Reflexão a propósito do episódio 10 do podcast “Consulta Pública”, da Antena 1 (8 de abril de 2026)
Está em todo o lado. Entra sem pedir licença. E já ninguém a consegue ignorar. Foi com esta urgência que a Antena 1 dedicou o décimo episódio do programa Consulta Pública a um dos maiores desafios da nossa época: a desinformação. Com uma hora e quarenta e dois minutos de debate, o programa reuniu sete especialistas para responder a três perguntas essenciais: como se propaga a desinformação, quem ganha com ela — e como se combate.
Um fenómeno que cresceu na sombra
A desinformação não é nova. Apesar de ser um fenómeno antigo, ganhou redobrada visibilidade nos últimos anos, sobretudo no rescaldo do referendo do Brexit e das eleições presidenciais americanas de 2016. Em Portugal, os fenómenos desinformativos têm ganho relevância crescente, estando a sua expressão comunicacional no centro da investigação do OberCom e de outros centros académicos.
Mas o que mudou? As tecnologias digitais — em particular a Inteligência Artificial — trouxeram uma nova sofisticação à desinformação, com capacidade de simular imagens, vozes e textos de forma cada vez mais convincente. O que era marginal tornou-se estrutural.
O que diz a investigação
Os números são difíceis de ignorar. De acordo com dados do observatório IBERIFIER, 97% dos portugueses afirmam ter detetado desinformação no último mês. Mais: 77,6% identificam a fraca qualidade do jornalismo como principal problema, e 72% declara ter deixado de confiar num meio de comunicação depois de nele ter detetado desinformação. Em contexto eleitoral, o LabCom analisou mais de 4.500 publicações nas redes sociais durante as Legislativas de 2025, concluindo que há um crescimento da desinformação na esfera pública digital, com os vídeos a liderar no formato desinformativo.
As vozes do debate: o que disse cada orador
Jorge Silva Carvalho — Consultor em Estratégia e Segurança
Silva Carvalho foi direto na identificação dos atores: “Os atores que promovem desinformação são potências estrangeiras, grupos terroristas ou grupos criminosos, empresas ao serviço de forças políticas, normalmente radicais.” Para este especialista, o combate tem de ser assumido como política pública: “O combate à desinformação deve ser uma prioridade nacional, com coordenação entre múltiplas entidades.” Defendeu também que os cidadãos precisam de desenvolver pensamento crítico para resistir à manipulação informacional.
Telmo Gonçalves — Vogal da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social)
O representante da ERC lamentou a ausência de uma estratégia coordenada: “Não há nenhuma entidade com a competência para combater a desinformação”, defendendo que “terá de haver uma estratégia de combate à desinformação, e que passa por várias medidas e por várias entidades.” A ERC estruturou a sua posição em torno de quatro pilares: prevenção através da literacia mediática, cooperação em rede entre autoridades e plataformas, monitorização contínua com apoio da academia, e contra-desinformação ativa pelos órgãos de comunicação social.
Alfredo Sousa de Jesus — Chefe do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal
Alfredo Sousa de Jesus sublinhou a dimensão coletiva e transnacional do problema: “O combate à desinformação é uma responsabilidade coletiva de entidades e da sociedade.” Destacou os mecanismos europeus em construção, incluindo o EDMO — Observatório Europeu de Media Digitais —, bem como a legislação europeia cada vez mais robusta para regular plataformas digitais e impor transparência nos algoritmos.
Maria Eduarda Borges — Advogada Sénior, Abreu Advogados (Direito Penal e Compliance)
A perspetiva jurídica ficou a cargo de Maria Eduarda Borges, que centrou a sua intervenção no conflito entre direitos fundamentais: a liberdade de expressão, por um lado, e o direito a uma informação rigorosa, completa e fidedigna, por outro. Alertou que este equilíbrio é especialmente difícil num ecossistema em que a produção e difusão de informação já não está restrita aos meios tradicionais. Do ponto de vista jurídico-penal, sublinhou que o ordenamento já dispõe de mecanismos de resposta: “A partir do momento em que, seja jornalista ou cidadão comum, são apresentadas afirmações como factos e estas ofendem terceiros, pode haver responsabilização jurídica.” A proteção da honra, imagem e reputação — através de ilícitos como difamação, injúria ou ofensa — constitui, segundo a especialista, uma ferramenta legal disponível que importa conhecer.
Literacia mediática: a vacina que falta dar
Se há uma palavra que atravessa todo o debate é literacia. Saber distinguir o que é verdade do que é falso. Saber identificar uma fonte fiável. Saber reconhecer os mecanismos de manipulação antes de os partilhar. É precisamente por isso que o IBERIFIER, na sua segunda fase (até 2026), reforçou a vertente da sensibilização e da formação cidadã, potenciando a literacia mediática junto de professores, jornalistas e grupos vulneráveis.
O desafio começa cedo. A desinformação é um fenómeno transversal, que afeta todas as faixas etárias. Mas é nas gerações mais jovens que a prevenção tem maior impacto, porque são elas que crescem imersas em ambientes digitais onde a informação e a desinformação coexistem sem fronteiras visíveis.
Para pensar (e partilhar)
Este episódio do Consulta Pública é, em si mesmo, um exercício de literacia. Reunir especialistas de diferentes áreas — segurança, regulação, direito, política europeia — para debater um tema complexo com honestidade e profundidade é exatamente o que precisamos de mais. Não respostas fáceis. Não soluções mágicas. Mas perguntas certas, feitas em voz alta.
Numa altura em que a normalização da desinformação marca o debate público em Portugal e na Europa, ouvir este episódio é um bom ponto de partida — seja para professores que querem trabalhar o tema com os seus alunos, seja para cidadãos que querem perceber melhor o ecossistema mediático em que vivem.
O podcast está disponível gratuitamente no site da RTP, Apple Podcasts, Spotify e RSS.
Publicado com base no episódio 10 do programa “Consulta Pública“, da Antena 1 / RTP, emitido a 8 de abril de 2026.
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