Ler na fonte | Autor: Pierangelo Soldavini [25 de novembro 2023]
A IA é o último desafio para os professores, mas representa uma oportunidade para um ensino personalizado e envolvente. É crucial saber como utilizar a tecnologia de forma inovadora e eficaz.
Com a chegada do ChatGPT, cada vez mais estudantes dizem conhecer a inteligência artificial. Mas, depois, se lhes pedirem para a explicar, muito mais da metade deles não sabe realmente o que é. Contudo a IA está a provocar uma brecha entre os mais jovens que também começam a utilizá-la na escola, 58% fizeram-no por iniciativa própria, apenas um quarto o fizeram na sala de aula ou por impulso dos professores. Dois em cada três alunos já a usaram pelo menos uma vez para fazer os trabalhos de casa e, na mesma percentagem, as crianças olham com confiança para a nova fronteira tecnológica, convencidos de que ela pode trazer mais benefícios do que riscos.
Os resultados de uma pesquisa do YouTrend em nome do Centro de Estudos ImparaDigitale, que envolveu cerca de 1.300 alunos em toda a Itália, são uma primeira fotografia da atitude que as crianças têm em relação à inteligência artificial, marcada pela confiança e por testá-la, mas também evidenciam uma grande lacuna de conhecimento que deve ser preenchida para chegar a um conhecimento que possa permitir um uso consciente e proveitoso da tecnologia que promete transformar ainda mais o mundo do trabalho, envolvendo também as profissões intelectuais, com a IA generativa.
Os resultados da pesquisa, apresentados durante o primeiro dia dos Estados Gerais da Escola Digital em Bérgamo, serão disponibilizados ao Ministério da Educação, envolvido na revisão do Plano Nacional de Escola Digital de 2015 numa segunda versão chamada a definir a arquitetura de uma escola inspirada na inovação digital, que saiba levar as crianças às competências avançadas de informática, adequadas às necessidades de um mundo de trabalho em constante transformação, mas que saiba como utilizá-las para tornar o ensino mais envolvente e inclusivo. Neste sentido, um capítulo do novo plano será dedicado à inteligência artificial.
O quadro do novo Plano Escolar Digital é ainda mais relevante, uma vez que a escola tem à sua disposição [em Itália] um volume de recursos nunca antes visto, todos juntos, graças ao Pnrr. Os fundos europeus disponibilizam 2,1 mil milhões de euros para o Plano Escolar 4.0 para transformar 100 mil salas de aula tradicionais em ambientes abertos à aprendizagem inovadora, 1,1 mil milhões para apoiar conhecimentos multilingues, disciplinas STEM, igualdade de oportunidades e 261 milhões para a ligação das escolas.
A distribuição dos recursos do Pnsd no período 2015-22 fornece indicações cruciais para evitar os erros do passado: dos 386 milhões disponibilizados, apenas 18% foram direcionados para a formação de professores e competências dos alunos, os 82% restantes foram para a instrumentação, como aponta Gianna Barbieri, diretora geral do Ministério da Educação que delineou o processo iniciado para a revisão do Plano Nacional da Escola Digital. “As escolas compraram muito hardware e pouco software para usar essas ferramentas, muitas vezes sem ter um projeto de inovação claro subjacente – enfatiza a presidente da ImparaDigitale Dianora Bardi -. Assim, a formação concentrou-se no uso das ferramentas e essa base foi fundamental para continuar a escola mesmo durante o confinamento, a par da grande disponibilidade de professores. Mas agora precisamos dar mais um passo para permitir que os professores entendam como aproveitar o enorme potencial dessa dotação para criar um ensino inovador, capaz de envolver os alunos de novas maneiras, numa estratégia que defina objetivos e necessidades no início”.
A própria inteligência artificial está a transformar o mundo do trabalho onde, «85% dos empregos em 2030 ainda não foram inventados», enfatiza Barbieri. Para além disso está a ter um impacto pesado diretamente nas profissões no campo do conhecimento e da criatividade: «Temos que levar isso em conta na formação – afirma o prefeito de Bérgamo Giorgio Gori -: a competência humana, que não pode ser substituida pela máquina, torna-se relevante para entender o que queremos que a máquina faça».
Neste sentido, não nos podemos dar ao luxo de colocar as competências humanas e as artísticas em segundo plano, aquelas ligadas à compreensão do pensamento e da criatividade humana. Neste aspecto, a inteligência artificial oferece uma oportunidade a não perder: «A tecnologia de hoje ajuda-nos a personalizar o caminho da formação, deixando para trás o modelo de educação igual para todos e feita de caminhos rigidamente separados entre as humanidades e as especialidades técnico-científicas», afirma Marco Bentivogli, ex-sindicalista e fundador da Base Italia.
Traduzido do italiano com supressões e adaptações.
Referência: Soldavini, P. (2023) L’intelligenza artificiale può rendere la scuola inclusiva e adeguata al futuro. Ma bisogna formare …, Il Sole 24 ORE. Il Sole 24 ORE. Available at: https://amp24-ilsole24ore-com.cdn.ampproject.org/c/s/amp24.ilsole24ore.com/pagina/AFuICPmB (Accessed: 26 November 2023).

