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Em fevereiro de 2026, foi publicada a segunda edição do International AI Safety Report, coordenado por Yoshua Bengio e redigido por mais de 100 especialistas independentes nomeados por mais de 30 países e organizações internacionais, incluindo a UE, a OCDE e as Nações Unidas. O relatório, com 220 páginas, avalia as capacidades atuais da inteligência artificial de uso geral (general-purpose AI), os riscos emergentes e as estratégias de gestão desses riscos.
Para quem trabalha em educação este documento merece uma leitura atenta. Não porque proponha políticas concretas para o setor educativo, mas porque traça um panorama rigoroso e fundamentado sobre o impacto da IA na sociedade, com implicações diretas para o trabalho que fazemos com alunos, professores e comunidades educativas.
Neste artigo, destaco os pontos mais relevantes do relatório para o contexto educativo.
Um crescimento rápido — e desigual
O relatório começa por constatar que as capacidades da IA progrediram significativamente desde a primeira edição (janeiro de 2025). Os sistemas mais avançados já resolvem problemas de nível de medalha de ouro nas Olimpíadas Internacionais de Matemática, escrevem código funcional e respondem a questões de nível de doutoramento em diversas áreas científicas. Há três anos, quando o ChatGPT foi lançado, nada disto era possível de forma fiável.
Ao mesmo tempo, as capacidades permanecem “irregulares” (jagged): os mesmos sistemas que resolvem problemas complexos falham em tarefas aparentemente simples, como contar objetos numa imagem ou recuperar de erros básicos em fluxos de trabalho mais longos.
A adoção é igualmente desigual. Estima-se que pelo menos 700 milhões de pessoas usem semanalmente sistemas de IA, com taxas de utilização superiores a 50% em países como os Emirados Árabes Unidos e Singapura, mas inferiores a 10% em grande parte de África, Ásia e América Latina. Nos EUA, a percentagem de trabalhadores que usam IA passou de 30%, em dezembro de 2024, para 46%, em meados de 2025 — uma difusão mais rápida do que a do computador pessoal ou da internet.
Pensamento crítico sob pressão
A secção do relatório sobre riscos para a autonomia humana (§2.3.2) é particularmente relevante para educadores. O documento identifica três dimensões em que a IA pode afetar a autonomia: a autenticidade (formação de crenças e valores), a agência (capacidade de agir de acordo com as próprias decisões) e a competência (capacidades cognitivas que sustentam ambas).
A delegação cognitiva e as suas consequências
O relatório documenta que a utilização rotineira de assistentes de IA para tarefas como escrita, resolução de problemas e pesquisa de informação pode levar àquilo que a literatura designa por cognitive offloading — a delegação de tarefas cognitivas a sistemas externos, com redução do envolvimento intelectual do utilizador.
As evidências são preocupantes. Um estudo clínico citado no relatório revelou que, após três meses de trabalho com apoio de IA, a capacidade de clínicos para detetar tumores sem assistência da IA diminuiu cerca de 6%. Outro estudo, com 666 participantes, encontrou uma associação forte entre a utilização intensa de ferramentas de IA e pontuações mais baixas em escalas de autoavaliação do pensamento crítico. No entanto, os autores ressalvam que a investigação nesta área é ainda incipiente.
O viés de automação
Outro fenómeno documentado é o automation bias — a tendência para confiar excessivamente nos resultados produzidos por sistemas automatizados, sem exercer escrutínio suficiente. Numa experiência aleatorizada com 2.784 participantes, verificou-se que os utilizadores eram menos propensos a corrigir sugestões erradas identificadas como provenientes de IA quando a correção exigia esforço adicional ou quando os utilizadores tinham atitudes mais favoráveis em relação à IA.
Este dado deveria fazer-nos parar e pensar. Se adultos formados e informados mostram esta tendência, o que acontece com alunos em fase de desenvolvimento das suas competências críticas?
IA e educação: o que o relatório diz diretamente
Embora o relatório não se centre na educação, faz-lhe referências explícitas em vários pontos:
- Os sistemas de IA estão a ser rapidamente adotados em áreas que vão desde o desenho curricular à avaliação dos alunos, transformando o processo educativo, ao mesmo tempo que a utilização generalizada pelos estudantes coloca desafios significativos à integridade e validade das avaliações académicas existentes.
- Em escolas, têm sido reportados casos de utilização de aplicações de nudify por alunos para criar e partilhar imagens pornográficas geradas por IA de colegas (maioritariamente do sexo feminino).
- A compreensão dos efeitos a longo prazo das interações humano-IA é especialmente relevante na educação, onde as interações precoces das crianças com sistemas de IA podem influenciar o modo como competências e hábitos fundamentais se desenvolvem ao longo do tempo.
Estas passagens sublinham uma tensão que conhecemos bem: a IA pode amplificar as oportunidades de aprendizagem, mas também pode, se mal enquadrada, comprometer o próprio desenvolvimento intelectual que a escola procura promover.
Literacia de IA como resposta — mas com cautelas
O relatório menciona a literacia de IA como uma das mitigações propostas para os riscos à autonomia humana, definindo-a como “a competência dos indivíduos para utilizar eficazmente ferramentas de IA de uma forma benéfica”. O documento refere que esta competência poderia ajudar os alunos a beneficiar da automação sem sacrificar o seu desenvolvimento intelectual.
Contudo, o próprio relatório é cauteloso: a utilidade destas abordagens depende fortemente do contexto e os impactos variam consoante a tarefa, a população de utilizadores e o cenário de implementação. Um desafio concreto é o facto de os utilizadores optarem por delegar tarefas à IA precisamente porque é conveniente — qualquer intervenção que os obrigue a realizar tarefas sem IA pode limitar os benefícios da sua utilização e ir contra os seus próprios incentivos.
Para a educação isto reforça a necessidade de uma abordagem pedagógica que não se limite a ensinar a “usar a IA”, mas que desenvolva o discernimento sobre quando e como usá-la — e, igualmente importante, quando não a usar.
Companheiros de IA: uma nova realidade a monitorizar
Um dos fenómenos emergentes destacados no relatório é o crescimento das AI companions — aplicações concebidas para interações emocionalmente envolventes com os utilizadores. Algumas destas aplicações contam já com dezenas de milhões de utilizadores.
As evidências sobre os seus efeitos psicológicos são mistas e encontram-se ainda em fase inicial. Alguns estudos associam o uso intenso de AI companions a um aumento de solidão e dependência emocional; outros encontram uma redução do sentimento de solidão. O relatório estima que cerca de 0,07% dos utilizadores semanais do ChatGPT apresentam sinais consistentes com crises agudas de saúde mental, o que corresponde a aproximadamente 490.000 pessoas por semana.
Para quem trabalha com crianças e jovens, estes dados exigem atenção redobrada. A dependência emocional de chatbots, combinada com as vulnerabilidades típicas da adolescência, constitui um risco que ainda não compreendemos plenamente.
O “dilema da evidência” e o papel das instituições educativas
Um conceito central do relatório é o dilema da evidência: agir cedo demais pode levar à implementação de intervenções ineficazes, mas esperar por dados conclusivos pode deixar a sociedade vulnerável a riscos potencialmente graves.
Este dilema aplica-se inteiramente ao contexto educativo. As escolas e as bibliotecas escolares não podem esperar que a investigação forneça todas as respostas antes de agir. Mas também não devem adotar ferramentas ou políticas sem reflexão crítica sobre os seus efeitos.
O relatório propõe uma abordagem de defesa em profundidade (defence-in-depth): não depender de uma única medida de segurança, mas articular múltiplas camadas de proteção. Para as escolas, isto pode significar combinar orientações claras de utilização, formação de professores, desenvolvimento da literacia de IA dos alunos, e monitorização contínua dos efeitos destas tecnologias no contexto escolar.
O mercado de trabalho em transformação
Embora não seja o foco principal deste artigo, vale a pena referir o que o relatório diz sobre o impacto no mercado de trabalho, pois tem implicações para a orientação vocacional e para a reflexão sobre o perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória.
O documento estima que cerca de 60% dos empregos em economias avançadas e 40% em economias emergentes estão expostos à IA. A evidência inicial mostra efeitos mistos: estudos nacionais na Dinamarca e nos EUA não encontraram relação entre exposição à IA e variações globais no emprego. Contudo, vários estudos detetam uma diminuição do emprego para trabalhadores em início de carreira nas profissões mais expostas à IA, enquanto o emprego de trabalhadores mais experientes nessas mesmas profissões se manteve estável ou cresceu.
Isto sugere que a IA não substitui simplesmente empregos — transforma-os, e de formas que afetam desproporcionalmente os mais jovens e os menos experientes. Para as escolas, a mensagem é dupla: é fundamental desenvolver competências que complementem a IA (pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas complexos) e é igualmente importante preparar os alunos para um mercado de trabalho em que a adaptabilidade será uma competência de sobrevivência.
Conclusão: um documento essencial para educadores
O International AI Safety Report 2026 não é um documento sobre educação. Mas é um documento para educadores. Oferece-nos uma base científica partilhada para compreender o que a IA já pode fazer, os riscos que comporta e as limitações das abordagens atuais de gestão desses riscos.
Para as bibliotecas escolares e para todos os que trabalham na promoção da leitura e das literacias, o relatório reforça a urgência de integrar a literacia de IA no trabalho quotidiano — não como uma disciplina técnica, mas como uma dimensão transversal do pensamento crítico, da cidadania digital e da autonomia intelectual dos alunos.
A IA não vai esperar que estejamos prontos. Mas, com informação rigorosa e reflexão partilhada, podemos estar melhor preparados para orientar os nossos alunos num mundo que estes sistemas estão a transformar rapidamente.
Referência:
Bengio, Y. (Coord.). (2026). International AI Safety Report 2026. UK Department for Science, Innovation and Technology (DSIT). https://internationalaisafetyreport.org/


