Há entrevistas que envelhecem mal ao fim de poucas semanas. Esta não é uma delas. Publicada no suplemento Artes y Letras do jornal chileno El Mercurio, a propósito do lançamento de «Lecciones de Aristóteles» pela editora Taurus, a conversa com o filósofo britânico John Sellars parte de uma pergunta simples — porque é que ainda vale a pena ler um autor com mais de dois mil anos — para chegar a um território que qualquer professor, bibliotecário ou diretor de escola reconhecerá de imediato: a falta de tempo para pensar, a dificuldade em viver em comunidade e a tentação de resolver tudo aos extremos.

Quem é John Sellars, o professor que devolveu Aristóteles às livrarias
John Sellars é professor de Filosofia («Reader») na Royal Holloway, Universidade de Londres, e membro do Wolfson College, em Oxford, onde foi bolseiro de investigação. É também investigador convidado no King’s College de Londres, ligado ao projeto Ancient Commentators on Aristotle, e um dos membros fundadores do coletivo Modern Stoicism, responsável pela iniciativa anual conhecida como Semana Estoica. Antes de «Lecciones de Aristóteles», Sellars já tinha publicado, na mesma coleção da Taurus, «Lecciones de estoicismo» e «Lecciones de epicureísmo», ambos de 2021 — uma trilogia de divulgação que tenta fazer exatamente aquilo que o título desta última obra promete: tornar acessível, sem o simplificar, aquele que Sellars não hesita em chamar «o maior filósofo de todos os tempos».
O ponto de partida do livro, explica Sellars na entrevista, nasceu da sua própria experiência como estudante: Aristóteles era reconhecidamente importante, mas também intimidante, e faltavam introduções verdadeiramente acessíveis à sua obra. Décadas depois, como docente e divulgador, decidiu escrever o livro que gostaria de ter tido nas mãos nessa altura.
O tempo que falta para pensar
O momento mais relevante da entrevista para quem trabalha em educação surge quando Sellars distingue dois tipos de pensamento racional em Aristóteles: um pensamento deliberativo, mobilizado nas decisões do quotidiano — a que os antigos chamavam sabedoria prática —, e um pensamento contemplativo, reservado a quem procura compreender as coisas em profundidade. Para Aristóteles, este segundo tipo de pensamento exige tempo disponível, um bem que a maioria das pessoas, ontem como hoje, dificilmente pode dedicar-lhe.
O que Sellars acrescenta é que esse problema se agravou consideravelmente na vida contemporânea. Entre dispositivos permanentemente ligados, notificações constantes e um fluxo de informação que não conhece pausa, tornou-se cada vez mais difícil reservar o espaço mental necessário para pensar por si próprio, em vez de reagir ao estímulo seguinte. É uma leitura que qualquer professor de literacia digital reconhecerá sem esforço: o problema não é apenas o tempo de ecrã, é a erosão da capacidade de sustentar um pensamento sem interrupção.
Esta observação abre uma porta pedagógica pouco explorada. Em disciplinas de cidadania e desenvolvimento ou de formação para a literacia mediática, a distinção aristotélica entre decidir depressa e compreender devagar pode servir de ponto de partida para uma conversa muito concreta com os alunos: o que se perde quando todas as tarefas — ler uma notícia, formar uma opinião, responder a um colega — são tratadas com a mesma pressa? Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de ensinar a distinguir entre os dois regimes de pensamento que Aristóteles já identificava, e de reconhecer em que momentos cada um deles é necessário.
Animais sociais antes de serem indivíduos
Um segundo eixo da entrevista toca diretamente as disciplinas de cidadania. Sellars sublinha que, para Aristóteles, o ser humano não é primeiro um indivíduo isolado que depois decide juntar-se a outros para formar uma comunidade: nascemos já inseridos numa comunidade, e dependemos dela para sobreviver e para nos tornarmos plenamente humanos. A ideia de uma vida boa vivida em total autossuficiência, alheia aos outros, seria para Aristóteles uma contradição — somos, na sua formulação clássica, animais sociais e políticos por natureza.
Esta ideia tem um rendimento pedagógico direto em qualquer trabalho sobre pertença, inclusão ou comportamento em grupo, sobretudo quando cruzada com fenómenos que a escola enfrenta todos os dias, do isolamento social ao impacto das redes sociais na perceção de pertencer, ou não, a um grupo. Ensinar que a interdependência não é uma limitação a superar, mas a própria condição da vida humana, oferece um contraponto útil ao discurso, tão comum entre adolescentes, que associa autonomia a autossuficiência total.
O termo médio como resposta à polarização
É, porém, na parte final da entrevista que Sellars formula a ideia mais citável de toda a conversa: os dois grandes problemas da política contemporânea são a falta de compromisso e o aumento das desigualdades. Nem todos podem participar diretamente na gestão de um Estado moderno, reconhece Sellars, mas Aristóteles sustentava que todos deviam sentir-se de alguma forma implicados na sua comunidade — e essa implicação, hoje, falha tanto para os indivíduos como para a coletividade.
A célebre teoria aristotélica do termo médio — a virtude como ponto de equilíbrio entre dois vícios, o excesso e o defeito — ganha aqui um sentido muito atual. Não se trata de uma receita de tibieza ou de indiferença, mas de uma disciplina ativa: procurar deliberadamente a moderação, o compromisso, o meio-termo, num tempo que recompensa precisamente o oposto, a afirmação ruidosa das posições mais extremadas. É um conceito com aplicação óbvia em qualquer exercício de educação para a cidadania sobre desinformação e polarização política: pedir aos alunos que identifiquem, num debate real ou simulado, onde estão os extremos de uma questão e o que significaria, em concreto, ocupar o termo médio entre eles — não como neutralidade confortável, mas como posição que exige argumentação e conhecimento.
Da leitura à sala de aula
Vale a pena notar que nada disto exige transformar as aulas de filosofia, ou de cidadania, num curso de história da filosofia antiga. O próprio Sellars insiste que a maior dificuldade de Aristóteles não está nas suas conclusões, mas no percurso argumentativo até lá chegar — algo que se aprende com tempo e prática, mas que também pode ser trabalhado a partir de excertos curtos e bem escolhidos, sem necessidade de percorrer obras inteiras como a «Ética a Nicómaco» ou a «Política». Um exercício simples, e diretamente transponível para o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, na sua área de pensamento crítico e pensamento criativo, consiste em pedir aos alunos que apliquem a lógica do termo médio a um dilema do seu quotidiano digital — quanto tempo de ecrã é excessivo, quanto é escasso, onde estará o ponto de equilíbrio — antes de a transporem para questões mais abstratas, como a polarização política ou a desigualdade económica.
Uma nota sobre a semana estóica
A entrevista termina com uma referência à Semana Estoica, o evento anual gratuito organizado pelo coletivo Modern Stoicism, do qual Sellars é um dos fundadores, e que convida qualquer pessoa a «viver como um estoico» durante uma semana. A iniciativa nasceu em 2012, à escala reduzida, e cresceu de forma consistente nos anos seguintes, tornando-se um ponto de encontro global entre académicos e público geral interessado em filosofia prática. Não é o tema central da entrevista, mas serve de lembrete de algo que interessa particularmente à escola: a filosofia antiga, longe de ser um exercício puramente livresco, continua a gerar comunidades e práticas concretas em torno da ideia de que pensar bem é também uma forma de viver melhor — um argumento que vale a pena ter à mão sempre que um aluno pergunta para que serve, afinal, estudar filosofia.
Uma filosofia com mais de dois mil anos, ainda por aprender
O que esta entrevista deixa, no fundo, não é uma lição fechada, mas um convite. Se Aristóteles continua a ser lido, explica Sellars, não é por nostalgia académica, mas porque continua a oferecer instrumentos de pensamento válidos para problemas que não desapareceram: a dificuldade em reservar tempo para compreender em vez de apenas reagir, a tentação de esquecer que somos seres interdependentes, e a atração pelos extremos num tempo que parece ter perdido o gosto pelo compromisso. Para uma escola que já discute atenção, cidadania digital e desinformação, talvez o mais surpreendente não seja precisar de Aristóteles, mas descobrir que Aristóteles, afinal, já estava à espera.
Este artigo foi redigido com apoio de inteligência artificial (Claude, da Anthropic), a partir da leitura direta de uma reprodução impressa da entrevista original, publicada em «El Mercurio» (Chile) a 30 de junho de 2024. A existência e a data da entrevista foram confirmadas de forma independente através do sítio pessoal de John Sellars, que a lista entre as suas entrevistas publicadas.
Referências
Rodríguez Medina, J. (2024, 30 de junho). «Aristóteles diagnosticó nuestros problemas hace más de dos mil años» [Entrevista a John Sellars]. El Mercurio, secção Artes y Letras, p. E4. (Edição impressa; não disponível em acesso livre em linha.)
Sellars, J. (2024). Lecciones de Aristóteles: Comprender al mayor filósofo de todos los tiempos. Taurus. https://www.casadellibro.com/libro-lecciones-de-aristoteles/9788430626502/14447516
Direção-Geral da Educação. (2017). Perfil dos alunos à saída da escolaridade obrigatória. https://dev.dge.mec.pt/sistema-educativo-perfil-dos-alunos-saida-da-escolaridade-obrigatoria
Para saber mais
- Página pessoal de John Sellars, com a lista completa das suas entrevistas e publicações, incluindo a confirmação da entrevista ao El Mercurio.
- Perfil de John Sellars no repositório de investigação da Royal Holloway, University of London.
- Modern Stoicism, o coletivo responsável pela Semana Estoica anual.

