Há algo de revelador no modo como a Argentina está a lidar com a inteligência artificial nas escolas. Não com hesitação, não com o habitual compasso de espera que tantos países adoptaram enquanto debatiam regulações e orientações. A Argentina decidiu avançar — e fê-lo a uma velocidade que surpreende mesmo quem acompanha de perto as políticas educativas da região.
A questão que se impõe, porém, não é apenas a da velocidade. É a da qualidade do que está a ser construído — e de quem fica, inevitavelmente, de fora.
Da secundária para a primária: um passo que não é pequeno
Em 2025, a Cidade de Buenos Aires tornou-se a primeira jurisdição da Argentina — e a primeira de toda a América Latina — a incorporar inteligência artificial no currículo das escolas públicas de ensino secundário. Um ano depois, no arranque do ano lectivo de 2026, o passo seguinte foi dado: a IA chegou ao ensino básico. Mais de 300 mil alunos de jardim de infância e de primária, distribuídos por 1700 escolas públicas, passaram a ter acesso a ferramentas de IA generativa como parte integrante da sua experiência escolar.
A ferramenta escolhida para os alunos do ensino básico foi o Gemini, da Google. As contas foram criadas pela administração pública, dentro de um ambiente institucional definido como seguro e pedagogicamente orientado. O objectivo declarado é que os alunos aprendam a explorar, criar e investigar com estas ferramentas — e não apenas a utilizá-las de forma irreflectida.
Ao mesmo tempo, foi lançado em 2025, a nível nacional, o PaideIA — Programa Argentino de Innovación Educativa com Inteligencia Artificial —, ao qual se seguiu uma decisão do Conselho Federal de Educação que tornou obrigatório o ensino de conteúdos de IA nos três níveis escolares obrigatórios: inicial, básico e secundário. Algumas províncias foram ainda mais longe: a Misiones aprovou legislação própria que estabelece o uso transversal da IA em todos os níveis de ensino.
26 000 professores formados — e a pergunta que isso levanta
Talvez o dado mais significativo desta política não seja o número de alunos abrangidos, mas o investimento na formação docente. A Cidade de Buenos Aires anunciou que mais de 26 000 professores foram já formados em inteligência artificial, com percursos adaptados a cada nível e modalidade de ensino — incluindo educação especial e formação de adultos. A oferta inclui módulos com certificação internacional, como “Criação de actividades interactivas”, “Investigação estratégica com Deep Research” ou “Laboratório de criação MultimedIA”.
Foram ainda desenvolvidas mais de 500 gems — assistentes de IA personalizados, desenhados para apoiar a aprendizagem autónoma e reforçar o trabalho docente — dentro de um ambiente controlado e alinhado com os critérios pedagógicos do sistema educativo.
Estes números são expressivos. Mas levantam uma pergunta que não se resolve apenas com formação técnica: estão os professores a ser preparados para usar a IA, ou para pensar sobre ela? A diferença não é pequena. Um docente que sabe criar actividades com uma ferramenta de IA está melhor equipado do que um que não sabe. Mas um docente que consegue interrogar criticamente o que essa ferramenta produz, identificar os seus enviesamentos e orientar os alunos para além do resultado imediato — esse é insubstituível.
A OCDE, no seu relatório Digital Education Outlook 2026, coloca precisamente o professor no centro de qualquer uso educativo significativo da inteligência artificial. Não como utilizador passivo de ferramentas, mas como mediador pedagógico capaz de orientar, limitar e dar sentido à interacção entre o aluno e a tecnologia. Sem esse papel activo, os benefícios potenciais da IA tendem a diluir-se — e os riscos a ampliar-se.
O que dizem os dados sobre os alunos argentinos
Um estudo de 2025 da organização Argentinos por la Educación — “Inteligencia Artificial en la Educación: desafíos y perspectivas” — apresenta dados que merecem atenção. O uso de ferramentas de IA generativa cresce com a idade e atinge os 74% entre adolescentes de 15 a 17 anos, sobretudo nos últimos anos do ensino secundário. A maioria utiliza estas ferramentas com fins educativos: 66% dos estudantes recorre à IA para resolver trabalhos escolares.
O que isto significa, em termos práticos, é que a IA já está dentro da escola — com ou sem política oficial que a enquadre. A questão não é, portanto, se os alunos vão usá-la. É se o farão com algum acompanhamento crítico, ou entregues a si próprios.
O mesmo estudo alerta para a existência de brechas segundo o nível socioeconómico. Não é um dado novo, mas é um dado que incomoda, sobretudo num contexto em que a adopção de ferramentas de IA corre o risco de ampliar desigualdades já existentes. A chamada “nova divisão digital” não opõe apenas quem tem acesso à tecnologia e quem não tem — opõe quem tem acesso com orientação e quem tem acesso sem ela.
Os riscos que é preciso nomear
A análise da Brookings Institution, divulgada em janeiro de 2026 e baseada numa investigação global com mais de 500 alunos, famílias e docentes de quatro continentes, é incómoda: os riscos da IA aplicada ao contexto escolar superam, na situação actual, os seus benefícios potenciais.
Os riscos identificados não são abstractos. Fala-se de aprendizagem superficial e de perda de pensamento crítico quando os alunos delegam nas máquinas aquilo que deveriam construir por si mesmos. Fala-se de privacidade — e de como a recolha massiva de dados de menores por plataformas comerciais é uma realidade que raramente está no centro do debate público. Fala-se de desonestidade académica, mas também de algo mais subtil: a erosão da autonomia dos alunos, que podem habituarse a esperar a resposta em vez de construir o raciocínio.
Há ainda a questão das empresas tecnológicas. O mercado dos chatbots educativos está a crescer rapidamente, com plataformas comerciais a oferecer soluções personalizadas para escolas — algumas com lógicas de negócio que nem sempre coincidem com os interesses pedagógicos. Saber distinguir entre uma ferramenta com propósito educativo genuíno e um produto que usa a escola como canal de captação de dados e de fidelização é uma competência que as administrações públicas precisam de desenvolver — antes de assinar contratos.
O que a Argentina está a fazer bem — e o que ainda está em aberto
Reconheça-se o que merece reconhecimento: a Argentina está a tomar decisões de política pública em vez de deixar que o mercado as tome por ela. A obrigatoriedade curricular, a formação docente em larga escala, a criação de ambientes institucionais controlados para o acesso às ferramentas — tudo isto aponta para uma abordagem que tenta colocar a pedagogia antes da tecnologia.
Mas a dimensão territorial da Argentina torna a equidade difícil. O que está a acontecer na Cidade de Buenos Aires — com os seus recursos, a sua infraestrutura e a sua capacidade de mobilização — não é o que está a acontecer numa escola de uma localidade remota de Salta ou do Chaco. A política nacional existe, mas a implementação é necessariamente desigual. E uma política educativa que beneficia quem já tinha mais é uma política que precisa de ser questionada.
A pergunta que um expert em educação levantou, com uma clareza que vale a pena recuperar, resume bem o dilema: “O agente diz-nos quantos alunos podem abandonar a escola — quando seguramente o professor já o sabia. Então, estamos a adquirir mais informação ou a construir uma grande infraestrutura para resolver algo que os professores já conheciam, quando o que falta é dar-lhes os instrumentos para o resolver?”
É uma boa pergunta. E o facto de ser feita em voz alta, dentro do próprio debate argentino, é um sinal de maturidade.
Para quem ensina: o que vale a pena reter
A experiência argentina não é uma receita — é um espelho. Um espelho que mostra o que acontece quando uma administração pública decide que a inteligência artificial é demasiado importante para ser deixada fora da escola, mas que também revela as tensões e as contradições que inevitavelmente emergem.
Para professores que observam este processo de longe — ou que estão eles próprios a navegar a mesma questão nas suas salas de aula —, há algumas ideias que parecem sólidas independentemente do contexto:
A IA que chega à escola sem orientação pedagógica não é neutra. Produz efeitos — no modo como os alunos constroem conhecimento, no modo como encaram o esforço, no modo como se relacionam com o erro. Esses efeitos podem ser positivos ou negativos, mas não serão nulos.
O papel do professor não se tornou menos importante com a IA. Tornou-se mais exigente. Porque agora não basta saber — é preciso saber ajudar os outros a pensar com e sobre as ferramentas que têm disponíveis.
E a brecha digital que mais importa não é a do acesso. É a da compreensão. Garantir que todos os alunos chegam à ferramenta é necessário — mas não suficiente. O que diferencia uma experiência educativa de uma experiência de consumo passivo de conteúdos gerados automaticamente é, sempre, o que acontece entre a ferramenta e o aluno: a mediação humana, crítica e intencional.
A Argentina está a aprender isto, de forma acelerada e em público. Vale a pena acompanhar o que vai saindo desta experiência.
Fontes:
Resnik, D. (10 de abril de 2026). Qué hay detrás del boom de la inteligencia artificial en la educación: ¿Riesgo o beneficio? Página 12. https://www.pagina12.com.ar/2026/04/10/que-hay-detras-del-boom-de-la-inteligencia-artificial-en-la-educacion-riesgo-o-beneficio/
Gobierno de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. (25 de fevereiro de 2026). Más de 300 mil alumnos de Inicial y Primaria comenzaron las clases: desde este año van a aprender sobre Inteligencia Artificial. https://buenosaires.gob.ar/gcaba_historico/noticias/mas-de-300-mil-alumnos-de-inicial-y-primaria-comenzaron-las-clases-desde
Gobierno de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. (2026). La Ciudad ya formó a más de 26.000 docentes en inteligencia artificial. https://buenosaires.gob.ar/gcaba_historico/noticias/la-ciudad-ya-formo-mas-de-26000-docentes-en-inteligencia-artificial
Argentinos por la Educación. (2025). Inteligencia Artificial en la Educación: desafíos y perspectivas. Buenos Aires.
Auroria. (4 de agosto de 2025). La inteligencia artificial ya es obligatoria en las escuelas argentinas: qué significa y cómo prepararse. https://www.auroria.com.ar/la-inteligencia-artificial-ya-es-obligatoria-en-las-escuelas-argentinas-que-significa-y-como-prepararse/
Infobae. (18 de janeiro de 2026). La inteligencia artificial preocupa a expertos por su efecto en estudiantes. https://www.infobae.com/educacion/2026/01/18/la-inteligencia-artificial-preocupa-a-expertos-por-su-efecto-en-estudiantes/
ProFuturo. (18 de fevereiro de 2026). IA educativa: riesgos reales para los sistemas más vulnerables. https://profuturo.education/observatorio/tendencias/ia-educativa-riegos-reales-para-los-sistemas-mas-vulnerables/
OCDE. (2026). Digital Education Outlook 2026. OECD Publishing. https://www.oecd.org


