Lideranças inclusivas nas escolas portuguesas: O que nos diz a avaliação externa?

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Download | Com base no estudo de Jennifer Silva, Alexandre Ventura e Diana Oliveira

A liderança escolar é um dos fatores mais determinantes para o sucesso da educação inclusiva. Um estudo recente publicado na REICE — Revista Iberoamericana sobre Calidad, Eficacia y Cambio en Educación analisa, pela primeira vez de forma sistemática, como as lideranças de escolas públicas em Portugal continental estão a implementar as políticas inclusivas.

O que foi estudado e como

A investigação, realizada por Jennifer Silva, Alexandre Ventura e Diana Oliveira, da Universidade de Aveiro, analisou 106 relatórios da Inspeção-Geral da Educação e Ciência (IGEC) do ano letivo 2023/2024, produzidos no âmbito do Programa de Avaliação Externa das Escolas (PAEE). O foco incidiu no domínio “Liderança e Gestão”, cruzando as classificações atribuídas com os pontos fortes e as áreas de melhoria identificadas pelos inspetores.

O estudo abrange 89 agrupamentos de escolas e 17 escolas não agrupadas, distribuídos por todas as regiões NUTS II de Portugal continental, desde o Norte ao Algarve.

Um retrato globalmente positivo

Os resultados são encorajadores: a grande maioria das escolas obteve classificações de Muito Bom (65,1%) ou Excelente (11,3%) no domínio em análise. Nenhuma escola foi classificada com Insuficiente, e apenas duas receberam Suficiente, o que traduz um cenário favorável à consolidação de práticas inclusivas nas escolas públicas portuguesas.

A região Norte destaca-se com maior concentração de classificações elevadas, sugerindo uma cultura escolar mais aberta à inovação pedagógica e à inclusão.

Os pontos fortes que fazem a diferença

A análise permitiu identificar práticas que se repetem com maior frequência nas escolas melhor avaliadas:

  • Liderança transformadora e democrática — presente em 104 dos 106 relatórios, traduz-se na promoção de decisões partilhadas e na mobilização de toda a comunidade educativa;
  • Projetos e parcerias — igualmente mencionados em 104 relatórios, incluindo protocolos com autarquias, empresas, associações e universidades;
  • Orientação para a qualidade das aprendizagens — com foco na inclusão e equidade, surge em 96 relatórios;
  • Ambiente escolar favorável — referido em 92 escolas como um dos fatores que sustenta o bem-estar de alunos e professores;
  • Valorização das lideranças intermédias — coordenadores de departamento e diretores de turma são reconhecidos como peças-chave na implementação de práticas pedagógicas inclusivas.
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As áreas que ainda precisam de atenção

Mesmo no quadro positivo, o estudo identificou fragilidades que merecem reflexão:

  • Documentos orientadores — o projeto educativo, o plano anual de atividades e os planos de melhoria surgem como a maior área de melhoria, referida em 72 relatórios. Muitos destes documentos não refletem as práticas desenvolvidas nem orientam de forma consistente a ação inclusiva;
  • Gestão de recursos humanos — apontada como área de melhoria em 34 escolas, nomeadamente no que diz respeito à formação contínua e à supervisão pedagógica;
  • Recursos materiais — mencionados em 17 relatórios, com referências a condições físicas degradadas e subaproveitamento de equipamentos.

O papel insubstituível da liderança na inclusão

O estudo reforça uma ideia central: a inclusão não acontece por acaso — é construída, intencionalmente, por líderes que mobilizam equipas, criam condições e sustentam uma visão partilhada. Cabe aos diretores, enquanto líderes de topo, promover uma liderança distribuída que valorize as estruturas intermédias e envolva toda a comunidade.

Como sublinha a investigação, a liderança inclusiva não se esgota na gestão administrativa; ela traduz-se na capacidade de criar ambientes equitativos, adaptar respostas pedagógicas à diversidade dos alunos e garantir que todos — sem exceção — tenham acesso a uma educação de qualidade.

O que pode mudar: Desafios e caminhos

O estudo aponta caminhos concretos para escolas e lideranças:

  1. Rever e atualizar os documentos estratégicos da escola, garantindo coerência entre o projeto educativo, os planos de atividades e as práticas reais;
  2. Investir na formação contínua das lideranças, com foco em supervisão pedagógica, liderança inclusiva e coordenação de equipas;
  3. Reforçar a monitorização sistemática das práticas inclusivas, com indicadores claros — como prevê a Lei n.º 116/2019;
  4. Criar redes colaborativas entre escolas para partilha de boas práticas e disseminação de soluções inovadoras;
  5. Mobilizar a autonomia curricular e administrativa (prevista no DL n.º 55/2018) de forma estratégica e contextualizada, adaptando as respostas educativas à realidade de cada comunidade.

Uma escola para todos exige líderes comprometidos

Em suma, os dados mostram que Portugal está num percurso auspicioso rumo à inclusão. As escolas portuguesas demonstram práticas de liderança progressistas e um compromisso genuíno com a equidade. No entanto, persistem desafios estruturais que exigem respostas articuladas, consistentes e sustentáveis.

A inclusão é uma responsabilidade coletiva — e começa na liderança.


Referência científica: Silva, J., Ventura, A. e Oliveira, D. (2026). Lideranças inclusivas em Portugal: Resultados da avaliação externa de escolas. REICE. Revista Iberoamericana sobre Calidad, Eficacia y Cambio en Educación, 24(2). https://doi.org/10.15366/reice2026.24.2.006

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