Aos cinco anos, o jogo já está a começar — e nem todos partem do mesmo lugar | OCDE

O que revela o maior estudo internacional sobre aprendizagem na primeira infância (e o que isso muda para quem ensina)

Download |

Há uma ideia que se repete com frequência nos discursos sobre educação: «tudo começa cedo». É uma dessas frases que toda a gente aceita, mas que raramente se traduz em mudanças concretas dentro das escolas ou nas políticas que as sustentam. Pois bem, a OCDE acaba de publicar um estudo que transforma essa intuição em evidência — e os resultados merecem atenção séria de quem trabalha em educação.

O relatório Building Strong Foundations for Life: Results from the 2025 Early Learning and Child Well-being Study (OCDE, 2026) apresenta os resultados do segundo ciclo do IELS (International Early Learning and Child Well-being Study), o maior inquérito internacional dedicado a avaliar o desenvolvimento de crianças com cinco anos. Mais de 23 000 crianças de oito jurisdições participaram nesta edição, desde a Inglaterra ao Brasil, da Coreia do Sul aos Emirados Árabes Unidos. Os dados são claros e, em vários pontos, desconfortáveis.

Este artigo explora os principais resultados e, sobretudo, o que significam para quem está no terreno — nas escolas, nas salas de aula e na gestão de políticas educativas.


O que foi medido (e como)

Antes de entrar nos resultados, vale a pena compreender a ambição do estudo. O IELS não se limita a medir se uma criança de cinco anos reconhece letras ou conta até dez. Avalia três grandes dimensões do desenvolvimento, organizadas em dez domínios específicos: a aprendizagem fundacional (literacia e numeracia emergentes), as funções executivas (inibição, memória de trabalho e flexibilidade mental) e o desenvolvimento socioemocional (identificação de emoções, atribuição emocional, confiança, comportamento pró-social e comportamento não disruptivo).

A avaliação das crianças é feita através de jogos interactivos em tablets — desenhados para serem adequados à idade e ao nível de desenvolvimento — e complementada por questionários respondidos por pais e educadores. Não se trata de um exame: trata-se de captar, de forma lúdica e rigorosa, o ponto em que cada criança se encontra antes de iniciar o percurso escolar formal.

Para quem trabalha no 1.º ciclo do ensino básico, esta informação é preciosa: ajuda a compreender o que as crianças trazem consigo quando chegam à escola — e como esse ponto de partida varia enormemente.


As desigualdades já estão instaladas aos cinco anos

Se há uma mensagem central no relatório, é esta: aos cinco anos, as diferenças entre crianças são já profundas e estão fortemente ligadas à condição socioeconómica das famílias.

Em média, as crianças de meios socioeconómicos favorecidos apresentam resultados entre 60 e 70 pontos acima dos seus pares desfavorecidos nos domínios da literacia e da numeracia emergentes. Para colocar este número em perspectiva, o desvio-padrão das escalas do IELS é de aproximadamente 100 pontos. Estamos, portanto, a falar de uma diferença substancial — o equivalente a mais de meio desvio-padrão — antes sequer de a escolaridade obrigatória ter início.

Estas desigualdades são mais pronunciadas nas aprendizagens fundacionais (literacia e numeracia), mas estão igualmente presentes, embora de forma mais moderada, nas funções executivas e no desenvolvimento socioemocional. A identificação de emoções, por exemplo, apresenta uma diferença média de 43 pontos entre crianças favorecidas e desfavorecidas.

O que isto significa para um professor do 1.º ciclo? Que a turma que recebe em setembro não parte de um patamar comum. As diferenças que irá observar ao longo do ano não nasceram na escola — muitas delas já estavam consolidadas muito antes. Ignorar este facto conduz a expectativas desajustadas e a intervenções tardias.

Clicar na imagem para ver a apresentação…


Os rapazes ficam para trás — sobretudo nas competências socioemocionais

O IELS 2025 confirma uma tendência que outros estudos já vinham a documentar: aos cinco anos, as raparigas superam os rapazes nas três dimensões avaliadas. A diferença é mais marcada no desenvolvimento socioemocional — entre 20 e 31 pontos de vantagem em domínios como a identificação emocional, o comportamento pró-social e o comportamento não disruptivo.

Nas aprendizagens fundacionais, a diferença de género é menor e, na numeracia emergente, quase inexistente. Já nas funções executivas, as raparigas apresentam vantagem na inibição e na flexibilidade mental, embora as diferenças nem sempre atinjam significância estatística em todas as jurisdições.

Há um dado particularmente relevante para educadores: estas diferenças de género são maiores entre as crianças com desempenhos mais fracos. Ou seja, os rapazes com maiores dificuldades estão proporcionalmente mais distantes das raparigas do que os rapazes com bom desempenho. Isto sugere que o apoio diferenciado nos primeiros anos de escolaridade — sobretudo no domínio socioemocional — pode beneficiar particularmente os rapazes em situação de maior vulnerabilidade.


Os livros vencem os ecrãs (e não é sequer uma competição renhida)

Uma das conclusões mais claras do relatório diz respeito ao papel dos ambientes de aprendizagem em casa. O que os pais fazem com os filhos conta — e conta muito, independentemente do rendimento familiar.

Crianças cujos pais leem para elas com frequência elevada (cinco ou mais dias por semana) obtêm resultados significativamente superiores em literacia e numeracia emergentes, mesmo depois de se descontar o efeito do estatuto socioeconómico. A leitura partilhada mostra, entre todas as actividades parentais analisadas, a associação mais forte e consistente com os resultados das crianças.

Inversamente, o uso de dispositivos digitais — que afecta já quase metade das crianças de cinco anos numa base diária — apresenta associações fracas e, por vezes, negativas com os resultados de aprendizagem. As actividades digitais «educativas» realizadas em conjunto pelos pais e filhos também não mostram benefícios consistentes. De facto, nos Países Baixos e na Comunidade Flamenga da Bélgica, a utilização frequente de dispositivos aparece correlacionada negativamente com vários domínios de desempenho.

Para as escolas, esta constatação tem implicações directas. Por um lado, reforça a importância de programas que incentivem a leitura em família — não apenas como actividade escolar, mas como prática quotidiana. Por outro, convida a uma reflexão cautelosa sobre a introdução de tecnologia nos primeiros anos: mais ecrã não significa melhor aprendizagem. E, para crianças de cinco anos, os dados sugerem que os livros continuam a ser o instrumento mais poderoso.


O envolvimento dos pais na escola faz diferença (e não é só uma questão de recursos)

O relatório mostra que 43% das crianças no IELS 2025 têm pais fortemente envolvidos nas actividades dos centros de educação e cuidados na primeira infância. E o envolvimento parental está associado a melhores resultados — sobretudo no desenvolvimento socioemocional — mesmo depois de se controlar o nível socioeconómico.

Este é um ponto importante: a relação entre envolvimento parental e resultados das crianças não se explica apenas pelo facto de as famílias mais favorecidas tenderem a ser mais participativas. Mesmo entre famílias com perfis socioeconómicos semelhantes, o envolvimento activo na escola está ligado a melhores competências de confiança, comportamento pró-social e comportamento não disruptivo.

O que isto sugere é que a ligação escola-família na primeira infância não é um luxo — é uma alavanca. Criar canais de comunicação eficazes, promover momentos de participação acessíveis e valorizar o papel dos pais como parceiros educativos pode ter um impacto mensurável nos resultados das crianças.


A educação pré-escolar ajuda — mas não está a reduzir desigualdades

Participar em programas de educação e cuidados na primeira infância está, de forma geral, positivamente associado a melhores resultados aos cinco anos, sobretudo nos domínios da literacia e da numeracia. As crianças que iniciam a frequência mais cedo tendem a apresentar melhores desempenhos.

No entanto, há uma conclusão que o relatório não evita: o IELS 2025 não encontra evidência de que a frequência da educação pré-escolar beneficie mais as crianças desfavorecidas do que as restantes. Dado que, na maioria das jurisdições, são as crianças de meios favorecidos que frequentam a educação pré-escolar durante mais tempo e com maior intensidade, o sistema actual pode não estar a desempenhar o papel equalizador que muitos lhe atribuem.

Este resultado é um alerta sério para os decisores políticos. Investir na expansão da educação pré-escolar é necessário — mas não suficiente. Se as crianças desfavorecidas continuarem a aceder mais tarde, durante menos tempo e a serviços de qualidade desigual, a pré-escola pode acabar por amplificar, em vez de reduzir, as disparidades de partida. A resposta passa por garantir acesso universal precoce e, sobretudo, por assegurar uma qualidade consistente em toda a rede de oferta.


Crianças resilientes existem — e mostram que o contexto não é destino

Num cenário de desigualdades tão marcadas, é fácil cair no determinismo. O relatório oferece, porém, um contraponto importante: existem crianças de meios desfavorecidos que, apesar das circunstâncias, alcançam resultados fortes. O IELS designa-as como «crianças desenvolvimentalmente resilientes» — aquelas que, estando no quartil mais baixo do índice socioeconómico, atingem o quartil mais elevado de desempenho.

Em média, cerca de 15% das crianças desfavorecidas alcançam desempenhos fortes em literacia e numeracia emergentes. Nas funções executivas e no desenvolvimento socioemocional, esta percentagem sobe para 15% a 22%, consoante o domínio.

Estas crianças não são uma anomalia estatística — são a prova de que a intervenção precoce, os ambientes familiares estimulantes e a qualidade dos serviços educativos fazem diferença. Compreender o que distingue os percursos destas crianças pode informar estratégias de apoio mais eficazes para todas as outras.


O que tudo isto muda para quem está nas escolas

O IELS 2025 não é apenas mais um relatório com números internacionais. Para os profissionais de educação, os seus resultados traduzem-se em implicações concretas.

Em primeiro lugar, a avaliação diagnóstica no início do percurso escolar ganha uma importância renovada. Se as crianças chegam à escola com níveis de desenvolvimento tão díspares, conhecer o perfil de cada aluno — não apenas nas aprendizagens cognitivas, mas também nas competências socioemocionais e executivas — é condição essencial para uma intervenção pedagógica adequada.

Em segundo lugar, o investimento em competências socioemocionais na primeira infância não é uma moda pedagógica — é uma necessidade documentada pela evidência. As funções executivas e o desenvolvimento socioemocional estão fortemente correlacionados com a aprendizagem fundacional: crianças com bons resultados num domínio tendem a ter bons resultados nos outros. Políticas e práticas que tratem estas dimensões de forma integrada serão, por isso, mais eficazes do que abordagens compartimentadas.

Em terceiro lugar, a promoção da leitura em família continua a ser uma das intervenções com maior retorno educativo. Os dados do IELS reforçam o que já se sabia, mas acrescentam um elemento de escala internacional: em todas as jurisdições participantes, a leitura partilhada está positivamente associada a melhores resultados. Para as escolas, isto significa que cada iniciativa que encoraje os pais a ler com os filhos — de forma regular, significativa e acessível — é uma aposta segura.

Por último, a digitalização precoce requer prudência. Os dados não sustentam uma visão optimista sobre o impacto da tecnologia na aprendizagem de crianças de cinco anos. Isto não significa que os dispositivos digitais sejam inúteis — mas os benefícios não estão demonstrados e, em certos contextos, os efeitos são negativos. A decisão de introduzir ecrãs nos primeiros anos deve basear-se em evidência, não em entusiasmo.


Uma nota final sobre o que ainda não sabemos

O IELS é um estudo transversal, não longitudinal. Isto significa que documenta associações, não relações causais. Quando se diz que a leitura partilhada está associada a melhores resultados, isso não prova que ler para uma criança cause directamente esses resultados — pode haver outros factores em jogo. O relatório é metodologicamente rigoroso e explicita estas limitações, o que reforça a sua credibilidade.

Além disso, Portugal não participou neste ciclo do estudo. Os dados referem-se a jurisdições com sistemas educativos, culturas e estruturas demográficas muito diversas. A transferência directa de conclusões para o contexto português exige cautela — mas os padrões observados são suficientemente consistentes para justificar uma reflexão séria sobre as nossas políticas de primeira infância.


Referência bibliográfica

OECD. (2026). Building strong foundations for life: Results from the 2025 Early Learning and Child Well-being Study. OECD Publishing. https://doi.org/10.1787/02bf8efe-en



Promover a inclusão digital: um assistente virtual para ensinar tarefas tecnológicas essenciais

Como bibliotecas, juntas de freguesia e organizações comunitárias podem combater a exclusão digital através de ferramentas educativas inovadoras

Assistente de Tarefas |

O Desafio da Exclusão Digital em Portugal

Vivemos numa era onde a tecnologia permeia quase todos os aspetos da nossa vida quotidiana. No entanto, uma parte significativa da população portuguesa ainda enfrenta barreiras no acesso e utilização das tecnologias digitais. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, cerca de 26% dos adultos entre os 55-74 anos nunca utilizaram a internet, criando uma divisão digital que afeta profundamente a sua participação na sociedade moderna.

Esta realidade é particularmente preocupante quando consideramos que tarefas que podem parecer simples para os mais jovens – como enviar um email com uma fotografia ou fazer uma videochamada – representam obstáculos intransponíveis para muitos cidadãos seniores e pessoas em situação de vulnerabilidade digital.

Uma Solução Inovadora: O Assistente de Tarefas Digitais

Para responder a este desafio, foi desenvolvida uma ferramenta educativa digital para facilitar o ensino e a aprendizagem de competências tecnológicas básicas. O Assistente de Tarefas é uma aplicação web interativa que guia os utilizadores, passo a passo, através das tarefas digitais mais comuns e essenciais.

As Seis Competências Fundamentais

A aplicação foca-se em seis áreas cruciais da literacia digital:

1. Enviar Email com Fotografias Ensina desde a abertura do programa de email até ao envio bem-sucedido de mensagens com anexos fotográficos – uma competência essencial para manter contacto com familiares e amigos.

2. Realizar Videochamadas Guia os utilizadores através do processo de estabelecer contacto visual à distância, uma ferramenta que se tornou indispensável, especialmente após a pandemia.

3. Organizar e Visualizar Fotografias Digitais Capacita os utilizadores para encontrar, ver e organizar as suas memórias digitais de forma eficiente.

4. Imprimir Documentos Desmistifica o processo de impressão, desde a seleção do documento até à configuração da impressora.

5. Aceder e Navegar em Sites de Notícias Promove o acesso à informação, ensinando como consultar fontes noticiosas credíveis online.

6. Navegação Básica na Internet Fornece as competências fundamentais para usar um navegador web com confiança e segurança.

Características Inclusivas e Acessíveis

O que torna esta ferramenta verdadeiramente especial é a sua abordagem centrada na acessibilidade:

  • Controlo do tamanho do texto: Permite ajustar o tamanho da letra para diferentes necessidades visuais
  • Linguagem simples e clara: Evita jargão técnico, utilizando terminologia familiar
  • Instruções visuais: Combina texto com ícones e representações gráficas
  • Progressão gradual: Divide tarefas complexas em passos simples e manejáveis
  • Interface intuitiva: Design limpo que reduz distrações e confusão

O Papel das Instituições Comunitárias

Bibliotecas Municipais: Centros de Aprendizagem Digital

As bibliotecas públicas encontram-se numa posição única para liderar esta transformação digital. Tradicionalmente centros de conhecimento e aprendizagem, podem facilmente expandir a sua missão para incluir a literacia digital.

Juntas de Freguesia: Proximidade e Confiança

As juntas de freguesia, pela sua proximidade com as comunidades locais, podem desempenhar um papel fundamental na identificação e apoio aos cidadãos em situação de exclusão digital.

Estratégias recomendadas:

  • Integração da ferramenta em centros sociais e de dia
  • Organização de “Cafés Digitais” onde a aprendizagem acontece num ambiente social
  • Identificação proativa de cidadãos que beneficiariam da formação
  • Criação de redes de apoio digital entre vizinhos

Escolas de Ensino de Adultos: Educação Formal e Não-Formal

Os estabelecimentos de ensino que já trabalham com adultos possuem a experiência pedagógica necessária para maximizar o potencial desta ferramenta.

Oportunidades de integração:

  • Inclusão como módulo em cursos de competências básicas
  • Desenvolvimento de certificações em literacia digital
  • Programas de formação para formadores
  • Criação de conteúdos complementares adaptados ao público local

Organizações de Apoio a Comunidades Desfavorecidas

Para populações em situação de maior vulnerabilidade social, o acesso à tecnologia pode representar uma ponte para oportunidades de emprego, serviços públicos e participação social.

Um Apelo à Ação Coletiva

A exclusão digital não é um problema individual, mas sim um desafio coletivo que requer uma resposta coordenada. O Assistente de Tarefas representa uma oportunidade única para organizações comunitárias demonstrarem liderança na construção de uma sociedade mais inclusiva e digitalmente competente.

Convidamos todas as bibliotecas municipais, juntas de freguesia, escolas de adultos e organizações sociais a:

  1. Experimentar a ferramenta nos vossos contextos específicos
  2. Adaptar a implementação às necessidades da vossa comunidade
  3. Partilhar experiências e boas práticas com outras organizações
  4. Defender políticas públicas que promovam a inclusão digital
  5. Investir na formação de equipas especializadas em literacia digital

O verdadeiro valor da tecnologia reside na sua capacidade de melhorar a vida das pessoas. O Assistente de Tarefas Digitais exemplifica esta filosofia, transformando a complexidade tecnológica em passos simples e acessíveis.

Num mundo cada vez mais digital, garantir que ninguém fica para trás não é apenas uma questão de justiça social – é uma necessidade para a coesão e desenvolvimento da nossa comunidade.


Ensino e Inteligência Artificial: os chatbots vão tornar os alunos mais preguiçosos? | Podcast

A inteligência artificial (IA) vai ter um impacto significativo no ensino do futuro e uma das principais áreas é a personalização da aprendizagem.

 3.º debate do podcast A Próxima Vaga, moderado por Francisco Pinto Balsemão.

Os modelos de linguagem de larga escala podem analisar os dados dos alunos e adaptar o conteúdo e as estratégias de ensino de acordo com as necessidades individuais de cada estudante. A educação será cada vez mais personalizada e adequada ao ritmo e às capacidades de cada um, mas estes avanços trazem também desafios e riscos.

Os assistentes virtuais vão tornar os alunos mais preguiçosos? Para Goreti Marreiros, presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial (APIA), e Ana Paiva, professora catedrática de IA, é importante garantir que a implementação desta tecnologia no ensino seja feita de forma ética e responsável.

A equidade no acesso e a necessidade de manter uma presença humana nos processos de educação são essenciais para garantir a interação e o desenvolvimento do espírito crítico dos alunos.

A inteligência artificial pode tornar a escola inclusiva e mais preparada para o futuro. Deve apostar-se na capacitação dos professores | Itália

Imagem gerada por tecnologia Dall – E 3

Ler na fonte | Autor: Pierangelo Soldavini [25 de novembro 2023]

A IA é o último desafio para os professores, mas representa uma oportunidade para um ensino personalizado e envolvente. É crucial saber como utilizar a tecnologia de forma inovadora e eficaz.

Com a chegada do ChatGPT, cada vez mais estudantes dizem conhecer a inteligência artificial. Mas, depois, se lhes pedirem para a explicar, muito mais da metade deles não sabe realmente o que é. Contudo a IA está a provocar uma brecha entre os mais jovens que também começam a utilizá-la na escola, 58% fizeram-no por iniciativa própria, apenas um quarto o fizeram na sala de aula ou por impulso dos professores. Dois em cada três alunos já a usaram pelo menos uma vez para fazer os trabalhos de casa e, na mesma percentagem, as crianças olham com confiança para a nova fronteira tecnológica, convencidos de que ela pode trazer mais benefícios do que riscos.

Os resultados de uma pesquisa do YouTrend em nome do Centro de Estudos ImparaDigitale, que envolveu cerca de 1.300 alunos em toda a Itália, são uma primeira fotografia da atitude que as crianças têm em relação à inteligência artificial, marcada pela confiança e por testá-la, mas também evidenciam uma grande lacuna de conhecimento que deve ser preenchida para chegar a um conhecimento que possa permitir um uso consciente e proveitoso da tecnologia que promete transformar ainda mais o mundo do trabalho, envolvendo também as profissões intelectuais, com a IA generativa.

Os resultados da pesquisa, apresentados durante o primeiro dia dos Estados Gerais da Escola Digital em Bérgamo, serão disponibilizados ao Ministério da Educação, envolvido na revisão do Plano Nacional de Escola Digital de 2015 numa segunda versão chamada a definir a arquitetura de uma escola inspirada na inovação digital, que saiba levar as crianças às competências avançadas de informática, adequadas às necessidades de um mundo de trabalho em constante transformação, mas que saiba como utilizá-las para tornar o ensino mais envolvente e inclusivo. Neste sentido, um capítulo do novo plano será dedicado à inteligência artificial.

O quadro do novo Plano Escolar Digital é ainda mais relevante, uma vez que a escola tem à sua disposição [em Itália] um volume de recursos nunca antes visto, todos juntos, graças ao Pnrr. Os fundos europeus disponibilizam 2,1 mil milhões de euros para o Plano Escolar 4.0 para transformar 100 mil salas de aula tradicionais em ambientes abertos à aprendizagem inovadora, 1,1 mil milhões para apoiar conhecimentos multilingues, disciplinas STEM, igualdade de oportunidades e 261 milhões para a ligação das escolas.

A distribuição dos recursos do Pnsd no período 2015-22 fornece indicações cruciais para evitar os erros do passado: dos 386 milhões disponibilizados, apenas 18% foram direcionados para a formação de professores e competências dos alunos, os 82% restantes foram para a instrumentação, como aponta Gianna Barbieri, diretora geral do Ministério da Educação que delineou o processo iniciado para a revisão do Plano Nacional da Escola Digital. “As escolas compraram muito hardware e pouco software para usar essas ferramentas, muitas vezes sem ter um projeto de inovação claro subjacente – enfatiza a presidente da ImparaDigitale Dianora Bardi -. Assim, a formação concentrou-se no uso das ferramentas e essa base foi fundamental para continuar a escola mesmo durante o confinamento, a par da grande disponibilidade de professores. Mas agora precisamos dar mais um passo para permitir que os professores entendam como aproveitar o enorme potencial dessa dotação para criar um ensino inovador, capaz de envolver os alunos de novas maneiras, numa estratégia que defina objetivos e necessidades no início”.

A própria inteligência artificial está a transformar o mundo do trabalho onde, «85% dos empregos em 2030 ainda não foram inventados», enfatiza Barbieri. Para além disso está a ter um impacto pesado diretamente nas profissões no campo do conhecimento e da criatividade: «Temos que levar isso em conta na formação – afirma o prefeito de Bérgamo Giorgio Gori -: a competência humana, que não pode ser substituida pela máquina, torna-se relevante para entender o que queremos que a máquina faça».

Neste sentido, não nos podemos dar ao luxo de colocar as competências humanas e as artísticas em segundo plano, aquelas ligadas à compreensão do pensamento e da criatividade humana. Neste aspecto, a inteligência artificial oferece uma oportunidade a não perder: «A tecnologia de hoje ajuda-nos a personalizar o caminho da formação, deixando para trás o modelo de educação igual para todos e feita de caminhos rigidamente separados entre as humanidades e as especialidades técnico-científicas», afirma Marco Bentivogli, ex-sindicalista e fundador da Base Italia.

Traduzido do italiano com supressões e adaptações.

Referência: Soldavini, P. (2023) L’intelligenza artificiale può rendere la scuola inclusiva e adeguata al futuro. Ma bisogna formare …Il Sole 24 ORE. Il Sole 24 ORE. Available at: https://amp24-ilsole24ore-com.cdn.ampproject.org/c/s/amp24.ilsole24ore.com/pagina/AFuICPmB (Accessed: 26 November 2023).

Monitorização do Plano 21/23 Escola+ | DGEEC

Foto de Chris Liverani na Unsplash

A Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) apresenta os principais resultados da Monitorização do Plano 21|23 Escola+

2023|

  • Terceiro relatório de Monitorização do Plano 21/23 Escola+ [PDF]

2022|

  • Segundo relatório de Monitorização do Plano 21/23 Escola+ [PDF]
  • Primeiro relatório de Monitorização do Plano 21/23 Escola+ [PDF]

***

Referência: Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência. (2023). Retrieved 14 April 2023, from https://www.dgeec.mec.pt/np4/529/