momento em que o aluno entrega à máquina tarefas como recordar, planear, raciocinar ou redigir. Os estudos concentram-se em alunos dos 13 aos 15 anos, em Inglaterra, e deverão arrancar em novembro. Willingham acha bem que se faça, mas não esconde a previsão: a erosão vai demorar a tornar-se visível e parece-lhe difícil de evitar.

Entre o alarme e a desvalorização, a posição mais sensata para uma escola talvez seja a de quem trabalha com dados incompletos: agir com base no que já se sabe sobre como se aprende e manter a atenção no que a investigação for mostrando.

Ensina-se dentro das disciplinas, ou não se ensina

É na parte sobre o ensino que a reportagem se torna mais útil para quem está numa escola. O psicólogo educacional Paul Kirschner, da Open University dos Países Baixos, é taxativo: o pensamento crítico não é uma capacidade genérica que paire acima das matérias. Tem de ser ensinado dentro de cada disciplina, com os conhecimentos e os modos de raciocínio próprios de cada uma. Em História, pensar criticamente pode significar confrontar documentos e vestígios materiais para perceber o que é fiável. Em Ciências, pode significar compreender a relação entre teoria, hipótese, método e evidência.

Há uma segunda dificuldade, bem conhecida de quem ensina. Muitas estratégias de raciocínio aprendem-se em abstrato e depois não são reconhecidas quando aparecem no mundo real. Um aluno pode estudar na aula a diferença entre correlação e causalidade e, na semana seguinte, aceitar sem hesitar uma notícia que confunde as duas. Por isso, Willingham recomenda que os professores identifiquem as capacidades de raciocínio mais importantes na sua área, as integrem explicitamente no currículo e garantam muita prática, com problemas de tipos variados. Kirschner acrescenta a coerência: o pensamento crítico constrói-se com um currículo que vá acumulando conhecimento e capacidades ao longo dos anos e através das diferentes disciplinas, e não com atividades avulsas.

A OCDE levou esta preocupação para o terreno. O projeto dirigido por Vincent-Lancrin trabalhou com redes de escolas e professores de 11 países (cerca de 800 docentes, segundo a Nature) para desenvolver e testar rubricas e planos de aula sobre criatividade e pensamento crítico em várias disciplinas, que estão disponíveis como recursos educativos abertos. Um dos exemplos referidos na reportagem é o de uma sequência em que os alunos investigam as causas da diabetes tipo 2 e vão revendo as suas ideias à medida que conhecem novas perspetivas, como o peso da genética e o do ambiente. O próprio Vincent-Lancrin reconhece, no entanto, que ainda há pouca evidência rigorosa sobre o que funciona melhor. Uma das razões é que o pensamento crítico é muito mais difícil de medir de forma padronizada do que a leitura ou a matemática. A OCDE está agora a desenvolver, com a empresa londrina Macat, uma prova padronizada para alunos do secundário e estudantes universitários.

E na segunda-feira, na nossa escola?

Em Portugal, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória inclui o pensamento crítico e o pensamento criativo entre as suas áreas de competências e afirma que cada área curricular contribui para todas elas. A ideia está certa e coincide com o que Kirschner defende. O risco é que aquilo que é de todas as disciplinas acabe por não ser ensinado explicitamente em nenhuma. Já aqui escrevemos, a propósito da escola da resposta certa, que a ambição está no referencial e que cabe às práticas dar-lhe condições. A investigação reunida pela Nature ajuda a concretizar essas condições.

Um primeiro passo, ao alcance de qualquer departamento, é responder por escrito a uma pergunta simples: que dois ou três movimentos de raciocínio são indispensáveis na nossa disciplina? Em Português, sustentar uma interpretação em marcas concretas do texto. Em História, perguntar quem produziu uma fonte, quando e com que intenção. Em Matemática, justificar cada passo em vez de apresentar só o resultado. Em Ciências Naturais, separar o que se observou do que se concluiu. Depois de nomeados, esses movimentos podem entrar nas planificações e nos critérios de avaliação, e ser trabalhados de forma deliberada, com exemplos variados e em contextos que os alunos reconheçam, incluindo títulos de jornal e publicações que circulam nas redes sociais.

O segundo passo diz respeito ao uso da IA, e aqui o estudo de Bastani é particularmente instrutivo. Não basta decidir se a IA entra ou não na sala. Importa decidir como entra. Uma ferramenta que dá soluções melhora a ficha de hoje e piora o teste de amanhã; uma ferramenta orientada para dar pistas, fazer perguntas e devolver o problema ao aluno pode ajudar a praticar sem roubar o esforço. Com os assistentes comuns, isso passa muitas vezes por ensinar os alunos a pedir ajuda de outra forma («não me dês a resposta, faz-me uma pergunta que me ajude a avançar») e, sobretudo, por prever momentos em que mostram, sem apoio, o que conseguem fazer sozinhos. Uma explicação oral de dois minutos sobre o raciocínio seguido diz muito mais sobre a aprendizagem do que um texto impecável.

O terceiro passo é de escola, e não apenas de cada professor. Se o pensamento crítico se constrói ao longo dos anos, faz sentido que o conselho pedagógico e os departamentos combinem uma progressão: o que se espera no 5.º ano, no 7.º, no 10.º, e como cada disciplina contribui. A avaliação da informação é um bom ponto de partida, porque atravessa todas as áreas e tem investigação sólida por trás. A revisão de Sarah McGrew sobre a leitura lateral, a estratégia dos verificadores de factos que consiste em sair de uma página desconhecida para procurar o que outras fontes dizem sobre ela, mostra que o ensino explícito dessa estratégia melhora a capacidade de avaliação, desde o 1.º ciclo até à idade adulta. A biblioteca escolar, pela natureza do seu trabalho com todas as turmas e todas as disciplinas, é uma aliada natural para dar continuidade a este tipo de aprendizagem, como discutimos a propósito das respostas que nos chegam já escolhidas por máquinas.

Nada disto elimina a tentação do atalho que Yan observou nos seus alunos. Nenhuma regra o fará. O que a escola pode fazer é desenhar tarefas em que o atalho compense pouco: tarefas que pedem o percurso, a justificação, a comparação de versões, a explicação em voz alta. E pode, sobretudo, dizer aos alunos com franqueza por que razão lhes pede esse esforço.

O esforço que vale a pena guardar

Volto a Lixiang Yan e ao curso que um agente de IA conseguia completar sozinho. A experiência não prova que a tecnologia esteja a tornar os estudantes menos inteligentes. Prova uma coisa mais simples e mais incómoda: uma tarefa que uma máquina consegue cumprir do princípio ao fim sem que o aluno pense pode ser concluída sem que ele aprenda. A resposta mais útil não está em competir com a IA na produção de respostas, nem em fingir que ela não existe. Está em proteger, dentro de cada disciplina, o tipo de esforço que nenhuma ferramenta pode fazer por nós se quisermos ficar a saber alguma coisa. Pensar dá trabalho. É nesse trabalho que se aprende.


Nota de transparência. Este artigo foi preparado com o apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic) na pesquisa, na verificação de dados e na redação, com revisão editorial humana.

Referências

Bastani, H., Bastani, O., Sungu, A., Ge, H., Kabakcı, Ö., & Mariman, R. (2025). Generative AI without guardrails can harm learning: Evidence from high school mathematics. Proceedings of the National Academy of Sciences, 122(26), Artigo e2422633122. https://doi.org/10.1073/pnas.2422633122

Digital Education Council. (2026). AI in higher education global survey 2026. Recuperado a 24 de setembro de 2026, de https://www.digitaleducationcouncil.com/resource-library-items/ai-in-higher-education-global-survey-2026

Education Endowment Foundation. (2026, 8 de junho). New landmark programme of research to investigate the impact of generative AI on learning and cognition. Recuperado a 24 de setembro de 2026, de https://educationendowmentfoundation.org.uk/news/new-research-generative-ai-on-cognition

Martins, G. d’O. (Coord.). (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. Ministério da Educação/Direção-Geral da Educação. Recuperado a 24 de setembro de 2026, de https://dge.mec.pt/sites/default/files/Curriculo/Projeto_Autonomia_e_Flexibilidade/perfil_dos_alunos.pdf

McGrew, S. (2024). Teaching lateral reading: Interventions to help people read like fact checkers. Current Opinion in Psychology, 55, Artigo 101737. https://doi.org/10.1016/j.copsyc.2023.101737

Pearson, H. (2026). How to stay smart in the age of AI: The science of critical thinking. Nature, 657(8133), 873–875. https://doi.org/10.1038/d41586-026-02930-6

Vincent-Lancrin, S., González-Sancho, C., Bouckaert, M., de Luca, F., Fernández-Barrerra, M., Jacotin, G., Urgel, J., & Vidal, Q. (2019). Fostering students’ creativity and critical thinking: What it means in school. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/62212c37-en

Watson, C. E., & Rainie, L. (2026). The AI challenge: How college faculty assess the present and future of higher education in the age of AI. American Association of Colleges and Universities; Elon University, Imagining the Digital Future Center. Recuperado a 24 de setembro de 2026, de https://www.aacu.org/research/the-ai-challenge

Yan, L., Greiff, S., Lodge, J. M., & Gašević, D. (2025). Distinguishing performance gains from learning when using generative AI. Nature Reviews Psychology, 4(7), 435–436. https://doi.org/10.1038/s44159-025-00467-5

Para saber mais

How to stay smart in the age of AI: the science of critical thinking, a reportagem da Nature que está na origem deste artigo.

In praise of human teachers: universities must resist outsourcing everything to AI, o editorial da Nature publicado no mesmo dia, sobre o lugar insubstituível do professor.

Is AI ruining our skills? Early results are in, um balanço anterior da Nature sobre os primeiros estudos acerca da perda de competências.

Fostering Students’ Creativity and Critical Thinking, a publicação da OCDE com as rubricas e as lições do projeto internacional, um bom ponto de partida para um trabalho de departamento.

The impact of generative AI on learner cognition, a página do concurso da Education Endowment Foundation, para acompanhar os estudos que aí vêm.

A escola da resposta certa: que espaço sobra para pensar?, aqui no blogue, sobre critérios de avaliação que deixam lugar ao raciocínio próprio.

A escola da resposta certa: que espaço sobra para pensar?

Uma escola que valoriza o pensamento crítico precisa de lhe dar espaço nas aulas e na avaliação. A reflexão da Ethic sobre a «cultura da sanduíche» convida-nos a olhar para aquilo que ensinamos os alunos a fazer para terem sucesso.

«É para dar a nossa opinião ou a que está no livro?»

Imaginemos esta pergunta numa sala de aula. Antes de a interpretar como preguiça ou provocação, vale a pena escutá-la. O aluno está a tentar perceber as condições do trabalho: até onde pode ir, que argumentos serão aceites, quanto lhe pode custar afastar-se do exemplo.

A resposta do professor tem consequências. E a forma como esse trabalho será avaliado terá ainda mais.

No artigo «La cultura del sándwich: cuando la mediocridad se convierte en sistema», publicado na Ethic, Antonio Guerrero Ruiz recorre à sanduíche mista como imagem de uma oferta cultural previsível. A partir do conceito de mediocracia de Alain Deneault, interroga organizações que favorecem a adaptação às suas regras e tornam mais difícil o reconhecimento de propostas independentes.

O texto centra-se no mundo da cultura. A leitura que aqui propomos leva essa inquietação para outro lugar: as decisões quotidianas através das quais a escola ensina os alunos a participar, a argumentar e a aprender.

O que conta numa boa resposta?

Um professor apresenta uma tarefa, explica os objetivos e mostra um exemplo. Esse apoio pode ser indispensável, sobretudo para quem tem dificuldade em começar. Mas convém esclarecer o estatuto do exemplo: serve para perceber o trabalho ou deve ser reproduzido?

Pensemos numa apresentação sobre o consumo de água. Um grupo segue a estrutura sugerida e reúne informação correta. Outro decide analisar os consumos da escola, encontra lacunas nos registos e termina com conclusões provisórias. Como avaliar os dois trabalhos?

O segundo não merece uma classificação superior apenas por ter escolhido um caminho diferente. Precisamos de examinar a qualidade dos dados, os conhecimentos mobilizados e a prudência das conclusões. Também precisamos de evitar que a distância em relação ao modelo seja, por si só, uma penalização.

Os critérios devem tornar reconhecível a qualidade de percursos diferentes. Para isso, têm de dizer mais sobre o que se aprende do que sobre o aspeto que o produto final deve ter.

Dar trabalho ao pensamento crítico

O Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória inclui o pensamento crítico e o pensamento criativo entre as áreas de competências a desenvolver. A ambição está inscrita no referencial. Cabe às práticas dar-lhe condições.

Uma possibilidade simples consiste em pedir aos alunos que identifiquem uma fragilidade no próprio trabalho. Que fonte lhes merece menos confiança? Que informação poderia alterar a conclusão? Que parte do argumento exige mais investigação?

Estas perguntas ajudam a tornar a reflexão observável. Permitem ainda distinguir a segurança com que alguém apresenta uma ideia da qualidade das razões que a sustentam.

Há aqui uma aprendizagem exigente: reconhecer uma dúvida sem desistir de procurar uma resposta. O professor pode acompanhá-la com perguntas, exemplos e correções. Pensar com autonomia também se ensina.

Avaliar o caminho, além da entrega

Se queremos compreender o que um aluno aprendeu, o trabalho entregue pode precisar de companhia: um rascunho comentado, uma breve conversa, o registo de uma decisão ou uma segunda versão.

Não é necessário transformar cada atividade num dossier. Numa tarefa de escrita, por exemplo, pode bastar pedir dois parágrafos revistos e uma explicação das alterações. Numa pesquisa, justificar a escolha de duas fontes. Num problema, apresentar a tentativa que falhou e localizar o erro.

Assim, a avaliação ganha elementos para reconhecer o progresso. Um aluno que começa com dificuldades pode mostrar uma aprendizagem importante, mesmo que o resultado ainda tenha imperfeições.

Esta atenção ao percurso exige escolhas realistas. Com turmas numerosas, será mais viável aplicá-la a algumas tarefas bem selecionadas do que acrescentar registos a tudo o que já se faz.

Clicar na imagem para ver a apresentação…

O digital precisa de intenção pedagógica

Na escolha de uma ferramenta digital, vale a pena começar pela aprendizagem que se pretende observar. Um questionário pode ajudar a verificar conhecimentos; um documento partilhado pode permitir discutir e rever argumentos. A utilidade depende da tarefa e do acompanhamento.

O mesmo cuidado deve orientar propostas que admitam inteligência artificial. Podemos pedir ao aluno que verifique uma afirmação produzida pela ferramenta, encontre a fonte que a confirma ou contesta e explique a decisão de a manter ou eliminar.

O interesse pedagógico está nesse trabalho de verificação. Um texto fluente, por si só, oferece pouca informação sobre aquilo que o aluno compreendeu.

Antes de avaliar a qualidade da apresentação, precisamos de saber que decisões o aluno consegue explicar.

Condições para ensinar melhor

Também os professores precisam de oportunidades para examinar o próprio trabalho. Uma reunião pedagógica pode reservar tempo para discutir uma dificuldade concreta: uma tarefa que não resultou, um critério que gerou dúvidas, uma estratégia que ajudou alguns alunos e deixou outros para trás.

Para essa conversa ser útil, é preciso conseguir mostrar uma experiência incompleta sem receio de que ela seja tomada como retrato de toda a competência profissional. Partilhar dificuldades deve permitir encontrar apoio e melhorar decisões.

Não se resolve isto exigindo criatividade permanente a quem já tem pouco tempo. Pode começar-se por rever uma tarefa em conjunto, simplificar um registo ou experimentar uma alteração pequena e observar o que acontece.

Na próxima vez que um aluno perguntar se pode responder de outra maneira, temos uma oportunidade concreta. Podemos pedir-lhe que explique o caminho que pretende seguir, ajudá-lo a perceber as exigências e combinar como será avaliado.

Talvez a sua proposta precise de ser corrigida. Talvez nos obrigue a rever a nossa. A aula terá espaço para ambas as aprendizagens.

***

Nota de transparência: este artigo foi elaborado com o apoio de inteligência artificial (ChatGPT, da OpenAI).

A democracia também se aprende: ensinar a discordar antes que reste apenas o ruído

O consenso democrático não nasce do silêncio nem da unanimidade. Nasce do confronto entre ideias diferentes, conduzido com argumentos, respeito e vontade de preservar um espaço comum. Uma conversa entre Felipe González e Sergio del Molino deixa à escola uma pergunta urgente: estamos a ensinar os alunos a discordar?

Há frases que parecem contraditórias até começarmos a olhar para elas com atenção. «Só pode haver consenso se houver confronto» é uma dessas frases.

Foi pronunciada por Felipe González numa conversa com o escritor Sergio del Molino, durante a celebração dos 15 anos da revista Ethic, e dá título ao artigo que recupera os principais momentos do encontro. À primeira vista, confronto e consenso parecem pertencer a campos opostos. Um separa; o outro aproxima. Um acentua diferenças; o outro procura um terreno comum. Mas é precisamente aí que reside o essencial: só existe um consenso verdadeiro quando havia diferenças reais para ultrapassar.

Se todos pensam o mesmo, não houve consenso. Houve unanimidade, conformismo ou silêncio. E, por vezes, houve apenas alguém que não se sentiu suficientemente seguro para falar.

O consenso não é o princípio da conversa

Sergio del Molino começa por desmontar uma imagem confortável da Transição espanhola: a ideia de que a democracia chegou através de uma sucessão quase natural de concessões cordiais, protagonizadas por dirigentes que rapidamente descobriram estar de acordo. A realidade, recorda, foi muito mais difícil. Havia medo, violência política, memórias ainda vivas da Guerra Civil e posições ideológicas profundamente afastadas.

O entendimento não nasceu da ausência de conflito. Nasceu da capacidade de lhe dar uma forma política.

Essa distinção é decisiva. Uma democracia não elimina o conflito entre interesses, valores e projetos de sociedade. Cria regras para que esse conflito possa ser expresso sem destruir a possibilidade de continuarmos a viver juntos. O adversário não deixa de ser adversário; deixa, isso sim, de ser tratado como inimigo a abater.

É essa a lição mais fértil da conversa. Não se trata de transformar a Transição espanhola num tempo perfeito, nem de transportar mecanicamente as soluções de uma época para outra. Trata-se de perceber um método: defender convicções com clareza, aceitar a legitimidade de quem pensa de outro modo e reconhecer que nenhum projeto coletivo se constrói sem cedências recíprocas.

O consenso, portanto, não é o ponto de partida. É uma chegada possível — e nunca garantida.

Quando cresce a acrimónia e diminui o conteúdo

Num dos momentos mais certeiros do diálogo, Felipe González estabelece um contraste entre a dureza dos debates políticos de outros tempos e a agressividade que hoje invade grande parte da discussão pública. Antes, argumenta, podia haver confronto intenso sem que a palavra perdesse inteiramente o seu valor. Agora, multiplicam-se o grito e o insulto, ao mesmo tempo que escasseiam as ideias que valha a pena discutir.

Não é difícil reconhecer este ambiente. Encontramo-lo nos debates políticos, nas caixas de comentários, nos grupos de mensagens e em muitas conversas que começam por um desacordo e acabam numa avaliação moral da pessoa que ousou discordar. Já não se responde ao argumento: classifica-se o interlocutor. Já não se pergunta se uma afirmação é verdadeira: procura-se saber de que lado veio.

As plataformas digitais não inventaram esta tendência, mas deram-lhe velocidade, alcance e permanência. A comunicação breve favorece muitas vezes a reação antes da reflexão; a procura de visibilidade recompensa o que provoca; e uma frase retirada do contexto circula mais depressa do que a explicação paciente que lhe poderia devolver sentido. É por isso que a literacia mediática e informacional não pode limitar-se a ensinar a identificar notícias falsas. Precisa também de ensinar a reconhecer estratégias retóricas, verificar fontes, compreender contextos e interromper o impulso de partilhar antes de pensar.

Com a inteligência artificial generativa, o problema ganha uma nova camada. Nunca foi tão fácil produzir, em segundos, um texto aparentemente seguro, coerente e convincente. Mas um argumento bem escrito pode continuar a ser frágil, falso ou intelectualmente desonesto. A fluência não substitui a prova. A escola terá de ensinar os alunos a perguntar não apenas «isto está bem escrito?», mas também «em que se baseia?», «o que ficou de fora?», «que outra interpretação é possível?» e «consigo defender esta posição por palavras minhas?».

Clicar na imagem para ver a apresentação…

A sala de aula é um dos primeiros espaços públicos

A pergunta que a conversa deixa à escola é simples e desconfortável: ensinamos verdadeiramente os alunos a discordar?

Pedimos-lhes muitas vezes que participem, mas nem sempre lhes ensinamos como se participa. Organizamos debates, mas podemos acabar por valorizar sobretudo quem fala com maior rapidez ou confiança. Propomos trabalhos de grupo, mas confundimos cooperação com concordância. Incentivamos a expressão de opiniões, embora nem sempre exijamos razões, provas ou disponibilidade para rever o que se pensa.

Discordar democraticamente é uma competência exigente. Implica saber ouvir até ao fim; distinguir uma pessoa das ideias que apresenta; reformular com honestidade o argumento do outro; procurar evidências; reconhecer limites no próprio raciocínio; mudar de posição sem sentir que se perdeu; e aceitar que, por vezes, não haverá acordo.

Nada disto nasce espontaneamente. Aprende-se pela prática.

O Referencial de Competências para a Cultura Democrática do Conselho da Europa ajuda a perceber essa complexidade ao articular valores, atitudes, capacidades, conhecimento e compreensão crítica. Entre as competências necessárias estão o respeito, a abertura a diferentes perspetivas, a tolerância da ambiguidade, a escuta, a cooperação e a resolução de conflitos. Não são adornos do currículo. São condições para que o conhecimento possa ser usado numa sociedade plural.

Também o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória coloca o pensamento crítico, o relacionamento interpessoal, a autonomia e a participação entre os princípios e competências que devem orientar a educação em Portugal. O desafio está em transformar essas palavras em experiências concretas.

Uma turma pode ser um pequeno laboratório democrático quando os alunos:

  • defendem posições diferentes a partir das mesmas fontes;
  • aprendem a formular uma objeção sem atacar quem falou;
  • identificam o ponto mais forte do argumento contrário;
  • distinguem factos, interpretações e opiniões;
  • negoceiam critérios para tomar uma decisão coletiva;
  • verificam uma resposta produzida por inteligência artificial;
  • explicam por que razão mudaram — ou mantiveram — a sua posição;
  • refletem sobre quem falou, quem foi ouvido e quem ficou de fora.

Nestas atividades, o professor não é um espectador neutro. É o garante das regras, da qualidade da evidência e da dignidade de todos os participantes. Não lhe cabe fabricar consensos, mas criar as condições para que o desacordo seja intelectualmente sério e humanamente seguro.

Conhecer as regras do espaço comum

Durante a conversa, Felipe González retira do bolso um exemplar da Constituição espanhola, que diz levar habitualmente consigo. O gesto vale mais do que a curiosidade cénica. Recorda que o conflito democrático só é possível dentro de um quadro partilhado: direitos, deveres, limites ao poder e procedimentos reconhecidos por todos.

Também aqui a escola tem trabalho a fazer. Muitos jovens atravessam a escolaridade conhecendo fórmulas sobre democracia, mas com pouca experiência de deliberação, representação ou responsabilidade coletiva. Sabem que podem votar, mas talvez nunca tenham discutido seriamente como se constrói uma decisão justa. Ouvem falar de liberdade de expressão, mas podem não ter pensado nos deveres que acompanham o uso público da palavra.

A educação para a cidadania perde força quando aparece apenas em dias comemorativos, campanhas pontuais ou definições para memorizar. Ganha sentido quando atravessa a vida escolar: na assembleia de turma, no conselho de alunos, na escolha de um projeto, na análise de uma controvérsia, na gestão de um conflito ou na decisão sobre regras que afetam o grupo.

Uma escola democrática não é aquela onde todos decidem tudo. É aquela onde as decisões são compreensíveis, a autoridade presta contas, a participação tem consequências e cada pessoa aprende que pertencer a uma comunidade implica direitos, limites e responsabilidades.

Uma obra que nunca fica concluída

Perto do final do encontro, surge outra ideia que merece ser trazida para a educação: «A política é sempre uma obra inacabada.» Também a democracia o é. Não fica definitivamente conquistada por ter eleições, uma Constituição ou várias décadas de história. Precisa de ser praticada, transmitida e renovada por cada geração.

Talvez um dos riscos do presente seja termos passado a considerar certas conquistas como parte natural da paisagem. A liberdade de discordar, a possibilidade de substituir quem governa, o direito de participar e a proteção das minorias parecem sólidas enquanto existem. Só percebemos plenamente o seu valor quando começam a enfraquecer.

Por isso, a educação democrática não pode consistir em ensinar os alunos a pensar da mesma maneira. Tem de os preparar para viver entre pessoas que não pensam como eles — sem medo da diferença, sem submissão e sem transformar qualquer divergência numa guerra de identidades.

A frase de Felipe González não é, então, um elogio da hostilidade. É quase o contrário. Lembra-nos que o consenso só merece esse nome quando preserva a liberdade de confrontar ideias. E que a paz democrática não é silêncio: é desacordo com regras, palavra com responsabilidade e compromisso com um mundo comum.

Num tempo em que tantas vozes disputam a atenção e tão poucas parecem dispostas a escutar, esta pode ser uma das tarefas mais urgentes da escola: ensinar a falar com clareza, a ouvir sem medo e a discordar sem destruir.

Porque a democracia começa muito antes do voto. Começa na forma como respondemos a alguém que nos diz: «Não concordo.»


Fontes de partida: