Edgar Morin (1921–2026): o pensador que nos ensinou a ligar o que está separado

“É preciso aprender a navegar num oceano de incertezas no meio de arquipélagos de certeza.” — Edgar Morin

A 29 de maio de 2026, ao pôr do sol sobre Paris, morreu Edgar Morin. Tinha 104 anos e faltavam 40 dias para completar os 105. Nas palavras do seu colaborador próximo Nelson Vallejo Gomez, publicadas no Instagram ainda nessa tarde, “o espírito brilhante do amado sábio da Poética da Civilidade tornou-se pura energia.” Emmanuel Macron saudou-o no mesmo dia como “humanismo personificado”.

É difícil encaixar Edgar Morin numa única categoria. Sociólogo de formação, ele recusava qualquer rótulo disciplinar — preferia definir-se como “humanólogo”. Ao longo de mais de sete décadas de trabalho intelectual, cruzou a filosofia, a antropologia, a epistemologia, os estudos de comunicação e a ecologia, sem nunca se fixar em nenhum campo. Era precisamente esse recusar das fronteiras o núcleo do seu projeto de vida.


Uma vida forjada na ruptura

Edgar Morin nasceu Edgar Nahoum, a 8 de julho de 1921, em Paris, numa família judia de origem sefardita proveniente de Tessalónica. Perdeu a mãe aos 10 anos — acontecimento que marcaria, segundo ele próprio, a sua perceção da fragilidade da existência.

Durante a Segunda Guerra Mundial, integrou a Resistência Francesa contra a ocupação nazi e aderiu ao Partido Comunista Francês, adotando nessa altura o pseudónimo Morin, que viria a ser o nome pelo qual o mundo inteiro o conheceria. Em 1951, foi expulso do partido pela sua oposição ao estalinismo — uma ruptura que revelou cedo a sua recusa de qualquer dogmatismo, mesmo dentro das causas em que acreditava.

Fez duas licenciaturas na Universidade de Paris — em História e Geografia e em Direito — mas nunca realizou um doutoramento. O seu percurso académico formal foi deliberadamente incompleto: a formação real fez-se no cruzamento das disciplinas, não na especialização. Em 1950, ingressou no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), onde permaneceria como Diretor Emérito de Investigação até ao fim da vida.


O Pensamento Complexo: uma proposta para o mundo real

O contributo mais duradouro de Morin chama-se Pensamento Complexo. Não é um sistema fechado nem uma doutrina — é antes uma postura epistemológica: a recusa de fragmentar a realidade para a compreender.

A palavra complexus significa, em latim, “o que está tecido junto”. Morin partia daí para criticar o que chamava o paradigma da simplificação: a tendência da ciência moderna para isolar, separar e especializar o conhecimento, produzindo uma “inteligência cega” incapaz de enfrentar os grandes problemas do mundo — que são, por natureza, multidimensionais e interdependentes.

Em lugar disso, propunha três princípios orientadores:

  • Dialógico — a realidade é produzida pela coexistência de lógicas contraditórias; a ordem e a desordem não se excluem, cooperam.
  • Recursão organizacional — os efeitos retroagem sobre as causas; a sociedade produz os indivíduos que a produzem.
  • Hologramático — o todo está inscrito nas partes; cada elemento contém informação sobre o sistema de que faz parte.

Estes princípios não são abstrações académicas. São instrumentos para pensar a crise climática, as pandemias, a desinformação, a inteligência artificial — todos os problemas que resistem às respostas disciplinares convencionais.


A obra: O Método e muito mais

A obra central de Morin é “La Méthode” (O Método), composta por seis volumes escritos ao longo de quase três décadas, de 1977 a 2004. Uma tentativa ambiciosa de refundar o modo como os seres humanos organizam o conhecimento — da natureza física à ética, passando pela vida, pelas ideias e pela condição humana.

Mas a obra de Morin é muito mais vasta. Entre os títulos mais influentes:

  • “Introdução ao Pensamento Complexo” (1990) — o ponto de entrada mais acessível ao seu universo filosófico
  • “A Cabeça Bem-Feita” (1999) — a distinção entre uma cabeça “bem-cheia” de informação e uma cabeça capaz de articular, questionar e contextualizar o saber
  • “Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” (1999) — escrito a convite da UNESCO, propõe uma reforma profunda da educação centrada no pensamento crítico, na condição humana e na cidadania planetária
  • “Ciência com Consciência” (1982) — sobre a responsabilidade ética do conhecimento científico
  • “Lições de um Século de Vida” (2021) — publicado no centenário, um testamento intelectual sobre o amor, a política, a morte e a esperança

Morin e a educação: uma proposta que não envelhece

O impacto de Morin na educação é provavelmente o seu legado mais imediato. A sua tese central é simples e radical ao mesmo tempo: ensinar conteúdos fragmentados não prepara ninguém para compreender um mundo interligado. É preciso primeiro aprender a pensar — e isso significa aprender a ligar o que está separado, a reconhecer a incerteza, a compreender o contexto.

A distinção entre uma “cabeça bem-cheia” e uma “cabeça bem-feita” continua a ser um dos diagnósticos mais certeiros sobre o que falha nos sistemas de ensino. Não é uma questão de quantidade de informação — é uma questão de como se organiza e se questiona o que se sabe.

Os seus Sete Saberes continuam a orientar debates sobre currículo e formação em todo o mundo. O núcleo da proposta — que qualquer ato educativo digno desse nome deve incluir o ensino da condição humana, da incerteza, da compreensão empática e da ética planetária — é mais atual do que nunca num tempo de desinformação e polarização.


Um século de presença e de palavra

Morin manteve-se ativo até muito perto do fim. Tinha 220 000 seguidores no X, onde comentava ondas de calor, guerras e crises democráticas com a mesma lucidez das décadas anteriores. Publicou o último livro em 2025. Quando completou 100 anos, em 2021, foi jantar com o Presidente Macron.

Morreu a receber cuidados paliativos, após uma dupla infeção, no Hospital Americano de Paris. A sua mulher, Sabah Abouessalam Morin, confirmou a morte ao jornal Le Monde.

Faltavam 40 dias para os 105 anos.


O que fica

A melhor síntese do projeto de Morin não está numa teoria — está numa frase que repetiu de muitas formas ao longo da vida:

“O que me parece necessário, hoje, é desenvolver nas crianças a aptidão para identificar e para tratar os problemas complexos, cultivar o pensamento que pode reformar-se ao confrontar-se com o real, o pensamento que pode ligar o que está separado e procurar sempre compreender o contexto, o global e o multidimensional.”

Ligar o que está separado. Num tempo em que tudo parece fragmentado — os saberes, as comunidades, os discursos — este imperativo não é apenas pedagógico. É político e ético.

Edgar Morin viveu 104 anos a tentar demonstrá-lo. O trabalho continua.


Publicado em TIC, Educação e WEB | Maio de 2026 Fontes: AFP/Times of Israel (30 maio 2026); CNN Portugal (30 maio 2026); Brasil 247 (29 maio 2026); Wikipedia EN — Edgar Morin; CNRS/Institut des sciences de la communication.

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