Onze relatos escritos por famílias, alunos, um orientador escolar e ativistas, reunidos por dois professores da Universidade de Málaga, mostram o que raramente cabe num relatório: o dia a dia de quem a escola não soube receber. Não é um estudo estatístico, nem pretende sê-lo. É um conjunto de vozes que obriga quem trabalha em escolas a olhar para aquilo que faz sem dar por isso.

Um livro que nasceu de um desabafo
«¿A qué responde la educación inclusiva?» (em português, «A que responde a educação inclusiva?») foi coordenado por María Teresa Rascón Gómez e Ignacio Calderón Almendros, com prólogo de Carlos Skliar. A edição em papel saiu em dezembro de 2025 e a versão em PDF, de acesso aberto, em setembro de 2026 (Rascón Gómez & Calderón Almendros, 2026). O ponto de partida está contado na introdução e vale a pena repeti-lo: uma orientadora escolar escreveu numa rede social que já não aguentava fazer parte do problema, ou seja, de uma escola que tornava infeliz uma parte das crianças. Acorreram famílias, estudantes e investigadores. Dali saiu um projeto de investigação, depois este livro e, por fim, um movimento social chamado Quererla es crearla.
Skliar, no prólogo, defende que a educação inclusiva devia ser uma «artesanato de recomeços», o contrário da ideia de que o destino de uma criança ficou escrito no dia em que nasceu. Se há frase que um professor possa pendurar na sala de professores, talvez seja esta.
A etiqueta chega antes da pessoa
Quase todos os relatos têm um momento em comum: alguém decide o que uma criança pode ou não fazer sem a ter conhecido. Mercedes, mãe de um menino com agenesia do corpo caloso, conta que a equipa de orientação o observou cerca de dez minutos, durante o pequeno-almoço, e que a orientadora lhe disse que não valia a pena pedir avaliação para que o filho não ficasse «etiquetado». Mercedes interpretou aquilo como uma maneira de tirar um processo de cima da secretária. Arrisco que muitos de nós já ouvimos, em reuniões, versões suaves da mesma frase. Joaquim, que tem síndrome de Joubert, guarda de um relatório psicopedagógico a frase «não sei como avaliar este menino, por isso livro-me dele».
Os autores recorrem ao modelo social da deficiência para ler estas histórias: aquilo que incapacita não é só a característica da pessoa, são as barreiras que o contexto lhe põe à presença, à participação e à aprendizagem (Booth & Ainscow, 2000, citados em Rascón Gómez & Calderón Almendros, 2026). Dito assim, parece teoria. Nos relatos, tem a forma de uma escada sem elevador, de uma biblioteca no segundo andar, de um exame que só se pode fazer com a máquina de escrever e que, por fazer barulho, obriga a aluna a sair da sala.
Pequenas coisas que decidem tudo
O que mais me marcou foi a escala das coisas em causa. Não se trata de grandes reformas. Esmeralda, mãe de uma menina com diabetes tipo 1, passou três anos a fazer os controlos e a administrar insulina na própria sala, na casa de banho, ou num quarto de arrumos com cheiro a humidade, porque a direção nunca arranjou um espaço decente. Inmaculada, mãe de um rapaz com uma malformação que lhe tira o controlo dos esfíncteres, relata que a tutora lhe recusava a ida à casa de banho, e descreve o que isso fez à saúde e à autoestima do filho. Pede-se, no fundo, uma coisa que qualquer escola sabe fazer: deixar uma criança ir à casa de banho quando precisa e ter onde guardar uma muda de roupa.
Há ainda o recreio que ninguém vigiava, onde, segundo a mãe de Nicolás, o filho era insultado e agredido, tal como nas casas de banho e no refeitório, e a saída com pernoita que a tutora dizia estar pensada para idades em que as crianças já controlam os esfíncteres. São decisões de organização escolar. Ninguém as escreveu no projeto educativo, e é por isso mesmo que mudá-las está ao nosso alcance, sem esperar por lei nova ou por mais verba.
O papel e o diploma
Dois casos tocam num ponto que interessa a qualquer conselho de turma. Joaquim terminou a ESO (a Educação Secundária Obrigatória espanhola, que acaba por volta dos 16 anos) com todas as disciplinas aprovadas e não recebeu o título. Segundo conta, a mãe nem sequer foi avisada de que ele não o receberia. Passados seis anos, sem o título, não pode inscrever-se em escolas de teatro, que é o que quer fazer, e reclama-o em tribunal. Irene, que tem síndrome de Down e concluiu a escolaridade obrigatória com média de «notável», não viu esse título reconhecido; os recursos foram inadmitidos pelo Tribunal Supremo e pelo Tribunal Constitucional e o caso seguia, à data do relato, para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Entretanto, Irene obteve dois títulos de qualificação profissional e ia começar um título próprio da Universidade de Valladolid. A mãe escreve que o título é «o pedacinho de cartão timbrado» que abre a porta seguinte, e é difícil encontrar melhor descrição do que um diploma faz no mundo de um jovem.
A agenda como arma
Outro padrão, tão banal que quase se esconde: a comunicação diária. Mercedes descreve a agenda da escola primária como um instrumento que só serve para anotar o que o filho não faz, que se levanta, que se mexe, que não cumpre. Pergunta onde fica aquilo que ele consegue, e lembra que muitas mães só querem ir buscar os filhos à escola com vontade de ouvir como correu o dia. O livro lembra-nos de quem lê essas notas do outro lado. A sugestão, no fundo, é simples: se a comunicação só serve para informar o que correu mal, a família deixa de ter razões para confiar.
«Olha para mim» em vez de «olha para ele»
O relato que mais interessa a quem trabalha nos serviços de apoio vem de Raúl R. López Reyes, orientador. Conta que os professores lhe pedem, com todo o carinho, que «veja» este aluno, e depois aquele, e depois outro, o que desloca o problema para a criança. Quando um professor lhe pediu que avaliasse pelo menos três alunos (o que, pelas suas contas, lhe consumiria cerca de dezasseis horas), ele propôs trocar essas horas por uma hora por semana dentro da sala de aula, durante dezasseis semanas, a trabalhar com o docente. Para ele, o «olha para ele» aponta para fora e deixa o professor fora do quadro; o «olha para mim» obriga-o a olhar para si e para o que ainda não sabe fazer. É uma mudança de método que dá trabalho e que, segundo o autor, só funciona se se fizer em conjunto, dentro da sala e com tempo.
E em Portugal?
Convém não transpor tudo sem cuidado. O livro fala de «dictámenes» de escolarização, de equipas de orientação educativa, de pedagogos terapêuticos e de unidades de educação especial, termos de um sistema espanhol com as suas regras. Em Portugal, o Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho, estabelece o regime jurídico da educação inclusiva e organiza as medidas de suporte à aprendizagem em três níveis: universais, seletivas e adicionais. As universais são mobilizadas para todos os alunos, incluindo os que precisam de outras; as seletivas e adicionais devem ser fundamentadas num relatório técnico-pedagógico; as adicionais privilegiam o contexto de sala de aula (Decreto-Lei n.º 54/2018; Direção-Geral da Educação [DGE], s.d.).
Pelo desenho, é uma lógica de respostas da escola e não de categorias de alunos, e isso não é pouco. A pergunta do livro, porém, é outra: o que acontece entre o papel e a sala de aula. E, aí, as histórias reconhecem-se facilmente de um lado e do outro da fronteira. A lei não escolhe a casa de banho, nem redige a nota da agenda, nem decide quem avisa uma família de que um aluno não vai ser certificado.
Uma escola que perguntasse a quem lá está
Os coordenadores sublinham ainda um dado que não é do domínio da escola, mas que a atravessa: são sobretudo as mulheres que carregam estes cuidados. Citando um relatório das Nações Unidas de 2024, lembram que as mulheres e as raparigas fazem mais de três quartos do trabalho de cuidados não remunerado. Nos relatos, as mães deixam empregos, fazem seis viagens por dia à escola e passam as noites a preencher papéis, e há quem seja chamada «a mãe louca» quando insiste. Quando uma mãe é incómoda, talvez valha a pena perguntar-lhe o que sabe, antes de decidir o que dela pensar.
Para fechar, deixo seis perguntas que me parecem úteis num conselho pedagógico, sem ordem de importância. Quem informa as famílias de que o aluno vai, ou não, obter o diploma, e com que antecedência? Que espaço temos, de facto, para quem precisa de se medicar, de se mudar ou de descansar? Quem vigia o recreio e o refeitório? O que escrevemos na agenda e nos relatórios, e para quem? Quando saem da sala, os alunos saem porque precisam, ou porque nos incomodam? E, por fim, quando foi a última vez que perguntámos a uma família o que ela sabe do seu filho antes de redigirmos o que nós sabemos?
O livro tem mais de uma ideia de esperança, a começar pelo próprio movimento Quererla es crearla, que reúne recursos e uma rede internacional de escolas. Mas fica sobretudo isto: quem viveu a escola por dentro sabe dizer, com precisão, onde ela falha. Basta querer ouvir.

Para saber mais
O livro, publicado em acesso aberto segundo a ficha técnica, é da editora Octaedro (octaedro.com). O movimento Quererla es crearla reúne guias, recursos e a rede de escolas pela inclusão em creemoseducacioninclusiva.com. Sobre o quadro legal português, as perguntas frequentes da DGE sobre o Decreto-Lei n.º 54/2018 esclarecem muitas dúvidas práticas (ligação para o PDF). Um trabalho anterior da mesma equipa de investigação, com outra seleção de narrativas, está em Vila Merino et al. (2024), indicado nas referências.
Nota editorial: este texto foi redigido com apoio de inteligência artificial, a partir de um único documento: a versão em PDF do livro de Rascón Gómez e Calderón Almendros (2026).
Referências
Direção-Geral da Educação. (s.d.). Perguntas frequentes: Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho. Ministério da Educação. Consultado a 1 de outubro de 2026, em https://www.dge.mec.pt/sites/default/files/EEspecial/faq_dl_54_versao_8a.pdf
Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho. Diário da República, 1.ª série, n.º 129. Consultado a 1 de outubro de 2026, em https://diariodarepublica.pt/dr/detalhe/decreto-lei/54-2018-115652961
Rascón Gómez, M. T., & Calderón Almendros, I. (Coords.). (2026). ¿A qué responde la educación inclusiva? Relatos breves sobre el sufrimiento oculto en las escuelas (Colección Horizontes Educación). Octaedro. (Edição em papel: dezembro de 2025; edição em PDF, acesso aberto: setembro de 2026). ISBN 978-84-1079-237-1
Vila Merino, E., Rascón Gómez, M. T., & Calderón Almendros, I. (2024). Discapacidad, estigma y sufrimiento en las escuelas. Narrativas emergentes por el derecho a la educación inclusiva. Educación XX1, 27(1), 353-371. https://doi.org/10.5944/educxx1.36753










