Se a inteligência artificial já está a reformular o modo como decidimos, trabalhamos e nos relacionamos, que papel devem assumir professores e alunos nesta mudança? Um relatório recente da Universidade de Elon, baseado nas respostas de centenas de especialistas mundiais, traça um retrato preocupante — mas também abre uma janela de oportunidade que a educação não pode desperdiçar.

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Em abril de 2026, o centro de investigação Imagining the Digital Future, da Universidade de Elon (EUA), publicou um extenso relatório intitulado Building a Human Resilience Infrastructure for the AI Age. O documento, da autoria de Janna Anderson e Lee Rainie, reúne as perspetivas de 386 especialistas mundiais — investigadores, analistas de políticas públicas, inovadores tecnológicos, académicos — sobre o que nos espera numa sociedade cada vez mais moldada pela IA. E a mensagem de fundo é clara: não basta adaptar-se individualmente; é preciso reinventar as instituições. A escola está no topo dessa lista.
Três números que deviam estar na sala de professores
Antes de mergulhar nas recomendações, vale a pena olhar para os dados do inquérito que sustenta o relatório (realizado entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026):
- 82 % dos especialistas consideram que a IA terá um papel significativamente mais amplo na vida quotidiana e nos grandes sistemas sociais dentro de dez anos ou menos.
- 56 % antecipam que, nessa altura, a IA influenciará, orientará ou controlará a maioria das atividades e decisões humanas.
- 45 % acreditam que os seres humanos demonstrarão pouca ou nenhuma resiliência perante essa escala de mudança.
Estes números não são futurismo de ficção científica. São estimativas informadas de pessoas que estudam, desenvolvem e regulam estas tecnologias. E a maior preocupação partilhada por quase todos eles é a mesma: a perda de agência humana — ou seja, a capacidade de avaliar opções, tomar decisões informadas e traçar o curso da própria vida.
A IA como “sistema operativo invisível” — e por que é que isso importa na escola
Vários dos especialistas consultados descrevem a IA como o “sistema operativo invisível da sociedade”. Já está embutida nos algoritmos que filtram notícias, nos sistemas de recrutamento, nos diagnósticos médicos, nas recomendações de crédito. E, como recorda a investigadora australiana Maria Randazzo, dentro destes sistemas algorítmicos as decisões são guiadas por regras de otimização inscritas nas infraestruturas tecnológicas, e não por princípios que os indivíduos escolham conscientemente para si mesmos.
Para a escola, esta constatação tem consequências muito concretas. Se os alunos não compreendem como funcionam estes sistemas — se não percebem que há lógicas, vieses e escolhas de design por detrás de cada recomendação que recebem —, tornam-se utilizadores passivos de uma tecnologia que os molda sem que se apercebam.
Um investigador anónimo de políticas tecnológicas descreve no relatório aquilo que já observa no terreno: distritos escolares nos Estados Unidos, desesperadamente carentes de financiamento, estão a aceitar propostas de grandes empresas tecnológicas para implementar produtos de IA ainda em fase experimental — desde o jardim de infância. Resultado? Uma geração inteira a crescer com IA não supervisionada e normalizada desde o primeiro dia de escola, sem que se tenha investido, em paralelo, numa literacia crítica à altura do desafio.
“Literacia existencial”: mais do que saber usar ferramentas
Há uma expressão que percorre todo o relatório e que vale a pena levar a sério: literacia existencial. Não se trata apenas de saber fazer um prompt ou de conhecer as limitações dos modelos de linguagem — embora isso também conte. Trata-se de algo mais fundo: a capacidade de compreender como as tecnologias moldam os nossos objetivos, valores e identidades.
Os especialistas consultados defendem que esta literacia deve cultivar, em todas as faixas etárias, competências como:
- Pensamento crítico aplicado: não aceitar reflexivamente aquilo que a IA devolve, mas avaliar, questionar e confrontar.
- Metacognição: pensar sobre o próprio pensamento — ter consciência de quando estamos a delegar decisões que nos competem.
- Tolerância à incerteza: resistir à ilusão de que a IA oferece respostas definitivas quando, na realidade, trabalha com probabilidades.
- Discernimento epistémico: distinguir entre um facto verificado e uma resposta gerada — por mais fluente e confiante que pareça.
- Inteligência emocional e social: as competências humanas que nenhum sistema automatizado consegue replicar com autenticidade — empatia, leitura de contexto, negociação de conflitos.
Stephan Humer, sociólogo da Internet e cientista da computação na Universidade Hochschule Fresenius (Berlim), resume a ideia numa fórmula clara: o que conta já não é tanto o conhecimento especializado, mas sim a competência para resolver tarefas — o problem-solving tem primazia sobre o saber enciclopédico.
O perigo silencioso: a complacência
Talvez o capítulo mais perturbador do relatório — e mais relevante para quem trabalha com jovens — seja o que se debruça sobre a complacência. Não é que a IA vá “tomar conta” da humanidade num cenário de filme distópico. O risco é outro, e mais prosaico: é que as pessoas entreguem voluntariamente as rédeas, seduzidas pela conveniência.
Maggie Jackson, autora galardoada de Distracted e Uncertain, aponta dados concretos: um estudo de 2025 do MIT demonstrou que a utilização de modelos de linguagem por estudantes resultava em textos homogéneos e medianos, que os próprios alunos não valorizavam nem recordavam. Utilizadores frequentes de IA tendiam a obter resultados mais baixos em testes de pensamento crítico. E pessoas que consultavam modelos sicofânticos sobre conflitos interpessoais tornavam-se menos dispostas a reparar relações, mais convictas de que tinham razão — e depositavam mais confiança no modelo do que mereciam.
Jackson faz uma observação que deveria estar num cartaz em todas as escolas: a resiliência nasce da capacidade de enfrentar os erros, os desvios e as frustrações da vida — e não de os evitar. Delegar tudo a uma IA que elimina a fricção é alimentar a ilusão de que a vida pode ser suave, fácil e previsível. E essa ilusão é precisamente o contrário de preparar alguém para o mundo real.
O que os especialistas pedem aos educadores
O relatório não se limita a diagnosticar problemas. Há um apelo direto ao sector da educação. Os especialistas recomendam que os educadores:
- Criem programas de literacia em todos os domínios relacionados com a IA, com destaque para a “literacia existencial” — não apenas competências técnicas, mas a compreensão profunda de como a tecnologia interfere com a nossa autonomia e identidade.
- Ensinem a navegar a incerteza e a ambiguidade, em vez de otimizar para respostas certas produzidas no menor tempo possível. Erhardt Graeff, professor associado de ciências sociais e computação no Olin College of Engineering, defende que escolas e locais de trabalho devem recompensar o raciocínio lento, a explicação e o desacordo — e não apenas a resposta correta produzida mais depressa.
- Reformulem a avaliação, partindo do pressuposto de que os alunos vão utilizar IA, em vez de construir todo o sistema em torno da tentativa de impedir essa utilização. Algumas universidades já estão a reintroduzir exames orais e provas escritas à mão.
- Fortaleçam competências genuinamente humanas — curiosidade, inteligência emocional, criatividade, colaboração, capacidade de ler contextos sociais, empatia.
- Invistam em tempo e formação para os próprios professores, que precisam de margem real para acompanhar o ritmo da mudança, repensar planificações e modos de avaliação. Alexandra Samuel, analista de tecnologia, sublinha que é preciso reestruturar o trabalho dos educadores para que tenham tempo de sustentar a sua compreensão da IA.
Ensinar a duvidar — sem deixar de aprender
Há uma passagem do relatório que merece destaque especial. David Weinberger, investigador e fellow no metaLAB e no Berkman Klein Center de Harvard, faz uma proposta aparentemente simples, mas com implicações profundas para a sala de aula: é preciso deixar de pensar nos modelos de linguagem como “máquinas de venda automática de respostas” e passar a encará-los como parceiros dialógicos — ferramentas com as quais se pode conversar, questionar, explorar caminhos — mas nunca aceitar cegamente.
Weinberger mostra-se até otimista quanto à educação das crianças neste domínio. Estes sistemas, diz ele, permitem fazer perguntas “estúpidas” sem constrangimento, insistir, aprofundar, mudar de caminho. Aprender a ter uma conversa aberta que persiga ideias onde quer que elas levem é uma competência humana fundamental. E as interações com um modelo de linguagem podem, paradoxalmente, ajudar a treiná-la — desde que se resista à tentação de aceitar a primeira resposta como verdade consumada.
A questão central é, portanto, de postura pedagógica: a IA pode ser um instrumento poderoso de aprendizagem, mas só se for utilizada com intencionalidade e espírito crítico — e nunca como atalho para evitar o esforço de pensar.
Uma janela de oportunidade — se agirmos agora
O tom geral do relatório não é catastrofista, embora seja urgente. Muitos dos especialistas acreditam que, se a transição for bem conduzida, a integração da IA poderá representar um salto evolutivo extraordinário para a humanidade — ampliando horizontes, resolvendo problemas antigos e criando formas inéditas de prosperidade.
Mas o “se” é decisivo. E a escola é um dos palcos onde esse “se” se joga todos os dias. Porque é na escola que se formam as disposições cognitivas, emocionais e éticas que determinam se uma geração inteira será agente da sua própria vida — ou passageira passiva de sistemas que não compreende.
Daniel Pimienta e Luis German Rodriguez Leal, dois especialistas em literacia digital e impacto sociotécnico, resumem o estado atual com uma franqueza que incomoda: os recursos pedagógicos excelentes existem, muitos são de acesso livre e gratuito. O que falta é vontade política para fazer da literacia digital uma norma pública e construir uma arquitetura educativa que a integre de forma convergente e eficaz.
A pergunta que nos fica — a cada professor, a cada diretor de agrupamento, a cada decisor político — é simples: vamos esperar que a mudança nos atropele, ou vamos preparar os nossos alunos para a conduzir?
Referências
Anderson, J. & Rainie, L. (2026). Building a human resilience infrastructure for the AI Age. Imagining the Digital Future Center, Elon University. https://imaginingthedigitalfuture.org

