O futuro da educação não se faz só com tecnologia

Quando se fala do futuro da educação, quase toda a conversa gira em torno da inteligência artificial. Mas será que estamos a olhar para onde realmente importa?

Ler na fonte | Por Paulette Delgado

Há uma espécie de consenso tácito nos congressos, nos relatórios internacionais e nos artigos de opinião sobre educação: o futuro passa pela tecnologia. Pela IA generativa, pelas plataformas adaptativas, pela automatização de tarefas pedagógicas. É difícil encontrar um evento sobre inovação educativa que não coloque estes temas no centro do palco. E, no entanto, há algo de profundamente incompleto nesta narrativa.

Paulette Delgado, especialista em tendências educativas no Observatório do Instituto para o Futuro da Educação (Tecnológico de Monterrey), publicou recentemente um artigo de opinião que coloca o dedo na ferida: estamos tão obcecados com as ferramentas que nos esquecemos de quem as vai usar. E esse esquecimento tem consequências sérias para quem ensina e para quem aprende.

As crianças que chegam hoje à escola já não são as mesmas

Comecemos por aquilo que poucos querem discutir abertamente. As crianças e os jovens que entram hoje numa sala de aula trazem consigo um perfil cognitivo e emocional diferente do de qualquer geração anterior. Não se trata de serem menos inteligentes — trata-se de terem crescido num ambiente radicalmente distinto, saturado de ecrãs, de estímulos instantâneos e de informação fragmentada.

Estudos publicados em revistas como a Nature indicam que a exposição prolongada a ecrãs durante a infância está associada a dificuldades na atenção sustentada, na compreensão de textos complexos e em tarefas que exigem esforço cognitivo prolongado (Masi et al., 2024). A capacidade média de concentração da chamada Geração Z ronda os oito segundos, contra os doze dos Millennials e os vinte e quatro da Geração X. Mesmo que os números exactos variem de estudo para estudo, a tendência é consistente: a atenção prolongada está em declínio.

E há um dado que deveria preocupar qualquer professor: muitas crianças estão a perder a capacidade de imaginar. Não no sentido poético — no sentido literal. A criação de imagens mentais, uma competência fundamental para a leitura, a criatividade e a resolução de problemas, está a ser substituída pelo consumo passivo de imagens em ecrãs. Delgado, com base na sua própria investigação de mestrado, sublinha que o uso excessivo de ecrãs na primeira infância compromete o desenvolvimento cognitivo, linguístico e socioemocional, sobretudo quando substitui experiências de jogo livre e de interação relacional.

A primeira infância: o ângulo morto do debate educativo

Um dos pontos mais pertinentes do artigo de Delgado prende-se com a invisibilidade da primeira infância no debate sobre inovação educativa. Fala-se muito de ensino secundário e superior, como se os alunos chegassem ao sistema num estado cognitivo neutro, prontos para serem moldados por plataformas e algoritmos.

Mas não é isso que acontece. Organismos como a UNICEF e a Associação Espanhola de Pediatria têm vindo a alertar para os efeitos da exposição precoce e prolongada a ecrãs nos processos de maturação cerebral. Redução da memória de trabalho, dificuldades na regulação emocional, défices de atenção — tudo isto antes mesmo de a criança entrar na escola primária.

Para quem trabalha em contexto escolar, esta realidade traduz-se em alunos que chegam às aulas com dificuldades em seguir instruções longas, em ler com profundidade e em tolerar a frustração — competências que a escola continua a pressupor, mas que cada vez menos crianças trazem de casa.

E os professores? Onde ficam nesta conversa?

Há uma promessa recorrente nos discursos sobre IA e educação: a tecnologia vai libertar os docentes das tarefas repetitivas para que se possam dedicar ao que é verdadeiramente humano. Soa bem. Mas a realidade quotidiana de quem ensina conta uma história diferente.

O papel do professor mudou de forma significativa nas últimas décadas. Já não se espera apenas que transmita conhecimento. Espera-se que seja mentor, mediador, guia emocional — muitas vezes tudo ao mesmo tempo e sem formação adequada para nenhuma dessas funções. A tecnologia, na maioria dos casos, não simplificou o trabalho docente: tornou-o mais complexo.

Ensinar as gerações Z e Alpha exige competências que vão muito além do domínio técnico: inteligência emocional, capacidade de desenhar experiências significativas, acompanhamento socioemocional constante. Como sublinha o Teacher Task Force, os benefícios da IA na educação dependem directamente do investimento nas instituições educativas e nos profissionais que nelas trabalham. Os docentes não são substituíveis porque o aprendizado é, na sua essência, um processo relacional.

E, no entanto, o bem-estar docente continua a ser tratado como uma preocupação marginal. Nas escolas, nos ministérios, nos congressos — discutem-se plataformas e ferramentas, mas raramente se pergunta: como estão os professores? Estão preparados? Estão apoiados? Estão bem?

O perigo do tecnosolucionismo

Delgado alerta para um risco que não é novo, mas que ganha urgência num momento em que a IA domina o debate educativo: o tecnosolucionismo. Ou seja, a crença de que os problemas da educação podem ser resolvidos, em grande medida, com ferramentas tecnológicas.

Esta perspectiva tem vários problemas. Em primeiro lugar, tende a reduzir o aprendizado a métricas — dados, desempenho, eficiência — esquecendo que aprender envolve emoções, erros, vínculos e contextos. Em segundo lugar, pode gerar culturas de vigilância e controlo que diminuem a autonomia dos alunos e afectam o seu bem-estar emocional. E em terceiro lugar, ignora um facto incómodo: muitas das tecnologias que estamos a integrar na educação são ainda muito recentes. O ChatGPT, por exemplo, foi lançado em novembro de 2022. As suas implicações a longo prazo, especialmente quando usado desde a infância, ainda não são conhecidas.

Apostar o futuro educativo exclusivamente em tecnologias cujo impacto profundo desconhecemos é, no mínimo, imprudente.

O que é que isto significa para a escola portuguesa?

A reflexão de Delgado nasce no contexto latino-americano, mas aplica-se inteiramente à realidade das escolas portuguesas. Também em Portugal assistimos ao declínio da atenção dos alunos, à dificuldade crescente em lidar com textos longos, à erosão da capacidade de concentração. Também os nossos professores enfrentam uma complexidade emocional e pedagógica para a qual nem sempre foram preparados.

E também em Portugal existe a tentação de olhar para a tecnologia como solução para tudo — desde a diferenciação pedagógica até à avaliação formativa, passando pela gestão administrativa. Nada disto é errado em si mesmo. O problema surge quando a tecnologia ocupa o centro do palco e empurra o ser humano para uma nota de rodapé.

Talvez valha a pena recuar um passo e fazer as perguntas que Delgado propõe: quem é o aluno que se senta hoje à nossa frente? Como está a sua atenção? A sua capacidade de imaginar? O seu pensamento crítico? E nós, enquanto professores — estamos bem? Estamos preparados? Estamos acompanhados?

Porque o futuro da educação não se joga em algoritmos nem em plataformas. Joga-se nas relações entre pessoas que pensam, sentem e aprendem em contextos concretos. E se não colocarmos o desenvolvimento humano — cognitivo, emocional, relacional — no centro desta conversa, estaremos a construir um futuro educativo sofisticado por fora, mas oco por dentro.


Referências

Delgado, P. (2026, 12 de fevereiro). Opinión: El futuro de la educación involucra más que tecnología. Observatorio del Instituto para el Futuro de la Educación. https://observatorio.tec.mx/opinion-el-futuro-de-la-educacion-involucra-mas-que-tecnologia/

Masi, A., et al. (2024). Screen time and developmental outcomes in children: A systematic review. Scientific Reports, 14, 63566. https://www.nature.com/articles/s41598-024-63566-y

Teacher Task Force. (2025). Promoting and protecting teacher agency. https://teachertaskforce.org/sites/default/files/2025-09/1149_25_Promoting%20and%20Protecting%20Teacher%20Agency_FINAL_3Sep.pdf

UNICEF Uruguay. (s.d.). Uso de la tecnología en la primera infancia: qué saber. https://www.unicef.org/uruguay/crianza/digital/uso-de-la-tecnologia-en-la-primera-infancia-que-saber

World Economic Forum. (2024, abril). Future of learning: How AI is revolutionizing Education 4.0. https://www.weforum.org/stories/2024/04/future-learning-ai-revolutionizing-education-4-0/

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